sexta-feira, 20 de junho de 2014

UM PAÍS CHAMADO "BAXI"


Cartaz no metrô de Pequim, mostrando uma família  torcendo na Copa do Mundo, emulando uma torcida para o  "Baxi"(ou Brasil em mandarim); note-se a camisa verde-amarela da moça atrás do cara de vermelho...
Diversas vezes, enquanto estive lá, na China, as pessoas me perguntavam de onde eu era. Quando eu respondia – “Brazil” – invariavelmente escutava logo em seguida: “World Cup?” ou “football?”. No aeroporto, em ônibus e no metrô, em Pequim e nas outras cidades que visitei, eram comuns cartazes e outdoors falando algo do Brasil por conta do mundial.
Houve só uma pessoa que se mostrou bem informada sobre nós: um jovem, na Praça Tiananamen, corretamente se referiu ao Brasil e comentou e sobre os protestos contra a copa. Mas foi só. Exceção, o rapazinho de Tiananmen parecia alguém que já tinha viajado um pouco por aí. Os outros não demostravam o mesmo conhecimento. Um colega, geólogo do serviço geológico, chegou a me perguntar se o Brasil ficava na África. Outra pessoa, em outra circunstância, também me perguntou o mesmo.
O que eu entendi é que os chineses não dão muita atenção pra gente. Não o chinês médio, é claro. Afinal, a China é e sempre foi, para eles, o centro do mundo. Antigamente, referiam-se à China antiga como  o império do centro, ou o império do meio. O meio do mundo. O umbigo é muito forte na concepção chinesa do mundo. O que fica de nós pra eles é uma vaga lembrança de um país que gosta de jogar futebol e, além disso, o país que está sediando a copa do mundo. Isso somos nós, para eles.
O exotismo de um país distante, tropical, onde as pessoas gostam de jogar futebol parece ser a ideia que os chineses, e também o resto do mundo, acabam tendo de nós. Claro que encontrei Croatas que zombaram dizendo que iam ganhar da gente (sorry!), ou austríacos comentando sobre nossas possibilidades no mundial, ou ainda argentinos secando a gente. Tudo isso é o mundo. Vivíamos de TPM (tensão pré-mundial).
Hoje somos um país meio casmurro e muito mal humorado, em que boa parte (e parte pensante) rejeita a Copa do Mundo. Rejeitamos mesmo a Copa do Mundo? Sim, é um festival de breguices, de lugares comuns, de historias de boleiros que só fazem sentido dentro das quatro linhas. Sem falar, é claro, dos superfaturamentos, das obras de mobilidade inacabadas e outros quetais. O que se percebe é que, talvez, nosso mau humor com a copa seja fazer com que as pessoas lá na China entendam que nós somos muito  mais que uns idiotas alegres de um país tropical que sabem muito bem cobrar um escanteio (menos eu, perna-de-pau que sou!).
Essa contradição entre o que somo s e como somos vistos, acho eu, fazem parte de nosso momento. Acho que temos que relaxar um pouco dessa postura mal humorada e entender que somos na verdade um pouco isso e um pouco aquilo. Um pouco aquilo que projetamos ser – o tal país “padrão FIFA” que emergiu das jornadas de junho – e um pouco o país que nos enxergam, os de fora: a terra de boleiros que deixou de ser vira-latas há mais de cinquenta anos atrás, com Pelé e Mané.

A propósito: para os chineses, somos o “Baxi”, o tal país que é tão bom nesse negócio de colocar uma bola no gol que eles nos copiam e nos emulam em seus comerciais e outdoors, como na figura acima. Nesta área, somos nós a potência que todos um dia gostariam de ser. Se seremos potência nas outras áreas, depende de nós mesmos, com ou sem mau humor...

domingo, 15 de junho de 2014

A VIDA SEM GOOGLE

Vendedora ambulante na entrada do Parque Olímpico em Beijing. O que ela está vendendo? O Google sabe responder? socorro!!
No inicio do ano, passamos 12 dias numa praia do Uruguai, Cabo Polônio, numa casa sem eletricidade e com água de poço. Foi uma grande experiência voltar a coisas de antes de mim mesmo, ao tempo dos meus pais e avós, numa mundo ainda sem o tal do conforto da vida moderna. Aprendi a valorizar essas coisas de economia de recursos, e conseguimos diminuir o consumo de água de nossa casa, por exemplo. Sou mais observador que era com coisas de deixar luz ligada sem necessidade. Minha avó ficaria orgulhosa de mim.
Agora, passei por outra experiência limite: nos quinze dias que passei na China, não pude usar nem Google, nem Gmail nem Facebook. “Dar um google” ou “google something”, como dizem os americanos, lá simplesmente não cola. Você acessa uma vez e depois o botãozinho fica girando, girando, girando e depois de uns quinze minutos diz que aquela pagina não pode ser acessada.
Fazer o quê? No meu caso foi ficar literalmente sem, pois os instrumentos de busca que tem por lá são em chinês. Como entender aquela algaravia de símbolos, que nos deixava atordoados desde o aeroporto até o hotel e depois nas ruas nas lojas? Foi uma experiência de me sentir completamente analfabeto, completamente estupido. Aliás, essa é a essência da experiência no estrangeiro: virar um completo idiota que não sabe comprar um pão na esquina, nem qual ônibus e trem vai pegar, que mal consegue dar um obrigado sem dar bandeira.
Qual a saída? Não há saída, a não ser o aeroporto. O Bing, se me perdoam os seus defensores (se há algum!) é uma pálida experiência. Digitar as páginas diretamente no , como se fazia antigamente, é uma saída. Até me lembrei de coisas de antigamente (dez anos atrás!) quando se fazia essas coisas sem buscar primeiro no “oráculo”.
Outra coisa que me ocorreu foi a nossa total dependência dessa coisa que se chama Google. Os chineses, ciosos da sua independência, trataram logo de dar um basta e criar uma base de busca na qual eles confiam e podem manipular.  Tanto chineses quanto o resto do mundo (é assim a divisão que os chineses fazem do mundo, aliás) estão expostos a este jogo onde nossa privacidade está circulando por aí livremente, pra ser usada contra nós por governos e empresas de marketing - não necessariamente nessa ordem. A exposição de nossas vidas, sentimentos e ideias nos dias de hoje é tão cotidiana e ao mesmo tempo absurda que as longínquas noções orwelianas do passado hoje são um mero entretenimento para milhões.

