sábado, 4 de abril de 2020

QUANTO VALE UMA VIDA?


peguei daqui


A pandemia/epidemia de coronavírus que estamos vivendo não pode mais ser relativizada. Precisamente na última quinta-feira, 2 de abril, o número de mortos pelo coronavírus (299 vítimas) ultrapassou o número de mortes no desastre do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, 272 pessoas. Quantas Brumadinhos cabem nesta nova tragédia?

A pergunta que muito se fez, e a única a qual não se deveria fazer, é: Quanto vale uma vida? Entre pasmos e boquiabertos, estamos vendo raciocínios completamente estapafúrdios sendo feitos nas nossas fuças: quantas vidas seria necessário sacrificar para manter a sociedade, leia-se economia, funcionando? 

O empresariado bolsonarista não se cansa de fazer esta proposição. “Por causa de cinco mil, sete mil vidas” não se deveria parar a economia. O próprio “mito” faz raciocínio idêntico: “morreu, lamento”, diz o ex-militar, que não parece se incomodar com baixas que seus governados vêm sofrendo. Parece que nem ficam ruborizados. Como tantos já apontaram, vivemos tempo em que ficou “natural” falar estas barbaridades.  

As barbaridades são ditas em ambientes limpinhos e requintados, com empresários falando serenamente aos microfones coisas igualmente sensatas e razoáveis. A empatia evapora-se como álcool gel. Não há aqui ogeneral franquista gritando “Viva la muerte!”. Não há imagens de Hitler e Goebbels defendendo a “Solução Final”. Mas também é Necropolítica. Na veia.

Frente a raciocínios tão sofisticados, seria justo perguntar: quais seriam estas vidas que se pode abrir mão? Quem são as buchas de canhão da nova pandemia? Por certo não seriam as suas próprias, nem de seus familiares. Seria, é claro, a vida do outro, do distante, do pobre, do negro, do imigrante, do idoso. A morte das pessoas invisíveis não faz corar ao empresariado liberal. 

Há também os que se refugiam na aparente neutralidade dos números. No início de março várias pessoas relativizavam a pandemia dizendo que o número de mortos seria pequeno, por causa da baixa letalidade” da nova doença. No entanto, a escalada de disseminação da doença e as mortes associadas mostra outra realidade. Quanto dá 2,5% de 210 milhões? Quem vai pagar essa conta?

Alguns outros argumentam: por que ligar para um número tão pequeno de mortes, se o trânsito mata mais? Se fumantes morrem mais?

É o mesmo problema que temos para comparar um acidente de avião com os acidentes de carro. Um acidente de avião instantaneamente mata centenas de pessoas. Já os acidentes de trânsito são menores e mais espaçados no tempo. 

A morte concentrada e trágica destes eventos é mais impressionante pelo volume e intensidade. Por isso os acidentes de avião chocam mais que as milhares mortes do trânsito

(Isso não quer dizer que os acidentes de trânsito não sejam um problema. Obvio que são. Entretanto, a solução dada pelo atual desgoverno é uma chocante flexibilização das regras de trânsito. Especialistas são unânimes em dizer que as medidas tomadas pelo “mito” aumentam a insegurança e, por consequência, o número de mortes.)

Não estamos mais nas “pestes” do passado, onde se acreditava que as mortes eram causadas pela ira divina. Temos uma sociedade tecnológica que pode (e está) respondendo rapidamente aos fatos verificados durante a dispersão da pandemia do coronavírus. 

Entretanto, vivemos, particularmente em nosso país, uma forma perversa de pensar e agir, que tende a sacrificar os mais pobres e vulneráveis em nome de uma pretensa racionalidade dos negócios. No entanto, vida e economia não se separam. Quanto mais pessoas expostas, maior será a mortalidade. 

Quando a escalada de mortes começar, nas próximas semanas, o impacto na vida e no funcionamento dos hospitais e serviços funerários vão cobrar seu preço. E isso traz consequências sociais e políticas impossíveis de prever.

terça-feira, 24 de março de 2020

NÃO É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!


Caminhões do exercito italiano carregando caixões de vitimas do coronavírus

No meio de uma situação de tragédia, ninguém pensa em dinheiro. 

Estive em várias situações de desastre. Nestas situações, a última coisa que você pensa é dinheiro. Pessoas estão morrendo, pessoas vão morrer, pessoas estão em luto e em situação de estresse psicológico. Muitos perderam tudo. E você ali, no meio daquilo tudo. Qual é a medida a tomar?

Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, teria dito o Marques de Pombal a um atônito Dom João, rei de Portugal, quando este lhe perguntou o que fazer imediatamente após o Grande Terremoto de Lisboa, em 1755. 

Hoje, com o mundo todo em meio a esta brutal pandemia causada pelo coronavírus, esta é a questão: como enfrentar esta pandemia com o menor número de mortos? 

Entretanto, esta é uma crise sui generis. Estamos em casa, e podemos assistir as notícias que vem de longe. Podemos ter acesso a vídeos, lives e documentários. Podemos conversar com todos os nossos parentes amigos e colegas pelo whatsapp. Não fosse a anormalidade, parece que está tudo normal.

