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sexta-feira, 3 de maio de 2019

LINGUIÇA SALGADA COM FARINHA SURUÍ


Bairro da Serraria, Capão Bonito (SP), 1940. 
No dia seguinte, os escoteiros aproveitaram as camas da pensão do Chefe Mimi, e dormiram um pouco mais. O sol forte do caminho ia começando a produzir seus estragos. Os rapazes, como de hábito, acordaram cedo. No entanto, tiveram que esperar pelo café, para ser tomado com o chefe e sua família. Tomaram um bom café ao redor da mesa da pensão. Mas os rapazes estavam impacientes, a estrada os esperava. Lá pelas 9:30, puseram-se novamente em marcha.
A partir de Capão Bonito, os rapazes entrariam numa região bem mais plana que o planalto de Apiaí e as serras de Paranapiacaba. No plano, também, havia vários caminhos a percorrer. O mais curto deles passava por cidades pequenas, como São Miguel Arcanjo e Pilar do Sul. No entanto, avaliaram que seria muito mais penoso, e com menos estrutura. Decidiram, portanto, seguir a rota mais antiga e mais longa, mas que passava por centros maiores, como Gramadinho, Itapetininga Sorocaba e São Roque.
O caminho foi bastante tranquilo. Apesar do sol forte, os rapazes chegaram a Gramadinho, a próxima etapa da viagem, ainda no fim do dia. Lá, acabaram por pedir pouso numa Delegacia de Polícia. Lídio não esqueceria esta noite.
Atacado por uma forte dor de cabeça, Lídio pediu aos companheiros um copo de agua para tomar uma aspirina. Milton e Manduca foram ao poço que havia nos fundos da delegacia. Mas eles estavam demorando para trazer o tal do copo de água. Lídio se impacientou. Mesmo com febre e dor de cabeça, foi lá fora ver onde eles estavam. A situação que encontrou não era nada fácil.
Com os pés no chão frio e meio zonzo da febre, Lídio foi encontrar os companheiros. No meio da noite, Milton e Manduca estavam tentando passar por um arame farpado que dava acesso ao poço. O acesso se fazia por meio de um caracol de arame farpado, que foi difícil de cruzar no meio da noite escura.
Uma vez resolvido o acesso ao poço, os rapazes tiveram que consertar a manivela do poço, que estava quebrada. Mas, apesar de todos os perrengues, ainda viriam outros mais:  quando puxaram a água do poço viram que o balde estava furado. Nada de água. A febre de Lídio continuava.
Um deles foi pegar uma marmita. Improvisada como balde, jogaram a marmita lá embaixo. Quando rodaram a manivela, cada barulhinho que a manivela fazia era uma apreensão só. Mas deu tudo certo: a marmita desceu e voltou lá de baixo cheia água. No entanto, quando foram ver, a água era meio salobra. Mas Lídio estava desesperado. A febre seguia e ele estava louco para tomar a aspirina. Nessa hora, o rapaz não quis nem saber. Pegou a marmita e tomou a aspirina na água ruim do poço da Delegacia.
Quando voltaram para o alojamento, ainda meio zonzo, os rapazes foram dormir. Após um momento, a dor de cabeça de Lídio foi passando e, com ela, veio o sono. Somente no dia seguinte foi que ele se lembrou de uma linguiça salgada com farinha suruí, que havia comido na noite anterior.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

TIROTEIOS NO CASAMENTO


A estrada de Guapiara a Apiaí hoje; foi por ela que os escoteiros passaram em dezembro de 1941;

(Para Salvador dos Santos Picanço, o maior incentivador para que eu escrevesse/reescrevesse esta historia)

Era sete horas da manhã quando os escoteiros se puseram na estrada, deixando Apiaí para trás .
Agora eles andavam por uma rodovia movimentada, e não mais numa estrada secundaria no meio do nada. Ao contraio do Vale da Ribeira no trecho paranaense, o tráfego de automóveis e ônibus ali era intenso. Volta e meia passava um carro ou ônibus e levantavam muita poeira, as vezes quase impedindo-os de enxergar claramente à frente.
A fina poeira do planalto de Apiaí era constantemente sacudida pelos carros da Viação Pássaro Azul e do expresso Paraná/São Paulo. Os ônibus da Viação Cometa também passavam. A poeira e o calor eram muito fortes. Ao meio dia, os rapazes pararam para descansar e comer um pouco. Almoçaram o farnel que traziam, resultado da noite anterior: costela de porco assada, pão e café.
Durante a caminhada eles continuamente assoviavam canções escoteiras, em geral dobrados que eram executados pela banda dos escoteiros, lá em Antonina. Era uma forma de passar o tempo, e superar o cansaço da viagem. Assim, iam alegremente a frente, cantando suas canções prediletas.
Quando as dificuldades e o cansaço surgiam, Lídio nos diz que eles procuravam lembrar-se da 8ª lei do escoteiro: “o escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades”. Com estes pensamentos em mente, e ritmados pelo som dos dobrados da sua banda, os meninos atravessaram os morros do planalto de Apiaí durante todo o dia.
Ao final do dia, estavam chegando na povoação de Banhado Grande. Banhado Grande era muito pequena, uma povoação à beira da estrada e composta por 9 casas de madeira, bem conservadas. Os rapazes procuraram pouso por ali. O inspetor de quarteirão da povoação os colocou numa velha casa abandonada. Foi um alivio, ter um teto para dormir!
Antes de se acomodarem, porém, os rapazes viram uma cerimonia de casamento celebrado na vila, e que os impressionou a todos. Lídio nos conta que o noivo chegou montado num belo cavalo negro, acompanhado de uma guarda de honra. A seguir, a noiva chegou numa carroça puxada por dois cavalos, toda enfeitada de flores. Atrás da carroça da noiva, vinha outra carroça enfeitada de flores com as damas. As damas estavam todas vestidas de branco, o que fez um belo contraste com as cores da paisagem.
Na casa do inspetor de quarteirão, onde seria celebrada a cerimonia, estavam aguardando os noivos o juiz de paz e o escrivão de Apiaí. A cerimônia foi celebrada, como de praxe. Na saída da cerimonia, em vez do tradicional arroz, os homens sacaram de seus revólveres e atiraram para o alto, em grande algazarra. Uma barragem de fogos também ocorreu, ensurdecendo a todos. Lídio notou que o foguetório assustou os animais.
Findo o casamento, o inspetor de quarteirão ofereceu uma janta aos rapazes, que estavam bastante impressionados com a cerimonia que haviam assistido. Durante a a jante, ele perguntou ao Inspetor sobre os caminhos que deveriam seguir nos próximos dias, seus problemas e dificuldades. E também contaram ao homem sobre a viagem e sobre os episódios que viveram até ali.
De tanto que falou da viagem, de Antonina e dos seus familiares lá longe, Lídio nesta noite teve dificuldade de dormir. ficou horas e horas no escuro, olhos abertos, lembrando de seus pais e familiares, lá na distante Antonina.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

