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sábado, 4 de abril de 2020

QUANTO VALE UMA VIDA?


peguei daqui


A pandemia/epidemia de coronavírus que estamos vivendo não pode mais ser relativizada. Precisamente na última quinta-feira, 2 de abril, o número de mortos pelo coronavírus (299 vítimas) ultrapassou o número de mortes no desastre do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, 272 pessoas. Quantas Brumadinhos cabem nesta nova tragédia?

A pergunta que muito se fez, e a única a qual não se deveria fazer, é: Quanto vale uma vida? Entre pasmos e boquiabertos, estamos vendo raciocínios completamente estapafúrdios sendo feitos nas nossas fuças: quantas vidas seria necessário sacrificar para manter a sociedade, leia-se economia, funcionando? 

O empresariado bolsonarista não se cansa de fazer esta proposição. “Por causa de cinco mil, sete mil vidas” não se deveria parar a economia. O próprio “mito” faz raciocínio idêntico: “morreu, lamento”, diz o ex-militar, que não parece se incomodar com baixas que seus governados vêm sofrendo. Parece que nem ficam ruborizados. Como tantos já apontaram, vivemos tempo em que ficou “natural” falar estas barbaridades.  

As barbaridades são ditas em ambientes limpinhos e requintados, com empresários falando serenamente aos microfones coisas igualmente sensatas e razoáveis. A empatia evapora-se como álcool gel. Não há aqui ogeneral franquista gritando “Viva la muerte!”. Não há imagens de Hitler e Goebbels defendendo a “Solução Final”. Mas também é Necropolítica. Na veia.

Frente a raciocínios tão sofisticados, seria justo perguntar: quais seriam estas vidas que se pode abrir mão? Quem são as buchas de canhão da nova pandemia? Por certo não seriam as suas próprias, nem de seus familiares. Seria, é claro, a vida do outro, do distante, do pobre, do negro, do imigrante, do idoso. A morte das pessoas invisíveis não faz corar ao empresariado liberal. 

Há também os que se refugiam na aparente neutralidade dos números. No início de março várias pessoas relativizavam a pandemia dizendo que o número de mortos seria pequeno, por causa da “baixa letalidade” da nova doença. No entanto, a escalada de disseminação da doença e as mortes associadas mostra outra realidade. Quanto dá 2,5% de 210 milhões? Quem vai pagar essa conta?

Alguns outros argumentam: por que ligar para um número tão pequeno de mortes, se o trânsito mata mais? Se fumantes morrem mais?

É o mesmo problema que temos para comparar um acidente de avião com os acidentes de carro. Um acidente de avião instantaneamente mata centenas de pessoas. Já os acidentes de trânsito são menores e mais espaçados no tempo. 

A morte concentrada e trágica destes eventos é mais impressionante pelo volume e intensidade. Por isso os acidentes de avião chocam mais que as milhares mortes do trânsito. 

(Isso não quer dizer que os acidentes de trânsito não sejam um problema. Obvio que são. Entretanto, a solução dada pelo atual desgoverno é uma chocante flexibilização das regras de trânsito. Especialistas são unânimes em dizer que as medidas tomadas pelo “mito” aumentam a insegurança e, por consequência, o número de mortes.)

Não estamos mais nas “pestes” do passado, onde se acreditava que as mortes eram causadas pela ira divina. Temos uma sociedade tecnológica que pode (e está) respondendo rapidamente aos fatos verificados durante a dispersão da pandemia do coronavírus. 

Entretanto, vivemos, particularmente em nosso país, uma forma perversa de pensar e agir, que tende a sacrificar os mais pobres e vulneráveis em nome de uma pretensa racionalidade dos negócios. No entanto, vida e economia não se separam. Quanto mais pessoas expostas, maior será a mortalidade. 

Quando a escalada de mortes começar, nas próximas semanas, o impacto na vida e no funcionamento dos hospitais e serviços funerários vão cobrar seu preço. E isso traz consequências sociais e políticas impossíveis de prever.

domingo, 30 de junho de 2019

O DIABO NA TERRA DE VALE PORTO


foto: Eduardo Nascimento
Já faz algum tempo que o Sete-Peles mora em Antonina. Alguns dizem que ele sempre morou ali, “por isso Antonina não vai pra frente”. Outros acham que não, ele veio pra cá nos anos 90, quando houve o último suspiro do Porto. Ou que ele veio num destes Festivais de Inverno, gostou e ficou. Ou foi num carnaval? Eu nem sei dizer...
O que se sabe é que ele sempre evitou morar no centro, tão cheio de pecados e pecadores. Procurou casa no Batel, na Pita, a acabou morando uns tempos no Jardim Maria Luiza, num sobrado alugado. Depois, mudou-se para a Graciosa de Cima, onde mora num terreno estreito e com uma vista divina (?) para o mar e para as Serras.
O Capiroto é um senhor branco, classe média, de meia idade. Um homem de bem, de hábitos simples e metódicos. Todo dia de manhã bem cedo sai passear com seu cão preto e peludo, desce até a praça da Feira-mar, passa diante do Casarão dos Macedo chega até o belvedere da Matriz e, depois, volta pra casa. Outras vezes, mais animado, vai pelo Tucunduva e dá a volta no Morro do Bom Brinquedo, voltando pelo Batel.
O Coisa-ruim frequenta as missas na matriz, assim como assiste as celebrações especiais na igreja do Bom Jesus do Saivá. Também frequenta as igrejas protestantes tradicionais e as neopentecostais. Há quem diga que o viu num terreiro de Umbanda, mas acho que é maledicência.
Já foi convidado pra entrar no partido tal ou qual, ou sair pra candidato a vereador por diversos partidos. Até pra vice-prefeito foi sondado. A todos, o Grão-tinhoso explica que não gosta de política, e que prefere viver assim, quieto, no seu canto. Os políticos saem cabisbaixos de sua casa.
Ao que se saiba o Bode Preto nunca brigou com os vizinhos por causa de muros ou cercas. Também é bem silencioso e não incomoda ninguém com gritos ou música alta. Vive sozinho, com o seu cão preto. É recatado, e ninguém nunca o viu botando ninguém pra dentro de casa, seja mulher ou seja homem.
Ou seja, não é um antoninense comum. As pessoas na doce Deitada-a-beira-do-mar seguem pela vida barulhentas, brigonas, intempestivas, reclamando do vizinho, da prefeitura, da chuva. Falam do carro novo do vereador, da reforma na casa do assessor da prefeitura, do vizinho, do cunhado, dos buracos na rua, dos matos nas calçadas.
De noite, estão nas igrejas rezando ou no bar bebendo. Os da igreja acreditando na perdição dos que estão no bar e os do bar vendo afundar-se a vida dos que estão na igreja. Ao se encontrarem nas esquinas falam de coisas graves e sérias. Como sobre a corrupção dos outros e, sobretudo, concordam que são todos, os da igreja e os do bar, autênticos homens de bem.
Estes tempos, estava na terrinha, conversando e tomando um chopp com um amigo querido, na pizzaria ali no final da Avenida do Samba. Questionei o fato de o diabo estar entre nós. Meu amigo disse não se importar. “Ele não incomoda ninguém, paga o IPTU regularmente”, me disse ele.
Mas e o mal? Ele não é o mal? Perguntei. Este meu amigo, cínico e divertido como só um bom capelista pode ser, me olhou e disse: “Pára, Jeffinho!”. Sorriu, deu um gole no Chopp e continuou: “o mal não está nele, está em você. Você é que vê o mal nele”. Tive que concordar.
E ele continuou: “fico feliz de ele morar aqui, em Antonina, perto da gente. Você vê ele cada vez que sai pra passear. Ele é o nosso metro. Como ele é culpado de tudo, podemos continuar a viver como vivemos”.  “E isso é bom?”, perguntei. Meu amigo me olhou com ares de dúvida: “Sinceramente, não sei, é assim que vivemos. Não é?”
Concordei com ele. Meu chopp estava esquentando. Dei um gole e fiquei olhando as mariposas a rodar ao redor das lâmpadas da rua. Os paralelepípedos estavam brilhando por causa da última chuva que tinha caído, fazia alguns minutos. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

