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segunda-feira, 10 de maio de 2021

A MORTE DANÇA NA RUA

                                                                                                   https://bit.ly/3tCT7G


       E enfim é chegado o tempo em que ela, que sempre esteve entre nós, não nos espera mais na saída de casa, nos banheiros públicos, nos caminhos para as matas. Ela já não tem mais a antiga pressa, embora esteja trabalhando como nunca. Funcionária zelosa e dedicada, ela agora dança alegremente nas ruas, entra em nossas casas, toma caipirinha nas festas de domingo.

A morte dança na rua. Nós não conseguimos enxergar os vírus com a vista desarmada. As pessoas contaminadas não têm bubões da peste, não tem diarreias abundantes. Portanto, concluem alguns, não existe essa tal pandemia, embora estejamos há tanto tempo escondidos em casa, lavando obsessivamente as mãos com álcool gel e usando máscaras. Contra todos os esforços, as vacinas, as medidas sanitárias, ela, a morte, gargalha e zomba de nós na frente de nossas casas.

A morte dança na rua, toma ônibus lotados, participa de cultos ruidosos e ri, fumando um cigarrinho com os peões de máscara no queixo, na roda de conversa do fim do trabalho. Mas a morte também frequenta festas e barzinhos da moda, a morte se preocupa com a saúde e frequenta academia cheias de gente entediada e marombada.

Como num quadro de Brueguel, o que vemos são pequenos demônios confraternizado em nossas ruas semivazias. Alguns desses passeiam de carros caros e engalanados de verdeamarelo para saudá-la, a ela, a desenganada das gentes. A morte sorri seu riso sem dentes, encabulada. Sim, parece que até para ela tais demonstrações de apoio são demasiadas, desnecessárias, pouco pudicas. Mas o carnaval dos pequenos demônios segue por nossas ruas, numa alegre carreata que parece não ter fim, nem senso.

A morte entra desabusada pelos palácios. Lá, senta-se na mesa de reuniões cercada de homens sérios e cheios de assuntos importantes, dá ordens e anda sem ser molestada pelos corredores do poder. A morte passeia entre os comensais dos banquetes, feliz e esvoaçante, contando aqui e ali doces piadas macabras. E nosso PIB, ali presente, ri, porque eles riem à toa.  

A morte zomba de nós, e vai ceifando vidas. Antes era o conhecido do conhecido, agora o próximo, o distante, o amigo, o ente querido. Famílias inteiras dão um tributo amargo à morte, que dança nas ruas e nas praças, dança feliz e sem máscara numa cidade semivazia.

As mortes ocorrem solitariamente, dentro das casas ou nos hospitais lotados. O paciente, entubado sem sedativos e amarrado para não se soltar, sofre seu calvário moderno no escondido das UTIs. O desespero de comprar oxigênio passa longe, nas telas da televisão. Diante de tanta dor, declaramos que estamos cansados, que temos direito a um pouco de descanso e sossego, que temos direito a escapar dali, mas pra onde, meu Deus? Pra Praia? Pro Sertão?

O céu de maio está azul e amplo, passarinhos cantam e procuram comida, mas nosso mundo está fechado, tomado por uma imensa bruma verde e amarela, sulfurosa e pútrida. Não há mais pátria, não há mais senso de unidade. A morte nos unifica, nos agrega, nos seduz.  Vacina pouca, meu pirão primeiro, antes ele do que eu. O presidente ri e conta piadas de nosso desespero em miseráveis shows de televisão.

O tempo está congelado, não há futuro, só este amargo presente. Nele, a morte ri e dança nas ruas, numa festa sem fim, num pesadelo sem direito a acordar.

sábado, 4 de abril de 2020

QUANTO VALE UMA VIDA?


peguei daqui


A pandemia/epidemia de coronavírus que estamos vivendo não pode mais ser relativizada. Precisamente na última quinta-feira, 2 de abril, o número de mortos pelo coronavírus (299 vítimas) ultrapassou o número de mortes no desastre do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, 272 pessoas. Quantas Brumadinhos cabem nesta nova tragédia?

A pergunta que muito se fez, e a única a qual não se deveria fazer, é: Quanto vale uma vida? Entre pasmos e boquiabertos, estamos vendo raciocínios completamente estapafúrdios sendo feitos nas nossas fuças: quantas vidas seria necessário sacrificar para manter a sociedade, leia-se economia, funcionando? 

O empresariado bolsonarista não se cansa de fazer esta proposição. “Por causa de cinco mil, sete mil vidas” não se deveria parar a economia. O próprio “mito” faz raciocínio idêntico: “morreu, lamento”, diz o ex-militar, que não parece se incomodar com baixas que seus governados vêm sofrendo. Parece que nem ficam ruborizados. Como tantos já apontaram, vivemos tempo em que ficou “natural” falar estas barbaridades.  

As barbaridades são ditas em ambientes limpinhos e requintados, com empresários falando serenamente aos microfones coisas igualmente sensatas e razoáveis. A empatia evapora-se como álcool gel. Não há aqui ogeneral franquista gritando “Viva la muerte!”. Não há imagens de Hitler e Goebbels defendendo a “Solução Final”. Mas também é Necropolítica. Na veia.

Frente a raciocínios tão sofisticados, seria justo perguntar: quais seriam estas vidas que se pode abrir mão? Quem são as buchas de canhão da nova pandemia? Por certo não seriam as suas próprias, nem de seus familiares. Seria, é claro, a vida do outro, do distante, do pobre, do negro, do imigrante, do idoso. A morte das pessoas invisíveis não faz corar ao empresariado liberal. 

Há também os que se refugiam na aparente neutralidade dos números. No início de março várias pessoas relativizavam a pandemia dizendo que o número de mortos seria pequeno, por causa da “baixa letalidade” da nova doença. No entanto, a escalada de disseminação da doença e as mortes associadas mostra outra realidade. Quanto dá 2,5% de 210 milhões? Quem vai pagar essa conta?

Alguns outros argumentam: por que ligar para um número tão pequeno de mortes, se o trânsito mata mais? Se fumantes morrem mais?

É o mesmo problema que temos para comparar um acidente de avião com os acidentes de carro. Um acidente de avião instantaneamente mata centenas de pessoas. Já os acidentes de trânsito são menores e mais espaçados no tempo. 

