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sábado, 24 de agosto de 2019

A AMAZONIA E A IRRESPONSABLIDADE DO GOVERNO BOLSONARO


O tuite de Macron: ontem, como hoje, a Amazonia está em chamas: qual a diferença?
Vivemos mesmo numa época muito estranha.
Esta semana, que começou com as nuvens negras escurecendo o céu do sudeste do Brasil, assustando a todos com as queimadas na Amazônia, terminou com o governo Bolsonaro acuado e desdizendo-se frente a ameaça internacional.
A tragédia continua se desenrolando, agora em tom de drama, com pinceladas de farsa. Com a reação internacional se avolumando, Bolsonaro faz mais do mesmo. Como o moleque de 12 anos que continua sendo, não levou desaforo pra casa. Se o xingam, ele devolve: “é a tua!”. Assim, protagonizou nestas últimas semanas diversos bate-bocas sobre temas ambientais com representantes de diversos países, sobretudo europeus.
O filhinho, candidato a ser diplomata, seguiu o papai, compartilhando um tuite que chamava o presidente da França de "idiota". “É a tua! Mexeu com papai, mexeu comigo!”. Depois, diante de vozes que o chamavam a razão, dizendo ser sua atitude incompatível com a de um pretendente a cargo de diplomata, ele recuou, como sempre faz o papi. Não, não foi bem assim, não quis dizer isso...
Assisti diversas manifestações da formadores de opinião na imprensa brasileira. Da esgotosfera das redes socais nem falo, por pudor. Outrossim, como diz um importante influencer moderno, é incrível ver as piruetas que os setores conservadores que ainda apoiam Bolsonaro fazem para contornar a caca que foi criada. 
A imprensa alinhada a Bolsonaro passou o dia reclamando da imagem antiga da foto que Macron colocou em seu tuite. Como que se para redimir da foto de dinamarqueses matando baleias que dias antes estava o próprio Jair  atribuindo a noruegueses. Ela, a imprensa bolsonarista, repetiu as platitudes sobre o alto grau de preservação das florestas do Brasil e atacando a mídia “globalista”. Citam estatísticas as mais variadas para provar que o repique da destruição da floresta não é tão grande assim.
Para começar: está certíssima Marina Silva, ao dizer que sempre houve desmatamento e queimada na Amazônia. Não é disso que se trata. O problema, e concordo com ela, é que estamos no limiar de um recrudescimento das ameaças a florestas, com o apoio nada velado do poder público.
Não vai ter nenhum vídeo de Jair botando fogo na mata, como um Nero caipira.
Entretanto, em abril deste ano, a pedido do presidente, o governo proibiu de queimar as maquinas apreendidas aos madeireiros pelos funcionários do IBAMA em Rondônia. Ao contrário, o próprio ministro do meio ambiente, o condenado por crimes ambientais Ricardo Salles, se reuniu com madeireiros para dar garantias de que o governo ia relativizar as apreensões, dando a certeza de sua impunidade.
O fiscal do IBAMA que multou Bolsonaro em 2012 foi afastado de suas funções e a multa que ele aplicou ao então deputado foi cancelada, para escárnio da lei.
O desmantelamento do aparato fiscalizatório desde janeiro é obvio. As falas e ações de Ricardo Salles no sentido de desmontar os órgãos de fiscalização e não punir crimes ambientais é patente. Sua determinação de “compensar”ruralistas com o dinheiro do fundo Amazônia provocou o colapso que se viu, até que os governos de Alemanha e Noruega retiraram seus repasses.
Quando o INPE informou que o desmatamento estava aumentando, o que o governo faz? Desmente e desacredita os dados. O presidente do INPE, Ricardo Galvão, defende a integridade dos dados do Instituto, e é demitido.
São tantos os sinais que, mesmo não dizendo, é fácil concluir que foi o próprio governo que incentivou o fogo na mata. O agora famoso jornal da cidade de Novo Progresso, no Pará, reclama do descaso governamental e clama ao presidente solução para os problemas dos fazendeiros. Numa terra sem lei, com os fiscais manietados e amordaçados, e sem os soldados da Força Nacional que os amparasse, os fazendeiros se sentiram livres para promover o criminoso “dia do fogo”, em 10 de agosto último. As chamas das queimadas foram detectadas pelos satélites de todo o mundo.
Com a "segunda feira negra" no Sudeste, a grita aumentou. São Paulo começou a entender o que acontecia com Boa Vista. O fogo e as queimadas ardiam no coração do continente, atingindo não só o Brasil, mas também Paraguai e Bolívia.
O governo faz de conta que não é com ele. “Sensacionalismo”,rebateu Ricardo Salles. No meio de seu terraplanismo mental, Jair acusou as ONGs de colocar fogo para incriminar o governo. “Perderam milhões, e agora podem estar se vingando”, disse aos jornalistas.
Foi quando o mundo se postou frente a ameaça que o governo acusou o golpe. Depois de bater boca com Macron, Bolsonaro teve que fazer um pronunciamento em rede pública de televisão para se explicar. E levar seu primeiro grande panelaço nacional. Nervoso ao ler o teleprompter (ele tem problemas cognitivos para fazê-lo, como se sabe), foi cômico ver Jair defendendo a "froresta" amazônica, a Lei Ambiental brasileira (“uma das mais avançadas do Mundo”, disse ele, com a boca contraída), acusando o clima seco da estação com culpado e fazendo uma defesa pífia e nacionalisteira de uma região que meses antes ele quase oferecera de graça à Donald Trump.
A única coisa de concreto, e a única coisa que sabe fazer, foi enviar o exército para a região (onde, exatamente?) numa operação de garantia da lei e da ordem. Melhor seria se estivesse enviando bombeiros...
Enquanto isso, a Amazônia continua ardendo. Os conflitos estão todos lá, com um governo reclamando do fogo (literal e metafórico) que ele mesmo ajudou a atear. A conta da irresponsabilidade mais cedo ou mais tarde, vai chegar para todos nós, brasileiros. 
Quais os planos para sair dessa enrascada? Ajuda aí, Adélio!!
[agora, é só esperar os bots (virtuais e de carne e osso) que vão vir desqualificar algum dado ou alguém]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A ESCURIDÃO AVANÇA (E TEM GENTE QUE NÃO QUER VER)


