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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

O PENALTI E A VIDA

jogador croatas comemoram a vitória sobre o Brasil (encurtador.com.br/stFX0)

 Eliminações em Copas do Mundo são momentos tristes. A eliminação do Brasil na copa de 1950 gerou diversas reações e diversos medos na sociedade em geral e no mundo dos boleiros. Barbosa, um excelente goleiro, foi apontado como o único culpado por aquela derrota. A culpa de Barbosa pela derrota de 1950 tem também um fundo racista. A saga do segundo gol do Uruguay, marcado por Ghiggia, está no cinema, nas artes, na literatura. 

 Houve tempo que em que fiquei muito triste por uma eliminação de uma copa do mundo. Mas, na verdade, nos últimos cinquenta anos em que acompanho este torneio, vi meu time ganhar em somente três oportunidades, a última há vinte anos. 

 De certa forma, a seleção brasileira só foi grande entre os anos 1950-70, quando ganhou três de quatro mundiais disputados. Entre 1994 e 2002, ganhou duas de três. Depois disso, mesmo o meu Athletico Paranaense tem retrospecto melhor nas competições em que disputa que a seleção canarinho. 

 Como torcedor de um time mediano, que não tem a seu favor nem a imensa torcida, nem o poderia econômico e nem uma tradição, eu sei bem o que é perder. Dói, mas você se acostuma. Dói, mas você tem que sair na rua e aguentar a zoação. Dói, mas ninguém está nem aí as vezes nem pra te zoar, o que as vezes é pior. 

 Ou seja, tenho o dorso calejado, tenho o coração acostumado e tenho, como antidoto contra o desespero, uma boa dose de cinismo. Não é o melhor, mas é o possível. Pra início de conversa: não há salvação. Tudo o que está sendo jogado ali é uma bola que passeia entre pés (as vezes mãos) e conta uma história. É o acaso absoluto. 

Não existe você ir ao banheiro, não existe a panela de pipoca, não existe a cueca que você vestiu no primeiro jogo (urgh!) nem o lugar do sofá que você se senta. Não existem deuses no futebol. 

 Claro que existem grandes jogadores, existem grandes times, existem grandes jogos. Mas isso não nos dá o direito de criar narrativas de nações ou de povos através da história da bola. A estatística não nos ajuda, só dá uma falsa sensação de segurança. Mas o mundo não é determinístico, o mundo é probabilístico, o mundo é bayesiano. 

 O futebol não salva um país e, pior que isso, pode perdê-lo. 

Durante anos criamos fábulas sobre a tal Pátria de chuteiras. Temos alguns dos melhores jogadores do mundo, mas não temos ainda um país. E, é bom que se diga, uma coisa não tem nada a ver com a outra, embora por vezes se complementem. 

 Ao ver, torcer e sofrer neste Brasil e Croácia, Quartas de Final da Copa do Mundo, sinto-me triste e frustrado. Eu realmente queria ver nosso time ser campeão. Mas me enfurece a nossa cronicamente Crônica e anacrônica esportiva, a procurar culpados ou a perseguir inocentes. 

 Há muito tempo que eu perdia tempo vendo mesas redondas e debates sobre futebol na TV. Não, não estou pedindo debates sobre educação e cultura em seu lugar. Acho que deveríamos ter ambos, por que não? O esporte é isso mesmo, é o jogo, é a incerteza, é o momento. Os pênaltis são a mais completa tradução desta verdade. 

No pênalti, estão se confrontando um jogador cansado e as vezes abatido psicologicamente. E um goleiro que também está angustiado, e que tem que tem poucos segundos para entender o que o cobrador vai fazer. Um instante entre a glória de um e o desespero de outro. 

 O pênalti é a tradução da incerteza. Treinar seus fundamentos não garantem uma execução eficaz. Perder para a Croácia nos pênaltis numa Quarta de Final de Copa do Mundo não é desdouro para ninguém. 

Para um futebol exigente e vencedor como o brasileiro, estar nas quartas de final é quase obrigação. Passar dela está neste limbo entre sorte e eficácia. Isso nos faz ficar tristes e frustrados, mas não diz nada de nós como pais. 

Não diz nada de nossas vidas e de nossas lutas, tanto os pessoais quanto as coletivas. O futebol nos define em muitas coisas, mas a vida, a nossa e a do país, é muito mais que uma cobrança de penalidades.

sábado, 4 de abril de 2020

QUANTO VALE UMA VIDA?


peguei daqui


A pandemia/epidemia de coronavírus que estamos vivendo não pode mais ser relativizada. Precisamente na última quinta-feira, 2 de abril, o número de mortos pelo coronavírus (299 vítimas) ultrapassou o número de mortes no desastre do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, 272 pessoas. Quantas Brumadinhos cabem nesta nova tragédia?

A pergunta que muito se fez, e a única a qual não se deveria fazer, é: Quanto vale uma vida? Entre pasmos e boquiabertos, estamos vendo raciocínios completamente estapafúrdios sendo feitos nas nossas fuças: quantas vidas seria necessário sacrificar para manter a sociedade, leia-se economia, funcionando? 

O empresariado bolsonarista não se cansa de fazer esta proposição. “Por causa de cinco mil, sete mil vidas” não se deveria parar a economia. O próprio “mito” faz raciocínio idêntico: “morreu, lamento”, diz o ex-militar, que não parece se incomodar com baixas que seus governados vêm sofrendo. Parece que nem ficam ruborizados. Como tantos já apontaram, vivemos tempo em que ficou “natural” falar estas barbaridades.  

As barbaridades são ditas em ambientes limpinhos e requintados, com empresários falando serenamente aos microfones coisas igualmente sensatas e razoáveis. A empatia evapora-se como álcool gel. Não há aqui ogeneral franquista gritando “Viva la muerte!”. Não há imagens de Hitler e Goebbels defendendo a “Solução Final”. Mas também é Necropolítica. Na veia.

Frente a raciocínios tão sofisticados, seria justo perguntar: quais seriam estas vidas que se pode abrir mão? Quem são as buchas de canhão da nova pandemia? Por certo não seriam as suas próprias, nem de seus familiares. Seria, é claro, a vida do outro, do distante, do pobre, do negro, do imigrante, do idoso. A morte das pessoas invisíveis não faz corar ao empresariado liberal. 