A morte concentrada e trágica destes eventos é mais impressionante pelo volume e intensidade. Por isso os acidentes de avião chocam mais que as milhares mortes do trânsito. 

(Isso não quer dizer que os acidentes de trânsito não sejam um problema. Obvio que são. Entretanto, a solução dada pelo atual desgoverno é uma chocante flexibilização das regras de trânsito. Especialistas são unânimes em dizer que as medidas tomadas pelo “mito” aumentam a insegurança e, por consequência, o número de mortes.)

Não estamos mais nas “pestes” do passado, onde se acreditava que as mortes eram causadas pela ira divina. Temos uma sociedade tecnológica que pode (e está) respondendo rapidamente aos fatos verificados durante a dispersão da pandemia do coronavírus. 

Entretanto, vivemos, particularmente em nosso país, uma forma perversa de pensar e agir, que tende a sacrificar os mais pobres e vulneráveis em nome de uma pretensa racionalidade dos negócios. No entanto, vida e economia não se separam. Quanto mais pessoas expostas, maior será a mortalidade. 

Quando a escalada de mortes começar, nas próximas semanas, o impacto na vida e no funcionamento dos hospitais e serviços funerários vão cobrar seu preço. E isso traz consequências sociais e políticas impossíveis de prever.

terça-feira, 24 de março de 2020

NÃO É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!


Caminhões do exercito italiano carregando caixões de vitimas do coronavírus

No meio de uma situação de tragédia, ninguém pensa em dinheiro. 

Estive em várias situações de desastre. Nestas situações, a última coisa que você pensa é dinheiro. Pessoas estão morrendo, pessoas vão morrer, pessoas estão em luto e em situação de estresse psicológico. Muitos perderam tudo. E você ali, no meio daquilo tudo. Qual é a medida a tomar?

“Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, teria dito o Marques de Pombal a um atônito Dom João, rei de Portugal, quando este lhe perguntou o que fazer imediatamente após o Grande Terremoto de Lisboa, em 1755. 

Hoje, com o mundo todo em meio a esta brutal pandemia causada pelo coronavírus, esta é a questão: como enfrentar esta pandemia com o menor número de mortos? 

Entretanto, esta é uma crise sui generis. Estamos em casa, e podemos assistir as notícias que vem de longe. Podemos ter acesso a vídeos, lives e documentários. Podemos conversar com todos os nossos parentes amigos e colegas pelo whatsapp. Não fosse a anormalidade, parece que está tudo normal.

Mas não está. A falta de conhecimento das pessoas sobre o que é um vírus acaba levando a inúmeras ações inseguras. Uma pessoa aqui contamina a outra ali e a pandemia vai se espalhando a uma velocidade quase supersônica. 

Um vírus é muito pequeno, não conseguimos enxergá-lo. Parece mesmo que não está ali. Por isso, para a maioria das pessoas, parece que a pandemia não existe. O desfile de caixões nas ruas de Bergamo na Itália, não comovem ninguém aqui, do outro lado do mundo, também com muitos problemas a resolver. 

Esta falta de empatia, no entanto, é também viral. Pessoas enchem a boca pra subestimar “o tal do coronga”. É uma gripezinha, dizem uns. É uma histeria, uma crise à toa, dizem outros. 

Entretanto, as piores são as falas que fazem pouco caso da tragédia, tendo com o contraponto as vidas das pessoas. “Morre um aqui, outro ali pelas complicações, fazer o quê?”, disse em entrevista na semana passada aquele que não mais nos governa. 

Os empresários que estão apoiando a necropolítica da atual gestão também se fazem ouvir em alto e bom som: Um empresário do entretenimento faz coro ao necro-presidente, dizendo que "12 mil mortes em 7 bilhões de habitantes é muito pouco pra criar essa histeria coletiva”. 

A crise econômica que se avizinha por causa dos cuidados com a pandemia também é criticada por estes empresários. Um empresário do ramo alimentício diz que “não podemos [parar a economia] por conta de 5 mil pessoas que vão morrer”. 

Por obvio que estas tantas mortes, na cabeça dos empresários, não são de parentes seus, nem de entes queridos. São da “tigrada”. São números num gráfico de barras do Excel. São corpos amontoados carregados por carroças, como nas antigas ilustrações da Peste Negra, ou da procissão de caminhões carregando caixões anônimos de vítimas anônimas vista pela televisão ou na internet. 

Quanto vale uma vida, uma só?

Essa é a questão que temos que resolver como sociedade. Estamos com uma emergência muito grande, pois temos muitas pessoas vulneráveis, que podem morrer pelo vírus. E temos muitas pessoas vulneráveis que podem morrer de fome, pela asfixia econômica que o confinamento vai criar. O que fazer?

Como disse ontem a economista Monica de Bolle, neste momento eu não perguntaria isso para um economista, eu perguntaria primeiro para um infectologista. 

Existem diversas formas de fazer com que medidas de prevenção contra o coronavirus e medidas de apoio social possam vigorar juntas sem promover o caos. Tem muita gente pensando e propondo coisas interessantese factíveis. Existem governos executando políticas deste tipo. 

Quanto vale vinte mil dólares no bolso dentro do Titanic adernando? A economia não é tudo. 

Vidas são mais. 

