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quinta-feira, 11 de março de 2021

O GRANDE DESASTRE DE 11 DE MARÇO DE 2011

 

O morro da Laranjeira em 12 de março , após os escorregamentos (foto de Erly Ricci https://bit.ly/3t5Q0XO)

Dedico esta postagem ao povo de Antonina e aos moradores do bairro Floresta, em Morretes, juntos na mesma tragédia


Foi hoje o dia, há dez anos atras. 11 de março de 2011. Um dos piores desastres que o litoral do Paraná enfrentou. Um dos piores desastres que os antoninenses enfrentaram.

Um desastre não começa exatamente durante a chuva torrencial. Muitas vezes ele começa antes. Começa da forma como a sociedade se divide, e na divisão desigual da riqueza, que empurra os menos favorecidos para as áreas mais sujeitas a desastres. Continua nas casas, construídas nas regiões mais vulneráveis e da maneira mais precária.

Durante o momento “quente” do desastre existe muito esforço de ajudar. Existe aquela saudável animação de Bombeiros, Defesa Civil, prefeitura, muita gente pelas ruas. Mas depois, quando o assunto esfria, quando o jornalista deixa de pautar a notícia, quando o dia a dia se impõe, o desastre continua por outros meios.

Em março de 2011, em Antonina e Morretes, no dia anterior tinha chovido muito. Naquela sexta feira, 11 de março de 2011, o mundo caiu sobre o litoral do paraná. A quantidade de chuva, que nos poucos pluviômetros que tínhamos então na região, pontam marcas de até 260 mm por metro quadrado por dia. Para que se tenha uma ideia, um furacão tem chuvas de até 600 mm/dia.

A quantidade de chuvas era o suficiente para gerar uma catástrofe. E catástrofe foi o que aconteceu em vários pontos do litoral paranaense naquele dia.

A defesa civil antoninense fez o dever de casa, e chamou a sede em Curitiba. O pessoal desceu, juntamente com alguns geólogos da MINEROPAR, entre eles Rogerio Felipe. Ao chegar no sopé do morro da Laranjeira, Rogerio ficou muito assustado com o que viu. “Falei para Defesa Civil tirar todo mundo”, me contou, emocionado, tempo depois. A percepção de Rogério foi a diferença entre a vida e a morte das pessoas que ali moravam.

A única vítima, infelizmente, foi seu Pedrinho, que tinha ficado de tomar banho antes de sair de sua casa. Não deu tempo. Quando os bombeiros resgataram seu corpo, o velho porteiro do Cine Opera na minha infância, agora um senhor de 80 anos, já estava morto. À noite, nos fundos do cemitério são Manoel, uma torrente tiraria a vida de uma jovem mãe que havia voltado à casa para pegar a mamadeira de seu filho. Estas foram as duas vítimas capelistas da grande tragédia.

Em Morretes, o rio Nhundiaquara havia subido, inundando a cidade mais uma vez. Havia escorregamento por todos os lados da cidade, mas no distrito de Floresta, na Serra da Prata, na divisa com Paranaguá, entretanto, a situação foi bem mais dramática. Uma série de torrentes de detritos varreu os morros da Serra da Prata, arrasando a comunidade de Floresta. Segundo seu Arlindo Capeta, morador e líder comunitário do bairro, com quem conversei depois, “teve um grande estrondo e a terra começou a tremer”. Veio água, veio pedra, veio arvores enormes descendo com a correnteza, contou ele.

Seu Eurides Lucheta, que tinha uma casinha perto do morro do Gigante, mais adiante na serra, ficou isolado por três dias, só se alimentando de bananas e tomando agua suja. No domingo, foi resgatado por um helicóptero da Polícia Militar. É dele a descrição mais precisa do tipo de torrente que descia a serra. Ele contou que uma cachoeirinha que tinha nos fundos de sua casa subitamente secou. Provavelmente formou-se um grande barramento natural de rochas e tronco serra acima. Quando o barramento se desfez, houve um grande estrondo, e ele correu para se abrigar nas pedras. A torrente veio feroz, e levou sua casinha e seu cachorro, que havia ficado para trás. “Parecia uma onda grande do mar”, nos contou ele.

O bairro de Floresta após os fluxos de detritos e as inundações de 11 de março de 2011 (foto: Renato Lima/CENACID)

Quando cheguei à Antonina no dia 14 de março, numa missão do CENACID, o Centro de Apoio Científico em Desastres da UFPR, chefiado por nosso amigo e companheiro Renato Lima, a situação estava confusa na Deitada-a-beira-do-mar. Ainda muita lama pela cidade, o grande escorregamento da avenida Nenê Chaminé barrava a rua. Na Laranjeira, era só desolação: casas que desapareceram, casas danificadas, casas ainda intactas, o cheiro de terro e morte.

Diziam que a grande pedra do Morro da Pedra iria cair. Subimos lá e vimos que estava firme como nunca. Diziam que havia fendas no Morro do Joubert, ameaçando as casas da Graciosa de Cima. Sim, havia uma fenda ocasionada pelas chuvas, e ela estava em atividade, apresentando algum risco. Monitoramos sua movimentação por três dias, até que cessou de se movimentar. Enquanto isso, os bombeiros e a Defesa Civil pediram que as pessoas deixassem suas casas na Graciosa de cima e de baixo. A medida era exagerada, mas ninguém tinha certeza do que estava por vir. Era uma precaução exagerada, mas que evitaria perdas de vidas, e ainda me parece bastante razoável.

Foram três dias intensos, onde eu, minha colega de CENACID, a geóloga Fabiane Acordes, e o nosso líder de missão, Renato Lima percorremos vários morros, andamos vendo várias situações. Foram também várias reuniões, com o pessoal da Defesa Civil, os técnicos, e os voluntários. Dentre estes, conheci vários conterrâneos que a ocasião juntou, desde funcionários da prefeitura, colegas, vizinhos e curiosos, que sempre davam um tempero especial às nossas correrias.

