quarta-feira, 4 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 82: COMO UMA ONDA NO MAR

O vapor trazendo os escoteiros atravessa na madrugada de 3 para 4 de março de 1942 uma grande tempestade em alto mar. Os escoteiros passam por situações de perigo real. 


(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 4 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão voltando pra casa. Nesta madrugada, o barco enfrenta uma grande tempestade... )

Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o vapor que levava os escoteiros para sua viagem de volta enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora ver o espetáculo. Isso quase lhe custa a vida. 

Uma forte onda invadiu o convés e acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada. Num instante, ele entendeu o perigo que corria, de ser atirado ao mar pelos próximos vagalhões de água salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha. Entre as coisas que lhe passaram pela cabeça nesse rápido instante foi o forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família. 

As ondas prosseguiam batendo forte no convés, e Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos. Vinham ondas mais fortes e ondas mais fracas, até que tomou coragem e, entre uma onda e outra, saltou para o convés e voltou correndo a seu camarote. 

Estava morrendo de medo, encharcado e gelado. Esperou um tempo para recuperar os batimentos cardíacos. Depois tomou um banho, caiu na cama e, para sua sorte, dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio. 

Ele e seus colegas escoteiros de Antonia, mais seu colega Gastão Batinga, escoteiro sergipano que seguia para Curitiba, haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  

Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto. 

Mas tudo isso já era história. 

Ao cair da tarde do dia 4 de março de 1942, depois de passar ao largo de Cananeia e entrar no canal da Ilha do Mel, o vapor que conduzia os cinco escoteiros estava chegando ao atracadouro do porto de Paranaguá. 

O fato de o navio chegar até ali e não ir até Antonina era simplesmente o fato causador da viagem dos rapazes, fazia três meses quase: o fechamento da Companhia Costeira pelo Governo Federal, que fazia a rota comercial até Antonina. 

A carta que os rapazes haviam entregado explicava ao Ditador as razões da cidade para ter a volta dos navios da Costeira de volta. Antonina era o caminho mais curto para Curitiba, servido diretamente pela estrada da Graciosa. Era o atracadouro mais ocidental da baia de Paranaguá, com obvias vantagens em termos de distância e, consequentemente, em fretes.

Os navios da Costeira, que haviam sido recentemente estatizados pelo Governo, eram o grande elo que unia Antonina na rede do comercio de cabotagem do Brasil. Sem ele, o comercio perdia todas as suas vantagens e a cidade perderia muito em importância e em dinheiro. 

Na carta, a cidade pedia que a costeira pudesse voltar, e apelava para os mais nobres sentimentos do ditador. 

Getúlio fez o que lhe convinha: posou para fotos com os rapazes, ressalvou-lhes a coragem. Fez com que a Costeira voltasse a tocar, de maneira tímida, o atracadouro antoninense. Mas era pouco. 

Quando o ditador caiu, em 1945, a Costeira desapareceu tão irremediavelmente que nenhuma viagem a pé poderia fazê-la voltar. A viagem dos rapazes que agora terminava como um grande sucesso, na verdade havia sido um movimento de grande coragem, mas que duraria somente mais os anos da guerra. 

Mas agora não era hora de pensar nisso. Os rapazes estavam alegres e entusiasmados com a chegada. Não aguentavam de saudades. Era hora de pensar na volta a suas casas e á sua cidade. Depois de tantos percalços, como eles iriam ser recebidos pelos seus conterrâneos?

terça-feira, 3 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 81: PASSEANDO EM SANTOS


Os famosos bondes de Santos, nos quais os escoteiros passearam em 3 de março de 1942
(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 3 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão voltando pra casa. Quando o navio atraca em Santos, eles descem para conhecer a cidade. O que será que vão encontrar? )

Estava já escuro, mas mal o Vapor atracou nas docas do porto de Santos Lydio saltou para terra. Queria conhecer a cidade. Ficou muito impressionado com o movimento comercial do centro, mesmo àquela hora da noite. Visitou as praças Rui Barbosa e José Bonifácio, que gostou muito. Mas ficou mesmo impressionado com os bondes da cidade. 

Os bondes tinham motorneiros vestidos em impecáveis ternos brancos, e usavam luvas. Chamou atenção os vastos bigodes que quase todos eles apresentavam. Só depois, mais tarde, se deu conta que eram quase todos portugueses. Deixando para trás os bondes, e andando um pouco mais, Lydio viu um circo. 