sábado, 24 de agosto de 2019

A AMAZONIA E A IRRESPONSABLIDADE DO GOVERNO BOLSONARO


O tuite de Macron: ontem, como hoje, a Amazonia está em chamas: qual a diferença?
Vivemos mesmo numa época muito estranha.
Esta semana, que começou com as nuvens negras escurecendo o céu do sudeste do Brasil, assustando a todos com as queimadas na Amazônia, terminou com o governo Bolsonaro acuado e desdizendo-se frente a ameaça internacional.
A tragédia continua se desenrolando, agora em tom de drama, com pinceladas de farsa. Com a reação internacional se avolumando, Bolsonaro faz mais do mesmo. Como o moleque de 12 anos que continua sendo, não levou desaforo pra casa. Se o xingam, ele devolve: “é a tua!”. Assim, protagonizou nestas últimas semanas diversos bate-bocas sobre temas ambientais com representantes de diversos países, sobretudo europeus.
O filhinho, candidato a ser diplomata, seguiu o papai, compartilhando um tuite que chamava o presidente da França de "idiota". “É a tua! Mexeu com papai, mexeu comigo!”. Depois, diante de vozes que o chamavam a razão, dizendo ser sua atitude incompatível com a de um pretendente a cargo de diplomata, ele recuou, como sempre faz o papi. Não, não foi bem assim, não quis dizer isso...
Assisti diversas manifestações da formadores de opinião na imprensa brasileira. Da esgotosfera das redes socais nem falo, por pudor. Outrossim, como diz um importante influencer moderno, é incrível ver as piruetas que os setores conservadores que ainda apoiam Bolsonaro fazem para contornar a caca que foi criada. 
A imprensa alinhada a Bolsonaro passou o dia reclamando da imagem antiga da foto que Macron colocou em seu tuite. Como que se para redimir da foto de dinamarqueses matando baleias que dias antes estava o próprio Jair  atribuindo a noruegueses. Ela, a imprensa bolsonarista, repetiu as platitudes sobre o alto grau de preservação das florestas do Brasil e atacando a mídia “globalista”. Citam estatísticas as mais variadas para provar que o repique da destruição da floresta não é tão grande assim.
Para começar: está certíssima Marina Silva, ao dizer que sempre houve desmatamento e queimada na Amazônia. Não é disso que se trata. O problema, e concordo com ela, é que estamos no limiar de um recrudescimento das ameaças a florestas, com o apoio nada velado do poder público.
Não vai ter nenhum vídeo de Jair botando fogo na mata, como um Nero caipira.
Entretanto, em abril deste ano, a pedido do presidente, o governo proibiu de queimar as maquinas apreendidas aos madeireiros pelos funcionários do IBAMA em Rondônia. Ao contrário, o próprio ministro do meio ambiente, o condenado por crimes ambientais Ricardo Salles, se reuniu com madeireiros para dar garantias de que o governo ia relativizar as apreensões, dando a certeza de sua impunidade.
O fiscal do IBAMA que multou Bolsonaro em 2012 foi afastado de suas funções e a multa que ele aplicou ao então deputado foi cancelada, para escárnio da lei.
O desmantelamento do aparato fiscalizatório desde janeiro é obvio. As falas e ações de Ricardo Salles no sentido de desmontar os órgãos de fiscalização e não punir crimes ambientais é patente. Sua determinação de “compensar”ruralistas com o dinheiro do fundo Amazônia provocou o colapso que se viu, até que os governos de Alemanha e Noruega retiraram seus repasses.
Quando o INPE informou que o desmatamento estava aumentando, o que o governo faz? Desmente e desacredita os dados. O presidente do INPE, Ricardo Galvão, defende a integridade dos dados do Instituto, e é demitido.
São tantos os sinais que, mesmo não dizendo, é fácil concluir que foi o próprio governo que incentivou o fogo na mata. O agora famoso jornal da cidade de Novo Progresso, no Pará, reclama do descaso governamental e clama ao presidente solução para os problemas dos fazendeiros. Numa terra sem lei, com os fiscais manietados e amordaçados, e sem os soldados da Força Nacional que os amparasse, os fazendeiros se sentiram livres para promover o criminoso “dia do fogo”, em 10 de agosto último. As chamas das queimadas foram detectadas pelos satélites de todo o mundo.
Com a "segunda feira negra" no Sudeste, a grita aumentou. São Paulo começou a entender o que acontecia com Boa Vista. O fogo e as queimadas ardiam no coração do continente, atingindo não só o Brasil, mas também Paraguai e Bolívia.
O governo faz de conta que não é com ele. “Sensacionalismo”,rebateu Ricardo Salles. No meio de seu terraplanismo mental, Jair acusou as ONGs de colocar fogo para incriminar o governo. “Perderam milhões, e agora podem estar se vingando”, disse aos jornalistas.
Foi quando o mundo se postou frente a ameaça que o governo acusou o golpe. Depois de bater boca com Macron, Bolsonaro teve que fazer um pronunciamento em rede pública de televisão para se explicar. E levar seu primeiro grande panelaço nacional. Nervoso ao ler o teleprompter (ele tem problemas cognitivos para fazê-lo, como se sabe), foi cômico ver Jair defendendo a "froresta" amazônica, a Lei Ambiental brasileira (“uma das mais avançadas do Mundo”, disse ele, com a boca contraída), acusando o clima seco da estação com culpado e fazendo uma defesa pífia e nacionalisteira de uma região que meses antes ele quase oferecera de graça à Donald Trump.
A única coisa de concreto, e a única coisa que sabe fazer, foi enviar o exército para a região (onde, exatamente?) numa operação de garantia da lei e da ordem. Melhor seria se estivesse enviando bombeiros...
Enquanto isso, a Amazônia continua ardendo. Os conflitos estão todos lá, com um governo reclamando do fogo (literal e metafórico) que ele mesmo ajudou a atear. A conta da irresponsabilidade mais cedo ou mais tarde, vai chegar para todos nós, brasileiros. 
Quais os planos para sair dessa enrascada? Ajuda aí, Adélio!!
[agora, é só esperar os bots (virtuais e de carne e osso) que vão vir desqualificar algum dado ou alguém]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A ESCURIDÃO AVANÇA (E TEM GENTE QUE NÃO QUER VER)