Tive também oportunidade de voltar diversas vezes para acompanhar o pós-desastre. Entre 2011 e 2014 fiz diversos campos com meus alunos nos morros de Antonina e Serra da Prata, onde fizemos diversos trabalhos e muitos ensaios. Boa parte destes trabalhos estão publicados em diversos eventos, tanto no Brasil como no exterior.

Poucas vezes, no entanto, tivemos a chance de ter uma devolutiva para a população. Por diversos motivos, acabamos por não conversar sobre as pessoas sobre o que aconteceu. Há poucos anos, em 2017, por ideia de meu aluno Gabriel Facuri, organizamos uma reunião com os moradores do bairro Floresta. Foi muito interessante a troca. Aprendemos muito também. Podemos voltar a falar só disso em outro momento.  

Em geral, as vítimas destes grandes desastres passam por muitos problemas quando o momento mais agudo do desastre termina. Sofrem pressões de diversas formas, muitas vezes são impedidos de voltar as áreas que ocupavam. Muitos apresentam traumas psicológicos difíceis de sanar. Crianças e adolescentes, quando não tem assistência adequada, podem passar para o crime ou o desajuste social.

Passaram-se dez anos. Mas existem ainda muitas pontas soltas do desastre. Hoje, um medo de chuva toma conta das pessoas que se lembram dos dias trágicos. Algumas, tem síndrome do pânico. Outras, estão desalojadas. Antonina ainda não incorporou o bairro da Laranjeira, embora tenha até projetos de transformar a área num parque. O próprio Morro da Pedra perdeu todo o chamativo que tinha como um cartão postal da cidade. As pessoas ainda não sabem direito o que aconteceu. Os estudiosos não deram uma devolutiva adequada de seus estudos à comunidade.

O que fazer num próximo desastre?  Estamos preparados? Como podemos fazer para enfrentar melhor um desastre semelhante?

Segundo um proverbio japonês, povo acostumando com todo tipo de desastre, os desastres acontecem quando nos esquecemos deles. Fica a dica.


(também agradeço a Renato Lima, Fabiane Acordes, Carlos Augusto Canduca Machado e José Paulo Vieira Azim, sem a ajuda dos quais eu não teria conseguido estar e trabalhar na minha cidade quando esta precisou de minha modesta ajuda)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

FESTA DE SÃO BENEDITO


O centro da cidade de Apiaí em 1939-41

Para Alexandre Oliveira, meu querido amigo Alê

Os bravos escoteiros chegaram em Apiaí no dia 26 de dezembro de 1941. Cansados depois de vencer a Serra de Apiaí numa noite, vindos de Capela da Ribeira, eles foram procurar o prefeito municipal. Ao chegar numa cidade, os escoteiros tinham por obrigação procurar as autoridades para assinar o livro que dava conta da passagem deles pelo local.
No entanto, o prefeito de Apiaí, o Senhor Isaias Teixeira, acabou por fugir dos meninos. Estes o viram quando ele entrou em sua casa, em companhia de outro homem. No entanto, ao baterem na porta, informaram que ele não estava. Tudo Isso, segundo Lídio, porque o prefeito receou que eles fossem mendigar estadia no seu hotel, o Hotel Teixeira, o melhor hotel da cidade. “Isso nunca será esquecido por nós”, anotou Lídio em seu diário.
Por fim, os rapazes acabaram por montar barraca numa clareira perto da cidade. Haviam decidido não caminhar mais aquele dia, pois estavam todos cansados e com assaduras nas pernas. O local onde acamparam era um terreno onde havia um hospital em construção. Ali colocaram as lonas e se abrigaram do sol inclemente.
 Apiaí está localizada a mais de mil metros de altitude, num topo de morro, com uma avenida principal serpenteando pela cumeeira. Descendo desta avenida estão as ruas centrais onde estão as casas das pessoas mais ricas do lugar. Nos vales mais abaixo se encontram as casas mais simples, das pessoas mais pobres. Lídio anota que cerca de 70% das pessoas em Apiaí eram negros, provavelmente descendentes dos que trabalharam como escravos nas ricas Minas de Apiaí, que tanto fizeram a fama da cidade.
Apiaí tinha funcionando próxima da cidade a Mina do Morro, uma das mais importantes minas de ouro do vale do Ribeira. Explorada por uma empresa japonesa, a mina estava escavando galerias e tirando o ouro por métodos modernos de extração para a época. A exploração foi interrompida quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo, poucos meses depois da passagem dos escoteiros por Apiaí. A área da Mina do Morro hoje em dia é um parque bem próximo da cidade, com intensa visitação.
Do outro lado da cidade, a Usina Experimental de Chumbo, no bairro do Palmital, havia iniciado naquele mesmo ano de 1941 sua produção. Construída pelo governo paulista com a administração do IPT, a Usina Experimental também era uma aposta do governo paulista na exploração de chumbo e prata por técnicas mais modernas e baratas, viabilizando a produção das pequenas minas da região. Fechada durante a guerra, entretanto, a usina nunca mais funcionou.
No dia em que os rapazes por lá chegaram, a população negra de Apiaí estava em festa, pois era dia de São Benedito. Os rapazes, depois de um descanso, fizeram uma janta composta por costela de porco assada, pão e café de coador. Depois que o sol baixou, as cinco da tarde, eles foram à cidade para apreciar a festa em homenagem ao Santo.
A procissão, composta quase que totalmente por negros, era bastante impressionante, segundo o relato de Lídio. A confraria de São Benedito da cidade de Apiaí, carregava a estátua do Santo pelas ruas, ao som de cânticos, seguida por uma multidão. Os membros da confraria, responsáveis pelo andor, vestiam uma túnica branca e portavam tocheiros com vela.
Depois da procissão, já cansados, os rapazes voltaram ao seu acampamento improvisado nas obras do hospital, onde dormiram um sono pesado.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

