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segunda-feira, 10 de maio de 2021

A MORTE DANÇA NA RUA

                                                                                                   https://bit.ly/3tCT7G


       E enfim é chegado o tempo em que ela, que sempre esteve entre nós, não nos espera mais na saída de casa, nos banheiros públicos, nos caminhos para as matas. Ela já não tem mais a antiga pressa, embora esteja trabalhando como nunca. Funcionária zelosa e dedicada, ela agora dança alegremente nas ruas, entra em nossas casas, toma caipirinha nas festas de domingo.

A morte dança na rua. Nós não conseguimos enxergar os vírus com a vista desarmada. As pessoas contaminadas não têm bubões da peste, não tem diarreias abundantes. Portanto, concluem alguns, não existe essa tal pandemia, embora estejamos há tanto tempo escondidos em casa, lavando obsessivamente as mãos com álcool gel e usando máscaras. Contra todos os esforços, as vacinas, as medidas sanitárias, ela, a morte, gargalha e zomba de nós na frente de nossas casas.

A morte dança na rua, toma ônibus lotados, participa de cultos ruidosos e ri, fumando um cigarrinho com os peões de máscara no queixo, na roda de conversa do fim do trabalho. Mas a morte também frequenta festas e barzinhos da moda, a morte se preocupa com a saúde e frequenta academia cheias de gente entediada e marombada.

Como num quadro de Brueguel, o que vemos são pequenos demônios confraternizado em nossas ruas semivazias. Alguns desses passeiam de carros caros e engalanados de verdeamarelo para saudá-la, a ela, a desenganada das gentes. A morte sorri seu riso sem dentes, encabulada. Sim, parece que até para ela tais demonstrações de apoio são demasiadas, desnecessárias, pouco pudicas. Mas o carnaval dos pequenos demônios segue por nossas ruas, numa alegre carreata que parece não ter fim, nem senso.

A morte entra desabusada pelos palácios. Lá, senta-se na mesa de reuniões cercada de homens sérios e cheios de assuntos importantes, dá ordens e anda sem ser molestada pelos corredores do poder. A morte passeia entre os comensais dos banquetes, feliz e esvoaçante, contando aqui e ali doces piadas macabras. E nosso PIB, ali presente, ri, porque eles riem à toa.  

A morte zomba de nós, e vai ceifando vidas. Antes era o conhecido do conhecido, agora o próximo, o distante, o amigo, o ente querido. Famílias inteiras dão um tributo amargo à morte, que dança nas ruas e nas praças, dança feliz e sem máscara numa cidade semivazia.

As mortes ocorrem solitariamente, dentro das casas ou nos hospitais lotados. O paciente, entubado sem sedativos e amarrado para não se soltar, sofre seu calvário moderno no escondido das UTIs. O desespero de comprar oxigênio passa longe, nas telas da televisão. Diante de tanta dor, declaramos que estamos cansados, que temos direito a um pouco de descanso e sossego, que temos direito a escapar dali, mas pra onde, meu Deus? Pra Praia? Pro Sertão?

O céu de maio está azul e amplo, passarinhos cantam e procuram comida, mas nosso mundo está fechado, tomado por uma imensa bruma verde e amarela, sulfurosa e pútrida. Não há mais pátria, não há mais senso de unidade. A morte nos unifica, nos agrega, nos seduz.  Vacina pouca, meu pirão primeiro, antes ele do que eu. O presidente ri e conta piadas de nosso desespero em miseráveis shows de televisão.

O tempo está congelado, não há futuro, só este amargo presente. Nele, a morte ri e dança nas ruas, numa festa sem fim, num pesadelo sem direito a acordar.

sexta-feira, 5 de março de 2021

O ANO DO CORONA

 


Já faz um ano.

Naquele mês de março, as nuvens foram sumindo do céu. Os cumulo-nimbus eram cada vez menores e mais brancos, lá longe no horizonte. Depois, o por do sol começou a ficar mais vermelho, e um vento frio balançava os galhos das arvores. Era o fim da estação das águas.

Neste tempo, estávamos ainda discutindo com os empresários da necropolítica, que faziam de tudo para minimizar as “12 mil mortes” que fatalmente aconteceriam. Alguns falavam que só matariam os velhos. Só. Não resolveríamos nada com pânico, diziam. O importante era salvar a economia.

O tempo passou, e o álcool gel invadiu nossas casas. Ainda sem saber como fazer com a nova situação, lavávamos tudo obsessivamente. Para dizer bem a verdade, ainda lavamos. Cheguei a pegar um eczema nos pulsos, de tanto sabão que usei.

