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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

RICHARLISON E A ALEGRIA DE JOGAR

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Hoje fiz coisas que há muito não fazia. Não, não consegui vestir a amarelinha. Ainda estão na minha cabeça o sequestro de vários símbolos nacionais pelos golpistas.

Não é disto que eu quero falar hoje.

Fui assistir o jogo da seleção brasileira diante da Sérvia, estreia dos pentacampeões na Copa do Mundo no Qatar, essa Copa do Mundo tão estranha e infeliz. Mas não é disso que se trata hoje. Fui com vários amigos e diversos alunos na Estação Barão, o bar dos estudantes daqui de Barão Geraldo.

Foi uma grande emoção ver tanta gente reunida e num mesmo sentido. O fato de estarem de verde amarelo me perturbou no início. Muitos com camisa azul, muitos com camisas alternativas, muitas com outras camisas. Aos poucos, fui perdendo minha inquietação e fui gostando de ver aquela multidão. Muita alegria e esperança no ar.

No início, um jogo tenso, com os sérvios todos na sua grande área, em duas linhas de defesa. Difícil passar por ali. O primeiro tempo foi só isso. Os meninos do Brasil tentando furar aquela muralha vermelha. Vermelha dos uniformes vermelhos dos sérvios, bem se diga.

No segundo tempo, a coisa começa a mudar. A movimentação do time muda, e a barreira sérvia começa a ser ultrapassada. Numa jogada mais estridente do até então apagado Neymar, Richarlyson completa para o gol.

Uma imensa euforia toma conta dos menines onde estou. Uma alegria arrebatadora. É gente gritando, se abraçando, jogando cerveja para cima, uma grande euforia toma conta da multidão. As coisas começam a ficar mais tranquilas.

Foi pouco tempo depois. É quando Vini Jr cruza e Richarlyson, o Pombo, voa para a consagração. Seu voleio, de uma plasticidade incrível, faz mais cerveja voar ao redor. Golaço. Todos pulam extasiados. Um gol maiúsculo de um menino estreante em copas do mundo. Que clareza, que objetividade!

O local onde estávamos foi à loucura. Gente pulando, gente gritando, gente se abraçando. Levamos uma chuva de cerveja, confundidas com a chuva errática que começava a cair. Que lindeza o gol de Richarlyson.

Velho que sou, ali vi Zico, vi Sócrates, vi Falcão, craques de minha infância/juventude a nos brindar com jogadas estupendas e muito bem trabalhadas. Vi uma alegria de jogar e uma qualidade que há muito não via. Que beleza meninos!!

E quantos meninos! Depois que Neymar saiu machucado, vi ainda Casemiro, Rodrygo, Raphinha, Gabriel Jesus e tantos outros, todos acossando os grandalhões sérvios, que corriam e não entendiam o que estava acontecendo. Um show de bola. Fiquei muito feliz de ver tantos meninos jogando, alegres e com muita qualidade.

Não é pra ficar confiante demais. A copa, para uma seleção do porte da brasileira, só começa a ser copa depois das quartas de final. Não é arrogância, é verdade. A Sérvia era um bom adversário, mas não e um time para afetar o time brasileiro numa Copa do Mundo. No tempo em que eles eram parte da antiga Iugoslávia, eram melhores. Hoje, separados e brigados entre si, são só uns grandalhões correndo atras de uma bola.

Tem muita coisa ainda pela frente nesta Copa, mas fiquei feliz. Fui pra casa feliz. Feliz, inclusive, de saber que Richarlyson é uma pessoa antenada e atenta ao mundo além do futebol. Não é Sócrates, mas tudo bem. Sigamos adiante, com alegria.

Com tudo o que passamos – e ainda estamos passando neste ano – foi um dia de muita alegria e união. Não cabem metáforas de seleção e povo. Mas cabe a alegria que nos assombra a todos nessa noite de quinta-feira.

É só um time de futebol. Mas parece mais. 

sexta-feira, 5 de março de 2021

O ANO DO CORONA

 


Já faz um ano.