UM NATAL NA CAPELA


A pracinha de Ribeira (SP), em dezembro de 2018...como ela era em dezembro de 1941, quando os escoteiros de Antonina passaram por ali?
Os escoteiros acordaram cedo naquela véspera de Natal. Era o Natal de 1941. Um natal triste para muita gente em muitos lugares do planeta. A guerra seguia feroz na Europa.
Os soviéticos lutavam desesperadamente para manter Moscou e Leningrado, ameaçadas pelas tropas Nazistas. Na África, a luta era por Bengazi, na Líbia. No entanto, era na Ásia que a guerra estava mais violenta. Os americanos estavam sendo derrotados nas Filipinas e os ingleses lutavam desesperadamente para manter Hong Kong frente ao avanço japonês.
Por outro lado, os meninos deixaram Epitácio Pessoa as 7 horas da manhã, agradecendo o pouso e a boa acolhida na vila. Agora desciam a estrada margeando o rio Grande rumo à Barra Grande, onde encontrariam o majestoso rio Ribeira de Iguape. Dali, era só seguir para Adrianópolis e cruzar a ponte que já estariam em São Paulo, etapa seguinte da marcha.
No caminho Lídio notou maravilhado os inúmeros monjolos que iam encontrando no caminho. Anotou que estes moinhos rústicos eram muito uteis naquelas paragens distantes, onde não havia energia elétrica ainda. E notava o movimento do soque com uma certa nostalgia: “um sobe e desce sem parar, um barulho gostoso de se ouvir”.
Os meninos chegaram na localidade de Descampado ao final da manhã. Lá, tiveram um contratempo, pois ninguém ali quis vender comida para eles. Nem um pãozinho. Fosse porque não tinham, fosse porque não queriam vender nada aos forasteiros, os rapazes tiveram que se contentar em comer biju com chimarrão.
Lídio anotou que, apesar de "desnutridos", os rapazes continuaram a caminhada sem queixas ou lamentações. Segundo ele, haviam perdido 6 quilos cada um nesta primeira etapa da viagem. E a tendência era perder ainda mais, anotava.
A viagem pela “estrada provisória” seguiu até Barra Grande, onde encontraram o Ribeira. Em dezembro, o rio estava barrento por causa da estação das chuvas. Somente algumas pedras eram visíveis ao longo do rio.
Cercado por morros bastante íngremes e com uma vegetação em diferentes tons de verde, os rapazes finalmente avistaram a rodovia federal, que chegava até Paranaí, a atual Adrianópolis. Antes de cruzar a ponte de concreto que ligava Adrianópolis a Capela da Ribeira – hoje o município paulista de Ribeira – os rapazes tomaram um chimarrão com os fiscais estaduais e federais no lado paranaense da ponte. E só depois cruzaram o rio.
A ponte sobre o Ribeira é uma luta eterna das duas comunidades, Ribeira e Adrianópolis. Esta que os meninos cruzaram foi a primeira ponte de concreto. O rio Ribeira, cheio de energia, não está nem aí para as pontes, e já derrubou todas elas. A atual ponte de concreto, a mais alta e reforçada de todas, foi construída em 1998-99, depois de ter sido destruída por uma forte cheia.
No lado paranaense, Lídio anotou, cheio de certa nostalgia, que havia do lado paranaense um grande outdoor onde estava escrito: “Paraná, Terra dos Pinheirais”.
Ao fim da tarde, na cidade de Capela da Ribeira, os rapazes procuraram as autoridades locais. Encontraram o Secretário da Prefeitura. Este avisou que ali não havia pensão suficiente para abriga-los todos, e o prefeito estava viajando. No entanto, o secretario lhes ofereceu sua própria casa.  
Depois de tomar banho no rio Ribeira e colocarem os uniformes “de gala”, os meninos foram para a praça principal, onde fizeram uma rápida reunião. Nesta reunião eles decidiram os próximos passos rumo a capital São Paulo, próxima etapa da viagem.  E decidiram enviar um telegrama para Antonina, para avisar que estavam todos bem.
Qual não foi o espanto dos rapazes ao descobrir que haviam dois telegramas esperando por eles, datados de dois dias antes: um da prefeitura municipal, avisando da presença dos escoteiros por ali. O outro telegrama era do chefe Picanço, pedindo para que o Chefe Beto entrasse em contato com ele, pois todos estavam ansiosos por notícias. Era o primeiro contato que tiveram desde que haviam saído de Antonina, oito dias antes.
Os escoteiros mandaram orgulhosos um telegrama: “Capella da Ribeira 24 dezembro 1941: chegamos hoje bons vencemos primeira etapa continuamos amanhã noite – Sempre Alerta! Beto Milton Lidio Manoel Antonio”.
Os rapazes ainda cheios de energia alugaram umas bicicletas e foram passear, menos o chefe beto e Canário, que ficaram no banco da praça descansando. Lídio ainda teve tempo de mandar cartas para a família e amigos. Também foi à alfaiataria do Elpidio. Lídio ainda mandou costurar suas calças descosturadas na entreperna, além de consertar um sem-número de botões da roupa dos demais.
Houve um apagão de energia elétrica, que durou até as nove da noite. A energia vinha de Apiaí, e demorou a ser reparada. Que inconveniente conveniente! Enquanto isso, os rapazes ficaram na praça escura e até arrumaram umas namoradas.
Depois, à meia noite, os rapazes assistiram a missa do Galo em Capela da Ribeira, ministrada pelo padre de Apiaí. Lídio aproveitou seu curriculum de coroinha e ajudou o padre, junto com uma menina que era Filha de Maria. Foi um comentário só na igreja: um coroinha vestido de escoteiro!
Depois, os rapazes participaram da ceia na casa do secretario municipal, onde estavam alojados. Foram servidas gasosa, soda limonada e vinho, além de um grande bolo com motivos natalinos.
Já era quase duas da manhã quando todos, exaustos, foram dormir. 
Dingobells!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A VILA DOS FUGITIVOS

A atual cidade de Tunas do Paraná em 1955, quatorze anos depois dos escoteiros atravessarem a região 

Apesar de dormirem num paiol de milho cheio de ratazanas no lugarejo chamado Tuneiras, os rapazes acordaram animados naquela terça feira, 23 de dezembro de 1941. O final da primeira etapa da viagem, a cidade de Capela da Ribeira, já no estado de São Paulo, poderia ser finalmente alcançada.