Não sei o que vai mudar, mas estou nesse momento dando outro valor as experiências de tentar viver um pouco mais fora dessa Roda-viva e tentar dar um sentido a vida que não seja essa exposição boba e narcisista que fazemos hoje nos espaços virtuais. A vida e o mundo são maiores que isso. Mas não podemos esquecer de seu poder e de sua abrangência. Acho que a vida sem Google me indica esse caminho, o qual eu não sei se vou conseguir trilhar, seja por preguiça de fazer outra coisa, seja pela mera necessidade de faze-la. O que inclusive já estou fazendo ao postar estas maltraçadas. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

MUTATIS MUTANDIS

(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)
Dentre os numerosos espécimes de cordados que temos analisado do ponto de vista da Paleontologia Imaginaria, o Mutatis mutandis é uma das mais interessantes pelos desdobramentos de seu estudo. Trata-se de uma espécie de peixes que vivia mudando de um ecótone para outro, com uma intensa atividade que durou praticamente todo o Fanerozóico. Segundo Granero (1968, 2014), essas mudanças eram eventos especiais, que envolviam diversas e distintas etapas de desenvolvimento, e envolviam quase todo o ambiente nos quais estavam inseridos, incluindo diversas outros espécimes.
O Mutatis sp mudava-se primeiramente guardando objetos e utensílios em compartimentos na forma de caixas e sacos, amontoando esses objetos ao redor de seu ninho. Era grande a quantidade de objetos descartados neste processo (Giulian & Granero, atas do congresso de paleontologia de Feira de Santana, 1999, pag 201-235). Estes autores calculam a quantidade de materiais descartados em 30% do total de objetos do Mutatis mutandi.
No transporte dos objetos, era requerida a presença de animais do gênero Descuidadus sp, sempre presentes em grandes quantidades nesses eventos. O Descuidadus colocava os objetos de qualquer jeito nos transportes, em geral quebrando espelhos, vasos caros, quebravam plantas, esqueciam porcas e parafusos, riscavam as paredes, trocavam caixas e outros comportamentos bem reconhecidos no registro paleontológico, aumentando o descarte de objetos ao fim da segunda fase da mudança (Luisão Mudanças et al., atas do congresso de paleontologia imaginaria de Apucarana, 1994, pag 307-428).
Muitos destes também se extinguem durante estes episódios de mudança dos mutatis mutandis. Estas situações de extinções em massa podem atingir escala mundial. Durante o transporte, verifica-se que numerosas outras espécimes também se mudam, como os canídeos Caidus caminhonis e muitos outros seres, como roedores, plantas e insetos. Hoje se acredita que a extinção em massa do fim do Cretáceo foi causada por uma mudança domiciliar na região de Chichxlub, no Iucatã. Essa problemática foi tratada, entre outros, por Manuel Joaquim, em seu trabalho seminal intitulado “o Mundo Gira e a Lusitana Roda”, (Éditions du Chémin, 1956).
Os modernos estudiosos do tema não têm duvidas sobre o papel do Mutatis mutandis nas grandes extinções em massa do registro paleontológico. Para Granero (1995) três episódios de mudança do mutatis mutandis equivalem a um incêndio de grandes proporções, destruindo praticamente todo o meio. Por outro lado, Luisão Mudanças (2013) pondera que mudanças de pequenas proporções também podem acarretar danos ambientais profundos, principalmente se estiver relacionado com o Descuidadus sp.
No entanto, a irregularidade do registro paleontológico em escala planetária não garante que estejamos, ainda hoje, imunes a tais catástrofes (Fink, 2008, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginária de Johanesburgo, p425-456). O mutatis mutandis deve ter sido extinto no final do Paleoceno, em meio à fase interglaciar Mindel (Fink, op. cit.). No entanto, alguns especialistas garantem que mais mudanças vêm por aí. Reservem muitas caixas de papelão, comprem uma boa fita adesiva e Salve-se quem puder.



sábado, 19 de abril de 2014

QUEM MATOU O PADRE PINTO?

O sacerdote antoninense Francisco da Costa Pinto (1865 - 1900)
Foi no dia 19 de abril de 1900 na cidade da Lapa. Lá pelas nove horas da noite daquele dia, o vigário da cidade, o padre Francisco da Costa Pinto, saiu da farmácia do Sr. Olympio Westphalen em direção a sua casa. Era escuro, fazia certo frio, mas a noite era agradável. Ao atravessar a Rua da Boa Vista na diagonal, o Padre Pinto ouviu alguém chamando: “Seu Padre, faça o favor”. Ao se voltar na direção da voz e se dirigir em direção ao homem, Padre Pinto ouviu um forte barulho e imediatamente sentiu um calor no peito. O homem que havia descarregado a arma contra ele era agora um vulto correndo para a escuridão do beco. Atraídos pelo barulho e pelo grito que o Padre soltou, os homens que ainda estavam dentro da farmácia saíram correndo e encontraram-no banhado em sangue, mas ainda vivo e em pé. “O que aconteceu?”, perguntou um.“Quem foi?”, perguntou outro a sua frente. O padre mal teve tempo de dizer que não sabia ao certo: era um mulato baixo e encorpado, vestindo um pala.  
Na confusão que se segue, o padre é levado para sua casa, e são chamados às pressas os doutores Mendes Ribeiro e João José de Carvalho.  Padre Pinto, no meio de toda confusão, ainda teve momentos de lucidez. Sem perder os sentidos, ainda disse perdoar seus inimigos, além de pediu perdão para si mesmo, pelo mal que houvesse cometido a alguém. O ferimento havia sido muito grande, além de grande a decorrente perda de sangue. Logo perdeu os sentidos e veio ser dado como morto, em laudo do Dr Evangelista, na madrugada do dia 20 de abril. Tinha 35 anos de idade.
A morte do Padre Pinto foi motivo de grande alvoroço. Sua forte atuação na Lapa, onde fez cerrada campanha contra a Maçonaria, foi motivo de grande polemica nos jornais da época. Politicamente, o padre estava contra o Coronel Joaquim Lacerda, um dos baluartes do partido Republicano Federal na Lapa e no Paraná. O Cel. Lacerda foi, junto com o General Carneiro, um dos chefes do contingente florianista que se bateu contra os maragatos de Gumercindo Saraiva na tomada da Lapa, na revolução federalista de 1893-94. A Lapa ainda vivia, naqueles tempos, o sabor amargo de uma cidade dividida numa guerra Civil. Contra tantos inimigos poderosos, não é de se estranhar a violência de sua morte.
Nascido em Antonina em 1865, o Padre Pinto foi desde cedo um brilhante aluno no Seminário Diocesano de São Paulo. O Seminário Diocesano, na segunda metade do século XIX, era um ativo centro de formação de quadros para o clero brasileiro.  Poeta inspirado, bom escritor, Padre Pinto era um espirito que adorava a discussão das idéias e a luta política. Escreveu muito para o jornal católico A Estrella, no qual combateu com vigor a Maçonaria. Orador vibrante, suas missas eram famosas em Curitiba, onde permaneceu logo após ter vindo do seminário, e na Lapa, onde foi nomeado vigário em 1898. Participou de algumas festas religiosas em Antonina e foi um dos oradores na inauguração do mercado municipal de Antonina, ao lado de Ermelino de Leão.

