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domingo, 1 de setembro de 2019
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
NEGACIONISTUS
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| Arte: Julian Fagotti |
(Para Leda Gitahi)
Não há como negar: um dos gêneros mais comuns e importantes
do período entre o Devoniano e o Cretáceo foram os anfíbios do gênero negacionistus. Estudos recentes da Paleontologia
Imaginária jogam luz sobre alguns aspectos até então pouco esclarecidos do negacionistus e apontam novas causas
para seu surgimento e posterior extinção (Souza & Brown, Imaginary Paleontology
Review, 2019).
Segundo o trabalho citado, existiriam diversas espécies de negacionistus, cada uma adaptada ao seu
paleo-ambiente. Uma das espécies mais antigas é o negacionistus holocausticus, que data do Devoniano inferior (S.
Wiesenthal, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginaria de Tell Aviv, 1959). Segundo
Wiesenthal, o n. holocausticus tinha
olhos grandes, mas provavelmente tinha dificuldades de enxergar. O que em certa
medida explica o seu desaparecimento, ao final do Permiano.
Da mesma forma que o negacionsitus
holocausticus, o negacionustus
climaticus foi outra espécie importante no registro paleontológico
imaginário. Seu maior período de difusão parece ter se dado entre o Jurássico e
o Cretáceo, tendo desaparecido ao final deste ultimo período. Não há evidências
de n. climaticus acima do limite Cretáceo/Terciário,
o limite K-T (Anais do Congresso de Paleontologia Imaginária de Honololu,
1959).
Ao que tudo indica, o n.
climaticus tinha olhos bastante desenvolvidos, mas não conseguia enxergar
com clareza (Lindzen & Ferry, Imaginary
Paleontological Review, 2009). Também não eram muito bons em estatística, e
não entendiam cálculos matemáticos e modelos climáticos complexos, o que pode,
segundo alguns, ter levado a sua extinção ou reprovação em massa (Koch &
Koch, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginaria da Filadélfia, 2005). Como
quase todos os anfíbios, o n. climaticus
também tinha uma língua retrátil longa, ferina e pegajosa. Seus alvos preferenciais,
de quem se alimentava, eram insetos do gênero incautus sp (Exxonmobil, Secret Report, 2005).
Um dos trabalhos mais interessantes para se entender o
gênero negacionistus com certeza foi o
de Sigmund Freud. Antes de se tornar o pai da psicanálise, o jovem Sigmund dedicou-se
à paleontologia, e fazia trabalhos de campo em diversos sítios fossilíferos
imaginários ao redor de Viena. Suas descobertas mais importantes resultaram num
trabalho publicado nos Anais do Congresso Paleontológico Imaginário de Viena,
1890. Neste texto recentemente redescoberto, Freud percebeu que os negacionistus, apesar de bem equipados
para a sobrevivência ao ambiente hostil do cretáceo, escolhiam negar a
realidade como forma de escapar de verdades desconfortáveis. Ao fazê-lo,
segundo Freud (op. cit.), as espécies de negacionistus
acabavam por aceitar fatos alternativos e hipóteses de difícil comprovação
empírica.
Existem alguns trabalhos que fazem uma relação entre o negacionistus climaticus e outras
espécies, como o terraplanistus sp, o
fascistus sp e o criacionistus sp (Trump, 2016; Bolsonaro et al., 2019). No entanto,
embora similares, estudos recentes comprovam ser espécies distintas, porem
adaptadas ao mesmo meio ambiente. Existe mesmo a hipótese de algumas destas espécies
serem extraterrestres, com indicações de derivação lunática (Damares Alves,
comunicação pessoal, 2019; D. Bertrand de Orleans e Bragança, 2018, Anais do
congresso de Paleontologia Imaginaria de Petrópolis).
Um animal estranho e monstruosos num tempo estranho, como foi
o Mesozoico, o negacionistus climaticus,
apesar de suas vantagens competitivas, teria sido extinto junto com os grandes
dinossauros. Uma teoria muito aceita no passado diz inclusive que os n. climaticus negaram a possibilidade de
choque de meteoros com a Terra no final do Cretaceo (Suguio, Imaginary
Paleontology Review, 2012).
No entanto, alguns dados recentes mostram que eles se extinguiram
um pouco antes, no Cretáceo médio (Heartland Institute, Special Report, 2010). Segundo
a teoria mais aceita atualmente, com a deposição de evidências cada vez mais
esmagadoras, os n. climaticus foram
soterrados por toneladas destas mesmas evidências que eles negavam, e acabaram
se extinguindo (IPCC, 2006). Nem precisou de meteoro.