https://glo.bo/2MpalWZ
Está escuro lá fora. O dia passou assim, com muito vento e nebulosidade. Tudo escuro. O sol mal apareceu hoje de manhã. Por um instante eu o confundi com a Lua, mas não! Era ele, o sol, tentando escapar por entre as nuvens!
Fui correndo pegar o telefone pra fazer uma foto. Quando fui tirar as fotos, vi algumas fuligens caindo. Fuligem, pequenos pedaços carbonizados, em geral de folhas. Um dos pedaços tinha alguns centímetros de tamanho. Deve ser de algum incêndio grande por aqui por perto. Há alguns anos tinha mais fuligem, em geral folhas de cana queimada que caiam do céu. Esta fuligem diminuiu bastante depois que a fiscalização ambiental proibiu a queima da cana...fiscais do meio ambiente? O que tem a ver com o dia escuro?
Tendo o que ver, ou não, o dia inteiro passou assim: céu escuro, vento frio e ameaça de chuva. Aqui em Campinas, demora pra chover. Estamos no meio da estação seca. Só as frentes frias mais fortes passam. Hoje, as nuvens se concentravam ora num, ora noutro ponto do céu. De lá pra cá e de cá pra lá, sempre cinza escuras, ameaçadoras;
No supermercado, as luzes estavam acesas no meio da tarde. Fiz as compras pensando que estava anoitecendo, mas eram 4 da tarde. O resto do dia passou assim.
Agora à noite, quando começou uma chuvinha mais fraca, um cheiro forte de queimado tomou conta da casa. Dei uma vistoria olhando tomadas, vendo se haviam esquecido algo ligado. Nada. Eram as queimadas ao meu redor, como atestavam as partículas de fuligem caindo do céu.
Entretanto, uma coisa chamou a atenção de todos (e a minha também). O país está em chamas há quinze dias. Desde o tal “dia de fogo” dos fazendeiros de Novo Progresso, no Pará, o país está em chamas. Rondônia arde em chamas. A Bolívia e o Paraguai também. Os satélites apontam a concentração de nuvens.
Nos diferentes satélites, das mais diversas agênciasespaciais, a América do Sul está laranja, com seu coração em preto e vermelho. Não, nada de rubro-negrismo nessa hora. Trata-se da concentração de CO atmosférico. Do Acre até o vale do Paranapanema, uma mancha escura toma conta do continente. E, mais esmaecida, se estende pelo Atlântico.
Vejo que em Londrina, no extremo sul da mancha, a concentração está em 419 ppbv no site do windy.com. No norte do Paraguai a grande mancha vermelha varia entre 2000 a 5000 ppbv de CO. As manchas em Novo Progresso (PA) estão em 519 ppbv de CO.
A América do Sul está pegando fogo. Lá no coração.
Nada disso, entretanto, tem a ver com a escuridão dos céus do sudeste brasileiro hoje. Segundo o INPE - e eu acredito no INPE, a escuridão foi causada por uma frente fria (Não é um acreditar religioso, percebam. Acredito no INPE porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) trabalha com dados robustos de tempo/Clima e tem uma grande equipe de cientistas que interpretam estes dados).
Seja fogo ou seja frente fria, o que mais chamou atenção hoje, no entanto, foi que o dia pareceu noite. Como na metáfora.
A escuridão metafórica (também) avança. E tem gente que não quer ver.  

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O DESASTRE "EMINENTE"

