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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

O PENALTI E A VIDA

jogador croatas comemoram a vitória sobre o Brasil (encurtador.com.br/stFX0)

 Eliminações em Copas do Mundo são momentos tristes. A eliminação do Brasil na copa de 1950 gerou diversas reações e diversos medos na sociedade em geral e no mundo dos boleiros. Barbosa, um excelente goleiro, foi apontado como o único culpado por aquela derrota. A culpa de Barbosa pela derrota de 1950 tem também um fundo racista. A saga do segundo gol do Uruguay, marcado por Ghiggia, está no cinema, nas artes, na literatura. 

 Houve tempo que em que fiquei muito triste por uma eliminação de uma copa do mundo. Mas, na verdade, nos últimos cinquenta anos em que acompanho este torneio, vi meu time ganhar em somente três oportunidades, a última há vinte anos. 

 De certa forma, a seleção brasileira só foi grande entre os anos 1950-70, quando ganhou três de quatro mundiais disputados. Entre 1994 e 2002, ganhou duas de três. Depois disso, mesmo o meu Athletico Paranaense tem retrospecto melhor nas competições em que disputa que a seleção canarinho. 

 Como torcedor de um time mediano, que não tem a seu favor nem a imensa torcida, nem o poderia econômico e nem uma tradição, eu sei bem o que é perder. Dói, mas você se acostuma. Dói, mas você tem que sair na rua e aguentar a zoação. Dói, mas ninguém está nem aí as vezes nem pra te zoar, o que as vezes é pior. 

 Ou seja, tenho o dorso calejado, tenho o coração acostumado e tenho, como antidoto contra o desespero, uma boa dose de cinismo. Não é o melhor, mas é o possível. Pra início de conversa: não há salvação. Tudo o que está sendo jogado ali é uma bola que passeia entre pés (as vezes mãos) e conta uma história. É o acaso absoluto. 

Não existe você ir ao banheiro, não existe a panela de pipoca, não existe a cueca que você vestiu no primeiro jogo (urgh!) nem o lugar do sofá que você se senta. Não existem deuses no futebol. 

 Claro que existem grandes jogadores, existem grandes times, existem grandes jogos. Mas isso não nos dá o direito de criar narrativas de nações ou de povos através da história da bola. A estatística não nos ajuda, só dá uma falsa sensação de segurança. Mas o mundo não é determinístico, o mundo é probabilístico, o mundo é bayesiano. 

 O futebol não salva um país e, pior que isso, pode perdê-lo. 

Durante anos criamos fábulas sobre a tal Pátria de chuteiras. Temos alguns dos melhores jogadores do mundo, mas não temos ainda um país. E, é bom que se diga, uma coisa não tem nada a ver com a outra, embora por vezes se complementem. 

 Ao ver, torcer e sofrer neste Brasil e Croácia, Quartas de Final da Copa do Mundo, sinto-me triste e frustrado. Eu realmente queria ver nosso time ser campeão. Mas me enfurece a nossa cronicamente Crônica e anacrônica esportiva, a procurar culpados ou a perseguir inocentes. 

 Há muito tempo que eu perdia tempo vendo mesas redondas e debates sobre futebol na TV. Não, não estou pedindo debates sobre educação e cultura em seu lugar. Acho que deveríamos ter ambos, por que não? O esporte é isso mesmo, é o jogo, é a incerteza, é o momento. Os pênaltis são a mais completa tradução desta verdade. 

No pênalti, estão se confrontando um jogador cansado e as vezes abatido psicologicamente. E um goleiro que também está angustiado, e que tem que tem poucos segundos para entender o que o cobrador vai fazer. Um instante entre a glória de um e o desespero de outro. 

 O pênalti é a tradução da incerteza. Treinar seus fundamentos não garantem uma execução eficaz. Perder para a Croácia nos pênaltis numa Quarta de Final de Copa do Mundo não é desdouro para ninguém. 

Para um futebol exigente e vencedor como o brasileiro, estar nas quartas de final é quase obrigação. Passar dela está neste limbo entre sorte e eficácia. Isso nos faz ficar tristes e frustrados, mas não diz nada de nós como pais. 

Não diz nada de nossas vidas e de nossas lutas, tanto os pessoais quanto as coletivas. O futebol nos define em muitas coisas, mas a vida, a nossa e a do país, é muito mais que uma cobrança de penalidades.

sábado, 3 de dezembro de 2022

ABOUBACKAR E O HEROISMO SEM CAMISA

Vincent Aboubackar comemorando seu gol na Vitoria sobre a seleção brasileira
MICHAEL REGAN/GETTY IMAGES encurtador.com.br/lxyI8

 
Um fim de tarde brusco e abafado por aqui, muitas nuvens negras no céu. O jogo da seleção brasileira com a seleção de Camarões termina em anticlímax com a vitória da seleção africana por 1 a 0, gol de Vincent Aboubackar.

Aos 45 do segundo tempo, num contra-ataque após a intensa pressão da seleção brasileira, Aboubackar recebeu o cruzamento da direita e escorou de cabeça tirando Ederson da jogada. Belíssimo gol. Com o estádio inflamado com o gol e a torcida brasileira perplexa, Aboubackar tirou a camisa e se dirigiu ao corner. Lá, foi abraçado pelos companheiros e voltou exibindo, orgulhoso, a sua camisa ostentando o número dez.

Em meio a tanta alegria e comemoração, já não importava se havia tirado ou não a camisa, a euforia era tanta não importava essa penalidade tão estupida. O árbitro da partida, o americano de origem marroquina Ismail Elfath, chegou sorrindo, cumprimentou Aboubackar e aplicou os cartões: primeiro o amarelo e, em seguir, o vermelho. O jogador saiu de campo sorrindo, aplaudido pela torcida e numa alegria incontida. Eu nunca havia visto uma expulsão tão injusta e tão bonita.

 Aboubackar já havia marcado um belo gol nesta copa, o segundo gol de Camarões contra a Sérvia, onde ele fez um gol encobrindo sutilmente o goleiro. O jogador camaronês, de 30 anos, está em sua segunda copa, tendo vindo ao Brasil em 2014. Pela seleção de Camarões, marcou 35 gols em 91 jogos.

A valentia e a alegria de Aboubackar foram uma ducha de água fria no entusiasmo dos torcedores brasileiros. Embora não valesse rigorosamente nada, pois a seleção brasileira já estava classificada para a próxima fase, a derrota tomou ares de alerta e de preocupação.

Até então, desde a estreia vitoriosa contra a Sérvia quanto a vitória suada contra a Suíça, o time brasileiro era julgado superior e franco favorito. Agora, dúvidas pairam sobre o time e sobre a estratégia adotada pelo técnico Tite.

Entendo pouco de futebol. Li muito desde sempre sobre o esporte bretão e sobre a vitoriosa história da seleção brasileira, o bastante para saber coisas importantes de sua história, desde os tempos de Friedenreich até a Campanha do Catar. Posso citar jogos que não vi, como o segundo tempo da final de 1950 os jogos de Garrincha e equipe nos gramados do Chile.

Como observador direto, acompanhei o fantástico time de 70, fiquei perplexo com o massacre do Sarriá, adorei o time da Famiglia Scolari de 2002 e me decepcionei com o 7a1. (me explicando: sei suportar derrotas. Afinal, torço para o Athletico Paranaense, time que me dá algumas alegrias e muitos vice-campeonatos).

O que me decepciona com o 7a1 foi que não purgamos a derrota, não crescemos, não quisemos mudar a estrutura de nosso futebol. É uma dor ver um país futebolisticamente tão poderoso e tão colonizado, mero fornecedor de pé-de-obra para as metrópoles do futebol mundial, com diz mestre Juca Kfouri. Onde somos uma potência, escolhemos continuar a ser colonizados. Diz muito sobre quem somos.