(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)
domingo, 22 de abril de 2018
OS FEIOS E FEDIDOS CHEGARAM
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| "hein? Capitalismo Mercantil? no comprendo..." |
Já vai já meio milênio
e mais de dezoito anos.
Certo dia, uma praia na Terra dos Papagaios amanheceu com uns
barcos estranhos ao longo da costa. Lá pelo meio do dia, veio uma canoa para a
praia. Eram uns caras feios, fedidos, macilentos. Queriam água, comida. Foi dada
comida pra que fossem embora logo. Depois de uns dias, com uma cara melhor, mas
ainda fedidos, vieram aos montes pra uma pequena ilha em frente. Estavam
com medo.
Lá na ilha, um cara
vestindo uma longa túnica preta, começou a falar algumas coisas sérias para os
outros, que ouviam compungidos. Deveria ser algo religioso, ou coisa que o
valha. Ergueu um pedaço de comida na mão, molhou numa taça com uma bebida
vermelha e estranha, comeu e deu de comer para os outros. Primeiro, para os
chefes, depois para o resto.
O chefe, este. Tinha
muito medo, andava sempre escoltado. Tinha umas roupas vermelhas, usava uns
colares estranhos. Tinha um olhar meio blasé, olhava tudo e todos de cima,
menos o tal da túnica preta. Perto dele, outro homem com roupa simples ficava
atento olhando tudo. De vez em quando, fazia algumas anotações num pedaço de
papel.
Os outros, ficavam
levando barris e barris de água pra dentro dos barcos, levavam comida, lavavam
tudo. Ficavam olhando espantados para as mulheres na beira da praia. Parecia
que nunca tinham visto mulher. Olhavam com vergonha, de olhos baixos, como se
não quisessem ver. Estranhos.
Alguns foram lá nos
barcos. O chefe lhes deu uns vidros coloridos e uns espelhos, de que gostaram
muito. Viram alguns animais estranhos, um deles parecia um jacu pequeno, só que
com penas vermelhas.
Depois de alguns dias,
dois dos navios se foram, levando os papeis que o homem atento ficou dias e
dias escrevendo. Os outros acabaram convencendo um dos nossos a ir com eles.
Ele achou divertido, e se foi.
No dia de irem embora,
deixaram três deles aqui na praia. Os homens ficaram chorando feito filhote de
jaguar que perde a mãe. Parecia que ficavam por castigo.
Castigo ou não
castigo, isso não era com a gente. Um deles foi morto neste mesmo dia, e
fizemos uma grande festa com muita bebida. Pena que a carne do sujeito fosse
tão dura e sem gosto. Os outros dois, ficaram um tempo mais por aqui e os
matamos depois de uma grande vitória sobre os temiminós, nossos inimigos. Com
um pouquinho de comida saudável e descanso, a carne deles ficou mais aceitável.
Dos outros, nem
soubemos mais. Diz-que foram para as Índias, em busca de fortuna.
Pra que, se o
Paraíso é aqui, e agora?
(este é um texto antigo, repaginado...acho que ainda rola...)
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Narrativas de viajantes
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
CRONICAS DO DUTO - A ENGENHEIRA
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| (a faixa verde-clara no centro da foto é o duto cruzando os mares de morros) |
A engenheira chegou no projeto. Alta, linda, loura, formada
na Unicamp e com especialização em segurança do trabalho. Maravilhosa. Uniforme
azul impecável, botas novas. Sequer desceu da caminhonete pra cumprimentar:
estendia o braço pela janela, e exibia um pálido sorriso.
No primeiro local de visitação, nem quis descer ao local
onde estávamos fazendo as sondagens: tínhamos que descer segurando em cordas.
Reclamou dos insetos, de uma abelha e de uma joaninha que pousou em seu braço.
Quando saímos do local, disse que as curvas da estrada faziam-na enjoar.
No segundo local, até que foi ver o pessoal trabalhando. Aí
reparou que ali não existia um banheiro químico. Nosso encarregado, o Siqueira,
pernambucano de olhos calmos, respondeu-lhe que ali, naquele tipo de obra, um
banheiro químico era um severo impedimento ao trabalho. Nosso deslocamento era constante de um ponto a
outro. Levar um banheiro químico para aqueles lugares era um ônus pesado demais
para nossos funcionários. Quase como levar fogão de seis bocas num camping.
