Mostrando postagens com marcador Crônicas do Bacucu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas do Bacucu. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ANTONINA E A CORRUPÇÃO



Que Antonina é fantástica, todos já sabem. Todo mundo que sentiu no rosto o vento do mar na colina da matriz ou quem já comeu bolinho de bacalhau no mercado sabe do que estou falando. Antonina, a Deitada-abeira-do-mar, a cidade e sua gente, tem um jeito diferente, que ri dos percalços da vida, que brinca e fala o malemolente linguajar dos bagrinhos, é um lugar especial, que cativa e encanta.
No entanto, na noite desse frio domingo de julho, soube que a cidade era a notícia do Fantástico, da rede globo (assim mesmo, em minúsculas). Faz anos que não vejo o Fantástico. Tem coisa melhor para fazer nas noites de domingo. Inclusive fazer nada. Ver esse programa sensacionalista e apelativo não é uma boa maneira de começar a semana. Por isso, não vi.
Mas sei do que estão falando. Qualquer um no Brasil sabe o que estamos falando. Aqui na região de Campinas, que tem cerca de 3,1 milhões de habitantes e concentra 8,5% do PIB paulista, o problema da corrupção é endêmico (aqui). Recentemente, em 2012, o prefeito de Limeira (300 mil habitantes) foi afastado do cargo por corrupção (aqui), mas voltou por decisão judicial. Na lista da Lava jato constam o ex-prefeito e o atual prefeito de Campinas (1 milhão e 200 mil habitantes), o ex-prefeito de Paulínia (80 mil habitantes) e Sumaré (260 mil habitantes). A corrupção está no nosso dia-a-dia, em nível municipal.
Se digitamos na busca do Google “prefeito corrupto” dá aproximadamente 495 mil entradas. “Corrupção prefeitura” dá 848 mil entradas e “prefeito afastado por improbidade administrativa” dá 293 mil entradas. O número de casos é grande, quase como uma epidemia.  
Como não saber da corrupção? No caso do indigitado ex-prefeito, já sabíamos antes da eleição (ver aqui). Briguei com grandes amigos meus por causa dele, o “grande apolítico” (aqui). Toda vez que vou à Antonina, alguém me conta de um causo. Quando a câmara tentou enquadra-lo, ele comprou a câmara. Todos sabiam. Por que o espanto agora?
Parece que todos sabem. E quem está “lá dentro” não tem pudor em ganhar o que não lhe é devido. Pessoas honestas e bem-intencionadas acabam “entrando no esquema” e saindo sujas como qualquer ladrão de galinha.
Não adianta fazer mea culpa, como vejo alguns fazendo. Não adianta chorar. Culpa quem tem é pecador. Criminoso é quem comete crime. A culpa pode ser resolvida num culto evangélico ou num confessionário. O crime é resolvido com a devolução do roubado e com uma pena a ser paga, dependendo do crime.
Alguns estão se deliciando com o outro apanhado com a boca na botija. Ou a boca no dinheiro. No entanto, não podemos nos comportar como se fôssemos incorruptíveis, ou como se isso não acontecesse conosco - ou com nossa família. Fechar os olhos para isso é um caminho para cairmos na armadilha. Devemos sim é pensar no quanto somos cúmplices com estes esquemas, quanto não deixamos – por ação ou omissão – nosso dinheiro e nossos direitos irem para o ralo.
A nível estadual, vocês no Paraná têm o Beto Richa, que dispensa apresentação. Aqui em São Paulo temos Alckmin e os 24 anos de PSDB e seus esquemas mal resolvidos e impunes. Ambos aliás eleitos no primeiro turno. A nível Nacional, estamos vendo que boa parte da população tolera um presidente notoriamente corrupto, mas que os livrou do “monstro petista”. Para não termos as “pedaladas” ou as pretensas bobagens que a presidenta Dilma falava, tolera-se a corrupção e as gafes internacionais de Fora Temer. No congresso e na justiça, a impunidade rola à solta, como se rissem de nós. Foi para isso que o pessoal com a camisa da seleção foi pra rua?
No caso da Deitada-a-beira-do-mar, mais do que virar um festival de piadas no Jequiti ou um Fla-Flu, devemos pensar melhor. Até que ponto nos deixamos levar por este estado de coisas, que nos levou a ser conivente e naturalizar a corrupção até chegar no ponto que chegamos?  
Até porque, na internet, estão batendo nos fracos, pra variar. O nosso conhecido assessor que beija dinheiro, nosso ex-vereador que chora, todos esses são arraia miúda, café pequeno. Bagrinho no pior sentido da palavra. O esquema maior, no entanto, continua na ativa e ditando as políticas da Terra de Valle Porto. Esse aí, quem se atreve a apontar?
(Como muitos devem notar, não estou há tempos escrevendo sobre Antonina e seu cotidiano aqui no blog. Os motivos são muitos. O principal é que, de longe, é mais difícil enxergar as folhas das arvores. Não se pode falar de longe, de onde estou. Por isso, não tenho mais comentado sobre fatos de cotidiano. Mas esse me pareceu importante demais.)

segunda-feira, 9 de março de 2015

DE VOLTA PARA O FUTURO

Não, não é uma maré de lua: é a subida do nível do mar devido ao aquecimento global fazendo os bagrinhos ocupar o alto do morro do Bom Brinquedo em março de 2062

Estamos no ano de 2062.  Com o aquecimento global, o nível dos oceanos subiu três metros em todo o planeta. Com isso, amplos trechos da cidade ficaram submersos. Sobrou a colina da matriz, transformada de novo em ilhazinha batida pelas ondas, e o morro do Bom Brinquedo, que virou ilha do Bom Brinquedo. Os bairros ficam isolados, as pessoas não têm como se mover, não há barcos pra todos. O caos se instala. Não há alternativa, pensam os habitantes, a cidade vai ter que se mudar. Pra onde?
Existe um lugar, apontam os técnicos do governo do estado, é a região de São Joãozinho Feliz. Lá deve se localizar a Nova Antonina, distante da velha Antonina tão cheia de pecados e agora tragada pelas aguas do aquecimento global, como foi previsto pelos profetas do inicio do século XXI. É uma nova oportunidade de zerar tudo e começar de novo, sem os erros do passado.
 Ótimo, diz a prefeita da época, vamos desapropriar essa área e vamos construir a nova cidade. Todos ficam felizes com sua determinação. O Governador vai até lá de helicóptero, abraça e beija as criancinhas e diz que vai mandar dinheiro. O Ministro também prometeu liberar as burras da administração federal pra salvar a cidade submersa.
Mas, há empecilhos: alguns proprietários querem se livrar logo de suas terras, outros elevam o preço até as alturas. O dinheiro não chega, não chega, e, quando chega, é um terço do dinheiro inicialmente previsto. Há que se fazer licitações para construção das ruas e das casas. As licitações são lentas, pois desde o inicio do século pioraram muito as leis de licitação para evitar a corrupção politica. Somente empresas marcianas de ilibada reputação se candidatam.
Onde vão ser as casas? Quem vai ter acesso a elas?  Nesse momento, a elite da cidade, que ninguém achava que existia, toma a frente e requer os melhores lugares. Depois, a classe média e, por fim, o povão ocupa o que sobrou, ou seja, alto de morro, beira de rio, locais de mangue. O terreno todo é ocupado, alguns proprietários são indenizados, de preferencia os amigos da prefeita ou do deputado amigo da prefeita. Os outros que se virem. A oposição reclama, os blogs reclamam, mas a caravana passa. A nova Antonina inicia as obras de sua refundação.
Quando os operários executam a primeira sondagem, um cheiro ruim invade a área. Mulheres desmaiam, crianças choram, e um cheiro de ovo podre toma conta do ar. Um velhinho bem velhinho se lembra de que era ali, naquele lugar, que no século XX e começo do XXI que os capelistas jogavam seu lixo. O terreno mole começa a afundar, engolindo a super-escavadeira recém-comprada pela prefeitura, tragada pelo solo colapsível do lixão, ops! Aterro Sanitário.