https://glo.bo/2MpalWZ
Está escuro lá fora. O dia passou assim, com muito vento e nebulosidade. Tudo escuro. O sol mal apareceu hoje de manhã. Por um instante eu o confundi com a Lua, mas não! Era ele, o sol, tentando escapar por entre as nuvens!
Fui correndo pegar o telefone pra fazer uma foto. Quando fui tirar as fotos, vi algumas fuligens caindo. Fuligem, pequenos pedaços carbonizados, em geral de folhas. Um dos pedaços tinha alguns centímetros de tamanho. Deve ser de algum incêndio grande por aqui por perto. Há alguns anos tinha mais fuligem, em geral folhas de cana queimada que caiam do céu. Esta fuligem diminuiu bastante depois que a fiscalização ambiental proibiu a queima da cana...fiscais do meio ambiente? O que tem a ver com o dia escuro?
Tendo o que ver, ou não, o dia inteiro passou assim: céu escuro, vento frio e ameaça de chuva. Aqui em Campinas, demora pra chover. Estamos no meio da estação seca. Só as frentes frias mais fortes passam. Hoje, as nuvens se concentravam ora num, ora noutro ponto do céu. De lá pra cá e de cá pra lá, sempre cinza escuras, ameaçadoras;
No supermercado, as luzes estavam acesas no meio da tarde. Fiz as compras pensando que estava anoitecendo, mas eram 4 da tarde. O resto do dia passou assim.
Agora à noite, quando começou uma chuvinha mais fraca, um cheiro forte de queimado tomou conta da casa. Dei uma vistoria olhando tomadas, vendo se haviam esquecido algo ligado. Nada. Eram as queimadas ao meu redor, como atestavam as partículas de fuligem caindo do céu.
Entretanto, uma coisa chamou a atenção de todos (e a minha também). O país está em chamas há quinze dias. Desde o tal “dia de fogo” dos fazendeiros de Novo Progresso, no Pará, o país está em chamas. Rondônia arde em chamas. A Bolívia e o Paraguai também. Os satélites apontam a concentração de nuvens.
Nos diferentes satélites, das mais diversas agênciasespaciais, a América do Sul está laranja, com seu coração em preto e vermelho. Não, nada de rubro-negrismo nessa hora. Trata-se da concentração de CO atmosférico. Do Acre até o vale do Paranapanema, uma mancha escura toma conta do continente. E, mais esmaecida, se estende pelo Atlântico.
Vejo que em Londrina, no extremo sul da mancha, a concentração está em 419 ppbv no site do windy.com. No norte do Paraguai a grande mancha vermelha varia entre 2000 a 5000 ppbv de CO. As manchas em Novo Progresso (PA) estão em 519 ppbv de CO.
A América do Sul está pegando fogo. Lá no coração.
Nada disso, entretanto, tem a ver com a escuridão dos céus do sudeste brasileiro hoje. Segundo o INPE - e eu acredito no INPE, a escuridão foi causada por uma frente fria (Não é um acreditar religioso, percebam. Acredito no INPE porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) trabalha com dados robustos de tempo/Clima e tem uma grande equipe de cientistas que interpretam estes dados).
Seja fogo ou seja frente fria, o que mais chamou atenção hoje, no entanto, foi que o dia pareceu noite. Como na metáfora.
A escuridão metafórica (também) avança. E tem gente que não quer ver.  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

BOLSONARO, O CACHORRO E O CAMINHÃO


O governo Bolsonaro parece com aquela história do cachorro e do caminhão. Sabe aquela história que quando a gente passa e o cachorro late late,  late, corre atrás dos carros, feroz? Se por acaso a gente pára o carro o cachorro também para. Porque ele não tem outro objetivo senão correr atrás do carro.


O governo Bolsonaro é exatamente esta historia, entre o cachorro e o caminhão. Qual era o seu objetivo? Parece, ao final de contas que o bolsonarismo queria: 1) Derrotar o PT; 2) A liberação das Armas e 3)Acabar com as multas dele (Bozo) no Transito e no Meio Ambiente. Nesta lista, pode ter  mais alguma outra coisa aqui e ali. Pode estar incluido, por exemplo, o fim do horário de verão e a mudança dos nomes no passaporte.
O governo tinha intenção de fazer a tal reforma da Previdência, dirão alguns. Mais ou menos, não é? A tal Reforma acabou aprovada, embora o governo tivesse atrapalhado bastante, segundo seus próprios aliados. Como disse recentemente um cientista politico, Bolsonaro gastou todos seus cartuchos numa só votação. E nas outras por vir, nos três anos e meio de governo?

E o resto das coisas? o resto ele está terceirizando para o tal Posto Ipiranga. O que se vai fazer com Educação? com Saúde? tudo indica que ele e seus ministros só sabem destruir e destruir, sem colocar nada no lugar. 
E na nossa posição no Mundo? Em termos mais amplos, muito além dos conversê de levar seu filho, aquele que fritou hambúrguer, para o posto de embaixador no EUA, Bolsonaro não sabe para que lado amarrar seu burro (?) nestes momentos de crise. 
Em tempos de rápida ascensão das potencias regionais, como a China, que ameaça em menos de dez anos se tornar a maior economia do mundo, Bolsonaro se amarra caninamente à Trump. 
Enquanto Pequim e Moscou se unem aos indianos para montar um super bloco que vai desafiar os Estados Unidos, Trump tenta tirar alguma vantagem. Briga aqui e ali para conversar com Kim. Kim é aliado do Pequim. Tem interesses, junto com os coreanos do sul, em participar das rotas da Silk Road. 
A China já está desbancando tecnologicamente os Estados Unidos. Nas outras áreas é uma questão de tempo. Trump tenta fazer falta, catimbar o jogo, mas ao que tudo indica, com ele ou sem ele, os Estados Unidos estão saindo fora do Z4. 
E Bolsonaro?
Alijado das conversas dos BRICS e sem entender patavina do que está se passando, ele está olhando pra rua, esperando passar o próximo caminhão.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