FESTA DE SÃO BENEDITO


O centro da cidade de Apiaí em 1939-41

Para Alexandre Oliveira, meu querido amigo Alê

Os bravos escoteiros chegaram em Apiaí no dia 26 de dezembro de 1941. Cansados depois de vencer a Serra de Apiaí numa noite, vindos de Capela da Ribeira, eles foram procurar o prefeito municipal. Ao chegar numa cidade, os escoteiros tinham por obrigação procurar as autoridades para assinar o livro que dava conta da passagem deles pelo local.
No entanto, o prefeito de Apiaí, o Senhor Isaias Teixeira, acabou por fugir dos meninos. Estes o viram quando ele entrou em sua casa, em companhia de outro homem. No entanto, ao baterem na porta, informaram que ele não estava. Tudo Isso, segundo Lídio, porque o prefeito receou que eles fossem mendigar estadia no seu hotel, o Hotel Teixeira, o melhor hotel da cidade. “Isso nunca será esquecido por nós”, anotou Lídio em seu diário.
Por fim, os rapazes acabaram por montar barraca numa clareira perto da cidade. Haviam decidido não caminhar mais aquele dia, pois estavam todos cansados e com assaduras nas pernas. O local onde acamparam era um terreno onde havia um hospital em construção. Ali colocaram as lonas e se abrigaram do sol inclemente.
 Apiaí está localizada a mais de mil metros de altitude, num topo de morro, com uma avenida principal serpenteando pela cumeeira. Descendo desta avenida estão as ruas centrais onde estão as casas das pessoas mais ricas do lugar. Nos vales mais abaixo se encontram as casas mais simples, das pessoas mais pobres. Lídio anota que cerca de 70% das pessoas em Apiaí eram negros, provavelmente descendentes dos que trabalharam como escravos nas ricas Minas de Apiaí, que tanto fizeram a fama da cidade.
Apiaí tinha funcionando próxima da cidade a Mina do Morro, uma das mais importantes minas de ouro do vale do Ribeira. Explorada por uma empresa japonesa, a mina estava escavando galerias e tirando o ouro por métodos modernos de extração para a época. A exploração foi interrompida quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo, poucos meses depois da passagem dos escoteiros por Apiaí. A área da Mina do Morro hoje em dia é um parque bem próximo da cidade, com intensa visitação.
Do outro lado da cidade, a Usina Experimental de Chumbo, no bairro do Palmital, havia iniciado naquele mesmo ano de 1941 sua produção. Construída pelo governo paulista com a administração do IPT, a Usina Experimental também era uma aposta do governo paulista na exploração de chumbo e prata por técnicas mais modernas e baratas, viabilizando a produção das pequenas minas da região. Fechada durante a guerra, entretanto, a usina nunca mais funcionou.
No dia em que os rapazes por lá chegaram, a população negra de Apiaí estava em festa, pois era dia de São Benedito. Os rapazes, depois de um descanso, fizeram uma janta composta por costela de porco assada, pão e café de coador. Depois que o sol baixou, as cinco da tarde, eles foram à cidade para apreciar a festa em homenagem ao Santo.
A procissão, composta quase que totalmente por negros, era bastante impressionante, segundo o relato de Lídio. A confraria de São Benedito da cidade de Apiaí, carregava a estátua do Santo pelas ruas, ao som de cânticos, seguida por uma multidão. Os membros da confraria, responsáveis pelo andor, vestiam uma túnica branca e portavam tocheiros com vela.
Depois da procissão, já cansados, os rapazes voltaram ao seu acampamento improvisado nas obras do hospital, onde dormiram um sono pesado.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

