sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTERIOS 78: UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA


à esquerda, o escoteiro Caio Martins (1923-1938); a esquerda, a estatua em sua homenagem, erigida em setembro de 1941, e visitada pelos escoteiros antoninenses em 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 28 de fevereiro de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, em meio às despedidas da Cidade Maravilhosa, vão a Niteroi conhecer a estatua de Caio Martins. Quem foi ele?)

Amanheceu com muito calor no Rio de Janeiro, naquele 28 de fevereiro de 1942. A temporada dos escoteiros antoninenses na cidade Maravilhosa, depois de 45 dias andando a pé 1200 quilômetros pra chegar lá, estava terminando. As passagens de navio para a volta já estavam compradas. 

Era o tempo de se despedir. Era o tempo de fazer um balanço de toda aquela aventura. Como fora possível viver tudo aquilo? Como eles avaliavam tudo por que haviam passado até aquele momento? E todo aquele Rio que passou nas vidas deles?  A cabeça dos rapazes estava fervendo mais que o calor da cidade. 

Lydio nos conta em seu diário que este foi um fevereiro que valeu por todos os fevereiros de sua vida: “mês de calor, mar e carnaval, mês de alegria, saúde e muitas amizades”. Quem poderia pedir mais?

Era um Rio que tinha passado pelas vidas deles todos...

Mas, faltava pouco tempo, e a cidade estava ali, para ser explorada.  os rapazes queriam mais. Eles pegaram as barcas e foram finalmente conhecer a bela Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. 

Lá, eles queriam conhecer o estádio Caio Martins, mas não conseguiram, estava fechado. Uma pena. Lydio nos conta que queria conhecer o estádio e ver a estatua de Caio Martins. Mas quem era Caio Martins? Por quê os escoteiros pegariam as barcas para ver sua estátua? 

Caio Vianna Martins (1923-1938) havia sido um escoteiro que sofre um grave desastre ferroviário. No meio das ferragens retorcidas, em meio aos gritos dos feridos, o jovem Caio sentiu que havia ferido gravemente as pernas. A confusão, a poeira e os gritos deixavam todos ao redor em choque ou em pânico. 

Mas este não foi o caso do jovem Caio. Quando os socorros chegaram, ele os recusou em nome dos feridos mais urgentes. Muito embora estivesse sofrendo dores terríveis, ele disse aos atendentes: “um escoteiro caminha pelas próprias pernas”. Enquanto os atendentes foram atrás dos outros feridos, Caio Martins, com grande esforço, seguiu andando com os colegas. Ele chegou a ir para o HOtel de Barbacena, onde estavam os escoteiros.  

No entanto, Caio havia perdido muito sangue. Apesar de seu esforço ter contribuído para que outros se salvassem, ele não teve melhor sorte, e acabou por falecer de hemoragia interna na Santa Casa de Barbacena. Um exemplo escoteiro de desprendimento e solidariedade. 

A estatua em sua homenagem, no bairro de Icaraí, em Niterói, havia sido inaugurada havia apenas seis meses, em setembro de 1941. Não foi à toa que os cinco rapazes, que haviam feito tanto esforço pessoal para chegar até ali em nome de sua cidade, se identificassem com o heroísmo do jovem Caio Martins. 

Eles caminharam pelas praças centrais de Niterói e passearam pelas ruas de comercio. 

Depois, Lydio, Manduca e Milton regressaram ao Cais Pharoux, na praça XV, onde desembarcaram. Ainda deram uma passeada pelas praças Marechal, Âncora, Tiradentes e Paris. 

Neste dia, eles tiraram muitas fotos automáticas, em cenários variados e feitas em cinco minutos. Lydio tirou três foto e se Milton uma meia dúzia, uma diferente da outra. Momentos felizes e divertidos de uma aventura que terminava bem.

Depois, os rapazes regressaram ao Colégio Militar. Lá, apresentaram as despedidas ao Comandante, Oscar de Araújo Fonseca. Depois do almoço, foram para Quintino, onde se despediram da família do chefe Francisco Pires. Canário ganhou do chefe Pires uma mochila de lona, novinha em folha.

Ainda foram na UEB, onde apresentaram as despedidas ao pessoal da união dos escoteiros, que os haviam recebido tão bem. 

E por último, foram a residência do general Heitor Borges. Lá agradeceram a tudo o que ele tinha feito pelos rapazes em sua estadia na Capital. Na hora da despedida, o general, galhofeiro, pediu para que não voltassem pra casa a pé, mas sim de outra maneira. Os rapazes riram e abraçaram o general. De lá, voltaram para o Colégio Militar, para arrumar a bagagem.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 77: LÁ NO ESTÁCIO



(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 27 de fevereiro de 1942, enquanto Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio  passeiam de bonde pela Cidade Maravilhosa. Onde será que eles vão?)

O calor naquele dia era de fritar ovo no asfalto.

Parecia que não havia mais nada pra fazer no Rio de Janeiro. Agora, fazia quase um mês que eles haviam chegado à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cansados e no limite de suas forças. Um longo mês em que tanta coisa tinha acontecido com eles, onde eles haviam visto e feito quase de tudo. A missão estava cumprida. 

Entretanto, havia uma coisa que eles precisavam fazer: Os rapazes ainda tinham muitos passes de bonde pra gastar. Neste dia 27 de fevereiro, uma sexta feira, Lydio e Milton resolveram passear por mais algumas favelas. Milton estava querendo ir, mas estava receoso de ir sem companhia. 