Há também os que se refugiam na aparente neutralidade dos números. No início de março várias pessoas relativizavam a pandemia dizendo que o número de mortos seria pequeno, por causa da “baixa letalidade” da nova doença. No entanto, a escalada de disseminação da doença e as mortes associadas mostra outra realidade. Quanto dá 2,5% de 210 milhões? Quem vai pagar essa conta?

Alguns outros argumentam: por que ligar para um número tão pequeno de mortes, se o trânsito mata mais? Se fumantes morrem mais?

É o mesmo problema que temos para comparar um acidente de avião com os acidentes de carro. Um acidente de avião instantaneamente mata centenas de pessoas. Já os acidentes de trânsito são menores e mais espaçados no tempo. 

A morte concentrada e trágica destes eventos é mais impressionante pelo volume e intensidade. Por isso os acidentes de avião chocam mais que as milhares mortes do trânsito. 

(Isso não quer dizer que os acidentes de trânsito não sejam um problema. Obvio que são. Entretanto, a solução dada pelo atual desgoverno é uma chocante flexibilização das regras de trânsito. Especialistas são unânimes em dizer que as medidas tomadas pelo “mito” aumentam a insegurança e, por consequência, o número de mortes.)

Não estamos mais nas “pestes” do passado, onde se acreditava que as mortes eram causadas pela ira divina. Temos uma sociedade tecnológica que pode (e está) respondendo rapidamente aos fatos verificados durante a dispersão da pandemia do coronavírus. 

Entretanto, vivemos, particularmente em nosso país, uma forma perversa de pensar e agir, que tende a sacrificar os mais pobres e vulneráveis em nome de uma pretensa racionalidade dos negócios. No entanto, vida e economia não se separam. Quanto mais pessoas expostas, maior será a mortalidade. 

Quando a escalada de mortes começar, nas próximas semanas, o impacto na vida e no funcionamento dos hospitais e serviços funerários vão cobrar seu preço. E isso traz consequências sociais e políticas impossíveis de prever.

terça-feira, 24 de março de 2020

NÃO É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!


Caminhões do exercito italiano carregando caixões de vitimas do coronavírus

No meio de uma situação de tragédia, ninguém pensa em dinheiro. 

Estive em várias situações de desastre. Nestas situações, a última coisa que você pensa é dinheiro. Pessoas estão morrendo, pessoas vão morrer, pessoas estão em luto e em situação de estresse psicológico. Muitos perderam tudo. E você ali, no meio daquilo tudo. Qual é a medida a tomar?

“Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, teria dito o Marques de Pombal a um atônito Dom João, rei de Portugal, quando este lhe perguntou o que fazer imediatamente após o Grande Terremoto de Lisboa, em 1755. 

Hoje, com o mundo todo em meio a esta brutal pandemia causada pelo coronavírus, esta é a questão: como enfrentar esta pandemia com o menor número de mortos? 

Entretanto, esta é uma crise sui generis. Estamos em casa, e podemos assistir as notícias que vem de longe. Podemos ter acesso a vídeos, lives e documentários. Podemos conversar com todos os nossos parentes amigos e colegas pelo whatsapp. Não fosse a anormalidade, parece que está tudo normal.

Mas não está. A falta de conhecimento das pessoas sobre o que é um vírus acaba levando a inúmeras ações inseguras. Uma pessoa aqui contamina a outra ali e a pandemia vai se espalhando a uma velocidade quase supersônica. 

Um vírus é muito pequeno, não conseguimos enxergá-lo. Parece mesmo que não está ali. Por isso, para a maioria das pessoas, parece que a pandemia não existe. O desfile de caixões nas ruas de Bergamo na Itália, não comovem ninguém aqui, do outro lado do mundo, também com muitos problemas a resolver. 

Esta falta de empatia, no entanto, é também viral. Pessoas enchem a boca pra subestimar “o tal do coronga”. É uma gripezinha, dizem uns. É uma histeria, uma crise à toa, dizem outros. 

Entretanto, as piores são as falas que fazem pouco caso da tragédia, tendo com o contraponto as vidas das pessoas. “Morre um aqui, outro ali pelas complicações, fazer o quê?”, disse em entrevista na semana passada aquele que não mais nos governa. 

Os empresários que estão apoiando a necropolítica da atual gestão também se fazem ouvir em alto e bom som: Um empresário do entretenimento faz coro ao necro-presidente, dizendo que "12 mil mortes em 7 bilhões de habitantes é muito pouco pra criar essa histeria coletiva”. 

A crise econômica que se avizinha por causa dos cuidados com a pandemia também é criticada por estes empresários. Um empresário do ramo alimentício diz que “não podemos [parar a economia] por conta de 5 mil pessoas que vão morrer”. 

Por obvio que estas tantas mortes, na cabeça dos empresários, não são de parentes seus, nem de entes queridos. São da “tigrada”. São números num gráfico de barras do Excel. São corpos amontoados carregados por carroças, como nas antigas ilustrações da Peste Negra, ou da procissão de caminhões carregando caixões anônimos de vítimas anônimas vista pela televisão ou na internet. 

Quanto vale uma vida, uma só?

Essa é a questão que temos que resolver como sociedade. Estamos com uma emergência muito grande, pois temos muitas pessoas vulneráveis, que podem morrer pelo vírus. E temos muitas pessoas vulneráveis que podem morrer de fome, pela asfixia econômica que o confinamento vai criar. O que fazer?

Como disse ontem a economista Monica de Bolle, neste momento eu não perguntaria isso para um economista, eu perguntaria primeiro para um infectologista. 

Existem diversas formas de fazer com que medidas de prevenção contra o coronavirus e medidas de apoio social possam vigorar juntas sem promover o caos. Tem muita gente pensando e propondo coisas interessantese factíveis. Existem governos executando políticas deste tipo. 

Quanto vale vinte mil dólares no bolso dentro do Titanic adernando? A economia não é tudo. 