O assassinato do Padre Pinto nunca foi esclarecido. Seria muito esperar no Paraná daquela época a condenação dos assassinos de um inimigo político das forças situacionistas. No Paraná, a cicatrização das feridas da Revolução Federalista foi vital para a formação da classe politica até hoje dominante. A vida do Padre Pinto, suas lutas e sua morte, por outro lado, abrem uma interessante janela para se compreender aspectos interessantes da vida politica no Paraná e no Brasil daquele início de século.

sexta-feira, 21 de março de 2014

BELLINI E A PÁTRIA DE CHUTEIRAS


O Capitão, numa velha foto, envergando a camisa que só se veste por amor

Se existe Deus eu não sei, tenho lá minhas idéias a respeito. Deuses, no entanto, os há e muitos. Alguns desses deuses eu tive o privilégio de ver dentro de quatro linhas, como o grande Djalma Santos. Outros, como o grande capitão Bellini, eu só vi em velhas fotos e em filmes preto e branco. Sua imagem, levantando a Jules Rimet na Suécia  é uma das mais sacrossantas imagens da Pátria de chuteiras.
Hoje já não há pátria de chuteiras, está fora de moda a ideologia de Nelson Rodrigues, o grande demiurgo do brasileiro do século XX. Naquela época, o futebol era o que nos fazia sorrir, nos fazia sonhar ser grandes, nos fazia deixar de ser vira-latas. Hoje, mestre Nelson, é hora de mudar o disco, mudar o discurso, repaginar. Não precisamos nos enxergar no mundo com as lentes do canal 100.
Mas temos deuses das quatro linhas. Temos um país que corre atrás da bola em qualquer canto do Mundo, do gelo da Islândia aos mares do sul da China. Somos um povo que bate tiro de meta com bicão pra frente, que cobra lateral sem dar chance de reversão pro adversário e que bate escanteio direitinho (menos eu, grande perna-de-pau que sou), no primeiro ou no segundo pau. Somos, com muito orgulho, um país que cruza e vai pra área cabecear.
Hoje, as vésperas de mais um mundial no Brasil, perdemos nosso grande capitão, o homem que levantou a taça. Segundo ele mesmo, levantou a taça porque todos queriam ver. Certo, Capitão. Bellini foi dessa estirpe de boleiros épicos. Que compensava sua falta de técnica com muita garra, sem ser violento. Que dava bronca, quando era necessário, em colegas do porte de um Vavá, um Garrincha, um Pelé. Que liderava um time que tinha Didi no meio de campo e Nilton Santos na lateral. Definitivamente, não é pra qualquer mortal.
E nós atleticanos, ainda tivemos a alegria de ver o Capitão com a camisa que só se veste por amor. Não foram tempos muito bons pro nosso Furacão, mas tivemos deuses como Bellini, Djalma Santos e Brito nos fazendo companhia. Nosso querido Marcus Porvinha talvez se lembre de alguma história e queira nos contar sobre Bellini na Deitada-a-beira-do-mar, será que não?
Estamos meio ressabiados com a Copa. Estamos meio de saco cheio com tanta conversa mole de estádios inacabados, de dinheiro a rodo indo pra obras suspeitas. Sem paciência para a cartolagem, para a FIFA, para o governo e os empreiteiros (sempre eles!).  Definitivamente, este é um mundial sem Pátria de chuteiras. Ainda bem, é um bom sinal, somos um país mais maduro. O futebol já não é mais o ópio do brasileiro.
Isso não significa dizer que não vai ter Copa. Vai ter sim, e durante um apito e outro, nossas vidas só terão sentido dentro daquelas quatro linhas. Vamos gritar muito, vamos vibrar muito. Depois, quando se fecharem as cortinas e se encerrar o espetáculo, a história será bem outra. Queremos ver a conta dessa festa toda, e cadeia pra quem botou a mão no que não era seu. E vida pra frente, pois o futebol é só um jogo.

A imagem épica de Bellini levantando a taça para a Pátria de chuteiras é a imagem de um época ingênua e, quem sabe, feliz. Talvez você nos diga, Bellini, se é verdade que a felicidade só se encontra nas velhas fotos em preto e branco, envergando uma camisa rubro-negra?

quinta-feira, 20 de março de 2014

HISTORIAS DE MINHA CABEÇA

o personagem da cabeça voadora do filme "as aventuras do Barão de Munchausen", do Monty Pithon
Hoje na Austrália, ou seja, amanhã aqui (é isso mesmo?) meu filho surge do nada do facebook pra cobrar que eu escreva historias da minha cabeça no blog. Histórias de minha cabeça? Explico: quando eles eram crianças, e isso não faz muito tempo (entre dez e quinze anos atrás) eles viviam me pedindo pra contar historias na hora de dormir. No começo, eram umas historias mais tradicionais, aquelas que fazem parte do inconsciente coletivo: chapeuzinho vermelho, cinderela, Pedro e o Lobo, e outras quetais. Certas épocas tinha que ser exatamente a mesma história toda santa noite. Quem é pai sabe da manha.
Depois, eu tinha outras – tinha uns contos do Câmara Cascudo, umas historias do Pedro Malazarte e coisas do gênero. Depois, ainda contei umas que escutava quando criança que me contava meu tio Edilson Leal – parte câmara cascudo, pare folclore baiano e outras que ele mesmo inventava, e que nós - eu minhas irmãs e meus primos - adorávamos ouvir quando íamos pra casa dele nas férias.
Chegou um ponto, porem, que a fonte secou: como não secar?  Não dá, as sinapses são as mesmas, não tem jeito mais!  Aí eu um dia comecei a inventar historias, mas no dia seguinte eu não me lembrava. Qual? Aquela, da tua cabeça, me pediu um dia a Júlia.
Lembrei então de um filme do Monty Pithon, acho que foi “a Maravilhosa Historia do Barão de Munchhausen”, em que tinha um personagem que era só uma cabeça. Pronto. Contei a eles que a minha cabeça tinha se desprendido do corpo – eu sou meio avoado mesmo – e ficou andando por ai. Eles me olharam, desconfiados – o pai tá nos engrupindo. “Sim”, respondi, “vocês não queriam a história da minha cabeça?”. 
E assim foi. Um dia, minha cabeça chegava até a Lua, onde meu pai sempre dizia que ela estava mesmo. Noutro dia, meu crânio voador descia no fundo do oceano pra conversar com o Peixinho Vermelho, um Nemo do tempo antigo, personagem de meu querido Edilson Leal. No outro, estava na mão de gigantes que jogavam pingue pongue comigo. Teve alguns dias em que a cabeça sonhou que ela era só uma cabeça que sonhava que era uma cabeça que sonhava... ”Pai, deixa de enganar a gente e conta a historia!”, pediam Julia e Pedro, zangados com a embromação. Historia pra dormir não é pra amadores...
Agora, uma cobrança via facebook – porque você não conta a historia de sua cabeça? Bem que tentei responder: Porque tem o Departamento, tem os alunos, tem as aulas... ”queremos historia de sua cabeça!” continuaram me pedindo os dois, já bem marmanjinhos, no chat do tal do face.  E ai? Nem sei.  Achei que estava guardando historias de minha cabeça pra próxima geração que está vindo por aí. Nem sei se ainda tenho sinapses para tanto. Tem dias que eu só quero deitar no sofá e ficar ali parado, vendo as moscas voarem pra lá e pra cá, sem fazer nada, sem pensar, sem tugir nem mugir...