PROPRIOLAVUS


(ilustração Julian Fagotti)
A Paleontologia Imaginaria não é futebol, mas também é uma caixinha de surpresas. Entre os fósseis imaginários que estão catalogados ou descritos já lá se vão milhares, como comprova a produção da Imaginary Paleontology Review, um dos periódicos de maior impacto do mundo científico imaginário.
Um destes fósseis, entre tantos outros, é bastante singular pelo fato de não ser um fóssil. Trata-se do propriolavus. A história é longa, e vai ser contada aqui um tanto abreviadamente, dada a exiguidade de tempo e espaço. Ou seja, temos mais o que fazer...
O propriolavus não é nenhuma novidade na escala do tempo paleontológico.  Desde a antiguidade se conhecem estas feições:  trata-se de feições aleatórias nas rochas, preenchidas por cimentos ou óxidos, muitas vezes dando a impressão de formar figuras. Em cientifiquÊs são chamados dendritos. Nestes dendritos, uns veem a Virgem Maria, outros veem um coelho. Outras ainda, um sapo engolindo uma estrela. Foi descrita também um quati malhado e uma concha de amonite. A maioria, entretanto, nada vê. Porquê é só uma mancha na rocha, e não um fóssil.
Aristóteles citou uma destas impressões em sua Física, volume II (hoje perdida), recuperada numa citação de latina de Flavius inflavius: “em terras da Capadócia acharam muitas destas figuras, que não querem dizer coisa nenhuma. Lá, são chamadas de propriolavus”. Na Idade Média tal feição foi descrita por Santo Agostinho, referindo-se a elas como “imposturas da pedra”.
No mundo islâmico, esta figura foi descrita por Ibn Sina, também conhecido na Europa como Avicena. Ibn Sina descreveu tais feições como imposturas e como alucinações que a luz do sol poderia provocar. Para Al Jabr, um dos mais famosos alquímicos islâmicos, o propriolavus era somente fruto da imaginação. Na tradução latina de al Jabr, realizada no século XIV pelo sábio bizantino Constantino da Beócia, o propriolavus foi descrito como “parente do azinhavre e do azebre”.
A história do propriolavus começa a mudar com a leitura da obra do padre Anastasius Kircher. Em seu texto “quae et nos credimus, quod impostor esset propriolavus”, Padre Kircher coloca em questão se o propriolavus seria uma impostura.  Ou, então, uma mera brincadeira da Natureza, ou lusus naturae, como se dizia naquela época.
O texto kircheriano chegou a Inglaterra, onde recebeu uma leitura atenta de Stebe de Bannon. Stebe de Bannon, como sabemos, que estava na época envolvido numa conspiração para assassinar metade das monarquias europeias e instaurar um reino cruzado na Europa Ocidental. Descoberto seu plano, foi esconder-se na América.
Em suas andanças pelo continente norte americano, Stebe de Bannon encontrou vários espécimes do propriolavus, alguns com o mau cheiro característico. Não se sabe exatamente como, num destes trabalhos subterrâneos de Stebe de Bannon, o propriolavus auto-intitulou-se fóssil, com o nome científico de Olavus decarvalhus. A seção tipo onde ocorreria o presumido fóssil seria a região de Richmond, na Virginia. Coberto de razão, o propriolavus começou a ser estudado por diversas pessoas em diversos lugares da América Portuguesa.
Consta que o mineiro Silvério dos Reis foi um dos maiores especialistas no estudo do propriolavus. Apaixonado pelo estudo do propriolavus, Silvério dos Reis chegou mesmo a enviar alguns espécimes para o filósofo Emanuel Kant, que então estava se interessando por assuntos de Paleontologia. Mas o eminente filosofo achou o propriolavus sem importância, e sequer respondeu as cartas de Silvério dos Reis.
Revoltado com a ausência de resposta, Silvério acusou o então alferes Joaquim Jose da Silva Xavier de haver sabotado seu contato com Kant. Silva Xavier sofreu então um sério assassinato de reputação, orquestrado pelo propriolavus, que via em tudo sinais de perseguição. Como se sabe, o Alferes, ao final, foi condenado a morte na forca e diversos outros cidadãos mineiros tiveram seus bens confiscados e foram enviados para o exilio por conta das maquinações de Silvério do Reis e do propriolavus.
O autointitulado fóssil Olavus decarvalhus não foi muito bem aceito na comunidade cientifica. A maior parte dos pesquisadores sequer reconhecia sua existência. No entanto, sempre coberto por camada e mais camadas sedimentares de razão, o Olavus decarvalhus estava sempre acompanhado de um pequeno grupo de leigos que acreditavam piamente em seu caráter fossilífero.
Durante um certo período geológico, chegou a ter alguma relevância, inclusive poder. Chegou a ser considerado o suporte de espécimes unicelulares como o Velez sp e o weintraubius balburdicus. Mas quando começou a abrir mais fortemente sua boca, o Olavus decarvalhus foi se tornando mais conhecido. Quanto mais conhecido, menos estudiosos acreditavam nele.
O propriolavus extinguiu-se totalmente ao fim do Antropoceno inferior. Deixou, em vez de impressões fósseis, um sem-número de dívidas para seus seguidores pagarem.




 (a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)






sexta-feira, 17 de maio de 2019

O DESASTRE "EMINENTE"