Neste dia, Milton e Lydio visitaram o Morro do Cantagalo e depois foram ao grande bairro do Estácio. A região de Estácio de Sá, ou mais simplesmente o “Estácio”, é uma importante área do Rio de Janeiro. A antiga área de Mata Porcos, onde havia um quartel no início do século XIX, era agora um bairro afluente e importante. 

Nos inícios da República, a cidade foi objeto de diversas políticas higienistas, que causaram imensos transtornos para a população mais pobre. Durante a política de “Bota-Abaixo” do prefeito Pereira Passos, as populações expulsas das imediações de Mata-Porcos pela terrível política foram se localizar no vizinho morro de São Carlos. São Carlos foi também um berço de muitos consagrados compositores cariocas, como Luiz Melodia, entre outros. 

Também no Estácio é que surgiu a primeira escola de samba da cidade a Deixa Falar. Era liderada por uma lenda do Samba, o compositor Ismael Silva. Dono de um senso lírico apurado e frequentado as rodas de malandro da região, Ismael foi um dos muitos responsáveis pelo surgimento do samba moderno, nos anos entre guerras. 

Mas tinha muito passe pra gastar. Milton e Lydio também estiveram nos morros do Salgueiro e Portela. Desta vez foi diferente do dia anterior, quando Lydio sentiu-se pouco à vontade no Morro da Mangueira. Naquele dia, contando com a presença de Milton, o sentimento de insegurança foi quase inexistente. 

Entretanto, Lydio atribuiu a relativa segurança que sentiu à farda. Afinal, os dois passeavam fardados de escoteiro. Como não foram molestados, Lydio entendeu que a população respeitava muito a farda escoteira. 

Milton, que era um novato em favelas, comentou que ficou assustado com o que viu. “Como pode aquele povo viver daquele jeito?”. É a pergunta mais importante do Brasil até hoje, para a qual a sociedade anda em busca de solução . 

Talvez saibamos a resposta para a pergunta de Milton Oribe quando o morro descer e não for carnaval. Quem sabe?

Os dois escoteiros tinham mais o que fazer. Aquele era o último dia de Rio, e eles tinham que aproveitar. Passaram praticamente todo o dia andando de bonde, de norte a Sul, de leste a Oeste da cidade. Já com os olhos de saudade, despediram-se da Cidade maravilhosa. 

Não sabemos se eles terminaram todos os passes que tinham. Sabemos que eles tentaram sinceramente acabar com eles. Mas uma coisa ainda os incomodava. 

Enquanto andavam feito loucos de bonde pela cidade, Lydio e Milton lamentaram que percorriam a cidade sozinhos. Manduca, Canário e Chefe Beto não participavam destas aventuras. Cada um do seu jeito, cada um por seu motivo, acabavam ficando enfurnados no Colégio Militar. 


Seria saudade de casa? Seria a ansiedade com a volta, que ocorreria em poucos dias? Toda aquela cidade a disposição deles, cidade com todas as belezas e contradições possíveis estava ali, aos olhos deles. Por que será que não aproveitavam?


Milton e Lydio pegaram todos os bondes que deu. Depois, voltaram ao Colegio Militar para compartilhar suas aventuras com os colegas. Agora, nos dias que faltavam, eles tinham muita gente pra se despedir.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 76: NA SALA DE RECEPÇÃO



A Estação primeira de Mangueira em 1937, cinco anos antes da passagem dos escoteiros antoninenses pelo Rio. 
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 26 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), já sem muito que fazer, passeiam pela Cidade Maravilhosa. Onde será que eles vão?)

O dia 26 de fevereiro, uma quinta feira de muito calor, foi um dia de folga para os rapazes. Afinal, a programação oficial havia acabado. Não havia mais museus e estatuas para visitar. O Carnaval havia acabado, e todos estavam retomando suas atividades. 

A UEB e a Federação dos escoteiros estavam preocupados com suas rotinas e afazeres. As passagens de volta em navio e ainda por cima de primeira classe, já estava comprada. Sobrava, então, pouca coisa para os rapazes fazerem.

Neste dia de manhã eles aproveitaram para lavar os uniformes. Como eles usavam cotidianamente os uniformes, eles tinham que ser lavadas periodicamente, ou poderiam receber mais alguma bronca do general. Mas foi só. 

Eles também estavam cansados cada um dos outros. Ela primeira vez, eles resolveram fazer programas separados. Depois de dois meses seguidos olhando um para a cara do outro, já estavam cansados de tanta união e cumplicidade. De tarde, cada um foi para um lado. 

Lydio foi conhecer as favelas. Essa era a grande novidade do Rio, conhecer as favelas. Lydio explica que favelas são conglomerados de barracos, cobertos de zinco ou de lata e “equilibram-se nas encostas ou não” dos morros. As ruas são sem alinhamento, e a pobreza é geral. 

Mas – e há sempre um mas – as favelas também são os locais onde estão os músicos do Rio de Janeiro, bem como das cabrochas das escolas de samba. As favelas cariocas, ontem e hoje, são grandes dínamos de produção social e cultural do Brasil. Artistas, políticos, escritores, estudiosos, todos estavam curiosos para conhecer as favelas. Lydio era somente mais um deles. 

Naquela tarde calorenta, ele visitou o morro do Querosene e o Morro da Mangueira. O Morro da Mangueira é uma das mais tradicionais favelas do Rio. Sua ocupação começou a se dar ainda no tempo do Império. 