Naquele mês de março, as nuvens foram sumindo do céu. Os cumulo-nimbus eram cada vez menores e mais brancos, lá longe no horizonte. Depois, o por do sol começou a ficar mais vermelho, e um vento frio balançava os galhos das arvores. Era o fim da estação das águas.

Neste tempo, estávamos ainda discutindo com os empresários da necropolítica, que faziam de tudo para minimizar as “12 mil mortes” que fatalmente aconteceriam. Alguns falavam que só matariam os velhos. Só. Não resolveríamos nada com pânico, diziam. O importante era salvar a economia.

O tempo passou, e o álcool gel invadiu nossas casas. Ainda sem saber como fazer com a nova situação, lavávamos tudo obsessivamente. Para dizer bem a verdade, ainda lavamos. Cheguei a pegar um eczema nos pulsos, de tanto sabão que usei.

No começo, não tinha máscara ainda. Hoje, sabemos porque: não tinha máscara para todo mundo, e se dizia que não precisava. Aí mandamos fazer máscaras de pano. Muita gente, subitamente desempregada, começou a investir em fazer máscaras muito bonitinhas, de tudo que é tipo de pano

Nos assustamos muito quando vimos os caminhões cheios de corpos na Itália. Ficamos amedrontados com os corpos na rua em Guayaquil.

Quando a primeira onda começou a chegar, lenta como uma maré, tentávamos imaginar quando seria seu pico de contaminações e mortes. Quando? Diante de algum resultado ligeiramente menor das estatísticas, alguns incautos diziam que o pico já havia sido atingido. Mas não era pico, ao menos não pra nós. Foi um imenso planalto de mortes diárias, que atravessamos com mortes diárias muito elevadas e hospitais quase cheios.

O céu já estava claro, com um sol cada vez menos intenso. Choveu um pouco, mas já estava seco, e o ar ficou mais cheio de pó. Era o mês de maio chegando.

Em 25 de maio, em Minneápolis, nos Estados Unidos, um policial matou um homem negro chamado George Floyd, acusado de passar uma nota falsa de 20 dólares. Durante 8 minutos s 46 segundos, metodicamente, o policial Derek Chauvin ficou com o joelho no pescoço de Floyd, terminando por matá-lo.

Poderia ser mais uma pessoa negra morrendo nas mãos da polícia, seja nos Estados Unidos seja no Brasil, onde um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos, segundo dados de uma CPI no Senado de 2015. Mas não. Não desta vez. Como uma grande onda, o clamor contra este tipo de assassinato, cruel e metódico, varreu os Estados Unidos em grandes e massivos protestos, que acabaram por atingir totó o mundo, até mesmo no Brasil, tão longe e tão perto das ruas de Minneápolis.  

“Não consigo respirar”, teria dito Floyd. Pois foi justamente isso que milhares, centenas de milhares e enfim milhões de pessoas sentiram durante todo o mundo, enquanto a epidemia se alastrava.

Primeiro foi Manaus que sentiu o baque, depois uma a um os outros estados tiveram centenas e milhares de mortos. Em agosto foram 100 mil, em janeiro dobrou, e agora estamos a seguir 300 mil mortes, boa parte delas evitável.

Alguns até viram um fim durante os dias quentes e abafados de setembro e outubro, com o céu repleto de cinzas e poeira. Pelo segundo ano consecutivo, a Amazonia sofria com os fogaréus, enquanto o Pantanal virava um imenso braseiro. Consta que ao menos 40 % do bioma foram queimados.

Em novembro, quando o calor e as primeiras chuvas anunciavam a estação das águas, o coiso na TV esbravejava contra a vacina de seu inimigo, dizendo que quem tomasse iria virar Jacaré. As mortes e contaminações, que estavam decrescendo, voltaram a aumentar. A barbárie, essa nossa companheira tão conhecida, nos fez o ar da sua (des)graça: as novas variantes do vírus surgiram, trazendo o caos novamente para Manaus.

Ali, como George Floyd, muitos não podiam respirar, agora por falta de oxigênio. Foi a malfadada e maltratada Venezuela que socorreu os manauaras em seu período mais crítico. Devastada pela ausência dos botijões de oxigênio nos hospitais, as famílias compravam elas mesmas os botijões para seus entes queridos, alertando o governo sobre as futuras vantagens da privatização do ar.