No começo, não tinha máscara ainda. Hoje, sabemos porque: não tinha máscara para todo mundo, e se dizia que não precisava. Aí mandamos fazer máscaras de pano. Muita gente, subitamente desempregada, começou a investir em fazer máscaras muito bonitinhas, de tudo que é tipo de pano

Nos assustamos muito quando vimos os caminhões cheios de corpos na Itália. Ficamos amedrontados com os corpos na rua em Guayaquil.

Quando a primeira onda começou a chegar, lenta como uma maré, tentávamos imaginar quando seria seu pico de contaminações e mortes. Quando? Diante de algum resultado ligeiramente menor das estatísticas, alguns incautos diziam que o pico já havia sido atingido. Mas não era pico, ao menos não pra nós. Foi um imenso planalto de mortes diárias, que atravessamos com mortes diárias muito elevadas e hospitais quase cheios.

O céu já estava claro, com um sol cada vez menos intenso. Choveu um pouco, mas já estava seco, e o ar ficou mais cheio de pó. Era o mês de maio chegando.

Em 25 de maio, em Minneápolis, nos Estados Unidos, um policial matou um homem negro chamado George Floyd, acusado de passar uma nota falsa de 20 dólares. Durante 8 minutos s 46 segundos, metodicamente, o policial Derek Chauvin ficou com o joelho no pescoço de Floyd, terminando por matá-lo.

Poderia ser mais uma pessoa negra morrendo nas mãos da polícia, seja nos Estados Unidos seja no Brasil, onde um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos, segundo dados de uma CPI no Senado de 2015. Mas não. Não desta vez. Como uma grande onda, o clamor contra este tipo de assassinato, cruel e metódico, varreu os Estados Unidos em grandes e massivos protestos, que acabaram por atingir totó o mundo, até mesmo no Brasil, tão longe e tão perto das ruas de Minneápolis.  

“Não consigo respirar”, teria dito Floyd. Pois foi justamente isso que milhares, centenas de milhares e enfim milhões de pessoas sentiram durante todo o mundo, enquanto a epidemia se alastrava.

Primeiro foi Manaus que sentiu o baque, depois uma a um os outros estados tiveram centenas e milhares de mortos. Em agosto foram 100 mil, em janeiro dobrou, e agora estamos a seguir 300 mil mortes, boa parte delas evitável.

Alguns até viram um fim durante os dias quentes e abafados de setembro e outubro, com o céu repleto de cinzas e poeira. Pelo segundo ano consecutivo, a Amazonia sofria com os fogaréus, enquanto o Pantanal virava um imenso braseiro. Consta que ao menos 40 % do bioma foram queimados.

Em novembro, quando o calor e as primeiras chuvas anunciavam a estação das águas, o coiso na TV esbravejava contra a vacina de seu inimigo, dizendo que quem tomasse iria virar Jacaré. As mortes e contaminações, que estavam decrescendo, voltaram a aumentar. A barbárie, essa nossa companheira tão conhecida, nos fez o ar da sua (des)graça: as novas variantes do vírus surgiram, trazendo o caos novamente para Manaus.

Ali, como George Floyd, muitos não podiam respirar, agora por falta de oxigênio. Foi a malfadada e maltratada Venezuela que socorreu os manauaras em seu período mais crítico. Devastada pela ausência dos botijões de oxigênio nos hospitais, as famílias compravam elas mesmas os botijões para seus entes queridos, alertando o governo sobre as futuras vantagens da privatização do ar.

Em plena estação das chuvas, o verão, todo o país agonizante e sem ar. O orgulhoso Sul e suas colônias europeias, o Sudeste e suas empresas modernas, o Centro Oeste e suas colheitadeiras e agrotóxicos, todos jazem agora em filas intermináveis esperando por um leito de UTI. As pessoas sem máscara, as pessoas se aglomerando em festas clandestinas, as pessoas urrando que a economia não pode parar, mas o vírus não está nem aí. Indiferente à economia e às explosões de inútil virilidade, o vírus trabalha e mata.  

As nuvens voltam a sumir no céu, lá longe no horizonte. Um friozinho invade nossas janelas. E a sensação de um ano que não termina, que não terminou. Apesar das vacinas, apesar do cansaço geral, precisamos superar a angústia e vencer a ignorância e brutalidade que nos domina.

O ano do corona é um ano que tão cedo não termina.