Em meio ao caos que se forma, alguém pergunta pra prefeita o que fazer. Atarantada, como todos por ali, a alcaidessa olha em redor e grita: “vamos pra Morretes! Eu já moro lá e é pra lá que nós vamos!” A multidão começa a pegar suas tralhas e uma longa peregrinação começa pela estrada do Sapitanduva em direção à terra de Rocha Pombo. Os anônimos dos blogs não vão ter mais do que reclamar, pois alcançamos finalmente Morretes, a perfeição na Terra. Lá não jorra leite e mel, mas é mais limpinha, organizada e tem emprego nos restaurantes. Que não haja medo do futuro nem saudade do passado: ao virar a última curva, onde ainda se avistam as ruínas de uma antiga cidade deitada embaixo do mar, que ninguém olhe para trás, por via das dúvidas. 

(Publicado originalmente no  Bacucu com Farinha em 5/maio/2012)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

DORME DORME BLOGOSFERA..

Nesses dias chuvosos, chuva mansa e calma caindo pelos beirais das casas, a blogosfera dorme. Dormirá o sono dos justos, o sono daqueles que chegaram ao limite das forças e que, agora, sob a calma das cobertas, se recompõe para mais um dia de lutas? Ou dormirá  sonos intranquilos, coração oprimido, sonhos com os monstros que o sono da razão produz?

Em vários locais da Deitada-a-beira-do-mar, pessoas ficam inquietas com essas chuvas que não cessam, dormem sonos intranquilos ao escutar o manso barulho das gotas no telhado. Lembram-se angustiadas de outras noites de medo e de desespero de um passado não tão distante. Mas, indiferente ao sono intranquilo dos que tem razões para temer o excesso de chuva, a blogosfera dorme.

O corpo fica cansado daquele lado, e ela, a blogosfera se vira de lado, procurando uma posição, que logo encontra. Lá  fora pessoas estão trabalhando, descarregando caminhões de mercadorias, transportando coisas de um lado pra outro, indo trabalhar no escritório. Os pés estão gelados, o sapato que molhou, as incomodações-outras da chuva que cai, mansamente, há vários dias. A blogosfera dorme.

Há seca no Nordeste. Milhões de pessoas sem água, nesta que é a mais silenciosa das catástrofes naturais. Falta agua para a comida, para o banho, para os animais. As nuvens também não chegam para os agricultores do interior do Rio Grande do Sul, temerosos por sua safra de arroz, agora pouco irrigada. Longe de tudo isso, e debaixo de seus macios edredons, a blogosfera dorme.

Mas e esse sono, e esse torpor? Será que é  só a chuva que cai? Ou dorme a blogosfera por outros motivos? A blogosfera dorme ou a blogosfera hiberna? A blogosfera dorme ou a blogosfera se ausenta, se cala, esperando um momento melhor pra se pronunciar?

A blogosfera dorme porque se ausenta, se ausenta porque espera. A blogosfera espera as definições da política, da rude política municipal, a única agenda possível neste ano de Olimpíada. Não se fala de esportes, não se fala de cultura, e muito menos de economia: a blogosfera capelista dorme sonha e acorda falando em politica municipal.

Eu nem deveria estar aqui escrevendo, tenho outras coisas a fazer: aulas, provas, bancas e outros cavacos da vida acadêmica. Mas acho que devo me pronunciar, se houver quem queira escutar: a blogosfera anda em estado de espera para as tais das convenções dos partidos, pra saber como as composições das chapas serão fechadas. Ninguém aí pro Rio mais 20, pra final da Copa do Brasil, pro grandioso jogo do Furacão contra o Ceará no Inferno da Segundona. As pessoas querem mesmo é o poder.

Acho que devemos nos preocupar com o poder sim. A catalepsia da ultima semana na verdade corresponde a um tufão nos bastidores da cena, uma briga de foice que não é bonita de se ver. Tirem as crianças da sala. Como um comentarista do cotidiano nascido na terra de Bento Cego, tenho dois olhos e acho que vejo bem, embora a idade tenha me forçado cada vez mais ao uso de óculos. A blogosfera dorme. Quando ela acordar de novo, o que sonharemos?

(postado originalmente no Bacucu com Farinha em 21/junho/2012)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

SALVE DONA JANAINA!



(esta é uma postagem antiga, mas o sentimento é o mesmo...)


Hoje, dois de fevereiro, é dia de saudar Iemanjá, Dona Janaína, a Rainha do Mar. Envolvido em coisas torpes e mesquinhas, gastei todo o meu tempo livre em coisas produtivas e interessantes para o futuro do Brasil. Mas, esqueci da santa, de ir num laguinho e jogar alguma coisa pra ela. Uma coisinha qualquer, assim com um barquinho de madeira com velas, uma melancia, um ramo de flores meio murchas que estão precisando de água. Mas iemanjá me entende (eu acho), apesar do crime ambiental envolvido em seu culto.
Claro que cultuar Iemanjá não foi um habito que aprendi na minha infância, na Deitada-a-beira-do-mar de antanho. A Antonina de outrora, um lugar pacato e feliz, onde os padres eram americanos, tinham buldogues e tudo era pecado. Televisão? Pecado! Falar palavrão? Pecado! Faltar na missa? Pecado! Desejar o mal daquele filhodaputa que vivia te azucrinando e te perseguindo no recreio? Pecado! As meninas de mini-saia? Pecado! Pecado! Olhar por baixo da saia das meninas? Pecado mortal!
Como então aquela santa maravilhosa, de vestido azul saindo das águas não seria também pecado? Bela, sensual, arrastando os homens para as profundezas do mar, como não amar Iemanjá? Como não amar aquela vontade de afundar naquele mar de desejos que estava na nossa frente, e que aqueles padres americanos sem-batina (oh pecado!) nos proibiam – secundados por um sem-fim de velhas carolas – nos ameaçando com o mais terrível dos infernos? Como amar, como desejar?
Claro que isso são bobagens que se desfazem quando você desce na rodoviária de São Paulo, a antiga Julio Prestes, cheia de gente de tudo que é canto do Brasil. Ali, aquela balburdia de gente, de cores e cheiros diferentes, de sotaques diferentes, jeitos diferentes e desejos nem sempre iguais, você acaba por sentir que o sermão do padre de Antonina não fazia sentido. Coitado do padre, só entendia de cuidar do buldogue dele, que só entendia ordens em inglês. Bom mesmo era o vento do mar quando saiamos da missa na matriz, olhar se a maré estava cheia ou vazia, ou se tinha navio no porto.
A Antonina de hoje eu estou conhecendo e aprendendo a conhecer. Hoje conheço bem os morros, conheço algumas pessoas e algumas comunidades que nem sequer sonhava em conhecer nos meus tempos de guri. Na prática, é a mesma coisa. Antonina continua com suas idiossincrasias (no popular: com seu “jeitão”), só que atualizado aos tempos do celular internet e Ipad. Uma cidade que tem na primeira divisão do futebol times como “Real Madruga”, “Zorba no Rego” ou “Sovaco da Cobra” é um lugar de uma idiossincrasia bem idiossincrática. Hum...deche...
Iemanjá veio depois na minha vida, na Bahia, em Santa Catarina, no Rio de Janeiro, e nos outros lugares que andei. Embora não-crente, procuro respeitar o credo dos outros. Acho bonito a pessoa crer em algo, eu que creio em coisas risíveis, como igualdade-liberdade-fraternidade, democracia, socialismo. Hoje não entendo mais direito essa coisa de crer, mas acho bonito quem acredita em algo, acredita nos deuses, ou no Deus, contanto que não queira sair por aí queimando hereges (como eu) ou explodindo embaixadas. E acho bonito o culto a essa deusa feminina e caprichosa que nos ama e que quer nos quer destruir. Assim são as mulheres. Viva o dois de fevereiro. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

VEM PRO GUETO, NEUTINHO!!