Em plena estação das chuvas, o verão, todo o país agonizante e sem ar. O orgulhoso Sul e suas colônias europeias, o Sudeste e suas empresas modernas, o Centro Oeste e suas colheitadeiras e agrotóxicos, todos jazem agora em filas intermináveis esperando por um leito de UTI. As pessoas sem máscara, as pessoas se aglomerando em festas clandestinas, as pessoas urrando que a economia não pode parar, mas o vírus não está nem aí. Indiferente à economia e às explosões de inútil virilidade, o vírus trabalha e mata.  

As nuvens voltam a sumir no céu, lá longe no horizonte. Um friozinho invade nossas janelas. E a sensação de um ano que não termina, que não terminou. Apesar das vacinas, apesar do cansaço geral, precisamos superar a angústia e vencer a ignorância e brutalidade que nos domina.

O ano do corona é um ano que tão cedo não termina.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A ESCURIDÃO AVANÇA (E TEM GENTE QUE NÃO QUER VER)


https://glo.bo/2MpalWZ
Está escuro lá fora. O dia passou assim, com muito vento e nebulosidade. Tudo escuro. O sol mal apareceu hoje de manhã. Por um instante eu o confundi com a Lua, mas não! Era ele, o sol, tentando escapar por entre as nuvens!
Fui correndo pegar o telefone pra fazer uma foto. Quando fui tirar as fotos, vi algumas fuligens caindo. Fuligem, pequenos pedaços carbonizados, em geral de folhas. Um dos pedaços tinha alguns centímetros de tamanho. Deve ser de algum incêndio grande por aqui por perto. Há alguns anos tinha mais fuligem, em geral folhas de cana queimada que caiam do céu. Esta fuligem diminuiu bastante depois que a fiscalização ambiental proibiu a queima da cana...fiscais do meio ambiente? O que tem a ver com o dia escuro?
Tendo o que ver, ou não, o dia inteiro passou assim: céu escuro, vento frio e ameaça de chuva. Aqui em Campinas, demora pra chover. Estamos no meio da estação seca. Só as frentes frias mais fortes passam. Hoje, as nuvens se concentravam ora num, ora noutro ponto do céu. De lá pra cá e de cá pra lá, sempre cinza escuras, ameaçadoras;
No supermercado, as luzes estavam acesas no meio da tarde. Fiz as compras pensando que estava anoitecendo, mas eram 4 da tarde. O resto do dia passou assim.
Agora à noite, quando começou uma chuvinha mais fraca, um cheiro forte de queimado tomou conta da casa. Dei uma vistoria olhando tomadas, vendo se haviam esquecido algo ligado. Nada. Eram as queimadas ao meu redor, como atestavam as partículas de fuligem caindo do céu.
Entretanto, uma coisa chamou a atenção de todos (e a minha também). O país está em chamas há quinze dias. Desde o tal “dia de fogo” dos fazendeiros de Novo Progresso, no Pará, o país está em chamas. Rondônia arde em chamas. A Bolívia e o Paraguai também. Os satélites apontam a concentração de nuvens.
Nos diferentes satélites, das mais diversas agênciasespaciais, a América do Sul está laranja, com seu coração em preto e vermelho. Não, nada de rubro-negrismo nessa hora. Trata-se da concentração de CO atmosférico. Do Acre até o vale do Paranapanema, uma mancha escura toma conta do continente. E, mais esmaecida, se estende pelo Atlântico.
Vejo que em Londrina, no extremo sul da mancha, a concentração está em 419 ppbv no site do windy.com. No norte do Paraguai a grande mancha vermelha varia entre 2000 a 5000 ppbv de CO. As manchas em Novo Progresso (PA) estão em 519 ppbv de CO.
A América do Sul está pegando fogo. Lá no coração.
Nada disso, entretanto, tem a ver com a escuridão dos céus do sudeste brasileiro hoje. Segundo o INPE - e eu acredito no INPE, a escuridão foi causada por uma frente fria (Não é um acreditar religioso, percebam. Acredito no INPE porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) trabalha com dados robustos de tempo/Clima e tem uma grande equipe de cientistas que interpretam estes dados).
Seja fogo ou seja frente fria, o que mais chamou atenção hoje, no entanto, foi que o dia pareceu noite. Como na metáfora.
A escuridão metafórica (também) avança. E tem gente que não quer ver.  