Vidas são mais. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A BOLSA E A VIDA



Na feira deste domingo, enquanto escolhia abobrinhas e pepinos japoneses, escutei casualmente a conversa de dois homens ao meu lado. Conversa de homem. De homem de bem. Os dois falavam de Bolsa. Um falou “a Bolsa subiu”. O outro concordou e respondeu: “Tomara que continue assim”. Pelo pouco que pude perceber, os dois estavam falando das pesquisas da ultima semana que apontavam o favoritismo de Bolsonaro e a aparente euforia do mercado com esta notícia.
Em geral, eu sempre fico espantado com o noticiário econômico. As oscilações para cima e para baixo das bolsas de valores tem a ver com causas que nem sempre compreendemos. Se compreendemos, muitas vezes nos chocamos. Algumas muitas vezes, notícias aparentemente boas não são boas para omercado: o aumento do numero de empregos nos EUA em 2011, por exemplo. Outras vezes, compreensivelmente, os mercados reagem com perplexidade, como foi com a notícia da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.
No Brasil, o ciclo é o mesmo. Os mercados reagem favoravelmente se existem indícios de que vai haver reforma da previdência, por exemplo. Isso vai ser uma tremenda dor de cabeça para os trabalhadores, mas o “tal do mercado” comemora. Se as negociações da Reforma da Previdência emperram, o mercado reage em baixa.
Eu não entendo nada de Economia. Alguns dizem que é uma ciência humana. Muitos discordam. Eu não entendo nada de economês. Tenho alguns palpites. Muito dizem que os mercados são a melhor maneira de organizar a atividade econômica. Que a tal da mão invisível nos guiaria por ações concretas e seguras, onde todos sairiam ganhando.
Outros dizem que um governo seguro pode melhorar a mão do mercado. Uma ação política por parte do Estado pode resolver os problemas de assimetria entre os entes econômicos. Eu acho que isso é o mais seguro. Não confio em mãos metafisicas.
Nada nos garante que as ações dos governos nos mercados sejam sempre sérias e sábias. São decisões políticas, marcadas por interesses de grupos. Mas o mercado, qual um graxaim selvagem, não gosta de amarras. Morde as cordas e sai desvairado pela noite à procura de presas. Assim pode ser o mercado.
 Por vezes, o mercado beira o cinismo. No dia da facada que Bolsonaro levou, o mercado reagiu com alta. Segundo os analistas, prevendo as facilidades que o Coiso teria com sua vitimização, como realmente teve. Marcelo Coelho, na Folha, perguntou se os mercados são amorais ou imorais. Qual é a sua resposta para esta pergunta?
Hoje, o mercado está em alta. Os que fazem negócios estão otimistas. Vão poder ganhar muito dinheiro, fazer bons negócios. Por isso as Bolsas “sobem”. Entretanto, nem sempre o que o mercado quer é o que a sociedade quer. Mas, quando isso acontece, os homens na feira de domingo discutem felizes sobre as tendências da bolsa.
O mercado reagiu em alta quando Collor de Mello ganhou as eleições. Reagiu muito bem à eleição de Hitler, por exemplo. E reagiu muito bem quando Temer, o vampiro, conseguiu o seu cargo e sua "ponte para o futuro" naquela votação horripilante de um congresso pouco comprometido com o interesse publico. Nem sempre o Mercado reage bem à democracia. Assim como deve ter reagido bem quando o golpe sangrento de Pinochet derrubou o governo socialista legitimamente eleito de Salvador Allende.
Os mercados não levam em conta a economia real. Aquela que nós todos fazemos no dia a dia. Não aquela feliz economia de Adam Smith, do padeiro e do açougueiro que acreditam na mão invisível. O mercado, a maior parte dele, joga contra a sociedade que lhes dá suporte. São amorais. São imorais. Os mercados devem ser criminalizados sempre que trouxerem prejuízos para a sociedade pagar. Os banqueiros e especuladores da crise de 2008 nos Estados Unidos deveriam ter sido presos . Eram grandes demais para quebrar?
Adam Smith acreditava na moralidade dos agentes econômicos. Eu concordo, e acho que assim deve ser. Por respeito a mim, por respeito a você. Os mercados devem se comportar, ter regras dentro da moralidade, e não fora dela. E que, se não se comporta, o mercado não venha chorar as pitangas depois que quebram de tanto especular, como foi na crise do subprime. 
Ser o candidato do Mercado não quer dizer grande coisa. Ser o candidato das liberdades todas é muito, quase tudo. É tudo o que temos pra hoje. 

O Mercado somos nós. 


domingo, 7 de outubro de 2018

OS BOLSOMINIONS E O SENSO COMUM


Existem ideias que parecem simples. O mundo é simples e fácil de resolver.  Parece que sempre foi o obvio e nós, burros que somos, jamais vimos a verdade ali, na nossa frente. Parecem geniais, estas ideias. Mas não são. Muitas destas genialidades foram ditas por eleitores de Messias Bolsonaro no ultimo mês. 

Uma delas é a questão da violência. Como numa conversa de bar, o cara se posiciona, firme: “tem que botar mais polícia!”. A evidência empírica mostra que mais policia não resolve. Resolve aqui, não resolve ali, e a violência continua tudo igual.
O cara do bar retruca: “tem que botar o exército!”. Que ideia genial! Porque não pensamos nisso antes? Em minha vida cheguei a ver três intervenções do exercito no Rio de Janeiro. Se intervenção militar resolvesse, o Rio seria uma Suíça. Mas não é. Ou é?
Bandido bom é bandido morto. Quem nunca ouviu essa platitude? Parece simples, como num faroeste: tem os mocinhos e tem os bandidos. Os bandidos, é claro, tem todos os defeitos do mundo. Os bandidos são facínoras e sem piedade. O mocinho consegue matar 10, 100, mil, e ainda vai ganhar o beijo da mocinha ou a benção do padre.
Neste mundo tão simples, não cabe complexidade. Por que será que a maior parte das vitimas da polícia são jovens negros? O cara do bar hesita em sua resposta, porque vai entrar no terreno do preconceito. O cara do bar, que não é o general Mourão, tem algum filtro do que fala. Não vai fazer nenhum discurso justificando a violência pela “raça” da vítima, alguma falta de “caráter”, nem falar sobre a “malandragem dos negros”, como fez o general Mourão. Mas pensa. Você pode imaginar o que ele pensa? Ou no que ele vota?
Ideias simples, muitas vezes cheias de informações falsas e preconceitos sempre existiram. Falar de segurança publica não é tarefa para o cara do bar. Por que a criminalidade hoje mudou das grandes para as pequenas cidades? Porque mudou dos grandes centros para o norte e nordeste? Como deter o tráfico de drogas? Como lutar contra as milícias?
Nenhuma destas questões tem uma resposta simples. Muitas soluções já foram tentadas. A maior parte, envolvendo mais armas, mais violência, mais guerra. E a violência não para de crescer. O homem do bar não sabe o que fazer.
Aí entra o medo. O discurso do medo. Todos precisamos nos armar. Outra ideia simples e aparentemente perfeita. No entanto, sabemos que aumento dos homicídios por armas de fogo em razão da ausência de políticas específicas (veja aqui). Como resolver isso? Com políticas de segurança.
Mais ciência e menos Chuck Norris.
Mas o homem do bar não se convence. Ele conhece zil e um exemplos de que isso não funciona. E insiste nas ideias simples e de fácil implementação, fáceis como um chá de boldo pra curar a ressaca.
São ideias do senso comum. Se te disserem que um peso com penas e um peso de chumbo caem com a mesma velocidade você acredita? Parece óbvio que o peso de chumbo cai mais rápido. Você está vendo isso. Mas não é. Galileu precisou de muita experimentação para provar isso.
Levar o conhecimento acima do senso comum, da observação simples. Soluções negociadas e complexas para problemas complexos. Pensar com ciência e criatividade. Em lugar disso, você vê uma fala vazia de conteúdo e cheia de emoção. Quando não, ódio.
Insistir em senso comum e ideias simples como as disseminadas no último mês nos levam a mais do mesmo. Ou vamos daqui a quatro anos trocar as fraldas e os políticos pela mesma razão, como disse Eça de Queiroz numa placa de caminhão.  
Se daqui a quatro anos ainda houver democracia, essa coisa tão esquisita e tão longe do senso comum....