Eles seguiram então no rumo norte, pela “estrada provisória", que ligava parcialmente Curitiba à Capela da Ribeira. Segundo o diário de Lídio, a estrada era muito malconservada, cheia de buracos, com pontes de madeira apodrecida. Ao longo da estrada, estavam passando continuamente tropas de mulas carregando balaios com milho e feijão. De vez em quando, uma carroça puxada por bois se fazia ouvir de longe, cortando o silencio da paisagem com sua estranha música.

Logo adiante os meninos ficaram assombrados: estavam passando pela Garganta do Leandro, onde o rio Passa-Vinte formava uma grande cachoeira. Para Lídio, o barulho era equivalente a um trovão, e podia ser ouvido a muitos metros de distância.

Depois deste espetáculo bonito da natureza, começou outro, macabro: ao longo da estrada viam-se aqui e ali diversos esqueletos de caminhões de combate, enferrujando no clima quente e úmido do vale do Ribeira. Eram restos de antigos combates da Revolução Paulista de 1932.

A região que eles estavam cruzando era a frente do Ribeira da guerra civil deflagrada com o manifesto constitucionalista de São Paulo, em julho de 1932. Apesar de não ser uma das frentes mais importantes, ali também haviam ocorrido alguns combates.

Na Garganta do Leandro Lídio notou horrorizado um cemitério com cruzes de ferro dos soldados mortos durante os combates da revolução constitucionalista. Havia apenas nove anos, aquela região havia sido palco de combate entre as forças de São Paulo com os batalhões paranaenses.

Deixando para trás aquele cenário de guerra, os meninos passaram pela localidade de Poço Grande e no inicio da tarde já estão no lugarejo de Maria Gorda. Ali, Lídio anotou que existia a mina de cobre de Garapongá. A região do vale era também (ainda é) uma região riquíssima em bens minerais.

Neste período havia uma grande concentração de pequenas minas de cobre e chumbo por toda a região. Em Apiaí, no lado paulista do vale, estava sendo construída uma Usina Experimental de Chumbo para beneficiar o minério e seus subprodutos, como a prata, o ouro e o zinco. Era um período de grande investimento público e privado, e pequenos povoados mineiros iam se formando aqui e ali, no meio da imensa mata.

Depois de tomar um café e um bolo de fubá, os meninos seguiram rumo norte, em direção ao vilarejo de Epitácio Pessoa.

No caminho, Lídio notou (e anotou em seu diário) que o rio que margeava a estrada, o rio Grande, corria sobre um leito de areias muito brancas. Aqui e ali, haviam algumas pequenas cacheiras, que Lídio anotou como sendo de gré vermelha. Gré ou grés é uma palavra francesa para arenito, rocha formada pela solidificação de depósitos de areia. o uso da palavra grés por Lidio não está de todo incorreto, visto que realmente ocorrem muitos corpos de rochas que poderiam ser assim denominadas nesta época.

Os jovens escoteiros estavam atravessando uma zona composta por rochas metamórficas muito antigas, que formam grandes cristas de serra, formada por duros quartzitos. Em outros locais, ocorriam mármores ora cinzentos, ora mais claros. Estas rochas eram a razão do potencial mineral do Vale do Ribeira. Só para dar um exemplo: na vila de Pedra Preta, onde hoje está a atual cidade de Tunas do Paraná, haveria de se iniciar alguns anos depois a extração de uma rocha ornamental muito usada hoje em dia, o “granito verde Tunas”.

Nas encostas das serras que eles iam pacientemente atravessando, eram frequentes as cachoeiras. Nestas cachoeiras e corredeiras ao longo da estrada, as caninhas do mato e os cordões de frade estavam sempre presentes, batidas pelo vento formado pela energia das quedas d´água. Um espetáculo para encher os olhos...

Nesta bucólica caminhada, os meninos chegaram na vila de Epitácio Pessoa no fim da tarde. A vila já tinha sido mais importante, mas estava em decadência econômica. As casas de estuque tinham buracos na parede e estavam com aparência de malconservadas. A igrejinha pequena, no alto de uma pequena colina, não dava aparência melhor à vila.

Os rapazes encontraram abrigo numa casa que servia ao mesmo tempo de botequim, escola, residência e engenhoca de cachaça. Ao procurarem um rio para tomar banho, conversaram com alguns meninos da vila. Estes meninos disseram que os homens do lugar não estavam gostando da presença deles ali. Achavam que eles eram policiais procurando marginais e fugitivos  homiziados naquele fim de mundo.

A razão para as suspeitas eram as vestimentas do chefe Beto. Vestido com um culote e portando um capacete, chefe Beto também tinha um revólver na cintura. O porte militar do jovem chefe escoteiro chamou a atenção dos homens da cidade. Ali, naquela vila cheia de fugitivos da justiça, a sua simples presença provocava verdadeiramente esta suspeita.

Entretanto, o que realmente chamou atenção dos rapazes foi a professorinha da vila. Curiosa e bonitinha, ela atraiu a atenção dos rapazes, que ficaram conversando com a moça até a hora de dormir.

Na hora de dormir, chefe Beto ficou com a única cama, tendo os outros que se contentar com o chão. Aquela seria a ultima noite dos rapazes no sertão paranaense.

domingo, 3 de junho de 2018

O NASCIMENTO DE GUARAPIROCABA

O Mapa de Pedro de Souza Pereira (1653), que mostra as "minas de Paranaguá"

Este é o mais antigo mapa da baia de Paranaguá. Foi executado em abril de 1653 por Pedro de Souza Pereira, a mando do governador geral Salvador Correia de Sá & Benevides. Mais detalhes sobre este mapa podem ser obtidos aqui. 