Mas não está. A falta de conhecimento das pessoas sobre o que é um vírus acaba levando a inúmeras ações inseguras. Uma pessoa aqui contamina a outra ali e a pandemia vai se espalhando a uma velocidade quase supersônica. 

Um vírus é muito pequeno, não conseguimos enxergá-lo. Parece mesmo que não está ali. Por isso, para a maioria das pessoas, parece que a pandemia não existe. O desfile de caixões nas ruas de Bergamo na Itália, não comovem ninguém aqui, do outro lado do mundo, também com muitos problemas a resolver. 

Esta falta de empatia, no entanto, é também viral. Pessoas enchem a boca pra subestimar “o tal do coronga”. É uma gripezinha, dizem uns. É uma histeria, uma crise à toa, dizem outros. 

Entretanto, as piores são as falas que fazem pouco caso da tragédia, tendo com o contraponto as vidas das pessoas. “Morre um aqui, outro ali pelas complicações, fazer o quê?”, disse em entrevista na semana passada aquele que não mais nos governa

Os empresários que estão apoiando a necropolítica da atual gestão também se fazem ouvir em alto e bom som: Um empresário do entretenimento faz coro ao necro-presidente, dizendo que "12 mil mortes em 7 bilhões de habitantes é muito pouco pra criar essa histeria coletiva”. 

A crise econômica que se avizinha por causa dos cuidados com a pandemia também é criticada por estes empresários. Um empresário do ramo alimentício diz que “não podemos [parar a economia] por conta de 5 mil pessoas que vão morrer”

Por obvio que estas tantas mortes, na cabeça dos empresários, não são de parentes seus, nem de entes queridos. São da “tigrada”. São números num gráfico de barras do Excel. São corpos amontoados carregados por carroças, como nas antigas ilustrações da Peste Negra, ou da procissão de caminhões carregando caixões anônimos de vítimas anônimas vista pela televisão ou na internet. 

Quanto vale uma vida, uma só?

Essa é a questão que temos que resolver como sociedade. Estamos com uma emergência muito grande, pois temos muitas pessoas vulneráveis, que podem morrer pelo vírus. E temos muitas pessoas vulneráveis que podem morrer de fome, pela asfixia econômica que o confinamento vai criar. O que fazer?

Como disse ontem a economista Monica de Bolle, neste momento eu não perguntaria isso para um economista, eu perguntaria primeiro para um infectologista. 

Existem diversas formas de fazer com que medidas de prevenção contra o coronavirus e medidas de apoio social possam vigorar juntas sem promover o caos. Tem muita gente pensando e propondo coisas interessantese factíveis. Existem governos executando políticas deste tipo

Quanto vale vinte mil dólares no bolso dentro do Titanic adernando? A economia não é tudo. 

Vidas são mais. 

segunda-feira, 9 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS (FINAL): "OS MILIONARIOS DOS QUILÔMETROS"

A vista da cidade de Antonina a partir da igreja de Nossa Senhora do Pilar, onde foi rezada a missa de agradecimento pelo bom fim da aventura dos rapazes. 
(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 9 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão numa missa em homenagem a eles. Depois de quase dois meses, a aventura dos cinco rapazes chega a seu fim. )

Era uma segunda feira de quaresma, e a igreja matriz de Antonina estava cheia.

 Parecia que era festa de agosto, a igreja lotada de gente, o burburinho tomando conta do átrio e ressoando pela nave da matriz. Era um dia de festa e regozijo. As oito horas da noite do dia 9 de março de 1942 o padre Leonardo Starzinski rezou uma missa em homenagem aos cinco escoteiros. 

Fazia sete anos que o padre Leonardo estava ali na paroquia. Iniciara seu vicariato em 1936, substituindo o enérgico padre Bernardo Peirick, que havia feito muitas reformas na matriz, que ainda hoje guardam seu estilo. 

Padre Leonardo, ao contrário de padre Bernardo, eram um catequizador. Naquela noite na missa noturna, esperando pelo seu sermão, havia paroquianos especiais: os cinco rapazes recém-chegados de sua jornada a pé ao Rio de Janeiro. 

Para o sermão, escolheu alguns trechos selecionados do Êxodo, falando das agruras sofridas pelos judeus em sua busca pela Terra Santa. Os sacrifícios, os descaminhos, as incertezas, tudo isso foi citado em seu sermão. Os rapazes escutaram tudo com atenção e devoção. 

Ao encerrar, padre Leonardo pediu a Deus para que os rapazes seguissem sempre os caminhos do Bem. E ressaltou que o seu feito servisse de modelo para as gerações de escoteiros do futuro, como anotou Lydio Cabrera em seu diário. 

A aventura chegara ao fim. Depois das festividades da volta, houve ainda diversas atividades sociais a cumprir. Lydio nos conta que, no dia seguinte à chegada, aceitara tomar um chá na casa da Profª Assíria Linhares, onde contou um pouco de sua experiência à velha mestra. 

