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quarta-feira, 30 de maio de 2018

O POVÃO ENTRA EM CENA



A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquela que a negue

(Chico Buarque , Canção pela unidade da América Latina)

Até agora eles estiveram ausentes das discussões, como se não fosse com eles. Olhavam de longe, desconfiados. Mas, apesar de desconfiados, pegavam os ônibus e iam trabalhar. Nestes últimos dias, foi diferente. Será que o “povão”, esta massa difusa que reúne operários, empregados do comercio e serviços, autônomos, técnicos e todos os serviços, finalmente entrou na arena política? Essa massa de trabalhadores não se mexeu durante o golpeachment. Também não se moveu durante a prisão de Lula. Mas estava lá, atenta.
Agora, aqui e ali, a montanha se move. As pessoas brotam como que do chão, e vão para os piquetes dos caminhoneiros. Leio na imprensa estrangeira (a BBC está dando um show de cobertura) que todos estão descontentes com a situação. Uma manicure de 33 anos num piquete na Regis Bittencourt relata ao ElPaís: "Tudo é muito caro. A gente não vive como poderia viver, porque nosso dinheiro é tão pouco e vai todo para imposto. O que você faz com um salário mínimo? Você vai no mercado e não consegue fazer uma compra decente". 
Mais adiante, no mesmo piquete, um outro manifestante, intitulando-se eleitor de Bolsonaro, diz ao repórter: "Você está contente com o país em que está vivendo? Tem que ter alguma coisa. O Temer está destruindo o Brasil". Ao ser perguntado se ele achava que a tal intervenção militar iria ajudar, ele não sabe responder.
Outros protestos ocorrem aqui e ali, de forma espontânea. Ontem, diversos pontos aqui de Campinas houve bloqueio de ruas e avenidas e dois ônibus foram queimados. Nada a ver com os piquetes. Nada a ver com os caminhoneiros. Todos estão perplexos com a situação.
O povão quer tirar este governo, por reconhece-lo corrupto e elitista. A greve dos caminhoneiros abriu esta possibilidade. Agora, não é mais um protesto de classe média. É a grande massa trabalhadora que entra em cena, coisa rara de ver na história do Brasil. Rara, mas sempre decisiva.
Assim foi nos momentos decisivos da abolição dos escravos. Assim foi nas manifestações de rua em 1983, quando encurralaram a Ditadura Militar com protestos e saques em diversos cantos do Brasil. Assim é a luta cotidiana de diversos movimentos populares, como as ocupações urbanas, os trabalhadores rurais sem-terra, os sem teto, os índios. Mas que hoje se potencializa e chega as cidades.
No entanto, essa grande massa é lenta e confusa. Sem direção. Há uma luta pela hegemonia deste movimento pelos grupos que querem uma intervenção militar. Sem Lula, preso em Curitiba, a massa está confusa e sem saber o rumo. Nestes dias, esteve sob a influência dos autoritários. Trata-se, entretanto, de uma intervenção militar confusa, sui generis, que ninguém sabe direito o que é. Algo como uma cura milagrosa, um remédio salvador. Coisa temporária, dizem alguns, para consertar o país. Mas ninguém sabe dizer ao certo o que é, como deve ser feita.
Para estas pessoas a solução mágica foi dada. Intervenção militar. Como a esquerda fez que foi e não foi, a massa está sendo cooptada por este movimento autoritário e com matizes fascistas. Limpar quem, cara pálida? Só os políticos? Aham. Já vimos este filme.
Desde a deposição da presidenta Dilma pelo Congresso, naquela sessão dos horrores há dois anos, só vemos a situação piorando. Como era previsto, há uma anarquia institucional, um bate-cabeça generalizado entre os três poderes. Um ministério publico enlouquecido. O Fla-flu disputando o discurso hegemônico até então se resumia à classe média. Agora, um novo personagem entra em campo. O povão.
Os protestos populares começaram a se diluir nas estradas na tarde desta terça. Os dirigentes sindicais dos caminhoneiros dizem que acabou, é pra se desmobilizar. Mas eles, os caminhoneiros e o povo, não se desmobilizam. Sentem que ali há uma chance. Sentem que há uma chance de ir além e mudar o país. Como? Ninguém sabe.
Parece que os protestos destes últimos dias, e mesmo os pedidos de intervenção militar não são nada mais nada menos que um grande, confuso e difuso Fora Temer. O povo não aguenta mais o presidente vampiro e seu governo zumbi, como eles mesmo disseram nas ruas e nas estradas. Não aguenta mais a economia, a política, os escândalos de corrupção abafados pelo congresso.
Mais do que intervenção militar, o povão está querendo um monumental Fora Temer.
Fora Temer.