UMA CABANA NA SERRA DE APIAÍ


A cidade de Ribeira, antiga Capela da Ribeira, no tempo que os escoteiros passaram por lá; foto aérea obliqua tirada entre 1939-41 (aqui)
Depois da grande festa do Natal, os escoteiros acabaram por acordar tarde. Iam acordando uns aos outros, sonolentos, ainda com um pouco de ressaca da festa. Lídio conta que tomou café com maisena e uns doces que haviam sobrado da ceia. Irrequieto, foi passear.
Na cidade, o jovem escoteiro ficou abismado com os buracos de balas de fuzil e metralhadora ainda visíveis na pequena igreja matriz de Capela da Ribeira. Eram resquícios dos enfrentamentos entre tropas paulistas e paranaenses durante a Revolução Constitucionalista de 1932, ainda presentes nove anos depois. “Nem a casa de Deus eles respeitaram”, anotou depois em seu diário.
Pouco depois, ele fez o caminho de volta e foi até o posto fiscal de Paranaí, hoje conhecida como Adrianópolis. Lá, não encontrou os fiscais com quem havia feito camaradagem no dia anterior. E voltou à Capela da Ribeira.
Naquele tempo as duas cidades eram pequenas, e o surto industrial e mineiro estava ainda começando. Restritas pelo vale do rio Ribeira e pelos morros íngremes formados por rochas muito antigas, as duas cidades eram uma só. As casas eram construídas ao longo do único caminho possível. Somente onde o rio havia deixado algum terreno plano é que as duas cidades se espraiavam, ainda que pouco.
Lídio conta que os habitantes nunca haviam visto um escoteiro. E ainda mais aqueles, de uniformes e seguindo rumo a uma importante missão. Todos ficaram impressionados. As mocinhas, ainda mais.
Lídio nos conta de Iolanda, filha do padeiro, por quem teve seus sentimentos e que, por fim, deixou saudades. Manduca então reclamou que Lídio tinha “imã” para as mulheres. Lídio então brincou e disse que era porque Manduca tinha cabelo feio. Milton, mais lacônico, acompanhava a conversa rindo ora de um, ora de outro.
Durante a tarde, os rapazes não fizeram nada. Ou melhor, fizeram. Foram para o rio tomar banho e amenizar o calor. Diversos outros rapazes e moças da cidade (mais moças que rapazes, segundo anotou Lídio) também ficaram lá com eles na pequena praia de rio. O tempo passou e eles nem sentiram.
Os rapazes se despediram de Capela da Ribeira, onde tiveram acolhimento tão bom, e seguiram viagem. Saíram as oito da noite para uma caminhada noturna subindo a serra de Apiaí.
Todos eles haviam participado já de caminhadas nestas condições. A Patrulha Touro dos escoteiros de Antonina havia participado de diversas corridas do facho e subidas pela Serra da Graciosa. Pela sua experiência e resiliência é que foram os escolhidos para a missão.
Entretanto, a serra de Apiaí não era um desafio fácil. Pedregosa, coma estrada precária, a progressão era lenta. Apesar de estar mais fresco, a escuridão era total, e os meninos foram seguindo a trilha em fila indiana, com o auxilio de lanternas. Depois de cerca de cinco horas de intensa caminhada serra acima, encontraram um pequeno casebre abandonado na beira da estrada.
Exaustos, decidiram passar ali a noite.
Acordaram as cinco da manhã. A claridade fazia ver as rochas esparsas no alto da serra, assim como a floresta cerrada. Um espesso nevoeiro cobra os vales. Os rapazes ouviram um barulho de água ali por perto. Era um regato que cruzava a serra e fazia um barulho da água passando por entre as pedras. No entanto, o acesso até ele era difícil, pois o regato corria alojado numa ravina bastante funda, de acesso difícil.
No entanto, obstinados em tomar um café, os rapazes se aventuraram a descer a barroca para pegar água e trazer lenha para a fogueira. Todos, menos Milton. Ele fora poupado, pois a caminhada noturna havia produzido uma enorme assadura em suas virilhas.
As sete da manhã, depois do café, os rapazes voltaram à trilha. O sol alto ia castigando-os todos. Lídio conta que as pernas estavam todas arranhadas pelo capim corta-rapaz, e o sol fazia os arranhões queimar e coçar.
Somente lá pelas onze horas da manhã que eles finalmente chegaram à vila de Apiaí, novo trecho da jornada.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

UM NATAL NA CAPELA


A pracinha de Ribeira (SP), em dezembro de 2018...como ela era em dezembro de 1941, quando os escoteiros de Antonina passaram por ali?
Os escoteiros acordaram cedo naquela véspera de Natal. Era o Natal de 1941. Um natal triste para muita gente em muitos lugares do planeta. A guerra seguia feroz na Europa.
Os soviéticos lutavam desesperadamente para manter Moscou e Leningrado, ameaçadas pelas tropas Nazistas. Na África, a luta era por Bengazi, na Líbia. No entanto, era na Ásia que a guerra estava mais violenta. Os americanos estavam sendo derrotados nas Filipinas e os ingleses lutavam desesperadamente para manter Hong Kong frente ao avanço japonês.
Por outro lado, os meninos deixaram Epitácio Pessoa as 7 horas da manhã, agradecendo o pouso e a boa acolhida na vila. Agora desciam a estrada margeando o rio Grande rumo à Barra Grande, onde encontrariam o majestoso rio Ribeira de Iguape. Dali, era só seguir para Adrianópolis e cruzar a ponte que já estariam em São Paulo, etapa seguinte da marcha.
No caminho Lídio notou maravilhado os inúmeros monjolos que iam encontrando no caminho. Anotou que estes moinhos rústicos eram muito uteis naquelas paragens distantes, onde não havia energia elétrica ainda. E notava o movimento do soque com uma certa nostalgia: “um sobe e desce sem parar, um barulho gostoso de se ouvir”.
Os meninos chegaram na localidade de Descampado ao final da manhã. Lá, tiveram um contratempo, pois ninguém ali quis vender comida para eles. Nem um pãozinho. Fosse porque não tinham, fosse porque não queriam vender nada aos forasteiros, os rapazes tiveram que se contentar em comer biju com chimarrão.
Lídio anotou que, apesar de "desnutridos", os rapazes continuaram a caminhada sem queixas ou lamentações. Segundo ele, haviam perdido 6 quilos cada um nesta primeira etapa da viagem. E a tendência era perder ainda mais, anotava.
A viagem pela “estrada provisória” seguiu até Barra Grande, onde encontraram o Ribeira. Em dezembro, o rio estava barrento por causa da estação das chuvas. Somente algumas pedras eram visíveis ao longo do rio.
Cercado por morros bastante íngremes e com uma vegetação em diferentes tons de verde, os rapazes finalmente avistaram a rodovia federal, que chegava até Paranaí, a atual Adrianópolis. Antes de cruzar a ponte de concreto que ligava Adrianópolis a Capela da Ribeira – hoje o município paulista de Ribeira – os rapazes tomaram um chimarrão com os fiscais estaduais e federais no lado paranaense da ponte. E só depois cruzaram o rio.
A ponte sobre o Ribeira é uma luta eterna das duas comunidades, Ribeira e Adrianópolis. Esta que os meninos cruzaram foi a primeira ponte de concreto. O rio Ribeira, cheio de energia, não está nem aí para as pontes, e já derrubou todas elas. A atual ponte de concreto, a mais alta e reforçada de todas, foi construída em 1998-99, depois de ter sido destruída por uma forte cheia.
No lado paranaense, Lídio anotou, cheio de certa nostalgia, que havia do lado paranaense um grande outdoor onde estava escrito: “Paraná, Terra dos Pinheirais”.
Ao fim da tarde, na cidade de Capela da Ribeira, os rapazes procuraram as autoridades locais. Encontraram o Secretário da Prefeitura. Este avisou que ali não havia pensão suficiente para abriga-los todos, e o prefeito estava viajando. No entanto, o secretario lhes ofereceu sua própria casa.  
Depois de tomar banho no rio Ribeira e colocarem os uniformes “de gala”, os meninos foram para a praça principal, onde fizeram uma rápida reunião. Nesta reunião eles decidiram os próximos passos rumo a capital São Paulo, próxima etapa da viagem.  E decidiram enviar um telegrama para Antonina, para avisar que estavam todos bem.
Qual não foi o espanto dos rapazes ao descobrir que haviam dois telegramas esperando por eles, datados de dois dias antes: um da prefeitura municipal, avisando da presença dos escoteiros por ali. O outro telegrama era do chefe Picanço, pedindo para que o Chefe Beto entrasse em contato com ele, pois todos estavam ansiosos por notícias. Era o primeiro contato que tiveram desde que haviam saído de Antonina, oito dias antes.
Os escoteiros mandaram orgulhosos um telegrama: “Capella da Ribeira 24 dezembro 1941: chegamos hoje bons vencemos primeira etapa continuamos amanhã noite – Sempre Alerta! Beto Milton Lidio Manoel Antonio”.
Os rapazes ainda cheios de energia alugaram umas bicicletas e foram passear, menos o chefe beto e Canário, que ficaram no banco da praça descansando. Lídio ainda teve tempo de mandar cartas para a família e amigos. Também foi à alfaiataria do Elpidio. Lídio ainda mandou costurar suas calças descosturadas na entreperna, além de consertar um sem-número de botões da roupa dos demais.
Houve um apagão de energia elétrica, que durou até as nove da noite. A energia vinha de Apiaí, e demorou a ser reparada. Que inconveniente conveniente! Enquanto isso, os rapazes ficaram na praça escura e até arrumaram umas namoradas.
Depois, à meia noite, os rapazes assistiram a missa do Galo em Capela da Ribeira, ministrada pelo padre de Apiaí. Lídio aproveitou seu curriculum de coroinha e ajudou o padre, junto com uma menina que era Filha de Maria. Foi um comentário só na igreja: um coroinha vestido de escoteiro!
Depois, os rapazes participaram da ceia na casa do secretario municipal, onde estavam alojados. Foram servidas gasosa, soda limonada e vinho, além de um grande bolo com motivos natalinos.
Já era quase duas da manhã quando todos, exaustos, foram dormir. 
Dingobells!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A VILA DOS FUGITIVOS