À tarde, os cinco rapazes foram visitar o capitão Custodio Raposo Neto, Prefeito Municipal, junto a outras autoridades, conforme anotou Lydio. Depois, ainda deram uma entrevista para o jornalista João da Cruz Leite, editor do Jornal de Antonina. Já estava de noite quando saíram de lá. 

Mas as festividades prosseguiam: ainda nesta noite houve um jantar de confraternização na casa do Chefe Picanço. Lá, em volta da mesa, seu Manequinho fez um pequeno discurso, dizendo-se muito satisfeito com o feito dos cinco rapazes. 

Ressaltou que os esforços e a força de vontade de cada um haviam contribuído para o sucesso da missão. Eles eram, para seu Maneco, o orgulho do escotismo antoninense. Talvez, frisou o chefe, um feito desta envergadura nunca mais viesse a ser repetido no escotismo brasileiro. 

Na reunião da noite, na Caserna dos Escoteiros, houve ainda uma Sessão Cívica. A bandeirante Araildes Horibe saudou os rapazes, finalizando com estas palavras: “os vossos nomes serão gravados na História de Antonina e com letras de ouro, no livro desta Associação, como os milionários dos quilômetros”. 

O Chefe Beto, agradecendo as palavras da Bandeirante Escoteira, disse que, “se fosse preciso, eles o fariam novamente, e com grande satisfação”. Ao final, a banda musical da tropa escoteira começou a tocar um dobrado, aumentando a alegria da festa. Com todos eufóricos cantando o Hino Nacional, a sessão foi finalmente encerrada. A missão havia acabado. 

Ao sair da igreja aquele dia, sentindo o vento fresco vindo do mar, os cinco rapazes não sabiam do que a vida ia fazer deles. Cada um voltou a suas casas, a suas famílias, e cada um viveu suas vidas como puderam. Os meninos, durante toda sua vida, foram intensamente homenageados na cidade, onde viraram nome de rua, e onde sempre foram convidados a contar os detalhes de sua aventura.

Sua missão não foi jamais esquecida. Hoje, mais de 70 anos, os valentes e ingênuos rapazes da Capela ainda povoam as nossas mentes. Não há antoninense que não saiba, ao menos por cima, sobre a sua expedição. Alguns os chamam de heróis. 

Outros, de loucos. Outros, ainda, acham que seu sacrifício valeu somente para um bando de políticos aproveitadores. Muito embora o significado verdadeiro de sua jornada se tenha perdido no tempo e nas memorias de quem a viveu, o feito ainda impressiona. 

Não há como não se impressionar com cinco rapazes perdidos no mundo para entregar uma carta ao presidente. A carta em si não significou muito, mas a jornada colocou Antonina no mapa. Isto não é pouco.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 83: A CHEGADA TRIUNFAL


A chegada da tropa escoteira em Antonina depois de um Encontro em Joinville. Como seria a recepção dos rapazes na madrugada de 4 para 5 de março de 1942?
(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 5 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão chegando em casa, finalmente! E a recepção, como seria?)

Era já noite, no dia 4 de março de 1942, quando o navio finalmente chegou. Os rapazes iam acompanhando a lenta e segura manobra do navio para atracar no porto de Paranaguá naquela noite fresca e úmida de fim de verão. 

No cais, os meninos foram recebidos pelo chefe dos escoteiros de Antonina, Maneco Picanço, e por alguns antoninenses que moravam na cidade. Foi uma grande festa. Um momento de muita emoção e alegria ver o chefe Manequinho e seus amigos ali esperando por eles no porto. 

Mas tinha mais. Eles foram informados que toda a cidade estava esperando por eles naquela noite, e iria ter festa nem que fosse de madrugada. 

Um Ford V8 preto estava ali, esperando para levar os rapazes de volta para casa. Seria a última viagem até Antonina, a Doce Antonina, de onde haviam partido em dezembro para uma viagem a pé de 1.250 quilômetros. 

E que viagem. Na certa, os rapazes que agora chegavam não eram os mesmos que haviam partido. Praticamente dois meses de muito sacrifício e de muita novidade, quem ali chegava eram cinco rapazes que conheciam muito mais do mundo. Os meninos voltavam homens. 

O motorista do Ford foi encher o tanque nas imediações. Aquela era uma tarefa bastante complicada naqueles tempos. A gasolina estava racionada em tempos de guerra. Além disso, já era tarde da noite na cidade, com poucos lugares abertos. 

Demorou quase duas horas para voltar com o tanque cheio. De tanque cheio também estavam os rapazes, levados pelo Chefe para fazer uma boquinha antes da última viagem. Era o último lanche que eles comeriam fora de casa. Famintos da viagem, mas ainda lembrando das iguarias que eles comeram no navio, os rapazes comeram bem para aguentar a viagem até Antonina. 