Naqueles anos de Estado Novo, a Mangueira era o território de uma das primeiras Escolas de Samba do Rio. Berço de grandes legendas do Samba, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, entre muitíssimos outros, o Morro da Mangueira é uma das maiores instituições brasileiras. A Sala de Recepção. 

No entanto, para Lydio, dar uma olhada no sagrado território do samba foi o bastante. As favelas são muito grandes, justificou ele em seu diário. Sim, elas eram grandes e continuaram a ser. Verdadeiras cidades dentro da cidade. 

Mas havia outra explicação: andando sozinho, ele não se sentia seguro. O jovem escoteiro, uniformizado e com cara de forasteiro, não se sentiu bem-vindo ali no território do samba, como se fosse um animal estranho. Sentiu o “olhar atravessado” das pessoas. 

De Noite, ele foi passear perto do Cine Astória, pra ver se descolava uma namorada. O Cine Astória, em Copacabana, era uma das mais finas atrações da cidade. Recém inaugurado, era o point da gurizada. Mas, nesta noite, deu com os burros n´água. Nenhuma carioquinha sentiu-se atraída por seu charme. 

De noite, de volta ao Colégio Militar, os rapazes ficaram trocando detalhes de suas aventuras pelo Rio. Cansados, foram tentar dormir naquele calorão. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 75: O ATAQUE DOS DISCOS VOADORES E UM SUMIÇO IMPORTANTE


Fotos do LA Times mostrando consequências da Batalha: ataque japonês ou de discos voadores? No Rio, os escoteiros antoninenses também estavam as voltas com um sumiço inexplicável...
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 25 de fevereiro de 1942, enquanto a cidade de Los Angeles está a volta com um suposto ataque de discos voadores, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) investigam um sumiço inexplicavel...)

Na quarta-feira, 25 de fevereiro de 1942, foi marcado pela incrível “Batalha de Los Angeles”. Um objeto não identificado, avistado nos céus da cidade californiana, fez com que grande pânico acometesse as pessoas. Houve grande alvoroço e pânico nas ruas. 

O exército americano tentou atingir o objeto com artilharia, mas não conseguiu. Como consequência, uma pessoa morreu atingida por estilhaços de bomba e duas por ataque cardíaco.

Temia-se por um ataque japonês ou, mais intrigante, um ataque de discos voadores. Até hoje, a batalha de Los Angeles é grande assunto de controvérsia. 

Neste mesmo dia,  no Colégio Militar do Rio de Janeiro, outro acontecimento inexplicável abalou a estadia dos rapazes na cidade Maravilhosa: O livro diário Oficial da excursão sumiu!

O livro diário oficial era um livro muito importante, onde estavam todas as anotações oficiais do Raid. Cada cidade em que eles passavam, uma autoridade assinava o livro ou carimbava. Ali estavam os carimbos de todas as repartições públicas federais estaduais e municipais, que atestavam o dia a e hora da passagem dos rapazes. Outros escreveram mensagens elogiosas ao raid e aos próprios rapazes. Era um documento muito importante. 

Além disso, nas páginas do livro havia muitas fotografias do raid. Apenas algumas poucas fotografias sobraram, algumas que estavam com Lydio e outras que estavam na máquina fotográfica de Milton. 

Milton, Lydio, Canário e Manduca acusaram o chefe Beto de negligência. Chefe Beto se defendeu dizendo que havia visto um escoteiro gaúcho folheando o livro. Podia ter ficado com o documento para si. O fato é que não tinha explicação. 

Os companheiros chegaram a pensar que o próprio chefe Beto havia ficado com o diário para se vingar do fato de não ter podido ir a Petrópolis entregar a mensagem ao presidente Vargas. Mas eram só pensamentos sombrio e sem cabimento. 

O fato é que os rapazes mais o colega Gastão ainda deram uma busca geral no prédio, mas nada foi encontrado. Uma pena..

Entretanto, o grande fato do dia foi mesmo a compra das passagens de navio. Feliz e satisfeito, o Dr João Ribeiro passou lá a tarde, e saiu com os rapazes para comprar as passagens. Agora, eles iam voltar por via marítima, e de primeira classe. Cada passagem custava dois contos e oitenta mil reis...uma pequena fortuna!

A aventura estava chegando ao fim. Será?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 74: A VIUVA DO CAPITÃO


Festa na Igreja da Penha em Madureira, Rio de Janeiro, em 1940; Lydio esteve aqui em 1942 mas não encarou os 400 degraus... 

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 24 de fevereiro de 1942, enquanto Beto, Milton, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão descansando no Colegio Militar, Lydio faz uma visita emocionada a uma amiga da Familia.)

Na terça feira, 24 de fevereiro de 1942, Lydio se desgarrou de seus colegas, tinha algumas atividades sociais e familiares para cumprir. Além dos compromissos oficiais, ele tinha ainda uma incumbência de sua família em sua estada no Rio de Janeiro. 

Ele foi procurar dona Emília de Lima, viúva de João de Lima, ex-capitão do Navio Caxambu, do Lóide Brasileiro. João havia falecido em alto mar havia poucos anos, quando estava prestes a chegar no Rio. João e Emília eram amigos da família e Lydio tinha ordem de seus pais para visitá-la quando estivesse no Rio. 

Emília morava em Ramos, na rua General Câmara sem número. Era perto da praia de Ramos. Mas, como foi difícil de achar! Lydio ficou um tempo perambulando pelas casas todas iguais, sem saber se estava indo ou vindo. Pergunta aqui, pergunta ali, ele finalmente conseguiu achar a casa de Dona Emilia. 