A atual cidade de Tunas do Paraná em 1955, quatorze anos depois dos escoteiros atravessarem a região 

Apesar de dormirem num paiol de milho cheio de ratazanas no lugarejo chamado Tuneiras, os rapazes acordaram animados naquela terça feira, 23 de dezembro de 1941. O final da primeira etapa da viagem, a cidade de Capela da Ribeira, já no estado de São Paulo, poderia ser finalmente alcançada.

Eles seguiram então no rumo norte, pela “estrada provisória", que ligava parcialmente Curitiba à Capela da Ribeira. Segundo o diário de Lídio, a estrada era muito malconservada, cheia de buracos, com pontes de madeira apodrecida. Ao longo da estrada, estavam passando continuamente tropas de mulas carregando balaios com milho e feijão. De vez em quando, uma carroça puxada por bois se fazia ouvir de longe, cortando o silencio da paisagem com sua estranha música.

Logo adiante os meninos ficaram assombrados: estavam passando pela Garganta do Leandro, onde o rio Passa-Vinte formava uma grande cachoeira. Para Lídio, o barulho era equivalente a um trovão, e podia ser ouvido a muitos metros de distância.

Depois deste espetáculo bonito da natureza, começou outro, macabro: ao longo da estrada viam-se aqui e ali diversos esqueletos de caminhões de combate, enferrujando no clima quente e úmido do vale do Ribeira. Eram restos de antigos combates da Revolução Paulista de 1932.

A região que eles estavam cruzando era a frente do Ribeira da guerra civil deflagrada com o manifesto constitucionalista de São Paulo, em julho de 1932. Apesar de não ser uma das frentes mais importantes, ali também haviam ocorrido alguns combates.

Na Garganta do Leandro Lídio notou horrorizado um cemitério com cruzes de ferro dos soldados mortos durante os combates da revolução constitucionalista. Havia apenas nove anos, aquela região havia sido palco de combate entre as forças de São Paulo com os batalhões paranaenses.

Deixando para trás aquele cenário de guerra, os meninos passaram pela localidade de Poço Grande e no inicio da tarde já estão no lugarejo de Maria Gorda. Ali, Lídio anotou que existia a mina de cobre de Garapongá. A região do vale era também (ainda é) uma região riquíssima em bens minerais.

Neste período havia uma grande concentração de pequenas minas de cobre e chumbo por toda a região. Em Apiaí, no lado paulista do vale, estava sendo construída uma Usina Experimental de Chumbo para beneficiar o minério e seus subprodutos, como a prata, o ouro e o zinco. Era um período de grande investimento público e privado, e pequenos povoados mineiros iam se formando aqui e ali, no meio da imensa mata.

Depois de tomar um café e um bolo de fubá, os meninos seguiram rumo norte, em direção ao vilarejo de Epitácio Pessoa.

No caminho, Lídio notou (e anotou em seu diário) que o rio que margeava a estrada, o rio Grande, corria sobre um leito de areias muito brancas. Aqui e ali, haviam algumas pequenas cacheiras, que Lídio anotou como sendo de gré vermelha. Gré ou grés é uma palavra francesa para arenito, rocha formada pela solidificação de depósitos de areia. o uso da palavra grés por Lidio não está de todo incorreto, visto que realmente ocorrem muitos corpos de rochas que poderiam ser assim denominadas nesta época.

Os jovens escoteiros estavam atravessando uma zona composta por rochas metamórficas muito antigas, que formam grandes cristas de serra, formada por duros quartzitos. Em outros locais, ocorriam mármores ora cinzentos, ora mais claros. Estas rochas eram a razão do potencial mineral do Vale do Ribeira. Só para dar um exemplo: na vila de Pedra Preta, onde hoje está a atual cidade de Tunas do Paraná, haveria de se iniciar alguns anos depois a extração de uma rocha ornamental muito usada hoje em dia, o “granito verde Tunas”.

Nas encostas das serras que eles iam pacientemente atravessando, eram frequentes as cachoeiras. Nestas cachoeiras e corredeiras ao longo da estrada, as caninhas do mato e os cordões de frade estavam sempre presentes, batidas pelo vento formado pela energia das quedas d´água. Um espetáculo para encher os olhos...