Então, a engenheira reparou que os funcionários estavam sem
o protetor auricular. Novamente, com seu jeito calmo, Siqueira explicou que
ali, na mata, não haviam ruídos que pudessem incomodar os funcionários. O bater
do martelete de percussão não era continuado nem tinha um som exagerado.
Eu quis mostrar a ela as obras que estava vistoriando. Ela me deixou
com o outro fiscal e voltou para a caminhonete. Voltarmos cerca de 40 minutos
depois, e a encontramos deitada no banco da caminhonete, ar condicionado,
dormindo o sono dos justos.
Disseram-me que ela tinha vindo pra ser chefe da
fiscalização do projeto. Não sou nenhum especialista no assunto, mas é mais uma
pessoa errada no lugar errado. Depois de quase dez anos sem contratar, as
empresas estatais estão num serio dilema. Contratam recém-formados, mas por
falta de quadros mais antigos, estes mal entram e já pegam cargos de chefia. O
que essa menina vai chefiar?
Mal ela sabia, mas naquele bando de peões que ela viu
operando a sonda havia Cícero, que já ganhou dinheiro compondo músicas. Havia o
Melancia, contador de causos e anedotas de animar qualquer roda. E havia o
Tonho, grande e forte como um urso, suave e simpático como uma criança.
Para além de qualquer projeto estão as pessoas.
As pessoas fazem projetos, constroem dutos, fazem leis, jogam
futebol, dirigem grandes corporações, constroem ou destroem países inteiros.
Perceber isso é crucial para qualquer empreendimento humano.
Será que a engenheira sabe disso? Pode até saber
academicamente, mas tem o saber profundo, aquele que vem com o bater do coração
e com o pulsar da existência?
Tomara que ela construa muitas coisas em sua vida
profissional. Principalmente, tomara que ela veja, para além das obras prazos
planilhas e cronogramas, aquele bando de gente boa e trabalhadora que está ali,
fora do ar condicionado, fazendo concretamente o concreto de nossas vidas.
Tomara.
(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)
(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)
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sábado, 11 de novembro de 2017
O MINUTO DE BARBOSA
Aquilo foi pouco tempo, menos de um minuto. Gighia passou
por Bigode no meio do campo e veio vindo. Uns dizem que Bigode ficou
acovardado. Outros lembram ainda do tapa que Bigode levara há pouco de Obdulio
Varela e não reagira. Time medroso. O cúmulo da covardia diante da pátria
de chuteiras.
Gighia avança, Fontana o acompanha de longe, voltando de
costas, sem dar combate. Barbosa começa a pular nervoso, de sobreaviso - saio
ou não saio? Milhões de olhos o acompanham, os músculos se retesam, os olhos
não perdem um lance da aproximação de Gighia, que avança.
De todos os lados os olhos ansiosos estavam pregados
naquela cena que se desenrolava veloz, Gighia já está entrando na grande área
conduzindo a bola de cabeça baixa como um búfalo furioso, toda perseguição
parecia inútil. O Maracanã, com mais de sessenta milhões de pessoas, toda a
população brasileira daquela época, assistia mudo Aparício Varela entrando na
área.
Tempos modernos, agora não eram trinta e três, mas somente
onze. Capazes de anular toda a República, como um dia abalaram o Império. Os
uruguaios estão chegando. Gighia chega mais perto e desfere o chute. Barbosa
tem pouco tempo. Prepara-se nervoso, retesa os músculos e salta. A bola resvala
em seus dedos e sai pra escanteio. O Maracanã respira aliviado. O jogo
continuava empatado.
Terminado o jogo, éramos os melhores do mundo. Aquele dia
os milhões de pessoas que lotavam o Maracanã não viram Barbosa cabisbaixo
buscar a bola do desempate uruguaio no fundo das redes. Não houveram os pulos
de alegria que Gighia dava com o jogo virado. Não houve a festa celeste. Não
houve lágrimas entre a torcida brasileira, nem choros convulsivos dentro e fora
do gramado. E, principalmente, não houve Obdulio Varela levantando a taça como
o Gumercindo Saraiva que finalmente amarrava seus cavalos no centro do Rio.