Por isso, não fiquei triste com o gol de Abubackar e a derrota para Camarões. Perder faz parte do jogo. E é só isso, um jogo. Que é, em si muito legal. O futebol é um esporte que todos podem jogar, e em qualquer lugar. É um esporte pré-industrial, e não um esporte industrial como o vôlei e o basquete, onde as equipes jogam compactas como máquinas. O futebol é mais anárquico, mais imprevisível, em que você pode ganhar o jogo numa só jogada. Onde o fraco pode vencer o poderoso algumas vezes.

 Portanto, saúdo a alegria e o heroísmo de Vincent Aboubackar, que venceu e tirou a camisa, mesmo sabendo que seria expulso. Minutos antes, ele havia tomado um cartão amarelo lá atrás, como um bom operário da bola, protegendo sua defesa dos impetuosos e pouco objetivos reservas brasileiros. Instantes depois, ele era o herói que sacudia o estádio, um herói que castiga a arrogância canarinho. Um herói improvável num mundo tão improvável. Esta é a magia do futebol.

Uma magia a que mesmo os muitos de nós que andam tão céticos com essa magia, nos curvamos e ficamos alegres. Se existem os deuses do futebol, eles adoram umas boas traquinagens. E de rir muito. Adoro. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

CASEMIRO E A PÁTRIA SEM CHUTEIRAS

 

Casemiro e Vini comemorando o gol 
Nelson Almeida/AFP   encurtador.com.br/fvxBV

Uma tarde de chuva fria e fina aqui em Barão Geraldo, após um jogo de Copa de Mundo também muito chorado. No Qatar, a seleção brasileira venceu a seleção da Suíça por um magro 1 a 0 e está classificado para as oitavas de final, assim como a forte seleção francesa.

Depois do primeiro jogo, na última quinta-feira, está mais comum ver pessoas com a camisa verde-amarela nas ruas e nas imagens. Apesar da overdose de gente com camisas amarelas no noticiário esportivo e também no noticiário político, percebi uma grande diferença: desta vez, em sua maioria, quem está vestindo literalmente a camisa são, em sua maioria, corpos negros.

Eu vi uma coreografia ensaiada por um grupo da Maré, no Rio de Janeiro, liderados pelo influenciador Raphael Vicente, e que ficou linda maravilhosa. Inspirados numa música de Shakira, ali eu vi a ginga e a alegria que temos nos campos e nas comunidades. Ali eu vi que só quem pode ressignificar esta camiseta é o povo. E o povo já fez isso. Os outros, da nossa arrogante classe média branca, estão por aí, tristes, rezando e tomando chuva.  

Estes brasileiros, aliás, estão lá nos estádios da Copa, semi-europeus, torcendo para os negros e pardos que, lá no gramado, fazem do futebol brasileiro uma arte. São estes brasileiros classe média que, do alto de seus privilégios, ainda conseguem atacar Gilberto Gil, nosso espírito iluminado. Que as areias do deserto se fechem sobre eles, e que mestre Gil siga nos trazendo a Paz.

Hoje decidi assistir ao jogo sozinho no meu sofá. Tive alguns momentos um receio e um dejá-vu: a última vez que havia feito isso foi no tenebroso 7 a 1. Mas já sou bem velhinho e experiente para saber que o jogo é jogado lá no Qatar e nada que eu faça, como ir ao banheiro, fazer uma pipoca, se enrolar na bandeira, beijar uma figa, nada disso resolve. Ou resolve?

O fato é que foi um jogo muito tenso. Mais experientes que os sérvios, os suíços, se não reeditaram o famoso ferrolho helvético dos anos 1950, também não deram muita folga pra gente. Outro fato é que os suíços jamais haviam perdido para o Brasil em Copas do Mundo.

Hoje um pouco menos vibrante, a esquadra brasileira também não jogou mal. Teve destaques fortes em Vini Jr e em Casemiro, este último esperto e inteligente no chute ao gol. Mas ninguém foi mal. Sequer Neymar, que ficou no hotel e foi substituído nas arquibancadas por um sósia muito mais simpático.

Outra coisa que eu nunca tinha enfrentado foi o tal do VAR. Vai demorar pra eu me acostumar ao VAR, ora se vai. Apesar da tecnologia diminuir em muito as reclamações e as intermináveis discussão nas mesas redondas futebolísticas, como fazemos sem as reclamações e as intermináveis discussão nas mesas redondas futebolísticas? O gol de Vini Jr, segundo os analistas corretamente anulado, foi uma pintura. É quase como se Van Gogh, da excelente seleção holandesa, descartasse e jogasse fora o Retrato do Dr. Gachet porque a moldura estava com problema...

Ao fim, o placar magro valeu os tais dos três pontos. Os suíços, pela primeira vez, souberam o que é perder para a seleção Brasileira. E nós seguimos em frente com nossas alegrias e contradições. Cada jogo de Copa do Mundo tem seu herói, ou seu vilão. Pobre do país que precisa de heróis, como dizia um cara sábio do passado. Mas nós somos um pobre país.

O herói da vez foi Casemiro, meia forte e de futebol elegante, e que habita lá para as bandas do Bernabeu. As histórias e as falas nas redes sociais e na imprensa com certezas serão outras. Sai o Pombo e seu jeitão de moleque grande, solidário e zoador, e entra em seu lugar a figura do capitão brabão, que decide nos momentos mais difíceis. De heróis e chutes se faz a crônica esportiva, ora pois.

A copa segue, lá nas tristes areias do Golfo Pérsico. Aqui, o país se reinventa. Que venham camisas amarelas, que venham azuis. A pátria, não a quero de chuteiras, assim como não a quero de armas na mão. Quero a dança do pessoal da Maré, quero a alegria da prova dos nove, como já nos disse Gilberto Gil.

Pindorama o país do futuro. 


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O MELHOR ATLETIBA QUE EU NÃO VI


O Atle-tiba que não houve. Orgulhosamente, imagens da TVCAP.
Pra quem é paranaense e gosta de futebol, impossível não falar sobre o Atle-tiba. Ao longo de minha vida, vi muitos, tanto dentro do estádio quanto pela televisão, pelo rádio e mais recentemente pela internet. Vi ali jogar craques de verdade, como não existem mais hoje. Pelo Coritiba, vi jogar Zé Roberto, Paquito e Tião Abatiá,  Alex. Pelo Atlético, vi Di,  Sicupira, Assis & Washington, Paulo Rink, Adriano Gabiru e mesmo o menino (ex-menino!) Kleberson, que só brilhou mesmo com o manto sagrado rubro-negro e com a nossa tão maltradada amarelinha.
Vi jogos memoráveis e jogos nem tanto. Assisti empates sonolentos, goleadas sonoras de parte e parte, decisões de campeonato pra lá de tensas e cheias de brio. Vi anos de domínio coxa-branca, anos de domínio rubro-negro e muita, muita rivalidade.
Qual não foi minha surpresa ao ver pela internet (estou em Andrelândia – MG em trabalho de campo com meus alunos e colegas do curso de geologia da UNICAMP) o que aconteceu neste último domingo.
Que bom ver os dois rivais unidos e por uma causa mais que justa: o fim do monopólio das televisões (leia-se Rede Globo) na transmissão das partidas de futebol. Um negócio milionário que tira do torcedor a possibilidade de escolher ver seu time jogar. Quantas vezes não somos obrigados a ver o time “mais querido”, ou “a maior torcida do Brasil” apenas por interesse da citada rede de televisão? Quanto dinheiro os times “médios” perdem em  por causa de todas as maracutaias envolvidas nos negócios sobre direito de transmissão?
Sem falar na bagunça que são as federações de futebol no Brasil. Quando perdemos da Alemanha, houveram algumas vozes pedindo para que adotássemos um sistema melhor de organização do futebol, similar ao modelo alemão. Um modelo que fez o 0 x 2 de 2002 virar o 7 x 1 de 2014. Mas a quem isso interessa? Aos dirigentes de Federação e a própria CBF, definida por Juca Kfuri como a Casa Bandida do Futebol? Interessa aos empresários de jogadores que exploram meninos e ganham dinheiro de maneira desorganizada e inescrupulosa?
A vergonha alheia provocada pela Federação Paranaense ao cancelar o clássico por causa da falta de credenciamento de alguns jornalistas ligados a redes online é uma chacota. Um acinte. Uma piada de mau gosto. Aliás, a própria FPF é uma piada. Um ato digno de todos os dirigentes que teve essa associação, gente de moral duvidosa e sem escrúpulos, e que deveria estar com os dias contados. A organização do atual futebol brasileiro deveria voltar ao passado de onde veio e nos deixar jogar livres, independentes e felizes.
Isso vale para todo o esporte brasileiro. Está também na hora de deixar a futebolmania dirigir todos os interesses. Temos outros esportes e modalidades que também tem importância e merecem mais espaço nos corações e mentes dos brasileiros. Mas, essa crise também é um claro sinal de que tudo está mudando.
Por tudo isso, acho que este é o melhor Atletiba que não vi. Neste jogo, os dois rivais dentro do campo se uniram contra a máfia que controla e futebol e os grandes interesses financeiros das emissoras de televisão. Não é pouco. Como disse o técnico Paulo Autuori, é uma grande mudança de paradigma que a dupla Atletiba faz ao não se curvar a estes interesses.
Hoje é um dia que está bonito ser atleticano ou coxa-branca.