https://bit.ly/2JsQHYO

Não tenho por hábito criticar os erros de português das pessoas. A professora Deise Picanço, minha irmã, sempre me preveniu: “nunca caçoe ou critique quem escreve ou fala errado”. Para ela, professora da UFPR, escrever errado ou certo é função da trajetória de vida que cada um teve. E isso ninguém escolhe. Caçoar de quem fala errado, diz Deise, é perpetuar antigas injustiças, é castigar quem já foi castigado com uma educação ruim.
Depois que aprendi isso, passei a relevar gramáticas ou ortografias. Quem fala “errado”, mas se comunica bem, na verdade está vencendo uma barreira cultural e social. Um exemplo de pessoa com pouco estudo, mas muita inteligência, é o presidente Lula. Apesar do seu português ruim, é um orador incomparável e um político como poucos. Quer seus detratores queiram, quer não.
 Como a sociedade que queremos não precisa de barreiras culturais e sociais entre pessoas mais e menos cultas, todos com algo a dizer merecem ser ouvidos. Com isso, a língua se enriquece, a comunicação se enriquece, a cultura se enriquece. O povo “enrica”. Quantas falas de hoje se originaram das falas “erradas” das massas populares? Inclusive nossa língua, o português, a tal “última flor do Lácio”, não era um latim popular, portanto “mal falado”?
Consigo, portanto, entender que uma pessoa que não teve acesso a uma cultura escolar mínima se expresse mal ou com alguma dificuldade, mas se expresse. Entendo e respeito. Eu mesmo cometo aqui e ali muitas faltas contra o léxico ou a concordância. Não estou aqui pra puxar a orelha de ninguém por isso.
No entanto, dos tuites dos primeiros-filhos às manifestações dos ocupantes dos primeiros e segundos escalões da República, as escorregadas da comunicação oficial no idioma de Camões são muitas. O governo que não nos governa há quase 5 meses nos dá repetidamente grandes quantidades de mancadas no léxico e na ortografia.
Não me preocupo com os erros de ortografia, mas com o que eles revelam. Antes de mais nada, o desleixo gramatical dos Bolsonaro (e dos bolsominions de primeiro e segundo escalões) são, antes de mais nada, reveladores de uma maneira de pensar.
Tais escorregadas refletem sobretudo a falta de uma cultura escolar suficiente destas pessoas, e dizem muito sobre a pressa ou o desleixo com a expressão escrita. Mas eu vejo mais que isso. Mais importante que erros de português, a ortografia falha dos próceres do atual governo marcam um certo desprezo e ódio à cultura e ao conhecimento. Como disse um amigo, "é o governo do não sei e não quero saber".
Este desprezo não está somente nas confusões entre palavras como “iminente” e “eminente”, entre “incitar” ou “insitar”. Este desprezo também não está na falta de coerência e de concordância de alguns tuites. Está no discurso mais profundo.
A blitzkrieg bolsonarista contra a Universidade veio também pela sua divisão Panzer, o WhatsApp. Os analistas das redes começaram a notar desde o dia 30 de abril próximo passadoum aumento no disparo de mensagens dizendo que as universidades eram centros devagabundos e maconheiros. Para provar, estes Zaps mostravam fotos de gente pelada, algumas de eventos ocorridos em universidades privadas, outros de ações descontextualizadas, como uma performance contra o Holocausto que virou uma reles orgia nas mensagens dos haters.
Como disse um colega daqui em seu twiter recentemente, eu também vi na internet alguns destas mensagens nos informando destas festas loucas com bebidas, drogas e gente pelada. Estas festas, pelo que diziam os Zaps,  ocorreriam diariamente pelo Campus. Da mesma forma que o referido colega, fiquei muito chateado com o fato de tais festas ocorrerem aqui do meu lado e eu nunca ficar sabendo.... nem um convitinho recebi!
Depois das críticas iniciais e da repercussão negativa das falas do governo, o discurso mudou. Primeiro, tentaram provar matematicamente, pois que a matemática é uma ciência nobre. Como os esquerdistas são notoriamente de humanas, foram usadas barrinhas de chocolate para ilustrar aaula de economia do Ministro. No entanto, além da explicação obscura sobre as porcentagens, o presidente guloso pecou no discurso e na encenação, tão típicos das Humanas e das Artes, ao comer disfarçadamente (?) o chocolatinho que deveria durar até setembro...
Depois das manifestações do #tsunamidaeducação, que levou centenas de milhares de estudantes brasileiros às ruas, o discurso mudou de novo. Os meninos e meninas mal saídos da adolescência que vi aqui nas ruas de Campinas e de todo o Brasil defendendo a Escola pública eram “idiotas” e “inocentes úteis”.
Será que o presidente teve a intenção de trazer um discurso da Guerra fria para o momento atual de propósito? Ou ele não sabe fazer outro discurso além dos que ele ouviu nos quarteis, nos anos 70, antes de ser defenestrado por indisciplina?
Os liberais, que votaram no Amoedo e não tem nada com isso, estão neste momento nas redes sociais para explicar que os meninos e meninas que querem ter a chance de ter uma universidade ou uma carreira na ciência não entenderam o Ministro mãos de tesoura. Afinal, todos os que estavam na rua eram incuráveis esquerdistas. Todos.
Estes esquerdistas, como se sabe, carecem dos recursos cognitivos mais óbvios.  Os esquerdopatas, doentes que são, não entendem que “contingenciamento não é corte”. Fiquei feliz ao ler alguns posts por aí. Ainda bem que nós esquerdopatas temos os liberais-eleitores-do-amoedo para nos curar!
Mas o discurso contra as universidades segue firme. No dia 14 foi assinado um decreto que tira dos reitores a autonomia para nomear pró-reitores, e coloca os Arapongas da ABIN para investigar todos os candidatos a altos cargos nas universidades. É claro que é uma provocação e uma ameaça, mas não vai colar. Veremos.
Não se pode, entretanto, acusar este governo de monotonia. Hoje, surgiu um texto veiculado pelo whats do presidente, em que reclama que o país é ingovernável, dirigido por corporações que não querem o bem do povo. Bolsonaro quer, mas não consegue (!) governar. Ô dó! O texto*, obra prima da teoria da conspiração, ressuscita as “Forças ocultas” que tanto assombraram Jânio Quadros em seus delírios político-etílicos.
(outra coisa interessante é que o texto é bem escrito, ao contrário das algaravias do Capitão e seus filhinhos e apaniguados do Olavo. Quem sabe o escritor, dotado de domínio da língua, não quisesse ser visto em companhia dos tatibitates do governo e preferiu se preservar, mantendo-se anônimo).
Este é um governo que sequer começou, mas já está fazendo água. A palavra impeachment voltou a correr, dita pela boca do próprio presidente. Não sei se é por aí. Não precisamos de mais impeachments. Não é, Aécio? Mas a incompetência e inapetência do governo por governar o precede.
A facada do Adélio nos fez eleger um presidente de cera, que agora se derrete ao veranico de maio. Existem, aqui e ali, quem ainda veja nele um mito. Mais e mais pessoas, finalmente, estão vendo não um mito, mas um mico.
Como diria alguma fonte oficial do governo, estamos diante de um Desastre “eminente”. 

*agora a noite acharam o autor do texto...um eleitor de João Amoedo (!?)

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

NEGACIONISTUS


Arte: Julian Fagotti
(Para Leda Gitahi)

Não há como negar: um dos gêneros mais comuns e importantes do período entre o Devoniano e o Cretáceo foram os anfíbios do gênero negacionistus. Estudos recentes da Paleontologia Imaginária jogam luz sobre alguns aspectos até então pouco esclarecidos do negacionistus e apontam novas causas para seu surgimento e posterior extinção (Souza & Brown, Imaginary Paleontology Review, 2019).


Segundo o trabalho citado, existiriam diversas espécies de negacionistus, cada uma adaptada ao seu paleo-ambiente. Uma das espécies mais antigas é o negacionistus holocausticus, que data do Devoniano inferior (S. Wiesenthal, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginaria de Tell Aviv, 1959). Segundo Wiesenthal, o n. holocausticus tinha olhos grandes, mas provavelmente tinha dificuldades de enxergar. O que em certa medida explica o seu desaparecimento, ao final do Permiano.


Da mesma forma que o negacionsitus holocausticus, o negacionustus climaticus foi outra espécie importante no registro paleontológico imaginário. Seu maior período de difusão parece ter se dado entre o Jurássico e o Cretáceo, tendo desaparecido ao final deste ultimo período. Não há evidências de n. climaticus acima do limite Cretáceo/Terciário, o limite K-T (Anais do Congresso de Paleontologia Imaginária de Honololu, 1959).