https://bit.ly/2JsQHYO

Não tenho por hábito criticar os erros de português das pessoas. A professora Deise Picanço, minha irmã, sempre me preveniu: “nunca caçoe ou critique quem escreve ou fala errado”. Para ela, professora da UFPR, escrever errado ou certo é função da trajetória de vida que cada um teve. E isso ninguém escolhe. Caçoar de quem fala errado, diz Deise, é perpetuar antigas injustiças, é castigar quem já foi castigado com uma educação ruim.
Depois que aprendi isso, passei a relevar gramáticas ou ortografias. Quem fala “errado”, mas se comunica bem, na verdade está vencendo uma barreira cultural e social. Um exemplo de pessoa com pouco estudo, mas muita inteligência, é o presidente Lula. Apesar do seu português ruim, é um orador incomparável e um político como poucos. Quer seus detratores queiram, quer não.
 Como a sociedade que queremos não precisa de barreiras culturais e sociais entre pessoas mais e menos cultas, todos com algo a dizer merecem ser ouvidos. Com isso, a língua se enriquece, a comunicação se enriquece, a cultura se enriquece. O povo “enrica”. Quantas falas de hoje se originaram das falas “erradas” das massas populares? Inclusive nossa língua, o português, a tal “última flor do Lácio”, não era um latim popular, portanto “mal falado”?
Consigo, portanto, entender que uma pessoa que não teve acesso a uma cultura escolar mínima se expresse mal ou com alguma dificuldade, mas se expresse. Entendo e respeito. Eu mesmo cometo aqui e ali muitas faltas contra o léxico ou a concordância. Não estou aqui pra puxar a orelha de ninguém por isso.
No entanto, dos tuites dos primeiros-filhos às manifestações dos ocupantes dos primeiros e segundos escalões da República, as escorregadas da comunicação oficial no idioma de Camões são muitas. O governo que não nos governa há quase 5 meses nos dá repetidamente grandes quantidades de mancadas no léxico e na ortografia.
Não me preocupo com os erros de ortografia, mas com o que eles revelam. Antes de mais nada, o desleixo gramatical dos Bolsonaro (e dos bolsominions de primeiro e segundo escalões) são, antes de mais nada, reveladores de uma maneira de pensar.
Tais escorregadas refletem sobretudo a falta de uma cultura escolar suficiente destas pessoas, e dizem muito sobre a pressa ou o desleixo com a expressão escrita. Mas eu vejo mais que isso. Mais importante que erros de português, a ortografia falha dos próceres do atual governo marcam um certo desprezo e ódio à cultura e ao conhecimento. Como disse um amigo, "é o governo do não sei e não quero saber".
Este desprezo não está somente nas confusões entre palavras como “iminente” e “eminente”, entre “incitar” ou “insitar”. Este desprezo também não está na falta de coerência e de concordância de alguns tuites. Está no discurso mais profundo.
A blitzkrieg bolsonarista contra a Universidade veio também pela sua divisão Panzer, o WhatsApp. Os analistas das redes começaram a notar desde o dia 30 de abril próximo passadoum aumento no disparo de mensagens dizendo que as universidades eram centros devagabundos e maconheiros. Para provar, estes Zaps mostravam fotos de gente pelada, algumas de eventos ocorridos em universidades privadas, outros de ações descontextualizadas, como uma performance contra o Holocausto que virou uma reles orgia nas mensagens dos haters.
Como disse um colega daqui em seu twiter recentemente, eu também vi na internet alguns destas mensagens nos informando destas festas loucas com bebidas, drogas e gente pelada. Estas festas, pelo que diziam os Zaps,  ocorreriam diariamente pelo Campus. Da mesma forma que o referido colega, fiquei muito chateado com o fato de tais festas ocorrerem aqui do meu lado e eu nunca ficar sabendo.... nem um convitinho recebi!
Depois das críticas iniciais e da repercussão negativa das falas do governo, o discurso mudou. Primeiro, tentaram provar matematicamente, pois que a matemática é uma ciência nobre. Como os esquerdistas são notoriamente de humanas, foram usadas barrinhas de chocolate para ilustrar aaula de economia do Ministro. No entanto, além da explicação obscura sobre as porcentagens, o presidente guloso pecou no discurso e na encenação, tão típicos das Humanas e das Artes, ao comer disfarçadamente (?) o chocolatinho que deveria durar até setembro...
Depois das manifestações do #tsunamidaeducação, que levou centenas de milhares de estudantes brasileiros às ruas, o discurso mudou de novo. Os meninos e meninas mal saídos da adolescência que vi aqui nas ruas de Campinas e de todo o Brasil defendendo a Escola pública eram “idiotas” e “inocentes úteis”.
Será que o presidente teve a intenção de trazer um discurso da Guerra fria para o momento atual de propósito? Ou ele não sabe fazer outro discurso além dos que ele ouviu nos quarteis, nos anos 70, antes de ser defenestrado por indisciplina?
Os liberais, que votaram no Amoedo e não tem nada com isso, estão neste momento nas redes sociais para explicar que os meninos e meninas que querem ter a chance de ter uma universidade ou uma carreira na ciência não entenderam o Ministro mãos de tesoura. Afinal, todos os que estavam na rua eram incuráveis esquerdistas. Todos.
Estes esquerdistas, como se sabe, carecem dos recursos cognitivos mais óbvios.  Os esquerdopatas, doentes que são, não entendem que “contingenciamento não é corte”. Fiquei feliz ao ler alguns posts por aí. Ainda bem que nós esquerdopatas temos os liberais-eleitores-do-amoedo para nos curar!
Mas o discurso contra as universidades segue firme. No dia 14 foi assinado um decreto que tira dos reitores a autonomia para nomear pró-reitores, e coloca os Arapongas da ABIN para investigar todos os candidatos a altos cargos nas universidades. É claro que é uma provocação e uma ameaça, mas não vai colar. Veremos.
Não se pode, entretanto, acusar este governo de monotonia. Hoje, surgiu um texto veiculado pelo whats do presidente, em que reclama que o país é ingovernável, dirigido por corporações que não querem o bem do povo. Bolsonaro quer, mas não consegue (!) governar. Ô dó! O texto*, obra prima da teoria da conspiração, ressuscita as “Forças ocultas” que tanto assombraram Jânio Quadros em seus delírios político-etílicos.
(outra coisa interessante é que o texto é bem escrito, ao contrário das algaravias do Capitão e seus filhinhos e apaniguados do Olavo. Quem sabe o escritor, dotado de domínio da língua, não quisesse ser visto em companhia dos tatibitates do governo e preferiu se preservar, mantendo-se anônimo).
Este é um governo que sequer começou, mas já está fazendo água. A palavra impeachment voltou a correr, dita pela boca do próprio presidente. Não sei se é por aí. Não precisamos de mais impeachments. Não é, Aécio? Mas a incompetência e inapetência do governo por governar o precede.
A facada do Adélio nos fez eleger um presidente de cera, que agora se derrete ao veranico de maio. Existem, aqui e ali, quem ainda veja nele um mito. Mais e mais pessoas, finalmente, estão vendo não um mito, mas um mico.
Como diria alguma fonte oficial do governo, estamos diante de um Desastre “eminente”. 

*agora a noite acharam o autor do texto...um eleitor de João Amoedo (!?)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

UM PAIS NA BANGUELA



Sem caminhão o Brasil para, não é isso? É uma verdade nestes dias que correm. A greve dos caminhões chega ao seu quinto dia, com radicalização de todas as partes. O governo Temer, esse zumbi comandado por um vampiro, não sabe como sair da armadilha que ele mesmo criou. Os grevistas, numerosos e radicalizados, não tem comando efetivo e a anarquia começa a se instalar em vários lugares.
Ao que tudo indica, o movimento começou espontâneo. Os caminhoneiros autônomos, que em geral trabalham sempre na estica, com uma margem de sobrevivência muito estreita, não aguentou a política de preços promovida por Pedro parente, o homem do golpe dirigindo a Petrobras.
A frota brasileira de caminhões é uma das mais velhas do mundo. Os caminhoneiros não têm como comprar caminhões novos. Vivem trabalhando no limite da resistência física, a base de rebites e outros quetais. Os acidentes nas rodovias envolvendo caminhões tem uma frequência assustadora.
Por isso, a política “neoliberal” de Pedro Parente, de fazer reajustes automáticos do preço do combustível estava inviabilizando a vida dos caminhoneiros autônomos. Impossibilitados de manter suas parcas rendas, eles se rebelaram de maneira espontânea na ultima segunda feira.
O movimento acabou crescendo com a adesão de empresários, donos de grandes frotas, também pressionados pela política de preços de Pedro Parente. A greve, que era de autônomos, virou uma greve também de patrões. Não por acaso, as acusações de locaute são frequentes, tanto no governo quanto na imprensa.
A reunião em Brasília ontem, com os ministros do governo, foi uma reunião de empresários e algumas centrais sindicais. Não estava visível, a princípio, mas as pessoas que fizeram o acordo com Eliseu Padilha não tinham representatividade no movimento. O movimento não aceitou o acordo, e a radicalização aumenta.
Agora, surgem outros fantasmas. Temer, o presidente vampirode um governo zumbi, ameaça com a força. Escutam-se, entre alguns caminhoneiros, vozes pedindo intervenção militar. Os incendiários começam a divulgar mensagens para espalhar o térreo e o medo entre a população. Enquanto isso, o desabastecimento começa a ser uma ameaça real para milhões de pessoas.
O acordo que seria firmado entre o governo e os caminhoneiros começa a ser visto de uma maneira diferente. Muitos apoiam o movimento. Outros, criticam o fato de uma categoria usar de seu poder de pressão para obter um acordo que beira a chantagem. Outros movimentos surgem, como o dos motoboys e o de motoristas de van, pedindo uma diminuição também no preço da gasolina.
Eu particularmente, tenho muito receio de movimentações de caminhoneiros. Uma greve destas, em 1972 no Chile, acabou sendo o estopim do golpe que depôs Salvador Allende. Depois, se soube que o movimento dos caminhoneiros havia sido patrocinado pela CIA. Em 2015, um locaute semelhante pedia a deposição do governo de Dilma Rousseff.
Temer precisa de Pedro Parente. Por trás dos preços cada vez mais altos dos combustíveis estão setores ligados à distribuição do petróleo. Também adoram essa política o poderoso setor sucroalcooleiro, que amargou muitas perdas no passado com a política de manter baixo o preço da gasolina.
O impasse está criado. Vamos sofrer um final de semana de radicalização e desabastecimento. Outras greves semelhantes podem se formar no rastro da paralização dos caminhoneiros. O governo não tem credibilidade nem representa nada além dele mesmo, pois foi produto de uma deposição de um governo legalmente eleito. Não consegue nem ser neoliberal. Com o congresso do seu lado, não conseguiu aprovar todas as reformas que o capital queria. (O trabalho que trabalhe mais, e se cale.)
Usar a força nunca é bom. Paradoxalmente, pode ser um sinal de fraqueza. Deixar a população refém de uma categoria também não é bom, pois gera caos e anarquia. Da justiça brasileira nem é bom falar. Ela é responsável por boa parte do caos em que nos encontramos. a saída é o improviso, a falta de organização, a anarquia.
Vem a minha cabeça aquela frase que sempre achei injusta. Aquela que dizia que nós brasileiros não precisamos de furacões e terremotos. Temos nós mesmos, a brigar nas redes sociais num fla-flu sem fim. Temos um congresso que só se reúne para definir seus próprios interesses. Uma justiça capenga e parcial. E um presidente que não enxerga seu rosto no espelho.
Que São Mad Max olhe por nós.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OS VERMES FELIZES