Na metade do século XVII foram intensas as buscas de minas de ouro nos “sertões do Pernagoa”, que nada mais era que o vale dos rios Cubatão (hoje Nhundiaquara), Cachoeira e Faisqueira, compreendendo os atuais municípios de Antonina e Morretes. 

Este é um dos mais antigos mapas de recursos minerais do Brasil, uma vez que ali estão demarcadas as “minas” ou lavras de ouro da época. Desde 1995 estou estudando sobre a mineração de ouro no Brasil do século XVII. Estou neste momento preparando uma monografia sobre este tema.  

O que se pode apreender é que as minas de Pernagoa (leia-se Antonina & Morretes) foram importantes não pela quantidade de ouro gerada (menos de uma tonelada métrica em cem anos), mas pelo acúmulo de conhecimento e preparaçào do que hoje se conhece como "recursos humanos". 

Consta que foi um escravo (provavelmente índio) que trabalhou em Paranaguá o primeiro descobridor do ouro de Minas Gerais, conforme o relato do Padre Antonil. Muitos dos mineradores da região de Paranaguá se mudaram para as novas Minas Gerais, e lá fizeram suas vidas.

Legenda do mapa, mostrando as principais feições geográficas da Baia e a "ilha de Guarapirocaba"


O mapa é um típico mapa do século XVII, e procura mostrar a região em três dimensões, mostrando a vista da baía de Paranaguá para quem entra em sua barra. As proporções não são lá muito exatas, mas algumas feições geográficas estão bem representadas. 

Algumas denominações célebres, como Ilha do Mel e Ilha das Peças já existiam nessa época, como se pode ver na legenda. Ali consta, pela primeira vez, a expressão “ilha de guarapirocaba”, e não baia de guarapirocaba, conforme registra a nossa tradição, que vem de Ermelino de Leão.

 "A Ilha de Guarapirocaba" nada mais é que a atual ilha da Ponta Grossa, se não estou enganado. Outra feição bem característica é a menção ao caminho de queritiba, ou curitiba-iva, então o principal acesso para o Planalto. 

Vê-se que Curitiba, então um mero garimpo de serra-acima, ainda não tinha uma grafia consagrada. Outra coisa interessante é a atual ilha das rosas, denominada “Ilha dos guarás ou aves vermelhas”. O Nhundiaquara, o maior rio, é representado com uma canoa rasgando seu estuário e as denominações de minas em toda sua extensão. 

Outra coisa interessante sobre este mapa é que uma cópia dele foi capturada por piratas holandeses, alarmando os portugueses sobre um possível ataque as minas de Paranaguá, facilmente acessíveis por mar. Lembre-se que nesta época Holanda ainda dominava Pernambuco. 

Detalhe que mostra a baia de antonina, com  a indicação do caminho de Curitiba (Curitiba-iva), a Ilha de Guarapirocaba e a Ilha das Rosas

quarta-feira, 29 de março de 2017

OS "MILIONARIOS DOS QUILÔMETROS" CHEGAM AO FIM DA JORNADA




Era uma segunda feira de quaresma, e a igreja matriz de Antonina estava cheia. Parecia que era festa de agosto, a igreja lotada de gente, o burburinho tomando conta do átrio e ressoando pela nave da matriz. Era um dia de festa e regozijo. As oito horas da noite do dia 9 de março de 1942 o padre Leonardo Starzinski rezou uma missa em homenagem aos cinco escoteiros.
Faziam sete anos que o padre Leonardo estava ali na paroquia. Iniciara seu vicariato em 1936, substituindo o enérgico padre Bernardo Peirick, que havia feito muitas reformas na matriz, que ainda hoje guardam seu estilo. Padre Leonardo, ao contrário de padre Bernardo, eram um catequizador. Naquela noite na missa noturna, esperando pelo seu sermão, havia paroquianos especiais: os cinco rapazes recém-chegados de sua jornada a pé ao Rio de Janeiro.
Para o sermão, escolheu alguns trechos selecionados do Êxodo, falando das agruras sofridas pelos judeus em sua busca pela Terra Santa. Os sacrifícios, os descaminhos, as incertezas, tudo isso foi citado em seu sermão. Os rapazes escutaram tudo com atenção e devoção. Ao encerrar, padre Leonardo pediu a Deus para que os rapazes seguissem sempre os caminhos do Bem. E ressaltou que o seu feito servisse de modelo para as gerações de escoteiros do futuro, como anotou Lydio Cabrera em seu diário.
A aventura chegara ao fim. Depois das festividades da volta, houve ainda diversas atividades sociais a cumprir. Lydio nos conta que, no dia seguinte à chegada, aceitara tomar um chá na casa da Profª Assíria Linhares, onde contou um pouco de sua experiência à velha mestra. À tarde, os cinco rapazes foram visitar o capitão Custodio Raposo Neto, Prefeito Municipal, junto a outras autoridades, conforme anotou Lydio. Depois, ainda deram uma entrevista para o jornalista João da Cruz Leite, editor do Jornal de Antonina. Já estava de noite quando saíram de lá.
Mas as festividades prosseguiam: ainda nesta noite houve um jantar de confraternização na casa do Chefe Picanço. Lá, em volta da mesa, seu Manequinho fez um pequeno discurso, dizendo-se muito satisfeito com o feito dos cinco rapazes. Ressaltou que os esforços e a força de vontade de cada um haviam contribuído para o sucesso da missão. Eles eram, para seu Maneco, o orgulho do escotismo antoninense. Talvez, frisou o chefe, um feito desta envergadura nunca mais viesse a ser repetido no escotismo brasileiro.
Na reunião da noite, na Caserna dos Escoteiros, houve ainda uma Sessão Cívica. A bandeirante Araildes Horibe saudou os rapazes, finalizando com estas palavras: “os vossos nomes serão gravados na História de Antonina e com letras de ouro, no livro desta Associação, como os milionários dos quilômetros”. O Chefe Beto, agradecendo as palavras da Bandeirante Escoteira, disse que, “se fosse preciso, eles o fariam novamente, e com grande satisfação”. Ao final, a banda musical da tropa escoteira começou a tocar um dobrado, aumentando a alegria da festa. Com todos eufóricos cantando o Hino Nacional, a sessão foi finalmente encerrada. A missão havia acabado.
Ao sair da igreja aquele dia, sentindo o vento fresco vindo do mar, os cinco rapazes não sabiam do que a vida ia fazer deles. Cada um voltou a suas casas, a suas famílias, e cada um viveu suas vidas. Os meninos, durante toda sua vida, foram intensamente homenageados na cidade, onde viraram nome de rua, e onde sempre foram solicitados a contar os detalhes de sua aventura.
Mas sua missão não foi jamais esquecida. Hoje, mais de 70 anos, os valentes e ingênuos rapazes da Capela ainda povoam as nossas mentes. Não há antoninense que não saiba, ao menos por cima, sobre a sua expedição. Alguns os chamam de heróis. Outros, de loucos. Outros, ainda, acham que seu sacrifício valeu somente para um bando de políticos aproveitadores. Muito embora o significado verdadeiro de sua jornada se tenha perdido no tempo e nas memorias de quem a viveu, o feito ainda impressiona.
Não há como não se impressionar com cinco rapazes perdidos no mundo para entregar uma carta ao presidente. A carta em si não significou muito, mas a jornada colocou Antonina no mapa. Isto não é pouco.