Se Barbosa não tivesse espalmado aquele chute, viveria uma
vida de caras viradas, de palavras rudes, de recriminação, de silencio e
esquecimento. Teria que viver explicando que não fora frango, que não havia
caveira de burro enterrada debaixo de sua meta. Não, a bola enfiada por Gighia
não passara por entre seus dedos com o resto de sua vida. O minuto que começara
com o drible e a arrancada havia terminado.
Ghigia não marcara o gol, e agora o Maracanã agradecido
aplaudiu os artilheiros. Encerrado o jogo, cartolas invadiriam o gramado,
felizes. Afinal, agora eles seriam consagrados como responsáveis pela
conquista, desde as goleadas contra Suécia e Espanha até àquele suado empate
com o Uruguai, dentro do Maracanã lotado. Os cartolas todos foram posteriormente
eleitos deputados federais, e fizeram brilhante carreira na política.
Canções foram compostas para louvar os artilheiros, seus
salários foram melhorados. Um filme foi rodado com os gols da partida,
mostrando as cenas de júbilo e entusiasmo da torcida. Era o primeiro
campeonato do mundo de futebol conquistado pela seleção brasileira. E dentro de
nossa casa! O filme com o jogo da final de 1950 passou nos cinemas de todo o
País, e mostrou aos meninos a glória de vestir o uniforme branco da seleção brasileira.
Depois de ter com a ponta dos dedos espalmado o chute
venenoso de Ghigia, segregado àquela estranha profissão de hunos, sempre
pisando onde não nascia grama, Barbosa continuaria em silêncio sua sina de
buscar bolas no fundo do gol.
(PUBLICADO AQUI PELA PRIMEIRA VEZ)
(PUBLICADO AQUI PELA PRIMEIRA VEZ)
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quarta-feira, 1 de março de 2017
O FIM DO ANFÍBIO
Hoje de manhã, ao abrir a porta da cozinha vi uma cena
macabra: umas perninhas boiando, inanimadas, num balde de agua com Qboa. Ao chegar mais
perto vi que não se tratava de nenhum ser liliputiano, mas sim de uma prosaica
rãzinha, que acreditou estar voltando pra casa num pulo.
O corpinho da rã boiava no balde à luz da manhã de uma quarta-feira
de cinzas. De imediato, não soube muito o que fazer. Funeral de animais é uma
coisa complicada. Em geral, o funeral só é reservado para animais muito próximos,
tanto na escala evolutiva quanto na vida. O cachorrinho de estimação das
crianças. Meu coelhinho, o Bolinha, morto de causas desconhecidas no quintal de
minha infância. O pardalzinho que tentamos salvar, eu e minhas irmãs, quando
ele caiu do ninho. Mas, uma rã, e da qual nem tinha conhecimento até ver seu corpitcho
de nadadora estirado no nosso balde de limpeza?
Optei por coloca-la no lixo, junto com outros dejetos orgânicos
e não compostáveis. Ao pega-la pelas patas, vi que ela já estava enrijecida, os
olhos abertos, a barriga inchada. Tive um nojinho, confesso. Mas cumpri minha
missão.
E fiquei pensando
sobre nossa relação com os animais, principalmente aqueles animais que achamos
não ter relações. Semana passada, apareceu aqui em casa uma cobra. Já
apareceram outras duas, mas filhotes. Desta vez, segundo nossa diarista, era uma
cobra mesmo. Volta e meia também passa por aqui um gambá, que já fez estragos
com umas frutas e com o lixo que deixamos descoberto. Tem também os
passarinhos, a fazer algazarra e gritar pelas arvores ao redor.
Optamos, Maria José e eu, por não termos animais de
estimação. Dá trabalho para os dois lados. Pra criar tem que se dedicar, e,
como viajamos muito, achamos que não compensa. Eu já tive os cachorros e outros
bichos que meu pai tinha. Depois, tive os cachorros que meus filhos queriam
ter. Agora, posso escolher não ter nada.
Mas, pelo que contei até aqui, acho que eles acabam por nos
escolher. Acrescento à lista que dei anteriormente uma coruja enorme que as
vezes passa por aqui e um sagui que certa vez gritava na nossa porta. São eles,
os animais, que nos escolhem.
Vivemos num mundo ainda selvagem. Que digam os gafanhotos e
pulgões e formigas que nos infestam o jardim, que ensejaram o surgimento da indústria
de pesticidas. Sem contar, é claro, como os pernilongos e outros aedes, que
criaram a indústria dos repelentes.