Era o circo Piolom. Com sua tenda armada num terreno baldio das proximidades, estava bem na hora de mais um grande espetáculo. Provavelmente, o maior espetáculo da Terra. A vontade que Lydio sentiu de assistir ao espetáculo daquela noite só não foi maior do que o medo de perder o navio. 

Ele deixou pra tras as alegrias do circo e se pÔs a andar pela cidade, de volta ao cais. Com o coração apertado de medo de parder o navio ele entrou de volta pelo armazém 12. Mais calmo, sabendo agora que tinha ainda muito tempo, ele  andou pelo cais apreciando os navios ali ancorados.  

Estavam ali ancorados diversos navios americanos e ingleses, os quais mostravam, na proa e na popa, canhões e metralhadoras antiaéreas. O tempo de guerra e o encontro com submarinos e belonaves alemãs não era uma ameaça distante, como já vimos. 

Os navios brasileiros que Lydio encontrou ali atracados também estavam armados. Mais do que os navios de guerra, entretanto, os cassinos flutuantes que também estavam ancorados ali também chamaram a sua atenção. 

Havia muita gente e muita luz. De lá de dentro, muita música também ressoava. No interior do navio-cassino, imagina, Lydio, jogava-se e dançava-se freneticamente. A maioria dos frequentadores, segundo nota, eram estrangeiros. 

No próprio vapor em que viera, o carteado também corria solto no convés. O clima de festa dos navios ressoou intenso. No entanto, tinha que voltar ao seu navio. De volta, correu ao seu camarote e dormiu sob o embalo das ondas. 

Pela manhã, ao acordar, os rapazes viram o movimento intenso do porto, com seus guindastes trabalhando freneticamente tirando e colocando cargas destinadas a todos os lugares do brasil e do mundo. Após o café, saíram para conhecer a cidade, agora de dia. 

Após visitarem um conhecido de Antonina que estava morando em Santos, os rapazes andaram pelo centro e passearam pelas praias de Gonzaga e José Menino. 

Passaram de bonde pelo estádio de Vila Belmiro onde, mal sabiam eles, surgiria, dezesseis anos depois, a maior lenda do futebol mundial e um dos maiores times de futebol já vistos. Mas isto é outra história. Na cidade, mais do que o futebol, o que mais chamou a atenção dos rapazes foram os canais. 

Iniciados em 1907 pelo engenheiro Saturnino de Brito, os canais eram uma grande inovação higienista e urbanística, drenando os terrenos alagadiços da Ilha e controlando as águas pluviais. Contribuíram para o controle de doenças e induziram a ocupação urbana da cidade durante o século XX. O mais novo dos canais só seria terminado em 1968. 

Em 1942, os canais de Santos já eram uma obra de chamar a atenção dos jovens escoteiros. Lydio também notou os morros de Santos, observando lá em cima, no morro, a mancha branca da igreja de N.S. de Montserrat. 

Alguns anos antes, em 1928, um grande desmoronamento de terra nas encostas do morro de Montserrat havia custado a vida de centenas de pessoas. pelos proximos trinta anos, estes foi um grande problema para a cidade de Santos. 

A ocupação dos moros estava sendo feita com um preço em vidas humanas. Só em fins dos anos 90, com a implantação de sistemas integrados de Gestão é que as mortes dimiuiram, e fizeram da Defesa Civil de Santos modelo em todo o Brasil. 

Entretanto, estamos em março de 1942. os rapazes, depois de meses longe de casa, estavam esperando pra voltar. Era hora de voltar ao navio. E assim o fizeram. 

Os rapazes ficaram no salão do navio, ouvindo as músicas tocadas ao piano pela jovem Doralice, gaúcha de Porto Alegre. De namorico com Milton Horibe, a gauchinha ficou por lá conversando alegremente com os rapazes, até que chegou a hora de se recolherem. 

Durante a madrugada, Lydio saiu ao convés para ver a tempestade que já citamos, a qual quase lhe custou a vida. Logo depois, o escoteiro voltou ao camarote e dormiu pesadamente. Quando acordou, havia perdido o café da manhã. No entanto, ao conversar no convés com um marujo, descobriu que estariam chegando em casa no começo daquela mesma noite.
Enfim, de volta pra casa!

segunda-feira, 2 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 80: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES



(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 2 de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, estão voltando pra casa. Em pleno mar, todos estão com medo do ataque de submarinos de guerra alemães. )

Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. 

Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam. 

Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Eram precauções importantes na época. 

Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.

O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. 

Com a situação de beligerância já no ar, os navios brasileiros começavam a ser abertamente alvo de submarinos alemães.  Havia pouco menos de uma semana, dois navios brasileiros, o “Olinda” e o Buarque” haviam sido afundados por submarinos alemães. Eram dois navios cargueiros com destino aos Estados Unidos. 

No caso do Olinda não houve mortes, mas o “Buarque a situação fio mais tensa. O navio afundou rapidamente e a tripulação e os passageiros passaram nos botes de salvamento dias no mar gelado do hemisfério norte. Um passageiro morreu nestas circunstâncias. 

Pouco tempo depois, em julho/agosto de 1942, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros. 

A comoção popular que isso causou foi grande. Seria o elemento que faltava para a declaração de guerra formal aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto. 

Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.

Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite. 

Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estaria atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

domingo, 1 de março de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 79: ADEUS, RIO DE JANEIRO!

Rio de Janeiro e a Baia de Guanabara, em março de 1942; os escoteiros de Antonina fazem suas despedidas
(Estamos no mês de março de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 1º de março de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, iniciam sua viagem de volta para a terrinha. Em tempos de guerra, que perigo eles vão encontrar?)

Os rapazes acordaram cedo naquele dia 1º de março. Aquele seria o dia da partida deles da capital federal rumo a Antonina. A aventura estava chegando ao fim. 

No entanto, eles não sabiam nada sobre a viagem. Não sabiam o horário, não sabiam o cais, não sabiam sequer o nome da embarcação. Essa era uma das precauções mais comuns para aqueles tempos de guerra.
O ano de 1942 ia ser um dos anos mais trágicos da marinha mercante brasileira. Desde o início do conflito, várias embarcações brasileiras sofreram restrições durante a guerra. Alguns barcos haviam sido abordados por belonaves britânicas, e vários navios brasileiros procedentes da Alemanha ficaram retidos em portos ingleses.
No entanto, desde o ano anterior, os navios mercantes brasileiros eram cada vez mais alvo fácil para os submarinos alemães. Segundo Lydio nos conta, a radio e os jornais frequentemente anunciavam notícias alarmantes sobre torpedeamento de navios mesmo próximos à costa brasileira. Mas o pior ainda estaria por vir.
De qualquer forma, somente as sete horas da manhã o Dr João Ribeiro chegou ao colégio Militar para pegar os rapazes. Vinha no grande carro negro do General Heitor Borges. E eles rumaram direto para o cais do porto.
As nove horas da manhã o navio finalmente atracou no cais. Tinha muita gente para embarcar, carregando muitas bagagens. Isso durou ainda um tempo, e só as dez da manhã o navio estava pronto. Levantou ferros e foi se afastando do cais, no início vagarosamente, depois com mais força e velocidade.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João Ribeiro, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Ele foi o principal elo da UEB e do general Borges com os rapazes. Além disso, foi ele que “quebrou os galhos” e resolveu coisas difíceis, quando eles ainda estavam no albergue da Boa Vontade. Depois, Dr João ainda levou os rapazes a incontáveis passeios pela cidade, assim como os introduziu nos diferentes locais escoteiros da Capital.
Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida no cais do Porto. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa. Enquanto via Dr João acenando para eles do cais, em meio àquela paisagem absolutamente deslumbrante, Lydio e os demais rapazes acenaram com as mãos e derramavam suas lagrimas as escondidas.
Já no navio, ao singrar as águas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. Eles passaram pelos fortes de Vilegaigaignon, de São João e da Laje. A fortaleza da laje, construída numa laje de pedra em meio a entrada da baia de Guanabara, foi a que mais impressionou os rapazes.
Quando o barco passava em frente a pedra do arpoador, começou a tocar uma sineta. Era o convite dos passageiros para o almoço. A refeição na primeira classe, onde eles estavam, constou de sopa de lentilhas com legumes.
A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar. No restaurante do navio eles encontraram dois conhecidos. Os irmãos Dirceu e Didio Viana, de Paranaguá, estavam ali também. Eles estavam voltando de uma grande viagem por diversas cidades litorâneas, e agora voltavam à terrinha.
Já em alto mar, o navio começou a jogar muito. As ondas chegavam a mais de três metros de altura. O balanço era tanto que muitos dos passageiros começaram a enjoar. Os rapazes, para se manter em movimento, foram conhecer o navio.
Inicialmente, eles foram até a cabine de comando, onde conversaram com o comandante e com os pilotos. Eles até mostraram alguns equipamentos para os rapazes, maravilhados. Depois, eles foram até a casa de máquinas, pra ver como funcionava toda aquela maquinaria.
Lydio , Milton e Canário ficaram num camarote. Beto, Manduca e o colega escoteiro Gastão, que viajava com eles, ficaram num outro. Procuraram dormir, o que fizeram com algum sucesso, apesar do balanço.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTERIOS 78: UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA


à esquerda, o escoteiro Caio Martins (1923-1938); a esquerda, a estatua em sua homenagem, erigida em setembro de 1941, e visitada pelos escoteiros antoninenses em 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 28 de fevereiro de 1942, Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio, em meio às despedidas da Cidade Maravilhosa, vão a Niteroi conhecer a estatua de Caio Martins. Quem foi ele?)

Amanheceu com muito calor no Rio de Janeiro, naquele 28 de fevereiro de 1942. A temporada dos escoteiros antoninenses na cidade Maravilhosa, depois de 45 dias andando a pé 1200 quilômetros pra chegar lá, estava terminando. As passagens de navio para a volta já estavam compradas. 

Era o tempo de se despedir. Era o tempo de fazer um balanço de toda aquela aventura. Como fora possível viver tudo aquilo? Como eles avaliavam tudo por que haviam passado até aquele momento? E todo aquele Rio que passou nas vidas deles?  A cabeça dos rapazes estava fervendo mais que o calor da cidade. 

Lydio nos conta em seu diário que este foi um fevereiro que valeu por todos os fevereiros de sua vida: “mês de calor, mar e carnaval, mês de alegria, saúde e muitas amizades”. Quem poderia pedir mais?

Era um Rio que tinha passado pelas vidas deles todos...

Mas, faltava pouco tempo, e a cidade estava ali, para ser explorada.  os rapazes queriam mais. Eles pegaram as barcas e foram finalmente conhecer a bela Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. 

Lá, eles queriam conhecer o estádio Caio Martins, mas não conseguiram, estava fechado. Uma pena. Lydio nos conta que queria conhecer o estádio e ver a estatua de Caio Martins. Mas quem era Caio Martins? Por quê os escoteiros pegariam as barcas para ver sua estátua? 

Caio Vianna Martins (1923-1938) havia sido um escoteiro que sofre um grave desastre ferroviário. No meio das ferragens retorcidas, em meio aos gritos dos feridos, o jovem Caio sentiu que havia ferido gravemente as pernas. A confusão, a poeira e os gritos deixavam todos ao redor em choque ou em pânico. 

Mas este não foi o caso do jovem Caio. Quando os socorros chegaram, ele os recusou em nome dos feridos mais urgentes. Muito embora estivesse sofrendo dores terríveis, ele disse aos atendentes: “um escoteiro caminha pelas próprias pernas”. Enquanto os atendentes foram atrás dos outros feridos, Caio Martins, com grande esforço, seguiu andando com os colegas. Ele chegou a ir para o HOtel de Barbacena, onde estavam os escoteiros.  

No entanto, Caio havia perdido muito sangue. Apesar de seu esforço ter contribuído para que outros se salvassem, ele não teve melhor sorte, e acabou por falecer de hemoragia interna na Santa Casa de Barbacena. Um exemplo escoteiro de desprendimento e solidariedade. 

A estatua em sua homenagem, no bairro de Icaraí, em Niterói, havia sido inaugurada havia apenas seis meses, em setembro de 1941. Não foi à toa que os cinco rapazes, que haviam feito tanto esforço pessoal para chegar até ali em nome de sua cidade, se identificassem com o heroísmo do jovem Caio Martins. 

Eles caminharam pelas praças centrais de Niterói e passearam pelas ruas de comercio. 

