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sábado, 24 de agosto de 2019

A AMAZONIA E A IRRESPONSABLIDADE DO GOVERNO BOLSONARO


O tuite de Macron: ontem, como hoje, a Amazonia está em chamas: qual a diferença?
Vivemos mesmo numa época muito estranha.
Esta semana, que começou com as nuvens negras escurecendo o céu do sudeste do Brasil, assustando a todos com as queimadas na Amazônia, terminou com o governo Bolsonaro acuado e desdizendo-se frente a ameaça internacional.
A tragédia continua se desenrolando, agora em tom de drama, com pinceladas de farsa. Com a reação internacional se avolumando, Bolsonaro faz mais do mesmo. Como o moleque de 12 anos que continua sendo, não levou desaforo pra casa. Se o xingam, ele devolve: “é a tua!”. Assim, protagonizou nestas últimas semanas diversos bate-bocas sobre temas ambientais com representantes de diversos países, sobretudo europeus.
O filhinho, candidato a ser diplomata, seguiu o papai, compartilhando um tuite que chamava o presidente da França de "idiota". “É a tua! Mexeu com papai, mexeu comigo!”. Depois, diante de vozes que o chamavam a razão, dizendo ser sua atitude incompatível com a de um pretendente a cargo de diplomata, ele recuou, como sempre faz o papi. Não, não foi bem assim, não quis dizer isso...
Assisti diversas manifestações da formadores de opinião na imprensa brasileira. Da esgotosfera das redes socais nem falo, por pudor. Outrossim, como diz um importante influencer moderno, é incrível ver as piruetas que os setores conservadores que ainda apoiam Bolsonaro fazem para contornar a caca que foi criada. 
A imprensa alinhada a Bolsonaro passou o dia reclamando da imagem antiga da foto que Macron colocou em seu tuite. Como que se para redimir da foto de dinamarqueses matando baleias que dias antes estava o próprio Jair  atribuindo a noruegueses. Ela, a imprensa bolsonarista, repetiu as platitudes sobre o alto grau de preservação das florestas do Brasil e atacando a mídia “globalista”. Citam estatísticas as mais variadas para provar que o repique da destruição da floresta não é tão grande assim.
Para começar: está certíssima Marina Silva, ao dizer que sempre houve desmatamento e queimada na Amazônia. Não é disso que se trata. O problema, e concordo com ela, é que estamos no limiar de um recrudescimento das ameaças a florestas, com o apoio nada velado do poder público.
Não vai ter nenhum vídeo de Jair botando fogo na mata, como um Nero caipira.
Entretanto, em abril deste ano, a pedido do presidente, o governo proibiu de queimar as maquinas apreendidas aos madeireiros pelos funcionários do IBAMA em Rondônia. Ao contrário, o próprio ministro do meio ambiente, o condenado por crimes ambientais Ricardo Salles, se reuniu com madeireiros para dar garantias de que o governo ia relativizar as apreensões, dando a certeza de sua impunidade.
O fiscal do IBAMA que multou Bolsonaro em 2012 foi afastado de suas funções e a multa que ele aplicou ao então deputado foi cancelada, para escárnio da lei.
O desmantelamento do aparato fiscalizatório desde janeiro é obvio. As falas e ações de Ricardo Salles no sentido de desmontar os órgãos de fiscalização e não punir crimes ambientais é patente. Sua determinação de “compensar”ruralistas com o dinheiro do fundo Amazônia provocou o colapso que se viu, até que os governos de Alemanha e Noruega retiraram seus repasses.
Quando o INPE informou que o desmatamento estava aumentando, o que o governo faz? Desmente e desacredita os dados. O presidente do INPE, Ricardo Galvão, defende a integridade dos dados do Instituto, e é demitido.
São tantos os sinais que, mesmo não dizendo, é fácil concluir que foi o próprio governo que incentivou o fogo na mata. O agora famoso jornal da cidade de Novo Progresso, no Pará, reclama do descaso governamental e clama ao presidente solução para os problemas dos fazendeiros. Numa terra sem lei, com os fiscais manietados e amordaçados, e sem os soldados da Força Nacional que os amparasse, os fazendeiros se sentiram livres para promover o criminoso “dia do fogo”, em 10 de agosto último. As chamas das queimadas foram detectadas pelos satélites de todo o mundo.
Com a "segunda feira negra" no Sudeste, a grita aumentou. São Paulo começou a entender o que acontecia com Boa Vista. O fogo e as queimadas ardiam no coração do continente, atingindo não só o Brasil, mas também Paraguai e Bolívia.
O governo faz de conta que não é com ele. “Sensacionalismo”,rebateu Ricardo Salles. No meio de seu terraplanismo mental, Jair acusou as ONGs de colocar fogo para incriminar o governo. “Perderam milhões, e agora podem estar se vingando”, disse aos jornalistas.
Foi quando o mundo se postou frente a ameaça que o governo acusou o golpe. Depois de bater boca com Macron, Bolsonaro teve que fazer um pronunciamento em rede pública de televisão para se explicar. E levar seu primeiro grande panelaço nacional. Nervoso ao ler o teleprompter (ele tem problemas cognitivos para fazê-lo, como se sabe), foi cômico ver Jair defendendo a "froresta" amazônica, a Lei Ambiental brasileira (“uma das mais avançadas do Mundo”, disse ele, com a boca contraída), acusando o clima seco da estação com culpado e fazendo uma defesa pífia e nacionalisteira de uma região que meses antes ele quase oferecera de graça à Donald Trump.
A única coisa de concreto, e a única coisa que sabe fazer, foi enviar o exército para a região (onde, exatamente?) numa operação de garantia da lei e da ordem. Melhor seria se estivesse enviando bombeiros...
Enquanto isso, a Amazônia continua ardendo. Os conflitos estão todos lá, com um governo reclamando do fogo (literal e metafórico) que ele mesmo ajudou a atear. A conta da irresponsabilidade mais cedo ou mais tarde, vai chegar para todos nós, brasileiros. 
Quais os planos para sair dessa enrascada? Ajuda aí, Adélio!!
[agora, é só esperar os bots (virtuais e de carne e osso) que vão vir desqualificar algum dado ou alguém]