Nesta bucólica caminhada, os meninos chegaram na vila de Epitácio Pessoa no fim da tarde. A vila já tinha sido mais importante, mas estava em decadência econômica. As casas de estuque tinham buracos na parede e estavam com aparência de malconservadas. A igrejinha pequena, no alto de uma pequena colina, não dava aparência melhor à vila.

Os rapazes encontraram abrigo numa casa que servia ao mesmo tempo de botequim, escola, residência e engenhoca de cachaça. Ao procurarem um rio para tomar banho, conversaram com alguns meninos da vila. Estes meninos disseram que os homens do lugar não estavam gostando da presença deles ali. Achavam que eles eram policiais procurando marginais e fugitivos  homiziados naquele fim de mundo.

A razão para as suspeitas eram as vestimentas do chefe Beto. Vestido com um culote e portando um capacete, chefe Beto também tinha um revólver na cintura. O porte militar do jovem chefe escoteiro chamou a atenção dos homens da cidade. Ali, naquela vila cheia de fugitivos da justiça, a sua simples presença provocava verdadeiramente esta suspeita.

Entretanto, o que realmente chamou atenção dos rapazes foi a professorinha da vila. Curiosa e bonitinha, ela atraiu a atenção dos rapazes, que ficaram conversando com a moça até a hora de dormir.

Na hora de dormir, chefe Beto ficou com a única cama, tendo os outros que se contentar com o chão. Aquela seria a ultima noite dos rapazes no sertão paranaense.

domingo, 25 de novembro de 2018

O BEBADO, AS ELEIÇÕES E A FANTA LARANJA


Antigamente, as eleições no Brasil eram muito violentas. Quase como as ultimas. Para coibir essa violência, a legislação eleitoral criou a "Lei Seca": um dia antes e no dia da eleição bebidas alcoólicas não poderiam ser vendidas ou consumidas em local público. 

Numa eleição antiga, num bar da cidade, um conhecido bêbado capelista estava sentado na mesa de um bar perto do Mercado Municipal, com uma garrafa de Fanta laranja e um copo. 

O Delegado, ao passar por ali, viu a cena a perguntou ao Bêbado: "voce está bebendo?" "refrigerante", respondeu o bêbado. 

O Delegado não acreditou. Repetiu a pergunta e obteve a mesma resposta. Então, ele olhou para o copo de Fanta na mesa e disse: "Voce não me engana, seu cabra!". Dito isso, passou a mão no copo e tomou um gole. "É Fanta mesmo!", espantou-se o Delegado. Ao sair ainda disse ao Bêbado: "poxa, voce está mudando, hein?". 

Mal o Delegado virou a esquina, o bêbado passou a mão na garrafa - que era onde estava a cachaça - e tomou mais um gole, feliz. 

(essa é mais uma daquelas que, se Seu Maneco não escreveu, se soubesse da historia, ele a teria escrito, com certeza...)

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

EU NÃO SOU SOLDADO



Por volta do ano de 1950, apareceu em Antonina um oficial reformado, por nome de Major Pombo, como era conhecido.
O Major Pombo é desses que, pelo posto militar, entende que tudo tem que ser como ele deseja, e sempre aplicou aquele termo de soberania: “sabe com quem está falando?”
Tendo comprado um sitio nas redondezas do município, resolver levar a efeito sua pequena fazenda. Isto motivado pela valorização das terras e o incentivo à plantação de café, conseguiu o capataz e começou a sua vida de agricultor.
Teve pelo seu ímpeto do “você sabe com quem está falando” diversos atritos.
Certa ocasião veio à cidade para comprar carne para sua fazenda. Percorreu os açougues sem conseguir, a carne estava na vez da fita e os açougueiros tinham os seus compromissos, e não podiam atende-lo. Ficava irritado, e logo dizia: “sabe com quem está falando?”
Por ultimo foi ao açougue do senhor Ovídio Agner Mendes (Vidoca) e perguntou se tinha carne. O senhor Vidoca respondeu que não. Ele [o Major] vendo que existiam alguns pesos de carne, insistiu para ser atendido. O senhor Vidoca ponderou nos seus compromissos, motivo pelo qual sentia não poder atende-lo.
O Major Pombo irritou-se e logo disse: “você sabe com quem está falando?”
O senhor Vidoca parou o seu serviço, olhou bem para a personalidade, baixou os óculos e respondeu: “não sei com quem falo.”
O Major Pombo com autoridade: “é o Major Pombo.”
O senhor Vidoca deu uma risadinha e respondeu: “o senhor pode ser major – mas eu não sou soldado...”

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O SUICIDA



No ano de 1930 apareceu na firma J. Cordeiro um rapaz com aparência de seus 21 anos, à procura de serviço.
Foi o mesmo atendido em sua solicitação começando a trabalhar no armazém de serviços de descarga de vagões e carregamentos de lanchas, no que deu-se bem.
Logo no início, já de camaradagem com os demais trabalhadores, ficamos sabendo ser filho de bugre. Todos o conheciam pelo nome de Xixipe.
O rapaz logo se enamorou por uma tal Maria Louquinha, que morava na zona do Portinho. E não trabalhava mais, só pensando na sua amada.
Num domingo o mesmo encontrou a sua namorada com um Don Juan, na fonte da Carioca. Ficou muito triste, contou aos companheiros o que tinha acontecido, e disse que ia suicidar-se.
Os seus colegas, conhecendo a Maria Louquinha, começaram a rir.
O rapaz dirigiu-se à Ponte Bandeira Ribas, dizendo que ia suicidar-se mesmo. Os seus colegas ficaram surpresos ante a sua atitude e esperavam o trágico desfecho, quando o mesmo chega a cabeceira da ponte e senta-se.
O tempo formava-se, roncos de trovões, e não demorou muito cai um forte aguaceiro. O rapaz levantou-se e retornou ao armazém.
Quando o mesmo chegou ao armazém, o José Soares, seu colega de serviço o interrogou sobre sua atitude de suicidar-se, ao que o mesmo respondeu:
“a chuva está muito forte, e a maré muito cheia”.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