tirei daqui
As chuvas estão cada vez mais intensas. Os temporais se avolumam, felizmente sem muito vento. Faz até um tempo mais fresco e agradável. No interior de Goiás, quando esse tempo começava, o pessoal dizia, com o acento característico: “invernô baum”.
O solo ainda não está encharcado, e as frutas “da água” começam a dar suas flores: nosso pé de acerola já começou a dar umas florzinhas tímidas e azuladas. Os passarinhos felizes saem a procurar alimento. Pardais vasculham a grama a procura de minhocas.
Os insetos zunem felizes com o calor e a umidade. Ficamos preocupados com os mosquitos: já houve um caso de chukungunha no bairro. Potes, vasos e utensílios domésticos devem ser virados pra baixo, pra não deixar a agua acumular.
De todos os animais do jardim, os mais felizes, entretanto, são os vermes da composteira. Cada vez que vou jogar alguma coisa por lá eu vejo que eles aumentaram em quantidade. Eles vivem numa superabundância. O calor, a umidade e a oferta contínua de alimento fazem vermes gordos e felizes. Restos de mangas e coisas moles e doces são as primeiras coisas a serem atacadas. É uma comilança feliz.
Estes dias, ao voltar da composteira, pensei nos projetos do governo golpista. O paralelo é claro. Estamos num momento em que tudo é feito com a maior desfaçatez. Milhões são aprovados em renúncias fiscais, em liberação de verbas parlamentares, em distribuição de cargos. Tudo em superabundância, como os vermes da composteira.
Nós, do outro lado, estamos em contenção de despesas, contingenciamento, penúria e escassez. Sem falar dos milhões de desempregados. A chuva e o calor ainda não chegaram.
Os vermes felizes e protegidos. Semana passada, ao tomar posse, o superintendente da Policia Federal fez um discurso obsceno sobre malas e provas. Mas ninguém prestou atenção. No máximo, umas figurinhas de “grr” no facebook.
Índios e pequenos posseiros continuam ameaçados por grileiros e capangas dos fazendeiros. Não há mais proteção, não há mais pudor. O sangue escorre dos grotões.
Nas cidades, pipocam aqui e ali os projetos da grife “Escola sem partido”. Com o discurso da moralidade, a censura ameaça as escolas e os professores. Só falta começar abertamente a caça às bruxas.
Faz calor, o mormaço se instala. O ar fica mais “pesado”, os insetos se agitam. O céu escurece. Vai chover. Os vermes, felizes, prosseguem sua faina de comer e comer e comer.
Parece que nada detém os vermes. As pessoas que diziam combater a corrupção estão felizes. O governo popular que os incomodava está por ora afastado. Os deputados e o presidente golpista estão perto de cercear a Policia Federal: uma mala cheia de dinheiro não prova nada.
Os tais dos meninos liberais estão assumindo sua cara de ogro e provando que o liberalismo brasileiro não é tão liberal assim. Os liberais de 64 aplaudiram a deposição de João Goulart, assim como os liberais da República Velha eram coronéis mandões e os do império não se opuseram a principio contra a escravidão. A perseguição moralista e censuradora que os jovens liberais fazem aos artistas e à liberdade artística está de acordo com as ideias autoritárias dos que querem a volta do autoritarismo militar. Tudo certo.
Os vermes continuam. A “suruba” dos vermes não para.
A primavera se desmancha em calor e umidade. Nuvens negras passeiam livremente pelo céu. Céu roxo, cinza chumbo, como diria o poeta. O pais assiste mudo à catástrofe que se aproxima.
Vamos permitir?
Os vermes – e só os vermes – estão felizes.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CIVILIZAÇÃO & BARBÁRIE