Meu querido amigo Neutinho, desde que se bandeou para os lados da antiga alcaidessa, está vindo com uma conversa meio enviesada, estranha. Segundo ele, sua candidata pretende “mudar a maneira de gestão, ela irá modernizar a administração de Antonina com modelo de gestão empresarial e fazer a cidade retomar o progresso e desenvolvimento" (aqui). Quando definiu sua passagem para o outro lado do rio, numa postagem intitulada “De um esverdeado menino” (aqui), meu caro velho companheiro do tempo de escoteiro tentou definir o indefinível. Ora, meu querido, uma coisa é uma coisa, e outra coisa...
Segundo você diz, a tal gestão empresarial, tomada como um modelo, “orientaria o gestor como se deve planejar, alocar e gerir recursos oriundos dos impostos, também lhe permitirá ações, iniciativas, princípios e estratégias”. O que há de diferente nisso da gestão pública? O que orienta o gestor privado é não perder seu emprego, se ele não tiver o capital. E ganhar dinheiro, se ele for o patrão.
É sua candidata, aliás, quem esclarece a questão, em sua plataforma de governo: “Diferentemente do que acontece na vida privada, onde se permite fazer tudo àquilo que a Lei não proíbe, na Administração Pública só se permite fazer o que a Lei recomenda” (na íntegra aqui). Tá lá. Eles sabem, Neutinho. Na última vez que estiveram lá, todos os membros da família mamaram nas tetas do erário, no mais deslavado nepotismo. Agora, que a lei, mudou, eles aprenderam e não vão mais fazer isso nas nossas fuças. Só fazem o que a lei recomenda.
A gestão pública não pode e não deve dar lucro. Ela deve ser eficiente. E eficaz. Deve ser feita com transparência, a tal da transparência que você, corretamente, sempre cobrou dos ocupantes anteriores do velho prédio da rua XV, inclusive da sua atual candidata.
Os tais dos “xoques de jestão”, típicos das administrações tucanas nunca foram lá essas coisas. No tempo do FHC tinha até os caras que atuavam no “limite da responsabilidade”, lembra? Limite de responsabilidade é "tucanar" o adjetivo irresponsável. Ninguém está livre de ser irresponsável, mas os doutos tucanos, que se arvoram os reis da administração, que fizeram?  Lembra-se do Çerra, das discussões durante a campanha de 2010, na qual você, no comando do “Bacucu”, foi um aguerrido Blog Sujo? O próprio Beto Richa, que tanto alardeou isso de gestão, cadê?
Torço para que você seja eleito vereador, torço muito. Antonina terá muito a ganhar com você na Câmara Municipal. Você vai ser um vereador crítico, que não vai levar desaforo pra casa e que usará seu mandato para legislar e para investigar o poder executivo. Serei seu tiete.
Agora, posar de mais realista que o rei, meu caro? Nem a tua “rainha” prega isso! Pensa bem, que essa sede de poder que você embarcou está te fazendo trair alguns princípios. Você criticou traíras e traições recentemente no “Bacucu”, mas será que você também não traiu princípios, traiu seu passado? Sei que você escreveu que quer ser pragmático, mas esse é um problema das pessoas boas: quando fazem o mal feito, não fazem direito. Larga esse osso (aliás duro de roer!) e vem pro gueto. A blogosfera te espera. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

DORME, DORME, BLOGOSFERA...


Nesses dias chuvosos, chuva mansa e calma caindo pelos beirais das casas, a blogosfera dorme. Dormirá o sono dos justos, o sono daqueles que chegaram ao limite das forças e que, agora, sob a calma das cobertas, se recompõe para mais um dia de lutas? Ou dormirá sonos intranquilos, coração oprimido, sonhos com os monstros que o sono da razão produz?
Em vários locais da Deitada-a-beira-do-mar, pessoas ficam inquietas com essas chuvas que não cessam, dormem sonos intranquilos ao escutar o manso barulho das gotas no telhado. Lembram-se angustiadas de outras noites de medo e de desespero de um passado não tão distante. Mas, indiferente ao sono intranquilo dos que tem razões para temer o excesso de chuva, a blogosfera dorme.
O corpo fica cansado daquele lado, e ela, a blogosfera, se vira de lado, procurando uma outra posição, que logo encontra. Lá fora pessoas estão trabalhando, descarregando caminhões de mercadorias, transportando coisas de um lado pra outro, indo trabalhar no escritório. Os pés estão gelados, o sapato que molhou, as incomodações-outras da chuva que cai, mansamente, há vários dias. A blogosfera dorme.
Há seca no Nordeste. Milhões de pessoas sem água, nesta que é a mais silenciosa das catástrofes naturais. Falta água para a comida, para o banho, para os animais. As nuvens também não chegam para os agricultores do interior do Rio Grande do Sul, temerosos por sua safra de arroz, agora pouco irrigada. Longe de tudo isso, e debaixo de seus macios edredons, a blogosfera dorme.
Mas e esse sono, e esse torpor? Será que é só a chuva que cai? Ou dorme a blogosfera por outros motivos? A blogosfera dorme ou a blogosfera hiberna? A blogosfera dorme ou a blogosfera se ausenta, se cala, esperando um momento melhor pra se pronunciar?
A blogosfera dorme porque se ausenta, se ausenta porque espera. A blogosfera espera as definições da política, da rude política municipal, a única agenda possível neste ano de Olimpíada. Não se fala de esportes, não se fala de cultura, e muito menos de economia: a blogosfera capelista dorme sonha e acorda falando em política municipal.
Eu nem deveria estar aqui escrevendo, tenho outras coisas a fazer: aulas, provas, bancas e outros cavacos da vida acadêmica. Mas acho que devo me pronunciar, se houver quem queira escutar: a blogosfera anda em estado de espera para as tais das convenções dos partidos, pra saber como as composições das chapas serão fechadas. Ninguém aí pro Rio mais 20, pra final da Copa do Brasil, pro grandioso jogo do Furacão contra o Ceará no Inferno da Segundona. As pessoas querem mesmo é o poder.
Acho que devemos nos preocupar com o poder sim. A catalepsia da ultima semana na verdade corresponde a um tufão nos bastidores da cena, uma briga de foice que não é bonita de se ver. Tirem as crianças da sala. Como um comentarista do cotidiano nascido na terra de Bento Cego, tenho dois olhos e acho que vejo bem, embora a idade tenha me forçado cada vez mais ao uso de óculos. Óculos pra longe e óculos pra perto: qual será o melhor óculos pra ver? A blogosfera dorme. Quando ela acordar de novo, o que sonharemos?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE CANDUCA


Depois de falar de um dos óbvios da politica antoninense, a candidatura Munira, agora vou tentar abordar outro tema, tão espinhoso quanto o anterior: quais as perspectivas e as chances de Canduca no tabuleiro eleitoral?
Lembro-me de ter assistido, em 2008, das janelas do restaurante Buganvil, a uma passeata da candidatura Canduca. Foi uma coisa pra mim impressionante e muito nova: as pessoas de branco, o clima alegre, quase de um desfile escolar. Pelo pouco que vi, foi um reflexo da candidatura Canduca e seu clima de paz-e-amor: com esse clima, sua candidatura conseguiu pautar uma eleição numa postura menos “briguenta” e mais propositiva.
Isso foi pra mim uma grande novidade em eleições que sempre foram muito mais acirradas e briguentas, com acusações de lado a lado, e muita, muita “marra”. Com essa postura, Canduca conseguiu ficar por cima da briga e, mesmo com um numero de votos ligeiramente menor do que na eleição de 2004 conseguiu se eleger contra dois candidatos fortes, como Munira Peluso e Kleber, que então estava com a máquina municipal.
O que houve desde então? Por um lado, Canduca procurou reorganizar a máquina pública, principalmente conseguindo zerar os Cadastros que permitiam ao município lutar por verbas públicas oferecidas pelo governo federal. Uma das maiores coisas dentre todas foi Hospital Silvio Linhares, que está sendo reconstruído.  Muito dessa conquista é fruto da ação de meu querido amigo Zé Paulo Azim, de longe o melhor secretário municipal da gestão Canduca, por isso mesmo cacifado para a eleição municipal. (Ao meu amigo-irmão Zé Paulo desejo boa sorte na sua nova carreira politica, tão cheia de desafios e percalços).   
Por outro lado, Canduca nunca teve medo de desagradar, quando necessário: mudou a cara da Feira-mar e de outros logradouros, o que lhe valeu muitas críticas. Nestes últimos anos, depois de muitas reclamações, inclusive as minhas, ele conseguiu manter a região central da cidade mais limpa, depois de terminar seu primeiro ano com as ruas ainda cheias de mato. Canduca, por outro lado, nunca participou ou interferiu na nossa ativa blogosfera, por mais que tenha sido citado de maneira negativa o mais das vezes. Esta postura paz-e-amor, considerados alguns de seus antecessores, é uma grande virtude.
Durante a catástrofe de março/2011 a atuação do governo municipal foi impecável. Todos lutaram muito, desde os altos escalões até o mais humilde funcionário, todos participaram ativamente na minimização da tragédia. A prefeitura, colocada de joelhos pela tragédia, lutou com um só.  Eu estava lá, eu vi. O atraso na construção das casas populares no Batel, por outro lado, está complicando muito sua imagem nessa área.
No entanto, Canduca deu algumas derrapadas, como na novela do barracão de fertilizantes e a mudança a toque de caixa do Plano Diretor Municipal. É necessário um grande ajuste no Plano Diretor Municipal, e não remendos na lei para atender os interesses de algumas empresas, como ficou parecendo. Em quatro anos, apesar dos avanços, o município também não conseguiu dar conta do problema do lixo embora, como já escrevi antes, este não seja um problema só da prefeitura. Envolve também a educação da população.
Contrariamente a muitos colegas de blogosfera, eu tenho uma visão positiva da gestão Canduca: se ele não foi um prefeito dos sonhos (e quem é?), também não vai entregar a prefeitura em pior estado que recebeu. Dizem que suas chances de reeleição são reduzidas, mas aqui da minha distância regulamentar não vejo isso, fora as reclamações que todos, Brasil afora, fazem de seus governantes. Aqui em Campinas, por exemplo, estamos há um ano sem prefeito e sem vice, cassados por um escândalo de corrupção, governados interinamente pelo presidente da câmara. Nova Friburgo, além da tragédia do clima, está sem prefeito pelo mesmo motivo. Querem coisa pior?
O fato de ser honesto obviamente não qualifica ninguém para ser político. Antes de tudo, é pré-requisito. Não sei como avaliar seus concorrentes, exceto Munira Peluso, já bafejada com a sorte nas urnas. Se a leveza do estilo de Canduca não nos fez subir às alturas, pelos menos conseguiu que não afundássemos na lama. Pode ser muito, pode ser pouco, não tenho os dons adivinhatórios de mãe Diná pra saber. Pai Zinho, meu guia espiritual, só me traz notícias do passado. No futuro, serão os próprios bagrinhos que definirão muito em breve isso tudo nas urnas.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O LIVRO DE THIAGO

