Um pequeno avião monomotor sobrevoa a Amazônia. Sem força para subir mais, o avião contornava
as grandes nuvens que iam se formando no céu equatorial, para evitar turbulências.
Lá embaixo, a floresta era imensa, verde, úmida. Era o dia 2 de abril de 1964.
Ao se aproximar de Belém, a torre faz um anúncio no rádio. O
presidente João Goulart havia sido afastado pelo Congresso. Os passageiros se
olham, espantados. Um rapaz grande e alto, lá no assento do fundo do avião,
murmura em voz alta: “depuseram o Jango? Como pode isso?”.
Nem bem o avião pousou no aeroporto de Belém, a polícia,
avisada pelo piloto ou por algum passageiro, fora pedir explicações ao rapaz.
Ele ainda se mostrava espantado com a deposição de Jango. Todo o país deveria
estar, pois os fatos ainda estavam ocorrendo, e ainda não se sabia o que iria
acontecer. Os policiais pediram para revistar suas coisas.
Ao abrir as malas, encontraram muito dinheiro. O rapaz
explicou que era geólogo, e que aquilo era o seu pagamento por vários meses na
Selva. Trabalhara na Petrobrás, tinha pedido demissão e iria agora para casa,
no Rio Grande do Sul. Seu nome era Elimar Trein.
Os policiais não quiseram saber. Era muito dinheiro. Aquilo
não era dinheiro para atividades subversivas? Ele não era agente de Moscou?
Quanto mais o jovem geólogo se explicava, pior ficava sua situação. O dinheiro
foi confiscado e ele foi preso ali mesmo no aeroporto.
Enviado a uma cadeia, ele foi concentrado com outros presos
naqueles dias: estudantes, sindicalistas, professores, era um mundo de gente
que se aglomerava por ali. Os prisioneiros ainda tiveram que andar, algemados,
pelas ruas da cidade. Dos prédios da velha Belém, chovia papel picado. Era a
classe média local, feliz com a deposição do governo “comunista” de Jango. Dos
prédios e das ruas ouviam-se os gritos de “comunistas”, incitações a
violências, pedia-se a morte daqueles imundos.
De fato, muitas prisões ocorreram nestes primeiros dias do golpe. O jovem Elimar Trein, junto com os demais, seria enviado ao presidio dailha de Cotijuba, onde amargaria alguns meses ainda de cadeia.
Ali ficava o educandário Nogueira de Farias, um reformatório
que ali havia sido construído na década de 1930. Durante boa parte do Regime Militar
que se instalava, o antigo reformatório foi se transformando em presídio. Oficialmente,
foi presidio a partir de 1968. Ali se juntavam todos, presos comuns e presos
políticos. Não eram incomuns denúncias de maus tratos e tortura, transformando
a pacata ilha de Cotijuba, famosa por suas praias e trilhas, na “ilha do
inferno”.
Foi o próprio Elimar Trein que me contou esta história, lá
em Belém, onde nos encontramos em 2010 num Congresso de Geologia. No dia
seguinte, ele iria numa excursão para Cotijuba, ver as ruinas do velho
presidio. Não perguntei as razões ao velho mestre. Imagino que para ele era
algo como fechar uma porta, vencer um ciclo.
Não tornei mais a falar com Mestre Elimar Trein. Não sei de
suas impressões da visita. O que soube, pesquisando, foi que o presidio durou
até 1976, quando uma rebelião praticamente destruiu o prédio. Os presos quase
mataram o diretor, que só sobreviveu por milagre. Hoje, o antigo educandário
que virou presidio é uma ruína.
Até hoje, Cotijuba é afetada por seu passado como presidio.
Não adianta fazer referencias a suas belas praias, aos passeios de charrete, ou
à afabilidade de seus moradores. Cotijuba tem um presidio onde muita gente continua
sofrendo, no dizer de Dona Dorinha, moradora da Ilha:
“Esse
presídio é mal-assombrado, até hoje a gente escuta os presos que viveram aí
gritando e pedindo socorro. É verdade! Quer vê? Passa depois das seis horas da
tarde por aí que você vai vê, e vai sentir muita coisa. Só de você tocar nessas
paredes caindo, a gente já se arrepia tudo. Aí teve muito sofrimento, e o
espírito dos presos ainda estão preso aí.”
Hoje, com tanta gente negando o passado e re-inventando
novas interpretações para velhos fatos, a narrativa de mestre Elimar Trein me
surge forte na cabeça. Ele passou por tudo isso ainda muito jovem,
reinventou-se e foi tudo o que foi na vida. Nem era político nem era apaixonado
por política. Neste momento especifico, ele foi a pessoa errada no local
errado, a demonstrar com seus padecimentos como estes episódios podem ser terríveis.
Aqui me despeço.
Que mestre Elimar descanse em paz.
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