Que vivemos tempos estranhos todos sabem. No entanto, nada me deixa mais triste que todos os laços que tentamos criar, desde o fim da Segunda Guerra Mundial estejam se desfazendo diante de nossos olhos sem que ninguém consiga fazer nada.
Nestas horas tento invocar Santa Rosa Luxemburgo, pedindo que nos livre da barbárie. No entanto, ao longo destas ultimas semanas ou meses, o cenário parece ser consistentemente uma fragmentação e ruptura de laços frágeis, porem necessários.
Fazem dois séculos que estamos construindo espaços para o respeito e a dignidade individuais, os chamados Direitos humanos. Direitos esses que são das classes dominantes e pouco, muito pouco, das classes subalternas.
Os direitos da burguesia são fáceis de ver e respeitar. O direito dos outros, no entanto, é vilipendiado, negado, execrado.  Direitos humanos para humanos direitos, não é mesmo? Será que os direitos humanos de um humano “direito” branco são os mesmos de um humano “direito” negro? Será que um humano “errado” branco não tem mais direitos que um humano “direito” negro? Isso sem contar os humanos “errados” negros (ou índios, ou chechenos, ou de uma religião diferente da nossa), que são sumariamente eliminados.
Ao tentar uma construção social que seja inclusiva, que respeite classe social, credo, cor, gênero, não são fáceis os obstáculos que se interpõe. A discussão sobre humanos “errados” ou “certos” torna um debate difícil, oco, inconclusivo.
O que se vê é aumentarem barreiras, muros, dificuldades. O outro é sempre o inimigo, aquele de quem devo me defender com armas até os dentes. Estamos num tempo em que se declaram uma cínica guerra à pobreza, à diferença, negando valores fundamentais de altruísmo e solidariedade.
É com imensa tristeza que vejo a facilidade com que a mera ausência de polícia, uma polícia nem sempre boa ou cidadã, nos torna num amontoado de bestas ferozes. O que passa pela cabeça de um cidadão que saqueia uma loja? Ou nas pessoas que se aproveitam da confusão para praticar todo tipo de delitos?
Ao ver as cenas do caos no Espirito Santo, o que me vem à cabeça é que  parece que a barbárie vem nos aplicando um peremptório 7 a 1.
O que vemos surgir dessas greves de polícia é uma sociedade que não tem nenhum laço que a una. Uma sociedade esgarçada, desigual e que só se mantem unida pela força bruta e pela arbitrariedade da polícia que temos (Nos ajude, São Foucault!).
Chego a pensar que Trump tem razão ao impedir a entrada de refugiados, ou Temer e os partidos de sua coalizão golpista de impor retrocessos sociais e aumentar o nível de exploração do trabalho. Eles têm razões (as deles).
Nós é que somos estúpidos a pedir altruísmo e solidariedade numa sociedade marcada pela brutalidade e que regride ao tempo das invasões barbaras assim que a polícia desaparece. Essa sociedade eu não quero.
Feliz do povo que não precisa de polícia para viver em paz.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A HISTORIA O ABSOLVERÁ?


Cartum de Renato Machado

Quantos e quantos bytes se gastaram (e se gastarão ainda) nestes dias em que em Cuba se preparam as exéquias de Fidel Castro?
De um lado, para muitos, ele é o grande líder da mítica Revolução Cubana, que embalou os sonhos de toda uma geração de latino-americanos. Inclusive os meus. Fidel foi o herói da igualdade e da solidariedade internacional, o camarada que enfrentou (e nunca se dobrou) ao Império. Que desafiou e sobreviveu a onze presidentes americanos. O libertador de Angola e o homem que derrotou o Apartheid e possibilitou Mandela e a África do Sul moderna.
De outro lado, para muitos, aparece a figura do ditador, do déspota, do autocrata. Neste relato, alguns o filiam a Stálin e Pol Pot, assim como a Hitler e Mussolini. Este é o relato da Cuba do paredón, da perseguição, prisão e tortura de inimigos políticos, o perseguidor de artistas, gays e deficientes.
Quem é Fidel? Perguntam-se todos. O que ele significa? Por que desperta tanto amor e tanto ódio?
Não tenho a resposta, nem sei se alguém a tem. Eduardo Galeano tem a dele (aqui). Para a Direita Raivosa brasileira, ver aqui. A melhor definição de tudo é o Cartum de Renato Machado quem faz mais jus à figura do comandante. Nem Céu nem inferno, mas a História, este é o lugar (veja o original aqui). A História o absolverá? Somente com o passar do tempo e com olhos menos apaixonados poderemos chegar a uma apreciação sincera da atuação do comandante.
Entretanto, esta discussão sobre Fidel não é somente uma discussão sobre Fidel. É uma discussão sobre nós, aqui e agora. Sobre o Brasil e seu momento atual. Vejo meus companheiros de esquerda, eu incluso, a defender apaixonadamente Fidel, relativizando o lado amargo da Revolução Cubana. De fato, “gentlemans” não ganham revoluções. É preciso ter estomago para tomar algumas medidas. Não sei se eu as teria ou não, não posso julgar moralmente uma decisão deste tipo cinquenta nos depois, confortavelmente sentado em minha mesa.
Na maior parte das questões, um atenuante óbvio se anuncia: tratava-se da Guerra Fria. Se houve barbaridades daquele lado (o bloco Socialista), do outro lado (o “nosso” bloco capitalista) quantas barbaridades também não foram cometidas? Se ficarmos só na América Latina temos os exemplos da política do porrete, quando os americanos tiravam do poder quem, do campo da esquerda, ameaçasse suas políticas. Podia ser através de golpes de prepostos ou intervenção militar direta. Exemplos abundam. Pra citar dois: a deposição de Jacobo Arbenz Guzman, na Guatemala em 1954, o golpe e a deposição do esquerdista Juan Bosch na República Dominicana, que culminou com a invasão estadunidense de 1965 (com participação da Ditadura Brasileira inclusive). Nesta lista, nem entrei na América do Sul....
O Caribe no pós-guerra era um arquipélago de ditaduras sanguinárias, protegidas por Washington. Como não esquecer da Nicarágua de Somoza (1934 – 1979), da República Dominicana de Trujillo (1931-1961), do Haiti de Papa Doc (1957-1971)?