domingo, 27 de maio de 2018

A BOLEIA E A REVOLUÇÃO





Estamos vivendo um momento revolucionário. Quem disse isso foi o grande cientista social Léo, da dupla sertaneja Victor e Léo. Conhecido pelas suas posições conservadoras, o sertanejo Léo tem hoje uma posição coincidente com o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU.
A apresentadora Rachel Sheerazade, a rainha do mais tosco reacionarismo nacional, gravou um vídeo em que se mostra perplexa com os caminhoneiros “baderneiros, que querem nos transformar numa Venezuela”. Em diversos sites e comentários de esquerda, pessoas criticam o caráter reacionário dos caminhoneiros. Muitos, inclusive eu, lembraram o papel dos caminhoneiros chilenos na queda de Allende.
Por todos estes pequenos exemplos, vê-se que a greve dos caminhoneiros tem dado vazão a uma série de manifestações contraditórias. Muitos tem medo de uma greve de caminhoneiros, pelos mais diversos motivos. Alguns se assustam com os problemas de abastecimento. Na quarta e quinta, a correria aos postos de gasolina foi histérica. Outros tem medo pois muitas noticias dão conta de que grupos de caminhoneiros apoiam uma intervenção militar.
O governo, através do ministro Raul Jungman, desde quarta feira tem dito que a greve é um locaute, ou seja, uma greve de patrões, o que é proibida por lei. Por outro lado, na quinta feira chegou a fazer uma reunião em que firmou um acordo que poria fim a greve. Faltou, entretanto, combinar com os russos, ou melhor, com os caminhoneiros. Sexta o movimento continuou e recrudesceu. Por fim, Temer, o sem-força, teve que apelar para o exército e as policias estaduais.
Mas, afinal, quem são os caminhoneiros? Heróis ou bandidos? Direita ou esquerda?
Ao que tudo indica, o resultado é muito mais complexo que se imagina. Para o professor Ricardo Antunes (ver aqui), a forma de trabalho dos caminhoneiros faz com que as suas greves tenham em geral um grande componente patronal. Somente 45% dos caminhoneiros são autônomos. o restante trabalha para empresas de logística. Quando há confluência entre os interesses dos caminhoneiros e de seus patrões, o que é o caso nesta greve, as paralizações tornam-se mais fortes. 
Como notou a professora Larissa Riberti num texto que viralizou no facebook (tirei daqui), trata-se de uma luta complexa, e que não é uma luta do bem contra o mal. Não é a toa que encontramos posições politicas tão diversas nessa categoria que envolve desde empresários até "proletários do transporte". Os sindicatos estão batendo cabeça brigando entre si enquanto a base segue firme na luta, fechando as estradas. Existem caminhoneiros de todos os matizes ideológicos, como no resto da sociedade. Não há polarização ideológica nem nos tuites contra e a favor da greve. 
Claro que existem os malucos que defendem uma intervenção militar (E que devem estar bem felizes com a intervenção militar em cima deles...). Estes são os mais estridentes. Vi um video de um maluco discursando em cima de um tanque. Patético. Mas não quer dizer que sejam maioria. Assim como foi provado no episódio do assassinato de Marielle, tais grupos radicais são ativos, mas minoritários. E, até o momento, os militares "de verdade" seguem as diretrizes do governo do Vampiro, reprimindo o movimento.
Por outro lado, eu acho que esse lado "proletário" do movimento é o que mais assusta. Em geral o caminhoneiro é um cara de classe média baixa, sem muita escolarização, vivendo no limite da reprodução de sua mão de obra. Nisso ele não é diferente do operário que trabalha numa fabrica e recebe salário. Sua identificação como igual pelo povo é imediata. Talvez por isso a repulsa de Sheerazade e de muitos colegas de academia. 
Temos muito medo de revoltas populares. Assim como no passado nossa elite e classes médias eram aterrorizadas com o medo de uma revolta dos escravos. O medo de uma revolta popular nos paralisa. O caminhoneiro assim se impõe no imaginário dos humildes como um herói que afronta um governo impopular. Na classe média, é o perigo proletário que surge, trazendo desabastecimento e - horror dos horrores! - a falta de gasolina.
Na extrema direita, é um aliado a favor da intervenção militar. Para a esquerda, um agente reacionário. Para a extrema esquerda, o estopim de uma greve geral que traga a revolução. Para os neoliberais, um sinal de que precisa privatizar tudo. 
Enquanto isso, no mundo real, os piquetes continuam, a gasolina vai voltando devagar aos postos. Mas as pessoas continuam ressabiadas. Ninguém sabe o que fazer. 
Quando deram o "golpe do impeachment", que destituiu um governo legitimamente eleito, foi aberta uma caixa de pandora. Felizmente, apesar da retórica de alguns, ainda não pegamos em armas. Mas, como no mito, ainda tem muito diabo pra sair dessa caixa.
Neste momento, não sabemos mais quem manda no país. Só nas rodovias. 

domingo, 8 de abril de 2018

AS RIMAS DE ADEODATO


o bravo Adeodato, líder camponês do Contestado, preso em 1916
Em 14 de agosto de 1916 o jornal O Dia – órgão do Partido Republicano Catarinense informou sobre a chegada de Adeodato, o último grande líder da Revolta do Contestado, preso, à capital do estado.
Adeodato, ou Leodato, era um mulato de 29 anos. Tinha sido, nos últimos tempos da revolta do Contestado, o chefe do reduto de Taquaruçu. Neste reduto, onde viviam mais de 10 mil pessoas, o jovem Adeodato era o chefe incontestável.
De todas as lideranças do contestado, Adeodato era o primeiro grande chefe que não era beato. O movimento havia sido iniciado com a veneração a São Joao De Maria, um beato que percorrera a região no final do século XIX, tendo desaparecido sem que se soubesse seu destino.
Foi sucedido por São José de Maria, o beato Guerreiro, que havia pregado nos sertões de Santa Catarina. Havia separado seu povo escolhido, os pelados, que tinham sua cabeça raspada em sinal de devoção. Os pelados se contrapunham aos peludos, os outros, que representavam os grandes proprietários de terras, o governo, as grandes companhias ferroviárias.
São João de Maria morreu em combate em 1912, na batalha do Irani, quando os seu pelados derrotaram uma companhia da Policia Militar do Paraná, comandada pelo coronel João Gualberto. Joao Gualberto, tão valente quanto inconsequente, adentrou o acampamento matando mulheres e crianças, tendo sido detido pelos pelados, que destroçaram sua companhia em combate singular, matando João Gualberto a golpes de facão.
Adeodato comandou Taquaruçu, o último dos grandes redutos dos pelados entre 1915 a 1916, quando foi preso. Chefe camponês, Adeodato comandou o reduto com mãos de ferro, liquidando qualquer um que se opusesse a ele. O terror de Adeodato foi decisivo na unidade dos pelados nos últimos combates em Taquaruçu, em 1916. Por fim, o “Antônio Silvino do Contestado” foi preso e enviado para Florianópolis.
Adeodato foi julgado e condenado a 30 anos de prisão. No momento de sua sentença, uma testemunha ocular anotou as rimas que o réu declamou para o tribunal reunido e o público assistente. Em seus versos, repletos de ironias, Adeodato fez seu canto e sua defesa.