o poeta antoninense Thiago Peixoto (1876-1921)


Há cerca de um mês atrás, apareceu no Bacucu com Farinha um poema atribuído a Thiago Peixoto, o maior poeta antoninense de todos os tempos. Na sequência, algumas postagens denotaram que o poeta e sua obra estavam esquecidos da maioria das pessoas da cidade onde nasceu, e onde é nome de uma das principais avenidas de Antonina.
Pesquisei também o pouco que se sabe da vida de Thiago Peixoto. Pelo que vi, só existe um livro, o “Livro de Thiago Peixoto”, publicado por seus amigos Otavio Secundino e Bertier Oliveira em 1922, pouco após sua morte. Foi um tributo de amigos. Ali, além dos poemas de Thiago publicados esparsamente, haviam diversos necrológios escritos por um grande numero de amigos, desde Ermelino de Leão até Leôncio Corrêa. Pelo que se pode perceber, o livro foi publicado aparentemente à revelia de sua família, que segundo Otavio Secundino não forneceu nenhum detalhe ou poema para os editores. Mesmo a foto que consta no livro foi obtida por intermédio de terceiros.
Pelas parcas informações  que levantamos sabemos que Thiago Peixoto, autor do belo soneto Saivá, nasceu em 1º de março de 1876 em Antonina. Aí fez seus primeiros estudos. Jovem, em Curitiba,  escreveu diversos poemas publicados nas diversas revistas simbolistas que apareceram na capital paranaense no inicio do século XX. Tendo feito muito sucesso, no entanto retornou à capela, casou-se com D. Adília Peixoto e com ela teve 7 filhos. Pelo que se pode entender dos dados dispersos pelo livro, nesse seu retorno Thiago foi guarda-livros, participou do governo municipal e foi diretor do extinto Instituto Comercial de Antonina. Depois de longa doença (qual seria?) acabou por falecer triste e amargurado na Deitada-a-beira-do-mar em 23 de maio de 1921, há exatos 91 anos.
Não sei da autenticidade do poema que circulou na rede. Ele, pelo menos, não consta dos tantos que estão no Livro de Thiago Peixoto. De toda forma, é melhor que as trovas apócrifas de Bento Cego que andaram vagando pela blogosfera recentemente. Seria interessante ver outros poemas de Thiago, além dos que estão publicados no livro citado.
É desperdício de bits reclamar de nossa memória histórica, quase a vaga lembrança da piada do português. Em vez disso, um anônimo muito inspirado propôs, também aqui no Bacucu, de uma verdadeira plataforma para a cultura, já que estamos em ano de eleição municipal. Entre outras coisas, o tal anônimo listou a reformulação da Biblioteca Municipal e a criação de um Museu Histórico, através de uma politica de preservação de documentos, fotos, mídias e objetos antigos. Da mesma forma, propõe a criação de um Arquivo Histórico Da Cidade. Este arquivo histórico, em minha opinião, deveria reunir documentos antigos e preservá-los, na forma de transcrições e coisas do gênero. Curitiba, com Romário Martins, fez isso em 1920, com a publicação de todos os arquivos da Câmara Municipal desde os primeiros tempos em 1693 até a República. O resgate de nossa memoria histórica, a par do tombamento que está sendo feito pelo IPHAN faria Antonina ter memória e, portanto, também história. Alguém se candidata?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

CARTA ABERTA À NAPOLEÃO PELUSO JUNIOR

Caro Napoleão Júnior:

Confesso que ao chegar cansado em casa, depois de enfrentar meus alunos o dia inteiro, fiquei meio chateado ao encontrar seu “tijolo” de texto em meu blog. Como faço nessas horas, fui conversar com Gusano. Gusano, se você não conhece, é meu amigo engarrafado, o verme da garrafa de mezcal que trouxe recentemente do México. Gusano, o verme certo das horas incertas, me fez ver que, ao contrário do antagonismo que supomos existir, temos algumas coisas em comum. “Mas vocês não moraram na mesma rua?”, me perguntou Gusano com sua dialética de verme. Pois então.
Eu cresci, assim como você, na Rua Coronel Líbero, em minha opinião a melhor rua deste lado da Via Láctea. Ali, caro Napoleão, entre os dois postes do atual Teatro, antigo Cinema, aconteceram algumas das mais memoráveis partidas de futebol de minha vida. Em frente à atual casa de sua mãe, que foi durante muito tempo vizinha de minha casa, antes de você morar ali, teve muito futebol rolando, da melhor e da pior qualidade. Chegou a ter jogo de dez contra dez, e isso num tempo em que o tráfego de veículos era pelo menos o dobro do de hoje!
Se você tivesse morado ali naquele tempo, nos anos 70 e 80, poderíamos ter nos conhecido jogando bola, ou andando de bicicleta. Ou, então, brincando de mãe-baleia, que pegava de um ponto a outro da calçada. Quem atravessasse tinha que correr pra não ser pego. Se você fosse mais grandinho, podia ter brincado de polícia e ladrão, que em algumas versões abrangia toda a cidade, da Rua do Esteiro (sabe onde fica?) até o morro do Joubert, hoje velhinho (90 e poucos anos!) e reverenciado por todos como um grande prefeito do passado. Era muito divertido aquilo tudo.
Pois então. Por conselho de Gusano, nem li seu “tijolão”. Se você acompanhou algumas polêmicas aqui no meu blog ou no Bacucu com Farinha, onde o Neutinho gentilmente me cede o espaço, teria percebido que não sou uma pessoa boa, nem mesmo virtuosa. Por dentro, sou mau, muito mau. Egocêntrico, corrupto, devasso, perverso. Algaravias, garatujas e heresias, esse é subtítulo do meu blog e o meu subtítulo. Por isso mesmo, se eu procuro andar certo na vida, é porque quero distância de policiais e advogados. Não entendo nem quero entender de leis, e por isso mesmo procuro segui-las como um bom cidadão.
Desta forma, pela amizade que decerto teríamos se tivéssemos nos conhecido em nossa infância/adolescência na Rua Coronel Líbero, eu gostaria de te dar um conselho. Eu sei, conselhos, se bons fossem, não seriam dados e sim vendidos. No entanto eu te peço: largue a barra da saia e venha fazer parte de nossa turma. Faça um blog e vamos discutir. Aqui, na blogosfera dos bagrinhos, a gente faz como fazia antigamente na boa e velha Coronel Líbero: às vezes, damos umas caneladas uns nos outros, discutimos, brigamos. Mas sempre resolvemos as coisas entre nós. Levar as coisas para uma instância superior, como reclamar pro pai ou pra mãe – ou pro juiz – não resolve nada e deixa o cara marcado na turma – “aquele é o guri que foi chorar pitanga”. Acho que você, valente como se mostra, não quer correr esse risco, não é?
Bom advogado, você até pode ganhar a ação de calúnia que você move contra o Cequinel, esse nosso boquirroto amigo, sempre direto e sem papas na língua, mas com um coração enorme. Você ganha na Justiça. Mas em médio prazo politicamente você perde, e isso até Bento Cego já percebeu. Retire a ação contra o Cequinel e vamos discutir politicamente a candidatura de sua mãe. Você é inteligente e tem coragem, já demostrou isso.  Se ela for absolvida, concorrer e o povo votar nela, assim é a democracia, e eu me curvo à vontade popular. Mas, por favor, pare de fazer biquinho, porque isso é chato, assim como o tal “tijolão” cheio de leis e quetais que você postou no meu blog. Assim vamos brincar de verdade, num jogo que Antonina e seu povo tem muito mais a ganhar que essas nossas picuinhas de blogosfera. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