Assim quando, do nada (para a imprensa americana) um grupo de jovens barbudos desafia e vence um destes ditadores, o não menos sanguinário Fulgêncio Batista (1933-1959), estava configurado o mito.  Sim, era possível.
Cuba sofre de um processo de atração e repulsão por seu vizinho do Norte desde sua independência, em 1898. Desde a sangrenta guerra da independência, a partir da insurreição liderada pelo também mítico José Marti (El hombre sincero de donde crece la palma!), os Estados Unidos frequentemente tomaram um papel que não lhes cabia na condução da ilha. A ocupação militar durou de 1891 a 1903. É deste ano a Emenda Platt, que se estenderia até o governo de Fulgêncio Batista, em 1933. Esta emenda dava o direito de os Estados Unidos intervir em Cuba sob pretextos diversos, limitando na prática a independência do país. Desta forma, a Revolução Cubana pode ser entendida neste contexto secular como uma reação à dominação americana e uma segunda etapa do processo de independência do país.
O embargo americano também explica diversas atitudes tomadas por Cuba desde os anos 60. A resistência torna-se seu mote, e a resistência a qualquer preço. Depois do colapso da URSS em 1991 e mesmo antes, a situação econômica piora. Mas a pequena ilha resiste. O embargo gera uma porção de problemas e uma justificativa bastante plausível ao governo cubano para tomar medidas duras. Um duro embargo que já dura mais de 50 anos.
Por outro, vejo meus amigos de direita com um relato que é verdade: sim, o regime cubano matou pessoas. Os fins justificam os meios? Não posso responder que sim. Mas entender o que aconteceu dentro do espectro de seu tempo ajuda a entender algumas decisões.
O discurso da Direita está sendo usado, no entanto, para culpar a atual esquerda brasileira. Acho isso injusto e prejudicial ao bom debate. A esquerda já fez uma boa autocrítica desta e de outras práticas do passado. Não se pode achar que Stálin e Pol Pot sejam nossos camaradas. Meus nunca foram.
Hoje, a esquerda brasileira – e é só por ela que posso falar -  é mais democrática e legalista que a direita. Falo isso com muito orgulho. Durante o golpe, embora esperneássemos, o poder foi entregue sem nenhuma resistência, dentro da lei, embora não houvesse concordância com sua interpretação.
Por outro lado, a direita sempre abusou da lei (A lei? Ora, a lei!).  A direita burra vive propondo - hoje! Agora! Neste instante! -  um retorno ao passado, um passado violento que nos remete ao mundo antes da Revolução Francesa, antes da cidadania e dos direitos do homem. Um mundo de lei e de ordem. “Direitos Humanos para humanos direitos”. Mas lei e ordem para quem, cara pálida? Continuamos a mesma política do Império e da Colônia, admitindo tortura e morte sem julgamento para os mais pobres, que não por acaso são pretos e índios.
A direita mais “light” vive fazendo armadilhas e mudando as leis. Para quem está reclamando das anistias ao caixa dois e as outras patifarias que o congresso está fazendo: lembrem-se da corrupção que foram os cinco anos para Sarney e a reeleição de Fernando Henrique. O prof. Luiz Felipe Alencastro há muitos anos atrás denunciou esse golpismo “light” através das mudanças constitucionais (aqui).
Falar de Fidel, hoje, é falar do Brasil. É isso que nossos amigos de direita querem nos dizer é: “Isso não serve para nós, não está vendo? ”. “É isto o que você quer para o Brasil? ”, como diziam no tempo da Ditadura. Não, isso não nos serve. Por exemplo, não compactuo com tortura e assassinato sem julgamento, como fez o Exército Brasileiro nos anos 70 (ver o livro de Elio Gaspari, “A Ditadura Escancarada”). Atrocidades que o Exército Brasileiro nunca admitiu, o que é mais vergonhoso ainda. Não compactuo com o genocídio de pretos e índios que as policias militares e diversas milícias vem fazendo no campo e nas cidades.
Não compactuo com políticas de discriminação social, religiosa e qualquer outra. Se Fidel tratou de forma abusiva os gays (los enfermitos), ele está numa companhia que não é boa, mas numerosa. A prática de castração química, prisão e morte foi muito comum no passado (veja os exemplos na Inglaterra e nos Estados Unidos, e mesmo aqui no Brasil) e ainda o é no presente em vários países. Isso tem que ser posto em sua correta dimensão: estava errado e tem que ser denunciado. Agora, eu acho estranho que muitos que reclamam da “Ditadura Gayzista” estejam agora se compadecendo de nossos companheiros homossexuais. Cubanos.
Não gostam de Fidel? Tudo bem. Não gostam de sua prática política? Faz parte do jogo. Eu acho Fidel uma grande liderança e uma pessoa importante na luta dos povos por mais igualdade. Ele é incoerente e cometeu erros, sim. Ninguém é coerente o tempo todo. Ele não é candidato a Santo. Mas não é possível ignorar que sua luta foi importante na melhoria de vida e na redução das desigualdades em Cuba e na América Latina. Não é possível ignorar seu papel no fim do Apartheid. Não é possível ignorar as conquistas da Medicina cubana (veja um depoimento do insuspeito jornalista Jorge Pontual, da Globonews, aqui).
Cuba tem os desafios dela (ver aqui), nós temos os nossos. Nós nunca enfrentamos, com exceção dos governos petistas, o desafio de superar nossas desigualdades. Vivemos numa sociedade estamental e extremamente desigual. Nossas classes dominantes nunca quiseram expandir o ensino e a cidadania. Pelo contrário, nos enfurnamos em condomínios fechados e depois reclamamos que a rua está tomada por bandidos. Não estamos nem aí para uma sociedade em que a polícia nos trate todos como iguais. Somos coniventes com a tortura nas delegacias e com a morte de jovens, pretos, índios. Somos lenientes com a cultura do estupro, expondo nossas mulheres a situações inconcebíveis. Temos aversão e permitimos que as pessoas LGBT sofram com a violência e o assassinato.
E depois, refestelados no sofá da casa assistindo à televisão ou, então, na tela do computador ou do telefone, ficamos nos horrorizando com estas mesmas coisas. Mas no país dos outros.
Enquanto isso, Fidel entra na História pela porta da frente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O NOVO TEMPO SAQUAREMA