Depois, Lydio, Manduca e Milton regressaram ao Cais Pharoux, na praça XV, onde desembarcaram. Ainda deram uma passeada pelas praças Marechal, Âncora, Tiradentes e Paris. 

Neste dia, eles tiraram muitas fotos automáticas, em cenários variados e feitas em cinco minutos. Lydio tirou três foto e se Milton uma meia dúzia, uma diferente da outra. Momentos felizes e divertidos de uma aventura que terminava bem.

Depois, os rapazes regressaram ao Colégio Militar. Lá, apresentaram as despedidas ao Comandante, Oscar de Araújo Fonseca. Depois do almoço, foram para Quintino, onde se despediram da família do chefe Francisco Pires. Canário ganhou do chefe Pires uma mochila de lona, novinha em folha.

Ainda foram na UEB, onde apresentaram as despedidas ao pessoal da união dos escoteiros, que os haviam recebido tão bem. 

E por último, foram a residência do general Heitor Borges. Lá agradeceram a tudo o que ele tinha feito pelos rapazes em sua estadia na Capital. Na hora da despedida, o general, galhofeiro, pediu para que não voltassem pra casa a pé, mas sim de outra maneira. Os rapazes riram e abraçaram o general. De lá, voltaram para o Colégio Militar, para arrumar a bagagem.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 77: LÁ NO ESTÁCIO



(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 27 de fevereiro de 1942, enquanto Beto, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), Milton e Lydio  passeiam de bonde pela Cidade Maravilhosa. Onde será que eles vão?)

O calor naquele dia era de fritar ovo no asfalto.

Parecia que não havia mais nada pra fazer no Rio de Janeiro. Agora, fazia quase um mês que eles haviam chegado à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cansados e no limite de suas forças. Um longo mês em que tanta coisa tinha acontecido com eles, onde eles haviam visto e feito quase de tudo. A missão estava cumprida. 

Entretanto, havia uma coisa que eles precisavam fazer: Os rapazes ainda tinham muitos passes de bonde pra gastar. Neste dia 27 de fevereiro, uma sexta feira, Lydio e Milton resolveram passear por mais algumas favelas. Milton estava querendo ir, mas estava receoso de ir sem companhia. 

Neste dia, Milton e Lydio visitaram o Morro do Cantagalo e depois foram ao grande bairro do Estácio. A região de Estácio de Sá, ou mais simplesmente o “Estácio”, é uma importante área do Rio de Janeiro. A antiga área de Mata Porcos, onde havia um quartel no início do século XIX, era agora um bairro afluente e importante. 

Nos inícios da República, a cidade foi objeto de diversas políticas higienistas, que causaram imensos transtornos para a população mais pobre. Durante a política de “Bota-Abaixo” do prefeito Pereira Passos, as populações expulsas das imediações de Mata-Porcos pela terrível política foram se localizar no vizinho morro de São Carlos. São Carlos foi também um berço de muitos consagrados compositores cariocas, como Luiz Melodia, entre outros. 

Também no Estácio é que surgiu a primeira escola de samba da cidade a Deixa Falar. Era liderada por uma lenda do Samba, o compositor Ismael Silva. Dono de um senso lírico apurado e frequentado as rodas de malandro da região, Ismael foi um dos muitos responsáveis pelo surgimento do samba moderno, nos anos entre guerras. 

Mas tinha muito passe pra gastar. Milton e Lydio também estiveram nos morros do Salgueiro e Portela. Desta vez foi diferente do dia anterior, quando Lydio sentiu-se pouco à vontade no Morro da Mangueira. Naquele dia, contando com a presença de Milton, o sentimento de insegurança foi quase inexistente. 

Entretanto, Lydio atribuiu a relativa segurança que sentiu à farda. Afinal, os dois passeavam fardados de escoteiro. Como não foram molestados, Lydio entendeu que a população respeitava muito a farda escoteira. 

Milton, que era um novato em favelas, comentou que ficou assustado com o que viu. “Como pode aquele povo viver daquele jeito?”. É a pergunta mais importante do Brasil até hoje, para a qual a sociedade anda em busca de solução . 

Talvez saibamos a resposta para a pergunta de Milton Oribe quando o morro descer e não for carnaval. Quem sabe?