sexta-feira, 21 de março de 2014

BELLINI E A PÁTRIA DE CHUTEIRAS


O Capitão, numa velha foto, envergando a camisa que só se veste por amor

Se existe Deus eu não sei, tenho lá minhas idéias a respeito. Deuses, no entanto, os há e muitos. Alguns desses deuses eu tive o privilégio de ver dentro de quatro linhas, como o grande Djalma Santos. Outros, como o grande capitão Bellini, eu só vi em velhas fotos e em filmes preto e branco. Sua imagem, levantando a Jules Rimet na Suécia  é uma das mais sacrossantas imagens da Pátria de chuteiras.
Hoje já não há pátria de chuteiras, está fora de moda a ideologia de Nelson Rodrigues, o grande demiurgo do brasileiro do século XX. Naquela época, o futebol era o que nos fazia sorrir, nos fazia sonhar ser grandes, nos fazia deixar de ser vira-latas. Hoje, mestre Nelson, é hora de mudar o disco, mudar o discurso, repaginar. Não precisamos nos enxergar no mundo com as lentes do canal 100.
Mas temos deuses das quatro linhas. Temos um país que corre atrás da bola em qualquer canto do Mundo, do gelo da Islândia aos mares do sul da China. Somos um povo que bate tiro de meta com bicão pra frente, que cobra lateral sem dar chance de reversão pro adversário e que bate escanteio direitinho (menos eu, grande perna-de-pau que sou), no primeiro ou no segundo pau. Somos, com muito orgulho, um país que cruza e vai pra área cabecear.
Hoje, as vésperas de mais um mundial no Brasil, perdemos nosso grande capitão, o homem que levantou a taça. Segundo ele mesmo, levantou a taça porque todos queriam ver. Certo, Capitão. Bellini foi dessa estirpe de boleiros épicos. Que compensava sua falta de técnica com muita garra, sem ser violento. Que dava bronca, quando era necessário, em colegas do porte de um Vavá, um Garrincha, um Pelé. Que liderava um time que tinha Didi no meio de campo e Nilton Santos na lateral. Definitivamente, não é pra qualquer mortal.
E nós atleticanos, ainda tivemos a alegria de ver o Capitão com a camisa que só se veste por amor. Não foram tempos muito bons pro nosso Furacão, mas tivemos deuses como Bellini, Djalma Santos e Brito nos fazendo companhia. Nosso querido Marcus Porvinha talvez se lembre de alguma história e queira nos contar sobre Bellini na Deitada-a-beira-do-mar, será que não?
Estamos meio ressabiados com a Copa. Estamos meio de saco cheio com tanta conversa mole de estádios inacabados, de dinheiro a rodo indo pra obras suspeitas. Sem paciência para a cartolagem, para a FIFA, para o governo e os empreiteiros (sempre eles!).  Definitivamente, este é um mundial sem Pátria de chuteiras. Ainda bem, é um bom sinal, somos um país mais maduro. O futebol já não é mais o ópio do brasileiro.
Isso não significa dizer que não vai ter Copa. Vai ter sim, e durante um apito e outro, nossas vidas só terão sentido dentro daquelas quatro linhas. Vamos gritar muito, vamos vibrar muito. Depois, quando se fecharem as cortinas e se encerrar o espetáculo, a história será bem outra. Queremos ver a conta dessa festa toda, e cadeia pra quem botou a mão no que não era seu. E vida pra frente, pois o futebol é só um jogo.

A imagem épica de Bellini levantando a taça para a Pátria de chuteiras é a imagem de um época ingênua e, quem sabe, feliz. Talvez você nos diga, Bellini, se é verdade que a felicidade só se encontra nas velhas fotos em preto e branco, envergando uma camisa rubro-negra?

quarta-feira, 24 de julho de 2013

DJALMA SANTOS (1929-2013)

Djalma Santos desfilando em carro aberto na Deitada-a-beira-do-mar, 1970. (copiei daqui)

Ontem, ao fecharem-se os olhos dos jornais, me vi entristecido e mais pobre. Morreu Djalma Santos, craque da seleção brasileira e também do meu Furacão. Lembro-me de ter visto Djalma Santos jogar, no portentoso estádio do 29, na Deitada-a-beira-do-mar. Eram memórias nebulosas, de infância, de quando eu ainda era lobinho e estávamos os escoteiros fazendo a “segurança” do jogo. O que a gente podia fazer com aqueles bastões pra conter a multidão? Certamente nada, mas dava uma sensação de poder imensa.
Lembro vagamente de que eu e mais alguns lobinhos demos um buquê de flores ao craque, que nos cumprimentou a todos. Meu pai, ao lado, conseguiu um autografo num papel com o timbre do Atlético (esse autografo sumiu, procuramos eu e meu pai durante muito tempo e nada...). Lembranças vagas e esparsas.
Hoje, através do blog do Porvinha (aqui), grande divulgador do futebol na terra de Valle Porto (e de Bino, o “Gato Selvagem”, o maior goleiro paranaense de todos os tempos), vemos ressurgir, frescas, do passado, tais notícias. Pelo seu blog, aprendemos um pouco mais do que aquelas sensações de menino. Tratava-se de um jogo amistoso entre o 29 de Maio e o Água Verde, onde estava Djalma Santos. Terminou num pragmático zero a zero, e teve muita cervejada e caranguejada depois, como seria de se esperar.
Era certamente uma Antonina muito diferente e um futebol muito diferente do de hoje. Tal jogo, terminando com uma caranguejada, seria hoje praticamente impossível. E a foto do blog do Porvinha, acima, mostrando o craque desfilando num calhambeque pela avenida Dr. Carlos Gomes da Costa, a Avenida do Samba. À direita, uma porção de escoteiros cercando o carro. Posso até ver a cabeça de seu Dodô lá atrás (saudade!).
Djalma Santos e Bellini foram jogadores míticos, os galácticos que espantaram nosso estigma de vira-latas e nos trouxeram, de maneira magistral, nossos primeiros títulos mundiais. Os dois, Djalma e Bellini, foram alguns dos responsáveis pelo titulo do Atlético de 1970. Foi muita felicidade, que até hoje sinto entre uma dor no ciático e outra. Depois, passamos doze anos de calvário. Era duro ser atleticano naquela época, ainda mais que hoje, meninos. Acreditem.

