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domingo, 9 de junho de 2019

CORRER EM AEROPORTO - Diários (norte)americanos, 2 (a missão)



Odeio correr em aeroporto. Detesto. Convenhamos, não é o melhor lugar pra correr. Está mais para o estresse que para a saúde. Correr no aeroporto é correr num lugar cheio de gente, cheio de pisos diferentes, escadas, escadas rolantes, um infindável número de quiosques de coisas no seu caminho. E temos que correr.
Em geral, não é uma corrida simples. Além de ser uma corrida de obstáculos, você ainda está carregando alguma coisa. Uma mala, uma mochila, um pacote com o presente que você comprou para alguém querido, suas blusas de lã...a lista é infindável.
Já fui bom de corrida. Tive tempos memoráveis antes de meus joelhos me traírem. Hoje, correr é praticamente só no aeroporto. E eu detesto. Correr contra todos os que estão no seu caminho, tenham eles culpa ou não de estar na sua frente. Nunca tem nem nunca terão culpa, exceto os distraídos crônicos, dentre os quais me incluo. Correr contra o tempo, correr para pegar um check in aberto, correr para não perder o voo. Correr pra alguma coisa que vai acontecer e você não tem tempo.
Ontem, quando entrei nos Estados Unidos, entrei por Dallas. Passei por toda a parafernália da imigração. As entrevistas até nem são muito complicadas, e o pessoal se mostrou atencioso. O problema é passar pelos tais detectores. Tive que, como todos, tirar os sapatos, os cintos, estripar a mochila e abrir tudo. Esvaziar os bolsos, colocar tudo para fora.
Dentro daquele escâner de gente, é você praticamente como veio ao mundo, tirando algumas roupas por cima. Fiquei com medo. E se o escâner mostrasse quem eu sou? Quem eu realmente sou? Anos e anos de análise e terapia (freudiana e lacaniana), de meditações, de conversas profundas e discussões de relacionamento – vou encontrar quem eu sou no escâner de um aeroporto no Texas? Bizarro.
Depois, de passar pelo escâner, tive que correr. Fiz de tudo para não correr, mas meu voo estava ora num canto ora no outro, e fiquei perdido entre os balcões de embarque. Quando eu achei, foi depois de uma maratona e uma meia maratona e mais o complemento de uns 100 metros rasos com um “peixinho” na chegada. No entanto, apesar de todo este esforço, perdi meu voo.
A funcionária do balcão da companhia aérea não deu muita bola para meu sofrimento. Não teve qualquer pressa em fazer suas funções. Cada coisa a seu tempo, “no rush”. Entretanto, apesar de sua cara de poucos amigos, Cindi (era o nome no crachá) me deu uma outra possibilidade. Um voo no outro terminal. Outra viagem dentro do aeroporto. Trem, escadas rolantes, corredores imensos e vazios. Aqui estou. Espero nunca mais correr em aeroportos.
Estou aqui, em outro guichê, em outra espera, cheio de gente ansiosa ao meu redor. Eu tento esconder minha ansiedade. Mas estou ansioso. Será que vou conseguir embarcar? Será que vou ficar por aqui pra sempre, como aquele filme do Tom Hanks? Menos, Jeffinho, menos...
Só fico pensando na minha mala, que já despachei...será que um dia vamos nos encontrar?

domingo, 22 de abril de 2018

OS FEIOS E FEDIDOS CHEGARAM


"hein? Capitalismo Mercantil? no comprendo..."
Já vai já meio milênio e mais de dezoito anos.

Certo dia, uma praia na Terra dos Papagaios amanheceu com uns barcos estranhos ao longo da costa. Lá pelo meio do dia, veio uma canoa para a praia. Eram uns caras feios, fedidos, macilentos. Queriam água, comida. Foi dada comida pra que fossem embora logo. Depois de uns dias, com uma cara melhor, mas ainda fedidos, vieram aos montes pra uma pequena ilha em frente. Estavam com medo.

Lá na ilha, um cara vestindo uma longa túnica preta, começou a falar algumas coisas sérias para os outros, que ouviam compungidos. Deveria ser algo religioso, ou coisa que o valha. Ergueu um pedaço de comida na mão, molhou numa taça com uma bebida vermelha e estranha, comeu e deu de comer para os outros. Primeiro, para os chefes, depois para o resto.

O chefe, este. Tinha muito medo, andava sempre escoltado. Tinha umas roupas vermelhas, usava uns colares estranhos. Tinha um olhar meio blasé, olhava tudo e todos de cima, menos o tal da túnica preta. Perto dele, outro homem com roupa simples ficava atento olhando tudo. De vez em quando, fazia algumas anotações num pedaço de papel.

Os outros, ficavam levando barris e barris de água pra dentro dos barcos, levavam comida, lavavam tudo. Ficavam olhando espantados para as mulheres na beira da praia. Parecia que nunca tinham visto mulher. Olhavam com vergonha, de olhos baixos, como se não quisessem ver. Estranhos.

Alguns foram lá nos barcos. O chefe lhes deu uns vidros coloridos e uns espelhos, de que gostaram muito. Viram alguns animais estranhos, um deles parecia um jacu pequeno, só que com penas vermelhas.

Depois de alguns dias, dois dos navios se foram, levando os papeis que o homem atento ficou dias e dias escrevendo. Os outros acabaram convencendo um dos nossos a ir com eles. Ele achou divertido, e se foi.

No dia de irem embora, deixaram três deles aqui na praia. Os homens ficaram chorando feito filhote de jaguar que perde a mãe. Parecia que ficavam por castigo.

Castigo ou não castigo, isso não era com a gente. Um deles foi morto neste mesmo dia, e fizemos uma grande festa com muita bebida. Pena que a carne do sujeito fosse tão dura e sem gosto. Os outros dois, ficaram um tempo mais por aqui e os matamos depois de uma grande vitória sobre os temiminós, nossos inimigos. Com um pouquinho de comida saudável e descanso, a carne deles ficou mais aceitável.

Dos outros, nem soubemos mais. Diz-que foram para as Índias, em busca de fortuna.

Pra que, se o Paraíso é aqui, e agora?

(este é um texto antigo, repaginado...acho que ainda rola...)

sábado, 4 de março de 2017

A VOLTA PARA CASA: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES


Em março de 1942, a viagem de volta dos escoteiros antoninenses tinha o risco real de ataques de submarinos alemães
Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o navio enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora.  Uma onda acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada, e Lydio receou que fosse atirado ao mar pelos vagalhões de agua salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha e foi forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família.
Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos, até que tomou coragem e voltou a seu camarote. Estava encharcado e gelado. Tomou um banho, caiu na cama e dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio.
Haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa.
Já no navio, ao singrar as aguas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar.
Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com  sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam.
Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.
O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. Em pouco tempo, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros e que seria decisivo para a declaração de guerra aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto.
Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, o barco viajava todo pintado de preto, e nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.
Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite.
Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estava atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A REPUBLICA DE CURITIBA



Curitiba tem estado nas cabeças e nas bocas recentemente como um local: a sede da tal “República de Curitiba”, a sucessora da “República do Galeão” dos desvarios udenistas do passado. Vi recentemente nas ruas os carros com adesivos apoiando Sergio Moro e suas investigações. O curitibano médio sente que ali esta se fazendo uma luta contra a corrupção, e se sente mais aliviado.