Lydio, com a surpresa da visita, foi recebido com muita alegria e choro ao mesmo tempo. Não era pra menos. Emília ficou tão surpresa com a visita do filho de Nathalia, lá da distante Antonina, que quase não acreditou. 

Lydio tomou um cafezinho com ela, e apresentou as condolências da família. Muito contente, eles conversaram um pouquinho, e Lydio acabou por contar das aventuras que tinham trazido ele e seus companheiros ao Rio, o encontro com Getúlio e tudo o mais. Dona Emília, por seu lado, contou Lydio a história do seu João, o Capitão João Lima do Lóide. João sempre fora um marido distante comandando seus navios em viagens pela costa brasileira e mesmo pelo mundo. Agora, João de Emília estava distante para sempre. 

Para desanuviar e não perturbar o menino com suas tristezas, dona Emília quis saber de sua família. Perguntou de sua mãe e de seu padrasto. Soube que eles estavam bem, e ficou bem feliz com a lembrança e a visita. 

Quando saiu de lá, Lydio quis relaxar um pouquinho. Dali, com seus muitos passes, ele foi até Bonsucesso. Lá ele queria ver o simpático time da Leopoldina, que tanto trabalho dava aos times da Zona Sul. 

De lá, ele foi à Penha. Ele foi pedir à padroeira para lhe ajudar, mas não teve coragem de subir os 400 degraus cavados na rocha. Apesar de devoto, ele não estava muito pra penitencias. O que ele diz é que o espetáculo da Igreja lá no alto do morro era muito bonito. Será que ele lembrou de outra igreja, em cima de uma colina?

Ao voltar para o Colégio Militar, os colegas estavam preocupados, pois havia demorado muito. Ele explicou o que tinha feito. E os cinco foram encher a barriga no rancho do Colégio Militar. 

À noite, Lydio foi dar uma voltinha ao redor do Colégio Militar, para ver se encontrava sua namorada. Mas não teve sucesso. Ele demorou muito, e a sua “pequena” não quis esperar. A fila andou...

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 73: LOURIVAL FONTES E A FOTO ICÔNICA


De terno branco ao centro da foto o Dr Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda, o famigerado DIP; no dia seguinte ele teria uma reunião exclusiva com os escoteiros antoninenses, quando lhes entregou a icônica foto da entrega da mensagem a Getúlio Vargas

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 23 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) fazem nova visita ao Departamento de IMprensa e Propaganda, o famigerado DIP.)

Na segunda feira, 23 de fevereiro de 1942, os cinco rapazes fizeram uma visita ao DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda. Já haviam estado lá na semana anterior, mas com toda a balburdia dos outros escoteiros. Agora eram só os cinco. 

O DIP era o temido Departamento de Censura do governo do Estado Novo. O DIP atuava firmemente na censura a jornais e rádios. O jornal Estado de São Paulo, por exemplo, ficou cerca de três anos com um fiscal do DIP em sua redação, para censurar as notícias que o governo não gostava. 

Além disso, o DIP produzia muitas pelas de propaganda, em geral louvando Getúlio Vargas. Estes livros contavam desde sua infância em São Borja, até episódios de sua juventude. Tudo engrandecendo Getúlio, e fazendo uma propaganda da moralidade requerida pelo Regime. Quando criança, era louvado por ser “bom estudante”, “bom companheiro”. Como líder, era o homem sábio, defensor da justiça e, pra ficar por aqui, “amigo maior” das crianças. 

Desde quando foi montado, em 1938, até a visita dos escoteiros, o DIP era ativo numa propaganda estilo nazifascista, imitando a propaganda de Hitler e Mussolini. Entretanto, com a guinada de Vargas a um apoio aos Estados Unidos na Guerra, o DIP iria mudar de cara. Seus tempos finais o Departamento foi um apoio firme ao esforço de guerra aliado, embora mantivesse a ferrenha censura internamente. 

Os rapazes se encontraram com o diretor, Dr Lourival Fontes, que conversou demoradamente com eles a respeito da aventura deles. Lourival Fontes era um jornalista sergipano, que se mostrou um notório defensor de doutrinas autoritárias. Foi ele que imprimiu a maior parte da estratégia de propaganda fascista do DIP que os rapazes agora visitavam. Em julho deste mesmo ano de 1942, por causa das mudanças na política Getulista em relação a guerra, Lourival Fontes pediu sua demissão. 

Nesta visita dos rapazes ao DIP, o Dr Lourival Fontes deu a eles diversas fotografias oficiais. Entre elas, a icônica foto da entrega da carta a Getúlio por Milton Oribe. Temos claro, portanto, que a viagem dos rapazes ao Rio também foi uma propaganda do Regime do Estado Novo. Também lhes passou vários livros didáticos. 

Depois, eles passaram pela Federação Carioca dos Escoteiros. Agora, eles queriam receber notícias dos amigos e familiares, mas também saber como é que eles voltariam. 

Da parte dos rapazes, tudo era especulação. Canário achava que eles deveriam voltar de avião. Sonhava com uma viagem em que pudesse ver tudo do alto. Já para Manduca, o melhor seria voltar de trem, pois eles poderiam conhecer outras cidades. Lydio achava que de navio seria o método melhor e mais rápido. Chefe Beto dizia que o melhor seria voltar num automóvel militar. Já imaginou entrar em Antonina num daqueles caminhões de choque?