OS CÉUS DE DENVER - Diários (norte)americanos 3


briga de nuvens no céu de Denver, Colorado
Para quem estava apreensivo com a viagem até Denver, tudo correu direitinho. Fui um dos últimos a entrar, depois de ser chamado e verificado pelos funcionários da companhia aérea. Depois de olhar tudo, listagens, cartões de embarque e passaporte, me colocaram na rampa de acesso com um “nice trip, Mr Picano!”. Não perdi tempo, e corri para o avião.
O voo para Denver foi tranquilo. Espremido entre dois adolescentes, que só tinham olhos e ouvidos e tudo o mais que que se queira para seus celulares, fiz uma viagem tranquila, lendo meu livrinho e vendo umas comédias no avião.
A paisagem era monótona, uma grande planície que se estendia até onde a vista alcançava. Ao redor de Dallas não se via muitos sinais de agricultura. Só mesmo perto de Denver é que o ambiente ficou mais verde. Era uma grande colcha de retalhos com quadrados ora mais ora menos verdes e alguns circulares, por conta dos pivôs de irrigação.
Quando o avião virou pra aterrissar é que vi pela primeira vez as Rochosas. Um espetáculo fascinante, uma grande barreira azulada ao fundo, onde termina a grande planície. Aqui e ali, alguns picos nevados. Picos nevados dão uma sensação diferente e bonita, principalmente quando você está de longe.
Ao chegar no aeroporto de Denver, fui direto pegar minha mala. Estava apreensivo, pois não sabia direito se ia achá-la ou não. Já ouvi histórias terríveis de extravios de malas em aeroportos americanos. Quando eu entrei no salão de despacho de bagagens eu já estava pensando em como ia ficar vários dias com a roupa do corpo.
Minha mala, com alça, estava paradinha no corredor, lado a lado com outras malas de outras pessoas que devem ter se perdido em algum lugar. A pessoa se perde, mas a mala não. Não tinha ninguém ali pra me exigir o ticket. Peguei a mala e fui embora.
Demorei um pouco pra me entender com a máquina que vendia os bilhetes de trem. Se não fosse a intervenção do guardinha da estação, não teria conseguido. Me senti um analfabeto funcional. Mas o guardinha me tranquilizou: “essas maquinas são malucas mesmo. Ninguém entende o que elas querem”. Agradeci e fui embora.
O resto da viagem foi tranquilo. Peguei um trem até o centro de Denver, e com o mesmo bilhete, que ninguém me cobrou, cheguei até a cidade de Golden, onde estou agora. Nós, brasileiros, em geral nos espantamos com essas coisas. Pensando na nossa situação, dá uma sensação de falência da nossa cultura. Quando vamos ter coisas controladas pela nossa confiança mútua?
O céu estava limpo, mas logo nublou com as nuvens vindo das cordilheiras nevadas. O céu de Denver era um céu azul bonito, de verão. Lembrei-me até dos versos de Mário Quintana sobre os belos céus azuis de Porto Alegre. Aqui e ali, algumas nuvens fofas e gordinhas da estação. Logo o céu, que parecia ter um pé direito muito mais alto, nublou com a chegada das nuvens de chuva. Uma chuva de verão, cheia de vento e com alguns raios aqui e ali.
Protegido pelo vidro do trem, foi bonito ver a chegada daquela chuva. Lembrei até de um dia de infância, na janela de minha casa de Antonina, vendo uma forte tempestade de verão chegar, junto com minha tia Zila.
Era assustador o negrume da chuva, e o vento que ela trazia. Tia Zila me confortou, me fazendo ver que era o poder da natureza. E ele era bonito e não assustador. A forte tempestade de verão passou, como todas passam. No entanto, sua passagem me deixou feliz e não mais assustado com seu poder. Passei a mostrar para meus filhos a chuva que chegava, segundo os mesmos princípios de beleza e força. Nenhum deles se tornou meteorologista, mas acho que hoje enfrentam chuvas numa boa, sem medo.
Logo peguei o trem para Golden, na bela estação central de Denver. Toda remodelada, ela é bem bonita e merece mais que um reles translado. É uma estação do século passado, bem grande, que foi recentemente reformada e está cheia de lojas cafés e livrarias. mas fui pegar meu trem.
À medida que o trem chegava perto de Golden, a chuva e as montanhas ficavam mais perto. É um trajeto bem bonito e bem rápido. Na beira da estrada existem diversos conjuntos residenciais de tijolinho vermelho aparente, lembrando as vilas inglesas,  de casas todas iguais. Até os condomínios de prédios baixos tem esse formato.
O trem finalmente nos deixou num grande complexo de prédios, que compreendem o Distrito do condado de Jefferson, ao qual pertence a cidade de Golden. Sim, o nome é esse e eu fiquei procurando umas placas para tirar selfie com meu nome. Mas o ônibus chegou antes. Estava próximo ao meu destino.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

PARA MESTRE ELIMAR TREIN, COM CARINHO (FINAL)