Afinal, todos sabemos que, se estamos vivendo (e sobrevivendo) numa sociedade marcada pela corrupção, a corrupção também nos atinge. No fundo no fundo, todos nos sentimos um pouco corruptos no nosso dia a dia. Molhar a mão do guarda, furar fila, andar acima da velocidade permitida são pequenas corrupções. E existem as grandes, as grandes maracutaias, aquelas que sabemos de longe, seja por conversas seja através de noticias na mídia. Se vemos isso acontecer sem fazer nada, então somos todos corruptos.

Quando aparece alguém querendo fazer justiça, queremos que ele puna os corruptos. E os puna exemplarmente. Segundo os psicanalistas, o desejo é que nosso cotidiano corrupto seja punido, e que nós também sejamos punidos por nossa corrupção. Aí vem a vontade de punir mais que a punição, punir exemplarmente. A vontade de punir (nos punir) é como a sensação do linchamento. Uma catarse coletiva toma conta da sociedade, que sente que está sendo regenerada e punida por suas culpas.

Entretanto, uma coisa é a justiça, outra o justiçamento. A primeira é lenta, exige contraprovas, não se contenta com versões, e nem sempre leva a catarse. Muitas vezes, a justiça não pode ser feita exemplarmente, pois a necessidade de provas é um imperativo e uma limitação da justiça. Não se pode punir sem absoluta certeza; a dúvida está do lado do réu. Por isso muitas vezes sentimos a sensação de que a justiça é distante, difícil, senão impossível.

Já o justiçamento não. Se a justiça não foi feita, podemos rapidamente estender uma corda numa árvore e pendurar o culpado. Sim, porque o culpado já o é de antemão. Precisa apenas de uma denúncia, umazinha só, e a culpa está feita, às favas as minúcias e as regras legais. Queremos de uma vez acabar com o culpado, e com ele acabar com nossa culpa. Quando acaba o justiçamento, uma sensação de euforia e de dever cumprido toma conta das pessoas, como uma boa injeção de dopamina.

O justiçamento pode deixar as pessoas mais relaxadas. Pode ser glamuroso, como num filme do Batman. Mas na vida real, com suas incerteza e suas nuances, o justiçamento espalha ainda mais injustiça do que aquela que pretende exterminar. Os prejulgamentos, os julgamentos midiáticos estão aí pra nos mostrar o quanto podemos nos equivocar e provocar ainda mais injustiças.

Existiu o caso da Escola Base em São Paulo. Existiu, nesta mesma Curitiba republicana, o longo processo das “bruxas de Guaratuba”, uma historia macabra de assassinato de crianças em rituais de magia negra que frequentou nosso imaginário nos anos 90. E existem os processos políticos travestidos de ações contra a corrupção, como estamos vendo hoje.

Nada contra investigações contra a corrupção. Quem não é a favor de investigar e punir atos de corrupção, ainda mais com o dinheiro público? No entanto, existe hoje uma série de perversões que estão sendo feitas em nome do combate à corrupção e que estão viciando e envenenando nossa jovem democracia.

A República de Curitiba, chefiada pelo juiz Moro, gerou uma serie de fatos controversos, muitos deles contestados pelos Juízes do Supremo e por muitos advogados no Brasil e fora dele. Prisões arbitrárias, investigações feitas de maneira parcial, divulgação ilegal de escutas telefônicas, são muitas as acusações de arbitrariedade manchando uma operação que deveria ser a “nossa” Operação Mãos Limpas.

O juiz Moro não é Batman. Não podemos concordar com um juiz justiceiro. As investigações devem ser feitas nos termos da lei. Claro, doa a quem doer. Não podemos ser coniventes com quem rouba dinheiro público. Mas este processo de investigação - e isso eu acho que é claro (é?) para todos - deve ser feito dentro da lei.

De boas intenções estão cheias as casas e as almas da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba. Uma cidade tão limpinha e organizada, Curitiba tem orgulho de si mesma. Tem tanto orgulho de seus ônibus vermelhos que não consegue pensar num sistema mais eficaz como o Metrô, por exemplo. A expansão da cidade gerada nos tempos da Ditadura e de Jaime Lerner já não se sustenta.

Mas o curitibano que põe adesivo no carro dizendo que apoia a Lava-Jato (incondicionalmente, talvez!) não anda de ônibus. É fácil sentir orgulho de algo que você vê de longe, na canaleta. Não pega os ônibus superlotados no horário de pico, não enfrenta as filas dos terminais. É fácil dizer que “o sistema de transporte funciona”, por que você não sente a sua atual deficiência.
O curitibano que acha que mora na capital ecológica não pode usar (nem pra limpar as mãos!) as águas do rio Belém, do Atuba e do Barigui. Acha que o frio é chique, mas mora em casas ruins termicamente, e usa roupas de frio igualmente caras e ruins. E se acha na Europa, cercado de araucárias por todos os lados.

É fácil não ver seus próprios pecados. É fácil esperar que um outro (um justiceiro) faça o “trabalho” que eu como cidadão não posso fazer. É fácil bater no peito e dizer que o problema são os outros. Assim como é fácil dar um like no facebook e colocar um comentário raivoso de que você é a favor do Batman.

A república de Curitiba eu quero outra.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