E assim vamos,
convivendo com eles e os exterminando. O extermínio é feito sem dó. Mato um
mosquitinho sem ter dó na consciência. Mato um aedes com um misto de medo e fúria.
Exterminamos as baratas com venenos e chineladas com um sorriso sádico nos lábios.
E o que dizer de uma morte involuntária, de um animal “bonitinho”?
Que confundiu o balde com Qboa do outro balde ao lado, com agua limpa? Como fica
então nossa consciência? Gusano, meu caro amigo Gusano, o verme da
garrafa de mescal, me olha com um ar de cético: “vocês humanos ó se preocupam com
vocês!”. É verdade, Gusano. Só o que é humano nos interessa. Por isso os sapos e
rãs são bonitinhos e as salamandras são demoníacas.
Devemos, então, nos preocupar com os animais por estarmos preocupados
com nos mesmos? O que fazer se vivemos numa sociedade que consome mal e muito,
com uma conta que não fecha? Parece que estamos presos dentro da cabine de um
trem desgovernado cuja chave foi jogada fora. Gostando ou não gostando do que
estamos vendo, estamos todos juntos. Quem quer produzir de qualquer jeito e que
quer que haja alguma norma que respeite o meio, estamos todos na mesma
civilização. Como as duas faces de uma moeda.
Vai dar cara ou coroa? Ou a moeda da civilização vai pro
bueiro sem que se saiba o resultado?
Eu só sei que o fim de um anfíbio não deveria ser num balde de Qboa.
domingo, 29 de maio de 2016
OBRIGADO, GEOLOGIA!
Obrigado, Geologia!
Eu ainda nem sabia quem era você, e você já estava na minha
vida. A Geologia estava nos tijolos da minha casa, no vidro das janelas de
minha escola, nos paralelepípedos da minha rua, no mar que banha a minha querida
Antonina...
Quantas vezes fiquei na Prainha sentindo o lodo sob os meus
pés, ou queimando meus pés nos lajedos da Ponta Da Pita, olhando lá longe o
cimo da Serra do Mar, e nem sabia que tudo aquilo era mineral, era rocha, era
granito. Quantas vezes, lá em Tamarana, eu ficava com meus pés vermelhos de
poeira, ou ia tomar banho nas cachoeiras do rio Apucaraninha e não sabia o que era
basalto, o que era arenito.
Obrigado, Geologia!
Obrigado por me fazer ver o pequeno mineral que constrói a
rocha que constrói a montanha. Por ver bloco que vira seixo que vira areia que
desce da serra que vira lama e vai atulhar o mar. Por ver o veio que vira minério
que vira riqueza e que constrói casas, cidades, um país, o mundo.
Obrigado, Geologia, pelas grotas que visitei, pelas
drenagens que percorri, pelos morros que subi, pelos frios e calores que já
passei. Pelas cidades e pelos países que conheci, obrigado, Geologia!
Você já me levou ao fundo da Amazônia, às veredas do
cerrado, às grotas das araucárias, aos píncaros da Serra do Mar! Graças a você conheci
as fraldas dos Andes, o altiplano do México, os montes de Sichuan!
Por tua causa, também conheci, Geologia, lugares no fim do
mundo, lixões e lugares imundos, grotões que se quer esquecer. Obrigado,
Geologia, por me dar o de bom e do pior, meu alento e meu sustento, meu caminho
pelo mundo!
Obrigado, Geologia, pelos amigos que fiz e farei, espalhados
por todos os cantos! Amigos com quem já compartilhei o fácil e o difícil, barracas
no meio do mato, uma casa no fim do mundo, uma fogueira no meio da noite, um
gole d´água no fim da trilha, uma cerveja a beira mar.
Obrigado Geologia, por me fazer conhecer tanta gente, tantos
mestres, minha medida das coisas, meu sentimento mais fundo!
Obrigado, Geologia, por fazer eu me sentir pequeno, pequeno
ser, pequeno instante, na grande história do mundo....
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Nem aqui nem na China,
Sonhos de guri
domingo, 24 de janeiro de 2016
AI DE TI, ANTONINA!!
Palavra do Senhor no Evangelho de São Maneco Cego:
Ai de ti, Antonina!
Ai de ti, pobre e velha cidade! Ai de ti, cidade mesquinha e
miserável, com suas ruas cheirando a mijo, suas casas cheirando a mofo,
castigada pelo sol e pelos ventos e maltratada pelas chuvas e pelas marés!