Um pequeno avião monomotor sobrevoa a Amazônia.  Sem força para subir mais, o avião contornava as grandes nuvens que iam se formando no céu equatorial, para evitar turbulências. Lá embaixo, a floresta era imensa, verde, úmida. Era o dia 2 de abril de 1964.
Ao se aproximar de Belém, a torre faz um anúncio no rádio. O presidente João Goulart havia sido afastado pelo Congresso. Os passageiros se olham, espantados. Um rapaz grande e alto, lá no assento do fundo do avião, murmura em voz alta: “depuseram o Jango? Como pode isso?”.
Nem bem o avião pousou no aeroporto de Belém, a polícia, avisada pelo piloto ou por algum passageiro, fora pedir explicações ao rapaz. Ele ainda se mostrava espantado com a deposição de Jango. Todo o país deveria estar, pois os fatos ainda estavam ocorrendo, e ainda não se sabia o que iria acontecer. Os policiais pediram para revistar suas coisas.
Ao abrir as malas, encontraram muito dinheiro. O rapaz explicou que era geólogo, e que aquilo era o seu pagamento por vários meses na Selva. Trabalhara na Petrobrás, tinha pedido demissão e iria agora para casa, no Rio Grande do Sul. Seu nome era Elimar Trein.
Os policiais não quiseram saber. Era muito dinheiro. Aquilo não era dinheiro para atividades subversivas? Ele não era agente de Moscou? Quanto mais o jovem geólogo se explicava, pior ficava sua situação. O dinheiro foi confiscado e ele foi preso ali mesmo no aeroporto.
Enviado a uma cadeia, ele foi concentrado com outros presos naqueles dias: estudantes, sindicalistas, professores, era um mundo de gente que se aglomerava por ali. Os prisioneiros ainda tiveram que andar, algemados, pelas ruas da cidade. Dos prédios da velha Belém, chovia papel picado. Era a classe média local, feliz com a deposição do governo “comunista” de Jango. Dos prédios e das ruas ouviam-se os gritos de “comunistas”, incitações a violências, pedia-se a morte daqueles imundos.
De fato, muitas prisões ocorreram nestes primeiros dias do golpe. O jovem Elimar Trein, junto com os demais, seria enviado ao presidio dailha de Cotijuba, onde amargaria alguns meses ainda de cadeia.
Ali ficava o educandário Nogueira de Farias, um reformatório que ali havia sido construído na década de 1930. Durante boa parte do Regime Militar que se instalava, o antigo reformatório foi se transformando em presídio. Oficialmente, foi presidio a partir de 1968. Ali se juntavam todos, presos comuns e presos políticos. Não eram incomuns denúncias de maus tratos e tortura, transformando a pacata ilha de Cotijuba, famosa por suas praias e trilhas, na “ilha do inferno”.
Foi o próprio Elimar Trein que me contou esta história, lá em Belém, onde nos encontramos em 2010 num Congresso de Geologia. No dia seguinte, ele iria numa excursão para Cotijuba, ver as ruinas do velho presidio. Não perguntei as razões ao velho mestre. Imagino que para ele era algo como fechar uma porta, vencer um ciclo.
Não tornei mais a falar com Mestre Elimar Trein. Não sei de suas impressões da visita. O que soube, pesquisando, foi que o presidio durou até 1976, quando uma rebelião praticamente destruiu o prédio. Os presos quase mataram o diretor, que só sobreviveu por milagre. Hoje, o antigo educandário que virou presidio é uma ruína.
Até hoje, Cotijuba é afetada por seu passado como presidio. Não adianta fazer referencias a suas belas praias, aos passeios de charrete, ou à afabilidade de seus moradores. Cotijuba tem um presidio onde muita gente continua sofrendo, no dizer de Dona Dorinha, moradora da Ilha:
“Esse presídio é mal-assombrado, até hoje a gente escuta os presos que viveram aí gritando e pedindo socorro. É verdade! Quer vê? Passa depois das seis horas da tarde por aí que você vai vê, e vai sentir muita coisa. Só de você tocar nessas paredes caindo, a gente já se arrepia tudo. Aí teve muito sofrimento, e o espírito dos presos ainda estão preso aí.”
Hoje, com tanta gente negando o passado e re-inventando novas interpretações para velhos fatos, a narrativa de mestre Elimar Trein me surge forte na cabeça. Ele passou por tudo isso ainda muito jovem, reinventou-se e foi tudo o que foi na vida. Nem era político nem era apaixonado por política. Neste momento especifico, ele foi a pessoa errada no local errado, a demonstrar com seus padecimentos como estes episódios podem ser terríveis.
Aqui me despeço.
Que mestre Elimar descanse em paz.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

PARA MESTRE ELIMAR TREIN, COM CARINHO (2)


Depois que eu me formei, em 1989, eu saí de Curitiba, para fazer meu mestrado em São Paulo. Tempo rude e difícil, e cheio de mudanças em todos os planos.  
Na vida profissional, aquele era um tempo cheio de incertezas. Vivíamos a inflação galopante do final dos anos Sarney. Ter as coisas em casa era uma loucura, os preços variavam no mesmo dia. Na USP, as bolsas de estudo, essenciais para nos manter estudando e fazendo nossas pesquisas, sempre atrasavam. O ambiente era de uma cruel, marcadas por um governo inimigo da educação, o governo Collor.
Voltei a Curitiba em 1991, e consegui uma vaga precária para dar aula como professor substituto na UFPR. Eu havia ficado em segundo lugar no concurso para substituto, e o primeiro colocado, depois de um tempo, havia saído.
Foi aí que eu reencontrei mestre Elimar Trein, agora com Chefe do Departamento de Geologia da UFPR.
Rapidamente, Mestre Elimar se pôs a trabalhar e viabilizou minha contratação. Fez de tudo para que eu começasse logo a dar aulas, e me deu os meios para fazer isso. Uma a uma, as questões burocráticas foram resolvidas e meu contrato foi feito. Era um contrato muito precário, pois recebíamos como prestadores de serviço, sem direito a nenhuma garantia. Mas para quem não tinha nada, foi alguma coisa. Hoje, este sistema está bem melhor, embora sempre há quem queira voltar a este passado ruim.
Lembro de quando cheguei para dar minha primeira aula. Era uma aula de Geologia Geral para a Engenharia Cartográfica. Estava iniciando a aula quando o Coordenador da Engenharia Cartográfica entra na sala de aula, esbaforido e meio raivoso: “Ainda não arrumaram o professor substituto?”, perguntou para mim e para a turma.
Quando eu me apresentei, dizendo que era o professor da disciplina, ele se deu conta da situação. Havia me confundido com os alunos. Afinal, na época eu tinha um pouco mais que a idade dos meus alunos, e poderia facilmente me passar por eles. Depois, quando fui contar para Elimar da situação, rimos demais.
E assim foi. Volta e meia eu passava na sala da chefia de Departamento e nós íamos tomar um cafezinho. Volta e meia íamos também à cantina da Exatas, tomar um café e conversar, coisas sérias ou não. Não me lembro direito destas conversas, mas eu lembro que era um tempo bom.
Acabei saindo no final do meu contrato. Esse meu período, que durou dois semestres aproximadamente, foi marcado pelo apoio do meu agora colega Elimar Trein. Um apoio firme e amigo, do qual eu jamais me esquecerei.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