SOB A SOMBRA DO VULCÃO

O Vesúvio visto de Nápoles

Ontem eu estava com certo receio de Nápoles e dos napolitanos. Apesar de me julgar quase um napolitano, que achava que para conseguir esta condição era suficiente consumir sorvete napolitano (aquele com três sabores) e a pizza marguerita, cheguei aqui com os dois pés atrás. Confesso que minha primeira impressão foi a de um mundo caótico e sem lei. É um pouco assim mesmo. Mas tem também outras coisas.
Ao caminhar pela manhã pela cidade, não se pode ignorar a figura magna do Vesúvio. Sim, o grande vulcão que assombrou o império romano e submergiu as cidades de Pompeia e Herculano está ali, nas vistas de cada um. É como se, em Antonina, estivéssemos todo o tempo com um perigoso e avassalador morro do Feiticeiro.
Ao caminhar pela cidade sentimos que ela é habitada por um povo hedonista, que adora o prazer e se divertir. Como não se divertir, se você vive na boca de um vulcão? Fiz essa pergunta para mim mesmo varias vezes. Não sei se tenho uma boa resposta. A ultima erupção foi em 1944, os pracinhas brasileiros anotaram suas ocorrência quando passaram por aqui. Como reagiria frente a uma erupção?
O que impressiona em Nápoles é o sol, que brilha como em nenhum outro lugar que eu conheça. Uma luz que faz tudo se cobrir de uma aura, como se fosse uma pintura a óleo. Os pintores que vierem para a Itália no século XVIII inventaram um tipo de pintura que se encontra em todos os lugares, em todas as casas burguesas desde então: uma pintura em tons pastel, mostrando uma natureza perfeita e maravilhosa, numa baia perfeita e cheia de gente alegre. Arvores e céus perfeitos, desenhados em delicados tons pastel.
Não é assim, por suposto. As pessoas são rudes e grosseiras, e sua grosseria é visível nas ruas, no transito, no atendimento dos restaurantes. O lixo se acumula em todo o lugar, apesar dos carrinhos e das modernas caçambas de lixo em todas as ruas. No comercio há que se fazer atenção no troco, os taxistas (sempre eles – cadê o Uber?) querem nos enganar a todo o momento.
Nas ruas, vemos cartazes com figuras estranhas, candidatas a não sei o que. Eu não votaria em nenhum deles. Mas há quem vote, e esses são os napolitanos. Foram enganados, invadidos, envenenados, e não estão nem aí. Adoram sua baía, sua cidade e sua vida. Lutam pra manter tudo como está. A alegria é a família, a missa, os amigos. Faz quinhentos anos que é assim. Resistiram à Revolução Francesa, às Guerras Napoleônicas, à Unificação italiana, à Revolução Industrial, à invasão aliada durante a Segunda Guerra Mundial. Enfim, os napolitanos resistiram à Era Moderna. Apesar de andarem pra lá e pra cá com seus celulares, estarem na internet e assistirem à RAI, os napolitanos são seres do passado, tentando manter-se naquelas pinturas românticas de antanho.
Entendo perfeitamente.
Venho também de uma cidade que, embora pequena e insignificante e parada no tempo, não desiste jamais. Claro está que a Deitada-a-beira-do-mar não se compara com Nápoles e seus dois mil anos de história. Antonina não tem o Vesúvio, mas como disse antes, tem o Morro do Feiticeiro. Embora moderna, é também conservadora. As pessoas tem essa amabilidade rude e graciosa que encanta quem vem da modernidade. Que afaga quem vem, carente,  de relações capitalistas, tipo “Time is Money”, “no pain no gain”.  
O que eu quero dizer é que esta sensação de um tempo anterior a nós a qual, embora não se sustente, nos é muito cara. Não é possível passear pelas vielas de Nápoles sem sentir uma certa nostalgia deste tempo e deste espaço, mesmo que não pertençamos a este mundo. Eu, que tenho algumas fumaças deste ar pré-capitalista, que trago de minha vivência antoninense, me rendo e digo que um outro mundo é possível.

Vivemos todos sob a sombra do vulcão. 

domingo, 12 de junho de 2016

NAPOLES NÃO É PARA PRINCIPIANTES

Piazza del Plebiscito, Napoli

Cesar e Napoleão cruzaram os Alpes uma vez. Eu e Zezinha, de uma maneira mais simples e banal, cruzamos os Alpes duas vezes ontem. A primeira, vindo do Brasil em direção a Munique, na Alemanha. Lá demoramos um tempo no aeroporto e pegamos outro avião para Napoli, aonde chegamos ao fim da tarde. Foi quando cruzamos os Alpes pela segunda vez. O tempo nublado não nos permitiu ver nada além das verdes campinas da Baviera e dos rudes penhascos próximos de Napoli.
O aeroporto de Nápoles é bem simples e meio velhinho, e me lembrou do antigo Santa Genoveva de Goiânia, antes das reformas da Copa. O motorista de taxi, que me lembrou de todos os motoristas de taxi do mundo, dirigiu feito um maluco pelas avenidas e como um “pazzo” pelas ruas velhas do centro de Nápoles. A noção de “transito caótico” dos guias de viagem é pouco. As ruas são estreitas e os carros e motos andam a toda, expulsando para os cantos os pedestres. Fiquei com pena de algumas velhinhas que vi pelo caminho, se esgueirando para uma proteção de metal que algumas vielas têm. Mal dá pra caber um carro e ali passam uma moto, um carro e dois pedestres. Ao mesmo tempo.
O motorista de taxi nos indicou alguns pontos, com uma bela vista do monte Vesúvio de do monte Somma, majestosamente situados no fundo da baia de Nápoles. Indicou o Quartiere Spagnoli, onde as ruas estreitas e prédios altos com varais de fora a fora dá a impressão do exótico que a Itália sempre mostrou aos turistas. Aquele abandono e pobreza blasé e aquele amontoamento de gente que se vê nos filmes italianos antigos.
Nossa anfitriã do AirBnB, a Marina, nos recebeu muito bem, mostrou os detalhes do quarto e da casa. Estamos num quarto no rés-do-chão de um prédio do século XVII, com as paredes descascando e janelas velhas e varais para a rua. Moraria num desses se obrigado pela necessidade, claro está. Mas se pudesse... Ah minha casinha!
Depois, Marina nos levou a conhecer a redondeza. Caminhamos pelas ruas do bairro, ruas estreitas e cheias de pequenos comércios: uma pizzaria, uma verduraria, uma mercearia, e essas outras coisas pré-capitalistas que a modernidade nos deixou sem. Nem temos tempo para comprar todas essas coisas num só lugar, o que dirá comprar tudo picado, e à dinheiro...
Mais abaixo está a grande Praça do Plebiscito, e seus grandes cafés, o Palácio Real, que está em reformas, e a opera São Carlos. Segundo Marina, ela está no mesmo nível do Scala de Milão. Tem na sua programação desta semana um “Romeu e Julieta”, a preços obviamente exorbitantes.
Marina nos deixou na galeria Umberto Primo e se foi. Voltamos no meio da multidão, de gente passeando num morno sábado à tarde.  Diz que as ruas são perigosas, e até crianças são batedoras de carteira. Vimos foi muita gente rindo e se divertindo, o que, dizem, é coisa que os napolitanos melhor sabem fazer.
Comemos uma marguerita à napolitana, uma massa de pão com massa de tomate e grandes (e poucas) folhas de manjericão e um pouco – muito pouco – de queijo. Em tempos de menos glúten e gordura, não é tão ruim assim. A noite chegou, e fomos dormir, exaustos de tanta viagem e novidade.

Ao que parece, Nápoles não é para principiantes....