DORMINDO NO QUARTEL


Vista panorâmica do 6° RI, em Caçapava, onde os escoteiros pernoitaram

Não se pode dormir sossegado à beira de uma grande estrada, como a que atravessava o Vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro. Os escoteiros souberam disso bem cedo. Para ser mais exato, as 6 da manhã. Por ali circulavam os caminhões que levavam leite para a Indústria de Laticínios de Campos do Jordão. Havia também outras grandes indústrias de laticínios, como a Vigor e a Armour.
Como registra Lydio em seu diário, pelo menos leite nunca faltou nesta etapa da viagem. Frequentemente, os produtores lhes davam litros e mais litros de leite, que eles bebiam com o entusiasmo de bezerrinhos.
Naquele dia, entretanto, eles haviam caminhado sem descanso até umas onze horas. Era preciso, para recuperar o tempo perdido. Cansados e com fome, eles perguntaram pela comida ao chefe Beto. Chefe Beto respondeu-lhes que havia sobra do só um pouco de comida, mas ela era só para ele: "Cada um por si e Deus por todos”, acrescentou.
Dito isso, ele pegou um belo sanduiche de presunto e queijo e um resto de leite e começou a saboreá-lo na frente dos outros. Para os outros, só havia leite. E foi o que eles almoçaram.
Lydio comenta que estava anotando isso em seu diário para que todos possam sabe que a viagem deles não foi um mar de rosas. Em alguns momentos, a vontade de jogar tudo para cima e desistir eram muito grandes. Entretanto, não se sabe como, “só o esforço hercúleo e a união dos quatro”, desiludidos pela falta de consideração do Chefe Beto, “é que garantiu o sucesso da missão”. Mas isso era somente a metade do dia.
Logo logo uma grande duma chuva os apanhou no descampado, obrigando-os a se socorrerem numa choupana abandonada. Ficaram ali um tempo, esperando a chuva passar. Quando passou, retomaram o caminho em direção a Caçapava.
As três e meia da tarde passaram pela vilinha de Eugenio de Melo, que Lydio notou ter somente “umas vinte casas e uma igreja católica”. Ali, pararam numa vendinha e se fartaram de comer biscoitos e pão com queijo e mortadela. Chegaram ao luxo de tomar um guaraná cada um.
Á tardinha chegaram em Caçapava, lá, tinham destino certo: o quartel do 6° Regimento de Infantaria. O 6° RI era uma das mais antigas e famosas unidades do exercito brasileiro. Estava em Caçapava desde 1919, mas a unidade já havia participado da guerra do Paraguai. Entre 1915-16, foi mobilizado na repressão á rebelião do contestado. No ano seguinte, em 1943, o 6° RI, juntamente com o 11° RI de São João Del Rei foi parte da FEB, tendo participado de praticamente toda a campanha italiana. Mas isso é futuro.
Neste dia, os chanceleres discutiam se ficariam neutros ou se alinhariam com os Estados Unidos. O governo Vargas, tendo garantido a siderúrgica de Volta redonda com dinheiro americano, já sabia que lado tomar. Lá na Europa, era mais um dia de ocupação alemã. No Japão, tropas australianas tentavam impedir o avanço japonês.
Em 17 de janeiro de 1942 os escoteiros foram alojados no 6° RI de Caçapava, onde só deu tempo de largar as tralhas no alojamento e subir rápido para pegar a boia. Depois, de banho tomado, foram levados por um suboficial a conhecer Caçapava.
Lá, eles visitaram a Radio Sociedade de Caçapava e o Caçapava Tênis Clube. Lá, tinha um sarau dançante, mas Milton, Manduca e Canário, cansados, voltaram ao quartel. Lydio e Beto ainda tiveram forças para ir ao cinema. Lá, segundo Lydio, viram o seriado “besouro Verde” e depois um filme policial.
Quando voltaram para o quartel ainda tiveram tempo de ouvir no radio o final de Brasil e Argentina pela Taça Sul-americana. A argentina ganhou, mas os meninos ficaram felizes ao saber que Caju, o grande goleiro atleticano e da seleção fora a grande sensação da partida.
A chuva ainda caia lá fora, e fazia frio. Os meninos, dessa vez bem protegidos, puxaram as cobertas e dormiram;



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FAZER AS PAZES NO VALE DO PARAIBA



Vista aérea de Jacareí e do Rio Paraíba do Sul em 1940, pouco antes dos escoteiros de Antonina passarem por ali. 
As sete horas da manhã, os escoteiros acordaram com os apitos da Maria Fumaça. Aquele dia, eles dormiram na cadeia de Jacareí, hospedados pelo delegado Clodoaldo de Abreu. Clodoaldo, que era irmão do comerciante antoninense Leopoldino de Abreu, havia recebido os meninos com a cordialidade de conterrâneos que se encontram no estrangeiro. Oferecera-lhes um rancho reforçado e deixara que estendessem as roupas molhadas no varal da cadeia. Não devia estar muito cheia a cadeia de Jacareí nesta quente sexta feira de janeiro de 1942.
Neste mesmo dia, os jornais do Rio de Janeiro noticiavam o início de uma ampla ofensiva Soviética na Ucrânia. Os japoneses ameaçavam Singapura, na Ásia. Mas a maior noticia da guerra, no entanto, era ali no Rio. Chanceleres de praticamente todos os países americanos estavam reunidos na capital federal, para discutir solidariedade internacional e repudio ao ataque japonês recém sofrido pelos Estados Unidos na base naval de Pearl Harbour, no Havaí.  
A III Conferencia de Chanceleres dos países americanos no Rio de janeiro em janeiro de 1942 significou um alinhamento da maior parte dos países à causa aliada. A partir daí a beligerância iria aumentar, bem com o ataque de submarinos alemães a navios brasileiros, forçando Getúlio Vargas a declarar guerra aos países do Eixo em agosto de 1942.
Enquanto isso, ali na delegacia de Jacareí, os meninos tomaram rapidamente o seu café. Logo, se puseram na estrada. Ao meio dia, pararam na localidade de Rio Comprido, próximo a São José dos Campos, onde lancharam café com leite, pão e ovos fritos. Lydio anotou em seu diário que essas despesas foram da ordem de 7.500 réis.
Logo depois, morrendo de calor, atravessaram um pequeno córrego e passaram por um pequeno aglomerado de casas chamado Vila Ema, onde ganharam alguns abacaxis, prontamente devorados. Continuaram subindo o morro até São José dos Campos.  Atravessarem rapidamente a cidadezinha e acamparam a uns 4 km adiante, num pequeno campinho.
Fazia trinta dias que os bravos escoteiros haviam saído de Antonina, em sua marcha rumo ao Rio de Janeiro. Era um momento de celebração no meio da viagem. A barraca foi armada e a fogueira acesa.
O “banquete” constou de peixe seco, farinha de milho, arroz e café com leite, acompanhado de pães quentes. Essa estranha mistura foi acompanhada de uma intensa discussão sobre os planos vindouros e para apagar os desentendimentos do passado recente.
Havia poucos dias, na altura de Guararema, o desentendimento entre os quatro meninos e o chefe Beto havia posto a missão em risco. Houve um estranhamento, eles se separaram, mas depois voltaram a se encontrar. Havia magoas a serem postas de lado. E, conta Lydio, foi o que fizeram. dali a pouco estavam contando piadas e rindo, despreocupados.
Aquele era um momento difícil na historia da humanidade. Ao longe, milhões morriam nos campos de combate e nas cidades conflagradas. O Brasil vivia um momento de apreensão em saber para qual lado penderia nesta guerra. Lá longe, na pequena Antonina, suas famílias estavam apreensivas com o que estava acontecendo com os cinco rapazes.
Afastado o desentendimento, eles estavam bem. Lydio conta em seu diário que tirou sua gaita de boca do bolso e todos começaram a cantar as marchinhas do carnaval daquele ano. Quase todos sabiam de cor todas as letras, pois eles as ouviam com frequência no rádio. Um pouco mais longe, sentado num toco de madeira, chefe Beto cachimbava.
Ao anoitecer, cada um procurou se aconchegar num canto da barraca e dormiram o sono dos cansados.