sexta-feira, 31 de maio de 2019

PROPRIOLAVUS


(ilustração Julian Fagotti)
A Paleontologia Imaginaria não é futebol, mas também é uma caixinha de surpresas. Entre os fósseis imaginários que estão catalogados ou descritos já lá se vão milhares, como comprova a produção da Imaginary Paleontology Review, um dos periódicos de maior impacto do mundo científico imaginário.
Um destes fósseis, entre tantos outros, é bastante singular pelo fato de não ser um fóssil. Trata-se do propriolavus. A história é longa, e vai ser contada aqui um tanto abreviadamente, dada a exiguidade de tempo e espaço. Ou seja, temos mais o que fazer...
O propriolavus não é nenhuma novidade na escala do tempo paleontológico.  Desde a antiguidade se conhecem estas feições:  trata-se de feições aleatórias nas rochas, preenchidas por cimentos ou óxidos, muitas vezes dando a impressão de formar figuras. Em cientifiquÊs são chamados dendritos. Nestes dendritos, uns veem a Virgem Maria, outros veem um coelho. Outras ainda, um sapo engolindo uma estrela. Foi descrita também um quati malhado e uma concha de amonite. A maioria, entretanto, nada vê. Porquê é só uma mancha na rocha, e não um fóssil.
Aristóteles citou uma destas impressões em sua Física, volume II (hoje perdida), recuperada numa citação de latina de Flavius inflavius: “em terras da Capadócia acharam muitas destas figuras, que não querem dizer coisa nenhuma. Lá, são chamadas de propriolavus”. Na Idade Média tal feição foi descrita por Santo Agostinho, referindo-se a elas como “imposturas da pedra”.
No mundo islâmico, esta figura foi descrita por Ibn Sina, também conhecido na Europa como Avicena. Ibn Sina descreveu tais feições como imposturas e como alucinações que a luz do sol poderia provocar. Para Al Jabr, um dos mais famosos alquímicos islâmicos, o propriolavus era somente fruto da imaginação. Na tradução latina de al Jabr, realizada no século XIV pelo sábio bizantino Constantino da Beócia, o propriolavus foi descrito como “parente do azinhavre e do azebre”.
A história do propriolavus começa a mudar com a leitura da obra do padre Anastasius Kircher. Em seu texto “quae et nos credimus, quod impostor esset propriolavus”, Padre Kircher coloca em questão se o propriolavus seria uma impostura.  Ou, então, uma mera brincadeira da Natureza, ou lusus naturae, como se dizia naquela época.
O texto kircheriano chegou a Inglaterra, onde recebeu uma leitura atenta de Stebe de Bannon. Stebe de Bannon, como sabemos, que estava na época envolvido numa conspiração para assassinar metade das monarquias europeias e instaurar um reino cruzado na Europa Ocidental. Descoberto seu plano, foi esconder-se na América.
Em suas andanças pelo continente norte americano, Stebe de Bannon encontrou vários espécimes do propriolavus, alguns com o mau cheiro característico. Não se sabe exatamente como, num destes trabalhos subterrâneos de Stebe de Bannon, o propriolavus auto-intitulou-se fóssil, com o nome científico de Olavus decarvalhus. A seção tipo onde ocorreria o presumido fóssil seria a região de Richmond, na Virginia. Coberto de razão, o propriolavus começou a ser estudado por diversas pessoas em diversos lugares da América Portuguesa.
Consta que o mineiro Silvério dos Reis foi um dos maiores especialistas no estudo do propriolavus. Apaixonado pelo estudo do propriolavus, Silvério dos Reis chegou mesmo a enviar alguns espécimes para o filósofo Emanuel Kant, que então estava se interessando por assuntos de Paleontologia. Mas o eminente filosofo achou o propriolavus sem importância, e sequer respondeu as cartas de Silvério dos Reis.
Revoltado com a ausência de resposta, Silvério acusou o então alferes Joaquim Jose da Silva Xavier de haver sabotado seu contato com Kant. Silva Xavier sofreu então um sério assassinato de reputação, orquestrado pelo propriolavus, que via em tudo sinais de perseguição. Como se sabe, o Alferes, ao final, foi condenado a morte na forca e diversos outros cidadãos mineiros tiveram seus bens confiscados e foram enviados para o exilio por conta das maquinações de Silvério do Reis e do propriolavus.
O autointitulado fóssil Olavus decarvalhus não foi muito bem aceito na comunidade cientifica. A maior parte dos pesquisadores sequer reconhecia sua existência. No entanto, sempre coberto por camada e mais camadas sedimentares de razão, o Olavus decarvalhus estava sempre acompanhado de um pequeno grupo de leigos que acreditavam piamente em seu caráter fossilífero.
Durante um certo período geológico, chegou a ter alguma relevância, inclusive poder. Chegou a ser considerado o suporte de espécimes unicelulares como o Velez sp e o weintraubius balburdicus. Mas quando começou a abrir mais fortemente sua boca, o Olavus decarvalhus foi se tornando mais conhecido. Quanto mais conhecido, menos estudiosos acreditavam nele.
O propriolavus extinguiu-se totalmente ao fim do Antropoceno inferior. Deixou, em vez de impressões fósseis, um sem-número de dívidas para seus seguidores pagarem.




