segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 67: A VIDA NO SAMBA


Foliões da avenida Rio Branco em 1942

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 17 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão curtindo adoidados a ultima noite do carnaval do Rio.)

Finalmente o último dia do Carnaval de 1942 havia chegado. Aí, sim, não teve o que segurasse os rapazes dentro das rígidas normas do Colégio Militar. Quem seguraria os rapazes ali alojados com o maior carnaval do Brasil rugindo ali na frente e fazendo tremer as casas?


Segundo o diário de Lydio, eles saíram bem cedo e voltaram bem tarde. Neste último dia, o ponto preferido dos rapazes foi a Avenida Rio Branco. Foi uma mudança que foi se operando devagar no carnaval do Rio de Janeiro, com os desfiles paulatinamente migrando da praça Onze, em obras para o surgimento da nova Avenida Getúlio Vargas, para a Avenida Rio Branco. 


A Avenida Rio Branco era o pedaço da maior animação e, segundo Lydio, era também o ponto das maiores brigas. A todo o momento os blocos de sujo saiam praticando o que Lydio chamou de “malvadezas”, assim mesmo, entre aspas, com as folionas que “desse bola”. Eram os onipresentes engraçadinhos que mexiam com a mulher dos outros. 

O resultado eram tumultos. Por vezes, segundo o relato, surgiam as “peixeiras” e alguém se feria com gravidade. Se hoje em dia isso ainda é comum, é de se imaginar que as brigas e a violência no carnaval fossem muito mais letais que hoje. 


Os bares e cafés das imediações da Avenida Rio Branco neste último dia de carnaval estavam lotados, e não venciam a demanda da freguesia. A região estava cheia de gente. Lá pelas 15 horas uma equipe da Rádio Nacional colocou altos falantes ao longo da avenida e logo se formou um monumental baile ao ar livre. Todos pulavam e cantavam as músicas deste e de outros carnavais. Lydio anotou “A Jardineira”, “Praça Onze” e “Mamãe Eu Quero”. 


Na verdade este foi um carnaval muito rico de novas canções. É o ano em que surgem alguns grandes “hits” do carnaval, como “A Mulher Do Leiteiro”, “Nós, Os Carecas” e principalmente “Está Chegando A Hora”. É um samba de Henricão e Rubens Campos, uma adaptação da valsa “Cielito Lindo”, de A. Sedas e F. Tudela, cantado por Carmem Costa. 

Carmem era empregada doméstica na casa de Francisco Alves, e lançou neste ano o samba que e que consagrou como uma das grandes cantoras brasileiras e está até hoje na cabeça do povo. 


Luzes coloridas foram acesas quando chegou a noite. O espetáculo prosseguiu com desfiles de carros alegóricos. Os desfiles não eram como os desfiles de hoje. Eram desfiles de sociedades e clubes, em carros alegóricos com temas carnavalescos. Enquanto isso, na Praça onze, havia o desfile das escolas de Samba. 

Naquele ano, numa disputa apertadíssima, a grande campeã foi a Portela, com o enredo “Vida no samba”. Em segundo lugar ficou a “Depois eu Digo”, com o samba “Uma noite feliz” e, mais atrás na pontuação, a eterna Estação Primeira de Mangueira, com o samba “A Vitória do Samba nas Américas”. 


Na avenida Rio Branco, vendo os desfiles das sociedades, Lydio nos conta que eles traziam belas garotas de maiô, com belas pernas de fora e rebolando sem parar. “Aquilo deixava os marmanjões com água na boca”, diz ele, também boquiaberto. 

Mas Lydio não estava só de água na boca. Eis que, lá numa linha, ele nos diz que estava assistindo o desfile “agarrado à Lurdinha”, e não queria mais nada da vida. Com certeza queria. Não sabemos mais nada de Lurdinha, mas com certeza todos sabemos como são os amores de carnaval e ainda mais para jovens adolescentes. Que bela e inesquecível noite deve ter sido!


Mas o carnaval de 1942 ia acabando. Eram quase onze da noite. Encerrando o desfile vieram as grandes sociedades: clubes sociedade dos tenentes, sociedade fenianos, pierrôs da caverna e outros de que Lydio não conseguia lembrar. Quando regressaram ao alojamento, os rapazes ainda escutavam os cantos de nostalgia: “É hoje só só só../Vai se acabar já já já!”...


E assim os rapazes se despedem também do carnaval carioca. Lydio ainda nos diz que espera um dia voltar a vê-lo novamente. Mas, antes disso, muito antes disso, eles tinham uma missão a cumprir: entregar a carta para o presidente.


Será que conseguiriam?

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 66: SEGUNDA SEM FOLIA



Vista da Cidade Maravilhosa do alto do Corcovado, década de 1940

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 16 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão de castigo após chegarem atrasados ao colégio Militar. Motivo: ficaram até mais tarde curtindo o carnaval de rua do Rio.)

Na segunda feira, 16 de fevereiro de 1942, os escoteiros antoninenses tiveram que passar a manhã de castigo. A punição por ter ficado tempo demais no carnaval e entrado tarde no alojamento foi a arrumação dos quartos e dos banheiros do Colégio Militar, onde estavam hospedados. 


Lydio ficou arrumando camas, mais de 90, segundo ele. Milton varreu os três alojamentos e Canário lavou e secou os cinco banheiros. E lavaram rapidinho, por que senão não iria ter passeio para eles. 