quarta-feira, 29 de março de 2017

OS "MILIONARIOS DOS QUILÔMETROS" CHEGAM AO FIM DA JORNADA




Era uma segunda feira de quaresma, e a igreja matriz de Antonina estava cheia. Parecia que era festa de agosto, a igreja lotada de gente, o burburinho tomando conta do átrio e ressoando pela nave da matriz. Era um dia de festa e regozijo. As oito horas da noite do dia 9 de março de 1942 o padre Leonardo Starzinski rezou uma missa em homenagem aos cinco escoteiros.
Faziam sete anos que o padre Leonardo estava ali na paroquia. Iniciara seu vicariato em 1936, substituindo o enérgico padre Bernardo Peirick, que havia feito muitas reformas na matriz, que ainda hoje guardam seu estilo. Padre Leonardo, ao contrário de padre Bernardo, eram um catequizador. Naquela noite na missa noturna, esperando pelo seu sermão, havia paroquianos especiais: os cinco rapazes recém-chegados de sua jornada a pé ao Rio de Janeiro.
Para o sermão, escolheu alguns trechos selecionados do Êxodo, falando das agruras sofridas pelos judeus em sua busca pela Terra Santa. Os sacrifícios, os descaminhos, as incertezas, tudo isso foi citado em seu sermão. Os rapazes escutaram tudo com atenção e devoção. Ao encerrar, padre Leonardo pediu a Deus para que os rapazes seguissem sempre os caminhos do Bem. E ressaltou que o seu feito servisse de modelo para as gerações de escoteiros do futuro, como anotou Lydio Cabrera em seu diário.
A aventura chegara ao fim. Depois das festividades da volta, houve ainda diversas atividades sociais a cumprir. Lydio nos conta que, no dia seguinte à chegada, aceitara tomar um chá na casa da Profª Assíria Linhares, onde contou um pouco de sua experiência à velha mestra. À tarde, os cinco rapazes foram visitar o capitão Custodio Raposo Neto, Prefeito Municipal, junto a outras autoridades, conforme anotou Lydio. Depois, ainda deram uma entrevista para o jornalista João da Cruz Leite, editor do Jornal de Antonina. Já estava de noite quando saíram de lá.
Mas as festividades prosseguiam: ainda nesta noite houve um jantar de confraternização na casa do Chefe Picanço. Lá, em volta da mesa, seu Manequinho fez um pequeno discurso, dizendo-se muito satisfeito com o feito dos cinco rapazes. Ressaltou que os esforços e a força de vontade de cada um haviam contribuído para o sucesso da missão. Eles eram, para seu Maneco, o orgulho do escotismo antoninense. Talvez, frisou o chefe, um feito desta envergadura nunca mais viesse a ser repetido no escotismo brasileiro.
Na reunião da noite, na Caserna dos Escoteiros, houve ainda uma Sessão Cívica. A bandeirante Araildes Horibe saudou os rapazes, finalizando com estas palavras: “os vossos nomes serão gravados na História de Antonina e com letras de ouro, no livro desta Associação, como os milionários dos quilômetros”. O Chefe Beto, agradecendo as palavras da Bandeirante Escoteira, disse que, “se fosse preciso, eles o fariam novamente, e com grande satisfação”. Ao final, a banda musical da tropa escoteira começou a tocar um dobrado, aumentando a alegria da festa. Com todos eufóricos cantando o Hino Nacional, a sessão foi finalmente encerrada. A missão havia acabado.
Ao sair da igreja aquele dia, sentindo o vento fresco vindo do mar, os cinco rapazes não sabiam do que a vida ia fazer deles. Cada um voltou a suas casas, a suas famílias, e cada um viveu suas vidas. Os meninos, durante toda sua vida, foram intensamente homenageados na cidade, onde viraram nome de rua, e onde sempre foram solicitados a contar os detalhes de sua aventura.
Mas sua missão não foi jamais esquecida. Hoje, mais de 70 anos, os valentes e ingênuos rapazes da Capela ainda povoam as nossas mentes. Não há antoninense que não saiba, ao menos por cima, sobre a sua expedição. Alguns os chamam de heróis. Outros, de loucos. Outros, ainda, acham que seu sacrifício valeu somente para um bando de políticos aproveitadores. Muito embora o significado verdadeiro de sua jornada se tenha perdido no tempo e nas memorias de quem a viveu, o feito ainda impressiona.
Não há como não se impressionar com cinco rapazes perdidos no mundo para entregar uma carta ao presidente. A carta em si não significou muito, mas a jornada colocou Antonina no mapa. Isto não é pouco.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O CURIÓ DE SEU ADMARO