Julia e Pedro: não prometo nada. Minha cabeça vai pensar. Nos tempos que correm já é muita coisa.

terça-feira, 11 de março de 2014

A TRAGÉDIA FEZ TRÊS ANOS...E NÓS COM ISSO?

A destruição do bairro da Larangeira, em março/2011

Hoje, há três  anos atrás, a Deitada-a-beira-do-mar viveu uma das maiores catástrofes de sua história. Pra quem não se lembra, a chuva intensa daqueles dias gerou diversos escorregamentos de terra, que destruíram dezenas de casas, com dois óbitos, além de ameaçar o abastecimento de água na Pita e no Km 4. Foram dias de muito medo e apreensão. Lembro-me das pessoas apavoradas pelas ruas, me perguntando se era verdade que o Morro da Pedra ia desabar. Lembro-me das milhares de pessoas do Portinho e das Graciosas de cima e de baixo que tiveram que abandonar suas casas. Lembro-me das reuniões tensas nos Bombeiros e na Defesa Civil, em que se fazia o levantamento das áreas mais afetadas e das que ainda corriam risco de sofrerem com os escorregamentos. Foram dias realmente tensos.
Mas também me lembro do esforço que as pessoas fizeram, e que, no meio de toda a tragédia, nos fazem acreditar que as coisas podem ser melhores. Vi as dezenas de voluntários que cuidavam de fazer organizar e distribuir as cestas básicas aos desabrigados, dos funcionários da prefeitura fazendo o possível para minorar o sofrimento das pessoas, vi o pessoal do SAMAE lutando no Km 4 pra evitar que um grande escorregamento rompesse os canos da agua e colocasse em risco o abastecimento da cidade. Todos fizeram seu melhor, e a sensação que eu tinha andando pelas ruas embarreadas de minha terra que nós éramos um povo unido e solidário.
Acho que somos. Lembro que falei com diversas pessoas que aquilo significava não um fim, mas provavelmente um novo começo. Até escrevi alguns textos (AQUI)  (AQUI TAMBEM) sobre isso: a cidade estava tendo uma chance de se reinventar e começar de novo.
O tempo, que afinal é o senhor da razão, passou inexoravelmente sobre nós. Cada um nos seus afazeres, cada um com suas preocupações, e fomos deixando de lado as boas intenções do inicio. O mato cresceu vigorosamente nas cicatrizes dos escorregamentos, apagando-os de nossas vistas e de nossa memoria. Dá pra imaginar a quantidade de escorregamentos tão ou mais catastróficos aquele mato esconde? Eu contei pelo menos mais um, de idade desconhecida, na subida do morro da pedra. Na Serra da Prata, no Floresta, deu pra ver dois episódios grandes de escorregamento antes deste atual.
Eduardo Nascimento, nosso Bó, como sempre, foi à luta e conseguiu um começo: o Parque do Mirante. Ele tem que sair do papel. E os desabrigados? Como estão? Quanto mais o tempo passa, diminui nossa solidariedade, não estamos mais nem aí pra eles.
Três anos depois, Antonina fica mais distante da tragédia e mais perto de sua realidade: todos brigando com o tal do prefeito, que afinal de contas não é nenhum semideus, mas é quem foi eleito pra governar a cidade. Será que nenhum prefeito presta? Enquanto isso nos preparamos para eleger por mais um quatriênio o próximo prefeito,  que vamos certamente odiar. Será que só os prefeitos é que estão errados? Será que não exigimos deles coisas que poderíamos fazer?

 São só alguns pensamentos que me vem, à distância, quando penso na tragédia de 11 de março e nas oportunidades que deixamos passar. 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

URUBLUES, ANO 7

Estou vindo de uma série de viagens, que me custaram uma pequena dor nas costas de dormir em camas emprestadas ou em camas de hotel. Passei pouco tempo em casa, e pouco tempo ainda com os meus e com minha terrinha, que vi rapidinho num domingo ensolarado de janeiro. E que calor!! Pegamos temperaturas de quase 40°C em Porto Alegre, mais de 38°C em Campinas e outro tanto em Minas, de onde volto após 11 dias de trabalho de campo com os alunos (tive nesse meio tempo um prazerzinho extra em viajar pra Londrina pra formatura de minha querida filha Julia). Enfim, estive mais na estrada que em casa.
Agora chega. O semestre começa, e  2014 vem no estrondo, como uma imensa escola de samba iniciando seu desfile na avenida. O tempo passa veloz, e nossa compreensão das coisas fica como se a gente estivesse sempre com vertigem, nosso tempo passa sempre mais veloz do que nossa capacidade de compreendê-lo. O que será do nosso primeiro semestre, espremido entre o Carnaval e a Copa? O que será da Copa e do Brasil durante e depois dela? E das eleições? E do mundo? O que diremos do mundo e das coisas em dezembro?
São sete anos de blog. Sete anos muito bons, onde conheci muitas pessoas, principalmente na minha terra, de onde sai tão cedo. Aprendi muito. Briguei, como tantos. Me decepcionei? Talvez um pouco. Me cansei? Sim, também. Mas nesse ultimo ano tão pobre de postagens o trabalho me consumiu de uma forma mais intensa, de modo que a energia das postagens ficou um pouco baixa. E outros projetos pessoais também me tiraram um pouco do foco do blog.
Mas vamos lá. 2014 está caminhando nas escolas, nas ruas, campos, construções, ainda sob o efeito dos terremotos do ano passado. O Brasil de 2013 foi um país estranho, onde as convicções mais sólidas se desmanchavam no ar, segundo a sempre instigante metáfora daquele velho alemão barbudo. O mundo está na rua e também está na rede. Guerras diferentes das tradicionais, guerras de hackers em espaços virtuais, parafraseando a bela canção do velho Gil. O mundo está estranho e esquisito.
Brasil, Venezuela, Egito, Turquia, Ucrânia – o mundo está nas ruas, rugindo insatisfeito. Não existem bonzinhos e mocinhos, vilões ou heróis. Você faz os seus. Existem interesses, e além destes, as pessoas estão brigando cada vez mais pelos chamados interesses difusos: democracia, tolerância, direitos humanos. Não se pode mais, como o Tzar fez há cem anos, metralhar uma passeata em que o povo pedia liberdade e passar impune. O presidente da Ucrânia caiu, Kadhafi caiu, nosso bom Alckmin aqui em nossas bandas teve que recuar e mudar seu raivoso discurso de maio do ano passado, quando mandou sentar o pau nos estudantes do passe livre.