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O PRETO PODE SER UM DIGNO MEMBRO DA SOCIEDADE HUMANA


Karl Von Koseritz (1830-1890)

"Meus leitores já conhecem Antonina, e assim poderia ficar a bordo, uma vez que o meu dever de repórter não me chamava. No entanto, quando se está há alguns dias a bordo sente-se especial prazer em ir a terra de novo, e, como devíamos permanecer ali longas horas, desembarquei com o sr. Hauer e logo achamos o restaurante da sra. Rosskampf onde tomamos a excelente cerveja de Morretes, esta pura e verdadeira flor das cervejas nacionais. Fui em seguida ao telegrafo, mas como o telegrafista tinha saído para passear tive de esperar meia hora até que ele voltasse. Depois voltamos à casa da sra. Roskampf, onde tomamos um almoço frugal, que nos coube muito bem, depois de dias de comida de bordo. 
Visitei todas as ruas de Antonina, mas alem das coisas notáveis já observadas antes encontrei uma outra, isto é, uma velha ruína com as portas e janelas escancaradas, tudo aberto e destruído, arrebentado por toda parte, mas que trazia uma taboleta com a inscrição “Hospital da Santa Casa”.
Extraordinária idéia. Uma ruína não pode ser hospital; pode no máximo pretender sê-lo, depois de restaurada. Possivelmente puseram a taboleta para convidar os estrangeiros a auxiliarem na reconstrução da casa, que já se acha assim há 20 anos. As ruas de Antonina estavam desertas, a pesar do domingo, somente os urubus andavam gravemente e sacudiam a cabeça para os estranhos que perturbavam o seu dia santificado. 
Somente pela tarde se animou; havia corridas nas proximidades, e os jovens cavaleiros de Antonina vieram à casa da sra. Roskampf a fim de jantar e comentar os acontecimentos das carreiras. Causou-me curiosa impressão que um negro se tenha assentado na mesa junto com os rapazes, (na sua maioria de descendência alemã), e se tenha feito servir confiadamente por brancos. Isto parece natural aos costumes locais, e afinal o cidadão preto pode ser um digno membro da sociedade humana. 
À noite voltei para bordo e esperei com paciência até que o carregamento estivesse acabado e nos puséssemos a caminho. Já disse que desde Paranaguá até Antonina as alturas que cercam a baia são cobertas por espessas florestas, nas quais não se vê uma clareira. 
O sr. José Hauer me disse que a terra é excelente e muito fértil mas falta gente, e a incoerência dos governos desacreditou de tal forma o Paraná com os seus erros que não se pode pensar no reforço da imigração nos próximos tempos. Infelizmente é sempre a insensatez dos governos que cria impedimentos aonde a natureza oferece tudo o que é necessário para um bom desenvolvimento da imigração e da colonização. 
Naturalmente quando ocorrem desonestidades como aqui, onde potentados compram terras por 15 contos para vendê-las ao governo por 90, terras aonde não há absolutamente nada, então não se deve admirar que a colonização não progrida. Tenho ainda muita esperança nesta bela e rica província, aonde a cultura alemã, (pelo menos na capital e imediações), floresce tão fortemente. Possam os patrícios do Paraná prosseguir no caminho certo; também eles têm a construir uma parte da historia cultural, e um dia, conosco e com os alemães de Santa Catarina, seremos um fator nada desprezível na historia do Brasil meridional.
Amanhã, se correr bem, estaremos ao meio dia em Desterro, e de lá ainda escreverei. Quarta feira de manhã devemos atingir a nossa barra; se tal não se der, é outra questão, que fica aberta ao destino.

Antonina, 24 de junho de 1883".

mais  um texto de Karl  von Koseritz, jornalista alemão   que  se radicou no Rio Grande do sul e foi um dos grandes propagandistas da imigração alemã para o Brasil nos tempos do Império  Esta  é  sua segunda passagem pela Deitada-a-beira-do-mar. (a primeira pode ser lida aqui). aqui ele narra o passeio pela cidade deserta, sabemos que em Morretes tinha uma cerveja boa. Koseritz narra a moda das corridas de cavalo em Antonina e se surpreende ao ver um negro sendo tratado como igual pelos outros rapazes brancos. Ao final, comenta sobre a corrupção que grassava no Paraná daquela época, onde os fazendeiros compravam terras de graça e as vendiam ao governo por fortunas. Nada que aconteça hoje, felizmente...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A CADEIA DE ANTONINA É A IMAGEM DAS AUTORIDADES DAQUELE LUGAR


(encerram-se aqui as aventuras de Ave-Lallement pela Deitada-a-beira-do-mar em setembro de 1858; ele reclama do seu "hotel" numa barbearia e narra seu encontro com um alemão preso na cadeia de Antonina. Faz comentários nada elogiosos sobre a Cadeia e sobre a Justiça e as autoridades do lugar. Finalmente, ele fica feliz pois o tempo melhora e ele pode ir embora da cidade. Ao que parece sem nenhuma saudade...)
Realmente horrível a minha estada em Antonina. Na casa do barbeiro, tudo vulgar, tudo reles e em parte alguma se podia evitar essa vulgaridade. O homem pode ter sido marinheiro num navio negreiro. Esteve evidentemente na costa da África. Na sua miserável casa ocorriam as maiores misérias: palavras injuriosas sobre os hospedes que não pagavam ou de hospedes aos quais se reclamava dinheiro excessivo. Ali entravam e dali saíam figuras esquisitas, ainda que entre elas assomassem algumas sofrivelmente decentes. Se quisesse por no papel o que lá observei, poderia sair um vivo esboço para um romance.
Cheguei como um mensageiro de um mundo melhor, embora ninguém me conhecesse em Antonina, salvo um médico que estava na cadeia.
Era o pobre diabo de um meclemburguês[1] e, a falar a verdade, não era médico, mas um tecelão, chamado Muller. Dou o nome sem hesitar, porque afinal toda a gente se chama Muller!
Negociara com a célebre droga de Leroy, prejudicando, talvez, na vila de Antonina, os interesses de alguém que fizesse o mesmo negócio. Quando o levaram perante o presidente da Câmara Municipal e não quiseram reconhecer seu documento de identidade de Meclemburgo, o tecelão, que com ninguém podia entender-se, rasgou o documento na presença dos “Senhores” reunidos. Isso lhe foi levado muito a mal.  Foi denunciado criminalmente e devia ir a Júri, a reunir-se seis meses depois. Não há no lugar uma só pessoa que conheça ao mesmo tempo o alemão e o português. Considerei então meu dever comunicar o caso ao cônsul geral do Meclemburgo no Rio de Janeiro e ver se era possível ajudar o homem metido no horrendo calabouço.
A masmorra onde está o homem é realmente uma coisa atroz. Como se pode suportar tal coisa? A cadeia, a penitenciaria de Antonina, é um monumento tão vil que não há expressão para denomina-lo. Tenho bastante paciência com as fraquezas, deficiências e injustiças que encontrei durante minha viagem. Mas há condições que é preciso levar ao pelourinho da opinião publica. A cadeia de Antonina é uma dessas condições, uma imagem da humanidade e justiça das autoridades daquela cidade.
Enfim, a 14 de setembro, cerca de meio dia, apareceu ao longe, ao leste da baia, o vapor “Paraense”. Nunca sai de um lugar de tão bom grado, tão alegremente quanto de Antonina. Como despedida, fui ainda muito explorado pelo barbeiro, mas de boa vontade paguei ao sujeito, pelos três dias em sua ordinária tasca, os 18 mil réis reclamados (14 táleres prussianos) e fui para bordo do vapor.