Saímos do inferno da segundona no ano passado após grande saga (aqui) e estamos agora penando no caminho de volta (mas sem volta!) pras terras do Sem-chinelo. Sai pra lá, Bode Preto! Vejo as imagens de Djalma Santos, forte e suave nas páginas dos jornais e na internet. Foi-se. Sua ausência é o vazio de um mito que cruzou, no passado e por um breve momento, a minha vida pacata. E sinto saudades do tempo em eu era menino e via Deuses à minha volta.  

domingo, 25 de novembro de 2012

E QUINDI USCIMMO A RIVEDER LE STELLE...

Dante e Virgílio prestes a escapar do Inferno enquanto o Coisa-ruim, o Sete-peles, o  Sem-Chinelo, faz seu desjejum vespertino (seria algum bugrino ou torcedor do Barueri ali nas garras do Capiroto?). Aqui na frente, a nossa direita, o São Caetano lamenta mais uma Temporada no Brasileirão do B


Estar no inferno é estar no inferno até o fim. Não há saída. No nosso rubro-negro caso, essa foi uma verdade quase cristalina. Ontem, no final da tarde, terminei o jogo de joelhos em frente ao computador (a televisão não transmitiu o jogo pra cá), sob os olhares de pena de minha mulher e de meu amigo Gusano. Uma grande angústia em meu peito me fazia sofrer a cada vez que ouvia um nome de jogador que eu não conhecia, a temer pelo gol que poderia nos precipitar de novo nas profundas do Inferno da Segundona.
Quando vi que acabou o jogo no Ecoestádio, minha mulher me abraçou e me deu parabéns, enquanto Gusano se recolhia ao fundo da garrafa. Não sabia o que pensar, o que falar. Dante Alighieri havia ido ao banheiro pra dar uma aliviada. O ectoplasma de Virgílio ali na sala a olhar os resultados finais do Brasileirão do B não dava refresco na abafada tarde campineira. Corri então até a porta da frente e gritei escancarado para a rua vazia: ”o Furacão voltou!”.  As folhas das árvores começaram a balançar, suavemente, num começo de brisa.
O jogo havia começado com pressão total do Furacão. Parecia que ia ser fácil. Acompanhando o jogo entre São Caetano e Guarani, aqui no Brinco de Ouro, estava tudo sob controle. Quando saiu o gol do menino Cleberson, tudo ficou mais tranquilo. Estávamos inclusive na vice-liderança do Infernal torneio. Dante estava impávido, e menino Arthur, o Rimbaud, saiu pra fazer um sanduíche  A estadia no Inferno estava por terminar.
Mas eis que surge um outro Arthur que começa a nos infernizar. Gol do Paraná. Grito indignado, minha mulher  vem me fazer cafuné. Apesar de colorada dos quatro costados, estava ali amorosamente cuidando do seu bagrinho rubro-negro, que sofria a cada investida tricolor. O carinho dela me confortou por um tempo. Aí o São Caetano acordou e começou o inferno.
Menino Marcelo perde o pênalti. Silêncio na sala. O imortal Paulo Baier dá novo alento ao time, e menino Manoel acerta outra na trave. Um ataque do Paraná e menino Cleberson tira uma bola de dentro do gol. A coisa estava feia. O Inferno dando seus gemidos e arrotos. Parecia que o próprio Coisa-Ruim, o Cata-Piolho, o Xexelento, estava por ali pra azangar nossa saída de seus domínios. Um ronco infernal, um bodum dos infernos, mas eis que o carinha de preto apita o fim. Agora sim!
Dante, logo depois, pôs a mão no meu ombro e me contou que, no passado, para sair do Inferno, ele e Virgílio tiveram que escalar as costas peludas do capeta. Este, mastigando um pobre coitado (seria um bugrino, ou um torcedor do Ipatinga?), não prestou atenção neles. Era um barulho e uma escuridão literalmente infernais, mas havia um pequeno orifício perto da cabeça do Bode preto, do Tisnado e, afinal, Dante e Virgílio “per quel camino ascoso/intramo a retornar nel chiaro mondo” [por aquele caminho asqueroso/voltaram de novo ao claro mundo]. Assim efetivamente foi, quando o juiz apitou o fim daquele inferno.
E o que aconteceu depois? Perguntei eu ao sagaz Florentino. Este me respondeu que, depois de sair daquele infernal pesadelo, “quindi uscimmo a riveder le stelle” [e então saímos a rever estrelas]. Emocionado, pespeguei um forte abraço em meu bravo consultor de série B.
O que vai acontecer ao Furacão, nessa nova fase? Não sei, estou ainda embriagado com a luz daqui de cima. O caminho vai continuar difícil, mas meu rubro-negro voltou. Quem sabe, pra ver algumas estrelas...

O FURACÃO VOLTOU!

a camisa rubro-negra só se veste com amor!

sábado, 24 de novembro de 2012

IT´S NOW OR NEVER!

Esquema geral do inferno de Dante, mostrando os últimos e infernais círculos de baixo, perto da casa do Capeta. O Sete-peles, o Coisa-ruim, o Bode preto, o Sem chinelo, o Nhô Lúcio, o Malfazejo, mora na casa 21-B, circulo 9, andar de baixo. Alguém aí toca a campainha? 

Hoje consegui voltar ao blog depois de quase duas semanas ausentes, por motivos de viagem e de acúmulo de trabalho. Neste meio tempo, entretanto, não deixei de seguir a saga do nosso querido rubro-negro rumo ao lugar que lhe cabe no latifúndio (produtivo?) da elite do futebol. Antes do jogo com o Tigre, lá na carvônica Criciúma, pensei em repetir o titulo da crônica anterior: agora seria “a vida em Criciúma”. Sim, ali o escrete rossonero lutava pela sua vida, assim como lutou no bravo jogo de Arapiraca. Não deu, não deu. Cada jogo é um, como diria o poeta.
Agora, o Inferno está no seu nível mais baixo, mais profundo e soturno. Ou dá ou não dá. Noventa minutos nos separam da subida para a série A ou o novo mergulho no inferno do brasileirão do B, o torneio do Capeta. Na nossa frente nosso velho conhecido Paraná Clube, o Paranito, o time-de-sete-caras, ou, melhor dizendo, o time-de-sete-times. Faz tempo que o time de vila Capanema não nos faz medo. Mas, cada jogo é um, e, no inferno da Segundona, o time rubro-negro aprendeu a deixar de fora toda Esperança, como bem ensinaram nossos consultores Dante Alighieri e Virgílio.
Além do jogo com o Paraná Clube, assistimos também o embate entre Vitória e Ceará, no Barradão, e principalmente Guarani e São Caetano, bem aqui nas minhas fuças, no Brinco de Ouro. Sabe-se lá que bicho vai dar. O Azulão começou a morrer na praia, mas se aprumou e grudou nos calcanhares dos rubro-negros baiano e paranaense. Precisa ganhar do Guarani e torcer para tropeços dos rubro-negros. Já o Guarani, que está sentindo o bodum da sulfurosa serie C sob seus pés, vai com tudo pra cima do Azulão e está vendendo ingressos a dois reais pra lotar o Brinco de Ouro justamente com aquilo que o time do São Caetano não tem, torcida. Será também uma partida épica.
O Drubsquem já escalou o time para o encontro no janguitão. Eu cá, chamei Dante e Virgílio, além de meu querido amigo Gusano, o verme da garrafa de mezcal, que acompanhou junto comigo nossa queda para os infernos, há um ano. Além disso, estão confirmados Sthendal, autor de “O Vermelho E O Negro”, grande tratado da alma rubro-negra, e o poeta Arthur Rimbaud, que passou uma breve estadia no inferno e também voltou pra contar. A nação rubro-negra hoje amanhece esperançosa com a volta para a serie A, embora saiba por experiência que não se pode ter esperanças no torneio da terra do Coisa-ruim, e que o caminho é duro e áspero, por gramados ruins e cheios de buracos, trilhado jogo por jogo, vencido passo por passo.
Agora, é só esperar que se abram as cortinas e comece o espetáculo. É agora ou nunca. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A VIDA EM ARAPIRACA