Foto auto-explicativa de Marcelo Camargo (agencia Brasil)

Hoje acordei bem cedo. Chovia e fazia frio. Levantei para retirar algumas coisas que deixamos no jardim e que estavam molhando. Voltei pra dentro molhado, sentido o vento frio na cara. Hoje, parece que o dia inteiro foi assim, feio e frio.
É num dia assim que vivemos um dos momentos mais tristes da historia politica do Brasil.
Tudo já estava anunciado de antemão. Os acordos já tinham sido feitos e ninguém acreditava que seria possível uma reviravolta de ultima hora nessa votação.
Dilma Roussef errou, e errou muito. Mas também acertou, várias vezes.  No seu segundo mandato, foi impiedosamente impedida de governar pelas "pautas-bomba" de Eduardo Cunha. Não há como defender o governo de Dilma pelo conjunto da obra. Mas defender a legalidade e a democracia, essa é a questão que se coloca. Como disse o blogueiro Daniel Buarque (aqui), o impeachment de Dilma Roussef acabou por reforçar nossa imagem de Democracia “disfuncional”.
Quanto ao julgamento:  foi impressionante ver Dilma Roussef durante 14 horas de sessão ali, firme, respondendo as questões duras que lhe foram feitas. Muitos estranharam o seu jeito demorado de responder, a fala muitas vezes repleta de tecnicalidades e alguns equívocos. Muitos dos que vi fazendo gracinha com os eventuais deslizes de Dilma Rousseff não passariam numa mera apresentação de seminário na faculdade. Mas, no “haterismo” da internet, viram doutores.
Num bombardeio desses, o que ficou não foram os eventuais equívocos e deslizes, mas os muitos acertos de sua narrativa. O que ficou foi sim uma Presidenta da República respondendo politicamente a um julgamento baseado em falsas premissas. E ela as respondeu, uma a uma. Collor faltou à dele, e duvido que muitos destes doutos senhores ali do Senado tivesse a força demonstrada por Dilma ao fazê-lo.
Sim, porque a vontade de destitui-la veio muito antes das razões que se levantaram para tanto. Primeiro queriam a recontagem dos votos. Não deu em nada. Depois, desconfiaram das urnas eletrônicas. Como se tivessem pequenos petralhas digitais nas urnas fraudando votos, o que obviamente não foi verificado. A verdade é que a direita no Brasil sempre tem desconfianças com as urnas, e não só das eletrônicas. Desde a UDN, quando a democracia de massas se implantou no Brasil, preferem o caminho do golpe ou das mudanças constitucionais. Voltaremos a este assunto em outra ocasião.
Bom, aí vieram as tais das pedaladas fiscais. É um argumento muito fraco. Para o especialista Kai Micheal Kenkel, do Instituto alemão de Estudos Globais e Regional e observador do processo, o uso das pedaladas configuraram um abuso do mecanismo de impeachment (ver aqui). Segundo ele, além dos vários pareceres que demonstraram que as pedaladas não podem ser enquadradas como crime, uma vez que “outros presidentes já fizeram uso das pedaladas fiscais. A única diferença é a envergadura, que foi maior sob Dilma", conclui Kenkel.
As tais das pedaladas fiscais soarão no futuro tão ridículas quanto outros processos políticos do passado.
Lembro aqui, do famoso Plano Cohen. Divulgado pelo governo de Getúlio Vargas em 1937, continha um suposto plano de tomada do poder pelos comunistas. Sabe-se hoje que foi escrito pelo então capitão do exército (e não por acaso golpista de 64) Olímpio Mourão Filho, militante integralista, e que serviu de pretexto pra a consumação do golpe do Estado Novo (para saber mais veja aqui).
Pretextos para golpes de estado não faltam, mesmo para nossa tão pouco criativa elite econômico-financeira.
O que estamos assistindo é a volta do grupo conservador a cena politica brasileira. Depois de treze anos de um governo que foi timidamente progressista, as “forças vivas da nação“, como em 64, deram uma volta por cima. E que volta por cima! Um “Regresso” bem a seu modo. Não é um golpe de estado. Mas tem o cheiro ruim, o gosto amargo e a aparência estragada de um golpe de estado.
 Sob os céus do Brasil (que hoje amanheceram frios e cinzentos por aqui) instala-se mais um “tempo Saquarema”. “Partido Saquarema” era o apelido dado pelo povo aos integrantes do Partido Conservador dos tempos do Império, advindo da região do estado do Rio dominada politicamente (leia-se pela violência e capangagem) por vários influentes lideres deste Partido.
Este é o Brasil do “Centrão Saquarema”, dominado por homens brancos de meia idade e apoiado pelos três maiores partidos da casa: o Partido do Boi, o Partido da Bala e o Partido da Bíblia. Baseado na violência e na coerção física, como os saquaremas imperiais, a nova ordem quer impor uma plataforma derrotada pelas urnas. Quer remover direitos e dar algumas vantagens a burguesia rentista brasileira, famosa por sua dependência (eles sim!) das “leis Rouanet” da economia. O Centrão Saquarema quer desnacionalizar por preço vil o pouco que nos resta de riquezas naturais. E quer acabar – leia-se criminalizar - com toda a oposição de esquerda.
Outro não é o significado desta quarta feira. Amanhã, sob a égide dos novos saquaremas, a merda vira ouro, os meganhas da PF voltam para seu lugar, os pobres vão para a cadeia. E todos na Casa Grande, depois de longos treze anos, finalmente podem dormir o sono dos (hã?) justos.
Fim da História.
Mas...a Historia tem fim?

A conferir.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A REPUBLICA DE CURITIBA



Curitiba tem estado nas cabeças e nas bocas recentemente como um local: a sede da tal “República de Curitiba”, a sucessora da “República do Galeão” dos desvarios udenistas do passado. Vi recentemente nas ruas os carros com adesivos apoiando Sergio Moro e suas investigações. O curitibano médio sente que ali esta se fazendo uma luta contra a corrupção, e se sente mais aliviado.

Afinal, todos sabemos que, se estamos vivendo (e sobrevivendo) numa sociedade marcada pela corrupção, a corrupção também nos atinge. No fundo no fundo, todos nos sentimos um pouco corruptos no nosso dia a dia. Molhar a mão do guarda, furar fila, andar acima da velocidade permitida são pequenas corrupções. E existem as grandes, as grandes maracutaias, aquelas que sabemos de longe, seja por conversas seja através de noticias na mídia. Se vemos isso acontecer sem fazer nada, então somos todos corruptos.

Quando aparece alguém querendo fazer justiça, queremos que ele puna os corruptos. E os puna exemplarmente. Segundo os psicanalistas, o desejo é que nosso cotidiano corrupto seja punido, e que nós também sejamos punidos por nossa corrupção. Aí vem a vontade de punir mais que a punição, punir exemplarmente. A vontade de punir (nos punir) é como a sensação do linchamento. Uma catarse coletiva toma conta da sociedade, que sente que está sendo regenerada e punida por suas culpas.

Entretanto, uma coisa é a justiça, outra o justiçamento. A primeira é lenta, exige contraprovas, não se contenta com versões, e nem sempre leva a catarse. Muitas vezes, a justiça não pode ser feita exemplarmente, pois a necessidade de provas é um imperativo e uma limitação da justiça. Não se pode punir sem absoluta certeza; a dúvida está do lado do réu. Por isso muitas vezes sentimos a sensação de que a justiça é distante, difícil, senão impossível.

Já o justiçamento não. Se a justiça não foi feita, podemos rapidamente estender uma corda numa árvore e pendurar o culpado. Sim, porque o culpado já o é de antemão. Precisa apenas de uma denúncia, umazinha só, e a culpa está feita, às favas as minúcias e as regras legais. Queremos de uma vez acabar com o culpado, e com ele acabar com nossa culpa. Quando acaba o justiçamento, uma sensação de euforia e de dever cumprido toma conta das pessoas, como uma boa injeção de dopamina.

O justiçamento pode deixar as pessoas mais relaxadas. Pode ser glamuroso, como num filme do Batman. Mas na vida real, com suas incerteza e suas nuances, o justiçamento espalha ainda mais injustiça do que aquela que pretende exterminar. Os prejulgamentos, os julgamentos midiáticos estão aí pra nos mostrar o quanto podemos nos equivocar e provocar ainda mais injustiças.

Existiu o caso da Escola Base em São Paulo. Existiu, nesta mesma Curitiba republicana, o longo processo das “bruxas de Guaratuba”, uma historia macabra de assassinato de crianças em rituais de magia negra que frequentou nosso imaginário nos anos 90. E existem os processos políticos travestidos de ações contra a corrupção, como estamos vendo hoje.