Onde ficamos nessa historia toda? Não sei. Quem sabe?

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A VIDA COMO ELA É

Fossil Fish, eating a smaller Fish, Eocene Period, Mioplosus labracoides, Green River Formation, Wyoming, USA

A gente sempre acha que descobriu a pólvora, que sabe um pouco mais porque está vivo hoje aqui e agora...mas a verdade é o que os registros fossilíferos nos mostram... Há 60 milhões de anos ou hoje, não importa, a vida é a vida.
A filosofia barata é minha, mas a foto eu tirei daqui

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

FELIZ ANIVERSÁRIO!!


É cedo. Alguns passarinhos e passarões já estão acordados, fazendo um grande dum barulho aqui no parque ao lado. Vejo clarões na janela, o desgraçado do celular toca, e eu tenho algumas tarefas a fazer antes de café da manhã. Tarefas administrativas, mandar e-mails, convocar gente, essas coisas que se fazem quando você vira gente grande. Ando tão ocupado que nem escrever no blog, uma de minhas cachaças prediletas eu consigo. Coisas do mundo.
Ligo o computador, ainda nem amanhece, e meu filho aparece no Skype pra conversar. Pra ele, na Austrália, a quarta feira já terminou. Pergunto como vai ser a quarta, ele que já viu tudo. Céu azul, calor. Bom pra ele. Aqui está nublado, com cara de chuva o dia todo. Pelo menos já mandei meus e-mails administrativos e posso tomar meu café.
Enquanto isso, realizo que hoje é o aniversário de nossa querida Deitada-a-beira-do-mar. Foi nesse dia, há 216 anos atrás, que foi lida a ata que nos emancipava politicamente. Segundo o sempre bem-vindo Ermelino, com mostras de grande contentamento popular. Podíamos eleger câmara, fazer o pelourinho (ora se viu? Essa parte podia ter passado), e ser donos de nosso nariz. Não é pouco ser vila no Brasil do grande império Luso-Brasileiro.
E nesse dia desapareceu a Freguesia de N.S. do Pilar da Graciosa. Surgiu a nova Vila Antonina, que os tempos acabariam por transformar em Antonina só. Antonina só?
No final do século XX, no período de grande decadência econômica da cidade, muitos se voltaram ao passado em busca de respostas para o presente tão ruim. E não gostaram do nome da cidade, não gostaram de nosso infante patrono, o breve príncipe Dom Antonio, não gostaram de nada. Quem gosta de algo se está amargando tempos difíceis?
Buscou-se outras datas, supostamente mais importantes, para ofuscar aquele velho 6 de novembro. Só duzentos anos? Queremos ter trezentos, quatrocentos, mil anos (!), pra ter certeza de que, com muitos anos, somos importantes. Somos alguma coisa.
Antonina foi uma cidade muito importante no século XIX e no começo do século XX. Foi berço de inúmeras pessoas ilustres, como o cônego Manoel Vicente, o combativo jornalista Nestor e Castro e o poeta popular Bento Cego. Cito essas, entre tantas outras.
Depois, fomos ficando a margem dos caminhos, a margem da economia e a margem da historia. Não é fácil sentir-se assim. Assim como Goiás Velho, Paraty, São Luiz do Paraitinga, a Deitada-a-beira-do-mar é hoje um lugar à margem. Mas é aí, junto com essas outras perolas do passado brasileiro que está nossa glória.
A antiga Freguesia de N.S. do Pilar quer seu quinhão. Foi agraciada, não sem mérito, no PAC das cidades históricas, teve seu centro tombado. Agora, trata-se de recuperar seu passado, sua história, da qual nos orgulhamos mas não conhecemos bem. O 6 de novembro foi só o começo. Hoje, queremos muito mais. Queremos Antonina por inteiro, cidade, memória e história, para todos os que, nascidos entre o Rio Sapitanduva e a Ilha de Guamiranga ou não, amamos de paixão esse pequeno pedaço do planeta.
Feliz aniversário, Capela!!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

DJALMA SANTOS (1929-2013)

Djalma Santos desfilando em carro aberto na Deitada-a-beira-do-mar, 1970. (copiei daqui)

Ontem, ao fecharem-se os olhos dos jornais, me vi entristecido e mais pobre. Morreu Djalma Santos, craque da seleção brasileira e também do meu Furacão. Lembro-me de ter visto Djalma Santos jogar, no portentoso estádio do 29, na Deitada-a-beira-do-mar. Eram memórias nebulosas, de infância, de quando eu ainda era lobinho e estávamos os escoteiros fazendo a “segurança” do jogo. O que a gente podia fazer com aqueles bastões pra conter a multidão? Certamente nada, mas dava uma sensação de poder imensa.
Lembro vagamente de que eu e mais alguns lobinhos demos um buquê de flores ao craque, que nos cumprimentou a todos. Meu pai, ao lado, conseguiu um autografo num papel com o timbre do Atlético (esse autografo sumiu, procuramos eu e meu pai durante muito tempo e nada...). Lembranças vagas e esparsas.
Hoje, através do blog do Porvinha (aqui), grande divulgador do futebol na terra de Valle Porto (e de Bino, o “Gato Selvagem”, o maior goleiro paranaense de todos os tempos), vemos ressurgir, frescas, do passado, tais notícias. Pelo seu blog, aprendemos um pouco mais do que aquelas sensações de menino. Tratava-se de um jogo amistoso entre o 29 de Maio e o Água Verde, onde estava Djalma Santos. Terminou num pragmático zero a zero, e teve muita cervejada e caranguejada depois, como seria de se esperar.
Era certamente uma Antonina muito diferente e um futebol muito diferente do de hoje. Tal jogo, terminando com uma caranguejada, seria hoje praticamente impossível. E a foto do blog do Porvinha, acima, mostrando o craque desfilando num calhambeque pela avenida Dr. Carlos Gomes da Costa, a Avenida do Samba. À direita, uma porção de escoteiros cercando o carro. Posso até ver a cabeça de seu Dodô lá atrás (saudade!).
Djalma Santos e Bellini foram jogadores míticos, os galácticos que espantaram nosso estigma de vira-latas e nos trouxeram, de maneira magistral, nossos primeiros títulos mundiais. Os dois, Djalma e Bellini, foram alguns dos responsáveis pelo titulo do Atlético de 1970. Foi muita felicidade, que até hoje sinto entre uma dor no ciático e outra. Depois, passamos doze anos de calvário. Era duro ser atleticano naquela época, ainda mais que hoje, meninos. Acreditem.