Na beira do lago Cocito (quem?), demônios procuram pelos portadores de malas brancas e pretas;  são  as ultimas emoções na antepenúltima rodada do Brasileirão do B


Aqui em Campinas o tempo amanheceu chuvoso, com umas trovoadas ao longe. Agora mesmo, cai uma chuvinha daquelas bem safadas, que dá um sono, uma vontade danada de conversar com o travesseiro. Dou uma olhada na previsão do tempo pra Arapiraca, onde o Rubro Negro vai enfrentar o ASA de Arapiraca. Não, o CPTEC-INPE não prevê nenhum Furacão pra Arapiraca hoje. Diz que o céu está parcialmente encoberto com chuvas isoladas. Mas a temperatura máxima prevista é de 33º C, nada mal pra correr um pouco.
Depois dos erros do jogo de terça, que o Drubscky (quem?) atribuiu ao nervosismo dos jogadores, a historia agora é outra. Melhorar o passe e a inspiração para as jogadas, esse é o tema pro jogo de hoje, o segundo jogo na história entre Atlético e Arapiraca. No primeiro turno, um chorado um a zero lá no Gigante do Itiberê.
Hoje, o jogo vai ser no estádio Coaracy da Maia Fonseca, o popular “Fumeirão”. Não vai ser fácil, como nada foi fácil até agora no Brasileirão do B, o Torneio dos Infernos. Temos que derrotar o ASA, a Agremiação Sportiva Arapiraquense. Para hoje, o time alagoano, que é o único time do interior do Nordeste na série B, conta com os retornos do armador Lucas e do lateral-esquerdo Chiquinho Baiano. Segundo a dispensável Wikipedia  o ASA é o clube que mais conquistou títulos em Alagoas no século XXI e possui uma das maiores torcidas do estado. Dá um medo...
Por outro lado, o Mais Querido não terá seu xerife, o Menino Manoel, xodó da torcida, punido pelo terceiro cartão amarelo. O time ainda não está definido, mas não deve ser diferente do time que empatou com o America-RN no Janguitão na terça.
No entanto, as malas brancas continuam rondando o infernal mundo da série B. Diz-que, inclusive, o Atlético teria “inspirado” o Ipatinga a empatar com o São Caetano. Por outro lado, há também a noticia de que malas brancas andaram rondando os céus de Arapiraca. Não gosto disso de malas brancas. De malas brancas a malas pretas o passo é pequeno. Segundo nosso consultor, Dante Alighieri, no nono ciclo do inferno é onde estão os traidores a granel, tanto os de malas brancas quanto os de malas pretas, sofrendo com as agruras do gelo. No lago gelado, o Cocito (lembram o nosso querido e infernal Cocito?), as almas penam com bocas partidas pelo frio, assim como têm pés e mão geladas. Ficam vagando pelas águas geladas e muitos desfalecem, tendo partes do corpo devoradas por demônios famintos.  
Enfim, espero que o clima quente e chuvoso desta noite arapiraquense inspire os de listras verticais rubronegras. A chuva e o calor de Arapiraca são bem diferentes do que podemos encontrar a beira do lago gelado do Inferno. Não há como fazer previsões, como já nos disse Dante aliguieri, nosso infernal consultor. Cada jogo é um.

domingo, 4 de novembro de 2012

SEM MEDO E SEM FUTURO

Na quarta fossa do oitavo circulo do inferno - os nomes lembram algumas fases do campeonato paranaense - Dante e Virgílio vêem o desespero das equipes que não alcançaram o G4; lá embaixo, subindo a Serra, não seria o Joinville? 

Dante Alighieri, nosso consultor em Inferno, nos alerta: não cabem profecias, nem adivinhações. No quarta fossa do oitavo circulo do inferno, lá bem pertinho da casa do Tisnado, os profetas e adivinhos fazem uma longa marcha, uma imensa fila um com as mãos no ombro do outro, todos com o rosto voltado para trás. Segundo Dante, no inferno estão condenados a olhar para trás aqueles que, em vida, quiseram olhar somente o futuro. Virgílio, seu guia durante sua infernal passagem, concorda, balançando gravemente a cabeça. Eu, agora, é que não arrisco mesmo mais nenhum prognóstico para as últimas rodadas do Brasileirão do B, o torneio do Cão.
Pois não é que o rubro-negríssimo conseguiu a sua mais importante vitória desse ano no Brasileirão do B, no jogo de seis pontos contra o são Caetano? O Azulão, que é um time do ABC, um aprazível local do planalto, teima em morrer na praia, mais uma vez. Azar deles.
Logo aos seis minutos, o lateral Maranhão olhou pra área e cruzou. Como diz mestre Tostão, gênio dentro e fora das quatro linhas, nada de chutão, nada de rifar a bola. Pois foi isso que o menino fez. Maranhão olhou, viu quem entrava e cruzou. A bola fez uma parábola no ar e caiu na cabeça de Marcão, o mulato matador. Marcão cabeceou para o chão e saiu pro abraço. Logo depois, aos 26, Elias, nosso profeta, numa cobrança de falta, põe a bola na área. No meio da área, Marcão sobe mais que a zaga e cabeceia certinho, pro chão. A bola ia fora, mas moleque Marcelo meteu os peitos e entrou com bola e tudo, antecipando-se ao goleiro Luiz.
Quando o São Caetano diminuiu, aos trinta do segundo tempo, tarde já era, como diria mestre Yoda. Moleque Marcelo, na frente da área, recebeu um passe do imortal Paulo Baier, que não é a previdência, mas desde a falecida CAPEMI faz assistência como ninguém. Moleque Marcelo recebeu o passe de Paulo Baier e meteu o kichute. E a bola foi morrer no cantinho esquerdo da meta do goleiro sãocaetânico. Tresaum.
Agora, na terça feira, 6 de novembro, no dia do duocentésimo-décimo-quinto aniversário da nossa querida Deitada-a-beira-do-mar, o escrete rubronegríssimo vai enfrentar o América-RN em pleno Janguitão, o popular Eco-estádio. É outro jogo do mesmo campeonato. Nada está ganho, mas também não há nada perdido. O São Caetano viaja e pega o vice-líder Criciúma, lá na terra do carvão. O Vitória, que já foi Leão, tem uma parada duríssima contra o Coelho, o América-MG, lá em Salvador.
Há que se jogar bola, como teria dito Machado de Assis, outro mulato que batia um bolão, mas na língua de Camões. Deve estar feliz o velho Quincas, suposto torcedor do Fluminense. Sorte dele, neste ano. Para nós outros, provisoriamente nas terras do Bode preto, do Tranca-rua, do Tinhoso, não há medo, mas também não há esperança. Nas terras do Malfazejo é assim. Pra sair dela, há que se defrontar com o pior a cada passo.
Na série B, cada jogo é como se fosse o último. E sem prognóstico.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

OU VAI OU RACHA!

Dante e Virgílio indo comprar ingresso pra Atlético e São  Caetano, pelo Brasileirão do B; o  Azulão está morrendo na praia, mas não vai entregar fácil a rapadura. 