Nada contra investigações contra a corrupção. Quem não é a favor de investigar e punir atos de corrupção, ainda mais com o dinheiro público? No entanto, existe hoje uma série de perversões que estão sendo feitas em nome do combate à corrupção e que estão viciando e envenenando nossa jovem democracia.

A República de Curitiba, chefiada pelo juiz Moro, gerou uma serie de fatos controversos, muitos deles contestados pelos Juízes do Supremo e por muitos advogados no Brasil e fora dele. Prisões arbitrárias, investigações feitas de maneira parcial, divulgação ilegal de escutas telefônicas, são muitas as acusações de arbitrariedade manchando uma operação que deveria ser a “nossa” Operação Mãos Limpas.

O juiz Moro não é Batman. Não podemos concordar com um juiz justiceiro. As investigações devem ser feitas nos termos da lei. Claro, doa a quem doer. Não podemos ser coniventes com quem rouba dinheiro público. Mas este processo de investigação - e isso eu acho que é claro (é?) para todos - deve ser feito dentro da lei.

De boas intenções estão cheias as casas e as almas da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba. Uma cidade tão limpinha e organizada, Curitiba tem orgulho de si mesma. Tem tanto orgulho de seus ônibus vermelhos que não consegue pensar num sistema mais eficaz como o Metrô, por exemplo. A expansão da cidade gerada nos tempos da Ditadura e de Jaime Lerner já não se sustenta.

Mas o curitibano que põe adesivo no carro dizendo que apoia a Lava-Jato (incondicionalmente, talvez!) não anda de ônibus. É fácil sentir orgulho de algo que você vê de longe, na canaleta. Não pega os ônibus superlotados no horário de pico, não enfrenta as filas dos terminais. É fácil dizer que “o sistema de transporte funciona”, por que você não sente a sua atual deficiência.
O curitibano que acha que mora na capital ecológica não pode usar (nem pra limpar as mãos!) as águas do rio Belém, do Atuba e do Barigui. Acha que o frio é chique, mas mora em casas ruins termicamente, e usa roupas de frio igualmente caras e ruins. E se acha na Europa, cercado de araucárias por todos os lados.

É fácil não ver seus próprios pecados. É fácil esperar que um outro (um justiceiro) faça o “trabalho” que eu como cidadão não posso fazer. É fácil bater no peito e dizer que o problema são os outros. Assim como é fácil dar um like no facebook e colocar um comentário raivoso de que você é a favor do Batman.

A república de Curitiba eu quero outra.



sexta-feira, 27 de maio de 2016

PRECISAMOS FALAR SOBRE ESTUPRO


O estupro é um assunto?

Estive pensando em quantos homens  leem o título de alguma notícia nos jornais e redes sobre este assunto e logo passam para a notícia seguinte: “isso não me diz respeito!”.

Até quando vamos agir assim?

Vivemos num país fundado sobre o estupro. Foi um país cujo avanço “civilizacional” se deu no estupro cotidiano de mulheres escravizadas e submetidas já fazem quinhentos anos. Um país onde os “homens bons” tinham o direito sobre suas esposas e pelas demais mulheres da casa. Aliás, a maior parte dos estupros acontece entre pessoas que se conhecem – no Brasil, seria 68% dos casos (ver aqui).
Somos um país onde o estupro por parte de parentes ocorre no cotidiano das famílias, mas que nunca vem à tona por repressão e vergonha. Ou o estupro se dá dentro do casamento, o estupro marital, ou o estupro como um “direito” do homem em relação à sua mulher. Tudo dentro de quatro paredes, tudo amparado pelos “costumes”. O que acontece em casa em casa deve ficar, não é assim que a gente pensa e diz? Quantos casos de estupro ficam assim impunes?
O estupro tem uma característica perversa: em geral, a culpa é da vítima. Ora a vitima bebeu demais , ora está com roupa provocativa, ora deu mole, ou deu bola, ou qualquer bobagem do tipo. São frases que tipificam mais quem as diz, como foi a frase infeliz (mais uma!) do Cantor Lobão (ver aqui). A culpa é da vítima. É a vitima que sente vergonha, é a vitima que tem que esconder. Por isso, tão poucas mulheres fazem queixa do estupro que sofreram.
Esta perversidade também se revela no estupro como castigo: um exército invasor estupra as mulheres das zonas invadidas. Nas guerras modernas, as mulheres capturadas nas zonas de conflito são convertidas em escravas sexuais, como foi na Bósnia, como atualmente é na Síria/Iraque com o ISIS. Não por acaso, durante a guerra civil na Líbia, Muammar Gadaffi, antes de ser morto foi estuprado pelos seus captores como símbolo de sua “desonra”.
Com isso chegamos à questão da “Cultura do Estupro”, como vem se referindo a imprensa em relação ao caso escandaloso que estamos vivendo (quem acaba de chegar de marte leia aqui). Embora nos horrorize, não podemos nos espantar com os comentários e a apologia do estupro feitas na web. É assim que nós homens somos ensinados a pensar. uma frase terrivelmente infeliz é a famosa "se o estupro é inevitável, relaxa e goza". Como se a infeliz vítima fosse compartilhar do prazer doente de quem a violenta. Assim é nossa sociedade. Um dos xingamentos mais sérios que nos fazemos não é por acaso um desonroso “vai te foder”?
Também não por acaso Jair Bolsonaro (um dos mais perversos cultores do estupro em nosso país), para humilhar a deputada Maria do Rosário numa discussão sobre Direitos Humanos, disse que ela não merecia sequer ser estuprada (aqui). Aliás, Nicolas Sarkozi disse no passado coisa semelhante de Ângela Merkel. No passado Paulo Maluf foi o autor da famosa "estupra, mas não mata". Houve, nos momentos mais sombrios dos atos contra a presidenta Dilma, por si mesmos extremamente sombrios, falas insinuando estupro.
Devemos mudar nossa cultura. Isso passa pelo respeito e valorização da mulher, de todas as mulheres (veja mais aqui). Não importa se é na índia, na Alemanha, na Síria, no Rio de Janeiro ou dentro de nossa casa. Nós homens temos que mudar esta cultura. Chega de pensar que isso é um assunto “de mulher”. Chega de dar as costas para o sofrimento de tanta gente. Chega para o acobertamento de ações criminosas e que gera tantas vitimas, tanta gente sofrendo e, pior -  sentindo uma vergonha e uma culpa que não são merecidas.
Se não o fizermos estaremos endossando com nossa silenciosa omissão mais esta violência.


Sim, o estupro é um assunto. E um crime. Deve ser discutido, combatido e condenado. Por todxs.