O Ford deixou Paranaguá as 22:00 horas. Eles passaram pela vila de Morretes depois de quase duas horas de viagem. Depois, o carro foi até Porto de cima e seguiram para São João da Graciosa, no entroncamento da Estrada da Graciosa, onde pararam para descansar.  Era esse o caminho da época.

Em São João da Graciosa estava esperando por eles o Sr Nicolau Cecyn, em seu Ford verde, para acompanhá-los no trecho final. Depois de cumprimentar os rapazes, o agora comboio seguiu em frente rumo a Antonina. 

No quilometro 8 da Estrada da Graciosa o comboio encontrou o delegado de polícia de Antonina, o Sr Penny Withers. Não, não era pra prende-los. Era só o que faltava! O delegado estava ali esperando para dar a boa vinda aos rapazes, em nome do prefeito, Capitão Custodio Afonso Neto. 

Quando a caravana chefiada pelo Ford Preto cruzou a Avenida Thiago Peixoto, os foguetes começaram. Era na madrugada do dia 5 de março de 1942. Segundo Lydio, o espetáculo pirotécnico era indescritível. Essa a palavra que ele usou em seu diário. 

Indescritível. Foguetes e morteiros estouravam sem cessar, anota ele. Os carros só pararam, em meio ao foguetório, depois do portal da cidade, próximo do pátio da Estação Ferroviária. Ali, eles desceram para cumprimentar a grande multidão que ali estava. Todos queriam cumprimentar os rapazes, dando-lhes beijos e abraços. 

Como Lydio anotou em seu diário, teve início um grande desfile escoteiro nas ruas de Antonina. Este desfile, impensável para muitos, durou parte da madrugada, que só terminou na Caserna da Tropa Valle Porto. O desfile foi, é claro, acompanhado por grande massa de pessoas. Volta e meia, estourava um foguete perdido, para horros dos cachorros da época. 

Ali, na caserna dos Escoteiros da Tropa Vale Porto, finalmente, os rapazes da Patrulha Touro foram dispensados de sua missão e puderam ir para suas casas. Quanta felicidade!

Ao chegar em casa, com sua família, Lydio conta que estava muito excitado para dormir. Estava cansado, com fome, mas sem sono, querendo desesperadamente falar. Sua mãe, dona Nathalia, foi fazer um café. Enquanto isso, Lydio contava para seu pai alguns dos detalhes da viagem. 

Eram 4 da manhã quando finalmente conseguiu pegar no sono. Segundo conta, demorou pra dormir porque ainda sentia falta do balanço do navio. Ainda excitado com a recepção, ele fechava os olhos e tentava reter na memória tudo o que havia acontecido naquela memorável madrugada. 

A aventura ia chegando ao fim. Mas ainda tinha mais!!

quarta-feira, 4 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 82: COMO UMA ONDA NO MAR

O vapor trazendo os escoteiros atravessa na madrugada de 3 para 4 de março de 1942 uma grande tempestade em alto mar. Os escoteiros passam por situações de perigo real. 


(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 4 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão voltando pra casa. Nesta madrugada, o barco enfrenta uma grande tempestade... )

Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o vapor que levava os escoteiros para sua viagem de volta enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora ver o espetáculo. Isso quase lhe custa a vida. 

Uma forte onda invadiu o convés e acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada. Num instante, ele entendeu o perigo que corria, de ser atirado ao mar pelos próximos vagalhões de água salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha. Entre as coisas que lhe passaram pela cabeça nesse rápido instante foi o forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família. 

As ondas prosseguiam batendo forte no convés, e Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos. Vinham ondas mais fortes e ondas mais fracas, até que tomou coragem e, entre uma onda e outra, saltou para o convés e voltou correndo a seu camarote. 

Estava morrendo de medo, encharcado e gelado. Esperou um tempo para recuperar os batimentos cardíacos. Depois tomou um banho, caiu na cama e, para sua sorte, dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio. 

Ele e seus colegas escoteiros de Antonia, mais seu colega Gastão Batinga, escoteiro sergipano que seguia para Curitiba, haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  

Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto. 

Mas tudo isso já era história. 

Ao cair da tarde do dia 4 de março de 1942, depois de passar ao largo de Cananeia e entrar no canal da Ilha do Mel, o vapor que conduzia os cinco escoteiros estava chegando ao atracadouro do porto de Paranaguá. 

O fato de o navio chegar até ali e não ir até Antonina era simplesmente o fato causador da viagem dos rapazes, fazia três meses quase: o fechamento da Companhia Costeira pelo Governo Federal, que fazia a rota comercial até Antonina. 

A carta que os rapazes haviam entregado explicava ao Ditador as razões da cidade para ter a volta dos navios da Costeira de volta. Antonina era o caminho mais curto para Curitiba, servido diretamente pela estrada da Graciosa. Era o atracadouro mais ocidental da baia de Paranaguá, com obvias vantagens em termos de distância e, consequentemente, em fretes.

Os navios da Costeira, que haviam sido recentemente estatizados pelo Governo, eram o grande elo que unia Antonina na rede do comercio de cabotagem do Brasil. Sem ele, o comercio perdia todas as suas vantagens e a cidade perderia muito em importância e em dinheiro. 