Adeodato zombou dos vencedores e expôs cruamente as agruras dos camponeses do Contestado, uma guerra que o Brasil (e o sul do Brasil, hoje tão conservador e reacionário) faz questão de esquecer:

Trinta ano vô cantá
Relatando as travessura
Que aqui neste processo
Acoumaro de diabrura
Me acusaro de mir morte
Que levei a sepultura
Mas levei aqui do mundo
Dei descanso às criatura

Nada disso acho crime
Ao contrário é bravura
Afastei aqui do mundo
Os que tinha vida dura
Bem por isso tô contente
De luta, nesta artura
Pra tira muitos cabocro
Das pobreza e das agrura

Sô iguar a picapau
Que qualquer madeira fura
Sô nas carta o Rei de Espada
Desaforo não atura
Sô quinem toro de briga
Por nadinha armo turra
Nego bão de minha raça
Não tem chão que se apura

Pra tirar os mar do mundo
Tinha feito uma jura
Ajudei nosso governo
A quem amo de ternura
Acabei com deiz mil pobre
Que livrei da escravatura
Liquidei todos faminto
 E os doente sem mais cura

Quem quisesse terra e escola
Eu lis dava uma surra
Ajudando os do governo
No recheio de suas burra
A pobreza pro inferno
Onde lá o diabo urra
Essa terra é de nos rico
Nossas veias são mais pura!

A pobreza que se enforque
E se enterre numa lura
Sendo pobre é oireiudo
Só os bobo é que zurra
Os que nasce bem esperto
Bom emprego eles percura
Quem é pobre nesse mundo
Só merece sepurtura

Bem agora me despeço
Só dos rico, com doçura
Tenho sombra e agua fresca
Na cadeia tem fartura
C´um abraço ao meu governo
Deixo a minha assinatura
Por Leodato M. Ramos
Arrespondo nessa artura

Adeodato foi um dos grandes líderes camponeses do Brasil, cuja memoria precisa ser lembrada. Este dados foram compilados do livro “Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916”, do professor Paulo Pinheiro machado da UFSC; .
A história completa pode ser encontrada em: Machado, Paulo Pinheiro. Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916. Vol. 17. Editora da UNICAMP, 2004.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - OS OITO DE NAVARONE (3)

Tonho e Melancia descendo o morro em São Jose dos Campos. Melancia, pra variar, fazendo graça montando a mula

Quase todas as vezes que íamos fazer alguma investigação geotécnica nesta obra do duto, precisávamos colocar as ferramentas de sondagem no alto de um morro, em geral muito íngreme. Colocar as coisas a pé era penoso, e já estavam todos fatigados ao final da campanha.

Nosso colega Gilberto Marchioro tomou uma atitude ousada, como é do seu feitio, e contratou algumas mulas, com cangalha e tudo, pra auxiliar na empreitada. Quando vi a mula com o material, tive certeza: era uma operação de guerra.

Em várias situações, depois de verificarmos que o terreno era inacessível, procurávamos na região algum morador que tivesse mulas com cangalha: sempre tinha um.

Certa vez, procurávamos por uma mula numa estradinha perdida de um canto perdido de são Jose dos campos. Achamos um sitio num lugar muito bonito, cheio de mata e de água. Veio nos receber um dos filhos da dona, que soubemos depois ser pedreiro. Quando conversamos sobre a mula, ele disse que tinha uma, mas não sabia botar cangalha. Nós também não, e tínhamos mais o que fazer. Recusamos a oferta.

No entanto, ao saber que precisávamos subir o morro levando a sonda, o cara se ofereceu: “eu e meus irmãos levamos isso pra vocês. Somos em oito”. “Oito, aqui?” perguntamos. Ao receber a confirmação, ficamos espantados com tanta gente, mas era difícil recusar uma oferta daquela: oito pessoas a ajudar a carregar nossas equipagens todas, era quase o paraíso.

À noite, ficamos comentando aquilo: falávamos sobre “os oito do sítio”, ríamos muito da situação. “Parece uma operação de guerra”, alguém completou. “ah, já sei, os oito de Navarone!”. E pronto, os oito do sitio ficaram conhecidos como “os Oito de Navarone”.

Acontece que no dia seguinte eu fui pra outro lugar, e não acompanhei a instalação do equipamento de sondagem no alto do morro. Quando, de noite, encontrei o meu amigo Rômulo, que estivera lá naquela frente  de trabalho ajudando a instalar os equipamentos, perguntei dos Oito de Navarone. Ele fez uma cara de sacana, abriu uma risada, e me respondeu: “dos oito, só sobrou um!”. “Como assim?”, quis saber, intrigado.