Certa vez, o Sr Admaro Santos estava atrás de um bom curió cantador. Sabendo da demanda, nosso amigo Pompéia apresenta ao Jornalista um curió que lhe agradou bastante. Negócio feito, Sr Admaro colocou a gaiola em sua varanda para ouvir a suave cantoria.
Entretanto, começou a perceber que a pobre ave não conseguia subir direito ao poleiro. Mancava, puxando uma perninha. Ao perceber isso, procurou logo o Pompéia, para colocá-lo a par do que acontecia com o curió.
Ao saber do ocorrido e levar um sabão do Sr Admaro, Pompéia não se abalou. Ouviu até o fim, e depois perguntou, em sua defesa:
“Doutor, o senhor quer um curió que cante ou um curió que dance? ”

PS – esta história me foi contada há uns dois anos atrás durante o Jequiti Cultural pelo meu amigo Epitácio Machado. Não menos importante, foi contada junto com o próprio Pompéia, que só deu um sorriso maroto quando perguntei se era mesmo verdade...Será que Seu Maneco gostaria de conta-la?

sábado, 4 de março de 2017

A VOLTA PARA CASA: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES


Em março de 1942, a viagem de volta dos escoteiros antoninenses tinha o risco real de ataques de submarinos alemães
Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o navio enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora.  Uma onda acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada, e Lydio receou que fosse atirado ao mar pelos vagalhões de agua salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha e foi forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família.
Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos, até que tomou coragem e voltou a seu camarote. Estava encharcado e gelado. Tomou um banho, caiu na cama e dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio.
Haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa.
Já no navio, ao singrar as aguas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar.
Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com  sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam.
Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.
O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. Em pouco tempo, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros e que seria decisivo para a declaração de guerra aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto.
Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, o barco viajava todo pintado de preto, e nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.
Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite.
Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estava atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

domingo, 3 de maio de 2015

AGUARDE OPORTUNIDADE NÃO HÁ VAGA




Em uma das gestões do Dr Heitor Soares Gomes como prefeito Municipal, teve o mesmo que ausentar-se do município.
Por força de Lei, teria que passar a Prefeitura ao seu substituto, o Presidente da Câmara, um cidadão semi-analfabeto, que na gíria popular malmente sabia assinar o nome (deixo de mencionar o nome da ilustre autoridade da época, para não ferir seus descendentes).
Mas o Dr Heitor, sabedor da situação, explicou: “Todo requerimento que entrar somente faça este despacho - Aguarde oportunidade - e quando for pedido de emprego como professor ou outros cargos, despache ‘Aguarde oportunidade não há vaga’”.
Explicou tudo muito bem, que na sua volta resolveria os assuntos, pois a sua auzência era de uns 20 dias o mais tardar.
Fez ciente que um caboclo conhecido por Manequinho Centenário andava pleiteando um cargo de professor no Quatinga, e que seu interino desse o requerimento conforme fora indicado. Tudo certo, tudo feito, o Dr Heitor transferiu o cargo.
Acontece que dias depois morre no sitio a mulher do tal Manequinho. O mesmo vem tratar do funeral e requereu licença para o sepultamento no cemitério de São Manoel.
Resolveu falar com o Prefeito. Foi ao gabinete, quando o mesmo ia entrando o Prefeito disse:”Já sei de tudo, avise lá em baixo que mande para cá o seu requerimento para ser logo despachado”. O pobre homem cabisbaixo agradeceu e se retirou.
Logo o contínuo traz um maço de requerimentos, o Prefeito com ar importante, poz os óculos, e logo procurou o do Manequinho, era seu primeiro despacho.
Mas não leu o requerimento para ver o assunto. Como o Dr Heitor tinha avisado que o homem andava pleiteando o cargo de professor e já tinha treinado no despacho largou o verbo:

“Aguarde oportunidade não há vaga.
fulano de tal
Prefeito Municipal”.


quinta-feira, 23 de abril de 2015

MOLAS QUEBRADAS


O nosso amigo José Peixoto Pinto, quando fez cavação por meios políticos como cabo eleitoral do P.S.D. em prol da candidatura do Dr Pedro Taborda Veiga para deputado estadual, conseguiu um emprego no estado, ser professôr e mais tarde transferiu-se para jardineiro do Grupo Escolar Dr. Brasílio Machado.
E para assumir as funções de funcionário teve o nosso amigo de arrumar a papelada e ir até a capital fazer exame de saúde, seguro de vida e um amontoado de coizas que até o deixou todo atrapalhado.
O Sr gerente da firma Valente ao saber que o Zéco iria a Capital deu-lhe uma incumbência, mandar consertar um despertador.
O Zéco logo ao chegar a capital tratou logo do conserto do despertador. A casa de conserto entregou-lhe a ficha que o mesmo guardou, não olhando o que dizia.
Foi a secretaria de Saúde tirou chapa de Raio X e corre d'aqui, corre d'ali; uma papelada sem fim e foi guardando tudo.
Na hora H grampeou toda a papelada entregou à encarregada na secretaria de Educação para afinal receber o título de nomeação, tudo já estava quase pronto.
Mas resolveu a encarregada de fazer uma revisão na papelada, e qual não foi a sua surpreza, ao deparar que o Zéco não estava em condições de saúde normal, ainda deu tempo de chamá-lo e disse: “o Senhor ainda não pode receber o título, me devolva”. O Zéco intrigado com o caso, pois o seu exame déra tudo bem e agora surgia esse impasse a ultima hora. Ficou nervoso, perguntando à encarregada qual o motivo de tal atitude.
A encarregada imediatamente respondeu: "Tem um caso complicado em sua Radiografia". O Zéco ainda mais nervoso ficou: "Isso não pode ser...a senhora me explique o que está acontecendo".
A encarregada lhe explicou:”Aqui tem mola quebrada”.
Aí é que o Zéco pode notar o engano, e ponderou:”A senhora me desculpe, houve um engano em logar do cartão de Radiografia eu tinha colocado o cartão do despertador. O que está com a mola quebrada é o despertador do Gerente do Valente - as minhas estão todas boas”.

(NE- Da mesma forma que o post anterior, conservei as grafias antigas que não prejudicavam o entendimento do texto)