segunda-feira, 15 de abril de 2019

PARA MESTRE ELIMAR TREIN, COM CARINHO (2)


Depois que eu me formei, em 1989, eu saí de Curitiba, para fazer meu mestrado em São Paulo. Tempo rude e difícil, e cheio de mudanças em todos os planos.  
Na vida profissional, aquele era um tempo cheio de incertezas. Vivíamos a inflação galopante do final dos anos Sarney. Ter as coisas em casa era uma loucura, os preços variavam no mesmo dia. Na USP, as bolsas de estudo, essenciais para nos manter estudando e fazendo nossas pesquisas, sempre atrasavam. O ambiente era de uma cruel, marcadas por um governo inimigo da educação, o governo Collor.
Voltei a Curitiba em 1991, e consegui uma vaga precária para dar aula como professor substituto na UFPR. Eu havia ficado em segundo lugar no concurso para substituto, e o primeiro colocado, depois de um tempo, havia saído.
Foi aí que eu reencontrei mestre Elimar Trein, agora com Chefe do Departamento de Geologia da UFPR.
Rapidamente, Mestre Elimar se pôs a trabalhar e viabilizou minha contratação. Fez de tudo para que eu começasse logo a dar aulas, e me deu os meios para fazer isso. Uma a uma, as questões burocráticas foram resolvidas e meu contrato foi feito. Era um contrato muito precário, pois recebíamos como prestadores de serviço, sem direito a nenhuma garantia. Mas para quem não tinha nada, foi alguma coisa. Hoje, este sistema está bem melhor, embora sempre há quem queira voltar a este passado ruim.
Lembro de quando cheguei para dar minha primeira aula. Era uma aula de Geologia Geral para a Engenharia Cartográfica. Estava iniciando a aula quando o Coordenador da Engenharia Cartográfica entra na sala de aula, esbaforido e meio raivoso: “Ainda não arrumaram o professor substituto?”, perguntou para mim e para a turma.
Quando eu me apresentei, dizendo que era o professor da disciplina, ele se deu conta da situação. Havia me confundido com os alunos. Afinal, na época eu tinha um pouco mais que a idade dos meus alunos, e poderia facilmente me passar por eles. Depois, quando fui contar para Elimar da situação, rimos demais.
E assim foi. Volta e meia eu passava na sala da chefia de Departamento e nós íamos tomar um cafezinho. Volta e meia íamos também à cantina da Exatas, tomar um café e conversar, coisas sérias ou não. Não me lembro direito destas conversas, mas eu lembro que era um tempo bom.
Acabei saindo no final do meu contrato. Esse meu período, que durou dois semestres aproximadamente, foi marcado pelo apoio do meu agora colega Elimar Trein. Um apoio firme e amigo, do qual eu jamais me esquecerei.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

PARA MESTRE ELIMAR TREIN, COM CARINHO (1)