Na carta, a cidade pedia que a costeira pudesse voltar, e apelava para os mais nobres sentimentos do ditador. 

Getúlio fez o que lhe convinha: posou para fotos com os rapazes, ressalvou-lhes a coragem. Fez com que a Costeira voltasse a tocar, de maneira tímida, o atracadouro antoninense. Mas era pouco. 

Quando o ditador caiu, em 1945, a Costeira desapareceu tão irremediavelmente que nenhuma viagem a pé poderia fazê-la voltar. A viagem dos rapazes que agora terminava como um grande sucesso, na verdade havia sido um movimento de grande coragem, mas que duraria somente mais os anos da guerra. 

Mas agora não era hora de pensar nisso. Os rapazes estavam alegres e entusiasmados com a chegada. Não aguentavam de saudades. Era hora de pensar na volta a suas casas e á sua cidade. Depois de tantos percalços, como eles iriam ser recebidos pelos seus conterrâneos?

terça-feira, 3 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 81: PASSEANDO EM SANTOS


Os famosos bondes de Santos, nos quais os escoteiros passearam em 3 de março de 1942
(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 3 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão voltando pra casa. Quando o navio atraca em Santos, eles descem para conhecer a cidade. O que será que vão encontrar? )

Estava já escuro, mas mal o Vapor atracou nas docas do porto de Santos Lydio saltou para terra. Queria conhecer a cidade. Ficou muito impressionado com o movimento comercial do centro, mesmo àquela hora da noite. Visitou as praças Rui Barbosa e José Bonifácio, que gostou muito. Mas ficou mesmo impressionado com os bondes da cidade. 

Os bondes tinham motorneiros vestidos em impecáveis ternos brancos, e usavam luvas. Chamou atenção os vastos bigodes que quase todos eles apresentavam. Só depois, mais tarde, se deu conta que eram quase todos portugueses. Deixando para trás os bondes, e andando um pouco mais, Lydio viu um circo. 

Era o circo Piolom. Com sua tenda armada num terreno baldio das proximidades, estava bem na hora de mais um grande espetáculo. Provavelmente, o maior espetáculo da Terra. A vontade que Lydio sentiu de assistir ao espetáculo daquela noite só não foi maior do que o medo de perder o navio. 

Ele deixou pra tras as alegrias do circo e se pÔs a andar pela cidade, de volta ao cais. Com o coração apertado de medo de parder o navio ele entrou de volta pelo armazém 12. Mais calmo, sabendo agora que tinha ainda muito tempo, ele  andou pelo cais apreciando os navios ali ancorados.  

Estavam ali ancorados diversos navios americanos e ingleses, os quais mostravam, na proa e na popa, canhões e metralhadoras antiaéreas. O tempo de guerra e o encontro com submarinos e belonaves alemãs não era uma ameaça distante, como já vimos. 

Os navios brasileiros que Lydio encontrou ali atracados também estavam armados. Mais do que os navios de guerra, entretanto, os cassinos flutuantes que também estavam ancorados ali também chamaram a sua atenção. 

Havia muita gente e muita luz. De lá de dentro, muita música também ressoava. No interior do navio-cassino, imagina, Lydio, jogava-se e dançava-se freneticamente. A maioria dos frequentadores, segundo nota, eram estrangeiros. 

No próprio vapor em que viera, o carteado também corria solto no convés. O clima de festa dos navios ressoou intenso. No entanto, tinha que voltar ao seu navio. De volta, correu ao seu camarote e dormiu sob o embalo das ondas. 

Pela manhã, ao acordar, os rapazes viram o movimento intenso do porto, com seus guindastes trabalhando freneticamente tirando e colocando cargas destinadas a todos os lugares do brasil e do mundo. Após o café, saíram para conhecer a cidade, agora de dia. 

Após visitarem um conhecido de Antonina que estava morando em Santos, os rapazes andaram pelo centro e passearam pelas praias de Gonzaga e José Menino. 

Passaram de bonde pelo estádio de Vila Belmiro onde, mal sabiam eles, surgiria, dezesseis anos depois, a maior lenda do futebol mundial e um dos maiores times de futebol já vistos. Mas isto é outra história. Na cidade, mais do que o futebol, o que mais chamou a atenção dos rapazes foram os canais. 

Iniciados em 1907 pelo engenheiro Saturnino de Brito, os canais eram uma grande inovação higienista e urbanística, drenando os terrenos alagadiços da Ilha e controlando as águas pluviais. Contribuíram para o controle de doenças e induziram a ocupação urbana da cidade durante o século XX. O mais novo dos canais só seria terminado em 1968. 

Em 1942, os canais de Santos já eram uma obra de chamar a atenção dos jovens escoteiros. Lydio também notou os morros de Santos, observando lá em cima, no morro, a mancha branca da igreja de N.S. de Montserrat. 