O dia foi de passeios e caminhadas com os outros escoteiros. Fora os cinco antoninenses, havia mais duas delegações: os escoteiros paulistas, um grupo de 85 pessoas,  que haviam chegado de trem dias atrás, e os escoteiros gaúchos, cerca de 70 rapazes, que haviam chegado por mar no dia anterior. 

O grupo todo fez uma caminhada sob sol quente da Lapa até o bondinho do Corcovado. Os cinco rapazes lembraram-se dos dias de estrada, onde passaram por situações piores que aquela. O sofrimento os fortaleceu e deu motivo de orgulho.  Lydio comentou, com ironia, que os escoteiros gaúchos e paulistas que estavam com eles na caminhada só assim puderam ter uma pálida ideia do que era caminhar durante quarenta e quatro dias.

Apesar do sol quente, os rapazes chegaram finalmente ao Corcovado.  Subiram para apreciar a paisagem. De lá de cima, os cinco se extasiaram com a imensa vista.  Morrendo de sede, eles se fartaram de tomar refrigerantes no barzinho lá no alto, segundo as anotações de Lydio. 

A vista imponente maravilhou os rapazes. Lydio comentou sobre a baia de Guanabara, descreveu as ilhas todas. Do outro lado, ficou impressionado com o tamanho do Oceano. Notou também a lagoa Rodrigo de Freitas, que descreveu como bonita e cheia de barcos de recreio. 

As fotos da época da estada dos rapazes no Rio devem ter sido similares às fotos que temos hoje disponíveis na internet. Nele, pode-se ver uma cidade já grande, com avenidas sendo construídas e prédios sendo erguidos no centro e na zona sul.

Era uma cidade sendo reprojetada. A preocupação nesta época, era com obras de mobilidade e com a doutrina do higienismo, então muito em voga. A cidade demanda por ligação entre seus eixos de crescimento, assim como requer cuidados com a drenagem de águas pluviais e o abastecimento de água. 

Neste período destacam-se as obras da Avenida Getúlio Vargas que, como vimos, foi a causa da destruição da Praça Onze, lamentada no samba do ano anterior. A Avenida Brasil estava sendo projetada. Para melhorar e a ligação da Zona Norte com a Zona Sul da cidade O morro de Santo Antônio estava sendo demolido. Era um Rio em obras a cidade que os quatro escoteiros estavam vendo.

Ao voltar para o Colégio Militar, onde estavam alojados, os rapazes ainda viram os blocos, ranchos e frevos que iam passando, indo para o carnaval. Neste dia, entretanto, não ia ter folia. 

Todos voltaram nos horários regulamentares, tomaram banho e fizeram fila para o jantar. O resto da noite foi de conversas com os demais escoteiros que estavam por lá. 

Ainda tinha um dia de carnaval....


sábado, 15 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 65: ORGIA E NADA MAIS


o cineasta norte-americano Orson Welles, filmando o Carnaval de 1942 no Rio de janeiro; os cinco rapazes antoninenses estavam por ali, vendo se o seu trabalho estava sendo bem feito. 
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 15 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) caem na folia do primeiro dia de carnaval do Rio.)

A rapaziada estava em alerta. Mas desta vez não era o Sempre Alerta do Escotismo. No dia anterior, ao ir ao cais receber a tropa de escoteiros que chegava do Rio Grande do Sul via marítima, os quatro escoteiros antoninenses perceberam que a Capital estava diferente. 

Ao andar pela cidade de bonde e de trem – tinham feito um passeio ao Jardim Botânico - os rapazes iam sentido que a cidade era tomada de um ritmo diferente, produzido pelos tambores, tamborins, cuícas, ganzás, recos-recos e pandeiros, como anota o escoteiro Lydio Cabreira em seu diário: “escutamos muitas batucadas pelos morros e ruas”. 

O carnaval estava chegando. 

Neste domingo, 15 de feverreiro de 1942, nada podia mais deter os rapazes. Emprestaram alguns trajes civis dos colegas cariocas, pois no carnaval era proibido usar farda, mesmo que fosse a farda escoteira. O clima de festa vai contaminando a todos.  Lydio nos diz que desde o início do dia a “batucada tinha dominado a cidade”. Os rapazes Beto, Milton, Lydio, Manduca e Canário iam se maravilhando com a grandeza da festa.

As pessoas vão chegando de bonde, de trem, a pé, todos fantasiados. Lydio notou que a fantasia tinha um sentido: a nudez. “seminus, aquele povo não queria saber de nada. Só uma coisa passava pela sua mente: orgia e nada mais”, escreveu em seu diário. Ao longo da avenida as bandas iam passando, tocando sucessos deste e de outros carnavais. Lydio não se contém e vai atrás de um cordão.

O destino de todos os cordões era a Praça Onze, onde Lydio viu, encantado, Orson Wells e sua equipe filmando a folia. O cineasta americano estava no Brasil filmando o seu documentário “It´s All True”, que nunca foi acabado. Embevecido vendo a filmagem, Lydio enfim percebeu que havia se perdido de seus companheiros. Mas tudo era alegria, diz ele, e seguiu pulando no meio da multidão. A música não parava nunca.

Uma das músicas mais cantadas deste carnaval era uma marchinha do ano anterior, “Praça Onze”, de Erivelto Martins e Grande Otelo, que lamentava justamente o fim da praça, que estava sendo engolida pelas obras de urbanização da cidade. 