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 72: O COLEGIO VAZIO

O navio Olinda, da Carbonífera Sulriograndense, afundado por submarinos alemães em fevereiro de 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão no Colégio Militar vazio, com a partida dos demais grupos escoteiros.)

Naquele domingo, 22 de fevereiro de 1942, os cinco escoteiros já estavam há 23 dias no Rio. 23 dias de um clima “Senegalês”, segundo Lydio. Pra combater o calor, muito ventilador e muito banho de água fria. Em vez de café, só tomavam mate gelado. 

Lydio, pra afastar o tedio, ficava a rabiscar o diário, que andava bem atrasado. Chefe beto, por outro lado, ficava na cama, a ler um jornal sobre as últimas notícias da guerra na Europa. 

As notícias aquele dia não eram boas. Havia poucos dias, o vapor Olinda, pertencente à carbonífera Riograndense, havia sido afundado por um Uboat alemão perto da costa do cabo Hateras, na costa americana. Este havia sido o segundo navio de bandeira brasileira afundado somente naquela semana. Havia poucos dias, o navio Buarque, pertencendo ao Loide brasileiro, havia sido afundado na mesma região. 

Até aquele momento, três navios brasileiros haviam sido afundados pelos alemães. No jornal do Brasil daquele dia, o secretario de estado americano Summer Wellles havia anunciado que, para os países aliados dos Estados Unidos no continente americano, seria instituído um sistema de comboios. 

Por outro lado, o jornal alertava para notícias falsas sendo propagadas sobre ataque alemães ao Brasil. Citava um caso de que um alerta havia sido emitido pera Natal, e pedia mais atenção para evitar pânico exagerado. Em tempo de guerra, tempo de fake News. 

Toda esta situação preocupava muito todos os que tinham que ser transportados via marítima. Os navios viajavam com o casco pintado de cinza, e nem sempre com a bandeira de seu pais. Muitos alarmes falsos deixavam a população alarmada com a presença de submarinos ao longo da costa brasileira. 

Ainda não havia chegado julho/agosto de 1942, tempo da “alegre carnificina” dos Uboats alemães em plena costa brasileira, que haveria de custa mais de 2500 vidas de brasileiros. Mas os dados estavam jogados. 

Os escoteiros, entretanto, também tinham preocupações com viagens. Aquele dia também, estava marcado como o dia de retorno das delegações escoteiras a seus estados. Os gaúchos foram os primeiros. As 8 da manhã, a bordo do vapor Aratimbó, o mesmo que os havia trazido à Capital Federal, os levou de volta. Sem incidentes, diga-se de passagem.

As 16:30 horas foi a vez da delegação paulista, que voltou de trem. 

E o Colégio Militar começou a ficar grande demais, só para os cinco. 

Cinco não, seis. Agora fazia parte da turma o escoteiro Gastão Batinga, que regressaria com os rapazes ao Paraná, pois pertencera a Delegação Gaúcha e tinha solicitado permissão de seus superiores apara voltar com os rapazes. 

Gastão era alagoano, e residia em Santa Maria, no Rio Grade do Sul. Entretanto, agora ele estava se mudando para Curitiba, já tinha até feito a matrícula. 

Lydio comenta com pesar que nem sabia o que o colega iria estudar. Ele não disse, e eles não perguntaram. Gastão Batinga era um colega muito bem, alegre e atencioso, e foi um baita companheirão nestes últimos dias de viagem.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 71: QUEBRA COCO, QUEBRA COCO!

Fotos do Jornal A Noite, do Fogo de Conselho do Russel, em fevereiro de 1942, do qual participaram os escoteiros antoninenses

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) participam de um grande Fogo de Conselho.)

Naquele sábado, 21 de fevereiro de 1942, o calor continuava infernal. Às vezes, faltava água nas torneiras. Para os rapazes isso não fazia diferença. Ainda bem que existia Copacabana, com suas praias ora verdes ora azuis. 

Mais do que isso, o que chamava a atenção dos rapazes eram as sereias que costumavam aparecer por aquelas bandas. Quando eles foram por lá, ficavam admirando os corpos reluzentes de óleo. E, claro, a procura de um banho refrescante. 

Quando eles foram lá dar os seus mergulhos, ficavam lá tomando sorvetes, um após o outro. Depois, quando o sol abaixava, lá iam eles explorar a cidade maravilhosa. Agora com muitos passes, eles se davam ao luxo de andar de lá pra cá e descer em qualquer estação, onde tivesse algo que lhes chamasse a atenção. Valia qualquer coisa, desde um camelo fazendo magicas até mostrando o perigoso peixe elétrico do amazonas. 

Neste sábado, Lydio saiu sozinho pela manhã para olhar os treinos do fluminense e do botafogo. Em Laranjeiras, ele viu jogadores famosos, como Batatais, Norival, Afonsinho, Pedro Amarin, Romeu, Tim, Hercules, Carreiro e outros. 

No campo do Botafogo, em General Severiano, ele viu os cobras: Aimoré, Nariz, Tovar, Carvalho Leite, Perácio, Patesko e o inesquecível Heleno de Freitas. 

A tarde, as delegações escoteira continuavam seu passeio cívico militar. Neste dia, eles foram conhecer o arsenal da marinha de Guerra, localizada na ilha das cobras. De um lado do cais, puderam ver diversos submarinos e também algumas caravelas. 