PARA MESTRE ELIMAR TREIN, COM CARINHO (1)


Fim de tarde no rio Ribeira, que Elimar Trein conhecia tão bem...
Semana passada tive a notícia da morte de meu querido professor Elimar Trein.
Desde então, como pequenos flashes, as lembranças deste mestre querido foram se enredando e se embaralhando em minha cabeça, formando uma teia de saudades. Nunca fui íntimo dele. Não sei dos pormenores de sua vida além da dos tempos da Faculdade. Portanto, vou me ater as lembranças do mestre e, com muito orgulho, colega Elimar Trein.
Minha primeira lembrança, ainda muito tímida, foi de quando eu fui pela primeira vez estagiário na saudosa Mineropar. Ainda no segundo ano do curso de geologia, estava lá numa salinha do primeiro andar do prédio do Juvevê, às voltas com atualizações de mapas de áreas de mineração, quando o vi pela primeira vez.
 Elimar Trein era o vozeirão que passeava pelos corredores conversando com todo o mundo. Ele era então o Diretor Técnico da empresa. De vez em quando ele colocava a cabeça pela porta de nossa sala, dava um bom dia e seguia em frente. Ficávamos ali, entre assustados e orgulhosos pela lembrança do chefe. Naquele tempo ele já era uma lenda.
Afinal, Elimar Trein fora um dos geólogos da legendaria Comissão da Carta Geológica do Paraná. Junto com gente de renome como Reinhardt Fuck, Onildo Marini, Arsênio Muratori e outros geólogos, a Comissão da Carta foi um divisor de águas na geologia paranaense.
Até hoje, vendo aqueles mapas impressos e coloridos e passear pela geologia e pelas rochas ali descritas, pode-se sentir o peso daquele trabalho, que mapeou a região Leste do Paraná numa escala de detalhe nunca antes mapeada. Façanha que nunca seria repetida. A julgar pelos sombrios tempos que correm, não o será tão cedo. A Comissão da Carta é hoje somente uma lenda. 
Elimar Trein foi o autor de algumas destas cartas, e autor de textos importantes da geologia do Paraná. Vê-lo andar em passos largos pelos corredores da Mineropar era como se víssemos a bibliografia que estudávamos a passear na nossa frente, viva e pulsante.
Ao contrário de Reinhardt Fuck e Onildo Marini, que foram posteriormente para a UnB e fizeram carreira memorável como pesquisadores, Elimar ficou no Paraná. Não foi inicialmente para a academia. Trabalhou em diversas empresas de mineração e esteve dentro da equipe que fundou a Mineropar. Foi, naqueles anos de muita atividade, um incansável gerente de equipes de campo.
Anos depois, comecei a encontrar com ele, de novo, nos corredores do Centro Politécnico. Estava vindo nos dar aula, e estava se atualizando, assistindo as aulas do prof. Pio Fiori. Alguns colegas até riram quando o viram assistir algumas aulas. Como se isso o diminuísse. Na verdade, era outra faceta marcante de Elimar: aprender e reaprender.
Não é fácil voltar aos bancos escolares depois de algum tempo. Mas não é nenhum problema, ao contrário. Não é voltar a aprender, mas continuar aprendendo de uma maneira mais rápida e honesta, que é através do ensino regular. No mundo de hoje, por conta da informação da internet, muitas pessoas acham que se pode prescindir do ensino formal e regular. Ledo engano.
Elimar Trein ministrou aulas de Geologia Estrutural para nós no segundo semestre de 1985. Foi o meu pior período no curso de geologia, com estudante. Por contas das agitações da política estudantil, e não só por conta delas, acabei faltando demais, e acabei reprovando.
Voltei no semestre seguinte. Encarei de novo Elimar Trein e a Geologia Estrutural. Desta vez, foi fácil. Lembro-me bem do trabalho de campo final, no vale do Ribeira, num dia quente e ensolarado. Depois de percorrido o perfil do dia, paramos num pequeno bar na beira da estrada, e tomamos umas cervejas. 
Com o calor e a poeira, os primeiros goles eram de um alivio que não se descreve com palavras. Lembro de mestre Elimar contando histórias de mineração, de trabalhos de campo, de fatos pitorescos da vida de geólogo de campo. Continuava o mestre, nascia o amigo.
Elimar Trein foi meu professor em diversas outras disciplinas. Lembro-me de que, durante a disciplina de mapeamento geológico, professor Jose Manoel dos Reis Neto, também de saudosa memória, nos avisou antes de irmos para o campo: “não vão forçar a barra ao caminhar, porque o Elimar não aguenta”. Aguentou sim, e discutimos muita geologia e nos divertimos nas estradas de Piên.
Na banca de graduação, foi um dos que nos arguiu com severidade, mas com suavidade. Apontou corretamente o que estava estranho, e mostrou o que estava bom. Quando ele encerrou sua arguição, olhei para Flavio Oliver e Jonas Furman, meus colegas de equipe, com um olhar de “agora somos geólogos”.
Faltava muito ainda, e Elimar Trein sabia disso.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