[1] Segundo a sempre confiável Wikipedia (em inglês) Mecklenburg (baixo alemão: Mękelnborg) é uma região histórica no norte da Alemanha  compreendendo a parte ocidental do estado (província) de  Mecklenburg-Vorpommern. As maiores cidades da região são Rostock, Schwerin, e Neubrandenburg. Naquela época, era uma das mais pobres e atrasadas regiões da Alemanha. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

DEPLORO CADA MOMENTO EM ANTONINA



(continuam as aventuras de Ave-Lallement pela Deitada-a-beira-do-mar em setembro de 1858; aqui ele conta o sufoco que passou enquanto esperava um navio para Santos  retido pelo mau tempo na baía. nesse tempo, lamentou profundamente sua hospedaria, na casa de um barbeiro capelista!)

Quando entrei no lugar, não sabia, na verdade, para onde dirigir-me. Mostraram-me a casa de um sapateiro, o único alemão domiciliado em Antonina; porque o outro alemão, morador ali, estava na cadeia por ter praticado ilegalmente a medicina.
Agradar-me-ia ter seguido de canoa, naquela mesma tarde, para Paranaguá, mas mo impediu um forte sueste; e, como não há hotel no lugar, o sapateiro mandou-me a casa de um barbeiro, com uma alusão de que o homem havia de parecer-me uma espécie de Fígaro.
O barbeiro indicou-me uma cama num quarto atrás do salão da barbearia, onde havia mais outra. Muito me desagradou o local, mas sobretudo o pensamento de que já as 2 horas da manhã seria despertado para velejar, com o terral, para Paranaguá.
Entrementes entraram na casa vários jovens, inclusive alguns de Paranaguá, que consideravam a casa como um café. Um deles, jovem bem educado, estivera, a serviço da marinha portuguesa, na Índia e na África e participara da celebre catástrofe no navio de linha “Vasco da Gama”[1] à entrada da baia do Rio de Janeiro em 5 de maio de 1849. Bem como outros senhores, ele me conhecia de nome; palestramos sobre astronomia até pelas 11 da noite.
Quase não cabiam os hospedes na pequena casa do barbeiro. Que saudade pensava eu em nossos ranchos frios e úmidos na Serra Geral!
O pensamento de que breve seria despertado para fazer uma viagem noturna num barco aberto pela baia de Paranaguá fez-me lembrar de que antes tivesse ficado como sapateiro alemão e me alojado em sua pequena oficina. O sofrido Ulisses morou em casa de uma pastora de porcos, o rei Davi alojou-se numa caverna, razões bastantes para que eu desejasse a casa do bom sapateiro.
Para não estar dormindo no momento em que me viessem despertar, não adormeci. E durante a noite mudou o tempo; a baia começou a marulhar e quando me levantei de manhã me disseram o que há muito eu já sabia, isto é, que com tal tempo não se podia navegar as cinco léguas na baia até Paranaguá. E como no dia 13 o vapor deveria regressar a Paranaguá e Antonina, para seguir, via Cananeia e Iguape, para Santos e Rio de Janeiro, resolvi acomodar-me com o lado mais amável das pessoas e circunstâncias que me cercavam e aguardar o vapor em Antonina para continuar a minha viagem, tanto mais quando ele costuma voltar daqui para Paranaguá e ali ficar algumas horas.
Muito incômoda me foi, algumas vezes, a falta de hotéis, sobretudo quando me punha em contato com pessoas insuportáveis. Em cidadezinhas solitárias e remotas, em distritos longínquos, onde não chegam viajantes, pode-se não esperar não esperar estalagens, mas em cidades do litoral, em pontos terminais de importantes estradas comerciais, o europeu instintivamente as procura e não compreende como o espirito de especulação seja tão pequeno que não empreenda um negocio que decididamente tem de render dinheiro. No meu dia de descanso em antonina, um domingo, éramos sete hospedes ao almoço. A comida lamentável, a louça e o serviço de mesa muito maus, bem como toda a casa, uma casa térrea com uma porta, uma janela para a rua, o salão de barbearia ao lado e que mal teria espaço para a pequena família.
Mas o Fígaro da casa não sentia o menor constrangimento. Segundo uma declaração, uma alusão que fez, ele conhece no lugar muitos locais para gente jovem, inteiramente a maneira do antigo Oriente.
E todavia a tonstrina[2] do homem também me recordou a Grécia e Roma. Ele ficaria bem em muitas comédias de Plauto e Terêncio. Varias conversas, que escutei, lembravam-me um Antifo e as amabilidades de Fânio, o célebre Fanny de Terêncio. Houve conversas, à mesa, que já se encontravam no banquete dos sofistas de ateneu, apenas com mais graça grega. Um cinzento tempo chuvoso me obrigou a ficar, fastidiosamente, quase o dia inteiro, numa casa onde não dispunha de um quarto para mim e estava exposto ininterruptamente a tudo o que me aborrecia.
Deve ser esta a razão por que em Antonina me senti mais desagradavelmente do que em toda parte e deploro cada momento que tive de passar ali a mais do que era necessário.
Com verdadeira ansiedade aguardava a chegada do vapor “Paraense” para com ele e nele poder sair dali.