Do outro lado estavam os torpedeiros, contratorpedeiros, e lanchões de desembarque. Ao largo dois belíssimos destroieres e o cruzador São Paulo. Tudo nos trinques, pronto para entrar em ação. 

De noite, na praça do Russel foi realizado um fogo de conselho, o maior do ano. Contando com a presença de escoteiros da federação Carioca e fluminense, a paulista, a gaúcha e a pequena representação da federação Paraná-Santa Catarina, representada pelos cinco rapazes. 

O Fogo de Conselho foi tão grande e tão importante, que chegou a ser irradiado pela Rádio Educadora Municipal, a rádio da Prefeitura do Rio.
Lydio lembra das quadrinhas: 

Lá em cima daquele morro
Tem um velho galinheiro
Quando vê moça bonita
Faz gaiola sem puleiro!

Outro escoteiro respondia:
La em cima daquele morro
Tem um velho pula muro
Quando vê moça bonita
Faz gaiola no escuro!
E logo vinha o refrão:
Quebra coco, quebra coco
Na ladeira do piá
Escoteiro quebra coco
E depois vai trabaiá!

Eles cantaram o hino nacional e outros hinos. 

E voltaram para Colégio Militar de São Cristóvão para um merecido repouso.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 70: SIEMPRE LISTO!


A estatua do escoteiro chileno, no Rio, visitada pelos escoteiros antoninenses em 1942. Esta estátua tem também muitas peripécias pra contar...
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) tem um dia de passeio por Museus Históricos do Rio. A visita a uma estatua de um escoteiro é o destaque.)


No dia seguinte da entrega da carta, o clima entre os rapazes era de alegria e dever cumprido. 

Menos para Chefe Beto. Estes havia ficado para trás e não participara do evento. Um segundinho só, uma rápida ida ao banheiro! Quando da chegada dos rapazes de Petrópolis no dia anterior, eles encontraram chefe Beto extremamente nervoso, andando para lá a para cá no alojamento. Em nenhum momento se acalmou. 

No entanto, a lista de tarefas ainda era grande. Neste dia, eles foram requisitados a cortar o cabelo, que já estava bem crescidinho. Em tempos de guerra e em tempos de higienismo como doutrina dominante, cabelos e pelos não eram coisas para se mostrar. Coisa suja. Portanto, naquela época, nada de escoteiro cabeludo!

Depois, à tarde, eles foram desafiados para uma partida de futebol. Lydio e Canário reforçaram o meio-campo do time dos escoteiros gaúchos contra a tropa paulista. Foi um grande épico, que terminou 3 a 2 para a tropa sulina. Canário, para variar, deixou o seu no placar. 

A tarde, os escoteiros saíram para visitar monumentos históricos. Eles visitaram o monumento ao Barão de Mauá. Depois se seguiram Tiradentes, Duque de Caxias, e os Marechais Floriano e Deodoro. As estatuas dos almirantes Barroso e Tamandaré também foram visitadas. Quanta estatua! Por certo os escoteiros não aguentavam mais...

Mas ainda tinha mais. Eles foram conhecer o monumento ao escoteiro chileno, na praça do Russel, na Glória. Este monumento havia sido doado pelos escoteiros chilenos aos seus colegas brasileiros, como retribuição da ajuda prestada pelos brasileiros a um devastador terremoto. Foi executado pelo artista chileno Fernando Thauby.

Era uma estátua de bronze mostrando um rapaz agitando uma bandeira. Na outra, segurava um chapéu de escoteiro.  No pedestal estava a frase “Siempre Listo”, que representa a saudação escoteira em espanhol. 

Como um detalhe dos tempos que correm, a estatua foi roubada de seu pedestal maio de 2019, quando foram serrados seus pés. Entretanto, com grande determinação os escoteiros puderam ter uma boa notícia. Em outubro do mesmo ano, a estatua foi recuperada, e agora está para ser restaurada e reposta ao seu lugar. Siempre Listo!

Tanto espírito cívico culminou com uma visita ao famoso DIP – Departamento de Imprensa e propaganda. Falaremos sobre o DIP mais adiante. No famigerado órgão de censura da ditadura do Estado Novo, os escoteiros assistiram diversos filmes educativos, claro está. 

Conheceram a sala de imprensa e a horrenda sala de censura. Na saída, como se não fosse bastante horror, ainda foram presenteados com livros educativos, obviamente glorificando o Estado Novo. 

Ao dormir neste dia no Colégio Militar, os rapazes devem ter sonhado sonhos de bronze...

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 69: FINALMENTE, O ENCONTRO COM GETULIO!


Os jornais do dia seguinte deram destaque ao encontro do ditador Getúlio Vargas com os escoteiros
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) finalmente vão a Petropolis, para entregar sua mensagem a Getúlio Vargas.)

O grande dia havia chegado.


No quartel, todos estavam agitados, com os últimos preparativos para a viagem a Petrópolis, para ver o Presidente Vargas. “O reboliço era demais”, anota Lydio Cabreira em seu diário. Desde as 6 da manhã havia um intenso corre-corre de rapazes arrumando os uniformes, escovando os dentes, penteando os cabelos, colocando os lenços, os chapéus, os cintos, e toda a farda escoteira da época. 


Os escoteiros seguiram em carros de choque da policia do exercito para Petrópolis, onde veraneava Getúlio Vargas. Só um escoteiro não foi. O chefe Beto, logo o chefe Beto, tivera que ir ao banheiro e havia perdido o transporte. Segundo Lydio, ele e seus colegas em vão apelaram aos chefes escoteiros para que esperassem por ele. Mas não. As 7:00 foi dada a ordem de largada. Os caminhões se foram e o chefe Beto ficou. 