Fim de tarde no rio Ribeira, que Elimar Trein conhecia tão bem...
Semana passada tive a notícia da morte de meu querido professor Elimar Trein.
Desde então, como pequenos flashes, as lembranças deste mestre querido foram se enredando e se embaralhando em minha cabeça, formando uma teia de saudades. Nunca fui íntimo dele. Não sei dos pormenores de sua vida além da dos tempos da Faculdade. Portanto, vou me ater as lembranças do mestre e, com muito orgulho, colega Elimar Trein.
Minha primeira lembrança, ainda muito tímida, foi de quando eu fui pela primeira vez estagiário na saudosa Mineropar. Ainda no segundo ano do curso de geologia, estava lá numa salinha do primeiro andar do prédio do Juvevê, às voltas com atualizações de mapas de áreas de mineração, quando o vi pela primeira vez.
 Elimar Trein era o vozeirão que passeava pelos corredores conversando com todo o mundo. Ele era então o Diretor Técnico da empresa. De vez em quando ele colocava a cabeça pela porta de nossa sala, dava um bom dia e seguia em frente. Ficávamos ali, entre assustados e orgulhosos pela lembrança do chefe. Naquele tempo ele já era uma lenda.
Afinal, Elimar Trein fora um dos geólogos da legendaria Comissão da Carta Geológica do Paraná. Junto com gente de renome como Reinhardt Fuck, Onildo Marini, Arsênio Muratori e outros geólogos, a Comissão da Carta foi um divisor de águas na geologia paranaense.
Até hoje, vendo aqueles mapas impressos e coloridos e passear pela geologia e pelas rochas ali descritas, pode-se sentir o peso daquele trabalho, que mapeou a região Leste do Paraná numa escala de detalhe nunca antes mapeada. Façanha que nunca seria repetida. A julgar pelos sombrios tempos que correm, não o será tão cedo. A Comissão da Carta é hoje somente uma lenda. 
Elimar Trein foi o autor de algumas destas cartas, e autor de textos importantes da geologia do Paraná. Vê-lo andar em passos largos pelos corredores da Mineropar era como se víssemos a bibliografia que estudávamos a passear na nossa frente, viva e pulsante.
Ao contrário de Reinhardt Fuck e Onildo Marini, que foram posteriormente para a UnB e fizeram carreira memorável como pesquisadores, Elimar ficou no Paraná. Não foi inicialmente para a academia. Trabalhou em diversas empresas de mineração e esteve dentro da equipe que fundou a Mineropar. Foi, naqueles anos de muita atividade, um incansável gerente de equipes de campo.
Anos depois, comecei a encontrar com ele, de novo, nos corredores do Centro Politécnico. Estava vindo nos dar aula, e estava se atualizando, assistindo as aulas do prof. Pio Fiori. Alguns colegas até riram quando o viram assistir algumas aulas. Como se isso o diminuísse. Na verdade, era outra faceta marcante de Elimar: aprender e reaprender.
Não é fácil voltar aos bancos escolares depois de algum tempo. Mas não é nenhum problema, ao contrário. Não é voltar a aprender, mas continuar aprendendo de uma maneira mais rápida e honesta, que é através do ensino regular. No mundo de hoje, por conta da informação da internet, muitas pessoas acham que se pode prescindir do ensino formal e regular. Ledo engano.
Elimar Trein ministrou aulas de Geologia Estrutural para nós no segundo semestre de 1985. Foi o meu pior período no curso de geologia, com estudante. Por contas das agitações da política estudantil, e não só por conta delas, acabei faltando demais, e acabei reprovando.
Voltei no semestre seguinte. Encarei de novo Elimar Trein e a Geologia Estrutural. Desta vez, foi fácil. Lembro-me bem do trabalho de campo final, no vale do Ribeira, num dia quente e ensolarado. Depois de percorrido o perfil do dia, paramos num pequeno bar na beira da estrada, e tomamos umas cervejas. 
Com o calor e a poeira, os primeiros goles eram de um alivio que não se descreve com palavras. Lembro de mestre Elimar contando histórias de mineração, de trabalhos de campo, de fatos pitorescos da vida de geólogo de campo. Continuava o mestre, nascia o amigo.
Elimar Trein foi meu professor em diversas outras disciplinas. Lembro-me de que, durante a disciplina de mapeamento geológico, professor Jose Manoel dos Reis Neto, também de saudosa memória, nos avisou antes de irmos para o campo: “não vão forçar a barra ao caminhar, porque o Elimar não aguenta”. Aguentou sim, e discutimos muita geologia e nos divertimos nas estradas de Piên.
Na banca de graduação, foi um dos que nos arguiu com severidade, mas com suavidade. Apontou corretamente o que estava estranho, e mostrou o que estava bom. Quando ele encerrou sua arguição, olhei para Flavio Oliver e Jonas Furman, meus colegas de equipe, com um olhar de “agora somos geólogos”.
Faltava muito ainda, e Elimar Trein sabia disso.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