[1] 05/05/1849 - salvamento da Nau Vasco da Gama. No dia 05 de maio de 1849 o Vapor D. Afonso, sob o comando do Capitão-de-Mar-e-Guerra Joaquim Marques de Lisboa, foi ao encontro do barco lusitano Vasco da Gama, que encontrava-se em iminente perigo de naufrágio nas imediações da barra do Rio de Janeiro, submetido a um violento temporal. Depois de 18 horas de luta com os elementos da natureza, conseguiu trazê-la para dentro da Baía de Guanabara.
[2] tonstrina - barbearia

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ANTONINA & ROMA

Robert Christian Ave Lallement (1812-1884)

(...)
Neste pequeno e bonito trato de terra, limitado, assim, pelas serras por três lados, mas lavado ao oeste pelo mar, introduziu este mesmo mar uma mui graciosa e multiforme baia, cuja comunicação com o alto é parcialmente impedida por ilhas, tendo, porem, bastante profundidade para dar livre acesso a navios comerciais.
A fundura da barra mais utilizada para passagem é de 30 pés. A baia propriamente dita oferece excelentes condições portuárias. Na sua margem esquerda, a cidade de Paranaguá, rival, em tamanho e importância, de Curitiba, a capital; na parte ocidental da baia encontramos a vila de antonina, onde entrei precisamente às quatro horas da tarde, de 11 de setembro.
Para quem vem do interior, a vila fica muito escondida; só se avista quando está bem perto.
Nada mais me aborrece do que ver obras, sobretudo vultosas, começadas e inacabadas, fato muito frequente no Brasil l e que procede da santa Engracia de Portugal.
Ao entrar em antonina chega-se a um bonito campo verde, no qual se eleva considerável numero de obras iniciadas: uma igreja, muros de casas, pilares, etc. em torno das paredes destinadas á ruína desde a nascença pastam reses em profunda paz. Evidentemente a planície coberta de fragmentos deve ser o Campo Vaccino de Antonina, o velho Fórum Romanum, e tem com ele acentuada semelhança, apenas com a mesma diferença existente entre Antonina e Roma. Até agora é essa diferença ainda muito notável. Mas quando um dia estiver pronta a Via Appia para Curitiba, poderá Antonina tornar-se – uma cidade de sete colinas.
Por ora há, no centro da cidade, uma bonita colina, de suave ascensão; no seu pico, uma igreja de nossa senhora e o panorama que de lá se descortina é maravilhoso: avista-se a magnifica baia de antonina, na qual a natureza prodigalizou liberalmente seus encantos. Bonita a ampla praça verde do lado esquerdo da igreja.
Belas, em parte, as casas de Antonina que estão terminadas, algumas, aliás, muito vistosas e magnificas, especialmente na Rua Direita. Muitas porem, inacabadas e me causam o aborrecimento a que acima me referi. As possibilidades de um futuro porto – e quando estiver pronta a estrada de Curitiba terá de pensar-se neste porto – são animadoras. O vapor procedente do Rio de Janeiro, em sua visita a baia de Paranaguá, vem também a Antonina.
Causa, pois, a vila de Antonina uma muito boa impressão, de que gozei mais do que convinha. 

(Robert Ave Lallement, medico alemão, morou no Brasil por muitos anos e fez diversas viagens, onde observou os costumes da terra e fez anotações sobre o progresso das colonias alemãs no sul do Brasil. Este trecho mostra sua curta passagem pela Deitada-a-beira-do-mar em setembro de 1858)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

UMA CONTA SALGADA...


(Bigg-Whiter e seus companheiros pedem a conta do Hotel....que surpresa!)

(...)
Pedimos ao Sr Pascoal a extração de nossa conta para logo e, por varias horas, ficou ele sentado à cabeceira da longa mesa da sala de jantar (a mesma em que eu dormira parte da noite no dia de chegada à Antonina), absorto com as somas e os cálculos, cercado de tinteiros, canetas e longas tiras de papel. Evidentemente, a preparação de conta tão grande era um acontecimento na vida de nosso hoteleiro.
Quando por fim a conta foi apresentada, não nos admiramos mais do tempo que ele havia gasto à mesa.
Segundo as contas do Sr Pascoal, nós e os nossos convidados havíamos consumido trezentas garrafas de cerveja em três dias. Supondo-se mesmo que quarenta garrafas tivessem sido dadas de vez em quando aos carregadores, o nosso consumo por pessoa e por dia era de nove garrafas de cerveja!
Infelizmente, nenhum de nós teve a ideia de contar ou anotar a quantidade gasta. Ele nos garantia, fazendo gestos suplicantes de inocência ofendida, que havia anotado cada garrafa pedida, do que não duvidamos, mas depois, certamente, multiplicou o total por três, como havia feito “Madame”, no hotel “Ravot”, no Rio de Janeiro. Quanto às outras rubricas a conta foi bem razoável, porque a comida era boa e havia fartura. Era muito melhor do que a que vínhamos comendo nas últimas cinco semanas. Resolvemos admitir que as contas do Sr Pascoal estivessem corretas e pagamos o total.
(...)
Na manhã seguinte, cedo, apareceram duas carroças à porta para nós, puxadas cada uma por cinco dos pequenos cavalos da região. Três bestas de sela as acompanhavam; uma para o tropeiro, que seria o guia interprete e camarada, e as outras duas para o Capitao Palm e Curling (chefe do II grupo) que preferiram ir montados, porque ficavam mais à vontade.
A parte do material que ficara pusemo-lo nas carroças e entramos para nos despedir do dono do hotel. A despedida foi muito afetuosa. Se foram as nossas boas qualidades ou a maneira afável que pagamos a extensa conta, que lhe conquistaram o coração, não me atrevo a dizer. Mas o certo é que ele nos abraçou um por um repetidas vezes e com lagrimas nos olhos, desejando a todos nos muitas felicidades e breve regresso diante dos perigos a nossa frente e pedindo que não nos esquecêssemos dele. Quanto a mim , garanto que não esqueci. Todas as vezes que via uma garrafa de cerveja era o bastante para que ele viesse a minha lembrança muitos meses depois. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

BICUDOS NA PORTA DE CASA!



(Thomas Bigg-Whiter e seus amigos se espantam com a quantidade de pássaros na Antonina do seculo XIX...)


(...)
Durante aqueles três dias de nossa estadia em Antonina tivemos ocasionalmente tempo de sair com nossas espingardas de caça, mas só ao noitecer do segundo dia foi que fizemos a descoberta de que certos campos alagadiços, nos arredores da cidade, estavam cheios de narcejas. Faber (chefe do grupo I) e eu voltávamos de um passeio às matas, naquela tardinha, quando vimos diversas daquelas aves voando. Não as reconhecemos imediatamente, (nunca pensamos em encontrar no novo mundo aquele tipo de ave), mas, atirando numa por curiosidade, ficamos atônitos por ser realmente uma narceja. Começamos logo a caçada, para recuperar o tempo perdido e conseguir algumas no curto espaço de meia hora que ainda restava de claridade. Naquela mesma noite comentamos o caso, enquanto saboreávamos uma boa batida com ovos, como aperitivo para o jantar.
Foi falta de sorte nossa não ter feito aquela descoberta mais cedo. Se soubéssemos da existência daquela mina ali pertinho de nossa porta, teríamos sem duvida feito penetrações profundas, pois, embora fosse boa a comida do hotel, ela não era variada. Comíamos, todos os dias, os mesmos pratos no almoço e jantar. O terceiro e ultimo dia em Antonina aproveitamo-lo caçando narcejas, embora o Sr. Pascoal, para nos animar, afirmasse haver tão grande numero de “bicudos”, como as chamava, no planalto de Curitiba, que era possível mata-los da porta de casa!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SI PÕE MAIS CÁRRGA, A XENTE FOLTA!