 (a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)






sexta-feira, 17 de maio de 2019

O DESASTRE "EMINENTE"

https://bit.ly/2JsQHYO

Não tenho por hábito criticar os erros de português das pessoas. A professora Deise Picanço, minha irmã, sempre me preveniu: “nunca caçoe ou critique quem escreve ou fala errado”. Para ela, professora da UFPR, escrever errado ou certo é função da trajetória de vida que cada um teve. E isso ninguém escolhe. Caçoar de quem fala errado, diz Deise, é perpetuar antigas injustiças, é castigar quem já foi castigado com uma educação ruim.
Depois que aprendi isso, passei a relevar gramáticas ou ortografias. Quem fala “errado”, mas se comunica bem, na verdade está vencendo uma barreira cultural e social. Um exemplo de pessoa com pouco estudo, mas muita inteligência, é o presidente Lula. Apesar do seu português ruim, é um orador incomparável e um político como poucos. Quer seus detratores queiram, quer não.
 Como a sociedade que queremos não precisa de barreiras culturais e sociais entre pessoas mais e menos cultas, todos com algo a dizer merecem ser ouvidos. Com isso, a língua se enriquece, a comunicação se enriquece, a cultura se enriquece. O povo “enrica”. Quantas falas de hoje se originaram das falas “erradas” das massas populares? Inclusive nossa língua, o português, a tal “última flor do Lácio”, não era um latim popular, portanto “mal falado”?
Consigo, portanto, entender que uma pessoa que não teve acesso a uma cultura escolar mínima se expresse mal ou com alguma dificuldade, mas se expresse. Entendo e respeito. Eu mesmo cometo aqui e ali muitas faltas contra o léxico ou a concordância. Não estou aqui pra puxar a orelha de ninguém por isso.
No entanto, dos tuites dos primeiros-filhos às manifestações dos ocupantes dos primeiros e segundos escalões da República, as escorregadas da comunicação oficial no idioma de Camões são muitas. O governo que não nos governa há quase 5 meses nos dá repetidamente grandes quantidades de mancadas no léxico e na ortografia.
Não me preocupo com os erros de ortografia, mas com o que eles revelam. Antes de mais nada, o desleixo gramatical dos Bolsonaro (e dos bolsominions de primeiro e segundo escalões) são, antes de mais nada, reveladores de uma maneira de pensar.
Tais escorregadas refletem sobretudo a falta de uma cultura escolar suficiente destas pessoas, e dizem muito sobre a pressa ou o desleixo com a expressão escrita. Mas eu vejo mais que isso. Mais importante que erros de português, a ortografia falha dos próceres do atual governo marcam um certo desprezo e ódio à cultura e ao conhecimento. Como disse um amigo, "é o governo do não sei e não quero saber".
Este desprezo não está somente nas confusões entre palavras como “iminente” e “eminente”, entre “incitar” ou “insitar”. Este desprezo também não está na falta de coerência e de concordância de alguns tuites. Está no discurso mais profundo.
A blitzkrieg bolsonarista contra a Universidade veio também pela sua divisão Panzer, o WhatsApp. Os analistas das redes começaram a notar desde o dia 30 de abril próximo passadoum aumento no disparo de mensagens dizendo que as universidades eram centros devagabundos e maconheiros. Para provar, estes Zaps mostravam fotos de gente pelada, algumas de eventos ocorridos em universidades privadas, outros de ações descontextualizadas, como uma performance contra o Holocausto que virou uma reles orgia nas mensagens dos haters.
Como disse um colega daqui em seu twiter recentemente, eu também vi na internet alguns destas mensagens nos informando destas festas loucas com bebidas, drogas e gente pelada. Estas festas, pelo que diziam os Zaps,  ocorreriam diariamente pelo Campus. Da mesma forma que o referido colega, fiquei muito chateado com o fato de tais festas ocorrerem aqui do meu lado e eu nunca ficar sabendo.... nem um convitinho recebi!
Depois das críticas iniciais e da repercussão negativa das falas do governo, o discurso mudou. Primeiro, tentaram provar matematicamente, pois que a matemática é uma ciência nobre. Como os esquerdistas são notoriamente de humanas, foram usadas barrinhas de chocolate para ilustrar aaula de economia do Ministro. No entanto, além da explicação obscura sobre as porcentagens, o presidente guloso pecou no discurso e na encenação, tão típicos das Humanas e das Artes, ao comer disfarçadamente (?) o chocolatinho que deveria durar até setembro...
Depois das manifestações do #tsunamidaeducação, que levou centenas de milhares de estudantes brasileiros às ruas, o discurso mudou de novo. Os meninos e meninas mal saídos da adolescência que vi aqui nas ruas de Campinas e de todo o Brasil defendendo a Escola pública eram “idiotas” e “inocentes úteis”.
Será que o presidente teve a intenção de trazer um discurso da Guerra fria para o momento atual de propósito? Ou ele não sabe fazer outro discurso além dos que ele ouviu nos quarteis, nos anos 70, antes de ser defenestrado por indisciplina?
Os liberais, que votaram no Amoedo e não tem nada com isso, estão neste momento nas redes sociais para explicar que os meninos e meninas que querem ter a chance de ter uma universidade ou uma carreira na ciência não entenderam o Ministro mãos de tesoura. Afinal, todos os que estavam na rua eram incuráveis esquerdistas. Todos.
Estes esquerdistas, como se sabe, carecem dos recursos cognitivos mais óbvios.  Os esquerdopatas, doentes que são, não entendem que “contingenciamento não é corte”. Fiquei feliz ao ler alguns posts por aí. Ainda bem que nós esquerdopatas temos os liberais-eleitores-do-amoedo para nos curar!
Mas o discurso contra as universidades segue firme. No dia 14 foi assinado um decreto que tira dos reitores a autonomia para nomear pró-reitores, e coloca os Arapongas da ABIN para investigar todos os candidatos a altos cargos nas universidades. É claro que é uma provocação e uma ameaça, mas não vai colar. Veremos.
Não se pode, entretanto, acusar este governo de monotonia. Hoje, surgiu um texto veiculado pelo whats do presidente, em que reclama que o país é ingovernável, dirigido por corporações que não querem o bem do povo. Bolsonaro quer, mas não consegue (!) governar. Ô dó! O texto*, obra prima da teoria da conspiração, ressuscita as “Forças ocultas” que tanto assombraram Jânio Quadros em seus delírios político-etílicos.
(outra coisa interessante é que o texto é bem escrito, ao contrário das algaravias do Capitão e seus filhinhos e apaniguados do Olavo. Quem sabe o escritor, dotado de domínio da língua, não quisesse ser visto em companhia dos tatibitates do governo e preferiu se preservar, mantendo-se anônimo).
Este é um governo que sequer começou, mas já está fazendo água. A palavra impeachment voltou a correr, dita pela boca do próprio presidente. Não sei se é por aí. Não precisamos de mais impeachments. Não é, Aécio? Mas a incompetência e inapetência do governo por governar o precede.
A facada do Adélio nos fez eleger um presidente de cera, que agora se derrete ao veranico de maio. Existem, aqui e ali, quem ainda veja nele um mito. Mais e mais pessoas, finalmente, estão vendo não um mito, mas um mico.
Como diria alguma fonte oficial do governo, estamos diante de um Desastre “eminente”. 