OS INGLESES FELIZES


Gente feliz num domingo de sol em Trafalgar Square
“Estamos felizes e sabemos disso”, estampava uma manchete interna do jornal inglês The Times na semana passada. “Mas o quanto isso pode durar?”, indagava ao final. De fato, os dias que passei na Grã-Bretanha foram dias de muito sol e calor. Isso altera o humor das pessoas. Para aumentar ainda mais a alegria inglesa, o desempenho de sua seleção na Copa do Mundo, chegando pela primeira vez desde 1990 numa semifinal da Copa  também contribuía para a alegria nacional.
Bem que percebi. Quando soube dos prognósticos do tempo na Velha Ilha, tratei de botar na minha mala algumas roupas de frio. O verão costuma ser mais ou menos o nosso inverno em Campinas. Temperaturas entre 14 e 25°C . No entanto, em alguns momentos de nossa estada por ali, vimos temperaturas de até 30°C, numa onda de calor que já dura quase dois meses.
Nas ruas, viam-se shorts, bermudas, sandálias. Filas para sorvete. Ruas lotadas, praças mais ainda. À noite, casais passeavam pelas ruas de mãos dadas, felizes. O índice de alegria dos ingleses é em média 7,3/10 segundo a matéria do Times, citando um trabalho de Andy Rope, chamado em tradução livre de “Felicidade: seu roteiro para a alegria interior”. No entanto, naqueles dias quentes de verão e bons resultados do futebol, a alegria inglesa beirava os 9,5 segundo o jornal.
Claro que não era tudo maravilha. A própria matéria reconhecia que eles estavam num momento atípico. Lembravam do mau humor britânico de 2016, quando eles perderam George Michael, Prince, David Bowie. E, além do mais, eles votaram pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.
Naquele momento, nos finais de semana de verão, o centro da cidade era tomado pelas pessoas. No sábado, 7/julho, o Gay Pride londrino reunia dezenas de milhares de pessoas no tradicional bairro gay do Soho, numa alegria carnavalesca. Britânica, é claro. As grandes avenidas do centro estavam proibidas para os carros, e haviam diversos shows de música pelas ruas, de todos os tipos e gostos. Enfim, dias bons e alegres.
Na Trafalgar Square, as pessoas se acumulavam a beira dos chafarizes, conversando, tomando sorvete, bebendo cerveja. Famílias inteiras, muitos idosos, pessoas de todas as cores e todas as procedências. Africanos, indianos, asiáticos, e muitos latino americanos. Deus, como tinha brasileiro por lá! Volta e meia ouvia-se aqui e ali uma língua que eu conseguia entender mais ou menos. Trafalgar Square estava linda e ensolarada. Tanto que lá de cima de seu monumento colossal, Lord Nelson deve ter tido vontade de descer e aproveitar o momento.
Segundo um depoimento do prof.  Richard Wiseman (!) da Universidade de Hertfordshire nesta mesma matéria do The Times, quando o sol aparece as pessoas se tornam mais dispostas a aceitar e ser generosas com estranhos. No entanto, acima dos 21°C as pessoas vão se tornando mais agressivas e violentas. (Ainda bem que nós, seres dos trópicos, não participamos desta estatística...).
Os (poucos) dias que passei em Londres deu pra sentir essa alegria. Andamos e muito pelo centro da cidade, onde com frequência víamos as pessoas espantadas com tanto calor. E com tanto sol. De volta para a ensolarada Campinas, com temperaturas parecidas (mas no inverno!), fico aqui pensando como temos estado tristes e depressivos com nossa situação, com nossa política, com nossa economia. Estamos tristes nos trópicos.
A alegria dos britânicos dura pouco, e por isso mesmo, é bom que eles aproveitem. Segundo o peculiar humor deles, as vezes o verão (lá deles) cai no fim de semana. A matéria do Times terminava alertando para que as mudanças sazonais de humor não impactem tanto nossas vidas. Prof Wiseman, sábio como ele só, diz que “temos que ligar nossa identidade com coisas que estão no nosso controle, como o trabalho ou relacionamentos”. Ser um pouco estoico ajuda, segundo ele. A matéria termina clamando por mais estoicismo e por mais drizzle, a chata garoa londrina.
Nós aqui, no nosso ensolarado continente, precisamos superar nossa tristeza e apatia. Como? Tem várias maneiras. Ajudar uma causa, comer comida saudável, fazer exercícios. Participar dos problemas do nosso trabalho, do nosso bairro. Estar com a família, os amigos. Escolher bem seu candidato nas próximas eleições. Procurar soluções coletivas para problemas comuns.
Os ingleses até podem atrelar a alegria deles a um verão, ou à seleção de Gareth Southgate (?).
Para nós, alegria é a prova dos nove.