EU DENUNCIO MEUS DOUTRINADORES


Acho que é muito justo. As pessoas que me enviaram para o caminho que eu trilho hoje, devem ser denunciadas como doutrinadores. Afinal, estes professores me conduziram a pensar torto como eu penso hoje. E devem ser denunciados para o devido julgamento.
Eu denuncio dona Laura Veiga, por me introduzir ao mundo escolar com tanto afeto e carinho. Eu denuncio dona Janete Mangini, por me deixar, no terceiro ano primário, a ir até a janela ver o pássaro brincando na poça d´água, sem me interpelar ou julgar. E denuncio dona Enery Parodi, por me ensinar verbos, substantivos, adjetivos. Graças a esta doutrinação nefasta, hoje eu vejo ações, objetos, qualidades.
Eu denuncio professor José Augusto Mendes, o Zezo, por me ensinar a somar, multiplicar e (doutrinador nefasto!) a dividir. Este doutrinador também me ensinou a ser um professor que só passa adiante quando o ultimo aluno aprendeu a lição. Ninguém fica para trás. Professor Zezo, tão católico, leu Mao Zedong?
A professora Vera Peixoto, na 5ª serie, me fez pensar em rochas e minerais...e eu acabei virando geólogo! Que doutrinadora terrível! Eu denuncio também a professora Laís por me ensinar na quinta série que a teoria das três raças tinha problemas. Que raça eu era? Branco? Negro? Índio? Um pouco de tudo, ou nada? Eu denuncio minha professora de francês da sexta série, que me passou um texto com as palavras Liberté, Egalité, Fraternité...que comunista!
Eu denuncio meus professores de Biologia por me ensinarem que os seres vivos evoluem. Eu denuncio meus professores de Física ao demostrar que matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distancias. E os meus professores de Química, que me doutrinaram a perceber que o mundo estava cheio de átomos e vazio de metafisica? Todos doutrinadores! Era isso mesmo, professor Borsato, grande químico, grande doutrinador? Eu também denuncio meus professores de desenho, por me ensinarem, gauche que sou, a escrever torto por linhas certas...
Eu denuncio o professor Teófilo Bacha Filho, por me mostrar que a história da humanidade era a história da luta de classes. Doutrinador vil! História antiga, feudalismo, capitalismo, que coisa insana é essa? Revolução Francesa? Revolução russa?  Doutrinador imundo!!
Eu denuncio o professor Márcio Imenes, por mostrar (e demostrar) que a matemática podia ser uma coisa simples fácil e observável. Acessível a todos. Comunista sujo! Professor Trotta, ensinando que as leis de Newton não valiam no universo quântico...que canalha doutrinador!!
Eu denuncio o professor Gastão Octávio Franco da Luz por doutrinar a mim e meus colegas sobre temas subversivos como Metodologia cientifica e outra coisas dignas de comunistas. Eu denuncio a professora Rosamarie Becker por nos ensinar sobre os diferentes tipos de sedimentos, tão democráticos estes!
Eu denuncio o professor Elimar Trein, ex-preso político, por nos doutrinar sobre temas subversivos como Geologia Estrutural, ética, profissionalismo! Denuncio os profs Marlene e José Henrique Popp por me ensinarem sobre ambientes de sedimentação, paleontologia e política universitária. Eu denuncio o professor Riad Salamuni por doutrinador confesso, que falava abertamente sobre humanidade e compaixão, além de água “subterranha”.
(Por ter um coração cheio de sangue vermelho (!), uma alegria infinita e uma cabeça aberta para os sonhos (sempre tão subversivos!), eu denuncio também o professor Dante Romanó júnior, notório doutrinador).  
Eu denuncio o professor José Manuel dos Reis Neto, por ser um nefasto doutrinador. Além de doutrinar sobre petrografia metamórfica, também ensinou humanidades, políticas, amizades, afetos que não se encerram.  O professor Ernani Rosa Filho, outro notório doutrinador, eu o denuncio também!!
Eu denuncio o professor Benjamim Bley de Brito Neves, outro grande doutrinador!! Então a Tectônica de Placas? Então a poesia? A geologia do agreste, a brotar água fresca e poesia, tudo isso cabe na sua Geotectônica? Que desvio! Pobre ciência com um doutrinador deste naipe! Onde vamos parar?
Eu os denuncio todos, professores! Vocês me doutrinaram! Me ensinaram o certo, o errado, e o avesso do certo e do errado. Vocês me tornaram o ser lamentável e incerto que sou. Vocês me ensinaram que o mundo é incerto, que a ciência nos orienta, mas também não é tudo.  
Nos caminhos incertos do mundo vocês me ensinaram a confiar. Na razão? Não. Em mim.
Hoje graças a vocês, eu duvido de tudo. Pergunto antes de ter certeza. Me informo antes de agir. Quando trabalho com colegas, vocês me ensinaram a ser profissional. Quando trabalho com alunos, vocês me ensinaram a ter paciência e dedicação. Quanto estou junto do povo brasileiro, que me pagou os estudos, você me ensinaram a ter humildade e gratidão.
Eu os denuncio a todos. Vocês me doutrinaram.
Muito obrigado.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O ANTIPETISMO E A VERGONHA ALHEIA



O antipetismo foi uma das maiores forças políticas dos últimos anos. Baseado principalmente nas classes médias, o fervor antipetista tem se tornado mais ativo desde 2013. Em 2015/2016 foi importante no apoio ao golpeachment. Esteve ausente enquanto o PT parecia nas cordas, com a longa questão da prisão e da proibição da candidatura do presidente Lula. Com a ascensão de Haddad nas pesquisas, já se ouve novamente nas redes o urro dos paneleiros. Será que o antipetismo vai ser efetivo esta vez?
Na verdade, depois do golpeachment, a Montanha pariu um rato (ou um morcego?). Toda a fúria antipetista do passado recente resultou em Temer. O governo do Vampiro começou com o famoso ministério dos homens brancos e terminou melancólico, durante uma greve de caminhoneiros contra a politica de liberação dos preços dos combustíveis. Como todos sabem, o vampiro só não foi deposto porque ninguém se interessou em ocupar seu lugar.
Agora, a nova versão da fúria antipetista quer fazer do que era drama uma tragédia. Em vez de nos ofertar um ministério de homens brancos notáveis e emplumados, o novo antipetismo nos oferece o Coiso e seu show de horrores.
Diogo Mainardi, entre outros, urra por um pacto entre os candidatos mais ao centro, muitos deles ditos liberais, e o Coiso. Muitos dos ditos liberais (na economia!) embarcaram na campanha dos milicos e estão de lá, dando seus pitacos. Abraçados com a criatura.
Como a UDN do passado, chamada de “vivandeira”, pois ia aos quartéis pedir pela força o poder que não tinha no voto, o atual antipetismo não é diferente. Não tem pejo em embarcar numa candidatura que prega o“autogolpe”, como fez recentemente o general Mourão em entrevista na Globonews.
Tudo isso para evitar o que seria “O” mal maior, ou seja, a vitória de um candidato petista. Com seu horror à pobreza, o antipetismo inventa seus monstros. Um deles, já bem conhecido, é o Movimento Brasil Livre, de tantas e tão nefastas atuações. Depois de ter tido varias de suas paginas retiradas do ar pelo próprio Facebook por divulgar notícias falsas, o grupo de meninos também está engajado em sua luta pelo Coiso.
O MBL tem se dedicado, por exemplo, a criticar FHC em seu apelo por um “Centro Democrático”: “se o PSDB não consegue representar que não quer o PT, apareceu outro para fazer isso”. Para bom entendedor, este paladino descrito pelo MBL é o candidato que questiona a lisura das eleições.
O antipetismo urra. Tem lá suas razões, embora poucas. Imagina  que ele, o antipetismo, seja portador milagroso da verdade, como muitas vezes os “antas” pregam ser. Os irrequietos grupos antipetistas são – segundo eles mesmos – os porta-vozes de uma maioria silenciosa, que tudo sabe e todo julga.
Nada mais estranho (e minoritário) que uma maioria silenciosa. Possessos, quando são flagrados em minoria, despencam o verbo sobre os de sempre: as minorias, os intelectuais esquerdistas, os pobres, os sem cultura. Ninguém presta, são todos uns idiotas, ignorantes, inocentes úteis. Não raro, são doentes que precisam de "cura". Essa fala já é bem conhecida dos esgotos das redes sociais.
Seria importante lembrar que o segmento que apoia politicas socialistas e social-democráticas no Brasil são um terço do eleitorado. Junto com o povão mais humilde, chega a 40% do total facilmente. Para o bem ou para o mal, é uma quantidade grande de gente, assumida, bem posicionada. Não há como jogar todo esse povo no mar, a não ser no mais louco dos delírios do mais delirante fascista.
No desespero desta reta final de campanha, os antipetistas se agarram aos milicos doidos e “míticos”. Os mais espertos dentre eles sabem muito bem o que estão fazendo ao aderir à caserna. Os demais vão no delírio das soluções simples do Coiso. Vergonha alheia. Vão fazer papel de ridículos perante a História. Se é que se importam com a propria biografia...
Ninguém mandou o Carlos Lacerda não ter deixado publicado o seu livro de memórias...