sábado, 4 de março de 2017

A VOLTA PARA CASA: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES


Em março de 1942, a viagem de volta dos escoteiros antoninenses tinha o risco real de ataques de submarinos alemães
Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o navio enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora.  Uma onda acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada, e Lydio receou que fosse atirado ao mar pelos vagalhões de agua salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha e foi forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família.
Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos, até que tomou coragem e voltou a seu camarote. Estava encharcado e gelado. Tomou um banho, caiu na cama e dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio.
Haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa.
Já no navio, ao singrar as aguas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar.
Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com  sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam.
Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.
O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. Em pouco tempo, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros e que seria decisivo para a declaração de guerra aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto.
Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, o barco viajava todo pintado de preto, e nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.
Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite.
Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estava atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O GRANDE DIA HAVIA CHEGADO - parte 1

O Palácio Rio Negro, em Petrópolis, onde os escoteiros de Antonina encontraram-se, finalmente, com Getúlio Vargas em 1942
O grande dia havia chegado.
No quartel, todos estavam agitados, com os últimos preparativos para a viagem a Petrópolis, para ver o Presidente Vargas. “O reboliço era demais”, anota Lydio Cabreira em seu diário. Desde as 6 da manhã havia um intenso corre-corre de rapazes arrumando os uniformes, escovando os dentes, penteando os cabelos, colocando os lenços, os chapéus, os cintos, e toda a farda escoteira da época.
Os escoteiros seguiram em carros de choque da policia do exercito para Petrópolis, onde veraneava Getúlio Vargas. Só um escoteiro não foi. O chefe Beto, logo o chefe Beto, tivera que ir ao banheiro e havia perdido o transporte. Segundo Lydio, ele e seus colegas em vão apelaram aos chefes escoteiros para que esperassem por ele. Mas não. As 7:00 foi dada a ordem de largada. Os caminhões se foram e o chefe Beto ficou.
Lydio nos conta o trajeto: seguiram pela Quinta da Boa Vista, São Januário, Bonsucesso, Ramos, Penha, Vigário Geral. Quando os caminhões pegaram a Rio-Petrópolis, Lydio se encanta: aquela era “a rodovia mais bonita que eu já havia visto”. Não era para menos. Reconstruída a partir da antiga estrada imperial, a estrada foi remodelada por Washington Luiz, que a reinaugurara em 1928. Durante muito tempo, foi considerada a melhor estrada da América do Sul. Lydio nos conta que a rodovia era asfaltada e, em alguns locais, cimentada. Nas laterais da estrada as amuradas eram presas por cabos de aço, para evitar acidentes. Havia muitas pontes. As pontes em formas de arcos encantam Lydio: “eram verdadeiras maravilhas da engenharia brasileira”, comenta.  
A estrada era muito sinuosa, correndo por entre as matas de intenso verde. Os rapazes se encantam com sua beleza. A estrada, em alguns trechos era cavada na rocha. Para Lydio, estes trechos apresentavam “o aspecto de uma paisagem europeia”. O clima ia ficando mais frio na medida em que subiam. As matas verdejantes colaboravam para que o clima tropical fosse amainado e seu ar fosse de uma pureza total, conforme anotou Lydio.
A comitiva chegou em Petrópolis por volta das dez e meia. Os veículos seguiram para o quartel do 1° Batalhão de Caçadores, uma das tropas de elite do Brasil na época. Logo a seguir, os rapazes assistiram no pátio interno do quartel a uma parada militar de toda a corporação para homenagear o General Heitor Augusto Borges e sua comitiva. O general, que já era conhecido dos rapazes de Antonina, era uma das figuras mais importantes neste momento, e também era chefe da União dos Escoteiros. Era ele que estava por trás daquela solenidade.  
Depois da parada, os escoteiros fizeram o rancho nos refeitórios do quartel, e logo a seguir foram ao Palácio Rio Negro, onde ia ter início a solenidade daquele dia. O palácio era um belo prédio art nouveau construído pelo Barão do Rio Negro nos últimos anos da monarquia. Na Republica, o imóvel foi adquirido pelo estado, transformando-se no palácio de verão dos presidentes brasileiros. De todos eles, quem mais fez uso do palácio sem dúvida foi Getúlio Vargas. Não houve um verão em seu governo que ele lá não estivesse.
Enquanto isso, nos jardins do Palácio, os escoteiros, enfileirados, estavam impacientes. já estavam por lá aguardando havia meia hora quando o presidente finalmente apontou numa esquina. Getúlio Vargas, todo de branco, vinha a pé, depois do passeio que costumeiramente fazia após o almoço.