Alguns anos antes, em 1928, um grande desmoronamento de terra nas encostas do morro de Montserrat havia custado a vida de centenas de pessoas. pelos proximos trinta anos, estes foi um grande problema para a cidade de Santos. 

A ocupação dos moros estava sendo feita com um preço em vidas humanas. Só em fins dos anos 90, com a implantação de sistemas integrados de Gestão é que as mortes dimiuiram, e fizeram da Defesa Civil de Santos modelo em todo o Brasil. 

Entretanto, estamos em março de 1942. os rapazes, depois de meses longe de casa, estavam esperando pra voltar. Era hora de voltar ao navio. E assim o fizeram. 

Os rapazes ficaram no salão do navio, ouvindo as músicas tocadas ao piano pela jovem Doralice, gaúcha de Porto Alegre. De namorico com Milton Horibe, a gauchinha ficou por lá conversando alegremente com os rapazes, até que chegou a hora de se recolherem. 

Durante a madrugada, Lydio saiu ao convés para ver a tempestade que já citamos, a qual quase lhe custou a vida. Logo depois, o escoteiro voltou ao camarote e dormiu pesadamente. Quando acordou, havia perdido o café da manhã. No entanto, ao conversar no convés com um marujo, descobriu que estariam chegando em casa no começo daquela mesma noite.
Enfim, de volta pra casa!

segunda-feira, 2 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 80: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES



(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 2 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão voltando pra casa. Em pleno mar, todos estão com medo do ataque de submarinos de guerra alemães. )

Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. 

Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam. 

Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Eram precauções importantes na época. 

Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.

O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. 

Com a situação de beligerância já no ar, os navios brasileiros começavam a ser abertamente alvo de submarinos alemães.  Havia pouco menos de uma semana, dois navios brasileiros, o “Olinda” e o Buarque” haviam sido afundados por submarinos alemães. Eram dois navios cargueiros com destino aos Estados Unidos. 

No caso do Olinda não houve mortes, mas o “Buarque a situação fio mais tensa. O navio afundou rapidamente e a tripulação e os passageiros passaram nos botes de salvamento dias no mar gelado do hemisfério norte. Um passageiro morreu nestas circunstâncias. 

Pouco tempo depois, em julho/agosto de 1942, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros. 

A comoção popular que isso causou foi grande. Seria o elemento que faltava para a declaração de guerra formal aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto. 

Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.

Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite. 

Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estaria atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

domingo, 1 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 79: ADEUS, RIO DE JANEIRO!

Rio de Janeiro e a Baia de Guanabara, em março de 1942; os escoteiros de Antonina fazem suas despedidas
(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 1º de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, iniciam sua viagem de volta para a terrinha. Em tempos de guerra, que perigo eles vão encontrar?)

Os rapazes acordaram cedo naquele dia 1º de março. Aquele seria o dia da partida deles da capital federal rumo a Antonina. A aventura estava chegando ao fim. 

No entanto, eles não sabiam nada sobre a viagem. Não sabiam o horário, não sabiam o cais, não sabiam sequer o nome da embarcação. Essa era uma das precauções mais comuns para aqueles tempos de guerra.
O ano de 1942 ia ser um dos anos mais trágicos da marinha mercante brasileira. Desde o início do conflito, várias embarcações brasileiras sofreram restrições durante a guerra. Alguns barcos haviam sido abordados por belonaves britânicas, e vários navios brasileiros procedentes da Alemanha ficaram retidos em portos ingleses.
No entanto, desde o ano anterior, os navios mercantes brasileiros eram cada vez mais alvo fácil para os submarinos alemães. Segundo Lydio nos conta, a radio e os jornais frequentemente anunciavam notícias alarmantes sobre torpedeamento de navios mesmo próximos à costa brasileira. Mas o pior ainda estaria por vir.
De qualquer forma, somente as sete horas da manhã o Dr João Ribeiro chegou ao colégio Militar para pegar os rapazes. Vinha no grande carro negro do General Heitor Borges. E eles rumaram direto para o cais do porto.
As nove horas da manhã o navio finalmente atracou no cais. Tinha muita gente para embarcar, carregando muitas bagagens. Isso durou ainda um tempo, e só as dez da manhã o navio estava pronto. Levantou ferros e foi se afastando do cais, no início vagarosamente, depois com mais força e velocidade.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João Ribeiro, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Ele foi o principal elo da UEB e do general Borges com os rapazes. Além disso, foi ele que “quebrou os galhos” e resolveu coisas difíceis, quando eles ainda estavam no albergue da Boa Vontade. Depois, Dr João ainda levou os rapazes a incontáveis passeios pela cidade, assim como os introduziu nos diferentes locais escoteiros da Capital.
Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida no cais do Porto. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa. Enquanto via Dr João acenando para eles do cais, em meio àquela paisagem absolutamente deslumbrante, Lydio e os demais rapazes acenaram com as mãos e derramavam suas lagrimas as escondidas.
Já no navio, ao singrar as águas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. Eles passaram pelos fortes de Vilegaigaignon, de São João e da Laje. A fortaleza da laje, construída numa laje de pedra em meio a entrada da baia de Guanabara, foi a que mais impressionou os rapazes.
Quando o barco passava em frente a pedra do arpoador, começou a tocar uma sineta. Era o convite dos passageiros para o almoço. A refeição na primeira classe, onde eles estavam, constou de sopa de lentilhas com legumes.
A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar. No restaurante do navio eles encontraram dois conhecidos. Os irmãos Dirceu e Didio Viana, de Paranaguá, estavam ali também. Eles estavam voltando de uma grande viagem por diversas cidades litorâneas, e agora voltavam à terrinha.
Já em alto mar, o navio começou a jogar muito. As ondas chegavam a mais de três metros de altura. O balanço era tanto que muitos dos passageiros começaram a enjoar. Os rapazes, para se manter em movimento, foram conhecer o navio.
Inicialmente, eles foram até a cabine de comando, onde conversaram com o comandante e com os pilotos. Eles até mostraram alguns equipamentos para os rapazes, maravilhados. Depois, eles foram até a casa de máquinas, pra ver como funcionava toda aquela maquinaria.
Lydio , Milton e Canário ficaram num camarote. Beto, Manduca e o colega escoteiro Gastão, que viajava com eles, ficaram num outro. Procuraram dormir, o que fizeram com algum sucesso, apesar do balanço.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTERIOS 78: UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA


à esquerda, o escoteiro Caio Martins (1923-1938); a esquerda, a estatua em sua homenagem, erigida em setembro de 1941, e visitada pelos escoteiros antoninenses em 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 28 de fevereiro de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, em meio às despedidas da Cidade Maravilhosa, vão a Niteroi conhecer a estatua de Caio Martins. Quem foi ele?)

Amanheceu com muito calor no Rio de Janeiro, naquele 28 de fevereiro de 1942. A temporada dos escoteiros antoninenses na cidade Maravilhosa, depois de 45 dias andando a pé 1200 quilômetros pra chegar lá, estava terminando. As passagens de navio para a volta já estavam compradas. 

Era o tempo de se despedir. Era o tempo de fazer um balanço de toda aquela aventura. Como fora possível viver tudo aquilo? Como eles avaliavam tudo por que haviam passado até aquele momento? E todo aquele Rio que passou nas vidas deles?  A cabeça dos rapazes estava fervendo mais que o calor da cidade. 

Lydio nos conta em seu diário que este foi um fevereiro que valeu por todos os fevereiros de sua vida: “mês de calor, mar e carnaval, mês de alegria, saúde e muitas amizades”. Quem poderia pedir mais?

Era um Rio que tinha passado pelas vidas deles todos...

Mas, faltava pouco tempo, e a cidade estava ali, para ser explorada.  os rapazes queriam mais. Eles pegaram as barcas e foram finalmente conhecer a bela Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. 

Lá, eles queriam conhecer o estádio Caio Martins, mas não conseguiram, estava fechado. Uma pena. Lydio nos conta que queria conhecer o estádio e ver a estatua de Caio Martins. Mas quem era Caio Martins? Por quê os escoteiros pegariam as barcas para ver sua estátua? 

Caio Vianna Martins (1923-1938) havia sido um escoteiro que sofre um grave desastre ferroviário. No meio das ferragens retorcidas, em meio aos gritos dos feridos, o jovem Caio sentiu que havia ferido gravemente as pernas. A confusão, a poeira e os gritos deixavam todos ao redor em choque ou em pânico. 

Mas este não foi o caso do jovem Caio. Quando os socorros chegaram, ele os recusou em nome dos feridos mais urgentes. Muito embora estivesse sofrendo dores terríveis, ele disse aos atendentes: “um escoteiro caminha pelas próprias pernas”. Enquanto os atendentes foram atrás dos outros feridos, Caio Martins, com grande esforço, seguiu andando com os colegas. Ele chegou a ir para o HOtel de Barbacena, onde estavam os escoteiros.  

No entanto, Caio havia perdido muito sangue. Apesar de seu esforço ter contribuído para que outros se salvassem, ele não teve melhor sorte, e acabou por falecer de hemoragia interna na Santa Casa de Barbacena. Um exemplo escoteiro de desprendimento e solidariedade. 

A estatua em sua homenagem, no bairro de Icaraí, em Niterói, havia sido inaugurada havia apenas seis meses, em setembro de 1941. Não foi à toa que os cinco rapazes, que haviam feito tanto esforço pessoal para chegar até ali em nome de sua cidade, se identificassem com o heroísmo do jovem Caio Martins. 

Eles caminharam pelas praças centrais de Niterói e passearam pelas ruas de comercio. 

Depois, Lydio, Manduca e Milton regressaram ao Cais Pharoux, na praça XV, onde desembarcaram. Ainda deram uma passeada pelas praças Marechal, Âncora, Tiradentes e Paris. 

Neste dia, eles tiraram muitas fotos automáticas, em cenários variados e feitas em cinco minutos. Lydio tirou três foto e se Milton uma meia dúzia, uma diferente da outra. Momentos felizes e divertidos de uma aventura que terminava bem.