Os dois escoteiros tinham mais o que fazer. Aquele era o último dia de Rio, e eles tinham que aproveitar. Passaram praticamente todo o dia andando de bonde, de norte a Sul, de leste a Oeste da cidade. Já com os olhos de saudade, despediram-se da Cidade maravilhosa. 

Não sabemos se eles terminaram todos os passes que tinham. Sabemos que eles tentaram sinceramente acabar com eles. Mas uma coisa ainda os incomodava. 

Enquanto andavam feito loucos de bonde pela cidade, Lydio e Milton lamentaram que percorriam a cidade sozinhos. Manduca, Canário e Chefe Beto não participavam destas aventuras. Cada um do seu jeito, cada um por seu motivo, acabavam ficando enfurnados no Colégio Militar. 


Seria saudade de casa? Seria a ansiedade com a volta, que ocorreria em poucos dias? Toda aquela cidade a disposição deles, cidade com todas as belezas e contradições possíveis estava ali, aos olhos deles. Por que será que não aproveitavam?


Milton e Lydio pegaram todos os bondes que deu. Depois, voltaram ao Colegio Militar para compartilhar suas aventuras com os colegas. Agora, nos dias que faltavam, eles tinham muita gente pra se despedir.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 76: NA SALA DE RECEPÇÃO



A Estação primeira de Mangueira em 1937, cinco anos antes da passagem dos escoteiros antoninenses pelo Rio. 
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 26 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), já sem muito que fazer, passeiam pela Cidade Maravilhosa. Onde será que eles vão?)

O dia 26 de fevereiro, uma quinta feira de muito calor, foi um dia de folga para os rapazes. Afinal, a programação oficial havia acabado. Não havia mais museus e estatuas para visitar. O Carnaval havia acabado, e todos estavam retomando suas atividades. 

A UEB e a Federação dos escoteiros estavam preocupados com suas rotinas e afazeres. As passagens de volta em navio e ainda por cima de primeira classe, já estava comprada. Sobrava, então, pouca coisa para os rapazes fazerem.

Neste dia de manhã eles aproveitaram para lavar os uniformes. Como eles usavam cotidianamente os uniformes, eles tinham que ser lavadas periodicamente, ou poderiam receber mais alguma bronca do general. Mas foi só. 

Eles também estavam cansados cada um dos outros. Ela primeira vez, eles resolveram fazer programas separados. Depois de dois meses seguidos olhando um para a cara do outro, já estavam cansados de tanta união e cumplicidade. De tarde, cada um foi para um lado. 

Lydio foi conhecer as favelas. Essa era a grande novidade do Rio, conhecer as favelas. Lydio explica que favelas são conglomerados de barracos, cobertos de zinco ou de lata e “equilibram-se nas encostas ou não” dos morros. As ruas são sem alinhamento, e a pobreza é geral. 

Mas – e há sempre um mas – as favelas também são os locais onde estão os músicos do Rio de Janeiro, bem como das cabrochas das escolas de samba. As favelas cariocas, ontem e hoje, são grandes dínamos de produção social e cultural do Brasil. Artistas, políticos, escritores, estudiosos, todos estavam curiosos para conhecer as favelas. Lydio era somente mais um deles. 

Naquela tarde calorenta, ele visitou o morro do Querosene e o Morro da Mangueira. O Morro da Mangueira é uma das mais tradicionais favelas do Rio. Sua ocupação começou a se dar ainda no tempo do Império. 

Naqueles anos de Estado Novo, a Mangueira era o território de uma das primeiras Escolas de Samba do Rio. Berço de grandes legendas do Samba, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, entre muitíssimos outros, o Morro da Mangueira é uma das maiores instituições brasileiras. A Sala de Recepção. 

No entanto, para Lydio, dar uma olhada no sagrado território do samba foi o bastante. As favelas são muito grandes, justificou ele em seu diário. Sim, elas eram grandes e continuaram a ser. Verdadeiras cidades dentro da cidade. 

Mas havia outra explicação: andando sozinho, ele não se sentia seguro. O jovem escoteiro, uniformizado e com cara de forasteiro, não se sentiu bem-vindo ali no território do samba, como se fosse um animal estranho. Sentiu o “olhar atravessado” das pessoas. 

De Noite, ele foi passear perto do Cine Astória, pra ver se descolava uma namorada. O Cine Astória, em Copacabana, era uma das mais finas atrações da cidade. Recém inaugurado, era o point da gurizada. Mas, nesta noite, deu com os burros n´água. Nenhuma carioquinha sentiu-se atraída por seu charme. 