“Pois é”, explicou ele, “quando o pessoal chegou aqui e viu a quantidade de coisa que tinha pra subir o morro, desistiram. Só ficou um deles, o mais velho, que era pedreiro em São Jose dos campos. Ele sozinho nos ajudou a levar as coisas. Ajudou muito”.

Era muita coisa mesmo. E o pessoal era tudo gente de cidade, pouco acostumados com trabalho bruto, caiu fora logo que viu. Mas a piada ficou: “Rômulo, e os oito de Navarone?” “Só sobrou um!” dizia ele, rindo e mostrando com os dedos quantos eram e quantos sobraram.

O trabalho era realmente bruto, quase uma operação de guerra, cruel e sem piedade. Coisa de gente doida mesmo. Ou trabalho pra mula, com cangalha e tudo. Até o pessoal de Navarone, dos oito só sobrou um. Coisa besta, sô!

(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

domingo, 26 de novembro de 2017

CRÔNICAS DO DUTO (2) - FITZCARRALDO

Ao longo do eixo do duto, a corrente humana para levar os equipamentos para o local de sondagem
Escavocar o solo para colocar um duto não é tarefa fácil, em nenhum lugar do mundo. É coisa pra cachorro grande.  Tipo a Petrobras. Existem muitos serviços que exigem muito, mas muito esforço mesmo. Acompanhei na semana passada a retirada de duas sondas percussivas de um local ao longo da faixa que foi uma epopeia.
Pra começar, o terreno era muito íngreme e escarpado. Os morros muito altos, quase tudo com o topo na cota 1000 m (acima do mar). Não havia estradas ou caminhos que facilitassem a entrada destes equipamentos, cada um dos quais pesa mais de 200 quilos de ferragem, mais motores, mangueiras, chaves e outros equipamentos. Só um destes equipamentos, o percussor, um cilindro de ferro com 25 cm de diâmetro mais uma haste de 80 cm, pesa 65 quilos. Carinhosamente apelidado “Jorginho” pelos sondadores, é individualmente a peça mais pesada e difícil de carregar.
Mas os bravos pernambucanos da equipe de sondagem conseguiram fazer com que tais equipamentos descessem a tal da encosta. Pra descer, descíamos segurando em cordas. Pra subir, uma vez encerrado o trabalho, convocamos uma turma de mais de 15 pessoas exclusivamente pra tirar as ferragens da grota.
Com cordas e muita vontade, as pecas foram amarradas e içadas uma a uma vertente após vertente. Eram duas vertentes, ambas muito íngremes. Os equipamentos, amarrados uns nos outros, muitas vezes pesando cem quilos ou mais.
Foram dispostas cerca de vinte pessoas, a cada patamar da encosta, pra ajudar a puxar os equipamentos. Vistos de longe, os uniformes azuis e cinzas faziam uma linha pontilhada ao longo do morro. Parecia uma cena de Fitzcarraldo, filme do diretor Werner Herzog, onde uma multidão de trabalhadores puxa um enorme barco morro acima na Amazônia.
O pessoal puxou as cordas rindo e brincando uns com os outros, parecendo uma grande brincadeira. Uma alegria que nos contagiou a todos, e fez com que o trabalho fosse menos penoso. Impressionante mesmo.

(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A HISTORIA O ABSOLVERÁ?