Saímos do inferno da segundona no ano passado após grande saga (aqui) e estamos agora penando no caminho de volta (mas sem volta!) pras terras do Sem-chinelo. Sai pra lá, Bode Preto! Vejo as imagens de Djalma Santos, forte e suave nas páginas dos jornais e na internet. Foi-se. Sua ausência é o vazio de um mito que cruzou, no passado e por um breve momento, a minha vida pacata. E sinto saudades do tempo em eu era menino e via Deuses à minha volta.  

terça-feira, 9 de julho de 2013

AO PATRIÓTICO POVO DE ANTONINA!

(segue a plataforma de Ermelino de Leão em sua campanha a prefeitura municipal de Antonina em 1912)

Ermelino de Leão (1871 - 1932) em sua Biblioteca na Deitada-a-beira-do-mar
[continuação]


Apelarei para a boa vontade dos antoninenses, esperando que cada um dos habitantes deste município seja um colaborador do seu governo, auxiliando-o na execução fiel das posturas, cujo império deve ser igual para todos.

Apelarei para as classes laboriosas para os pequenos, para os operários, para o commércio, para a indústria, pedindo-lhes o concurso de seu apoio, afim de levar a efeito uma obra de ressurgimento, si não me faltar a boa vontade da população e os recursos necessários.

Sei que outros ilustres correligionários, dignos de nosso apoio e que mereceram minha previa indicação, poderiam dar mais brilhante desempenho às funções prefeituraes: si obedeci ao apello dos meus amigos e correligionários, tive em vista desígnios superiores da PAZ, do CIVISMO  e da LEALDADE.

Conto que não me faltará, sendo eleito, com a boa vontade da patriótica administração do estado, e do ilustre patrício que, ora, com brilho, ocupa a suprema magistratura do Paraná.

Si o pronunciamento das urnas sanccionar a indicação dos meus correligionários a amigos posso assegurar aos habitantes deste município que serei obscuro, mas sincero defensor dos interesses collectivos, procurando fazer da administração um culto de civismo, e guiando os meus passos no caminho da ordem e da moralidade para os grandes ideaes que conduzem à Perfectibilidade Humana.

Com o penhor do meu compromisso que ora assumo, entrego aos meus patrícios o passado de dedicação e sacrifício pelo Paraná, esperando, confiante, o pleito livre de 20 de junho proximo vindouro.


Antonina, 16 de maio de 1912



Ermelino Agostinho de Leão. 

domingo, 7 de julho de 2013

VOTE CERTO, VOTE DIREITO: ERMELINO PRA PREFEITO!!

 (por um desses acasos da vida, topei com um pequeno livrinho em que o Dr Ermelino de Leão mostrava "Ao Patriótico Povo de Antonina" seu programa de governo. Ermelino foi candidato a prefeito pelo Partido Republicano Paranaense ao cargo de Prefeito Municipal em 1912. Vejam as diferenças e semelhanças com hoje, 101 anos depois. Conservei a ortografia original) 


Ermelino Agostinho de Leão
(1871 - 1932)
AO POVO ANTONINENSE

Indicado por meus amigos e correligionários para o cargo de Prefeito Municipal, não declinei da distincção de tão iniludível prova de confiança, unicamente pelo intenso desejo de prestar a terra em que resido e a qual me acho vinculado por inquebrantáveis elos, os serviços que de mim, os meus patrícios, tem o direito de exigir.

Assim procedendo, não me deixei inspirar nos sentimentos subalternos da ambição, nem seduzir pelos encantos enganadores do poder: obedeci a norma, que me tem norteado a vida publica, de jamais recusar o contributo de minha dedicação, em qualquer esfera que ella possa resultar de utilidade, ao Paraná.

Não levarei para a administração municipal, caso o pronunciamento das urnas me invistam da função publica, outro programa que não synthetize a simples contextura desta sentença: o meu programa consiste no cumprimento do dever.
Cumprirei, pois, o meu dever, quando eleito, continuando a ser um advogado dos altos interesses do município, procurando impulsionar o seu progresso e contribui para o aproveitamento das riquezas que seu abençoado solo tem acumulado, sem outra preoccupação que não a não ser da utilidade publica e a do bem-estar da população.

Na ordem politica, cumprirei o meu dever conjugando a minha acção com a dos altos poderes do Estado, procurando fazer da Prefeitura um auxiliar eficaz ao patriótico governo do paraná, dentro do município, quer prestando todo apoio as medidas administrativas quer provendo, sem transgredir a esfera da autonomia a harmonia dos poderes, que considero uma das grandes virtudes de nosso regimen politico.  

Cumprindo o meu dever, prestarei ao Partido Republicano Paranaense desta localidade que levantou minha candidatura, os serviços compatíveis com a boa administração e que a lealdade politica me impõe.

Como exator do dever, eleito, empenhar-me-hei para implantar a tranquilidade e a harmonia tão necessárias ao desenvolvimento da nossa sociedade, tornando a justiça uma aliada da administracção.

Estas, as linhas do meu programa politico que visa a Concórdia, como elemento da ordem e para os fins do progresso.

Na ordem administrativa, não prometo o revolver de um vasto plano de reformas que exceda as possibilidades de nosso município: terei, quando eleito, a preocupação de conservar, melhorando, propugnando pelos legítimmos interesses das classes menos favorecidas, que são as que mais reclamam a intervenção e o auxilio dos governos.

Cumprirei meu dever, zelando pela boa aplicação das rendas municipaes, adoptando o regimen de larga publicidade dos actos da prefeitura, de modo a permitir a mais severa fiscalização do público a todas as suas resoluções.

Tentarei reduzir as despesas às proporções da receita, mantendo o equilíbrio financeiro que assegure credito e a boa fama que o município preza.