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

VOCE VOTOU NO COLLOR?



Vocês se lembram de alguém que tenha votado no Collor?
Eu me lembro de muita gente que teve essa opção funesta em 1989. Foram, inclusive, a maioria dos leitores. Mas, anos depois, ninguém mais admitia ter votado nele. Não me lembro de ver ninguém batendo no peito, orgulhoso, dizendo: “Eu votei no homem!”
Lembro que uma vez, ao conversar com alguém na rua e que não me conhecia, eu fiz uma falsa confissão: “pois é, eu votei no Collor. E me arrependo muito”. De imediato, a pessoa me fez uma cara de empatia e contrição, respondendo “eu também me arrependi!”.
Hoje, parece que estamos numa situação semelhante: o numero de pessoas que quer votar no capitão reformado é muito grande. Quase todos se inflam de orgulho ao dizer que o candidato que escolheram é “limpo”. E que é contra a corrupção. Quando escuto isso, imediatamente me vem à memoria o “Caçador de Marajás”.
Ele também dizia que era uma força renovadora na política. Vinha também de um pequeno partido sem expressão, o PRN. Para todos os lados, o que se via era a bandeira da corrupção (Veja aqui o discurso dele em 1989) . Qual era a sua proposta para a saúde? – “Caçar os Marajás!” Qual sua proposta para a economia? – “Caçar os Marajás!”. Era o monocórdico discurso.
 Vínhamos de um tempo muito estranho. O regime militar havia acabado melancólico, uns quatro anos antes. Decisões políticas equivocadas, o fantasma de milhares de casos de corrupção abafados, o general Newton Cruz fechando Brasília no dia da votação das Diretas já. O regime militar era um cadáver na sala. Para ocupar a presidência, em lugar de Tancredo Neves, assumiu José Sarney, um político astuto, mas despreparado. Suas ações intempestivas na economia levaram a mais caos, e a uma hiperinflação. As primeiras eleições presidenciais desde 1960 ocorriam num ambiente de caos econômico e de desesperança com a política.
Collor foi uma aposta praticamente pessoal de Roberto Marinho,o dono da Globo, para afastar a ameaça de um governo de esquerda. Naquele momento, a principal preocupação eram Leonel Brizola e Lula. Collor e seu discurso anticorrupção caíram no gosto do Dr Roberto, que foi o seu mais fiel eleitor.
A história todos sabem. Cercado de corruptos por todos os lados, com uma economia em frangalhos, impopular e abandonado pelo seu benfeitor, Collor amargou o impeachment.
A história é cruel. Foi cruel com Collor. Seus eleitores o esqueceram e o apagaram da memória. Tudo se passou, na cabeça das pessoas que o elegeram, com se jamais tivesse se passado. Um esquecimento conveniente, todavia, que acalma as consciências. No entanto, tudo foi verdade.
Hoje, estamos novamente com um candidato anticorrupção na dianteira das intenções de voto. Um candidato de passado insignificante, que em mais de 30 anos pulou de partido em partido, e que em todo esse tempo não teve sequer um projeto aprovado.
Galopando em cima de um discurso anticorrupção, ele promete mais segurança. Os planos são vagos: dizem somente que policia vai ter carta branca para matar. Quem conhece minimamente o Brasil sabe quem vai morrer: os pretos e pobres. Mas mesmo assim, as pessoas embarcam neste autoengano. Mesmo muitos eleitores pretos e pobres.  
Não há como não fazer o paralelo com Collor. A história de povos sem consciência se repete e se repete, ora om farsa, ora como tragédia. O fascismo que ele representa, entretanto, é muito pior Collor e sua “República das Alagoas”. Estão quase todos embarcando numa canoa furada, sabendo que é furada. Tentando desesperadamente se convencer que não está furada.
Bolsonaro é um preço muito alto para se livrar do PT.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O CANDIDATO QUE NÃO AMAVA AS MULHERES