Local central e cosmopolita, a praça abrigava os imigrantes recém-chegados e a boemia da cidade e era o principal ponto de circulação dos blocos do carnaval de rua. Os foliões continuavam chorando o fim da praça na própria Praça Onze, onde as obras só iriam ser finalizadas em 1944, dando lugar à Avenida Presidente Vargas. 

Em meio aos escombros da praça os foliões cantavam “Guardai os vossos pandeiros, guardai!”, meio como protesto, meio como lamentação.

Lydio passou o dia todo por ali, na fuzarca, como ele dizia. Acabou almoçando e jantando alguns pastéis. “Bastou”, segundo ele, cuja fome não era de comida, e sim de festa. Continuou pulando e só mais tarde, já noite, foi que reencontrou seus companheiros Canário e Manduca. os rapazes continuaram perambulando pela Praça Onze, e só muito mais tarde é que decidiram voltar ao Colégio Militar, onde estavam alojados. Eram onze da noite.

Tiveram que pular o muro, pois o guarda não os deixou entrar. No entanto, apesar de todos os cuidados para não serem descobertos, os escoteiros paulistas de guarda no alojamento descobriram a chegada dos foliões. 

Pegaram um castigo: no dia seguinte, tiveram que arrumar todas as camas, varrer os alojamentos e limpar o banheiro. “Tudo bem, falar o que?”, pensou Lydio, e anotou mais essa em seu diário.

O carnaval só estava começando....

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 64: ESQUENTANDO OS TAMBORINS


Getúlio Vargas, sem saber que os escoteiros antoninenses queriam falar com ele, tem uma reunião com os generais de seu governo
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 14 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão passeando pela cidade, que está ansiosa para mais um carnaval.)

Naquele sábado, 14 de fevereiro de 1942, havia mais uma delegação de escoteiros para chegar ao Rio. Eram escoteiros gaúchos, que vinham de navio para também renderem suas homenagens ao ditador. 

Os cinco rapazes de Antonina, juntamente com os escoteiros da delegação Paulista, foram em carros do batalhão de choque ao cais do porto, receber os colegas. Os escoteiros gauchos chegaram as 8 horas, no navio Aratimbó. Eram 80 escoteiros, procedentes de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, chefiados pelo chefe Major Bonifácio Borba. 

Os escoteiros gaúchos faziam uma algazarra terrível, felizes por chegarem à capital. Toda esta tropa foi levada nos caminhões do choque para o Colégio Militar, onde eles ficaram à vontade o resto do dia. 

Agora, com tanta gente, os cinco rapazes procuravam fazer novas amizades e contar histórias de sua aventura até ali. 

Enquanto isso, as notícias do mundo não eram nada animadoras. As notícias indicavam que os japoneses estavam entrando em Singapura, e que a rendição inglesa era iminente. Com a queda da importante cidade asiática, quase todo o Sul da Ásia e mesmo a leste da Índia estava aberto as incursões japonesas. 

Na Europa, a guerra na Rússia prosseguia com ferocidade. Os soviéticos tentavam expulsar os alemães nas proximidades de Moscou, em batalhas muito encarniçadas. Na África, no deserto da Líbia, o general Rommel se impunha frente as forças inglesas em ferozes batalhas de tanques. 

Aqui no Brasil as preocupações eram outras. Getúlio Vargas, indiferente aos anseios dos rapazes por entregar-lhe a carta dos antoninenses, despachava tranquilamente com seus ministros militares no palácio do Catete. 

As discussões no governo agora giravam em torno da missão do embaixador Souza Dantas, em Washington, que negociava a entrada do Brasil na guerra ao lado dos aliados. Para isso, diversas iniciativas bilaterais estavam sendo negociadas. 

O mais importante, entretanto, era que no dia seguinte, começaria o carnaval. Os rapazes precisavam se aprontar para a grande festa de Momo. A cidade já estava enlouquecida, com muito barulho pelas ruas. As batucadas eram ouvidas de longe nos morros. A cidade já vivia e respirava samba. 

Os rapazes voltaram a Quintino. Desta vez, na casa do colega Roberval Carvalho. Este lhes emprestou roupas civis para que eles pudessem pular o carnaval. Naquele tempo era proibido sair fardado pelas ruas. 

As 16 horas, eles ainda tinham um compromisso. Lydio, Canário, Chefe Beto Milton e Manduca foram visitar o major Alencastro Guimarães, diretor da Central do Brasil. Lá, eles bateram um papo animado de uns quinze minutos. Mais do que isso. Eles receberam um bloco de passes de trem e ônibus, para poder visitar todos os locais servidos ou não por trens elétricos. 

Aproveitando os passes, eles foram visitar o Jardim Botânico. Lá, ficaram especialmente espantados com as grandes folhas das vitórias regias, a grande planta da região amazônica. Depois, deram uma passada na Gávea, para conhecer o hipódromo. 

Lydio, como bom flamenguista, aproveitou também para conhecer a sede do clube de seu coração.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 63: PASSEANDO EM SÃO CRISTOVÃO


Entrada do Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde os escoteiros ficaram alojados em fevereiro de 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 13 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) passeiam pelas imediações do Colegio Militar, em São Cristóvão. Enquanto isso, o mundo em guerra tem momentos decisivos na Asia e na União Sovietica.)

No Colégio Militar, tudo mudou de novo para os rapazes. Ordem, disciplina, Higiene. O Colégio Militar do Rio de Janeiro fora o primeiro colégio militar do país. O colégio havia sido fundado no fim do Império, em março de 1889. Ocupando um palacete que havia sido construído por um barão do império, foi um importante local de formação de quadros militares durante todo o século XX. 