Um grande alvoroço tomou conta da tropa. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

AO CHEGAR SETEMBRO...


01/09/1888
Nascia Heitor Soares Gomes
01/09/1920
Nascia Setembrino da Costa Alves
02/09/1918
Era lançado o livro ‘Fatos e Homens’, de Ermelino de Leão
04/09/1848           
Nascia, em São Paulo, Brasílio Augusto Machado de Oliveira
04/09/1857
Nascia, em Morretes, José Francisco da Rocha Pombo
07/09/1922           
Inaugurada a Estação Ferroviária em frente à Igreja do Bom Jesus
07/09/1938
Fundado o Grupo de Escoteiros ‘Valle Porto’
11/09/1915
Nascia Carlos Gomes da Costa
12/09/1714   
Atendendo pedido de Manuel do Valle Porto o Bispo do Rio de Janeiro, Frei Francisco de São Jerônimo,autorizava a construção de uma capela na fazenda Graciosa
23/09/1931
Falecia o Coronel Antônio Ribeiro de Macedo
28/09/1898
Inaugurado o Mercado Municipal (demolido em 70)
28/09/1902
Nascia, em Esp. Santo do Pinhal-SP, João da Cruz Leite

sábado, 1 de agosto de 2015

ANTONINA NO MÊS DA NEBLINA...



05/08/1924

Nascia Milton Oribe

07/08/1942

Falecia o Dr. Heitor Soares Gomes

07/08/1943

Explosão e incêndio destruíam a estação ferroviária da Laranjeira

13/08/1860

João da Silva Machado recebia o título de ‘Barão de Antonina’

14/08/1906

Falecia Nestor Pereira de Castro

15/08/1885  

Inaugurada a Casa Escolar Dr. Brasílio Machado (Brasílio Augusto Machado de Oliveira era o Presidente da Província)

18/08/1892  

Inaugurados o ramal ferroviário Morretes-Antonina e a estação ferroviária da Laranjeira 

20/08/1854

Iniciada a construção da estrada da Graciosa

29/08/1797  

Portaria do Governador da Capitania de São Paulo, Antônio Manuel de Mello e Castro Mendonça, elevava a Freguesia de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa à Villa Antonina

29/08/1991

Falecia, no Rio de Janeiro, Moisés Wille Lupion de Tróia

30/08/1975

Fundada a Filarmônica Antoninense

31/08/1946

Fundado o Ginásio Municipal de Antonina

sábado, 11 de julho de 2015

O PRÍNCIPE DA BEIRA, OU A ANTONINA QUE PODERIA TER SIDO

Retrato de Dom Francisco Antônio, Príncipe da Beira (1795-1801) achei aqui

Parece muito estranho. O que este fundo de baía, cercada de mangue e mato, tem a ver com um obscuro príncipe português que nunca saiu das fraldas?
Antonina, e isso aprendemos desde cedo, foi uma homenagem ao príncipe português Dom Francisco Antônio Pio de Bragança, filho do Príncipe D João e da princesa Carlota Joaquina. Herdeiro do trono português, o real guri tinha o titulo de Príncipe da Beira.
Nascido em 21 de março de 1795, o jovem príncipe, na época em que recebeu a homenagem, ainda era um simpático pimpolho que usava fraldas. A pintura-retrato que temos dele mostra sobretudo um menino moreno, de cabelos encaracolados muito meigo e muito, muito pálido. Encostado na mesa, ao seu lado uma maçã flechada. Que diabos era isso, o símbolo do amor?
Dom Francisco Antônio, no retrato, vestia uma camisa com babados e ostentava a faixa alvirrubra que seu principesco título de príncipe da Beira exigia. Seu olhar é triste, com olheiras profundas. Vontade de tirar o piazinho dali e levar ele pra tomar sol na Ponta da Pita. Ou passear pelo trapiche olhando os barcos e os urubus ao redor, pra ver se ele se animava. Quem sabe? Uma vitaminazinha, um caldo da cana?
Enfim...
Mas Dom Antônio, nosso pueril Príncipe da Beira, nada tem a ver conosco senão a homenagem que lhe foi prestada. A homenagem, assim, parece um investimento para o futuro. Como a compra de um titulo de capitalização, alguém queria receber no futuro do futuro Rei de Portugal alguma vantagem.
Posto em outros termos: o nome Antonina foi homenagem de quem? A quem interessaria? Quem seria o puxa-saco lá daqueles tempos?
A primeira suspeita paira sobre outro Antônio, Antônio Manuel de Melo e Castro de Mendonça, Governador Geral de São Paulo naqueles tempos. Seu mandato, porem, começou em 28 de junho de 1797. Será que o processo já se teria anunciado antes que este tivesse tomado posse? Se for ele, quais seriam suas motivações?
O fato é que a homenagem ao pequeno príncipe, que seria o futuro rei de Portugal, acabou em nada. Como acontecia com quase todos os herdeiros do trono lusitano, os filhos mais velhos morriam muito cedo, e o fardo de conduzir o império ultramarino português despencava nas costas dos irmãos mais novos e mais despreparados. Dom Antônio acabou morrendo em 11 de junho de 1801, aos seis anos de idade. Quem acabou assumindo o poder, anos depois, foi o nosso conhecido Pedro de Alcântara.
E nós aqui? No inicio a cidade se grafava “Villa Antonina”, assim tudo junto. Ou, a vila de Antônio. Assim encontramos toda a nossa documentação no período colonial.  Lá pelo meio do caminho, durante a Regência e o Segundo Reinado, segundo o inescapável Ermelino de Leão, é que se abandonou a forma antiga e se tornou simplesmente Antonina.
Houve no passado (leia-se século XX) quem não gostasse do nome da cidade, ou da intenção no nome. Achavam que estava no nome e na homenagem uma explicação pelos males que a cidade atravessou nos últimos cinquenta anos (é claro!). Acharam de procurar uma origem no grego “Antos”, flor. Vem daí o verso “Antonina cidade das flores”, que foi pespegado em um de nossos hinos. De suave e finíssimo olor? No meio do manguezal? Acho que este poeta tinha problemas no nariz...
O príncipe Dom Antônio partiu cedo. O investimento feito em sua homenagem morreu ainda em botão, mas a vila á qual emprestou o nome prosperou. Antonina foi uma bela e futurosa cidade, cheia de riqueza, alegria, encanto e beleza. Ainda tem tudo isso, menos a riqueza, que foi embora ao ultimo apito do trem. Ou foi soterrada pelos sedimentos que assoreiam nossa baia.
Será que seria diferente se o nome da cidade fosse Pilar da Graciosa? Ou Guarapirocaba? Será que o príncipe Dom Antônio, se tomasse um caldo de cana todo dia na feira-mar, ou comesse bagre com pirão do mesmo na praia do polacos sobreviveria e, já rei, nos faria melhores e mais felizes? É sempre uma tentação ficar imaginando como seria nosso presente se nosso passado fosse outro.