Cumprirei meu dever, cuidando das vias publicas e o calçamento gradual de parte da cidade, que está reclamando este urgente melhoramento.

Cumprirei meu dever, propugnando pela difusão do ensino, estabelecendo um combate pertinaz ao analfabetismo e estimulando o professorado municipal ou estadoal, por um conjunto de medidas que concorram para elevar a frequência das escolas deste município.

Em desempenho ao dever, sendo eleito, procurarei regularizar os serviços de assistência aos necessitados e de hygiene, impedindo que sejam creados focos de infecção, atendendo ao problema de alimentação publica e concorrendo para que as condições favoráveis de salubridade do município se tornem coletivas e sólidas.
Procurarei estudar o problema da habitação proletária, investigando os meios de proporcionar aos nossos operários casas hygienicas e baratas.

Não circunscreverei minha acção aos estreitos limites do quadro urbano: tratarei dos interesses da lavoura , procurando adoptar uma politica econômica que tenda a desenvolver os diversos ramos de cultura agrícola, lançando, em bases scientificas, a polycultura que, felizmente, é um dos característicos da agricultura antoninense. Com taes intuitos, pedirei, quando elevado a prefeitura, o apoio decisivo dos altos poderes do Estado e da República, de modo a banir a rotina e proporcionar aos lavradores novos processos que assegurem maior compensação ao trabalho.  


Si os votos livres do povo de Antonina me considerarem digno de gerir os destinos do município, não me descuidarei de impetrar do governo da união medidas que concorram para melhorar as condições de nosso porto, batalhando, com tenacidade, para que vejamos satisfeita essa legitima aspiração de que todos nutrimos; e, bem assim, continuando a pugnar pela justiça no regimen tarifário e pela reabertura da estrada da graciosa. Não só prometo aos patrícios mais que o cumprimento do dever: serei um simples intérprete dos desejos da população de Antonina, um sincero advogado de seus interesses, um fiel exator das leis municipaes.

[continua]

sábado, 6 de julho de 2013

ALEGRIA E TRISTEZA DE PAI


Hoje estou alegre e estou triste. Meu filho Pedro está neste momento em algum lugar a 11 mil metros de altura entre Santiago do Chile e Sidney, na Austrália, para onde está indo passar um ano pelo programa Ciência sem Fronteiras. Sinto alegria por ele pela oportunidade que está tendo de, ainda na graduação, passar por uma experiência de conviver com outras experiências universitárias, outras culturas.

Por outro, a tristeza de saber que nos próximos 360 dias não o terei por perto. A angústia de pai, de saber como ele vai estar se virando por lá, literalmente do outro lado do mundo. É assim que é.  Eu o ensinei – espero ter ensinado realmente – a ser responsável e decidir seus rumos. Agora, o passarinho saiu do ninho e está voando pra longe, bem longe. Sei que está tudo bem, mas mesmo assim meu coração bate mais forte.


Boa viagem, guri.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

PLANETA RAIVA

As manifestações na avenida Moraes Sales, em Campinas (copiei aqui)
Foi a diva Elza Soares quem contou: ela estava no programa de calouros de Ari Barroso, lá pelos anos 50. O radialista, olhando para a menininha de seus 15 anos, adolescente magrinha e vinda do subúrbio, quis tirar uma onda de sua estranha figura e perguntou: “Menina, de qual planeta você veio?” a resposta da diva foi divina: “Do Planeta Fome, seu Ari”. Uma sensação estranha me passou pela cabeça: hoje, no Brasil, vivemos no Planeta Raiva.
Estive na primeira manifestação aqui em Campinas. Andei pelas avenidas centrais: Francisco Glicério – equivalente à Marechal Deodoro em Curitiba, larga e cheia de lojas e bancos. Muita gente, muitos cartazes, todo o tipo de proposta. Quando cheguei perto da Prefeitura, que tinha virado uma praça de guerra comecei a olhar os tipos que lá estavam. Tinha de tudo. Mauricinho, descolado, skatista, mano. Mas estes, os manos, junto com os skatistas, eram os mais ativos. Tacavam pedra na policia, que devolvia com bombas de gás. Os vidros dos pontos de ônibus na rua estavam estilhaçados, os vidros da própria prefeitura estavam quebrados, latas de lixo reviradas e pegando fogo.
Via-se aqui e ali pelotões do choque, de escudos e lança-bombas. Os manifestantes investiam contra eles com paus e pedras, e eles devolviam com bombas, cassetetes e – não vi, mas um aluno nosso acabou levando um tiro – balas de borracha.
A parte classe média das manifestações não me interessa. Pediam coisas que meu avô udenista assinaria embaixo, nenhuma relevante. Sem mudar o sistema de poder, não há o que fazer em termos de moralidade, pois o capital não tem moral. Qual a moral de um punhado de notas de 50 ou 100 reais? Que culpas morais tem um punhado de dólares num paraíso fiscal?
O que me interessou foram os meninos, os tais dos vândalos que a imprensa, nunca tão burguesa como agora, resolveu assim chamar. É fácil chamá-los de vândalos, de bandidos, botar a policia em cima. Estes dias a policia carioca invadiu uma favela e matou dez dos “vândalos’. Ninguém vai notar a diferença, e todos vão ficar mais aliviados, certo?
Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém chama de violentas as margens que o comprimem”. Essa frase do dramaturgo Bertold Brecht nunca me pareceu tão verdadeira. No subúrbio, na favela, ninguém nunca chega de mansinho: o Estado chega atirando, e não é com balas de borracha. A vida dos manos é a vida contada nos raps, onde denunciam a dor e a violência que os cerca. Alguém imagina que uma pessoa vivendo num mundo assim vai pruma manifestação distribuir flores ou beijos?
Que fique bem claro: não sou uma pessoa violenta, nem estou pregando a violência. O que estou dizendo é que esta violência dos “vândalos” precisa ser tratada, precisa ser entendida. Cinco séculos de escravidão e opressão estão por trás destes quebra-quebras. Empregar a policia é só mais do mesmo. E vamos perder a chance de realmente integrar estas pessoas na nossa sociedade como pessoas, coisa que nossas elites e nossa classe média em absoluto não entendem.
Bóris Schnaidermann, escritor e ensaísta, foi também pracinha expedicionário na Segunda Guerra Mundial. Em seu livro “Guerra em Surdina”, onde conta sua experiência, nos diz dos soldados comuns, do nosso “povão”, que enfrentaram com um misto de medo e bravura o frio europeu e a guerra moderna. Na volta ao Brasil, Schnaidermann nos conta que viu, em pouco tempo, os seus bravos camaradas de guerra desaparecer no meio da massa, invisíveis. E pergunta, atônito: “onde estão vocês?