Ao que tudo indica, o n. climaticus tinha olhos bastante desenvolvidos, mas não conseguia enxergar com clareza (Lindzen & Ferry, Imaginary Paleontological Review, 2009). Também não eram muito bons em estatística, e não entendiam cálculos matemáticos e modelos climáticos complexos, o que pode, segundo alguns, ter levado a sua extinção ou reprovação em massa (Koch & Koch, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginaria da Filadélfia, 2005). Como quase todos os anfíbios, o n. climaticus também tinha uma língua retrátil longa, ferina e pegajosa. Seus alvos preferenciais, de quem se alimentava, eram insetos do gênero incautus sp (Exxonmobil, Secret Report, 2005).  


Um dos trabalhos mais interessantes para se entender o gênero negacionistus com certeza foi o de Sigmund Freud. Antes de se tornar o pai da psicanálise, o jovem Sigmund dedicou-se à paleontologia, e fazia trabalhos de campo em diversos sítios fossilíferos imaginários ao redor de Viena. Suas descobertas mais importantes resultaram num trabalho publicado nos Anais do Congresso Paleontológico Imaginário de Viena, 1890. Neste texto recentemente redescoberto, Freud percebeu que os negacionistus, apesar de bem equipados para a sobrevivência ao ambiente hostil do cretáceo, escolhiam negar a realidade como forma de escapar de verdades desconfortáveis. Ao fazê-lo, segundo Freud (op. cit.), as espécies de negacionistus acabavam por aceitar fatos alternativos e hipóteses de difícil comprovação empírica.


Existem alguns trabalhos que fazem uma relação entre o negacionistus climaticus e outras espécies, como o terraplanistus sp, o fascistus sp e o criacionistus sp (Trump, 2016; Bolsonaro et al., 2019). No entanto, embora similares, estudos recentes comprovam ser espécies distintas, porem adaptadas ao mesmo meio ambiente. Existe mesmo a hipótese de algumas destas espécies serem extraterrestres, com indicações de derivação lunática (Damares Alves, comunicação pessoal, 2019; D. Bertrand de Orleans e Bragança, 2018, Anais do congresso de Paleontologia Imaginaria de Petrópolis).


Um animal estranho e monstruosos num tempo estranho, como foi o Mesozoico, o negacionistus climaticus, apesar de suas vantagens competitivas, teria sido extinto junto com os grandes dinossauros. Uma teoria muito aceita no passado diz inclusive que os n. climaticus negaram a possibilidade de choque de meteoros com a Terra no final do Cretaceo (Suguio, Imaginary Paleontology Review, 2012).


No entanto, alguns dados recentes mostram que eles se extinguiram um pouco antes, no Cretáceo médio (Heartland Institute, Special Report, 2010). Segundo a teoria mais aceita atualmente, com a deposição de evidências cada vez mais esmagadoras, os n. climaticus foram soterrados por toneladas destas mesmas evidências que eles negavam, e acabaram se extinguindo (IPCC, 2006). Nem precisou de meteoro. 


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

EU DENUNCIO MEUS DOUTRINADORES


Acho que é muito justo. As pessoas que me enviaram para o caminho que eu trilho hoje, devem ser denunciadas como doutrinadores. Afinal, estes professores me conduziram a pensar torto como eu penso hoje. E devem ser denunciados para o devido julgamento.
Eu denuncio dona Laura Veiga, por me introduzir ao mundo escolar com tanto afeto e carinho. Eu denuncio dona Janete Mangini, por me deixar, no terceiro ano primário, a ir até a janela ver o pássaro brincando na poça d´água, sem me interpelar ou julgar. E denuncio dona Enery Parodi, por me ensinar verbos, substantivos, adjetivos. Graças a esta doutrinação nefasta, hoje eu vejo ações, objetos, qualidades.
Eu denuncio professor José Augusto Mendes, o Zezo, por me ensinar a somar, multiplicar e (doutrinador nefasto!) a dividir. Este doutrinador também me ensinou a ser um professor que só passa adiante quando o ultimo aluno aprendeu a lição. Ninguém fica para trás. Professor Zezo, tão católico, leu Mao Zedong?
A professora Vera Peixoto, na 5ª serie, me fez pensar em rochas e minerais...e eu acabei virando geólogo! Que doutrinadora terrível! Eu denuncio também a professora Laís por me ensinar na quinta série que a teoria das três raças tinha problemas. Que raça eu era? Branco? Negro? Índio? Um pouco de tudo, ou nada? Eu denuncio minha professora de francês da sexta série, que me passou um texto com as palavras Liberté, Egalité, Fraternité...que comunista!
Eu denuncio meus professores de Biologia por me ensinarem que os seres vivos evoluem. Eu denuncio meus professores de Física ao demostrar que matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distancias. E os meus professores de Química, que me doutrinaram a perceber que o mundo estava cheio de átomos e vazio de metafisica? Todos doutrinadores! Era isso mesmo, professor Borsato, grande químico, grande doutrinador? Eu também denuncio meus professores de desenho, por me ensinarem, gauche que sou, a escrever torto por linhas certas...
Eu denuncio o professor Teófilo Bacha Filho, por me mostrar que a história da humanidade era a história da luta de classes. Doutrinador vil! História antiga, feudalismo, capitalismo, que coisa insana é essa? Revolução Francesa? Revolução russa?  Doutrinador imundo!!
Eu denuncio o professor Márcio Imenes, por mostrar (e demostrar) que a matemática podia ser uma coisa simples fácil e observável. Acessível a todos. Comunista sujo! Professor Trotta, ensinando que as leis de Newton não valiam no universo quântico...que canalha doutrinador!!
Eu denuncio o professor Gastão Octávio Franco da Luz por doutrinar a mim e meus colegas sobre temas subversivos como Metodologia cientifica e outra coisas dignas de comunistas. Eu denuncio a professora Rosamarie Becker por nos ensinar sobre os diferentes tipos de sedimentos, tão democráticos estes!
Eu denuncio o professor Elimar Trein, ex-preso político, por nos doutrinar sobre temas subversivos como Geologia Estrutural, ética, profissionalismo! Denuncio os profs Marlene e José Henrique Popp por me ensinarem sobre ambientes de sedimentação, paleontologia e política universitária. Eu denuncio o professor Riad Salamuni por doutrinador confesso, que falava abertamente sobre humanidade e compaixão, além de água “subterranha”.
(Por ter um coração cheio de sangue vermelho (!), uma alegria infinita e uma cabeça aberta para os sonhos (sempre tão subversivos!), eu denuncio também o professor Dante Romanó júnior, notório doutrinador).  
Eu denuncio o professor José Manuel dos Reis Neto, por ser um nefasto doutrinador. Além de doutrinar sobre petrografia metamórfica, também ensinou humanidades, políticas, amizades, afetos que não se encerram.  O professor Ernani Rosa Filho, outro notório doutrinador, eu o denuncio também!!
Eu denuncio o professor Benjamim Bley de Brito Neves, outro grande doutrinador!! Então a Tectônica de Placas? Então a poesia? A geologia do agreste, a brotar água fresca e poesia, tudo isso cabe na sua Geotectônica? Que desvio! Pobre ciência com um doutrinador deste naipe! Onde vamos parar?
Eu os denuncio todos, professores! Vocês me doutrinaram! Me ensinaram o certo, o errado, e o avesso do certo e do errado. Vocês me tornaram o ser lamentável e incerto que sou. Vocês me ensinaram que o mundo é incerto, que a ciência nos orienta, mas também não é tudo.  
Nos caminhos incertos do mundo vocês me ensinaram a confiar. Na razão? Não. Em mim.
Hoje graças a vocês, eu duvido de tudo. Pergunto antes de ter certeza. Me informo antes de agir. Quando trabalho com colegas, vocês me ensinaram a ser profissional. Quando trabalho com alunos, vocês me ensinaram a ter paciência e dedicação. Quanto estou junto do povo brasileiro, que me pagou os estudos, você me ensinaram a ter humildade e gratidão.
Eu os denuncio a todos. Vocês me doutrinaram.
Muito obrigado.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A BOLSA E A VIDA