Ai de tuas ruas cheias de mato, de teus muros caídos, de tuas
casas sem cuidado! Ai de teus miseráveis
quintais, tanto os cheios de trastes, velharias e sujeira, quanto os limpinhos
e recendendo a flores. Ai de tua baia assoreada, cheia de mato e sujeira!
Ai de ti e de teus filhos, perdidos em suas ruas, perdidos
nas casas, perdidos no mundo imenso além da Serra e além do Mar!
Mandei marés de lua, mas vós não vos importunastes! Mandei marés
de sete anos, mas ninguém deu a mínima! Mandei assorear a baia, para enchê-la
de entulhos e lodo, mas continuastes no pecado!
Enviei temporais e chuvas imensas que fizessem derreter teus
morros e destruir suas casas, mas nada mudou vossa conduta, Antonina!
Ai te ti, Antonina!
Ai de teus filhos que se perderam no mar: enfrentando as águas salobras de nossa baia, ou enfrentando os mares bravios para além da
barra de Superagui! Ai dos teus filhos
que se perderam além da Serra: enfrentando o frio, o vento e as outras cidades,
tão mais amistosas e hospitaleiras que a nossa! Ai dos bagrinhos que
enfrentaram o barro e o pó das estradas, dos que trabalharam em grandes
plantações, em imensas fábricas e escuras minas! Ai também dos que trabalharam
em escritórios ou nas mil vezes malditas profissões liberais! Ai dos que
encontraram colegas, amigos e amores para longe do Morro do Bom Brinquedo ou da
Ponta da Pita! Ai dos que se enganaram achando que este mundo além da Serra era
melhor, ou mais injusto, ou a última chance!
Ai também dos que permaneceram caminhando em tuas ruas ou
vivendo em tuas casas, Antonina! Ai dos que tentaram ganhar dinheiro e dos que
não mexeram uma palha. Ai dos que viveram das heranças, dos que roubaram as
pensões dos avós ou dos que trabalharam honestamente! Ai
de teus profissionais liberais, teus comerciantes
e teus funcionários públicos! Ai, sobretudo, de teus trabalhadores, que moram
na Pita ou Batel ou Tucunduva ou Praia dos Polacos ou Portinho, e que em vão
carpiram quintais, fizeram faxina, carregaram caminhões e cuidaram de crianças
e velhos!
Ai também dos
trabalhadores que no passado carregaram navios, cavaram estradas e construíram
pontes, e tentaram sinceramente, construir uma cidade no fundo daquela infecta
baia. Ai das mulheres que, por gerações, pariram filhos e alimentaram suas
preguiçosas famílias, que costuraram roupas e fizeram rendas de bilros e
fizeram bolos e doces para vender fora. Ai das mulheres que lavaram roupa pra
fora, ai das cozinheiras, copeiras e ai das pobres criadas, abusadas por todos!
Ai de teus políticos, teus sindicalistas, teus policiais, teus
juízes!! Ai de teus padres e teus pastores! Ai de teus jornalistas e
blogueiros! Ai dos teus haters, que pensam estar a salvo sob o anonimato da
internet! Ai dos deputados, governadores, senadores, e de todos os que vêm aqui
pedir voto! Ai dos que usam a inocência das pessoas, dos que compram voto, dos
que te corrompem e te roubam, pobre cidade!
Ai de ti porque você se deixa roubar, Antonina!! Não és mais
pobre de espírito do que aqueles te expoliam, falsa e hipócrita cidade!! Você
não é melhor nem pior que Goianésia, que Anicuns, que Laranjeiras do Sul. Ai
dos que querem teu mal, Antonina, mas presta atenção! Ai dos que querem teu
bem!! Ai daqueles que querem te salvar de alguém, de alguma coisa, de qualquer
coisa, deles mesmos!!
Ai de ti, Antonina!!
Ai de ti, cidade tão cheia de pecados! Eu te amaldiçoo a sofrer
neste mundo sem remissão a sorte daqueles que existem só por existir!
Pois que é chegada a hora da remissão sem salvação, da
salvação com culpa eterna. Pois que te condeno a existir, Antonina, enquanto o
mar ou os ventos ou as chuvas assim quiserem. Não te destruirei como a Babilônia,
afogada em pecados! Não farei as ondas destruírem o mercado, ou os ventos
derrubarem a igreja da Colina. Também não espalharei o terror e a morte no
Jequiti, no Cabral, na Caixa D´Água e no Quilometro 4, Antonina!