Estas manifestações foram somente a ponta do iceberg. A grande massa sequer se mexeu, só mostrou seus dentes. Quando ela se mexer de verdade, não adiantarão cem edições especiais de Veja pra contar a história.  

(PRA QUEM QUISER LER MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO DE GENTE MAIS BEM PREPARADA QUE ESTE HUMILDE BLOGUEIRO, CLIQUE AQUI )

quarta-feira, 12 de junho de 2013

FOTO AÉREA DE 1952!!


Assim era a Deitada-a-beira-do-mar em 1952, ou seja, há 61 anos atrás...
Por um lado, pode se ver a intensa atividade comercial, com navios no trapiche, no Matarazzo e diversos atracadouros ainda funcionando. por outro, vejam o canal que passa na frente da cidade e que tem uma cor mais escura. É muito diferente do canal que vemos hoje, com cores mais claras, mostrando uma quantidade maior de sedimento em suspensão, ou seja, mais material para assorear a baía mais bonita do mundo. Impactos da Capivari-Cachoeira, que foi inaugurada nos anos 70 como um inequívoco sinal de progresso para a terra de Tube e Valle Porto. 
Observe-se que o Batel ainda não estava formado direito, as casas estavam todas ao longo da avenida. O Tucunduva ainda menos, assim como o Portinho e as Graciosas. 
Como um bom contraponto ao dias atuais, o morro era mais devastado antes - veja-se o Bom Brinquedo e o Morro do Salgado, que tinham menos vegetação que hoje. Se o progresso tivesse continuado, a cidade hoje talvez teria muito menos verde e muito mais áreas de risco a escorregamentos. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

ANTONINA NA FINLÂNDIA


Na semana passada, mais exatamente na última quinta-feira, minha colega Luci Hidalgo Nunes, professora aqui do IG-UNICAMP, apresentou em Helsinque  na Finlândia, na 7ª Conferencia Europeia sobre Tempestades Extremas, um trabalho nosso tentando entender o que aconteceu na Deitada-a-beira-do-mar naquela semana de março de 2011, que tanto desassossego nos trouxe. Ainda não temos muita ideia, mas ela, que é uma das climatólogas mais respeitadas deste país, acha que podemos descobrir porque choveu tanto naqueles dias. 
Lá no encontro, que é um dos maiores eventos mundiais sobre tempestades extremas, muitos cobrões da meteorologia mundial  ficaram assustados, segundo Luci me contou, com a quantidade de água que caiu, muito altos para qualquer padrão mundial que se veja. Os resultados da pesquisa que estamos iniciando podem servir, no futuro, para que os meteorologistas consigam detectar estes movimentos da atmosfera a tempo, para poder avisar a Defesa Civil e fazer com que a população consiga se prevenir e diminuir a vulnerabilidade a estes eventos extremos. 
a Ciência a serviço da Capela...

(O único senão é que eu não consegui ir pra Finlândia e fazer com antecipação meu pedido pra Papai Noel; mas não hão de faltar oportunidades...)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

CHAPÉU DO FEITICEIRO

As nuvens no alto do Morro do Feiticeiro, na tarde preguiçosa da segunda feira passada; vistO de cima, bonito igual!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

AMOR, BELEZA, INSPIRAÇÃO

A baía mais bonita do mundo, vista do céu na tarde preguiçosa da última segunda -feira....

Passei um domingo preguiçoso na Deitada-a-beira-do-mar, em companhia de meus familiares. No finalzinho da tarde, quando os bares fecham e os trabalhadores dão sua sagrada e necessária  sonequinha de domingo, resolvi dar uma voltinha pela minha cidade natal.
Vi que o mato já está cobrindo grande parte das cicatrizes do 11 de março, como era de se esperar. O mato não espera pelo homem, ainda mais num clima quente e chuvoso como o da terrinha. Infelizmente, deu pra ver que pouca coisa se avançou além da pura e simples desocupação de algumas áreas mais atingidas.
Dei uma volta pelo portinho, onde se vê poucas marcas da tragédia. Alias, as marcas ali foram realmente bem poucas. O problema no 11 de março por ali foram os escorregamentos e as cicatrizes que se abriram no solo morro acima, que indicavam o risco de serem retomados vertente abaixo, aí sim atingindo casas e pessoas. Hoje se vê algumas velhas casas de madeira sendo demolidas e as casas de material vão muito bem, obrigado.
Lá longe, a vista da baia era muito bonita. Uma maré vazia daquelas de fazer as aguas se espelharem. Os morros lá atrás, os barcos e casas, tudo foi se construindo, na maravilhosa luz de uma beleza atroz, como a baia de Antonina sabe ser. Sim, a beleza pode ser atroz, assim como a feiura pode ser cândida. Cândidos são alguns quintais do Portinho e da Graciosa, alguns malcuidados, com lixo, restos de construção, denotando certa falta de asseio. Outros, ao contrário, até com o chão varrido, roupas obedientes tentando secar ao friozinho e à maresia daquela tarde de domingo um tanto fria.
Na segunda feira, indo embora de ônibus, senti a crueldade da minha terra.  Havia uma maré cheia estúpida de tão bonita, como me dizendo: “deixa disso, não vai não, fica por aqui sentindo o vento na cara e ouvindo o barulho das garças e gaivotas, a vida não pode ser melhor que isso”. Pior que era verdade, nada podia superar aquela beleza. Cruel ir embora assim, deixando tanta boniteza pra trás.
Mas fui. Nem fotografar quis, pra só ficar com a imagem na memória.
Já no avião, vi que minha terra continuava a me aprontar. Quando o jato fez a volta pra seguir sua rota, passou por cima da baia no instante do por do sol, ali pelas cinco horas. O reflexo do sol baixo, nas águas da baía de Antonina, deixaram-na dourada, com a silhueta da terra firme e das ilhas marcando seu contorno. Parecia uma imensa cornucópia, aquelas conchas espiraladas da mitologia, do interior da qual brotavam alimentos e bebidas sem cessar. Depois, o avião mergulhou nas nuvens e nada mais vi.
Aqui onde estou, de volta às obrigações, me impus voltar a escrever no blog. Este andava sumido, sem tempo nem paciência. Meus leitores que me perdoem, mas dei uma cansada. A blogosfera capelista anda meio chata e repetitiva, mas sei que parte disso – a que me cabe – é culpa minha, só minha.
Vamos lá. Que a beleza da Deitada-a-beira-do-mar nos sirva de guia e inspiração. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

FAZEMOS QUALQUER NEGOCIO!!


P.S. -mas só pra quem acredita!!