Os bolsonaristas que saíram as ruas no domingo foram dispersados, em São Paulo, por uma forte chuva. Problemas com São Pedro, talvez? Mas, ainda assim, mesmo molhada, a manifestação dos bolsonaros foi uma manifestação muito grande. Foi uma reação contra as grandes manifestações anti-bolsonaro deste sábado, que reuniram centenas de milhares (milhões?) de pessoas pelo país. Principalmente mulheres.
Por mais que se grite e esperneie contra o Coiso, a grandereação contra o capitão reformado parece ser mesmo a feminina. Os números gritam: cerca de 50% das mulheres não votariam “de jeito nenhum” neste candidato, contra 33% dos homens.  
Recentemente, o jornal El Pais comparou o movimento das mulheres contra Bolsonaro com a história lendária da Hidra de Lerna, a que se cortava uma cabeça e cresciam várias. O ataque dos grupos bolsonaristas à página “mulheres contra Bolsonaro” no Facebook deu impulso não só ao grupo, mas também incentivou o surgimento de outros grupos e deu ânimo para as manifestações de rua deste último fim de semana.
Esta rejeição é muito bem explicada. A misoginia do discurso bolsonarista não conhece limites. É famoso o seu discurso do “não te estupro por que você não merece”, contra a deputada Maria do Rosário. É uma fala das cavernas. O estupro como forma de punição, como houve nas sociedades primitivas, juntamente com a diminuição da oponente mulher: nem isso você merece.
Alias, desmerecer mulheres é uma pratica desse discurso: a tal da “fraquejada” do capitão reformado teria gerado sua única filha mulher. Outra vez a afirmação do feminino como o fraco, o inferior. Tal desmerecimento tambémse reflete nos salários inferiores recebidos pelas mulheres, conforme já explicou o douto candidato: “Afinal, elas engravidam...”
Por isso e muito mais, não se espere que as mulheres se encantem pelas propostas do capitão. Ali somente há mais do mesmo: depreciação, aviltamento, subordinação. Tudo coisas que a sociedade já jogou e está jogando na lata de lixo dos costumes.
 Mas o bolsonarismo é persistente: numa fala recente o deputado E. Bolsonaro também citou que, ao contrario das mulheres de “esquerda”, que repudiam a candidatura de seu pai são menos higiênicas que as mulheres de direita. Nada mais fascista que um discurso higienista. A fala do bolsonarismo, enfim, é um discurso de ódio e aversão às mulheres.
As mulheres que, aliás, já tem muitos outros problemas em viver num mundo machista e patriarcal. Agora, tem ainda que se preocupar com um candidato a presidente misógino. Há a violência cotidiana, a violência doméstica. Há a violência nas ruas. Há a violência do mundo do trabalho. Tudo isso, não vê quem não quer, impacta também nossa economia e nossa sociedade.
 E ainda vem o tal vice, o general Mourão, a dizer mais uma de suas “pérolas”: famílias lideradaspor mulheres são “fábricas de desajustados”. Como se não bastasse toda a carga sobre as mulheres, ainda sobra a culpa pela crise da sociedade na qual elas não mandam.
Essa carga e esse discurso estão se refletindo agora nas urnas. O capitão e seu vice general tem muito com que se preocupar. Afinal, elas são a maioria. E sabem muito bem qual a carga que pesa, qual a fala que fere, qual a violência que mata.
O capitão e todos os que acham esse discurso “politicamente incorreto” e “lacrador” bacana, que coloquem suas barbas de molho. É muito fácil falar isso em rodinhas de homens. Nestas rodas, em geral, ganha quem mais se mostrar cruel e misógino. Quem contar mais barbaridades, ganha uns risinhos de aprovação e uns comentários maldosos. É o cara. Pois não é.
(Eu já frequentei essas rodas. Eu mesmo já fiz comentários deste tipo. Fui criado num ambiente machista. Eu mesmo sou e tenho muitas atitudes machistas. Estou aprendendo a não ser, com ajuda de todas as mulheres com quem convivo. Também acho que o mundo deve caminhar numa outra direção. Eu quero um mundo onde o feminino e o masculino e outras orientações sexuais possam viver em paz.)
A realidade é bem outra. Somos uma sociedade de mulheres forte e de homens infantilizados. Muitos desses homens aí até sabem fazer um churrasco, mas não sabem esquentar papinha de bebê. Nas rodinhas de homens que temos hoje, quantos não são os bolsonaros, contando suas safadezas e mesquinharias com mulheres como se fosse uma busca pelo Graal? Enquanto isso, lá estão elas, em casa, a cuidar da vida e da família, e até deles mesmos.
É o mundo das famílias sem homem, tanto real quanto virtualmente. Só não sabe disso aquele mundinho de testosterona e misoginia que são os quartéis. Ah, os quartéis! Alguns destes homens, vivendo nesta bolha, até se acham e se intitulam “homens de bem”!
Os homens como chefe de família são mais raros que no passado. Ao contrário do que disse o general Mourão, o que há é um país onde as mulheres já são 40% dos chefes de família. E na maioria das vezes dão conta do recado, apesar dos pesares.
Por tudo isso, temos um embate inédito nestas eleições. Um embate entre a sociedade contra uma visão de mundo. Uma sociedade majoritariamente feminina. Que não é monocrática, nem unitária, nem partidária. A espinha dorsal deste movimento, desta vez, são elas.
O espaço que a sociedade está colocando para todos aqueles que queiram mandar, ordenar regulamentar ou violentar o corpo das mulheres está ficando cada vez mais estreito. Isso não se dá por ideologia, ou por politica institucional. Isso vem se dando por ações políticas no nosso cotidiano. Não dá pra fingir que isso não existe. O empoderamento feminino veio para ficar.
O mundo dos candidatos que não amam as mulheres está com os dias contados.

domingo, 23 de setembro de 2018

CONTRA O FASCISMO (#ELENÃO)