*agora a noite acharam o autor do texto...um eleitor de João Amoedo (!?)

segunda-feira, 22 de abril de 2019

PARA MESTRE ELIMAR TREIN, COM CARINHO (FINAL)


Um pequeno avião monomotor sobrevoa a Amazônia.  Sem força para subir mais, o avião contornava as grandes nuvens que iam se formando no céu equatorial, para evitar turbulências. Lá embaixo, a floresta era imensa, verde, úmida. Era o dia 2 de abril de 1964.
Ao se aproximar de Belém, a torre faz um anúncio no rádio. O presidente João Goulart havia sido afastado pelo Congresso. Os passageiros se olham, espantados. Um rapaz grande e alto, lá no assento do fundo do avião, murmura em voz alta: “depuseram o Jango? Como pode isso?”.
Nem bem o avião pousou no aeroporto de Belém, a polícia, avisada pelo piloto ou por algum passageiro, fora pedir explicações ao rapaz. Ele ainda se mostrava espantado com a deposição de Jango. Todo o país deveria estar, pois os fatos ainda estavam ocorrendo, e ainda não se sabia o que iria acontecer. Os policiais pediram para revistar suas coisas.
Ao abrir as malas, encontraram muito dinheiro. O rapaz explicou que era geólogo, e que aquilo era o seu pagamento por vários meses na Selva. Trabalhara na Petrobrás, tinha pedido demissão e iria agora para casa, no Rio Grande do Sul. Seu nome era Elimar Trein.
Os policiais não quiseram saber. Era muito dinheiro. Aquilo não era dinheiro para atividades subversivas? Ele não era agente de Moscou? Quanto mais o jovem geólogo se explicava, pior ficava sua situação. O dinheiro foi confiscado e ele foi preso ali mesmo no aeroporto.
Enviado a uma cadeia, ele foi concentrado com outros presos naqueles dias: estudantes, sindicalistas, professores, era um mundo de gente que se aglomerava por ali. Os prisioneiros ainda tiveram que andar, algemados, pelas ruas da cidade. Dos prédios da velha Belém, chovia papel picado. Era a classe média local, feliz com a deposição do governo “comunista” de Jango. Dos prédios e das ruas ouviam-se os gritos de “comunistas”, incitações a violências, pedia-se a morte daqueles imundos.
De fato, muitas prisões ocorreram nestes primeiros dias do golpe. O jovem Elimar Trein, junto com os demais, seria enviado ao presidio dailha de Cotijuba, onde amargaria alguns meses ainda de cadeia.
Ali ficava o educandário Nogueira de Farias, um reformatório que ali havia sido construído na década de 1930. Durante boa parte do Regime Militar que se instalava, o antigo reformatório foi se transformando em presídio. Oficialmente, foi presidio a partir de 1968. Ali se juntavam todos, presos comuns e presos políticos. Não eram incomuns denúncias de maus tratos e tortura, transformando a pacata ilha de Cotijuba, famosa por suas praias e trilhas, na “ilha do inferno”.
Foi o próprio Elimar Trein que me contou esta história, lá em Belém, onde nos encontramos em 2010 num Congresso de Geologia. No dia seguinte, ele iria numa excursão para Cotijuba, ver as ruinas do velho presidio. Não perguntei as razões ao velho mestre. Imagino que para ele era algo como fechar uma porta, vencer um ciclo.
Não tornei mais a falar com Mestre Elimar Trein. Não sei de suas impressões da visita. O que soube, pesquisando, foi que o presidio durou até 1976, quando uma rebelião praticamente destruiu o prédio. Os presos quase mataram o diretor, que só sobreviveu por milagre. Hoje, o antigo educandário que virou presidio é uma ruína.
Até hoje, Cotijuba é afetada por seu passado como presidio. Não adianta fazer referencias a suas belas praias, aos passeios de charrete, ou à afabilidade de seus moradores. Cotijuba tem um presidio onde muita gente continua sofrendo, no dizer de Dona Dorinha, moradora da Ilha:
“Esse presídio é mal-assombrado, até hoje a gente escuta os presos que viveram aí gritando e pedindo socorro. É verdade! Quer vê? Passa depois das seis horas da tarde por aí que você vai vê, e vai sentir muita coisa. Só de você tocar nessas paredes caindo, a gente já se arrepia tudo. Aí teve muito sofrimento, e o espírito dos presos ainda estão preso aí.”
Hoje, com tanta gente negando o passado e re-inventando novas interpretações para velhos fatos, a narrativa de mestre Elimar Trein me surge forte na cabeça. Ele passou por tudo isso ainda muito jovem, reinventou-se e foi tudo o que foi na vida. Nem era político nem era apaixonado por política. Neste momento especifico, ele foi a pessoa errada no local errado, a demonstrar com seus padecimentos como estes episódios podem ser terríveis.
Aqui me despeço.
Que mestre Elimar descanse em paz.

domingo, 7 de outubro de 2018

OS BOLSOMINIONS E O SENSO COMUM


Existem ideias que parecem simples. O mundo é simples e fácil de resolver.  Parece que sempre foi o obvio e nós, burros que somos, jamais vimos a verdade ali, na nossa frente. Parecem geniais, estas ideias. Mas não são. Muitas destas genialidades foram ditas por eleitores de Messias Bolsonaro no ultimo mês. 