Depois, os rapazes regressaram ao Colégio Militar. Lá, apresentaram as despedidas ao Comandante, Oscar de Araújo Fonseca. Depois do almoço, foram para Quintino, onde se despediram da família do chefe Francisco Pires. Canário ganhou do chefe Pires uma mochila de lona, novinha em folha.

Ainda foram na UEB, onde apresentaram as despedidas ao pessoal da união dos escoteiros, que os haviam recebido tão bem. 

E por último, foram a residência do general Heitor Borges. Lá agradeceram a tudo o que ele tinha feito pelos rapazes em sua estadia na Capital. Na hora da despedida, o general, galhofeiro, pediu para que não voltassem pra casa a pé, mas sim de outra maneira. Os rapazes riram e abraçaram o general. De lá, voltaram para o Colégio Militar, para arrumar a bagagem.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 77: LÁ NO ESTÁCIO



(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 27 de fevereiro de 1942, enquanto Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio  passeiam de bonde pela Cidade Maravilhosa. Onde será que eles vão?)

O calor naquele dia era de fritar ovo no asfalto.

Parecia que não havia mais nada pra fazer no Rio de Janeiro. Agora, fazia quase um mês que eles haviam chegado à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cansados e no limite de suas forças. Um longo mês em que tanta coisa tinha acontecido com eles, onde eles haviam visto e feito quase de tudo. A missão estava cumprida. 

Entretanto, havia uma coisa que eles precisavam fazer: Os rapazes ainda tinham muitos passes de bonde pra gastar. Neste dia 27 de fevereiro, uma sexta feira, Lydio e Milton resolveram passear por mais algumas favelas. Milton estava querendo ir, mas estava receoso de ir sem companhia. 

Neste dia, Milton e Lydio visitaram o Morro do Cantagalo e depois foram ao grande bairro do Estácio. A região de Estácio de Sá, ou mais simplesmente o “Estácio”, é uma importante área do Rio de Janeiro. A antiga área de Mata Porcos, onde havia um quartel no início do século XIX, era agora um bairro afluente e importante. 

Nos inícios da República, a cidade foi objeto de diversas políticas higienistas, que causaram imensos transtornos para a população mais pobre. Durante a política de “Bota-Abaixo” do prefeito Pereira Passos, as populações expulsas das imediações de Mata-Porcos pela terrível política foram se localizar no vizinho morro de São Carlos. São Carlos foi também um berço de muitos consagrados compositores cariocas, como Luiz Melodia, entre outros. 

Também no Estácio é que surgiu a primeira escola de samba da cidade a Deixa Falar. Era liderada por uma lenda do Samba, o compositor Ismael Silva. Dono de um senso lírico apurado e frequentado as rodas de malandro da região, Ismael foi um dos muitos responsáveis pelo surgimento do samba moderno, nos anos entre guerras. 

Mas tinha muito passe pra gastar. Milton e Lydio também estiveram nos morros do Salgueiro e Portela. Desta vez foi diferente do dia anterior, quando Lydio sentiu-se pouco à vontade no Morro da Mangueira. Naquele dia, contando com a presença de Milton, o sentimento de insegurança foi quase inexistente. 

Entretanto, Lydio atribuiu a relativa segurança que sentiu à farda. Afinal, os dois passeavam fardados de escoteiro. Como não foram molestados, Lydio entendeu que a população respeitava muito a farda escoteira. 

Milton, que era um novato em favelas, comentou que ficou assustado com o que viu. “Como pode aquele povo viver daquele jeito?”. É a pergunta mais importante do Brasil até hoje, para a qual a sociedade anda em busca de solução . 

Talvez saibamos a resposta para a pergunta de Milton Oribe quando o morro descer e não for carnaval. Quem sabe?

Os dois escoteiros tinham mais o que fazer. Aquele era o último dia de Rio, e eles tinham que aproveitar. Passaram praticamente todo o dia andando de bonde, de norte a Sul, de leste a Oeste da cidade. Já com os olhos de saudade, despediram-se da Cidade maravilhosa. 

Não sabemos se eles terminaram todos os passes que tinham. Sabemos que eles tentaram sinceramente acabar com eles. Mas uma coisa ainda os incomodava. 

Enquanto andavam feito loucos de bonde pela cidade, Lydio e Milton lamentaram que percorriam a cidade sozinhos. Manduca, Canário e Chefe Beto não participavam destas aventuras. Cada um do seu jeito, cada um por seu motivo, acabavam ficando enfurnados no Colégio Militar. 


Seria saudade de casa? Seria a ansiedade com a volta, que ocorreria em poucos dias? Toda aquela cidade a disposição deles, cidade com todas as belezas e contradições possíveis estava ali, aos olhos deles. Por que será que não aproveitavam?


Milton e Lydio pegaram todos os bondes que deu. Depois, voltaram ao Colegio Militar para compartilhar suas aventuras com os colegas. Agora, nos dias que faltavam, eles tinham muita gente pra se despedir.