Mas te condenarei a coisa pior: existir sem brilho, sem alegria, sem
pompa nem majestade, pobre cidade!
Teus carnavais não brilharão mais, teus cantores e poetas
não cantarão mais as suas glórias, cidade amaldiçoada! Teus pintores não vão
mais por as suas belas tardes no papel, e tua historia vai se apagar sem que
dela conhecêsseis a metade, Antonina! Tuas ruas se cobrirão de mato e ninguém terá
forças para carpi-lo! Teus bares e restaurantes ficarão as moscas e tuas
igrejas vazias!
Haverá um dia em que, perdida no marasmo e na mediocridade, ninguém
mais se lembrará de ti, Antonina! Neste dia os haters de internet aparecerão finalmente
nas ruas da cidade, babando e falando suas frases desconexas e cheias de rancor,
mas não haverá ninguém para escuta-los!
Não haverá o rio do Nunes, não haverá a Caçarola do Joca, ou
a Igreja do Bom Jesus. Não haverá mais desfile de escandalosas nem procissão de
Nossa Senhora Do Pilar. Ninguém vai querer saber de suas qualidades, velha cidade, ou dará risadas com os não poucos defeitos dos bagrinhos seus filhos. Nunca foste e jamais será a Capital da Música, pois não haverá ninguém para cantar seus hinos!
Por que tua hora chegou, Antonina! Não há mais espaço para
ti na terra! Te dei Mar, Arte e Amor, mas os desperdiçaste! Que caia sobre ti a minha ira!
E assim falou o Senhor sobre a cidade de Antonina.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
TREINADORES DE KAMIKAZES
Neste ano, foram comemorados os centenários de diversas efemérides
macabras. Na Europa, 1915 foi o ano da guerra de trincheiras, do impasse, do desperdício
inútil de vidas. No Brasil foi o período mais sangrento da repressão na guerra
civil do Contestado, onde mais de dez mil pessoas morreram de doença, de fome e
de tiro.
Os acontecimentos recentes não nos dão muito motivo de
comemoração. O Estado islâmico se impõe e faz vitimas inocentes na Oriente
Médio, na Europa e na África. A razão parece ter se perdido em algum lugar do
11eme arrondissement de Paris, numa rua de Bagdá ou num hotel em Tombuctu.
Jovens são aliciados para virarem mártires de causas no mínimo questionáveis.
Aqui no Brasil a única diferença é que ainda não nos
metralhamos publicamente. Mas a indiferença pelo todo e a vontade de vencer a
qualquer custo para manter o poder (ou os cargos) a estão minando a Republica. Estamos,
como o mundo, num momento de polarização e de enfrentamento muito grandes.
Estes tempo passei por uma situação em que uma pessoa, para
me ferir, tomou uma atitude meio suicida, quase kamikaze de se portar. Eu sei
que isso sempre tem consequências. Na juventude, fui um kamikaze numa
determinada situação política. Claro que minha causa era “importante”, como são
todas as causas pelas quais morrem os kamikazes. Mas meu “sacrifício” de nada
valeu à “causa” e eu ainda passei (e ainda passo) sofrendo com as consequências
de minha atitude. Eu sei, pelo menos figurativamente, o que é ser um kamikaze.
Mas eu comecei a pensar para além da situação do kamikaze:
eu comecei a pensar em quem treina um kamikaze. Quem é essa pessoa? Ela entra
em combate? Boa parte das vezes não. Mas instiga, fustiga, cria no seu pupilo
uma situação emocional de obediência cega. Partir para a morte, e ao mesmo
tempo infligir a maior baixa possível ao inimigo. É a estratégia dos que não
tem força, e estão desesperados. Eu vou, mas levo um monte comigo. Parece filme
de guerra, mas não, é a vida real. Tem consequências.
Quem treina um kamikaze também acha que a causa é justa. Que
tem deus ou a historia a seu lado. Cria nos potenciais suicidas um estado
mental de euforia com questões como honra, martírio, recompensas no além, no
futuro, no reconhecimento dos que ficam.
Quem treina um kamikaze é um covarde, ponto. Alguém que acha
que o seu deus, a sua causa ou o seu ego são tão importantes que vale o sacrifício
de uma carreira, ou pior, de uma vida? O século XX nos deu muitos exemplos
destes lideres carismáticos que fazem seu povo passar por imensos sacrifícios para....nada.