A rotina do Colégio Militar não era muito diferente do que os rapazes haviam visto no Albergue da Boa Vontade. Era uma constante em tempos de higienismo, como a primeira metade do século XX. Pela manhã, todos os hospedes tinham que tomar uma ducha fria e somente após o banho é que eram admitidos no refeitório para tomar o café da manhã. 

Depois das 9 horas, era o momento do esporte. Segundo Lydio nos conta, praticavam toda sorte de esportes, e a ginastica era obrigatória. Somente depois do almoço é que eles eram liberados. 

À tarde, eles foram à Federação dos Escoteiros Cariocas para escrever e mandar cartas para a família. Lá, eles tiveram uma bela surpresa. Chefe Maneco havia remetido uma boa quantidade de dinheiro para cada um. A mensagem dizia que o dinheiro tinha sido enviado via cheque para o banco Boa Vista. 

Os rapazes ficaram sem saber o que fazer, pois não estavam acostumados a trabalhar com cheques. Mas não tinha necessidade. O dinheiro estava à disposição deles nas mãos do chefe David Barros, diretor do Jornal do Brasil. Foi lá, na sede do famoso jornal, que eles receberam o dinheiro. 35 mil réis para Chefe Beto e 25 mil para cada um dos outros. Era uma bela grana. 

Durante a tarde, sem mais para fazer, os rapazes ficaram passeando por São Cristóvão. Naquele tempo ainda não havia o Maracanã, que é o nome atual do bairro. Sem o icônico estádio, o antigo “maior do mundo”, aquela região era conhecida por São Cristóvão. Os diários de Lydio não falam de visita que eles tivessem feito a Quinta do Boa Vista, ali do ladinho. 

Por certo, também não devem ter conhecido o Museu Nacional, o maior do Brasil e recentemente em luto após um incêndio avassalador. O incêndio, que destruiu todo o edifício e muitas de suas peças em exposição, foi um incidente grave num país inculto e sem respeito pela sua memória. 

Nestes dias, as atenções do mundo estavam em Singapura. A Cidade-Estado resistia ao avanço das tropas nipônicas. Mas a situação era desesperadora. As tropas inglesas estavam desesperadas e sem moral para combater. Neste dia, os jornais noticiaram que as rádios da cidade estavam transmitindo músicas clássicas, para mostrar que ainda estavam em poder dos britânicos. 

Em Singapura, na Indonésia, na União Soviética, na Líbia, muitas batalhas estavam sendo travadas para conter o avanço nazista e nipônico. 

Fevereiro de 1942 era, como hoje, um momento de resistência.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A MARCHA DS ESCOTEIROS 62: FINALMENTE, COLEGIO MILITAR


O Colégio Militar do Rio de Janeiro, em São Cristovão, onde os escoteiros ficaram alojados em fevereiro de 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 12 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) finalmente se mudam para o Colegio Militar do Rio, em companhia de outros escoteiros paulistas.)

No dia seguinte, os cinco escoteiros de Antonina tinham uma missão. Não, ainda não era entregar a mensagem a Getúlio Vargas. Incorporados aos escoteiros da tropa Santos Dumont, chefiada por seu hospedeiro, o gentil Chefe Pires, eles foram logo cedo na Estação Pedro II recepcionar a tropa de escoteiros que estavam vindo de trem de São Paulo. 

Era uma delegação de 80 escoteiros e dez chefes, representando a Federação Paulista de escoteiros, que vinham – olha só! - entregar uma mensagem ao presidente. 

Logo as sete da manhã estavam todos eles na estação, todos uniformizados para receber os colegas escoteiros, provenientes de São Paulo e de diversas outras cidades do interior paulista. A delegação era chefiada pelo chefe Carmine Espósito. 

Com a chegada dos escoteiros paulistas, a sorte dos cinco rapazes mudou outra vez. Uma ordem do major Rolim incorporou os escoteiros antoninenses aos escoteiros paulistas recém-chegados. Agora sim eles poderiam ficar – finalmente - no Colégio Militar em São Cristóvão. 

Canário, chefe Beto, Lydio, Manduca e Milton foram então para Quintino, para pegar as coisas e se despedir de Chefe Pires. Segundo Lydio nos conta foi com lagrimas que eles se despediram do chefe Pires e de sua esposa, que lhes deram tanta acolhida e carinho. É de não se esquecer mesmo. Chefe Pires e sua esposa trataram os rapazes com bastante cuidado, tirando-os do Albergue da Boa Vontade e dando um tratamento mais respeitoso para eles. 

Mas agora a dinâmica já era outra. Já no colégio Militar, depois do almoço eles foram em companhia do Dr João Ribeiro na cantina do Q.G. dos escoteiros do mar. Era um estabelecimento modelar, como nos conta Lydio. A cantina estava instalada no segundo andar, no entreposto da pesca. Lá, os próprios escoteiros faziam plantão e trabalhavam diariamente nos serviços burocráticos do QG. 

Na entrada do prédio havia um escoteiro de plantão, para dar informações aos recém-chegados. Na sala de administração trabalhavam cinco escoteiros como datilógrafos, escreventes e auxiliares. Na outra sala ficava um pequeno Museu do Escoteiro, com um escoteiro na porta para anteder aos visitantes. E não era só isso. 