Uma delas é a questão da violência. Como numa conversa de bar, o cara se posiciona, firme: “tem que botar mais polícia!”. A evidência empírica mostra que mais policia não resolve. Resolve aqui, não resolve ali, e a violência continua tudo igual.
O cara do bar retruca: “tem que botar o exército!”. Que ideia genial! Porque não pensamos nisso antes? Em minha vida cheguei a ver três intervenções do exercito no Rio de Janeiro. Se intervenção militar resolvesse, o Rio seria uma Suíça. Mas não é. Ou é?
Bandido bom é bandido morto. Quem nunca ouviu essa platitude? Parece simples, como num faroeste: tem os mocinhos e tem os bandidos. Os bandidos, é claro, tem todos os defeitos do mundo. Os bandidos são facínoras e sem piedade. O mocinho consegue matar 10, 100, mil, e ainda vai ganhar o beijo da mocinha ou a benção do padre.
Neste mundo tão simples, não cabe complexidade. Por que será que a maior parte das vitimas da polícia são jovens negros? O cara do bar hesita em sua resposta, porque vai entrar no terreno do preconceito. O cara do bar, que não é o general Mourão, tem algum filtro do que fala. Não vai fazer nenhum discurso justificando a violência pela “raça” da vítima, alguma falta de “caráter”, nem falar sobre a “malandragem dos negros”, como fez o general Mourão. Mas pensa. Você pode imaginar o que ele pensa? Ou no que ele vota?
Ideias simples, muitas vezes cheias de informações falsas e preconceitos sempre existiram. Falar de segurança publica não é tarefa para o cara do bar. Por que a criminalidade hoje mudou das grandes para as pequenas cidades? Porque mudou dos grandes centros para o norte e nordeste? Como deter o tráfico de drogas? Como lutar contra as milícias?
Nenhuma destas questões tem uma resposta simples. Muitas soluções já foram tentadas. A maior parte, envolvendo mais armas, mais violência, mais guerra. E a violência não para de crescer. O homem do bar não sabe o que fazer.
Aí entra o medo. O discurso do medo. Todos precisamos nos armar. Outra ideia simples e aparentemente perfeita. No entanto, sabemos que aumento dos homicídios por armas de fogo em razão da ausência de políticas específicas (veja aqui). Como resolver isso? Com políticas de segurança.
Mais ciência e menos Chuck Norris.
Mas o homem do bar não se convence. Ele conhece zil e um exemplos de que isso não funciona. E insiste nas ideias simples e de fácil implementação, fáceis como um chá de boldo pra curar a ressaca.
São ideias do senso comum. Se te disserem que um peso com penas e um peso de chumbo caem com a mesma velocidade você acredita? Parece óbvio que o peso de chumbo cai mais rápido. Você está vendo isso. Mas não é. Galileu precisou de muita experimentação para provar isso.
Levar o conhecimento acima do senso comum, da observação simples. Soluções negociadas e complexas para problemas complexos. Pensar com ciência e criatividade. Em lugar disso, você vê uma fala vazia de conteúdo e cheia de emoção. Quando não, ódio.
Insistir em senso comum e ideias simples como as disseminadas no último mês nos levam a mais do mesmo. Ou vamos daqui a quatro anos trocar as fraldas e os políticos pela mesma razão, como disse Eça de Queiroz numa placa de caminhão.  
Se daqui a quatro anos ainda houver democracia, essa coisa tão esquisita e tão longe do senso comum....


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O CANDIDATO QUE NÃO AMAVA AS MULHERES