A população de Londres comemorando a vitória sobre o nazi-fascismo em 1945, em manchete do Daily Mail
As próximas duas semanas serão decisivas. O fascismo, representado pelo #elenão, está se consolidando, em níveis jamais vistos. Precisamos pensar este fato para além de nossos estômagos e construir uma grande frente que possa afastar a possibilidade de um governo com matizes fascistas no brasil. Para isso, precisamos nos situar e ver quem são nossos potenciais aliados e com quem nós podemos contar nessa luta. E lutar para conquistar corações e mentes, para impedir um mal maior no Brasil.
Não nos enganemos: o projeto de poder de #elenão e sua tchurma é claramente fascista. Sua proposta baseia-se claramente num culto explícito da ordem. Uma ordem baseada na violência de estado e em práticas autoritárias de governo, como já apontado por muitos.
Uma proposta de ordem a segurança que dá salvo conduto aos agentes da lei para “fazerem justiça” pelas próprias mãos. Uma proposta que é simples e de fácil compreensão, mas de aplicação difícil e duvidosa, já que estamos lidando com policiais de verdade e não com anjos.
O nacionalismo, o culto à pátria e a família são outras características típicas do neofascismo. Como ferramenta de coesão social, apontar o inimigo externo como o culpado é típico destes regimes. A família modelo é a família hétero, cis, machocêntrica. Branca, devemos acrescentar? Outros modelos de família são demonizados, como o fez recentemente o vice, General Mourão.
Estes discursos se referem a uma prática de governo que desprotege os menos favorecidos e as minorias vulneráveis. O caráter misógino e homofóbico do discurso neofascista é mais do que evidente e dispensa comentários. Mais uma vez, a pratica de culpar as minorias pelos males da sociedade volta para assombrar a sociedade, como já fez no passado.
Pouco se sabe de suas propostas em outras áreas. Na educação, sua proposta é a censura e a mordaça, via os projetos “Escolas Sem partido”. Na economia, uma proposta “liberal” que na prática aumenta a desigualdade. Embora tenha voltado atrás, a pulga continua atrás da orelha.
De qualquer modo, a questão é muito séria. Os partidos de esquerda precisam ter uma plataforma comum. Os partidos de centro precisam ser atraídos. Chega dessa bobagem de chamar quem discorda de fascista. A ciência política já definiu claramente o que é fascista. Vão se informar.
É necessário que liberais e socialistas de todos os matizes se unam para combater o inimigo comum, o fascismo. Unidos, liberais e socialistas já combateram o fascismo no passado, derrotando-o exemplarmente. Precisamos recordar deste momento.
Neste momento de crise, uma crise econômica violenta, que esta semana fez dez anos, é natural que o mundo esteja preocupado e perplexo. Como nos anos 1930, a crise econômica fez surgir propostas de sociedade que levaram o mundo a crises terríveis e guerras, que ceifaram milhões de vidas. Neste sentido, a guerra da Síria pode ser um paralelo com a guerra civil espanhola. Os pactos do pós Segunda Guerra Mundial estão sendo rompidos por todos os lados.
O mundo inteiro está em convulsão. Ninguém está contente com a sua vida. Os problemas se acumulam. No entanto, o principal problema são os que oferecem soluções simples. Como o muro de Donald Trump; o Brexit, e outras. Soluções simples que impõe problemas extraordinários e criam novos.
Neste contexto, o “Coiso” representa isso. O próprio jornal conservador inglês The Economist publicou uma matéria sobre a ascensão do fascismo brasileiro e mostrando-o como uma terrível ameaça à toda América Latina.
Não podemos subestimar o poder deste discurso do ódio. Nos estados Unidos, esse foi o caminho da vitória de Trump.  Precisamos conquistar os corações e mentes que se deixaram dominar por ele.
Antes de desqualificar estas pessoas, precisamos mostrar que o caminho da democracia e da liberdade é mais complexo e mais difícil. Mas que este caminho difícil e tortuoso é o único que pode levar a uma humanidade mais inclusiva e a um mundo de paz e prosperidade.
São Heisenberg, rogai por nós!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

OS INGLESES FELIZES


Gente feliz num domingo de sol em Trafalgar Square
“Estamos felizes e sabemos disso”, estampava uma manchete interna do jornal inglês The Times na semana passada. “Mas o quanto isso pode durar?”, indagava ao final. De fato, os dias que passei na Grã-Bretanha foram dias de muito sol e calor. Isso altera o humor das pessoas. Para aumentar ainda mais a alegria inglesa, o desempenho de sua seleção na Copa do Mundo, chegando pela primeira vez desde 1990 numa semifinal da Copa  também contribuía para a alegria nacional.
Bem que percebi. Quando soube dos prognósticos do tempo na Velha Ilha, tratei de botar na minha mala algumas roupas de frio. O verão costuma ser mais ou menos o nosso inverno em Campinas. Temperaturas entre 14 e 25°C . No entanto, em alguns momentos de nossa estada por ali, vimos temperaturas de até 30°C, numa onda de calor que já dura quase dois meses.
Nas ruas, viam-se shorts, bermudas, sandálias. Filas para sorvete. Ruas lotadas, praças mais ainda. À noite, casais passeavam pelas ruas de mãos dadas, felizes. O índice de alegria dos ingleses é em média 7,3/10 segundo a matéria do Times, citando um trabalho de Andy Rope, chamado em tradução livre de “Felicidade: seu roteiro para a alegria interior”. No entanto, naqueles dias quentes de verão e bons resultados do futebol, a alegria inglesa beirava os 9,5 segundo o jornal.
Claro que não era tudo maravilha. A própria matéria reconhecia que eles estavam num momento atípico. Lembravam do mau humor britânico de 2016, quando eles perderam George Michael, Prince, David Bowie. E, além do mais, eles votaram pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.
Naquele momento, nos finais de semana de verão, o centro da cidade era tomado pelas pessoas. No sábado, 7/julho, o Gay Pride londrino reunia dezenas de milhares de pessoas no tradicional bairro gay do Soho, numa alegria carnavalesca. Britânica, é claro. As grandes avenidas do centro estavam proibidas para os carros, e haviam diversos shows de música pelas ruas, de todos os tipos e gostos. Enfim, dias bons e alegres.
Na Trafalgar Square, as pessoas se acumulavam a beira dos chafarizes, conversando, tomando sorvete, bebendo cerveja. Famílias inteiras, muitos idosos, pessoas de todas as cores e todas as procedências. Africanos, indianos, asiáticos, e muitos latino americanos. Deus, como tinha brasileiro por lá! Volta e meia ouvia-se aqui e ali uma língua que eu conseguia entender mais ou menos. Trafalgar Square estava linda e ensolarada. Tanto que lá de cima de seu monumento colossal, Lord Nelson deve ter tido vontade de descer e aproveitar o momento.
Segundo um depoimento do prof.  Richard Wiseman (!) da Universidade de Hertfordshire nesta mesma matéria do The Times, quando o sol aparece as pessoas se tornam mais dispostas a aceitar e ser generosas com estranhos. No entanto, acima dos 21°C as pessoas vão se tornando mais agressivas e violentas. (Ainda bem que nós, seres dos trópicos, não participamos desta estatística...).
Os (poucos) dias que passei em Londres deu pra sentir essa alegria. Andamos e muito pelo centro da cidade, onde com frequência víamos as pessoas espantadas com tanto calor. E com tanto sol. De volta para a ensolarada Campinas, com temperaturas parecidas (mas no inverno!), fico aqui pensando como temos estado tristes e depressivos com nossa situação, com nossa política, com nossa economia. Estamos tristes nos trópicos.
A alegria dos britânicos dura pouco, e por isso mesmo, é bom que eles aproveitem. Segundo o peculiar humor deles, as vezes o verão (lá deles) cai no fim de semana. A matéria do Times terminava alertando para que as mudanças sazonais de humor não impactem tanto nossas vidas. Prof Wiseman, sábio como ele só, diz que “temos que ligar nossa identidade com coisas que estão no nosso controle, como o trabalho ou relacionamentos”. Ser um pouco estoico ajuda, segundo ele. A matéria termina clamando por mais estoicismo e por mais drizzle, a chata garoa londrina.
Nós aqui, no nosso ensolarado continente, precisamos superar nossa tristeza e apatia. Como? Tem várias maneiras. Ajudar uma causa, comer comida saudável, fazer exercícios. Participar dos problemas do nosso trabalho, do nosso bairro. Estar com a família, os amigos. Escolher bem seu candidato nas próximas eleições. Procurar soluções coletivas para problemas comuns.
Os ingleses até podem atrelar a alegria deles a um verão, ou à seleção de Gareth Southgate (?).
Para nós, alegria é a prova dos nove.