Havia salas para os Pioneiros, escoteiros e Lobinhos. Estas salas também serviam para estudos do mar. Ao final, havia ainda a sala de artesanato, onde 19 (?) escoteiros trabalhavam como marceneiros fazendo mesas, armários, cadeiras, estantes e bancos. Outros ainda trabalhavam com cerâmica, reproduzindo peças de cerâmica marajoara. No térreo havia o galpão, onde estavam alojados os barcos veleiros e canoas de todos os grupos de escoteiros do mar da Capital da República. 

 Na cantina geral estava a venda de uniformes. Tinha uniforme e utensílios para escoteiros do mar, do ar e terrestres. Vendiam-se boinas, chapéus, bibicos, gorros de marinheiro, sapatos, cinturões, lenços, meias, distintivos, cantis, facas, mochilas, bornais, apitos, bastões, insígnias, barracas, bandeiras e um monte de outras coisas que eram o objeto de desejo dos escoteiros. 

Ali ainda tinha uma lanchonete, onde eram servidos doces, refrescos, sanduiches, cafés, toddy e todo tipo de refrigerantes. Tudo atendido por três escoteiros pioneiros. Os rapazes saíram admirados de tanta organização. 

O Dr João ainda levou os rapazes para conhecer a Lapa, o reduto boêmio da cidade. Ali era o reduto do samba e do crime, anotou Lydio. Eles viram os cartazes nas fachadas das famosas gafieiras do bairro. Depois de lhes mostrar a Lapa, Dr João os deixou no Colégio Militar para a janta. 

Lá, eles foram cercados pelos colegas paulistas, que lhes pediam para contar detalhes de sua grande aventura. Foi uma noite de muita conversa...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 61: PASSEANDO NO SUBURBIO


A rua da Republica, em Quintino, bairro onde os escoteiros ficaram em fevereiro de 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão alojados no bairro de Quintino, e aproveitam para conhecer os suburbios do Rio.)

Naquela quarta-feira de manhã, 11 de fevereiro de 1942, tudo amanheceu na maior paz de Deus, segundo nos conta Lydio. Os cinco rapazes escoteiros agora estavam alojados no colégio em Quintino, no subúrbio, sob a hospitalidade de Chefe Francisco Pires. Ainda esperando vaga no Colégio Militar, ainda esperando quando eles iriam conseguir entregar a mensagem de que eram portadores ao presidente da república. 

Assim como estava, nada de Albergue da Boa Vontade, nada da Zona portuária. Agora, ali no subúrbio, Lydio estava querendo conhecer a cidade. Pela manhã, ele foi até Bangu, onde eles tinham passado durante a chegada ao Rio. Ele queria conhecer a grande fabrica de tecidos Bangu, famosa em todo o Brasil. Mas ele deu com a cara na porta. Neste exato dia, não eram permitidas visitas.
De volta, Lydio passou em Madureira, a capital do Samba. Ele deu algumas voltas pelo bairro e sentiu no ar – esta é sua exata expressão – o som das batucadas. Não era pra menos. Estavam a poucos dias do carnaval. Faltavam quatro dias. 

De volta a Quintino para o almoço, Lydio não demorou para ganhar a rua. Não queria ficar parado, queria conhecer a cidade. Por isso, ele não perdia uma chance sequer de sair e conhecer lugares diferentes da capital. 

Enquanto isso, os outros quatro ficavam ali, como que presos no colégio, sem sair para a rua. Chefe Beto ainda estava doente por causa da sarna que pegara. Ficou uns dias incomunicável no Albergue da Boa Vontade, e agora estava em tratamento. Não estavam com uma cara boa. 

Manduca, por outro lado, estava parecendo uma estátua. Segundo nos conta Lydio, ele ficava num mutismo assustador, não conversava com ninguém. Na certa, estava assustado com a cidade e com as coisas que estava vendo. E com saudades da sua Antonina, e da vidinha que ele tinha por lá. Do grupo, somente Milton e Canário se mantinham dispostos e joviais. 

Mas, conta Lydio, os quatro estavam mais para descansar e engordar. Nesta mesma quarta feira, eles ficaram no colégio lavando as roupas. Lydio, por outro lado, estava tão doido para sair que lavra as suas na noite anterior. Prioridades.
Na tarde daquele dia, Lydio saiu para conhecer Brás de Pina e Engenho de Dentro. Ele dia que só não conheceu outros porque um era distante do outro e isso demandava tempo e muita despesa com a condução. Mas que ele tentou, lá isso ele tentou. 

Enquanto isso, os jornais cariocas deste dia davam muita atenção a situação da cidade de Singapura, sitiada pelas forças japonesas. A situação estava desesperadora, e a queda da cidade era iminente. Seria uma importante perda na situação estratégica dos britânicos na Ásia. Na frente russa, os exércitos soviéticos estavam tendo um sucesso relativo em afastar o exército alemão de importantes pontos da linha de defesa. 

Nos noticiários da cidade, o assunto era o carnaval daquele ano de 1942. Todos estavam se preparando para os três dias da festa de Momo. Desde a primeira dama Darcy Vargas até o mais humilde morador dos morros, todos estavam preparando o que iriam fazer. Daqui a pouco até mesmo os escoteiros iriam se preparar para a grande festa nacional. 