O Inferno, que meu perdoe seu inominado proprietário, é um lugar muito gozado. Percorre-lo não é fácil, já sabemos todos os que acompanhamos o Mais Querido em sua saga pelos territórios do capeta. Rimos muito, embora a maior parte do tempo a gente ria pra não chorar, é claro. Caminhos estranhos, entradas falsas, precipícios, fossos profundos, pântanos cheios de animais peçonhentos. Mas ainda pode piorar.
Marcar um jogo para as 14 horas, horário de verão, como foi marcado para Atlético e Guaratinguetá, no ultimo sábado, é de lascar. Devido aos mefistofélicos arranjos entre a CBF e as emissoras de TV, o jogo foi colocado no horário da sesta do capeta, o qual, tinhoso como é, não teria que correr os 90 minutos abaixo de sol como os dois times. Escuto, neste barulho infernal, a voz esganiçada da Poliana comentando o assunto: “ainda bem que não foi em Paranaguá, tia Polly!! O calor ia ser bem maior, né?”. É.
Mas, enfim, tudo acabou dando certo para o Drusbsky e seus comandados. Elias, nosso grande profeta, mais uma vez iluminado, foi quem abriu o placar, escorando lindamente um cruzamento de Marcelo. Depois de muito sol e suor e lágrimas, já no finalzinho, eis que Paulo Baier, oportunista desde a travessia do Mar vermelho (e preto), aproveitou uma bola na trave num chute de Felipe e guardou a sua lá dentro. Minutos mais, mulato Marcão, mostrando moral, municiado no meio-campo, matou o marcador e, na meia-lua, meteu com maestria. Matou o match. Maravilha, meninos.
Segundo Dante, no nono ciclo do inferno, o lugar mais quente das redondezas, é onde mora o Capo-de-tuti-capi, o Coisa-ruim, o Bode-preto, o Capiroto. Os leões de chácara de "Nhô Lúcio" são três  gigantes: Nembrod, Efialto e Anteu. Que zaga eles dariam...mas Dante explica que eles são, na verdade, a comissão de recepção ali nas profundas. Eles te recebem em geral bem, primeiro com umas bolachas. Na cara. Depois de um tépido banho de varas e um mergulho numa piscina de formigas Içá, o freguês é convidado para um cititour pra conhecer os quatro rios do Inferno: Aquerão, Stige, Flegetonte e Cocito.  É preciso atravessá-los todos para sair dali. Fico pensando em como deve ser difícil passar pelo Cocito...
Agora, estamos penetrando nos locais mais profundos do inferno deste Brasileirão do B. Sábado que vem é um duelo de vida e morte contra o São Caetano, nosso conhecido e nem sempre fácil Azulão. No Anacleto Campanella. Esse ano eles nos ganharam, lá no gigante do Itiberê, alguém se lembra? Naquele tempo a nossa  squadra rossonera era ainda uma pálida brisa. Será que agora vai?
Quem ganhar – o caminho é sempre longo neste estranho mundo - pelo menos estará nas cercanias dos degraus mais profundos do inferno. É lá, neste lugar sulfuroso e aterrador, nos fundos da casa do capeta, que está a saída, segundo nosso consultor Dante Alighieri. Nós ainda temos depois disso o América-RN, no Ecoestádio. Eles, o São Caetano, tem o Tigre pela frente, lá na gélida e carvônica Criciúma.
Jogo a jogo...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

UM LEÃO POR DIA



Depois de matar o Leão Baiano, Dante observa  um leopardo no caminho do Furacão 
Bem que se diz que, hoje em dia, é preciso matar um leão por dia. No sábado, o Furacão fez a sua parte: em pleno estádio Manoel barradas, o popular Barradão, se impôs e venceu o Leão baiano, o perigoso Vitória da Bahia.
Pra ficar mais evidente ainda o caráter épico do confronto, tivemos a infelicidade de estar em inferioridade numérica, na maior parte do segundo tempo, por força da expulsão de Pedro Botelho aos onze do segundo tempo. Ainda uma simples brisa, e ainda longe do Furacão de outros tempos, o time fez um primeiro tempo cauteloso, apostando sobretudo nos contra-ataques.  Porem Elias, um dos grandes nomes do jogo, e que já tinha acertado a trave do goleiro Deola, num mortal contra-ataque, fez o primeiro do rubro-negro paranaense.
O rubro-negro baiano foi ao ataque. Mas, aos 17 do segundo tempo, uma armação entre Marcelo e Elias, a bola foi cruzada na área para Marcão. O nosso centroavante Marcão, fazendo jus a seu nome, marcou o segundo e calou o Barrradão. Aí foi só administrar o resultado.
Um leão por dia. Dante está feliz com sua Fiorentina, que está em sexto no campeonato italiano. Virgílio, por outro lado, está feliz com a sua Roma, que subiu de produção nas ultimas rodadas do campeonato italiano. No entanto, ficou meio chateado que não está conseguindo  secar a Lazio, que está em terceiro e, se o campeonato da terra do Cálcio terminasse hoje, estaria classificada para a copa dos campeões da Europa.
Amanhã, no entanto, cesse tudo que a musa antiga canta. Vamos evitar que o Guarani cante sua Ópera no Eco- estádio. Nada de brincadeira. No primeiro turno, no jogo que eu assisti aqui no Brinco De Ouro, entregamos fácil pro Bugre o jogo que estava ganho até os 20 de segundo tempo. E contando ainda com aquele triste espetáculo da briga da Fanáticos com a Zona Sul. Coisa de chorar de vergonha. Aquele jogo, bem me lembro, provocou o começo do fim de Jorginho no comando rubro-negro.
Agora, no entanto, os caminhos para sair do inferno estão mais embolados. Criciúma, Goiás, Vitória e nosso glorioso rubro-negro estão nos sprints finais, seguidos de perto pelo Azulão (xô!) e, lá no inicio da serra de Garuva, perto do rio São João, vê-se o Joinville também na corrida. Nada está decidido.
Nada de fé, nada de esperança. Temos um quase- time, um quase-técnico (nosso Drubsquem?) e, não menos importante, um centroavante que é um marcão, se a bola chega pra ele. Nas terras do Bode-preto, isso não é o bastante, mas pode ser suficiente.
(nossas congratulações ao Sampaio Corrêa, do Maranhão, vencedor da série D; que o inferno da série C lhe pareça uma suave brisa de fim de tarde na feira-mar!)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

PASSO A PASSO, JOGO A JOGO

Dante & Virgílio chegando à terra de Todos os Santos pra ver Vitória e Atlético; será que estou vendo, no canto inferior esquerdo, o Azulão morrendo na praia?  

Neste infernal caminho das pedras, aquele ditado que cada passo é um passo é de uma verdade daquelas bem verdadeiras. Rimbaud, o autor de “Uma Estadia No Inferno’, um clássico pra quem disputa as segundonas da bola e da vida, nos diz que, nesta travessia pelas terras do Sem-nome, todo nosso tesouro é confiado às feiticeiras, à miséria e ao asco. Quem poderá contestar?
Amanhã o confronto de nosso redivivo escrete será contra o também rubro-negro Vitória da Bahia. Vice-líder, com um invejável retrospecto em casa, o Vitória será uma parada dura para o Drubscky (quem?) e seus comandados. Porem agora, já findando o ano, já podemos dizer que temos um time de segunda.
E a primeira? Calma, amigo leitor: lembre-se, cada passo é um passo. Houve o heróico passo do jogo contra o América Mineiro. Estávamos vindo de empates e da dolorida derrota pro Bragantino em fins de setembro. Foi um jogo épico, com nove gols, e o desempate aos quarenta e nove do segundo tempo, com um gol salvador de Paulo Baier, desde as capitanias hereditárias deixando o seu lá no filó. O América, o Coelho, alias, era um dos lideres do primeiro turno, e nos impingiu uma dolorida derrota de três a dois lá no Independência. Na época eu disse aqui que seria o ponto da virada. Foi? Sei lá, aqui nesta infernal senda não há esperança e cada passo é um passo.
Por ultimo, o Furacão abateu o Avaí no Eco-estádio, por três a um. Agora, estamos só um ponto atrás do quarto dos infernos, o nosso já conhecido Azulão. Que é um time tinhoso e forte, mas que não tem chegada, como já provou sobejamente no passado, inclusive no nosso passado. Hoje, os sãocaetânicos enfrentam o Barueri na Arena Barueri, uma tarefa aparentemente fácil. Mas, secando bem secadinho...
Meus caros Dante Alighieri e Virgílio, especialistas especialmente convidados para analisar as probabilidades do Mais Querido deixar logo o latifúndio (produtivo?) do Capeta e passar para os assentamentos de lona provisórios dos sem-estádio e chegar, no fim da jornada, à Arena Prometida, são taxativos: o caminho para sair do inferno é longo e árduo. E, como eles mesmos já adiantaram, não é fácil ( e não está sendo). Não temos esperança, mas temos algo que pode ser um time.  O jogo lá na Boa Terra vai ser duro.  Mas assim mesmo vamos nós, devagar com nosso andor. O caminho é ruim e lamacento e o santo é feito do mesmo material. Não dá pra arriscar.
Passo a passo, jogo a jogo.

sábado, 29 de setembro de 2012

NÃO DÁ PRA ENTREGAR O JOGO NO FIM!!

o técnico Drubscky pede a cabeça dele mesmo, após  a zaga entregar o jogo pro  Braga aqui em Bragança Paulista;  Dante e Virgílio lamentam a cabeçada.