Os bolsonaristas que saíram as ruas no domingo foram dispersados, em São Paulo, por uma forte chuva. Problemas com São Pedro, talvez? Mas, ainda assim, mesmo molhada, a manifestação dos bolsonaros foi uma manifestação muito grande. Foi uma reação contra as grandes manifestações anti-bolsonaro deste sábado, que reuniram centenas de milhares (milhões?) de pessoas pelo país. Principalmente mulheres.
Por mais que se grite e esperneie contra o Coiso, a grandereação contra o capitão reformado parece ser mesmo a feminina. Os números gritam: cerca de 50% das mulheres não votariam “de jeito nenhum” neste candidato, contra 33% dos homens.  
Recentemente, o jornal El Pais comparou o movimento das mulheres contra Bolsonaro com a história lendária da Hidra de Lerna, a que se cortava uma cabeça e cresciam várias. O ataque dos grupos bolsonaristas à página “mulheres contra Bolsonaro” no Facebook deu impulso não só ao grupo, mas também incentivou o surgimento de outros grupos e deu ânimo para as manifestações de rua deste último fim de semana.
Esta rejeição é muito bem explicada. A misoginia do discurso bolsonarista não conhece limites. É famoso o seu discurso do “não te estupro por que você não merece”, contra a deputada Maria do Rosário. É uma fala das cavernas. O estupro como forma de punição, como houve nas sociedades primitivas, juntamente com a diminuição da oponente mulher: nem isso você merece.
Alias, desmerecer mulheres é uma pratica desse discurso: a tal da “fraquejada” do capitão reformado teria gerado sua única filha mulher. Outra vez a afirmação do feminino como o fraco, o inferior. Tal desmerecimento tambémse reflete nos salários inferiores recebidos pelas mulheres, conforme já explicou o douto candidato: “Afinal, elas engravidam...”
Por isso e muito mais, não se espere que as mulheres se encantem pelas propostas do capitão. Ali somente há mais do mesmo: depreciação, aviltamento, subordinação. Tudo coisas que a sociedade já jogou e está jogando na lata de lixo dos costumes.
 Mas o bolsonarismo é persistente: numa fala recente o deputado E. Bolsonaro também citou que, ao contrario das mulheres de “esquerda”, que repudiam a candidatura de seu pai são menos higiênicas que as mulheres de direita. Nada mais fascista que um discurso higienista. A fala do bolsonarismo, enfim, é um discurso de ódio e aversão às mulheres.
As mulheres que, aliás, já tem muitos outros problemas em viver num mundo machista e patriarcal. Agora, tem ainda que se preocupar com um candidato a presidente misógino. Há a violência cotidiana, a violência doméstica. Há a violência nas ruas. Há a violência do mundo do trabalho. Tudo isso, não vê quem não quer, impacta também nossa economia e nossa sociedade.
 E ainda vem o tal vice, o general Mourão, a dizer mais uma de suas “pérolas”: famílias lideradaspor mulheres são “fábricas de desajustados”. Como se não bastasse toda a carga sobre as mulheres, ainda sobra a culpa pela crise da sociedade na qual elas não mandam.
Essa carga e esse discurso estão se refletindo agora nas urnas. O capitão e seu vice general tem muito com que se preocupar. Afinal, elas são a maioria. E sabem muito bem qual a carga que pesa, qual a fala que fere, qual a violência que mata.
O capitão e todos os que acham esse discurso “politicamente incorreto” e “lacrador” bacana, que coloquem suas barbas de molho. É muito fácil falar isso em rodinhas de homens. Nestas rodas, em geral, ganha quem mais se mostrar cruel e misógino. Quem contar mais barbaridades, ganha uns risinhos de aprovação e uns comentários maldosos. É o cara. Pois não é.
(Eu já frequentei essas rodas. Eu mesmo já fiz comentários deste tipo. Fui criado num ambiente machista. Eu mesmo sou e tenho muitas atitudes machistas. Estou aprendendo a não ser, com ajuda de todas as mulheres com quem convivo. Também acho que o mundo deve caminhar numa outra direção. Eu quero um mundo onde o feminino e o masculino e outras orientações sexuais possam viver em paz.)
A realidade é bem outra. Somos uma sociedade de mulheres forte e de homens infantilizados. Muitos desses homens aí até sabem fazer um churrasco, mas não sabem esquentar papinha de bebê. Nas rodinhas de homens que temos hoje, quantos não são os bolsonaros, contando suas safadezas e mesquinharias com mulheres como se fosse uma busca pelo Graal? Enquanto isso, lá estão elas, em casa, a cuidar da vida e da família, e até deles mesmos.
É o mundo das famílias sem homem, tanto real quanto virtualmente. Só não sabe disso aquele mundinho de testosterona e misoginia que são os quartéis. Ah, os quartéis! Alguns destes homens, vivendo nesta bolha, até se acham e se intitulam “homens de bem”!
Os homens como chefe de família são mais raros que no passado. Ao contrário do que disse o general Mourão, o que há é um país onde as mulheres já são 40% dos chefes de família. E na maioria das vezes dão conta do recado, apesar dos pesares.
Por tudo isso, temos um embate inédito nestas eleições. Um embate entre a sociedade contra uma visão de mundo. Uma sociedade majoritariamente feminina. Que não é monocrática, nem unitária, nem partidária. A espinha dorsal deste movimento, desta vez, são elas.
O espaço que a sociedade está colocando para todos aqueles que queiram mandar, ordenar regulamentar ou violentar o corpo das mulheres está ficando cada vez mais estreito. Isso não se dá por ideologia, ou por politica institucional. Isso vem se dando por ações políticas no nosso cotidiano. Não dá pra fingir que isso não existe. O empoderamento feminino veio para ficar.
O mundo dos candidatos que não amam as mulheres está com os dias contados.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O ANTIPETISMO E A VERGONHA ALHEIA