Na feira deste domingo, enquanto escolhia abobrinhas e pepinos japoneses, escutei casualmente a conversa de dois homens ao meu lado. Conversa de homem. De homem de bem. Os dois falavam de Bolsa. Um falou “a Bolsa subiu”. O outro concordou e respondeu: “Tomara que continue assim”. Pelo pouco que pude perceber, os dois estavam falando das pesquisas da ultima semana que apontavam o favoritismo de Bolsonaro e a aparente euforia do mercado com esta notícia.
Em geral, eu sempre fico espantado com o noticiário econômico. As oscilações para cima e para baixo das bolsas de valores tem a ver com causas que nem sempre compreendemos. Se compreendemos, muitas vezes nos chocamos. Algumas muitas vezes, notícias aparentemente boas não são boas para omercado: o aumento do numero de empregos nos EUA em 2011, por exemplo. Outras vezes, compreensivelmente, os mercados reagem com perplexidade, como foi com a notícia da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.
No Brasil, o ciclo é o mesmo. Os mercados reagem favoravelmente se existem indícios de que vai haver reforma da previdência, por exemplo. Isso vai ser uma tremenda dor de cabeça para os trabalhadores, mas o “tal do mercado” comemora. Se as negociações da Reforma da Previdência emperram, o mercado reage em baixa.
Eu não entendo nada de Economia. Alguns dizem que é uma ciência humana. Muitos discordam. Eu não entendo nada de economês. Tenho alguns palpites. Muito dizem que os mercados são a melhor maneira de organizar a atividade econômica. Que a tal da mão invisível nos guiaria por ações concretas e seguras, onde todos sairiam ganhando.
Outros dizem que um governo seguro pode melhorar a mão do mercado. Uma ação política por parte do Estado pode resolver os problemas de assimetria entre os entes econômicos. Eu acho que isso é o mais seguro. Não confio em mãos metafisicas.
Nada nos garante que as ações dos governos nos mercados sejam sempre sérias e sábias. São decisões políticas, marcadas por interesses de grupos. Mas o mercado, qual um graxaim selvagem, não gosta de amarras. Morde as cordas e sai desvairado pela noite à procura de presas. Assim pode ser o mercado.
 Por vezes, o mercado beira o cinismo. No dia da facada que Bolsonaro levou, o mercado reagiu com alta. Segundo os analistas, prevendo as facilidades que o Coiso teria com sua vitimização, como realmente teve. Marcelo Coelho, na Folha, perguntou se os mercados são amorais ou imorais. Qual é a sua resposta para esta pergunta?
Hoje, o mercado está em alta. Os que fazem negócios estão otimistas. Vão poder ganhar muito dinheiro, fazer bons negócios. Por isso as Bolsas “sobem”. Entretanto, nem sempre o que o mercado quer é o que a sociedade quer. Mas, quando isso acontece, os homens na feira de domingo discutem felizes sobre as tendências da bolsa.
O mercado reagiu em alta quando Collor de Mello ganhou as eleições. Reagiu muito bem à eleição de Hitler, por exemplo. E reagiu muito bem quando Temer, o vampiro, conseguiu o seu cargo e sua "ponte para o futuro" naquela votação horripilante de um congresso pouco comprometido com o interesse publico. Nem sempre o Mercado reage bem à democracia. Assim como deve ter reagido bem quando o golpe sangrento de Pinochet derrubou o governo socialista legitimamente eleito de Salvador Allende.
Os mercados não levam em conta a economia real. Aquela que nós todos fazemos no dia a dia. Não aquela feliz economia de Adam Smith, do padeiro e do açougueiro que acreditam na mão invisível. O mercado, a maior parte dele, joga contra a sociedade que lhes dá suporte. São amorais. São imorais. Os mercados devem ser criminalizados sempre que trouxerem prejuízos para a sociedade pagar. Os banqueiros e especuladores da crise de 2008 nos Estados Unidos deveriam ter sido presos . Eram grandes demais para quebrar?
Adam Smith acreditava na moralidade dos agentes econômicos. Eu concordo, e acho que assim deve ser. Por respeito a mim, por respeito a você. Os mercados devem se comportar, ter regras dentro da moralidade, e não fora dela. E que, se não se comporta, o mercado não venha chorar as pitangas depois que quebram de tanto especular, como foi na crise do subprime. 
Ser o candidato do Mercado não quer dizer grande coisa. Ser o candidato das liberdades todas é muito, quase tudo. É tudo o que temos pra hoje. 

O Mercado somos nós.