Estava tomando uma cervejinha e acompanhando, junto com meus amigos Dante Alighieri e Virgílio, mais um jogo da serie C, entre Fortaleza e Treze de Campina Grande. Sim, meus amigos, apesar da coisa não estar tão ruim pro rubro-negríssimo no inferno da segunda, não custa ver como é o buraco ali mais embaixo. Sim, eu acompanhava com curiosidade o fétido antro da serie C, o fim de muitos times respeitáveis, que hoje são um triste fantasma dos gloriosos de outros tempos. Estava no fim, dois a zero pro tricolor da terra de Iracema.
E eis que a televisão nos mostra, para nosso espanto e revolta, o segundo gol do Braga. Sim, o Bragantino acabou por nos derrotar lá no pequeno estádio Nabib Abi Chedid. O zagueiro deu uma entregada daquelas de tomar banho frio no inverno curitibano, aquelas águas frias que gelam até a alma. Cabeceou no pé do centroavante, que não precisava ser nem centro nem avante com um presente daqueles. Ele só empurrou pro gol. Weverton, sim, nosso fiel guarda-metas, nada pode fazer. Ficou de joelhos na grande área, imprecando para os céus a mancada de seu coleguinha de zaga.
Estamos agora em sexto, beneficiados com as derrotas do vitória para o Avaí e do São Caetano para o nosso bravo Paraná Clube. Sim, o time da Gralha Azul gralhou a vida do azulão, e ele não disparou na nossa frente. Menos mal. Viva o Paraná Clube!!
Mas faltam ainda 19 pontos pra sairmos do inferno, segundo os idiotas da objetividade. Vamos ver. Virgílio fica aqui do meu lado tocando harpa e escrevendo uns poemas bucólicos, que me dá vontade de mandar o tal Drubscky pastar. Dante, mais pragmático, diz que temos alguns caminhos infectos e imundos, alguns gramados ruins e estádios péssimos pela frente, se quisermos sair do inferno.
Enquanto na Deitada-a-beira-do-mar se discute a esperança e o futuro, nós rubro-negros sabemos que não há esperança. O caminho pra serie A é assim, conquistado jogo a jogo. Só não pode entregar assim na frente da área, né, meu filho?

domingo, 23 de setembro de 2012

É LONGO O CAMINHO...

No longo caminho para a Saída do Inferno da Segundona,  Dante dá uma fugida pro matinho...


O caminho pra sair do inferno é longo, meus amigos. Depois de uma semana nas nuvens, achando que estávamos sossegados no purgatório do G4, eis que o Goiás interrompe nossa serie invicta e nos põe de novo no quinto dos infernos. Nas terras onde reina o Capeta, há que se deixar toda a esperança de fora, e lutar pacientemente, jogo após jogo, como já nos alertara Dante Alighieri, nosso especialista em infernos.
Já temos um time. Arthur Rimbaud, nosso francês autor do magnifico “uma estadia no inferno”, pede cautela: Quantos jogadores e técnicos passaram pelo CT do caju desde maio? E quantos técnicos? Será que a boa fase vai continuar? Mas agora, contra todo o pessimismo, parece que temos um centroavante. Marcão entrou com personalidade já contra o América de Natal, e vem fazendo seus golzinhos: são seis, já empatados com nosso grande Paulo Baier, desde as capitanias hereditárias goleador de incontáveis méritos.
Ontem, com um gol de centroavante, Marcão girou em cima do zagueiro e fuzilou o pobre goal-keeper do Ceará, garantindo a vitória dos rubro-negros no “Ecoestadio”. No confronto direto, deixamos longe um rival em potencial, que pode complicar ainda a vida de nossos adversários na reta final deste infernal torneio.
Parece que os ares do planalto estão fazendo bem ao mais querido. Na nossa quente e úmida Paranaguá, fomos um desastre como mandantes. Era o campo? Era o bafo dos caranguejos? Era a torcida, que acostumada com o friozinho de Curitiba, esqueceu o desodorante? O fato é que no Eco-estádio, um nome pomposo – e bem típico do “marketing curitibano”, o Furacão começa a ventar um pouco mais forte. Penso que ainda vamos ter algumas jornadas memoráveis no pequeno Janguito Malucelli. Claro, sem nenhuma esperança, como sempre lembra o grande mestre Dante.
Enquanto isso, as saídas do inferno têm muitos e enganosos caminhos. Segundo algumas notícias, faltam 19 pontos para o Rubro-negro voltar ao enganoso Paraíso da serie A. Tem mais três pontos a serem disputados aqui perto, em Bragança Paulista, no estádio Nabi Abi Chedid, contra o Bragantino. Não sei se vai dar pra eu ir lá, a semana vai ser corrida.
A primavera que começou ontem pôs fim a cerca de dois meses sem chuva. Choveu pouco, mas já amenizou a estiagem por aqui. O problema é que as chuvas são acompanhadas por fortes rajadas de vento. Essa semana um vendaval passou por Campinas deixando um monte de estragos. Quem sabe o INPE não estará prevendo um Furacão em Bragança Paulista neste próximo sábado?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O SEXTO DOS INFERNOS

Dante & Virgílio cruzando o Quinto Círculo do Inferno, onde estão os avarentos  e  os gastadores;  o leitor atento poderá reconhecer alguns dirigentes rubro-negros (e não só rubro-negros...) nesta singela imagem

Enfim, acabou o primeiro turno do inferno da segundona. Até que não foi assim tão ruim. Depois de um começo meio assim-assim, em que esteve inclusive cheirando o enxofre da terceirona, o rubro-negro venceu suas últimas quatro partidas e dá uma respirada. Em sexto lugar, a dois pontos do G4, o rubro-negro sonha.
Aqui de meu exílio campineiro acompanho de longe, rodeado de meus amigos Dante e Virgílio, especialistas em inferno. Às vezes, Arthur Rimbaud, poeta maldito, dá uns pitacos pra entendermos nossa Estadia no inferno. Gusano, meu amigo engarrafado, dá uns goles de mezcal e segue com suas filosofias. Longe de tudo isso, mestre Stendhal, o glorioso autor de O Vermelho e o Negro, mergulha nas profundidades da psiquê atleticana. Quer time melhor?
Pois então. Cerca de dois meses e 19 jogos depois, o rubro-negríssimo conta com um time totalmente diferente do que iniciou a infernal jornada. Três técnicos passaram pelo CT do Caju. A diretoria parece confirmar o Drubscky (quem?) como o técnico titular. Junto com o alivio, uma sensação de que o bode, ao menos por enquanto, foi tirado da sala.
Dante me conta que no quinto circulo do inferno estão as pessoas que não sabem lidar com dinheiro. Neste lugar estão os avarentos, aqueles que praticam a usura e não gastam o que tem e também aqueles que, pródigos, gastam demais. Numa sala escura e fétida, numa briga que nunca termina entre os dois lados, os gastadores e mãos-de-vaca escoam seus míseros dias de eternidade.
Segundo Dante (Virgílio concordou com um grave aceno) alguns antigos dirigentes rubro-negros já se encontram nestes círculos, sofrendo as agruras infernais. Outros, ainda em atividade, estão sendo avidamente esperados no quinto circulo do inferno. Claro está que lá também se encontram outros dirigentes do futebol brasileiro e mundial, além de políticos, empresários e figuras do show-bizz.
A Arena da Baixada, segundo Dante, tem aumentado muito o quinto circulo do inferno, a ponto do Sete-peles, vulgo Capiroto, já ter pensado em aumentar a sala do Quinto Circulo e fazer um grande salão com sauna a vapor e massagem da varas. Os empreiteiros do inferno já estão fraudando a licitação.
Mas, enfim, tem ainda dezenove jogos pra ver se saímos ou não do inferno. Por enquanto, ali estamos sem qualquer esperança, como é apropriado em situações como esta. Gusano, a meu lado, dá um gole no mezcal e dá uns cochilos. Aqui em Barão Geraldo neste fim de agosto, mês do cachorro louco, está uma secura só, com direito a fuligem, olhos ardendo e nariz seco. Um inferno.

sábado, 28 de julho de 2012

LASCHIATE OGNI SPERANZA, VOI CH´INTRATE!