O antipetismo foi uma das maiores forças políticas dos últimos anos. Baseado principalmente nas classes médias, o fervor antipetista tem se tornado mais ativo desde 2013. Em 2015/2016 foi importante no apoio ao golpeachment. Esteve ausente enquanto o PT parecia nas cordas, com a longa questão da prisão e da proibição da candidatura do presidente Lula. Com a ascensão de Haddad nas pesquisas, já se ouve novamente nas redes o urro dos paneleiros. Será que o antipetismo vai ser efetivo esta vez?
Na verdade, depois do golpeachment, a Montanha pariu um rato (ou um morcego?). Toda a fúria antipetista do passado recente resultou em Temer. O governo do Vampiro começou com o famoso ministério dos homens brancos e terminou melancólico, durante uma greve de caminhoneiros contra a politica de liberação dos preços dos combustíveis. Como todos sabem, o vampiro só não foi deposto porque ninguém se interessou em ocupar seu lugar.
Agora, a nova versão da fúria antipetista quer fazer do que era drama uma tragédia. Em vez de nos ofertar um ministério de homens brancos notáveis e emplumados, o novo antipetismo nos oferece o Coiso e seu show de horrores.
Diogo Mainardi, entre outros, urra por um pacto entre os candidatos mais ao centro, muitos deles ditos liberais, e o Coiso. Muitos dos ditos liberais (na economia!) embarcaram na campanha dos milicos e estão de lá, dando seus pitacos. Abraçados com a criatura.
Como a UDN do passado, chamada de “vivandeira”, pois ia aos quartéis pedir pela força o poder que não tinha no voto, o atual antipetismo não é diferente. Não tem pejo em embarcar numa candidatura que prega o“autogolpe”, como fez recentemente o general Mourão em entrevista na Globonews.
Tudo isso para evitar o que seria “O” mal maior, ou seja, a vitória de um candidato petista. Com seu horror à pobreza, o antipetismo inventa seus monstros. Um deles, já bem conhecido, é o Movimento Brasil Livre, de tantas e tão nefastas atuações. Depois de ter tido varias de suas paginas retiradas do ar pelo próprio Facebook por divulgar notícias falsas, o grupo de meninos também está engajado em sua luta pelo Coiso.
O MBL tem se dedicado, por exemplo, a criticar FHC em seu apelo por um “Centro Democrático”: “se o PSDB não consegue representar que não quer o PT, apareceu outro para fazer isso”. Para bom entendedor, este paladino descrito pelo MBL é o candidato que questiona a lisura das eleições.
O antipetismo urra. Tem lá suas razões, embora poucas. Imagina  que ele, o antipetismo, seja portador milagroso da verdade, como muitas vezes os “antas” pregam ser. Os irrequietos grupos antipetistas são – segundo eles mesmos – os porta-vozes de uma maioria silenciosa, que tudo sabe e todo julga.
Nada mais estranho (e minoritário) que uma maioria silenciosa. Possessos, quando são flagrados em minoria, despencam o verbo sobre os de sempre: as minorias, os intelectuais esquerdistas, os pobres, os sem cultura. Ninguém presta, são todos uns idiotas, ignorantes, inocentes úteis. Não raro, são doentes que precisam de "cura". Essa fala já é bem conhecida dos esgotos das redes sociais.
Seria importante lembrar que o segmento que apoia politicas socialistas e social-democráticas no Brasil são um terço do eleitorado. Junto com o povão mais humilde, chega a 40% do total facilmente. Para o bem ou para o mal, é uma quantidade grande de gente, assumida, bem posicionada. Não há como jogar todo esse povo no mar, a não ser no mais louco dos delírios do mais delirante fascista.
No desespero desta reta final de campanha, os antipetistas se agarram aos milicos doidos e “míticos”. Os mais espertos dentre eles sabem muito bem o que estão fazendo ao aderir à caserna. Os demais vão no delírio das soluções simples do Coiso. Vergonha alheia. Vão fazer papel de ridículos perante a História. Se é que se importam com a propria biografia...
Ninguém mandou o Carlos Lacerda não ter deixado publicado o seu livro de memórias...

domingo, 27 de maio de 2018

A BOLEIA E A REVOLUÇÃO





Estamos vivendo um momento revolucionário. Quem disse isso foi o grande cientista social Léo, da dupla sertaneja Victor e Léo. Conhecido pelas suas posições conservadoras, o sertanejo Léo tem hoje uma posição coincidente com o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU.
A apresentadora Rachel Sheerazade, a rainha do mais tosco reacionarismo nacional, gravou um vídeo em que se mostra perplexa com os caminhoneiros “baderneiros, que querem nos transformar numa Venezuela”. Em diversos sites e comentários de esquerda, pessoas criticam o caráter reacionário dos caminhoneiros. Muitos, inclusive eu, lembraram o papel dos caminhoneiros chilenos na queda de Allende.
Por todos estes pequenos exemplos, vê-se que a greve dos caminhoneiros tem dado vazão a uma série de manifestações contraditórias. Muitos tem medo de uma greve de caminhoneiros, pelos mais diversos motivos. Alguns se assustam com os problemas de abastecimento. Na quarta e quinta, a correria aos postos de gasolina foi histérica. Outros tem medo pois muitas noticias dão conta de que grupos de caminhoneiros apoiam uma intervenção militar.
O governo, através do ministro Raul Jungman, desde quarta feira tem dito que a greve é um locaute, ou seja, uma greve de patrões, o que é proibida por lei. Por outro lado, na quinta feira chegou a fazer uma reunião em que firmou um acordo que poria fim a greve. Faltou, entretanto, combinar com os russos, ou melhor, com os caminhoneiros. Sexta o movimento continuou e recrudesceu. Por fim, Temer, o sem-força, teve que apelar para o exército e as policias estaduais.
Mas, afinal, quem são os caminhoneiros? Heróis ou bandidos? Direita ou esquerda?
Ao que tudo indica, o resultado é muito mais complexo que se imagina. Para o professor Ricardo Antunes (ver aqui), a forma de trabalho dos caminhoneiros faz com que as suas greves tenham em geral um grande componente patronal. Somente 45% dos caminhoneiros são autônomos. o restante trabalha para empresas de logística. Quando há confluência entre os interesses dos caminhoneiros e de seus patrões, o que é o caso nesta greve, as paralizações tornam-se mais fortes. 
Como notou a professora Larissa Riberti num texto que viralizou no facebook (tirei daqui), trata-se de uma luta complexa, e que não é uma luta do bem contra o mal. Não é a toa que encontramos posições politicas tão diversas nessa categoria que envolve desde empresários até "proletários do transporte". Os sindicatos estão batendo cabeça brigando entre si enquanto a base segue firme na luta, fechando as estradas. Existem caminhoneiros de todos os matizes ideológicos, como no resto da sociedade. Não há polarização ideológica nem nos tuites contra e a favor da greve. 
Claro que existem os malucos que defendem uma intervenção militar (E que devem estar bem felizes com a intervenção militar em cima deles...). Estes são os mais estridentes. Vi um video de um maluco discursando em cima de um tanque. Patético. Mas não quer dizer que sejam maioria. Assim como foi provado no episódio do assassinato de Marielle, tais grupos radicais são ativos, mas minoritários. E, até o momento, os militares "de verdade" seguem as diretrizes do governo do Vampiro, reprimindo o movimento.
Por outro lado, eu acho que esse lado "proletário" do movimento é o que mais assusta. Em geral o caminhoneiro é um cara de classe média baixa, sem muita escolarização, vivendo no limite da reprodução de sua mão de obra. Nisso ele não é diferente do operário que trabalha numa fabrica e recebe salário. Sua identificação como igual pelo povo é imediata. Talvez por isso a repulsa de Sheerazade e de muitos colegas de academia. 
Temos muito medo de revoltas populares. Assim como no passado nossa elite e classes médias eram aterrorizadas com o medo de uma revolta dos escravos. O medo de uma revolta popular nos paralisa. O caminhoneiro assim se impõe no imaginário dos humildes como um herói que afronta um governo impopular. Na classe média, é o perigo proletário que surge, trazendo desabastecimento e - horror dos horrores! - a falta de gasolina.
Na extrema direita, é um aliado a favor da intervenção militar. Para a esquerda, um agente reacionário. Para a extrema esquerda, o estopim de uma greve geral que traga a revolução. Para os neoliberais, um sinal de que precisa privatizar tudo. 
Enquanto isso, no mundo real, os piquetes continuam, a gasolina vai voltando devagar aos postos. Mas as pessoas continuam ressabiadas. Ninguém sabe o que fazer. 
Quando deram o "golpe do impeachment", que destituiu um governo legitimamente eleito, foi aberta uma caixa de pandora. Felizmente, apesar da retórica de alguns, ainda não pegamos em armas. Mas, como no mito, ainda tem muito diabo pra sair dessa caixa.
Neste momento, não sabemos mais quem manda no país. Só nas rodovias. 