domingo, 7 de janeiro de 2018

O BAGRE E O CELACANTO


tirei daqui

Para Salvador Picanço (1934-2008)




O celacanto é uma espécie de peixe que se supunha extinta há muito tempo, desde o cretáceo, há 65 milhões de anos atrás. Até ser pescado na costa da África do Sul, em 1938, acreditava-se que era somente um fóssil, atulhando prateleiras de museus de paleontologia. Hoje, sabe-se, ainda existem celacantos nos mares. Poucos, mas existem, como que pra contrariar a evolução das espécies, pra nos contrariar.

A mesma coisa se diz dos políticos honestos. O senso comum diz que eles não existem. Pra nos contrariar, os políticos honestos, como os celacantos, fazem suas aparições aqui e ali. Por estes dias, lamentou-se a perda do senador Jefferson Peres (PDT-AM), tido como um dos celacantos do congresso nacional. Sua defesa da ética e da honestidade, num oceano de pragmatismos partidários, dossiês e caixas-dois, foi como um delicado agitar de barbatanas sacudindo o imenso oceano. Entretanto, como dizia um bem-humorado grafitti dos muros de Sampa, no final dos anos 70, celacanto provoca maremoto. Quem sabe se ainda não teremos algum tsunami de ética agitando o lodo destes nossos mares?

Entre nós, bagres, sempre houve e haverá celacantos, embora os baiacus sempre pareçam mais numerosos. Conheci um destes celacantos bem de perto: Dodô Picanço. Com sua aparição na política antoninense, no início dos anos 70, ele foi um fenômeno, como bem prova sua votação pra vereador em 1972. Entre 1970 e 1976, sua presença dotou Antonina de inúmeras conquistas, como a restaurações das igrejas históricas, inúmeras agitações, como a Expoteira, e uma marcante atuação no legislativo municipal, numa época em que não havia salário pra motivar nossos vereadores.

Eu era muito piá nesta época, mas lembro dos comentários dele sobre as dificuldades de trazer recursos para a cidade naquela época de início de vacas magras. Lembro, também, da quantidade de “aspones” de deputados que apareciam em nossa casa com propostas indecorosas, e que ele os enxotou a todos. Diziam que era mão-de-vaca. Nunca vi ninguém tão generoso. Nunca fez muita questão de dinheiro. Era um político que mais gastou que ganhou dinheiro na política. Bicho raro. Celacanto.

Em casa, vivemos sempre modestamente, com seus recursos de funcionário público. Seu tempo e suas energias, ele os gastava com sua Antonina, com os escoteiros, com os seus bichos na chácara. Tirava, do dinheiro de sua aposentadoria, os recursos pra financiar esta sua ultima e quixotesca campanha para a Prefeitura. Até o fim, ele acreditava poder ajudar, poder fazer a diferença, poder fazer a cidade que ele amava sair da lama.

As pessoas de bem tem nojo de política, ódio dos políticos, e não as culpo. A maior parte deles merece nosso desdém. Só que, em nossa sociedade, quem os coloca lá somos nós. Eles são nossa cara, portanto. A política é a arte do possível, e nenhum político, sozinho, conseguirá nos levar ao paraíso. Esse caminho é coletivo.

Não sei se estamos melhores ou piores nos tempos que correm. Sei que precisamos de celacantos. Que eles existem, existem. Precisam é sair das tocas, agitar esse lodo, mostrar pras pessoas que seriedade e ética existem.  Eu sei que eles existem, eu já vi um celacanto bem de perto. Celacanto provoca maremoto.


(Este texto de 2008 é um texto que, aos meus olhos de hoje, é bastante ingênuo. Em tempos de Lava-jato, essas noções de decência e honestidade estão bem mais complicadas. Parace uma outra época e um outro mundo. O que fica é a lembrança de meu pai, que hoje faria 84 anos. Falei sobre isso outras vezes, aqui e aqui.)

Saudades, seu Dodô!




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - A ENGENHEIRA


(a faixa verde-clara no centro da foto é o duto cruzando os mares de morros)

