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sexta-feira, 16 de março de 2018

ODE PARA MARIELLE



Marielle era mulher e negra a foi assassinada anteontem. Centenas de negros são assassinados no Brasil todos os dias. Muitos destes negros e negras assassinados eram policiais. Muitos cidadãos negros, muitos outros, mas que não são nem policiais nem soldados, são assassinados todos os dias.
Marielle era mulher e negra e vereadora. Foi eleita com 65.000 votos. Marielle não era só uma mulher negra: era uma delegada do povo. Ela representava milhares de pessoas, muitas pessoas mais que as que votaram nela. Marielle era um símbolo.
Marielle era negra e pobre. No entanto, venceu essas dificuldades, tornou-se socióloga, tornou-se militante. Em sua militância, conseguiu apoios e foi eleita vereadora. Uma vereadora dos pobres. Marielle era uma lutadora.
Mariele era vereadora e negra. Lutava pelos seus, os da Maré, da Rocinha, de Acari. Denunciava a morte de negros pela polícia. Denunciava a morte de policiais pelas milícias. Ajudava as famílias dos atingidos pela violência, sem distinção. Lutava contra a invasão das casas das pessoas sem mandado, contra a intervenção de Temer. Marielle era um alvo.
Marielle era vereadora e negra e mulher. Foi executada depois de denunciar as mortes que estavam ocorrendo sob a intervenção. Dois homens, cinco tiros, queima roupa. Coisa de gente que sabe do assunto. Marielle não é mais.
Marielle é uma, Marielle é muitas. Marielle é milhões.  Juntas as Marielles, de um lado e de outro da vida. A Marielle vereadora, a Marielle militante, a Marielle mulher, a Marielle lutadora. Marielle é mais.
Juntas as Marielles. Gritam seus gritos de dor e esperança. A Maré vai mudar. Marielle é um simbolo, um alvo. Marielle é mais.
Gritem todos que os direitos humanos só servem pra bandido. Quando a policia invadir sua casa, lembrem-se de Marielle.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CHICA GARIMPEIRA

Chica Garimpeira na entrada de uma boca de lavra/2008

Estes dias estive visitando umas áreas de Francisca Alves Barroso, a Chica Garimpeira. Num universo masculino como é o universo garimpeiro, uma mulher como Chica, dona de draga na lavra do Vermelho durante muitos anos, é um fato impressionante.
Separada, trabalhou em frigoríficos, casas de família, em lojas. Tinha três filhos pra criar. Um dia, um tio a chamou pra ir trabalhar com ele numa draga no Crixás. Ela foi e nunca mais saiu deste universo. Veio para Cavalcante (GO) e, nas barrancas do Vermelho e do Tocantins, criou seus filhos e comprou seu pedaço de chão. Foi garimpeira e professora municipal.
Em 2003, com as obras da barragem, perde a draga e a área de garimpo. Até a escola onde dava aula foi inundada. Entra no movimento dos atingidos por barragens, o MAB, e vira uma ativa liderança local. Ganha 10 mil reais de indenização. “Mixaria”, diz, revoltada. Questões por posse de terra com vizinhos já levaram, segundo ela, um neto e um sobrinho. Diz que não quer vingança, e que Deus proverá. “Aqui se faz, aqui se paga”, arremata.


E lá vai ela. Andando firme pelo cerrado, subindo e descendo morro, de chinelo de dedo e uma bolsa feminina no braço, vai me mostrando as áreas que quer negociar. “O que é? pra que que serve? Tem utilidade?“ Tudo tem que ter utilidade na vida de Chica Garimpeira. Tem que botar o feijão na mesa, tem que criar os filhos e netos. A filha mais velha mora em Londres. Chica tem pressa, muita fé em Deus e muito ódio no coração para com os assassinos de seus meninos. Hoje, com o tempo e os filhos já criados, ela quer sossego, um pedaço de terra e muito trabalho de roça pra fazer. Que pessoa impressionante essa Chica Garimpeira...

(essa é uma crônica de 2008, quando eu trabalhava Com exploração Mineral em Goiás) Ver aqui