De noite, de volta ao Colégio Militar, os rapazes ficaram trocando detalhes de suas aventuras pelo Rio. Cansados, foram tentar dormir naquele calorão. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 75: O ATAQUE DOS DISCOS VOADORES E UM SUMIÇO IMPORTANTE


Fotos do LA Times mostrando consequências da Batalha: ataque japonês ou de discos voadores? No Rio, os escoteiros antoninenses também estavam as voltas com um sumiço inexplicável...
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 25 de fevereiro de 1942, enquanto a cidade de Los Angeles está a volta com um suposto ataque de discos voadores, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) investigam um sumiço inexplicavel...)

Na quarta-feira, 25 de fevereiro de 1942, foi marcado pela incrível “Batalha de Los Angeles”. Um objeto não identificado, avistado nos céus da cidade californiana, fez com que grande pânico acometesse as pessoas. Houve grande alvoroço e pânico nas ruas. 

O exército americano tentou atingir o objeto com artilharia, mas não conseguiu. Como consequência, uma pessoa morreu atingida por estilhaços de bomba e duas por ataque cardíaco.

Temia-se por um ataque japonês ou, mais intrigante, um ataque de discos voadores. Até hoje, a batalha de Los Angeles é grande assunto de controvérsia. 

Neste mesmo dia,  no Colégio Militar do Rio de Janeiro, outro acontecimento inexplicável abalou a estadia dos rapazes na cidade Maravilhosa: O livro diário Oficial da excursão sumiu!

O livro diário oficial era um livro muito importante, onde estavam todas as anotações oficiais do Raid. Cada cidade em que eles passavam, uma autoridade assinava o livro ou carimbava. Ali estavam os carimbos de todas as repartições públicas federais estaduais e municipais, que atestavam o dia a e hora da passagem dos rapazes. Outros escreveram mensagens elogiosas ao raid e aos próprios rapazes. Era um documento muito importante. 

Além disso, nas páginas do livro havia muitas fotografias do raid. Apenas algumas poucas fotografias sobraram, algumas que estavam com Lydio e outras que estavam na máquina fotográfica de Milton. 

Milton, Lydio, Canário e Manduca acusaram o chefe Beto de negligência. Chefe Beto se defendeu dizendo que havia visto um escoteiro gaúcho folheando o livro. Podia ter ficado com o documento para si. O fato é que não tinha explicação. 

Os companheiros chegaram a pensar que o próprio chefe Beto havia ficado com o diário para se vingar do fato de não ter podido ir a Petrópolis entregar a mensagem ao presidente Vargas. Mas eram só pensamentos sombrio e sem cabimento. 

O fato é que os rapazes mais o colega Gastão ainda deram uma busca geral no prédio, mas nada foi encontrado. Uma pena..

Entretanto, o grande fato do dia foi mesmo a compra das passagens de navio. Feliz e satisfeito, o Dr João Ribeiro passou lá a tarde, e saiu com os rapazes para comprar as passagens. Agora, eles iam voltar por via marítima, e de primeira classe. Cada passagem custava dois contos e oitenta mil reis...uma pequena fortuna!

A aventura estava chegando ao fim. Será?

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 74: A VIUVA DO CAPITÃO


Festa na Igreja da Penha em Madureira, Rio de Janeiro, em 1940; Lydio esteve aqui em 1942 mas não encarou os 400 degraus... 

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 24 de fevereiro de 1942, enquanto Beto, Milton, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão descansando no Colegio Militar, Lydio faz uma visita emocionada a uma amiga da Familia.)

Na terça feira, 24 de fevereiro de 1942, Lydio se desgarrou de seus colegas, tinha algumas atividades sociais e familiares para cumprir. Além dos compromissos oficiais, ele tinha ainda uma incumbência de sua família em sua estada no Rio de Janeiro. 

Ele foi procurar dona Emília de Lima, viúva de João de Lima, ex-capitão do Navio Caxambu, do Lóide Brasileiro. João havia falecido em alto mar havia poucos anos, quando estava prestes a chegar no Rio. João e Emília eram amigos da família e Lydio tinha ordem de seus pais para visitá-la quando estivesse no Rio. 