A engenheira chegou no projeto. Alta, linda, loura, formada na Unicamp e com especialização em segurança do trabalho. Maravilhosa. Uniforme azul impecável, botas novas. Sequer desceu da caminhonete pra cumprimentar: estendia o braço pela janela, e exibia um pálido sorriso.
No primeiro local de visitação, nem quis descer ao local onde estávamos fazendo as sondagens: tínhamos que descer segurando em cordas. Reclamou dos insetos, de uma abelha e de uma joaninha que pousou em seu braço. Quando saímos do local, disse que as curvas da estrada faziam-na enjoar.
No segundo local, até que foi ver o pessoal trabalhando. Aí reparou que ali não existia um banheiro químico. Nosso encarregado, o Siqueira, pernambucano de olhos calmos, respondeu-lhe que ali, naquele tipo de obra, um banheiro químico era um severo impedimento ao trabalho. Nosso deslocamento era constante de um ponto a outro. Levar um banheiro químico para aqueles lugares era um ônus pesado demais para nossos funcionários. Quase como levar fogão de seis bocas num camping.
Então, a engenheira reparou que os funcionários estavam sem o protetor auricular. Novamente, com seu jeito calmo, Siqueira explicou que ali, na mata, não haviam ruídos que pudessem incomodar os funcionários. O bater do martelete de percussão não era continuado nem tinha um som exagerado.
Eu quis mostrar a ela as obras que estava vistoriando. Ela me deixou com o outro fiscal e voltou para a caminhonete. Voltarmos cerca de 40 minutos depois, e a encontramos deitada no banco da caminhonete, ar condicionado, dormindo o sono dos justos.
Disseram-me que ela tinha vindo pra ser chefe da fiscalização do projeto. Não sou nenhum especialista no assunto, mas é mais uma pessoa errada no lugar errado. Depois de quase dez anos sem contratar, as empresas estatais estão num serio dilema. Contratam recém-formados, mas por falta de quadros mais antigos, estes mal entram e já pegam cargos de chefia. O que essa menina vai chefiar?
Mal ela sabia, mas naquele bando de peões que ela viu operando a sonda havia Cícero, que já ganhou dinheiro compondo músicas. Havia o Melancia, contador de causos e anedotas de animar qualquer roda. E havia o Tonho, grande e forte como um urso, suave e simpático como uma criança.
Para além de qualquer projeto estão as pessoas.
As pessoas fazem projetos, constroem dutos, fazem leis, jogam futebol, dirigem grandes corporações, constroem ou destroem países inteiros. Perceber isso é crucial para qualquer empreendimento humano.
Será que a engenheira sabe disso? Pode até saber academicamente, mas tem o saber profundo, aquele que vem com o bater do coração e com o pulsar da existência?
Tomara que ela construa muitas coisas em sua vida profissional. Principalmente, tomara que ela veja, para além das obras prazos planilhas e cronogramas, aquele bando de gente boa e trabalhadora que está ali, fora do ar condicionado, fazendo concretamente o concreto de nossas vidas. Tomara.
(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

sábado, 11 de novembro de 2017

O MINUTO DE BARBOSA



Aquilo foi pouco tempo, menos de um minuto. Gighia passou por Bigode no meio do campo e veio vindo. Uns dizem que Bigode ficou acovardado. Outros lembram ainda do tapa que Bigode levara há pouco de Obdulio Varela e não reagira. Time medroso. O cúmulo da covardia diante da  pátria de chuteiras. 

Gighia avança, Fontana o acompanha de longe, voltando de costas, sem dar combate. Barbosa começa a pular nervoso, de sobreaviso - saio ou não saio? Milhões de olhos o acompanham, os músculos se retesam, os olhos não perdem um lance da aproximação de Gighia, que avança.

De todos os lados os olhos ansiosos estavam pregados naquela cena que se desenrolava veloz, Gighia já está entrando na grande área conduzindo a bola de cabeça baixa como um búfalo furioso, toda perseguição parecia inútil. O Maracanã, com mais de sessenta milhões de pessoas, toda a população brasileira daquela época, assistia mudo Aparício Varela entrando na área.

Tempos modernos, agora não eram trinta e três, mas somente onze. Capazes de anular toda a República, como um dia abalaram o Império. Os uruguaios estão chegando. Gighia chega mais perto e desfere o chute. Barbosa tem pouco tempo. Prepara-se nervoso, retesa os músculos e salta. A bola resvala em seus dedos e sai pra escanteio. O Maracanã respira aliviado. O jogo continuava empatado.

Terminado o jogo, éramos os melhores do mundo. Aquele dia os milhões de pessoas que lotavam o Maracanã não viram Barbosa cabisbaixo buscar a bola do desempate uruguaio no fundo das redes. Não houveram os pulos de alegria que Gighia dava com o jogo virado. Não houve a festa celeste. Não houve lágrimas entre a torcida brasileira, nem choros convulsivos dentro e fora do gramado. E, principalmente, não houve Obdulio Varela levantando a taça como o Gumercindo Saraiva que finalmente amarrava seus cavalos no centro do Rio.

Se Barbosa não tivesse espalmado aquele chute, viveria uma vida de caras viradas, de palavras rudes, de recriminação, de silencio e esquecimento. Teria que viver explicando que não fora frango, que não havia caveira de burro enterrada debaixo de sua meta. Não, a bola enfiada por Gighia não passara por entre seus dedos com o resto de sua vida. O minuto que começara com o drible e a arrancada havia terminado.

Ghigia não marcara o gol, e agora o Maracanã agradecido aplaudiu os artilheiros. Encerrado o jogo, cartolas invadiriam o gramado, felizes. Afinal, agora eles seriam consagrados como responsáveis pela conquista, desde as goleadas contra Suécia e Espanha até àquele suado empate com o Uruguai, dentro do Maracanã lotado. Os cartolas todos foram posteriormente eleitos deputados federais, e fizeram brilhante carreira na política.

Canções foram compostas para louvar os artilheiros, seus salários foram melhorados. Um filme foi rodado com os gols da partida, mostrando as cenas de júbilo e entusiasmo da torcida. Era o primeiro campeonato do mundo de futebol conquistado pela seleção brasileira. E dentro de nossa casa! O filme com o jogo da final de 1950 passou nos cinemas de todo o País, e mostrou aos meninos a glória de vestir o uniforme branco da seleção brasileira.

Depois de ter com a ponta dos dedos espalmado o chute venenoso de Ghigia, segregado àquela estranha profissão de hunos, sempre pisando onde não nascia grama, Barbosa continuaria em silêncio sua sina de buscar bolas no fundo do gol.

(PUBLICADO AQUI PELA PRIMEIRA VEZ)