Lydio nos conta o trajeto: seguiram pela Quinta da Boa Vista, São Januário, Bonsucesso, Ramos, Penha, Vigário Geral. Quando os caminhões pegaram a Rio-Petrópolis, Lydio se encanta: aquela era “a rodovia mais bonita que eu já havia visto”. Não era para menos. Reconstruída a partir da antiga estrada imperial, a estrada foi remodelada por Washington Luiz, que a reinaugurara em 1928. Durante muito tempo, foi considerada a melhor estrada da América do Sul. 

Lydio nos conta que a rodovia era asfaltada e, em alguns locais, cimentada. Nas laterais da estrada as amuradas eram presas por cabos de aço, para evitar acidentes. Havia muitas pontes. As pontes em formas de arcos encantam Lydio: “eram verdadeiras maravilhas da engenharia brasileira”, comenta.  


A estrada era muito sinuosa, correndo por entre as matas de intenso verde. Os rapazes se encantam com sua beleza. A estrada, em alguns trechos era cavada na rocha. Para Lydio, estes trechos apresentavam “o aspecto de uma paisagem europeia”. O clima ia ficando mais frio na medida em que subiam. As matas verdejantes colaboravam para que o clima tropical fosse amainado e seu ar fosse de uma pureza total, conforme anotou Lydio.


A comitiva chegou em Petrópolis por volta das dez e meia. Os veículos seguiram para o quartel do 1° Batalhão de Caçadores, uma das tropas de elite do Brasil na época. Logo a seguir, os rapazes assistiram no pátio interno do quartel a uma parada militar de toda a corporação para homenagear o General Heitor Augusto Borges e sua comitiva. O general, que já era conhecido dos rapazes de Antonina, era uma das figuras mais importantes neste momento, e também era chefe da União dos Escoteiros. Era ele que estava por trás daquela solenidade.  


Depois da parada, os escoteiros fizeram o rancho nos refeitórios do quartel, e logo a seguir foram ao Palácio Rio Negro, onde ia ter início a solenidade daquele dia. O palácio era um belo prédio art nouveau construído pelo Barão do Rio Negro nos últimos anos da monarquia. 

Na Republica, o imóvel foi adquirido pelo estado, transformando-se no palácio de verão dos presidentes brasileiros. De todos eles, quem mais fez uso do palácio sem dúvida foi Getúlio Vargas. Não houve um verão em seu governo que ele lá não estivesse. 


Enquanto isso, nos jardins do Palácio, os escoteiros, enfileirados, estavam impacientes. já estavam por lá aguardando havia meia hora quando o presidente finalmente apontou numa esquina. Getúlio Vargas, todo de branco, vinha a pé, depois do passeio que costumeiramente fazia após o almoço.

Um grande alvoroço tomou conta da tropa. 



Getúlio Vargas veio para a solenidade vestido com um terno de linho branco, palheta, gravata borboleta e do seu inseparável charuto havana. Parece quase uma caricatura dele mesmo. Era um  clichê, paletó de linho branco e tudo, que vinha ali descendo a alameda do Palácio Rio Negro, acompanhado de dois majores aviadores, Cantalice e Rolim. O comandante Rolim havia vindo junto com a caravana dos escoteiros.


A imagem do presidente descendo sorridente a alameda deve ter realmente magnetizado os cento e cinquenta rapazes ali presentes. Lydio nos conta que “aos poucos ele veio se aproximando com seu sorriso de cativar”, sorrindo a acenando para os presentes. Ali estavam setenta escoteiros de Santa Maria, no Rio Grande do sul, que compunham a “Caravana Henrique Dodsworth”, que homenageava o intendente do Distrito Federal durante o Estado Novo. 

 Havia também a tropa mais numerosa, cerca de oitenta escoteiros paulistas, a maioria proveniente de Piracicaba e Campinas. E a pequena Patrulha Touro, representando a Tropa Vale Porto de Antonina, Paraná. 


Estavam ainda presentes um repórter oficial e um fotógrafo do famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo), vários jornalistas credenciados e “uma porção de crianças e mocinhas”, segundo o testemunho de Lydio. 

Segundo a edição do dia seguinte de A Noite, o presidente havia sido surpreendido pela caravana escoteira durante a sua caminhada. Mas, como vinha até ali acompanhado do major Rolim, um dos integrantes da Caravana, isso parece pouco provável. 


O General Heitor Borges, que era o presidente da UEB e idealizador do evento e da Caravana, chamada “Caravana Presidente Vargas”, fez as saudações. Segundo a reportagem do jornal A Noite, o general saudou o presidente num breve discurso e, em nome da Caravana, disse que os escoteiros estavam ali para expressar seu reconhecimento “pelas atenções que tem recebido”. A seguir, começaram as entregas das mensagens. 


Os escoteiros gaúchos fizeram a entrega de um livro de madeira com gravuras em relevo. Os escoteiros paulistas entregaram, por intermédio de um lobinho, um enorme gomo de bambu envernizado também todo entalhado e com a mensagem em alto relevo. Foi então que chegou a vez dos escoteiros antoninenses. 

Milton Horibe deu um passo à frente e tendo a mão um pergaminho disse: “A mocidade de meu estado lhe envia, por nosso intermédio, suas saudações e seus cumprimentos”. Ao que Getúlio lhe respondeu: “essa vossa ação revela coragem, antes de tudo. Isso dá uma demonstração do caráter nobre e da fibra moral do escoteiro”. 