UM VISITANTE ILUSTRE



Neste último domingo, estava fazendo uns serviços em casa. Temos uma amoreira que está grande, e nesta época ela suja a calçada com seus frutos e nos dá um trabalho danado de limpá-la. Eis que toca o telefone. Vou lá correndo atender: do outro lado, escuto a voz de meu guia espiritual, pai Zinho de Obatalá. Sim, tenho um guia espiritual, o qual, apesar de entendido na metafísica do além, é ainda altamente tecnológico: “liga o Skype!”, me pede ele.
Fui até o escritório, liguei o computador no Skype e nos falamos um pouco. Pai Zinho me avisou que alguém estava querendo falar comigo. “Mas alguém quem?”, perguntei pra ele. Pai Zinho deu um sorriso de Mona Lisa e desligou o Skype, fazendo aquele barulhinho esquisito: birurum-bum!
No canto mais escuro do meu escritório começou a soar uma toada de viola caipira. Que susto! Um preto velho de barba branquinha, chapéu de palha e roupa toda rasgada tocando viola no meu escritório! Que diabos era isso? Mas ele tocava divinamente a viola e cantava uma canção:

Caro senhor Jeffinho
Escute aqui o meu canto
É o cego do Registro
Soltando seu triste pranto!

Nossa! Era Bento Cego, nosso grande cantor e poeta! Nascido no Registro, em Antonina, em 1821 e falecido em Cajuru, São Paulo, em data incerta. Grande cantador que percorreu o sul e o centro do Brasil desafiando os violeiros que encontrava em animados desafios de trovas. E Bento Cego estava ali, em meu humilde cantinho, tocando sua viola! Que honra! Fiquei pasmo de escutar, e ele emendou outra quadrinha:

Eu quero mandar recado
Ao amigo boca suja
Que andou falando na rede
De uma tal dita cuja

Não ligue meu caro amigo
Com o forte destempero
Quando mandam calá boca
É causa de desespero!

Fiquei ali feliz escutando o canto triste de nosso grande e popular cantor. Que riqueza de poesia, que versos mais inspirados! Não conseguia nem falar na presença de tão grande poeta. Ele prosseguiu:

Pode falar nepotismo
Pode falar mãe coruja
Mas quando for falar mesmo
Não fale que é ficha suja!

Ficha suja ainda não é
Pela lei do seu juiz
Perto do tal Cachoeira
Qualquer um é aprendiz!

Que poesia, que encanto! Bento Cego tocava com destreza sua viola e sua musica enchia todo o meu pequeno escritório. Foi tanto encantamento que nem consegui levantar dali pra chamar minha mulher, que estava entretida com as flores do jardim, pra vir ver o Cego cantar. Pensando bem, melhor não. Vai que ela não vê e não escuta nada e diz que estou pirando...

Pode falar do seu padre
E do juiz de lambuja
Só o que não pode mesmo
É chamar de ficha suja

O Cego não sabe das lei
Dos dotores divogado
Mas pra falá “ficha suja”
Fale com muito cuidado!

Por fim, Bento Cego terminou seu canto, largou as mãos da viola e deu um sorriso largo com seus dentes brancos. Sua imagem foi esfumaçando, esfumaçando, e sumiu por entre meus livros. Fiquei ali parado, sem saber pra onde ir, sem ter o que falar. A bela tarde de domingo lá fora, e eu ali parado, com a melodia da viola do Cego na minha cabeça. Que coisa!
Depois de ficar ali matutando qual a razão de tão ilustre visita sem poder atinar por que seria, lembrei que tinha uma calçada pra varrer. Mãos à obra! Se eu não cuidar de minha calçada ela vai pretejar com o sumo das amorinhas. Deus me livre de ficha suja, quero dizer, de ficar suja! E, antes que me esqueça: Viva o canto sem censura de Bento Cego!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

EM DEFESA DE EDUARDO BÓ


Vivemos tempos extraordinários. A internet e as novas tecnologias da informação nos tornam mais conectados, numa proporção, desculpem a frase, nunca antes vista na história da humanidade. No entanto, importantes teóricos da rede são unânimes em apontar, em paralelo com os benefícios dessa interconectividade toda, a presença de alguns problemas graves. Um  deles, que gostaria de comentar aqui, diz respeito ao anonimato.
O anonimato está presentes na blogosfera capelista em grau muito intenso e importante. Um deles diz respeito às carradas de comentários anônimos que pululam na nossa comunidade. Em certo ponto, pode ser até bem vindo. É muito ruim quando isso toma o comportamento de turba. No entanto, o que não se pode mesmo  tolerar é a brincadeira  passar do ponto e descambar para a injúria, a difamação e a calúnia.
Vi, desde a semana passada, diversos comentários postados anonimamente em vários blogs importantes e respeitáveis da cidade questionando a prestação de contas do livro “Antonina – 35 anos de cumplicidade”, de nosso querido Eduardo Bó. Antes de tudo, quero dizer não tenho procuração para defendê-lo, embora me considere seu amigo. Nesta tarefa não estou sozinho, pois vários bloguistas já se manifestaram a respeito do assunto de maneira bastante contundente. Se também o faço, é porque vejo nessa atitude covarde de alguns uma tentativa de atingi-lo no que uma pessoa tem de mais sagrado, que é sua honra.
 Eduardo Bó pode ter todos os defeitos do mundo, mas é uma pessoa honrada. Poucas pessoas vivas fizeram tanto pela sua, pela nossa Antonina, mais do que ele. Seu trabalho como fotografo, bloguista e com idealizador do Festival de Inverno falam por si. Poucos bagrinhos são referência como Eduardo Bó. Prefeitos, vereadores, políticos, fofoqueiros de esquina passam. A obra de Eduardo, como representação do que é a Deitada-a-beira-do-mar nos últimos 40 anos, o seu incansável trabalho de documentarista de nossa cidade e de seus habitantes permanece. Essa é a importância de sua obra toda, a que vem se somar mais esse livro.
Um livro que não foi produto de um conchavo de bastidores, de negociata, mais foi sendo amorosamente gerado ano após ano, na avenida do samba, retratando o que ele, Eduardo, mais gosta de retratar – a gente de Antonina. Um livro esse que foi financiado por uma lei de fomento, qual o problema? Ao contrário dos artistas nacionalmente consagrados que alguns protestaram recentemente, Eduardo teve que ralar atrás de empresários o patrocínio a que tinha direito, um patrocínio, aliás, oriundo de renúncia fiscal do governo. Não é fácil para um artista, e ainda um artista bagrinho, vencer as resistências de empresa após empresa, até conseguir o total para financiar o livro. Eduardo lutou e conseguiu. Qual o problema com isso?
Eduardo Bó não é um homem rico. Tem suas posses, cuida de sua vida, paga seus impostos. Esse livro não vai fazê-lo mais rico. Sua riqueza vem de sua arte, do seu talento, uma coisa tão desproporcionalmente repartida que faz da pessoa talentosa um devedor nato. Sim, quem tem talento tem o dever de reparti-lo com todos os demais. E isso Eduardo vem fazendo com sua arte em doses generosas já lá se vai quase um vida inteira.
Qual seria o desígnio destas pessoas, acoitadas no mais vil anonimato, desmerecer, lançar duvidas ou tentar jogar lama no sucesso alheio? Meu amigo, vá trabalhar, vá fazer algo de útil para si, sua família ou sua cidade. É preciso acabar com essa autofagia perniciosa, que nos enterra politica e economicamente há quase meio século. É preciso circunscrever esses covardes no seu sujo covil, no antro de suas perversidades, ou eles tomam conta de tudo. Tomam conta da blogosfera, tomam conta da cidade e, pior, tomam conta de nossa alma, de nosso espírito. Como construir a cidade que todos queremos com o espírito roído por essa inveja mesquinha e imunda, por essa autofagia porca e rasteira?
Não foi pra isso que Valle Porto fundou essa cidade. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A NOVA ANTONINA