sábado, 5 de maio de 2018

O CAMINHO DE DAMASCO DA DEMOCRACIA


Estamos desmoronando? (tirei daqui)
Este está sendo um mês de maio de céu azul e um pouco de calor. O ar está seco. Não como fica em agosto ou setembro, mas está seco. As acerolas do fundo do quintal começam a rarear. Somente conseguimos algumas com muito esforço, nos galhos mais altos. Daqui a pouco, não haverá mais acerolas.
Estive doente um tempo. Segundo a médica que me atendeu, é uma sinusite. Foi então que entendi porque estava tão cansado, o ar tão difícil, a respiração difícil mesmo nos dias mais bonitos. Não é bonito estar doente.
Estive em viagem de campo quando vi as notícias do prédio que desabou. Mais uma tragédia causada por um estado desorganizado e pela criminalização da pobreza. Vi uma entrevista da urbanista Raquel Rolnik sobre o caso, criticando a política habitacional brasileira, causadora desta e de tantas tragédias.
Mas ninguém está nem aí para as tragédias. Parece que a engrenagem dos que querem ver sangue a todo custo começa a se movimentar. Os movimentos são previsíveis: 1) duas pessoas, ativistas que estavam no acampamento pró-Lulaem Curitiba são baleadas; 2) no mesmo acampamento, um delegado da policia federalinvade o acampamento e quebra equipamentos. A máquina de assustar e de matar, tão cara ao imaginário dos nossos homens de bem, está à solta. Com direito a palmas e likes.
Enquanto isso, nova tragédia se desenrola no centro velho de São Paulo. O movimento já é conhecido do caso Marielle: as redes começam a injuria “ad hominem” [injúria à pessoa, e não às suas ideias ou ações]: os ocupantes são bandidos, marginais, arruaceiros.
 Um dos mortos, Ricardo Oliveira Galvão Pinheiro, rapidamente aparece nas redes como membro do PCC, matador de policiais, tinha extensa ficha criminal e voltou ao prédio para recolher malas de dinheiro. Nada disso era verdade.
Será que as tragédias não podem ser vividas sem que tenham que ser ajustadas ao roteiro destes haters?
Entre os desabrigados existem muitas pessoas de bem, pessoas dignas. Mas, é claro, não se pode ver isso. Se estão brigando por seus direitos com as armas do movimento popular são logo “bandidos”. Não ganhar o suficiente para um aluguel, por mais barato que seja, é uma prova criminal. Uma ficha corrida.
Estamos bem. Já cruzamos diversas linhas. Em novembro de 2014 os atuais homens de bem, atendendo ao apelo de Aécio Neves, a quem hoje dizem que desprezam, começaram a obstruir e liquidar um governo legitimamente eleito. Hoje, não se sabe quem manda mais no país, se o Supremo, o Congresso, o pífio presidente traíra ou um juiz de primeira instância.
As linhas estão sendo cruzadas: não se respeitam eleições, não se respeitam leis, não se respeitam instituições. Não se respeitam adversários políticos. Um shopping de Londrina, cidade em que tenho família e que tanto gosto, abriga um stand de tiro cujos alvos são os ex-presidentes Lula e Dilma. Crianças aprendem a odiar. Sabemos o fim disso, não é, Adolfo?
Estamos em maio. O clima anuncia chuvas e trovoadas, apesar do tempo seco que se anuncia. O ódio se alastra. Pessoas de bem são mais uma vez usadas como bucha de canhão de interesses excusos. Alegremente, postam absurdos, xingam, desrespeitam. Por enquanto, e só por enquanto, alguns arriscam um tirinho aqui e ali.
É a democracia a brasileira encontrando seu caminho de Damasco?

sábado, 14 de abril de 2018

SONATA DE OUTONO


https://sarahabed.com/about/
tirei daqui
O dia está ensolarado. Um pouco de vento, e uns cirros no céu anunciam uma chuva para breve. Chuva que, por certo, não virá, ressecando o solo, as plantas e nossas vidas.  É nosso outono.