Não se sabe o quanto estas frases e gestos foram pensados e ensaiados, como que escrevendo frases para ficar na história. Estas, com algumas pequenas modificações, são as frases do diário de Lydio e o dos jornais que noticiaram os fatos, como A Noite ou o Diário de Notícias. Mas o que transparece no diário de Lydio é a profunda emoção daquele encontro. Conta-nos ele que, depois desta troca de frases grandiloquentes, Getúlio aproximou-se e “abraçou-nos demoradamente”. 


O Diário De Noticias relata ainda que o general Heitor Borges depois disso dirigiu-se ao presidente num também breve discurso, colocando-o a par das atividades a serem desenvolvidas pela UEB naquele ano, o que teve boa recepção por parte de Getúlio. Este, depois da pequena cerimonia, despediu-se e todos e, com seu havana nas mãos, foi para a sacada do palácio Rio Negro, de onde assistiu o desfile dos escoteiros ao som da Banda do 1º Batalhão de Caçadores. 


Lydio relata que os “outros documentos” que haviam trazido, foram depois entregues ao ajudante de ordens do presidente. 


A missão estava cumprida. Agora, restava a volta. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 68: UMA QUARTA FEIRA DE CINZAS

Foliões voltando pra casa na quarta feira de cinzas, depois de pegar um cana...a policia cumprindo seu papel de achacar e constranger o cidadão, naquele longínquo carnaval de 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), ainda de ressaca do carnaval, vão dar um passeio por Museus do Rio. Amanhã será o dia do encontro com o ditador Getúlio Vargas!)


Acabou mais um carnaval. 

Naquela quarta-feira de cinzas o Rio de Janeiro – e o país, por que não? – amanheceram de ressaca. E daquelas brabas. 

Nada abria no período da manhã, a não ser as “luginha” dos turcos. Repartições Federais, estaduais, municipais, nada abria naquela quarta-feira de cinzas. Era um silencio quase mortal pelas ruas que ontem estavam roucas. Aqui e ali ainda se viam alguns foliões retardatários pela cidade. 

Estes foliões desgarrados pareciam zumbis andando nas ruas, procurando suas casas. Alguns tinham dormindo na rua mesmo, em algum canto de marquise, em algum banco de praça. Outros tinham achado um lugar pra dormir na casa de aguem, quem sabe dormindo agarradinho. Outros, foliões de raça, ficaram firmes, de bar em bar, até o último gole de cachaça. Até tudo virar saudade. 

À tarde, quando a cidade anda tentava se recobrar da vida normal, os escoteiros saíram pela rua. Alguns de ressaca, outros não. Mas eram muitos. Eram quase duzentos escoteiros. Naquela cidade enzumbizada, eles procuravam um destino. E seu destino, naquela quarta-feira de cinzas, era o Museu Histórico. 

Lá no pátio do museu, alinhados uns aos outros, estavam os canhões do tempo das invasões holandesas ou do tempo da Guerra do Paraguai. Havia canhões que estiveram nas caravelas ou nos navios de piratas e flibusteiros que rondavam as costas da terra dos papagaios. 

Havia ali canhões de todos os tipos e tamanhos. Canhões para afastar qualquer inimigo. Entretanto, ao contrário dos canhões sempre em riste, apontados para o céu, as bolas de ferro destes canhões descansavam, apaziguadas, na grama verde do museu. Para elas, que todos os horrores viram, aquele museu era uma eterna quarta-feira de cinzas.

Lá no Museu, os duzentos escoteiros demoraram bem umas três horas. Tinha muita coisa pra ver. Os rapazes viram o trono que foi de dom Pedro, bem como a mobília de Dom João VI. Será que alguém teve o desejo de se sentar no trono imperial? 

Lydio conta que os rapazes se encantaram com a espada de ouro de Dom Pedro e a outra, também de ouro, que fora do Marechal Deodoro. Se estivessem na mesma sala, o primeiro imperador e o primeiro presidente republicano terçariam armas? Ou tomariam um chazinho para aparar as diferenças? 

Eles viram também o chapéu de Santos Dumont, ainda fresco, pois o grande inventor havia falecido havia somente uns dez anos. E já era a glória que era. Simples, meio arredio, Santos Dumont não comparecera para a história e mandara seu chapéu vir representá-lo. 

Também estavam no museu os sapatos de diversas imperatrizes. Como eram? Incompetente em coisas femininas, os rapazes somente citaram a presença de tão fundamental peça de vestuário. De qual das imperatrizes? Bonitos, feios, limpos ou sujos de terra? Ou mimosos, de cores delicadas? Diante deles, os olhos marciais de duas centenas de escoteiros devem ter feito olhares de indiferença. 

Ao sair do museu, aquela multidão de escoteiros foi visitar o Major Alencastro Guimarães. Como vimos anteriormente, ele era o Diretor da Central do Brasil, e os rapazes de Antonina já o conheciam. Depois, ainda tiveram um tempinho para ir ao aeroporto Santos Dumont. Lá, divertiram-se à beça com os aviões pousando e decolando naquela pista curta e tão rente ao mar. 

Exaustos de passeio e carnaval, os rapazes regressaram com Colégio Militar, em São Cristóvão, para descansar. Deveriam mesmo. 

O dia seguinte seria o dia da mais importante da jornada...