Cartum de Renato Machado

Quantos e quantos bytes se gastaram (e se gastarão ainda) nestes dias em que em Cuba se preparam as exéquias de Fidel Castro?
De um lado, para muitos, ele é o grande líder da mítica Revolução Cubana, que embalou os sonhos de toda uma geração de latino-americanos. Inclusive os meus. Fidel foi o herói da igualdade e da solidariedade internacional, o camarada que enfrentou (e nunca se dobrou) ao Império. Que desafiou e sobreviveu a onze presidentes americanos. O libertador de Angola e o homem que derrotou o Apartheid e possibilitou Mandela e a África do Sul moderna.
De outro lado, para muitos, aparece a figura do ditador, do déspota, do autocrata. Neste relato, alguns o filiam a Stálin e Pol Pot, assim como a Hitler e Mussolini. Este é o relato da Cuba do paredón, da perseguição, prisão e tortura de inimigos políticos, o perseguidor de artistas, gays e deficientes.
Quem é Fidel? Perguntam-se todos. O que ele significa? Por que desperta tanto amor e tanto ódio?
Não tenho a resposta, nem sei se alguém a tem. Eduardo Galeano tem a dele (aqui). Para a Direita Raivosa brasileira, ver aqui. A melhor definição de tudo é o Cartum de Renato Machado quem faz mais jus à figura do comandante. Nem Céu nem inferno, mas a História, este é o lugar (veja o original aqui). A História o absolverá? Somente com o passar do tempo e com olhos menos apaixonados poderemos chegar a uma apreciação sincera da atuação do comandante.
Entretanto, esta discussão sobre Fidel não é somente uma discussão sobre Fidel. É uma discussão sobre nós, aqui e agora. Sobre o Brasil e seu momento atual. Vejo meus companheiros de esquerda, eu incluso, a defender apaixonadamente Fidel, relativizando o lado amargo da Revolução Cubana. De fato, “gentlemans” não ganham revoluções. É preciso ter estomago para tomar algumas medidas. Não sei se eu as teria ou não, não posso julgar moralmente uma decisão deste tipo cinquenta nos depois, confortavelmente sentado em minha mesa.
Na maior parte das questões, um atenuante óbvio se anuncia: tratava-se da Guerra Fria. Se houve barbaridades daquele lado (o bloco Socialista), do outro lado (o “nosso” bloco capitalista) quantas barbaridades também não foram cometidas? Se ficarmos só na América Latina temos os exemplos da política do porrete, quando os americanos tiravam do poder quem, do campo da esquerda, ameaçasse suas políticas. Podia ser através de golpes de prepostos ou intervenção militar direta. Exemplos abundam. Pra citar dois: a deposição de Jacobo Arbenz Guzman, na Guatemala em 1954, o golpe e a deposição do esquerdista Juan Bosch na República Dominicana, que culminou com a invasão estadunidense de 1965 (com participação da Ditadura Brasileira inclusive). Nesta lista, nem entrei na América do Sul....
O Caribe no pós-guerra era um arquipélago de ditaduras sanguinárias, protegidas por Washington. Como não esquecer da Nicarágua de Somoza (1934 – 1979), da República Dominicana de Trujillo (1931-1961), do Haiti de Papa Doc (1957-1971)?
Assim quando, do nada (para a imprensa americana) um grupo de jovens barbudos desafia e vence um destes ditadores, o não menos sanguinário Fulgêncio Batista (1933-1959), estava configurado o mito.  Sim, era possível.
Cuba sofre de um processo de atração e repulsão por seu vizinho do Norte desde sua independência, em 1898. Desde a sangrenta guerra da independência, a partir da insurreição liderada pelo também mítico José Marti (El hombre sincero de donde crece la palma!), os Estados Unidos frequentemente tomaram um papel que não lhes cabia na condução da ilha. A ocupação militar durou de 1891 a 1903. É deste ano a Emenda Platt, que se estenderia até o governo de Fulgêncio Batista, em 1933. Esta emenda dava o direito de os Estados Unidos intervir em Cuba sob pretextos diversos, limitando na prática a independência do país. Desta forma, a Revolução Cubana pode ser entendida neste contexto secular como uma reação à dominação americana e uma segunda etapa do processo de independência do país.
O embargo americano também explica diversas atitudes tomadas por Cuba desde os anos 60. A resistência torna-se seu mote, e a resistência a qualquer preço. Depois do colapso da URSS em 1991 e mesmo antes, a situação econômica piora. Mas a pequena ilha resiste. O embargo gera uma porção de problemas e uma justificativa bastante plausível ao governo cubano para tomar medidas duras. Um duro embargo que já dura mais de 50 anos.
Por outro, vejo meus amigos de direita com um relato que é verdade: sim, o regime cubano matou pessoas. Os fins justificam os meios? Não posso responder que sim. Mas entender o que aconteceu dentro do espectro de seu tempo ajuda a entender algumas decisões.
O discurso da Direita está sendo usado, no entanto, para culpar a atual esquerda brasileira. Acho isso injusto e prejudicial ao bom debate. A esquerda já fez uma boa autocrítica desta e de outras práticas do passado. Não se pode achar que Stálin e Pol Pot sejam nossos camaradas. Meus nunca foram.
Hoje, a esquerda brasileira – e é só por ela que posso falar -  é mais democrática e legalista que a direita. Falo isso com muito orgulho. Durante o golpe, embora esperneássemos, o poder foi entregue sem nenhuma resistência, dentro da lei, embora não houvesse concordância com sua interpretação.
Por outro lado, a direita sempre abusou da lei (A lei? Ora, a lei!).  A direita burra vive propondo - hoje! Agora! Neste instante! -  um retorno ao passado, um passado violento que nos remete ao mundo antes da Revolução Francesa, antes da cidadania e dos direitos do homem. Um mundo de lei e de ordem. “Direitos Humanos para humanos direitos”. Mas lei e ordem para quem, cara pálida? Continuamos a mesma política do Império e da Colônia, admitindo tortura e morte sem julgamento para os mais pobres, que não por acaso são pretos e índios.
A direita mais “light” vive fazendo armadilhas e mudando as leis. Para quem está reclamando das anistias ao caixa dois e as outras patifarias que o congresso está fazendo: lembrem-se da corrupção que foram os cinco anos para Sarney e a reeleição de Fernando Henrique. O prof. Luiz Felipe Alencastro há muitos anos atrás denunciou esse golpismo “light” através das mudanças constitucionais (aqui).
Falar de Fidel, hoje, é falar do Brasil. É isso que nossos amigos de direita querem nos dizer é: “Isso não serve para nós, não está vendo? ”. “É isto o que você quer para o Brasil? ”, como diziam no tempo da Ditadura. Não, isso não nos serve. Por exemplo, não compactuo com tortura e assassinato sem julgamento, como fez o Exército Brasileiro nos anos 70 (ver o livro de Elio Gaspari, “A Ditadura Escancarada”). Atrocidades que o Exército Brasileiro nunca admitiu, o que é mais vergonhoso ainda. Não compactuo com o genocídio de pretos e índios que as policias militares e diversas milícias vem fazendo no campo e nas cidades.
Não compactuo com políticas de discriminação social, religiosa e qualquer outra. Se Fidel tratou de forma abusiva os gays (los enfermitos), ele está numa companhia que não é boa, mas numerosa. A prática de castração química, prisão e morte foi muito comum no passado (veja os exemplos na Inglaterra e nos Estados Unidos, e mesmo aqui no Brasil) e ainda o é no presente em vários países. Isso tem que ser posto em sua correta dimensão: estava errado e tem que ser denunciado. Agora, eu acho estranho que muitos que reclamam da “Ditadura Gayzista” estejam agora se compadecendo de nossos companheiros homossexuais. Cubanos.
Não gostam de Fidel? Tudo bem. Não gostam de sua prática política? Faz parte do jogo. Eu acho Fidel uma grande liderança e uma pessoa importante na luta dos povos por mais igualdade. Ele é incoerente e cometeu erros, sim. Ninguém é coerente o tempo todo. Ele não é candidato a Santo. Mas não é possível ignorar que sua luta foi importante na melhoria de vida e na redução das desigualdades em Cuba e na América Latina. Não é possível ignorar seu papel no fim do Apartheid. Não é possível ignorar as conquistas da Medicina cubana (veja um depoimento do insuspeito jornalista Jorge Pontual, da Globonews, aqui).
Cuba tem os desafios dela (ver aqui), nós temos os nossos. Nós nunca enfrentamos, com exceção dos governos petistas, o desafio de superar nossas desigualdades. Vivemos numa sociedade estamental e extremamente desigual. Nossas classes dominantes nunca quiseram expandir o ensino e a cidadania. Pelo contrário, nos enfurnamos em condomínios fechados e depois reclamamos que a rua está tomada por bandidos. Não estamos nem aí para uma sociedade em que a polícia nos trate todos como iguais. Somos coniventes com a tortura nas delegacias e com a morte de jovens, pretos, índios. Somos lenientes com a cultura do estupro, expondo nossas mulheres a situações inconcebíveis. Temos aversão e permitimos que as pessoas LGBT sofram com a violência e o assassinato.
E depois, refestelados no sofá da casa assistindo à televisão ou, então, na tela do computador ou do telefone, ficamos nos horrorizando com estas mesmas coisas. Mas no país dos outros.
Enquanto isso, Fidel entra na História pela porta da frente.