(Seguem as aventuras de Thomas Bigg-Whiter e a Expedição Inglesa em Antonina. Agora eles se vêem às voltas com os carroceiros alemães da cidade, que monopolizavam o transporte de cargas para Curitiba)

Não resta duvida que, se o ancoradouro em Antonina fosse menos limitado em extensão, a cidade teria grande futuro diante de si, mas parece que havia somente dois canais, comparativamente pequenos, onde poderiam ancorar embarcações de qualquer tamanho. No momento, a vantagem de antonina sobre sua rival Paranaguá é a de se comunicar com Curitiba por uma estrada. Se, contudo, o plano proposto de se construir uma estrada de ferro de Paranaguá a Morretes, e dai para Curitiba, for realizado, e não o traçado que tem Antonina como ponto de referência, não resta duvida que o saldo de vantagens será transferido para a cidade anterior. Quando visitei ultimamente estas duas cidades, travava-se entre elas tremenda luta pelos jornais sobre esse importante problema da estrada de ferro.
Nessa ocasião antonina contava talvez 1200 habitantes, dos quais grande porção era de alemães, e logo descobrimos que todo o serviço de carroças estava em suas mãos. Contratamos, então, o maior número possível destes veículos no primeiro dia, carregando-os de material e despachando-os para Curitiba, tão cedo eles puderam ficar prontos. As carroças eram pequenas, porem, bem construídas. Os proprietários se firmaram no proposito de não ultrapassar certa capacidade. De fato, elas não levavam mais de meia tonelada de carga. Olhamos mais uma vez para os veículos  - eram fortes e bem construídos. Olhamos para os cavalos – eram pequenos e fracos, mas não havia menos de cinco atrelados a cada carroça, e quanto mais  olhávamos mais ficávamos perplexos diante da absurdidade da carga diminuta que levavam. Reclamamos, mas em vão. A invariável resposta era: “se puserem maior carga, voltaremos para casa com as carroças”, promessa que foi cumprida por um ou dois carroceiros. Fomos, portanto, forçados a aceitar as condições estipuladas, a tal ponto que pagamos pelo transporte de uma tonelada de material, no percurso de cinquenta milhas, o preço de dez libras! Qual seria o preço do carvão em Londres sujeito a esse preço de transporte?
Se o nosso material estivesse acondicionado para ser transportado em lombo de mula, como deveria ter sido feito antes de deixarmos a Inglaterra, teríamos, sem duvida, forçado os carroceiros a cobrar um preço razoável, mas na situação ficávamos inteiramente a mercê deles. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

UMA SIMPLES ALDEIA

"Vista Geral de Antonina,1872", aquarela sobre papel de William Lloyd, 11 x 34 cm (duas folhas coladas), Liga Ambiental, Curitiba; esta aquarela foi pintada por um dos colegas de Bigg-Witther em sua passagem pela Deitada-a-beira-do-mar em 1872, o também engenheiro inglês William Lloyd. Pra uma aquarela pintada por um engenheiro, não está mal...Se estas suposições estiverem corretas - são suposições ainda - temos que esta é a mais antiga imagem da cidade até agora conhecida, agora com nome, sobrenome e data de nascimento. Aqui vai mais um trecho da passagem da missão inglesa por Antonina. 
PARTE 3
(...)
"Chegáramos a uma nova etapa de nossas viagens. As marítimas tinham terminado por algum tempo. O nosso próximo ponto era Curitiba, a capital da província, distante de Antonina cerca de 50 milhas. Sabíamos que havia uma estrada de rodagem não ainda terminada durante todo o percurso e não demoramos a descobrir os recursos do lugar quanto a transporte.
A própria cidade foi logo explorada, sendo antes o que na Inglaterra chamaríamos de aldeia.
 Vangloriava-se de sua rua principal e de algumas outras menores ou becos, que saiam dela em ângulos retos. As casas, na maioria térreas, eram construídas de pedaços de pedra trazidos do Rio de Janeiro como lastro e que, depois de sobrepostas em seco, eram cobertas de argamassa e cal. Poucas janelas eram envidraçadas e, como no Rio de Janeiro, não se via nenhuma chaminé por cima dos telhados. Nas melhores casas um cano de ferro podia talvez ser visto, atravessando a parede traseira, sob as calhas salientes do telhado, mas, na maioria, a fumaça da cozinha saia pelos interstícios das telhas.
Ao lado sul da cidade, no alto de pequena colina, assentava a igreja, velando o pequeno rebanho a seus pés.
Era evidente, pela aparência, que este era o principal edifício do lugar, no qual a arquitetura não tinha saído de sua forma primitiva, ou seja  quatro paredes e um telhado. Todavia, não obstante a simplicidade de suas construções particulares, Antonina, como um todo, seria certamente classificada de lugarejo bonito e até pitoresco, situado, como está, entre terra e agua, ao pé de gigantesca cadeia de montanhas, a “Serra do mar”, e nas praias da linda baia de Paranaguá.

Não resta dúvida que, se o ancoradouro em Antonina fosse menos limitado em extensão, a cidade teria grande futuro diante de si, mas parece que havia somente dois canais, comparativamente pequenos, onde poderiam ancorar embarcações de qualquer tamanho. No momento, a vantagem de antonina sobre sua rival Paranaguá é a de se comunicar com Curitiba por uma estrada. Se, contudo, o plano proposto de se construir uma estrada de ferro de Paranaguá a Morretes, e dai para Curitiba, for realizado, e não o traçado que tem Antonina como ponto de referência, não resta duvida que o saldo de vantagens será transferido para a cidade anterior. Quando visitei ultimamente estas duas cidades, travava-se entre elas tremenda luta pelos jornais sobre esse importante problema da estrada de ferro". 
(...)




Thomas P. Bigg-Wither, Pioneering in South Brazil. 


domingo, 10 de junho de 2012

JANTAR PARA VINTE



(Thomas Bigg-Wither (1845-1890) era um engenheiro inglês; Seu relato parcialmente publicado aqui descreve sua estadia  em Antonina em 1872, como parte de um grupo que estava estudando o trajeto de uma grande ferrovia entre o Mato Grosso e o Paraná, então recém emancipado de São Paulo; trata-se de uma das mais completas e bem-humoradas descrições da Deitada-a-beira-do-mar no seculo XIX; nesta segunda parte Bigg-whiter nos conta do que ocorreu desde o desembarque até o jantar feito num hotel "improvisado" na Deitada-a-beira-do-mar.)