Para mais sacrifício, para a morte, para absolutamente nada.
Existem os que se acham donos de um saber excepcional, de
uma verdade absoluta. Por esse saber e essa verdade, não hesitam em colocar a
vida de outros em risco. Covardes, fazem seu joguinho sujo de mandar meninos e
meninas alegres ao matadouro. Alguns destes treinadores de kamikazes acham que
são novos Moisés conduzindo seu povo eleito pelo deserto. Mas não passam de
impostores como Jim Jones, o tal califa Baghdadi e outros despotazinhos medíocres
e de ego grande que encontramos por ai.
(andei meio afastado do blog devido a um trabalho que me consumiu bastante; mas, assim que a poeira baixar, voltaremos a blogar como D´antes)
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Historias de Minha Cabeça
quinta-feira, 20 de março de 2014
HISTORIAS DE MINHA CABEÇA
![]() |
| o personagem da cabeça voadora do filme "as aventuras do Barão de Munchausen", do Monty Pithon |
Hoje na Austrália, ou seja, amanhã aqui (é isso mesmo?) meu
filho surge do nada do facebook pra cobrar que eu escreva historias da minha
cabeça no blog. Histórias de minha cabeça? Explico: quando eles eram crianças,
e isso não faz muito tempo (entre dez e quinze anos atrás) eles viviam me
pedindo pra contar historias na hora de dormir. No começo, eram umas historias
mais tradicionais, aquelas que fazem parte do inconsciente coletivo:
chapeuzinho vermelho, cinderela, Pedro e o Lobo, e outras quetais. Certas épocas
tinha que ser exatamente a mesma história toda santa noite. Quem é pai sabe da
manha.
Depois, eu tinha outras – tinha uns contos do Câmara Cascudo,
umas historias do Pedro Malazarte e coisas do gênero. Depois, ainda contei umas
que escutava quando criança que me contava meu tio Edilson Leal – parte câmara cascudo,
pare folclore baiano e outras que ele mesmo inventava, e que nós - eu minhas
irmãs e meus primos - adorávamos ouvir quando íamos pra casa dele nas férias.
Chegou um ponto, porem, que a fonte secou: como não
secar? Não dá, as sinapses são as mesmas,
não tem jeito mais! Aí eu um dia comecei
a inventar historias, mas no dia seguinte eu não me lembrava. Qual? Aquela, da
tua cabeça, me pediu um dia a Júlia.
Lembrei então de um filme do Monty Pithon, acho que foi “a
Maravilhosa Historia do Barão de Munchhausen”, em que tinha um personagem que
era só uma cabeça. Pronto. Contei a eles que a minha cabeça tinha se
desprendido do corpo – eu sou meio avoado mesmo – e ficou andando por ai. Eles me
olharam, desconfiados – o pai tá nos engrupindo. “Sim”, respondi, “vocês não
queriam a história da minha cabeça?”.
E assim foi. Um dia, minha cabeça chegava até a Lua, onde
meu pai sempre dizia que ela estava mesmo. Noutro dia, meu crânio voador descia
no fundo do oceano pra conversar com o Peixinho Vermelho, um Nemo do tempo
antigo, personagem de meu querido Edilson Leal. No outro, estava na mão de
gigantes que jogavam pingue pongue comigo. Teve alguns dias em que a cabeça
sonhou que ela era só uma cabeça que sonhava que era uma cabeça que sonhava... ”Pai,
deixa de enganar a gente e conta a historia!”, pediam Julia e Pedro, zangados
com a embromação. Historia pra dormir não é pra amadores...
Agora, uma cobrança via facebook – porque você não conta a
historia de sua cabeça? Bem que tentei responder: Porque tem o Departamento,
tem os alunos, tem as aulas... ”queremos historia de sua cabeça!” continuaram
me pedindo os dois, já bem marmanjinhos, no chat do tal do face. E ai? Nem sei. Achei que estava guardando historias de minha
cabeça pra próxima geração que está vindo por aí. Nem sei se ainda tenho sinapses
para tanto. Tem dias que eu só quero deitar no sofá e ficar ali parado, vendo
as moscas voarem pra lá e pra cá, sem fazer nada, sem pensar, sem tugir nem
mugir...
Julia e Pedro: não prometo nada. Minha cabeça vai pensar. Nos
tempos que correm já é muita coisa.
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