domingo, 11 de junho de 2017

A MORTE DE BATMAN

Adam West, em foto de 1999, sentado sobre o bat-móvel


Entre tantas perdas que tivemos recentemente, uma delas me bateu tanto que senti, depois de algum tempo, vontade de escrever algumas maltraçadas linhas. Trata-se da morte de Adam West, o icônico Batman do seriado dos anos 60.
Com a perda de West, senti que muito de meu passado está ficando irremediavelmente distante. As tardes em frente da velha – e grande -  TV preto e branco, vendo assustado as encrencas em que se metiam Batman e Robin, lutando contra inimigos não menos icônicos como o Charada, o Pinguim, o Coringa e a não menos temível – e por isso mesmo adorável - Mulher-gato são tardes cada vez mais distantes e apagadas na memória.
Adam West vestiu um Batman da contracultura, um Batman que vinha direto dos gibis, com muita meta-linguagem e com um cenário super-colorido e sua linguagem de socos onomatopaicos – os formidáveis Crash, Pow, Thud...
Era um Batman juvenil e alegre, bem distante daquele Batman introspectivo e sombrio que a série “Cavaleiro das Trevas” viria a impor a partir dos anos 80. Um Batman com falhas, um vingador obsessivo, um ser transtornado e perturbado.
Como não amar aquele imperturbável ricaço que descia por uma passagem secreta para seu esconderijo secreto para lutar contra o mal? Quem nunca quis ter uma segunda identidade e uma batcaverna para se esconder e trabalhar nas mais incríveis ferramentas? Usar o cinto de utilidades, tão kitsch quanto incrível, inventar poções borbulhantes em tubos de ensaio gigantes ou dirigir o bat-móvel ou o batplano pelas ruas e pelos céus de Gotham City?
Santa ingenuidade, Batman! Doce ingenuidade, Batman, embalada em frente da TV preto e branco da sala de estar...
Hoje em dia, em que vivemos nesta lamentável gangorra de emoções ruins e golpes baixos, temos juízes e procuradores que se travestem de Batman. Querem ser justiceiros, querem fazer a diferença como se justiceiros fossem, e não trabalhadores da justiça. Que fazem seu serviço como se dirigissem batmóveis e enfrentassem Coringas ou Charadas, quando o que na verdade enfrentam são os temers, os jucás, os renans, os aécios, bandidos mais espertos e muito mais barra-pesada.
E a justiça? Batman podia pegar seu bat-fone e ligar para o Comissário Gordon e tudo estava resolvido. Batman era um funcionário do Estado, agindo nos interstícios do poder do estado. Quando tudo parecia perdido, o home morcego havia sido capturado pelos vilões e estava para ser morto, aparecia a polícia de Gotham City – o herói estava salvo, e os bandidos estavam presos.
Quem vai prender quem? As lamentáveis Cortes que temos, a deplorável magistratura que sustentamos com nossos impostos é ela mesma cheia de Pinguins e Charadas. Não há espaço para ingenuidade, a lei e a ordem vão se esvaindo como areia por entre nossos dedos e tudo o que foi construído com muito esforço nos últimos trinta anos - a minha vida adulta – se esboroa frente aos interesses privados e à vontade do tal de “mercado”, sem que temas de moral e ética provoquem a mínima indignação.
Todo o legado do século XX e as suas guerras mundiais parece não ser mais levado a sério. A luta contra os nacionalismos perversos e beligerantes como o nazismo, o fascismo e o nacionalismo nipônico, a luta contra a exclusão social, a luta pelas soluções globais negociadas e pelas leis e valores democráticos – o quer que isso queira dizer – ficam cada vez mais relativos.
O colorido vibrante do Batman de Adam West talvez queira nos dizer alguma coisa, nos lembrar de algo que ficou para trás. Um Bat-sinal.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

JOÃO E GERALDO, GERALDO E JOÃO


Confusão na Cracolândia é de Geraldo ou de João? (fonte)
Era uma vez Geraldo, era uma vez João. João e Geraldo, Geraldo e João. Geraldo era médico, um médico sacristão. Governador dessa gente, ele descia o porrete, ele adorava o bastão.  Já João era empresário, e não desdenhava tostão. Era prefeito gabola, se vestia de gari pra fingir que trabalhava. Pintava muro de cinza, pois gostava da cidade, mas não gostava das cores e nem de diversidade.  
Geraldo vinha de longe, do sopé da Mantiqueira. Era médico, homem simples, religioso com fervor. Acreditava, o coitado, que o homem drogado é um fraco, que é homem sem moral. Pra se curar de verdade, precisa de medicina e precisa de internação. Foi por isso que criou o projeto “Redenção”. Pra cada doente internado, Geraldo é que se redimia, mandava eles pra longe, pra onde a cidade não via.
João não quer saber de nada: ele quer é botar no chão, limpa a rua, dá escracho, e quer varrer pobre embora para a cidade arrumar : “Pobre pra lá do tapume, que não quero nem ver! ”. “Para cá chamo Jaime Lerner, cabra muito inteligente, pra deixar a cidade linda, cheia de luz indireta, boutique e floreira bonita”. Essa cidade granfina que ia brotar dos cortiços, que ia vencer as trevas, seria a “Nova Luz”, na ideia de João.
João e Geraldo, Geraldo e João. Ao chegar na Cracolândia, começou a confusão. Era polícia de um lado, era drogado pro outro, bala pra tudo que é lado. Nada disso era problema, pensava João: “Tudo era viciado, pardo preto cafuzo - isso nem gente é”. Prenderam então muita gente, bateram em muito noiado, botaram num camburão. Uns eram para o presidio, outros para internação, pra limpar a Cracolândia, implantar a Redenção. Era cassetete e bala construindo a Nova Luz.
Atrás vinham os tratores fazer a demolição. Ao derrubar uma casa, ali tinha gente ainda, que susto, que maldição! Esse monturo de gente, misturado com tijolo, gente preso no banheiro, parede caindo abaixo, era o mundo que caia em quem era noiado ou não. Quem tava na Cracolândia era gente sem valia, sem finança ou garantia, sem apoio e sem tostão. O meganha enfim gritou: “Que todos saiam da frente que já vamos demolir! ”. Lá de dentro uma vozinha, sem medo de resistir – “muita calma seu tenente, que aqui o que tem sim é gente, com direito de ir a vir”.
Geraldo e João, João e Geraldo. Pra acabar com a droga, não se acaba com o drogado: tem que dar uma chance pra ele se redimir. Problema não é a droga, problema é a pobreza, a falta de opção. Destruir a Cracolândia é só promover desmantelo, é como enxugar o gelo, só esparrama os noiado. Surgem outras cracolândias pela cidade inteira, tão rápido como o lacrimogêneo das bombas de gás da polícia: é toda a cidade a chorar.
Só com moral não resolve o problema do drogado: ele sabe seu estado, está no fundo do poço, mas com cassetete e alvoroço ninguém pode se curar. Pra eles largar o vício dê emprego e dignidade, que eles fazem sacrifício, e vão a droga largar. A vida na rua é dureza, e ninguém quer morar lá. O problema dessas drogas é problema de pobreza, rico também usa droga, mas tem casa para voltar.
João e Geraldo, Geraldo e João. Pra problema complicado, difícil é solução. Esparramar gente e bala e derrubar os cortiço é a pior solução. Sem encarar de verdade a tal da complexidade, livrar do crack a cidade vocês não irão nunca ver.  Vencer desemprego e pobreza, dar ao pobre seu orgulho, pra se acabar com o vicio é a verdadeira questão. Tratar o povo no cacete e tratar vicio com bala só revela o raciocínio de quem não tem compaixão. De João e de Geraldo, de Geraldo e de João.