sábado, 14 de abril de 2018

SONATA DE OUTONO


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tirei daqui
O dia está ensolarado. Um pouco de vento, e uns cirros no céu anunciam uma chuva para breve. Chuva que, por certo, não virá, ressecando o solo, as plantas e nossas vidas.  É nosso outono.

Ontem à noite fui surpreendido com a noticia do ataque americano (mais ingleses e franceses) em instalações na Síria, que supostamente abrigariam armas químicas. Fui dormir sem saber se acordaria num mundo conflagrado, já que havia promessa de resposta russa. O Armagedon pululuva nas redes sociais.

Hoje, já se sabe que, fora os danos de sempre, nada aconteceu de verdade. Algumas instalações sírias foram destruídas. Os russos protestam veementemente, mas não encostaram o dedo em seus próprios mísseis. Uma reclamação formal e uma proposta de reunião do Conselho de Segurança. O próprio Secretário-Geral condena o ataque. Aqui ao meu lado ouço o barulho das crianças da casa ao lado brincando na piscina.

Por curiosidade, deixo a televisão ligada na Al-Jazeera. De cara, vejo um debate entre um analista da Bloomberg e Glenn Greenwald, do Intercept. Debate duro. A mesma toda dos outros debates que vejo depois: por um lado uns acusam Trump de piorar o que já estava ruim, e ainda usando o argumento das armas químicas. O próprio Secretário-Geral da ONU Guterres disse que haviam técnicos no local prontos para investigar se ali haviam armas químicas. Do outro, a alegação de que era preciso combater armas químicas e os civis sírios.

Milhões de sírios estão dispersos hoje pelo mundo. Vivendo em acampamentos, tomando barcos frágeis sob controle de contrabandistas para fugir da guerra civil que já dura sete anos. E eles são quem tem que arcar com os custos em vidas e infraestrutura por cada ação militar, “cirúrgica” ou não, cometida em seu território, no intrincado xadrez que é a guerra civil lá deles.

Continuo vendo a al-Jazeera. Logo depois, um duro debate entre um representante palestino e um ex-ministro da justiça de Israel sobre os últimos acontecimentos em Gaza. Pelo que entendi, tropas israelenses e mesmo snipers foram usados para dispersar uma manifestação palestina na faixa de Gaza. Outro debate duro.

Fui cuidar da casa. Afinal, o mundo não vai acabar, e tenho coisas a fazer. Fico me lembrando do nosso quintal. Há uma semana Lula está preso em Curitiba. Um tribunal desses aí tirou o agora ex-governador Geraldo Alckmin da lista da Lava Jato. O entendimento é que o caixa dois não é crime, e tem que ser julgado na justiça criminal. Parece que a sangria vai sendo estancada. Com o Supremo, com tudo.

O mundo não vai acabar. Ao menos por enquanto. Tem muito louco à solta por aí, com poder para fazer isso acontecer. Aqui, ninguém sabe o que vai acontecer. Estamos longe de virar uma síria. Mas tem muito louco que gostaria de fazer isso acontecer em terras tupiniquins. Não seria difícil. Já temos uma guerra civil latente contra os pobres. As milícias já estão ocupando território, como nas guerras civis mais banais. Mas ninguém do lado de cá do “apartheid” em que vivemos pensa nisso a sério, como Marielle Franco pensou.

Um mês do assassinato de Marielle, e tudo vai se resumindo a notícias cada vez mais esparsas e cartazes desbotados nos corredores da universidade. Milhões de pessoas em todo mundo apoiam o bombardeio de Trump sem questionar. Na televisão, aberta, fechada ou por streaming, o que se vê são “famosos”. Nas redes sociais, podemos saber mais sobre eles: quem são? Como se reproduzem? A banalidade vai tornando tudo irreal, tudo borrado e apagado como uma folha de papel impressa que ficou na chuva.

O Armagedon de ontem à noite se dilui como as nuvens que vi no céu há pouco.  Uma amiga querida me corrige que a Al-Jazeera é igual ao nosso PIG, e que suas matérias sobre a guerra civil na síria são igualmente ridículas. Concordo. Acho que estou muito preso ao meu umbigo, sem procurar ver o que acontece no mundo, como fazia antes. Vamos lá, então. O outono está só começando.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - OS OITO DE NAVARONE (3)

Tonho e Melancia descendo o morro em São Jose dos Campos. Melancia, pra variar, fazendo graça montando a mula

Quase todas as vezes que íamos fazer alguma investigação geotécnica nesta obra do duto, precisávamos colocar as ferramentas de sondagem no alto de um morro, em geral muito íngreme. Colocar as coisas a pé era penoso, e já estavam todos fatigados ao final da campanha.

Nosso colega Gilberto Marchioro tomou uma atitude ousada, como é do seu feitio, e contratou algumas mulas, com cangalha e tudo, pra auxiliar na empreitada. Quando vi a mula com o material, tive certeza: era uma operação de guerra.

Em várias situações, depois de verificarmos que o terreno era inacessível, procurávamos na região algum morador que tivesse mulas com cangalha: sempre tinha um.