o Farol da Ilha do Mel em 2062, submerso por causa do aquecimento global


Estamos no ano de 2062.  Com o aquecimento global, o nível dos oceanos subiu três metros em todo o planeta. Com isso, amplos trechos da cidade ficaram submersos. Sobrou a colina da matriz, transformada de novo em ilhazinha batida pelas ondas, e o morro do Bom Brinquedo, que virou ilha do Bom Brinquedo. Os bairros ficam isolados, as pessoas não têm como se mover, não há barcos pra todos. O caos se instala. Não há alternativa, pensam os habitantes, a cidade vai ter que se mudar. Pra onde?
Existe um lugar, apontam os técnicos do governo do estado, é a região de São Joãozinho Feliz. Lá deve se localizar a Nova Antonina, distante da velha Antonina tão cheia de pecados e agora tragada pelas aguas do aquecimento global, como foi previsto pelos profetas do inicio do século XXI. É uma nova oportunidade de zerar tudo e começar de novo, sem os erros do passado.
 Ótimo, diz a prefeita da época, vamos desapropriar essa área e vamos construir a nova cidade. Todos ficam felizes com sua determinação. O Governador vai até lá de helicóptero, abraça e beija as criancinhas e diz que vai mandar dinheiro. O Ministro também prometeu liberar as burras da administração federal pra salvar a cidade submersa.
Mas, há empecilhos: alguns proprietários querem se livrar logo de suas terras, outros elevam o preço até as alturas. O dinheiro não chega, não chega, e, quando chega, é um terço do dinheiro inicialmente previsto. Há que se fazer licitações para construção das ruas e das casas. As licitações são lentas, pois desde o inicio do século pioraram muito as leis de licitação para evitar a corrupção politica. Somente empresas marcianas de ilibada reputação se candidatam.
Onde vão ser as casas? Quem vai ter acesso a elas?  Nesse momento, a elite da cidade, que ninguém achava que existia, toma a frente e requer os melhores lugares. Depois, a classe média e, por fim, o povão ocupa o que sobrou, ou seja, alto de morro, beira de rio, locais de mangue. O terreno todo é ocupado, alguns proprietários são indenizados, de preferencia os amigos da prefeita ou do deputado amigo da prefeita. Os outros que se virem. A oposição reclama, os blogs reclamam, mas a caravana passa. A nova Antonina inicia as obras de sua refundação.
Quando os operários executam a primeira sondagem, um cheiro ruim invade a área. Mulheres desmaiam, crianças choram, e um cheiro de ovo podre toma conta do ar. Um velhinho bem velhinho se lembra de que era ali, naquele lugar, que no século XX e começo do XXI onde os capelistas jogavam seu lixo. O terreno mole começa a afundar, engolindo a super-escavadeira recém-comprada pela prefeitura, tragada pelo solo colapsível do lixão, ops! Aterro Sanitário.
Em meio ao caos que se forma, alguém pergunta pra prefeita o que fazer. Atarantada, como todos por ali, a alcaidessa olha em redor e grita: “vamos pra Morretes! Eu já moro lá e é pra lá que nós vamos!” A multidão começa a pegar suas tralhas e uma longa peregrinação começa pela estrada do Sapitanduva em direção à terra de Rocha Pombo. Os anônimos dos blogs não vão ter mais do que reclamar, pois alcançamos finalmente Morretes, a perfeição na Terra. Lá não jorra leite e mel, mas é mais limpinha, organizada e tem emprego nos restaurantes. Que não haja medo do futuro nem saudade do passado: ao virar a última curva, onde ainda se avistam as ruínas de uma antiga cidade deitada embaixo do mar, que ninguém olhe para trás, por via das dúvidas. 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

MONSTRUMENTOS


Mais um grande monumento da Deitada-a-beira-do-mar, os urubus do mercado, clicados por Eduardo Bó

Durante as discussões que houve semana passada na blogosfera por conta da minha crônica “Munira e o Óbvio ululante”, uma coisa me chamou a atenção – mas não, não se trata de política ou eleições. Trata-se, isso sim, dos monumentos da Praça Romildo Gonçalves Pereira, a popular Feira-mar. Colocados ali na gestão de Leopoldino Abreu ou de Pereirinha, tanto o Monumento à Bíblia quanto o “barco adernado” sempre foram motivo de muita reclamação, tanto dos bagrinhos quanto dos turistas. Tanto que, no calor da discussão da semana passada, meu amigo Masca chamou-os de monstrumentos, um excelente neologismo para este tipo de obra.
Curitiba também tem vários desses monstrumentos. O mais famoso e, de longe, o mais popular, é a estátua do papa João Paulo II no Bosque do Papa. Não há quem não sinta algo estranho ao contemplar a estatua do falecido pontífice. Todos acham a estátua feia ou estranha, e alguns até veem um olhar diabólico no que era pra ser a representação de um papa que nem esfriou na cova e já é beato. Outro famoso monstrumento curitibano é o “Cavalo Babão” do Largo da Ordem, mais uma das muitas esquisitices da gestão de Rafael Waldomiro, o Greca de Macedo.
O Monumento À Bíblia é banal do ponto de vista artístico. Já o Barco Adernado é artisticamente bem elaborado, e foi feito por uma artista plástica curitibana, não me lembro do seu nome agora. Imagino que seja mais fácil para as pessoas se sentirem a vontade com o monumento à Bíblia do que com o Barco. Como toda obra de arte moderna (Valei-me São Geraldo Leão e São Bó!), a sua significação não vem pronta – o espectador é que tem que construir a sua. Você olhar um quadro cheio de rabiscos e achar uma coerência ali é diferente – e mais difícil – que achar a coerência de uma Mona Lisa, onde os significados estão mais evidentes.
O problema com os monumentos é que você tem que sentir identidade com eles. Qualquer um que olhe a Torre Eiffel faz mentalmente várias associações com França, franceses, Paris. Estatua da Liberdade, Nova York. Os porto-alegrenses se orgulham da estátua do Laçador, que fica na entrada da cidade. Nós, brasileiros, nos sentimos bem quando vemos as formas de Brasília, o Cristo Redentor, o Corcovado. Eles, os monumentos, falam de nós para nós mesmos, nos dão uma identidade.  Esse é o seu papel e o seu charme.
Em nosso caso, tanto o Barco Adernado quanto o Monumento à Bíblia são coisas que não dizem nada para as pessoas. O monumento à Bíblia porque é feio esteticamente, sem nenhuma conotação religiosa – ou não – nesse meu achar. O Barco Adernado eu acho bonito, mas reconheço que não tem nada a ver com as pessoas que vivem e passam todo dia por ali. Não dizem nada e – para os mais apressados - ainda ocupam espaço. Os dois são exemplos de Monstrumentos.
Monstruments são gerados quando a municipalidade tem dinheiro em caixa e não sabe como gastar. Nessas condições, ela faz qualquer coisa, mesmo coisas bonitas, mas coisas que não dizem nada, que não dialogam com a cidade ao seu redor. Às vezes dá certo, noutras o sonho da razão produz monstrumentos, parafraseando o célebre quadro de Goya, pintor espanhol do século XIX.
Por outro lado, qual o monumento, natural ou artificial, que fala ao coração da Deitada-a-beira-do-mar? Qual seria o monumento que nos une e nos representa, qual seria  a nossa Torre Eiffel? Seria a Igreja na colina, o mais óbvio deles? Seria a Fonte da Carioca? A Fonte do Batel? A igreja de Bom Jesus do Saivá? O Conjunto da Obra, ou seja, o conjunto mar, morro, mangues e cidade? Qual é a sua opinião, nobre leitor desse humilde blog?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