Dante e Virgílio depois de me deixarem na entrada do Brinco  de Ouro, antes de Guarani e Atlético  pelo inferno da segundona

Quando Dante estava entrando pela primeira vez na porta do inferno – ele tem uma baita experiência nisso, convenhamos - viu uma placa que dizia: “Vocês que estão entrando, deixem aqui toda esperança”. Esta é a tradução da frase que dá o título da crônica. Pois bem, é toda a verdade. Ao entrar no Inferno, deixe de fora a esperança.
Acabo de voltar do estádio Brinco de Ouro, onde fui ver a derrota do Rubro-negro para o Guarani. Coisa de arrepiar. O time está medonho, mesmo. Um ou outro se salvam, os demais não servem nem pra gandula. Perder pro time do Guarani, de virada, é um feito que se consegue com muito esforço.  Eles estão numa naba muito pior que a nossa, e tem um time muito ruim. Mas a "squadra rossonera" se supera em ruindade.
Tivemos um primeiro tempo horrível. Não teve nenhum chute a gol de lado a lado. O nosso meio de campo não conseguia trocar três passes certos. Pra complicar, quase no fim do primeiro tempo uma outra torcida organizada, decobri depois que eram os Ultras, tentaram entrar no canto do estádio em que estávamos alojados. Deu briga, correria, veio policia, o escambau (veja aqui).
Nem vi o fim do primeiro tempo. Só dava os gorilas se enfrentando, com aquelas caras de neonazistas – carinhas musculosos, tatuados, cabelo raspado e óculos escuro. A única coisa decente eram as cores que vestiam, o manto sagrado rubro-negro, aquele que só se veste por amor. Me deu uma vergonha de ser atleticano ver o triste espetáculo de duas torcidas do mesmo time brigando ali na nossa frente. O jogo rolando,  e só se via gente correndo e policia vindo.
Um cara do meu lado, comentando o episódio, me disse: “que vergonha ser paranaense, vir pra cá e ver essa vergonheira toda”. Concordei com ele. Expulsos os Ultras, os neonazistas da fanáticos continuaram a cantar aquelas musicas bobas deles. Ele só sabem cantar aquelas coisa idiotas contra os coxas e o paraná, mas que Paraná, meu Deus!! o jogo é em São Paulo, contra o Bugre!! Acorda! Torcida medíocre, briguenta, descerebrada!
No segundo tempo, o time até que tentou acordar. Um cruzamento na grande área e Harrison (quem?) de cabeça completou pro fundo das redes. E poderíamos ter feito mais e resolvido o jogo, mas não. Não!! Deixem aqui toda a esperança. O Guarani, que não conseguia nada, foi aproveitando os erros e fazendo. Um, dois. Vira-vira.
Enquanto isso, um grande clarão se abriu no meio da torcida entre a tal organizada que se diz fanática e os demais torcedores. Ninguém mais sentiu tesão de acompanhar as cantorias daqueles boçais. Um completo divórcio. Triste, triste. Lá no campo, o time batendo cabeça, querendo perder de três ou quatro. E pronto, ressuscitamos o Guarani na segundona.
Quando Dante viu a tal mensagem na Porta do Inferno, ficou apavorado. Mas Virgílio, ao seu lado, o confortou, dizendo que ao entrar no Inferno era preciso deixar todo o temor, vil ou prudente, pois toda fraqueza ali deve estar morta. “Chegamos ao lugar da indigna gente que o bem supremo da razão perdeu”, disse a Dante o grande Virgilio.
Ao final do jogo, isso ficou bem evidente. Um time ruim, com uma torcida pior, não pode esperar o Paraíso, sequer o purgatório. Um outro torcedor que se juntou ali onde estávamos, longe das bestas neonazistas, disse que tinha gente torcendo pro time não subir este ano, pois do jeito que estava perigava subir e cair de novo. Tem louco pra tudo.
A jornada ainda é longa neste inferno. E a lição de casa de hoje é que o inferno não são os outros: pode estar no meio de nós.

P.S. – as citações são da Divina Comédia, Inferno, Canto III, pra quem quiser conferir. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

TRIBUZANA NA RESSACADA


Dante e Virgilio embarcando no Saco dos Limões com destino a Paranaguá após ver  a Avaí perder pro Atletico na Ressacada


Voltei. Estive afastado do blog por motivos profissionais – o final do semestre – por motivos de viagem e por uma desgraçada duma gripe que me derrubou nos últimos dias. Ainda meio resfriado, enrolado em cobertores nesta fria terça feira de julho, acabei de ver pela TV a vitória do Furacão contra o Avaí, na Ressacada em Floripa .
Assisti o jogo meio ressabiado, em meio a chás de limão, colheradas de mel e mantas cobrindo meu proverbial pé frio. Logo no inicio e gol. Marcelo, o primeiro nosso. Vamos ganhar! Será? Fui na cozinha pegar o mel e o guaco e, quando volto, o Avaí empatou. Fiquei meio ressabiado, olha o meu pé frio fazendo das suas. Peguei mais um cobertor e botei fogo na lareira. A presença espectral de Dante Alighieri e Virgílio, meu colegas de inferno da segundona, não fazia minha sala mais quente.
No segundo tempo, só dava Avaí. O time está melhor, sensivelmente melhor que o time que estava jogando. O meio campo com o João Paulo, a zaga estava melhor, embora o Manoel – logo ele! – falhou feio ne empate do Leão da Ilha. Mas o Avaí insistia, dominava o meio de campo e dava uns sustos meio grandes.
Ainda enrolado em meus cobertores, assoando o nariz a cada escanteio do Avaí – contei até onze – vi o contra ataque meio atrapalhado, onde o jovem Bruno Furlan fez um passe na medida para Marcelo marcar seu segundo. É grosso, o Marcelo, daqueles que matam a bola na canela. Mas tá bom, duas bicudas e três pontos cruzando a ponte em direção à Curitiba.
Quando acabou, tirei meu pé dos cobertores, feliz. Até esqueci o chá de limão por uns momentos. Ao meu lado, Dante Aliguieri estava conversando com Virgilio alguns detalhes da classificação da série B. O cheiro de bodum da terceirona ainda está no ar, segundo eles, em seu poético linguajar. Entretanto, pelas frestas da janela está entrando o ar puro. ou seja, estamos mais perto do G4 do que do Tartaro infernal da terceira divisão. Mas é pouco.
Sábado que vem, pra derrotar o vice-líder Vitoria, o time vai ter que ser uma Tribuzana la em Paranaguá. Tribuzana, como se diz na Deitada-a-beira-do-mar – e também em Paranaguá -  é uma tempestade marítima com ventos fortes. Ainda não é um Furacão, mas dá um banzeiro, ou seja, ondas altas que impressionam. Xô, pé frio! Se a canoa não virar, a gente chega lá?