sábado, 8 de outubro de 2016

A OUTRA REPÚBLICA DE CURITIBA



Curitiba
   O interventor do estado
   era um pinheiro inabalável

   inabaláveis pinheiros igualmente
   o secretário da segurança pública
   o presidente da academia de letras
   o dono do jornal
   o bispo o arcebispo o magnífico reitor

   ah se naqueles tempos
   a gente tivesse
   (armando glauco dalton)
   um bom machado!

(José Paulo Paes)



Muito tem se falado na tal “República de Curitiba”. Para uns, trata-se de gente fazendo a lei; para outros, trata-se do judiciário extrapolando sua função, com os juízes e Ministério Público tornando-se “justiceiros”, conforme já discuti aqui no blog. No entanto, para longe dessa Curitiba oficial (seria oficialesca?), gostaria de fazer algumas considerações sobre uma outra República de Curitiba.
Trata-se da Curitiba que se ergue para além da Curitiba oficial, das canaletas do expresso, do calçadão da rua XV e do bosque do Papa. Uma Curitiba diferente da Curitiba que frequenta os shows do Teatro Guaíra ou os saraus do Clube Curitibano. A Curitiba suja, a Curitiba feia, a Curitiba que não está no mapa.
Trata-se da Curitiba da cultura underground. Nos pequenos bares ao redor da Reitoria, nos palcos do TUC, nos coletivos artísticos que hoje proliferam na vida cultural da cidade. Uma efervescência que ultrapassa em quantidade a qualidade muito do que a cultura oficial vem produzindo. Estes grupos hoje estão produzindo uma inquietação que vai além da acomodação da classe média curitibana e seu sentimento que seu “Batman” togado vai resolver seus problemas enquanto estão sentados no sofá da sala.
No passado, esta Curitiba era representada pelas figuras marginais da cidade. O grande ícone sempre foi Santa Maria Bueno, a santa das putas. Assassinada por seu amante no final do século, seu tumulo na ala mais pobre do cemitério municipal é hoje o grande centro de peregrinação. São as prostitutas, as mulheres humildes, deserdadas na sociedade Família & Propriedade os que buscam seu consolo. Outro grande ídolo foi Gilda, o traveco, o sujo, o odiado e amado nos anos 70 e 80. Não havia como não vê-la na rua XV, amável e provocante, de vestido e barba por fazer. Eu vi.
Não por acaso, hoje Maria Bueno e Gilda são ícones desta Republica de Curitiba. Por seu papel transgressor, seu desafio á bem-comportada ordem, sua afronta aos bons costumes, elas representam a Curitiba que não se verga as luminárias de plástico “para turista ver”, como já reclamou no passado outro ícone fora do eixo, Dalton Trevisan. Esta Republica de Curitiba é o espirito de Paulo Leminski, a tropeçar bêbado pelas canaletas do ônibus expresso, a cantar suas maldições. É a Curitiba de Ademir Plá, a nos embalar nossas manhãs na rua XV com sua música torta e sua estética riponga.
Hoje, é a Curitiba dos coletivos, dos shows na praça do ciclista, da ocupação da Funarte, da recusa a participar da arte oficial. É a arte dura e provocante de coletivos como o Agua Viva Concentrado Artístico e a Selvática, entre outros, que fazem a outra República de Curitiba dar as caras, e denunciar a ordem e o progresso da Curitiba bonitinha, limpinha e ordinária. É a Curitiba da transgressão, do transgênero, do transbordamento da inquietude que desafia a Curitiba dos carros caros e dos edifícios empresariais limpinhos, cheios de homens engravatados e mulheres de tailleur, prontos para descer o cacete no novo, no feio e no diferente.
Como amar Curitiba? Não sei. Nem tentei. Nunca me seduziu essa estética de classe média de morar em sobradinho e essas canaletas de ônibus que fazem os pobres morarem cada vez mais longe. O aperto dos terminais de ônibus contrasta com o espaço aberto do Centro Cívico, esse elefante branco manchado do sangue dos professores paranaenses por mais de um governo “democrático”. Temos que dizer não ao “Paraná das Famílias” e da “Curitiba que tem túmulo no Cemitério Municipal”, como disse no passado um orgulhoso Rafael Greca.
A verdadeira República de Curitiba é a cidade das casas de madeira, das fachadas de lambrequins. É a república dos trabalhadores indo de bicicleta para o trabalho, das diaristas atulhando os ônibus expressos para o centro. É a dos bailões sertanejos da periferia, das peladas da várzea, das calçadas de grama, dos botequins sujos servindo ovo com rolmops. É a Curitiba das prostitutas, dos trabalhadores humildes, dos empregados do comercio, cantados por Dalton Trevisan. A Curitiba dos negros e dos polacos, e dos polacos pretos. Essa cidade simples e humilde (muitas vezes conservadora), mas que valem mais do que quadras inteiras da Agua Verde e do Jardim social.
 Viva Gilda e Santa Maria Bueno. Essa é a República de Curitiba.
A outra, a tal, que a História tenha piedade.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