MUNIRA E O ÓBVIO ULULANTE


Existem coisas que não se pode deixar de ver, de tão evidentes. Diz uma lenda carioca que o jornalista Otto Lara Rezende, distraído que era, nunca tinha percebido o Pão de Açúcar - certo dia quando o viu, espantou-se. Seu amigo Nelson Rodrigues, para tirar uma com o espanto de Otto com algo tão óbvio, criou um famoso personagem, o óbvio ululante.
Uma coisa muito evidente, na politica de Deitada-a-beira-do-mar, nos últimos vinte e poucos anos, é a força eleitoral de Munira Peluso, a Mônica. Olhando o quadro abaixo, é impossível não deixar de perceber suas votações, como o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Desde que aqui chegou, vinda de onde eu não sei, Munira foi desses forasteiros que logo entram nas graças dos conterrâneos de Valle Porto. Na sua primeira eleição foi eleita vice-prefeita, na chapa de Leopoldino Abreu, com 2706 votos, ou 31% do total de eleitores. Na eleição seguinte, em 1992, Munira ficou em segundo lugar, com 2038 votos ou 25% do total, com óbvia transferência de votos de seu antecessor.
Em 1996 acabou por ser eleita com 3046 votos, 31% do total. Com a mudança na legislação que permitiu a reeleição – manobra safada do ex-presidente Fernando Henrique, aliás – Munira foi reeleita quatro anos depois com 5298 votos, ou 49,51% do total. Ou seja, neste período ela consolidou uma grande força eleitoral que acabou por transmitir em 2004 para seu sucessor, meu amigo Kleber. Nas eleições de 2008, no entanto, ela e Kleber dividiram sua base eleitoral, o que permitiu a vitória de Canduca e sua campanha paz-e-amor. Canduca, na verdade, obteve menos votos na sua eleição em 2008 que os votos que obteve em 2004, quando ficou em segundo. Munira, por outro lado, cravou 3169 votos, ou 25% do total, uma votação nada desprezível.
Não a conheço pessoalmente. O que sei é que sua gestão na prefeitura foi fortemente marcada por uma politica assistencialista das mais deslavadas. O nepotismo foi outra característica tristemente marcante de sua passagem pelo Palácio da rua XV. Navegando numa conjuntura favorável, na qual o porto funcionou mais ou menos e o Terminal da Ponta do Félix começou a funcionar, as coisas até que andaram na Deitada-a-beira-do-mar. Por outro lado, foi uma administração pouco preocupada com arte e cultura, medíocre até, tanto que os carnavais em sua gestão foram os mais pobres e mais mal preparados que cheguei a ver na Avenida do samba.
clique na imagem para ampliar

Apesar de ameaçada não sair candidata por estar enquadrada na lei da ficha limpa, Munira tem cativo cerca de um terço a um quarto dos votos capelistas. É um cacife imenso, e todos os políticos da cidade cortejam a “Mãe dos pobres”. Como a musa do populismo tardio, Munira Peluso encena seu jogo no papel da mãezona que socorre os despossuídos. Mas a ex-prefeita não é madre Teresa de Calcutá, ela claramente se beneficia desta miséria que sua politica só ameniza. Amansa as massas, dóceis, e vai colher seus frutos de quatro em quatro anos. Bom, não? Para Antonina, não é suficiente. Distribuir cestas básicas entre a população carente não faz um povo melhorar seu nível de vida nem aumenta sua qualificação, tão necessária na hora de conseguir um bom emprego nos tempos que correm.
É um óbvio ululante dizer que o populismo assistencialista à la Munira é uma cruel armadilha para a qual as pessoas mais carentes frequentemente são empurradas. Pra mudar situações de carência material e intelectual é preciso políticas sérias, de longo prazo, mais educação, uma gestão municipal mais profissional – sem xoques de jestão, claro está. Alguém vai dizer que estou sonhando ao pedir isso pra Antonina. Ao realismo pessimista dos que dizem que é impossível, acho que não custa sonhar mais alto e pensar mais alto. É preferível ser um sonhador de olhos abertos que compactuar com a politiquinha de aldeia, com a mediocridade e a mesmice de um novo governo de Munira Peluso.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

BAGRES E ROTULOS


Na crônica anterior, eu comentei a falácia de que o Meio Ambiente é responsável pelo desemprego urbi et orbi, ou seja, em Antonina e no mundo. Falácia, segundo os dicionários, é  “argumentação enganosa com aparência de verdadeira”. Consultem a wikipédia.
A gente muitas vezes tende a rotular, como uma necessidade social. Aquele sujeito é “o velho da rua de cima”, “o cara do caminhão de verdura”, “a gostosa da padaria”. Com isso, evitamos ter que acessar desnecessariamente o disco rígido com informações sobre o velho da rua de cima, identificando-o como o Sr. Aderbal Pimenta, de 69 anos, casado com dona Tereza, pai da Solange e do Marcos, metalúrgico aposentado, que fez uma operação de catarata no hospital São Clemente na semana passada. Esse é o velho da rua de cima sem o rótulo. Deixo o cara do caminhão de verdura e a gostosa da padaria pra imaginação de vocês.
Rotulamos por simplificação. O “japonês”, o “gringo”, o “burguês filho da puta”, o “mauricinho” e a “patricinha”, o “ecologista xiita” são alguns rótulos que acabamos pregando nas pessoas com as quais não temos contato, ou nosso contato é superficial. O primo Alexandre pode ser um ecologista xiita, mas sabemos dele que também gosta de repolho, que torce pro Paraná clube (coitado!), que fez Biologia na Federal e ganha um salario de fome na ONG de preservação das baleias e que, afinal das contas, é um bom sujeito. Ou seja, quanto mais conhecemos a pessoa menos usamos rótulos para julga-la.
Escrevo isso porque às vezes vejo umas manifestações – sempre anônimas, por certo – na nossa capelista blogosfera que me preocupam. Uma delas é rotular as pessoas que trabalham com meio ambiente: ecochato, xiita e outros. Por desconhecimento, atribuem-se aos ambientalistas posições que estes, ao menos publicamente, nunca tiveram. Ninguém que eu saiba, é contra a dragagem do porto. A ADEMADAN, inclusive, colabora com ideias e pesquisas para melhorar as condições ambientais do porto (veja aqui).
Por outro lado, quando se quer recuperar os impactos ambientais das grandes obras realizadas antes das leis ambientais, como foi o caso dos royalties da Capivari-Cachoeira, o que aconteceu? Em vez de haver uma ação só, numa patetada histórica, algumas pessoas, entre elas alguns vereadores, partiram para constituir uma leva de ações individuais. Comentei isso aqui no meu blog. Ou seja, quando o meio ambiente envolve dinheiro, todos querem o lucro privado, em vez de uma grande ação comum que beneficie a todos. No fim da história, os royalties da usina, que é a maior responsável pelo assoreamento recente da baia, conforme apontam alguns trabalhos científicos (ver aqui) ficou reduzida a uma triste corrida pela farinha pouca.
Ou seja, quando o cara é contra meus interesses, ele é o chato, o xiita, o fidaputa. Quando ele vai em busca de interesses coletivos (ou difusos, segundo a constituição) ele é um pateta: o negócio é ir atrás do dindim privado. E que se dane o assoreamento da baia. Quando vem alguma noticia que isso prejudica o porto, parece que só estas pessoas são a favor do desassoreamento. No entanto só se lembram do assoreamento quando diminui a carga de trabalho no porto. No resto, vão tomar cerveja na feira-mar e nem enxergam aqueles bancos de areia que se acumularam ali depois da construção da usina e que hoje já são ilhas. Difícil, difícil. Ainda mais quando ninguém dá a cara a tapa e vão todos covardemente se esconder no malcheiroso edredom do anonimato. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ASSIM É, SE LHE PARECE


um prato típico da culinária napolitana da Baia de Antonini, o  "Cozze com Farina"  faz sucesso em toda a Bota. Mamma mia!