Certa vez, procurávamos por uma mula numa estradinha perdida de um canto perdido de são Jose dos campos. Achamos um sitio num lugar muito bonito, cheio de mata e de água. Veio nos receber um dos filhos da dona, que soubemos depois ser pedreiro. Quando conversamos sobre a mula, ele disse que tinha uma, mas não sabia botar cangalha. Nós também não, e tínhamos mais o que fazer. Recusamos a oferta.

No entanto, ao saber que precisávamos subir o morro levando a sonda, o cara se ofereceu: “eu e meus irmãos levamos isso pra vocês. Somos em oito”. “Oito, aqui?” perguntamos. Ao receber a confirmação, ficamos espantados com tanta gente, mas era difícil recusar uma oferta daquela: oito pessoas a ajudar a carregar nossas equipagens todas, era quase o paraíso.

À noite, ficamos comentando aquilo: falávamos sobre “os oito do sítio”, ríamos muito da situação. “Parece uma operação de guerra”, alguém completou. “ah, já sei, os oito de Navarone!”. E pronto, os oito do sitio ficaram conhecidos como “os Oito de Navarone”.

Acontece que no dia seguinte eu fui pra outro lugar, e não acompanhei a instalação do equipamento de sondagem no alto do morro. Quando, de noite, encontrei o meu amigo Rômulo, que estivera lá naquela frente  de trabalho ajudando a instalar os equipamentos, perguntei dos Oito de Navarone. Ele fez uma cara de sacana, abriu uma risada, e me respondeu: “dos oito, só sobrou um!”. “Como assim?”, quis saber, intrigado.

“Pois é”, explicou ele, “quando o pessoal chegou aqui e viu a quantidade de coisa que tinha pra subir o morro, desistiram. Só ficou um deles, o mais velho, que era pedreiro em São Jose dos campos. Ele sozinho nos ajudou a levar as coisas. Ajudou muito”.

Era muita coisa mesmo. E o pessoal era tudo gente de cidade, pouco acostumados com trabalho bruto, caiu fora logo que viu. Mas a piada ficou: “Rômulo, e os oito de Navarone?” “Só sobrou um!” dizia ele, rindo e mostrando com os dedos quantos eram e quantos sobraram.

O trabalho era realmente bruto, quase uma operação de guerra, cruel e sem piedade. Coisa de gente doida mesmo. Ou trabalho pra mula, com cangalha e tudo. Até o pessoal de Navarone, dos oito só sobrou um. Coisa besta, sô!

(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

sábado, 21 de outubro de 2017

A CHUVA DIFÍCIL



Tá difícil chover por aqui.
As nuvens passam, passam e nada. Depois de ventar a noite inteira, o dia amanhece de sol. Limpinho, limpinho. Sem nem uma nuvem. Depois, o calor vai aumentando devagar. Os últimos dias estava insuportável de quente. O ar, extremamente seco. O nariz sofre. A sensação de boca seca nos persegue o tempo todo.
No jardim de casa, é só esquecer de molhar um dia e algumas plantas já começam a murchar. Haja água. E lá vamos nós a molhar as plantas. A terra vai engolindo avidamente toda a agua que colocamos. Quase dá pra ouvir o glut-glut-glut telúrico.
Choveu, mas muito pouco. As chuvas que passam por cima da gente nestes dias de primavera nos dão falsas esperanças. De noite, com o barulho do vento, me confundo esperando ouvir o som da chuva. De manhã, ao abrir as portas e ir para fora tomar o café olhando as plantas, me sinto enganado pelo vento.
As pessoas tentam olhar nas previsões do tempo, sempre tão seguras. Probabilidade de chuva: 57%. Não vai chover hoje, não vai chover amanhã. A chuva que estava prevista para o domingo passou por cima e nada. A esperança, ressequida.
As notícias que recebemos também andam ressequidas e desalentadoras. Na semana que passou, vimos os poderes da república batendo cabeça, disputando nacos de poder, inventando interpretações.
Pode-se dizer que desde que Aécio, esse semeador de ventos, começou a duvidar dos fundamentos da democracia, estamos todos ladeira abaixo. Do resultado das eleições ao golpeachment tudo o que tínhamos por regras foi se esfarelando. Agora, pau que bate em Chico não bate em Francisco. Precisamos antes perguntar para Gilmar Mendes.
O STF se acovarda. Bate em quem está fraco e não se sustenta contra os que estão fortes. A lei, ora a lei! O Senado da República, nada republicano, transforma-se numa agremiação que protege os seus. Seus comparsas.
Na Câmara, vigora a proteção ao presidente apanhado com a boca na botija em relações espúrias com o poder econômico. A ele é dado o benefício da dúvida que foi sonegado durante a consecução da deposição da presidenta eleita. A ele não se questiona o toma-la-dá-cá realizado com as bancadas do atraso a cada pedido de abertura de inquérito.
A fatura da “governabilidade” é paga regularmente. Nesta semana a bancada dos grotões e do atraso viu o governo estabelecer uma portaria que restringe a definição de escravidão e dificulta a atuação dos auditores.
Com isso, a escravidão volta ao interior do país. Quem quiser veja as consequências aqui.
O Brasil teve um passado tenebroso em termos de escravidão. Fomos o ultimo pais da américa a banir a escravidão num processo lento e doloroso que até hoje gera conflitos em nossa sociedade.
Com essa portaria, segundo os especialistas, vai facilitar a ação dos “gatos” aliciando mão de obra barata no interior do pais. A maior parte em projetos agropecuários na Amazônia. Mas isso não vale nada.
Para os donos dos grotões do pais, é esta a liberdade que eles querem. A liberdade do liberalismo brasileiro, essa aberração conceitual, é a liberdade de explorar sem freios a mão de obra. Nosso liberalismo tem as mãos manchadas de sangue.
Enquanto isso, tentamos levar nossas vidas. Quase sempre respondo um tudo bem com um “eu vou bem, mas o resto está uma merda!”. Eu estou bem. Tenho saúde, família, trabalho. Mas ando preocupado com a falta de chuva e com a falta de esperança.
Dias melhores virão. Dias melhores verão. Vai finalmente chover e as plantas do jardim vão ficar menos ressequidas. As tempestades do fim da primavera vão balançar as árvores e criar ravinas no solo. Mas o verão vai chegar.
No entanto, no deserto que se transformou este país, teremos alguma esperança?