Enquanto isso, na noite do subúrbio de Quintino, os rapazes tinham outras preocupações. A missão tinha que ter um fim. Como eles fariam isso? Quando eles conseguiriam falar com Getúlio Vargas e lhe entregar a carta dos antoninenses? Nesta noite quente de fevereiro, eles ficaram unidos e conversando sobre os planos para o dia seguinte.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 60: SOB A TUTELA DE CHEFE PIRES


A Estação Ferroviária de Quintino, no subúrbio do Rio, em 1923; em 1942, os escoteiros antoninenses ficaram alojados por aqui. 
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, realizaram uma marcha a pé de mais de 1.200 quilômetros rumo ao Rio de Janeiro, para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 10 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) passam a ficar no bairro de Quintino, no suburbio do Rio.)

Os cinco rapazes acordaram cedo naquele dia 10 de fevereiro de 1942. Eles haviam dormido, pela primeira vez desde que chegaram ao Rio, fazia já mais de dez dias, fora do rigoroso Albergue da Boa Vontade, na zona Portuária. Canário, Chefe Beto, Manduca, Milton e Lydio agora estavam no alojamento da tropa escoteira Santos Dumont, no Subúrbio de Quintino. 

A caserna na qual eles estavam alojados estava situada ao lado do complexo escolar Quintino Bocaiuva. Era uma escola grande, que recebia alunos de internato, externato e semi-internato. Chefe Pires e sua esposa mantinham toda aquela estrutura e mais o grupo escoteiro Santos Dumont. Agora nas férias, a atividade escoteira ali era constante. 

Depois do café quentinho servido pela esposa do Chefe Pires, ele avisou que, daquele momento em diante, eles não precisavam mais ficar no Albergue da Boa Vontade, mas sim, hospedados ali com ele e sua família. Foi uma enorme alegria!

Chefe Pires confessou que ficou constrangido com a situação deles, entre o quartel do 5º BC e o Albergue da Boa Vontade. Na verdade, a UEB havia colocado os rapazes lá provisoriamente, sem dar uma acolhida um pouco melhor. A situação mexeu tanto com Chefe Pires que resolveu dar guarida aos rapazes enquanto não havia vagas para eles no Colégio Militar. E ligou para a UEB para comunicar sua decisão. Ao desligar o telefone, ele tinha a autorização e a guarda dos rapazes. Foi um alívio!

A tarde, os rapazes saíram para conhecer os arredores do colégio. Agora, longe do centro da cidade, eles estavam pela primeira vez numa região de subúrbio carioca. Era uma realidade completamente diferente do que eles estavam acostumados a ver no centro ou na zona Portuária. 

Neste rápido passeio, Lydio conheceu uma bela garota chamada Wilma. Disse ter estabelecido uma “sólida amizade” com ela.  E Wilma foi realmente muito importante para a estadia dos rapazes no Rio. 

Durante o passeio, apareceu um camarada dali das vizinhanças, cheio de prosa, que convidou Lydio para conhecer lugares importantes do Bairro. Lugares inesquecíveis, com uma visa maravilhosa, garantiu ele. O desconhecido era muito envolvente, e estava quase convencendo Lydio a fazer o tal passeio, quando Wilma apareceu e cortou a conversa. Ela foi se chegando e disse que Lydio ia jantar na casa dela. Lydio a princípio não entendeu nada. E entendeu menos ainda quando Wilma foi firme e mandou o cidadão desaparecer. 

Wilma então preveniu Lydio para o tipo de golpe que ele ia caindo. Em geral, o malandro convida a vítima para ir a algum lugar. Um lugar perto legal, com vista maravilhosa, etc. Chegando lá, tinham outros comparsas esperando pra atacar e roubar as vítimas. Existiam mesmo casos de morte por latrocínio, se os malandros encontram resistência. Olha a encrenca que a Wilma evitou...

Lydio ficou muito agradecido à Wilma, e foi se juntar aos outros colegas. Chegando à noite, os rapazes rapidinho se recolheram no colégio Quintino Bocaiuva. Lá, eles gozaram da hospitalidade da família do Chefe Pires, tomaram uma boa janta e indo dormir tranquilos, sem os perrengues do Albergue da Boa Vontade. 

No entanto, havia uma dúvida entre eles. Já haviam percorrido mais de mil quilômetros a pé até ali. Mas o mais difícil da jornada parecia estar diante deles. Quando eles iam conseguir entregar a mensagem para Getúlio Vargas? Será que a missão seria cumprida a contento?

Lá, na distante Antonina, os corações e mentes estavam pensando por eles, desejando um bom fim àquela incrível jornada.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 59:UMA CERIMONIA EM TRES RIOS


A estação ferroviária de Tres Rios (RJ); os escoteiros estiveram aqui em 10 de fevereiro de 1942

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, realizaram uma marcha a pé de mais de 1.200 quilômetros rumo ao Rio de Janeiro, para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 10 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) participam de uma cerimonia escoteira em Três Rios (RJ).)

Era inda madrugada quando os cinco rapazes foram sacudidos de suas camas no Albergue da Boa Vontade, onde estavam alojados. O servente avisou que eles eram esperados na Estação Pedro II, as 5 e meia da manhã. Às seis da matina, sem falta, partiria o trem para Entre Rios, onde eles tinham atividades aquele dia. Segundo Lydio, foi “um corre-corre sem tamanho”. 

No entanto, tudo correu bem. Na hora marcada, Chefe Beto, Milton, Lydio Manduca e Canário estavam na estação aguardando os superiores. Ficaram a principio meio perdidos, pois a estação estava em obras. Nesta época, estavam derrubando o predo velho para a construção da nova estação, maior e de linhas modernas. Descrevem enormes relógios apontando para o céu. Era a atual Central do Brasil. 