Ontem à noite fui surpreendido com a noticia do ataque americano (mais ingleses e franceses) em instalações na Síria, que supostamente abrigariam armas químicas. Fui dormir sem saber se acordaria num mundo conflagrado, já que havia promessa de resposta russa. O Armagedon pululuva nas redes sociais.

Hoje, já se sabe que, fora os danos de sempre, nada aconteceu de verdade. Algumas instalações sírias foram destruídas. Os russos protestam veementemente, mas não encostaram o dedo em seus próprios mísseis. Uma reclamação formal e uma proposta de reunião do Conselho de Segurança. O próprio Secretário-Geral condena o ataque. Aqui ao meu lado ouço o barulho das crianças da casa ao lado brincando na piscina.

Por curiosidade, deixo a televisão ligada na Al-Jazeera. De cara, vejo um debate entre um analista da Bloomberg e Glenn Greenwald, do Intercept. Debate duro. A mesma toda dos outros debates que vejo depois: por um lado uns acusam Trump de piorar o que já estava ruim, e ainda usando o argumento das armas químicas. O próprio Secretário-Geral da ONU Guterres disse que haviam técnicos no local prontos para investigar se ali haviam armas químicas. Do outro, a alegação de que era preciso combater armas químicas e os civis sírios.

Milhões de sírios estão dispersos hoje pelo mundo. Vivendo em acampamentos, tomando barcos frágeis sob controle de contrabandistas para fugir da guerra civil que já dura sete anos. E eles são quem tem que arcar com os custos em vidas e infraestrutura por cada ação militar, “cirúrgica” ou não, cometida em seu território, no intrincado xadrez que é a guerra civil lá deles.

Continuo vendo a al-Jazeera. Logo depois, um duro debate entre um representante palestino e um ex-ministro da justiça de Israel sobre os últimos acontecimentos em Gaza. Pelo que entendi, tropas israelenses e mesmo snipers foram usados para dispersar uma manifestação palestina na faixa de Gaza. Outro debate duro.

Fui cuidar da casa. Afinal, o mundo não vai acabar, e tenho coisas a fazer. Fico me lembrando do nosso quintal. Há uma semana Lula está preso em Curitiba. Um tribunal desses aí tirou o agora ex-governador Geraldo Alckmin da lista da Lava Jato. O entendimento é que o caixa dois não é crime, e tem que ser julgado na justiça criminal. Parece que a sangria vai sendo estancada. Com o Supremo, com tudo.

O mundo não vai acabar. Ao menos por enquanto. Tem muito louco à solta por aí, com poder para fazer isso acontecer. Aqui, ninguém sabe o que vai acontecer. Estamos longe de virar uma síria. Mas tem muito louco que gostaria de fazer isso acontecer em terras tupiniquins. Não seria difícil. Já temos uma guerra civil latente contra os pobres. As milícias já estão ocupando território, como nas guerras civis mais banais. Mas ninguém do lado de cá do “apartheid” em que vivemos pensa nisso a sério, como Marielle Franco pensou.

Um mês do assassinato de Marielle, e tudo vai se resumindo a notícias cada vez mais esparsas e cartazes desbotados nos corredores da universidade. Milhões de pessoas em todo mundo apoiam o bombardeio de Trump sem questionar. Na televisão, aberta, fechada ou por streaming, o que se vê são “famosos”. Nas redes sociais, podemos saber mais sobre eles: quem são? Como se reproduzem? A banalidade vai tornando tudo irreal, tudo borrado e apagado como uma folha de papel impressa que ficou na chuva.

O Armagedon de ontem à noite se dilui como as nuvens que vi no céu há pouco.  Uma amiga querida me corrige que a Al-Jazeera é igual ao nosso PIG, e que suas matérias sobre a guerra civil na síria são igualmente ridículas. Concordo. Acho que estou muito preso ao meu umbigo, sem procurar ver o que acontece no mundo, como fazia antes. Vamos lá, então. O outono está só começando.