Volta e meia eu me iludo com algumas certezas, como as couves na minha horta. Cercado delas, me sinto seguro e tranquilo. Minha única preocupação é rega-las para que cresçam fortes e sadias e impedir que as malditas borboletas brancas depositem seus ovos nas folhas. Um descuido e é fatal: as tais das lagartas nascem e começam a roer as folhas de certeza, perdão, as de couve, e em breve nada mais terei do que antes tinha. Sozinho, na chuva, sem um talo de couve pra roer.
Talvez por já ter muito plantado couves na vida (não tudo o que deveria, é verdade), eu desconfio das certezas. Por isso, talvez, pareça tão quieto e pensativo cuidando de minhas couves e lagartas. Lembro-me de uma peça de teatro do italiano Luigi Pirandello, que pus no título desta crônica: “Assim é, se lhe parece”. Em sua peça, como na vida, o autor fala da relatividade da verdade, e como o que é verdade pra um não é para outro – e vice versa, como diria meu recém-falecido guru Millôr Fernandes.
Nesse espinhoso assunto que trata de problemas de meio ambiente, tão minado de paixões que é, temos que ir tocando o barco devagar, como o velho marinheiro do samba de Paulinho da Viola. Às vezes, as coisas não são exatamente o que parecem ser, mas exatamente o seu contrário. Argumentos esgrimidos de parte a parte, muitas vezes, não passam de meros argumentos, onde certamente não está a verdade, mas sim uma boa e consistente oratória.
Os que defendem o desenvolvimento não cessam de argumentar que as preocupações ambientais dificultam a criação de empregos. No caso da Deitada-a-beira-do-mar, isso é sempre um bom argumento, que sempre arrebata muitos corações. No entanto, cabem reparos. O grande problema não é a falta de emprego, mas a falta de qualificação. Já vivi este problema ao contratar pessoas, quando trabalhava na indústria. Hoje, um peão precisa estudar pelo menos até o nono ano pra ter qualificação. O que ocorre é que os supermercados de Curitiba descobriram isso e Antonina passou a ser uma mera cidade-dormitório, fornecendo a mão-de-obra pouco qualificada (leia-se barata) que na capital não se encontra mais.
Se Antonina não tem gente qualificada, não adianta vir indústrias de ponta, que são as menos poluidoras. As indústrias que nós atraímos são as que os outros não querem. Como a população de São Joãozinho Feliz, que não quer o Lixão (ops, Aterro sanitário!) por perto, mas não tem força pra impedir, Antonina atrai indústrias que outros lugares não querem. E que vem atrás de nossa mão-de-obra barata, não se iludam.
Por ironia, um dos maiores empregadores privados da cidade é a SPVS, que tem numerosas áreas de preservação dentro do município e diversos projetos de educação ambiental. Pode-se discordar de ações da SPVS, mas ninguém em sã consciência rejeita os impostos que ela paga ao município. Ou seja, o meio ambiente também dá empregos. Hoje, não num hipotético futuro.
Nosso problema é educação (mais) e cidadania (melhor), não o “meio ambiente, que atrapalha a gente”. Nós fazemos o nosso meio ambiente melhor com educação e bom senso, sem roubar o que é de direito das futuras gerações. Eu bem que queria que meus (futuros) netos tomem banho na Ponta da Pita sem pegar micoses e outras perebas, um direito que eu tive e meus filhos não tiveram. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

ENTRE FLAMENGO E CORINTHIANS


Um grande sucesso da culinaria inglesa de Devonshire, Leicestershire  e Graciosadebaixoshire:   mussel  with  cassava  flour
Alguém aí estes dias comparou Antonina com o Flamengo: todo mundo gosta, mas nunca dá certo. Mas há também a comparação com o Corinthians: a coisa até que vai, mas sempre mascada, difícil, sofrida, “com muita emoção”. Acompanhei, com interesse, os debates sobre a alteração do plano diretor da Deitada-a-beira-do-mar. Entre as idas e vindas, entendi que a prefeitura ia passando a coisa meio goela abaixo, com o beneplácito da Câmara de Vereadores e que atualmente, há uma ordem judicial impedindo alterações no dito Plano.
Lembro de que, nos anos 80, mais precisamente em 1986, houve a tentativa de instalar uma fabrica de dióxido de Titânio em nossa formosa baia.  De um lado houve quem saudasse a altamente perigosa instalação com a geração de empregos. Do outro, levantou-se um grande clamor popular, que envolveu até os pescadores artesanais, dizendo que Antonina não queria ser uma “Nova Chernobil”. Um grande exagero e uma clara manipulação, por certo. Mas chamou atenção dos meios de comunicação da época: uma cidade em profunda crise econômica que resistia à industrialização tendo como bandeira a defesa do meio ambiente. Bichos raros. Deu no Fantástico e no Globo Repórter, que fez uma bela entrevista com  a querida professora Iza Maria Azim, mãe de meu amigo Zé Paulo, hoje Secretario Municipal de Saúde.
Ou seja, a coisa não vem de hoje. Sempre que um novo estabelecimento industrial bate as portas da cidade, a cidade quer saber sim, o que tem por trás. É bom, é correto e faz bem à saúde. No entanto, é bom que se saiba, esse dilema entre meio ambiente e desenvolvimento é um falso dilema. Eu acredito que pode haver uma solução – e um compromisso – entre os dois termos da equação, que alguns acham incompatível. Acredito firmemente que, entre o ecochato mais chato e o desenvolvimentista mais burro (ou mal intencionado) há um sem-fim de pessoas sensatas que podem trazer solucionática às nossas velhas problemáticas, como diria o nosso filósofo Dadá Maravilha. Ele que, aliás, à frente de seu tempo, sempre combinava a tecnologia do helicóptero com a leveza do beija-flor em seus gols memoráveis.
Podemos fabricar pregos, transportar fertilizantes, lavrar minério de ferro, criar camarões e software, e tudo com impactos ambientais que possam ser minimizados por técnicas adequadas. Basta querer e ter transparência. Se os cidadãos confiam na indústria que tem ao lado de suas casas, e se os gerentes forem responsáveis o suficiente, se tiver uma imprensa séria e responsável, o equilíbrio entre estes interesses poderá trazer bons resultados ao entorno e ao meio ambiente, ainda por cima gerando empregos. Claro que não é um equilíbrio fácil. É coisa dura, o cidadão tem que estar todo o tempo alerta, reclamando, fiscalizando. O poder público, claro está, não pode ser conivente com os interesses privados. Tem que ser convivente com os interesses públicos, pois pra isso foi eleito.
Antonina é um lugar de muitas belezas, que encantam a gente que aí chega. Tem um povo maravilhoso e acolhedor. Tem bons atracadouros, embora os esteja perdendo para o assoreamento da baia há décadas. Mas também tem um sentimento de autocomiseração, que o nosso Paulo “Metido pra cacete” Cequinel, muito apropriadamente comentou esses dias, que é caso pra Freud, pra Jung e pra Pai Zinho de Obatalá, tudo junto e misturado. Antonina não é Parati, a mais bela cidade, nem Santos, o mais movimentado porto, é só a bela e pacata Antonina, que é uma bela cidade à beira mar que tem um porto. Entre a perseguição de Paranaguá e a inveja de Morretes caminha o ego capelista, choroso e lamuriento. Menos, menos.
Tirante isso, tanto a cidade como o povo de Antonina já sabe isso de gerações, que é preciso ter discussão e transparência sobre estas indústrias que chegam. Os industriais, por outro lado, tem que saber também cativar corações e mentes dos eleitores, e não o bolso de prefeitos e vereadores. Ninguém nega um bom projeto, feito com lisura e que todos podem ganhar com isso. Simples, eficaz e eficiente como uma falta batida pelo Paulo Baier, nosso ex-jogador em atividade.
É possível conciliar Meio Ambiente e Desenvolvimento, esse é meu pensamento. Não podemos é nos encastelar em posições inconciliáveis, sem espaço para o dialogo, a discussão e o consenso. Por quem os sinos dobram em Antonina? Espero que pelas futuras gerações, com emprego, renda, e, também qualidade de vida e um meio ambiente equilibrado.