Eles tinham vinte portas para escolher, e ficaram por um momento sem saber aonde ir, procurando pela tropa. E o movimento de pessoas, segundo Lydio, era impressionante. Muita, muita gente, e tudo aquilo virado num canteiro de obras. Como fazer?

Quando chegou a primeira tropa escoteira, o coração dos rapazes se acalmou. Eles foram incorporados à tropa e foram aguardar o embarque, que se daria na plataforma número 3. Logo mais foram chegando outras e outras tropas escoteiras, e a plataforma ficou cheia de rapazes fardados. 

Lydio procurou anotar as tropas que estavam ali. A primeira que chegou e a qual eles se incorporaram era pertencente ao primeiro e segundo círculo regional dos escoteiros do Rio de Janeiro. Eram as tropas Guaianazes, Natalino da costa Feijó, Nilo Peçanha e Azambuja Neves. Estas tropas estavam sob o comando do Chefe Francisco Pires, que teve parte importante na aventura carioca dos cinco rapazes. 

Junto com estas tropas, estavam as tropas do Conselho Metropolitano dos Escoteiros Católicos da Guanabara, sob o comando do Chefe Napoleão. Eram as tropas Santana, São Pedro e São Tarciso. Pra completar o grupo, ainda havia um pequeno grupo representando a Federação Fluminense dos Escoteiros, sediada em Niterói. Quanta gente!

Um apito forte estremeceu as tropas todas e as colocou em alerta. Era o apito do trem, que ia partir. Eram 6 horas da manhã. O chefe da plataforma respondeu com outro apito, avisando que a composição estava pronta. Mais um apito do maquinista e o trem estava em movimento. A Maria Fumaça que levava os escoteiros começou a andar. Lydio aboletou-se numa janela para ver a paisagem. 

O trem foi passando pelas estações. Lydio anotou as estações de Engenho de Dentro, Cascadura, Pais Leme, Nova Iguaçu, Barra do Piraí, Barão de Vassouras, Juparaná, Paraíba do Sul e, finalmente, Entre Rios, a atual Tres Rios, ponto final das tropas escoteiras. Eram onze horas da manhã quando chegaram. 

A pequena Entre Rios estava toda engalanada para receber os escoteiros. Havia banda de música e palanque para diversas autoridades. A tropa de Escoteiros de Entre Rios estava lá, em trajes civis, mas toda perfilada.

Houve uma grade desfile escoteiro pelas ruas da cidade. Todo rumaram para a sede do novo grupo. Depois das festividades de abertura, todos foram comer, que ninguém era de ferro. O restaurante Central ficou pequeno para tanta gente. Os escoteiros comiam enquanto ainda havia autoridades discursando. 

As duas e meia da tarde, com discursos do prefeito, do tenente da Junta Municipal e do vigário, estava fundado o Grupo de Escoteiros da Central do Brasil, de Entre Rios. Ao som do Hino Nacional, todos se dispersaram. 

Os rapazes foram dar uma volta, conhecer o miolo da cidade. Mas foi só. As 16 horas, todos estavam na estação ferroviária para a viagem de volta. Na viagem de volta, os rapazes não desceram na Central do Brasil. A convite do Chefe Francisco Pires, eles foram dormir na caserna da tropa Santos Dumont, no subúrbio de Quintino.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 58: UM DOMINGO NA PRAIA

Enquanto os escoteiros esperavam pelo encontro com Getúlio Vargas, ingleses e alemães se enfrentavam na Líbia

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, realizaram uma marcha a pé de mais de 1.200 quilômetros rumo ao Rio de Janeiro, para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 8 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) tem um dia de folga e vão à praia.)


Domingo, 8 de fevereiro, dia de passear. Mais um dia de folga para os cinco escoteiros antoninenses em sua jornada ao Rio de Janeiro, para entregar uma mensagem ao Ditador Getúlio Vargas. Os rapazes foram informados que a viagem a Três Rios fora adiada para o dia seguinte, segunda feira. Depois de tomar o café no Albergue da Boa Vontade, os rapazes se prepararam para um dia na rua. 

Pela manhã, Chefe Beto, Milton, Canário, Manduca e Lydio andaram pela zona portuária, saindo da praça da Harmonia. Ao passar pela rua barão de Tefé Lydio se lembrou da infinitamente mais modesta rua Barão de Tefé em Antonina. O Barão de Tefé, Antônio Luís von Hoonholtz, foi um grande defensor do porto de Antonina, tendo inclusive feito estudos que apontavam para a viabilidade e mesmo a superioridade do porto de antonina em relação ao de Paranaguá. 

Entretanto, quando dom Pedro esteve em antonina, em 1882, acabou por perceber alguns parcéis – rochas aflorantes na superfície – que não constavam no mapa de Tefé. Vendo que Antonina teria problemas com calado e lajes de pedra, o imperador tomou a decisão de fazer a estrada de ferro ir a Paranaguá. Antonina só alguns anos depois teve o seu ramal ferroviário. Ali, no entanto, no calor do domingo da capital, era a saudade da terra que aproximava o barão e as ruas com seu nome. 

Com dinheiro no bolso, os rapazes se fartaram de tomar sorvete. Com o calor que fazia, a sede era muito grande. Era ver uma sorveteria, e lá estavam eles procurando novos tipos e sabores. 

A tarde, os rapazes foram para o centro, tendo visitado a praça Tiradentes e a rua da Carioca. Lá, contemplavam embevecidos os grandes prédios do centro da cidade, conheciam as pequenas ruas estreitara e se espantavam com os grandes monumentos. 