PARTE 2

Entre a multidão [no cais] estava e Sr. Hargreaves, que se nos apresentou falando um perfeito inglês, e ofereceu seus serviços para, sem demora, obter acomodações para todos. Ele falava inglês e português com igual fluência, conhecendo bem o Brasil em geral e Antonina em particular; sua assistência nos foi preciosa durante nossa curta estadia na cidade. Em menos de uma hora, depois de nossa chegada, por meio de sua generosa ajuda, fomos bem instalados, com malas e bagagem, no único hotel do lugar, cujo hotel, segundo minha firme opinião, foi posto temporariamente enquanto lá estivemos, para nos agradar, mas tirado logo depois que deixamos a cidade. O proprietário, Sr. Pascoal, nos recebeu com entusiasmo, declarando que nos podia acomodar a todos com facilidade, o que eu via mais como um problema matemático que pedisse demonstração do que coisa positivamente certa, pois, numa inspeção pelo hotel, vi que este possuía quatro quartos, com seis camas ao todo e nós éramos dezessete!
O nosso primeiro pedido foi “jantar”, ou melhor, ‘ceia para vinte”, e o mais depressa possível, pois estávamos esfaimados.
O hoteleiro recebeu o pedido com inimitável segurança e sangue-frio, como se estivesse acostumado a receber tais pedidos todos os dias nos últimos vinte anos, embora parecesse  ter ele  mandado pedir emprestado panelas, pratos, travessas e tudo o mais que fosse necessário para um grande jantar. Ele se portou sabiamente, evitando perturbar a nossa paz de espirito com as deficiências da casa, mas, ao contrario, se esforçava para nos agradar, atendendo aos nossos desejos. Éramos tratados de modo distinto, isto é, como hospedes que mereciam ser bem tratados e não como estranhos para serem roubados. Merece respeito o homem que pode assim superar o dia a dia para passar a algo superior, quando a ocasião exige.
Quase duas horas depois de dado o pedido, posta uma longa mesa para vinte pessoas, que rangia sob o peso dos pratos de carne cozida, frango e arroz e feijão preto, enquanto um fila de garrafas, algumas com o conhecido rotulo Bass and Co., enfeitava o centro em cuja cabeceira o Sr. Pascoal fazia as honras da casa, dentro da boa moda antiga.
Sentamo-nos todos e cada qual se servia, a si mesmo ou ao seu vizinho, dos pratos que estavam perto, sem considerar o conteúdo. A julgar pelo burburinho da conversação animada e continuada em todos os lados – as anedotas ruidosas, as risadas e o rápido desaparecimento das carnes e dos licores – dificilmente haveria reunião mais jovial e alegre que a desse jantar, não obstante a nacionalidade diversa dos companheiros, todos perfeitamente igualados, como irmãos.
Antes de terminar o jantar o hoteleiro se levantou e proferiu longo discurso de saudação (traduzido por Mr. Hargreaves) no qual ele se congratulava, primeiro, com a “Expedição”, pela sua chegada a são e a salvo da viagem, depois consigo mesmo, por ter sido o primeiro na província a ter o prazer de apresentar-nos os votos de boas vindas, o que, de fato, ele fazia de coração, em nome de toda Antonina, desejando o melhor à expedição pela obra importante que se encarregara de empreender.
O capitão Palm respondeu com pertinência, outros falaram a seguir e, quando deu meia noite, ainda permanecíamos sentados em torno da mesa festiva. Mas isso era natural, pois na ocasião Antonina homenageava a expedição por intermédio do Sr. Pascoal e dois acólitos seus, e também se despedia dos membros do III e do IV grupos, que deveriam partir as três da manhã com destino a Paranaguá.
(...)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

NUNCA TANTOS CAPITÃES E DOUTORES

Capa da primeira edição do livro de Thomas Bigg-Wither, "Pioneering in South Brazil", de 1878

PARTE 1

O rebocador chegou às três horas, mais ou menos. Era uma embarcação pequena, de rodas, de vinte toneladas talvez, e, embora sendo curta a distância entre Paranaguá e Antonina, não podíamos esperar fazê-la em menos de quatro horas, considerando o fato de estarmos rebocando cinco barcaças carregadas.
Paramos em Paranaguá um quarto de hora. Com melhor conhecimento da cidade, eu diria que ela não podia ser muito sadia, cercada de brejos como se acha, e não só, pois, quando a maré baixa, vêem-se grandes extensões de lama em frente à cidade, expostas a um sol abrasador. Contudo, os moradores não se queixam de sua insalubridade, mas nem os do Rio de Janeiro o fazem da cidade em que vivem.
(...)
Toda a região, que se estende para o interior, por muitas milhas até as encostas da serra do mar, parecia ser imenso pântano, com um ou outro baixo montículo aqui e ali. Toda esta parte não era cultivada, naturalmente, e quem a olhasse sentiria arrepios. No lado oposto da baía, o terreno era montanhoso, cultivando-se ali o solo em pequena extensão. Estas observações foram feitas enquanto navegávamos rumo a Antonina, rebocando as barcaças na velocidade média de três milhas por hora. (...)
Nunca, pensei comigo, “o mais velho habitante de Antonina” presenciou a chegada de tantos “capitães” e “doutores” (descobrimos depois que teríamos de escolher um desses títulos, pelo fato de sermos engenheiros).
A fim de darmos ao nosso desembarque na província em que futuramente trabalharíamos aspecto festivo, abrimos uma de nossas caixas de fogos de artifício e foguetões de sinal, combinado de solta-los um pouco antes da chegada do navio à vila. O sol já se havia deitado há muito tempo quando chegamos à distância de uma milha de Antonina. A noite era escura e, portanto, favorável ao espetáculo. A um sinal convencional, o navio ficou iluminado pela abundancia dos foguetes, pistolões e rodinhas. No mesmo momento muitos vivas à Inglaterra, saídos de uma vintena de estentóricos pulmões, foram ouvidos. Quando o espetáculo ainda estava no auge, desprendemos, subitamente, o cabo do reboque e o pequeno rebocador, livre das barcaças pesadamente carregadas, encostou garbosamente no cais, resplandecendo ainda por cima e ao derredor pelos fogos que soltávamos, em grande estilo. Assim, mais uma vez, triunfalmente, desembarcamos nas costas do Brasil.
O espetáculo pirotécnico havia atraído uma pequena multidão ao desembarcadouro, pois não há nada que o brasileiro goste mais do que soltar uma bomba, busca-pé ou foguete, contentando-se também com ver os outros soltarem. Com efeito, que seria dos dias santos ali, se não houvesse a feliz invenção dos fogos?

(Thomas Bigg-Wither (1845-1890) era um engenheiro inglês; Seu relato parcialmente publicado aqui descreve sua estadia  em Antonina em 1872, como parte de um grupo que estava estudando o trajeto de uma grande ferrovia entre o Mato Grosso e o Paraná, então recém emancipado de São Paulo; trata-se de uma das mais completas e bem-humoradas descrições da Deitada-a-beira-do-mar no seculo XIX)