QUEM É O DONO DO CENTRO CÍVICO?

Síria? Iraque? não, Centro Cívico, em Curitiba... TIREI DAQUI 
Diz-se que, na civilização, o monopólio da violência passa a ser monopólio do estado. E que monopólio! Qual um tzar, Beto Richa e seus deputados se trancam na assembleia para arrochar os trabalhadores do estado e libera a “sua” polícia para de novo bater numa manifestação de professores. (Álvaro Dias, lá na solidão do Planalto Central, olha no espelho e se vê bonito na foto...).

O Estado tem o monopólio da violência (e que violência!!) mas não tem o monopólio da verdade. Soltar uma nota em que “lamenta” o confronto, com a esfarrapada desculpa de que havia radicais e “irracionais” e blacblocs, tudojuntoemisturado. Armando Falcão, Filinto Muller, Sergio Fleury e outros assinariam mais essa pataquada, velha como a luta de classes. Mais uma pantomima de um governo sem governo, um governo que já veio com sua própria “herança maldita”. E ainda falam da Dilma, os pitbulls e boçais “haters” da internet!
Ao ver as manobras da PM no Centro Cívico, é de impressionar a quantidade de bombas lançadas pela policia contra os manifestantes. Vejam os vídeos, pululando pela rede. Parece que dinheiro pra comprar bombas pra jogar em professor o estado tem, e tem de sobra, pra jogar gases tóxicos até a última garrafa.  Pra pagar salario pra professor (e pra policial!!) é outra coisa.
Esse é o paraná das “Zelites”: um o Paraná “justo”: o Paraná de Nelson Justus, do Bibinho, de Alexandre Cury, de Beto Richa. O estado das privatizações, dos funcionários fantasmas da Assembleia Legislativa, dos deputados filhos das famílias de sempre, mandando no estado desde sempre. Outro, o Paraná dos professores, dos policiais (sim, também deles!), dos sem-terra, do povão que vive trabalhando pro agronegócio, do povão entalado ao final do dia no terminal do Pinheirinho.  Um sentimento estranho esse, ver esse povo que conheço tão bem se massacrando – afinal, um policial também é povo. Uma vontade de pegar o carro, o ônibus, o avião e ir pra lá, tantas vezes cruzei aquela rua de carro ou a pé. Parem com isso, camaradas!! O inimigo é outro!! Choro de impotência.
É um mundo estranho esse. Onde o mais típico século XX se encontra com o XXI nas redes, e o rebuliço que elas causam. A Direita tá na rua, mas a luta de classes também. Querem derrubar o estado do bem estar social, tão malmente construído à sombra da constituição de 88. Ainda tão capenga esse nosso Welfare State!
Ainda deve estar um cheiro danado de gás no final da Barão do Serro Azul. Parece que o barão, fuzilado pelos florianistas no inicio da República, emprestou seu nome ao local onde a repressão se dá mais forte em Curitiba. Triste sina. Um monte de gente ferida, um monte de gente sangrando, um monte de gente nos hospitais de Curitiba, e Beto Richa vai construindo sua legenda negra. O por do sol frio de abril se impõe sobre as lutas sociais. Mas amanhã é dia de continuar a luta.

Esse governo inepto pode ganhar abril, como perdeu fevereiro. Mas perderá o resto do ano, com certeza. O Paraná merece um futuro melhor. Estas lutas precisam desmascarar essa elite medrosa e corrupta que nos assola e não nos deixa avançar. Pra isso, viva os professores paranaenses!!