A cidade preguiçosa, numa tarde de calor. Naquele dia, o jornal do brasil anunciava de tudo. Empregos os mais diversos, desde meninas para trabalhar em casa de família, apartamentos e casas nos mais diversos bairros, carros a caminhões. Nas páginas de informação, notícias da guerra: os soviéticos lutavam para jogar os alemães para oeste, em batalhas enorme e com grande número de baixas. Na Líbia, continuava o jogo de xadrez entre Rommel e os generais britânicos. Na Ásia, a situação de Singapura se torna cada vez mais difícil. Os japoneses fechavam o cerco. 

Ali, andando pela cidade, os escoteiros se sentiam bichos a parte. Não combinavam com a paisagem. Afinal eram adolescentes do interior andando pelas ruas da capital. Tudo era estranho, diferente e ao mesmo tempo com um glamour que os deixava com um sentimento de estranheza. Sentindo-se feios e atrapalhados, Lydio colocava a culpa no uniforme escoteiro que eles vestiam. O tormento era demais. 

Aqui e ali, eles cruzavam com grupos de rapazes vestidos com “minúsculos calções de banho”, e de belíssimas morenas “com maios provocantes”. E eles ali, estranhos, naquelas fardas que naquele momento os fazia ridículos. 

Que mundo cruel era este!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 57: A BRONCA PELO JORNAL


O Largo da Lapa, no Rio, em 1940
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, realizaram uma marcha a pé de mais de 1.200 quilômetros rumo ao Rio de Janeiro, para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 7 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) recebem a visita do General Heitor Borges. Neste dia, os jornais cariocas publicam uma bronca oficial da UEB contra o raid.)

No dia 7 de ferreiro, logo depois do café da manhã no Albergue da Boa Vontade, os escoteiros de Antonina receberam uma visita ilustre: o general Heitor Borges, presidente da UEB. O general foi bem amigável desta vez. Bonachão, riu muito com os rapazes. 

O general tambem quis saber se eles estavam sendo bem tratados ali no Albergue da Boa Vontade e no 5º BC, onde almoçavam e jantavam. E ainda brincou: “o passeio está bem, hein? Vocês estão mais gordos e corados e muito saudáveis!”, depois de olhar mais um pouco completou, entre sério e jocoso: “É assim que eu os quero ver”

Dito isso, o general deixou com os meninos 50 mil reis para ser dividido entre eles. Era a tal “ajuda pecuniária” que eles tinham pedido havia poucos dias na Federação dos escoteiros. Lydio conta que mal o general virou a costas os rapazes já estavam “rachando” a grana. 

Fazia uma semana da chegada dos rapazes ao Rio. Eles não tinham ideia de quando eles poderiam encontrar com Getúlio Vargas, para lhe entregar a mensagem que lhes fora confiada. E Lydio termina dizendo que, se ainda tudo era incerto, certo era que a viagem deles era muito comentada nos jornais cariocas e fluminenses. 

Entretanto, se estavam sendo falados, não era só falando bem. No jornal do Brasil do dia 8, uma nota na seção “Escotismo”, menciona que “os escoteiros de Antonina, que partiram sem ordem desta Federação [a Federação escoteira Paraná-Santa Catarina], tornarão a seus lares com uma séria recomendação de não mais procederem desta forma”. 

Na nota, era informado que o general Heitor Borges havia censurado essa atividade. Parece que a viagem pegou de surpresa tanto a Federação Regional quanto a Nacional. Apesar das notícias da imprensa, parece que não havia um apoio efetivo para que a viagem se realizasse. Era uma iniciativa isolada da própria tropa Valle Porto de Antonina. 

 A nota ainda repercute a fala do general Heitor no dia da chegada dos escoteiros ao Rio de Janeiro, havia uma semana.  Eles “chegaram ao ministério da guerra maltrapilhos e sujos, apresentando-se como mendigos”. A nota termina com a determinação de que estes empreendimentos devem ser muito bem preparados. 

Isso tudo não quer dizer que a UEB e a Federação não tivessem ajudado os rapazes a cumprir sua missão. Entretanto, até ali, fazia sentido a reclamação de Lydio de que eles estavam “jogados” no Albergue da Boa Vontade, refletindo a falta de boa vontade da entidade. 

As censuras do general Heitor Borges e da UEB à epopeia dos meninos também faziam sentido. Quando eles se encontraram, ressalte-se que o general disse estar orgulhoso do que eles fizeram, mas não de como eles estavam. Nesta nota no jornal do Brasil, eles ressaltam o fato das instancias não terem sido informadas. 

Por um lado, era a hierarquia. Num regime ditatorial como o estadonovista, o respeito pela hierarquia era um componente que não poderia ser esquecido. Ao fazer uma viagem daquele porte sem consultar as instancias, os escoteiros ali no Albergue da Boa Vontade – e a Tropa Vale Porto inteira – estavam fazendo vistas grossas à cadeia de comando. 

Por outro lado, era o espetáculo. Regimes ditatoriais gostam de espetáculos. De grandes paradas, de festividades, de grandes lances teatrais. Quando você teatraliza algo, tudo tem que ser perfeito. É como o mocinho nos filmes de ação, que destrói todo um batalhão sem desarrumar o cabelo. 

Como os meninos ousam fazer uma viagem deste porte sem autorização e se apresentam como andarilhos, sujos como mendigos?