domingo, 8 de abril de 2018

AS RIMAS DE ADEODATO


o bravo Adeodato, líder camponês do Contestado, preso em 1916
Em 14 de agosto de 1916 o jornal O Dia – órgão do Partido Republicano Catarinense informou sobre a chegada de Adeodato, o último grande líder da Revolta do Contestado, preso, à capital do estado.
Adeodato, ou Leodato, era um mulato de 29 anos. Tinha sido, nos últimos tempos da revolta do Contestado, o chefe do reduto de Taquaruçu. Neste reduto, onde viviam mais de 10 mil pessoas, o jovem Adeodato era o chefe incontestável.
De todas as lideranças do contestado, Adeodato era o primeiro grande chefe que não era beato. O movimento havia sido iniciado com a veneração a São Joao De Maria, um beato que percorrera a região no final do século XIX, tendo desaparecido sem que se soubesse seu destino.
Foi sucedido por São José de Maria, o beato Guerreiro, que havia pregado nos sertões de Santa Catarina. Havia separado seu povo escolhido, os pelados, que tinham sua cabeça raspada em sinal de devoção. Os pelados se contrapunham aos peludos, os outros, que representavam os grandes proprietários de terras, o governo, as grandes companhias ferroviárias.
São João de Maria morreu em combate em 1912, na batalha do Irani, quando os seu pelados derrotaram uma companhia da Policia Militar do Paraná, comandada pelo coronel João Gualberto. Joao Gualberto, tão valente quanto inconsequente, adentrou o acampamento matando mulheres e crianças, tendo sido detido pelos pelados, que destroçaram sua companhia em combate singular, matando João Gualberto a golpes de facão.
Adeodato comandou Taquaruçu, o último dos grandes redutos dos pelados entre 1915 a 1916, quando foi preso. Chefe camponês, Adeodato comandou o reduto com mãos de ferro, liquidando qualquer um que se opusesse a ele. O terror de Adeodato foi decisivo na unidade dos pelados nos últimos combates em Taquaruçu, em 1916. Por fim, o “Antônio Silvino do Contestado” foi preso e enviado para Florianópolis.
Adeodato foi julgado e condenado a 30 anos de prisão. No momento de sua sentença, uma testemunha ocular anotou as rimas que o réu declamou para o tribunal reunido e o público assistente. Em seus versos, repletos de ironias, Adeodato fez seu canto e sua defesa.

Adeodato zombou dos vencedores e expôs cruamente as agruras dos camponeses do Contestado, uma guerra que o Brasil (e o sul do Brasil, hoje tão conservador e reacionário) faz questão de esquecer:

Trinta ano vô cantá
Relatando as travessura
Que aqui neste processo
Acoumaro de diabrura
Me acusaro de mir morte
Que levei a sepultura
Mas levei aqui do mundo
Dei descanso às criatura

Nada disso acho crime
Ao contrário é bravura
Afastei aqui do mundo
Os que tinha vida dura
Bem por isso tô contente
De luta, nesta artura
Pra tira muitos cabocro
Das pobreza e das agrura

Sô iguar a picapau
Que qualquer madeira fura
Sô nas carta o Rei de Espada
Desaforo não atura
Sô quinem toro de briga
Por nadinha armo turra
Nego bão de minha raça
Não tem chão que se apura

Pra tirar os mar do mundo
Tinha feito uma jura
Ajudei nosso governo
A quem amo de ternura
Acabei com deiz mil pobre
Que livrei da escravatura
Liquidei todos faminto
 E os doente sem mais cura

Quem quisesse terra e escola
Eu lis dava uma surra
Ajudando os do governo
No recheio de suas burra
A pobreza pro inferno
Onde lá o diabo urra
Essa terra é de nos rico
Nossas veias são mais pura!

A pobreza que se enforque
E se enterre numa lura
Sendo pobre é oireiudo
Só os bobo é que zurra
Os que nasce bem esperto
Bom emprego eles percura
Quem é pobre nesse mundo
Só merece sepurtura

Bem agora me despeço
Só dos rico, com doçura
Tenho sombra e agua fresca
Na cadeia tem fartura
C´um abraço ao meu governo
Deixo a minha assinatura
Por Leodato M. Ramos
Arrespondo nessa artura

Adeodato foi um dos grandes líderes camponeses do Brasil, cuja memoria precisa ser lembrada. Este dados foram compilados do livro “Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916”, do professor Paulo Pinheiro machado da UFSC; .
A história completa pode ser encontrada em: Machado, Paulo Pinheiro. Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916. Vol. 17. Editora da UNICAMP, 2004.