Mas o fato é um só: entre o mangue e o mato mora uma gente como não tem igual, num cenário que é uma beleza que a natureza criou, como disse o poeta (e enfatiza o geólogo). Nossa Deitada-a-beira-do-mar encanta e encanta. Devemos nos orgulhar do que somos e do que conseguimos. Não é muito? Também não é pouco...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

HENRIQUE LAGE E O COMEÇO DO FIM DE ANTONINA

Henrique Lage (1881-1941) e sua esposa, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni (1888-1962)

Há exatos 74 anos atrás, falecia no Rio de Janeiro o empresário Henrique Lage. E nós, bagrinhos, o que temos com isso?
Nascido no Rio Henrique Lage foi um dos grandes capitães de indústria do Brasil no inicio do século XX. Nascido no Rio em 14 de março de 1881, era  filho mais velho do comendador Antônio Lage, importante empresário e dono de diversos negócios nas áreas de carvão, estivas e pequenas embarcações, além de um estaleiro para consertos navais. Com o advento da Republica diversas empresas de navegação estrangeiras foram nacionalizadas. Comprando o acervo da Norton- Megaw & Co, Antônio Lage fundou, em parceria com Luiz Augusto Ferreira de Almeida, a Companhia Nacional de Navegação Costeira, que foi durante muito tempo a principal empresa de navegação do país.
A Costeira, como era conhecida, ficou famosa por seus navios, os quais começavam todos com o nome Ita. A marca ficou tão importante que ITA passou a quase ser sinônimo de navio. Quem não se lembra do grande sucesso de Dorival Caymmi nos anos 40/50, “peguei um Ita no norte”?
Henrique Lage formou-se em engenharia Naval nos Estados Unidos, em 1909. Juntamente com seus irmãos, sucedendo o pai na direção da Lage e irmãos – que ficou conhecida como o Império Lage – Henrique Lage foi um empresário incrivelmente dinâmico. Aproveitou a onda de substituição de importações durante a 1ª Guerra Mundial e ganhou muito dinheiro vendendo navios, que fabricava no seu estaleiro na ilha do Vianna, em Niterói, e carvão, com o porto de Imbituba, em Santa Catarina. Também fundou a primeira refinaria de sal brasileira, que consagrou a marca "sal Ita". Foi também pioneiro da indústria da aviação, com a construção de aviões de pequeno porte no Brasil.
Empresário nacionalista, Henrique Lage se orgulhava de fabricar no Brasil navios e aviões, com poucos componentes importados. Seu período de maior crescimento e atividade foram os anos 20. Nos anos 30 teve algumas dificuldades econômicas, mas consegui manter o grupo.
Em Antonina Henrique Lage tentou realizar projetos de uma siderúrgica, para atender seus projetos navais na ilha do Vianna, em Niterói. Contudo, seu vinculo com a cidade estava principalmente em suas companhias de navegação, o Lloyd Nacional e a Costeira, que faziam a navegação de cabotagem e integravam a Deitada-a-beira-do-mar ao circuito da produção nacional.
Entretanto, a navegação de cabotagem estava com problemas, e dependia em muito de subsídios governamentais. Em 1941, a Comissão de Marinha Mercante suspende as subvenções pagas às empresas de navegação. A Costeira e o Lloyd sofrem o baque e tem sérios problemas financeiros. Como compensação, o Governo Vargas primeiro concede empréstimos a companhia.
Quando Henrique Lage morre, em 2 de julho de 1941, o Governo vai tomando conta da companhia, que é reestruturada. Sua viúva, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, é afastada da direção das empresas, sob o pretexto de não ser brasileira. Em setembro de 1942, com a declaração de guerra as nações do eixo, as companhias são nacionalizadas.
Em Antonina, dependente da navegação costeira, o baque é tremendo. Para evitar a crise, os famosos quatro escoteiros são mandados ao Rio com uma carta onde pedem a reabertura dos escritórios do Lloyd Nacional e da Costeira na cidade. Essa parte do filme já vimos.
Henrique Lage foi um industrial que conseguiu fazer multiplicar as organizações  que recebera de herança, fazendo do tripé carvão, navio e ferro o eixo de seus negócios. Trata-se de um empresário arrojado e obstinado, que não temia fazer altas apostas. No entanto, apesar de suas boas relações com Getúlio Vargas, o estado novo por fim engole o Império Lage.
Hoje seu nome é lembrado no Rio com o Parque Lage, antiga propriedade sua ao pé do morro do Corcovado. Em São Paulo, A REVAP, ou refinaria do Vale do Paraíba, em São José dos Campos, também é conhecida como Refinaria Henrique Lage.

Antonina? Antonina fica a ver navios...