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O RIO QUE TUDO ARRASTA

Os professores na invasão da AL-PR. copiei daqui:  http://bitly.com/1zxB5lr

Estive uns dias bem longe, na cidade mineira de Pihum-hi, no alto São Francisco, próximo a Furnas, para uma atividade didática com meus alunos. De volta a Campinas é que pude ver o que foi a manifestação de 12 de fevereiro deste ano em Curitiba. É a gente bronzeada das redes sociais (e dos movimentos sociais) mostrando seu valor. Que maravilha, meninos.
De um lado, um governador que atropelou e fugiu. Beto Richa foi o único responsável pela crise econômica que atravessa o estado. Fazendo o que? Com certeza não foi politica publica e de inclusão. Foram quatro anos medíocres, sem compromisso com a população. Na reeleição, surfou em cima da onda antipetista, aliou-se ao que se tem de mais atrasado na politica paranaense e se deu bem, se reelegendo ainda no primeiro turno. Mas e ai? Mais um governador medíocre que o Paraná tem. Beto Richa é um politico sem expressão nacional governando um estado rico economicamente e medroso politicamente. E agora, Beto? Vai Continuar mastigando isopor? Até quando isso vai dar certo?
É claro que não deu. O Brasil não é mais o pais de antes de 2013, para o bem ou para o mal. O mau humor do povo nas ruas bate à sua porta e não tem mais volta. Os movimentos populares vieram para ficar, mesmo que eles ainda não saibam disso. O governador convocou sua lamentável tropa de choque, comandada pelo “delegado” Francisquini, político bufão e sem fibra. Adoráveis as gozações de sua empulhação e de sua covardia quando é a hora de lutar o bom combate. Contra a massa organizada não há argumentos. Beto Richa viveu seu dia de Álvaro, o Dias. (este, aliás, somente outro dos bufões que a politica paranaense adora inventar e manter no circo da “polititica” local).
É de se rir quando se fazem apelos pela ordem chamando os adversários de baderneiros, de vândalos. É o padrão Casa Grande, querer que a Senzala se comporte e seja bonitinha mesmo quando é aviltada e humilhada pelos sátrapas de plantão.  A crise não foi provocada pelos professores paranaenses, categoria corajosa e que sempre está na liderança dos movimentos sociais num estado amorfo e sem brilho próprio. Desde os anos 70 os professores foram a vanguarda das movimentações sociais no estado. Chamar de baderneiro quem está lá na linha de frente do ensino falido que nossos governantes impingem à massa não é só cinismo, é deboche.
“Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem”. Nada como o bom e velho Bertold Brecht para nos lembrar que, no século XXI os movimentos sociais não estão mortos como queriam alguns. Lembrar que existem muitos combates a serem lutados na área social e politica. Internacionalmente, a intervenção da maior potência militar do planeta deu origem a uma instituição política que não fazia sentido desde o século XIII, o califado. Aqui no Brasil pululam os que querem aumentar seus ganhos a custa de miséria, desemprego e especulação econômica. Guincham aqui e acolá velhos e novos lacerdistas. No Paraná os “xoques de jestão” de Beto Richa levaram o estado a ser realmente um estado mínimo. Não sei quais seriam os próximos passos nesta luta. Mas dignidade não se negocia, se conquista. Parabéns aos mestres por essa lição ao governador e seus gorilinhas de papel.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

URUBLUES, ANO 7

Estou vindo de uma série de viagens, que me custaram uma pequena dor nas costas de dormir em camas emprestadas ou em camas de hotel. Passei pouco tempo em casa, e pouco tempo ainda com os meus e com minha terrinha, que vi rapidinho num domingo ensolarado de janeiro. E que calor!! Pegamos temperaturas de quase 40°C em Porto Alegre, mais de 38°C em Campinas e outro tanto em Minas, de onde volto após 11 dias de trabalho de campo com os alunos (tive nesse meio tempo um prazerzinho extra em viajar pra Londrina pra formatura de minha querida filha Julia). Enfim, estive mais na estrada que em casa.
Agora chega. O semestre começa, e  2014 vem no estrondo, como uma imensa escola de samba iniciando seu desfile na avenida. O tempo passa veloz, e nossa compreensão das coisas fica como se a gente estivesse sempre com vertigem, nosso tempo passa sempre mais veloz do que nossa capacidade de compreendê-lo. O que será do nosso primeiro semestre, espremido entre o Carnaval e a Copa? O que será da Copa e do Brasil durante e depois dela? E das eleições? E do mundo? O que diremos do mundo e das coisas em dezembro?
São sete anos de blog. Sete anos muito bons, onde conheci muitas pessoas, principalmente na minha terra, de onde sai tão cedo. Aprendi muito. Briguei, como tantos. Me decepcionei? Talvez um pouco. Me cansei? Sim, também. Mas nesse ultimo ano tão pobre de postagens o trabalho me consumiu de uma forma mais intensa, de modo que a energia das postagens ficou um pouco baixa. E outros projetos pessoais também me tiraram um pouco do foco do blog.
Mas vamos lá. 2014 está caminhando nas escolas, nas ruas, campos, construções, ainda sob o efeito dos terremotos do ano passado. O Brasil de 2013 foi um país estranho, onde as convicções mais sólidas se desmanchavam no ar, segundo a sempre instigante metáfora daquele velho alemão barbudo. O mundo está na rua e também está na rede. Guerras diferentes das tradicionais, guerras de hackers em espaços virtuais, parafraseando a bela canção do velho Gil. O mundo está estranho e esquisito.
Brasil, Venezuela, Egito, Turquia, Ucrânia – o mundo está nas ruas, rugindo insatisfeito. Não existem bonzinhos e mocinhos, vilões ou heróis. Você faz os seus. Existem interesses, e além destes, as pessoas estão brigando cada vez mais pelos chamados interesses difusos: democracia, tolerância, direitos humanos. Não se pode mais, como o Tzar fez há cem anos, metralhar uma passeata em que o povo pedia liberdade e passar impune. O presidente da Ucrânia caiu, Kadhafi caiu, nosso bom Alckmin aqui em nossas bandas teve que recuar e mudar seu raivoso discurso de maio do ano passado, quando mandou sentar o pau nos estudantes do passe livre.

Onde ficamos nessa historia toda? Não sei. Quem sabe?