Emília morava em Ramos, na rua General Câmara sem número. Era perto da praia de Ramos. Mas, como foi difícil de achar! Lydio ficou um tempo perambulando pelas casas todas iguais, sem saber se estava indo ou vindo. Pergunta aqui, pergunta ali, ele finalmente conseguiu achar a casa de Dona Emilia. 

Lydio, com a surpresa da visita, foi recebido com muita alegria e choro ao mesmo tempo. Não era pra menos. Emília ficou tão surpresa com a visita do filho de Nathalia, lá da distante Antonina, que quase não acreditou. 

Lydio tomou um cafezinho com ela, e apresentou as condolências da família. Muito contente, eles conversaram um pouquinho, e Lydio acabou por contar das aventuras que tinham trazido ele e seus companheiros ao Rio, o encontro com Getúlio e tudo o mais. Dona Emília, por seu lado, contou Lydio a história do seu João, o Capitão João Lima do Lóide. João sempre fora um marido distante comandando seus navios em viagens pela costa brasileira e mesmo pelo mundo. Agora, João de Emília estava distante para sempre. 

Para desanuviar e não perturbar o menino com suas tristezas, dona Emília quis saber de sua família. Perguntou de sua mãe e de seu padrasto. Soube que eles estavam bem, e ficou bem feliz com a lembrança e a visita. 

Quando saiu de lá, Lydio quis relaxar um pouquinho. Dali, com seus muitos passes, ele foi até Bonsucesso. Lá ele queria ver o simpático time da Leopoldina, que tanto trabalho dava aos times da Zona Sul. 

De lá, ele foi à Penha. Ele foi pedir à padroeira para lhe ajudar, mas não teve coragem de subir os 400 degraus cavados na rocha. Apesar de devoto, ele não estava muito pra penitencias. O que ele diz é que o espetáculo da Igreja lá no alto do morro era muito bonito. Será que ele lembrou de outra igreja, em cima de uma colina?

Ao voltar para o Colégio Militar, os colegas estavam preocupados, pois havia demorado muito. Ele explicou o que tinha feito. E os cinco foram encher a barriga no rancho do Colégio Militar. 

À noite, Lydio foi dar uma voltinha ao redor do Colégio Militar, para ver se encontrava sua namorada. Mas não teve sucesso. Ele demorou muito, e a sua “pequena” não quis esperar. A fila andou...

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 73: LOURIVAL FONTES E A FOTO ICÔNICA


De terno branco ao centro da foto o Dr Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda, o famigerado DIP; no dia seguinte ele teria uma reunião exclusiva com os escoteiros antoninenses, quando lhes entregou a icônica foto da entrega da mensagem a Getúlio Vargas

(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 23 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) fazem nova visita ao Departamento de IMprensa e Propaganda, o famigerado DIP.)

Na segunda feira, 23 de fevereiro de 1942, os cinco rapazes fizeram uma visita ao DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda. Já haviam estado lá na semana anterior, mas com toda a balburdia dos outros escoteiros. Agora eram só os cinco. 

O DIP era o temido Departamento de Censura do governo do Estado Novo. O DIP atuava firmemente na censura a jornais e rádios. O jornal Estado de São Paulo, por exemplo, ficou cerca de três anos com um fiscal do DIP em sua redação, para censurar as notícias que o governo não gostava. 

Além disso, o DIP produzia muitas pelas de propaganda, em geral louvando Getúlio Vargas. Estes livros contavam desde sua infância em São Borja, até episódios de sua juventude. Tudo engrandecendo Getúlio, e fazendo uma propaganda da moralidade requerida pelo Regime. Quando criança, era louvado por ser “bom estudante”, “bom companheiro”. Como líder, era o homem sábio, defensor da justiça e, pra ficar por aqui, “amigo maior” das crianças. 

Desde quando foi montado, em 1938, até a visita dos escoteiros, o DIP era ativo numa propaganda estilo nazifascista, imitando a propaganda de Hitler e Mussolini. Entretanto, com a guinada de Vargas a um apoio aos Estados Unidos na Guerra, o DIP iria mudar de cara. Seus tempos finais o Departamento foi um apoio firme ao esforço de guerra aliado, embora mantivesse a ferrenha censura internamente. 

Os rapazes se encontraram com o diretor, Dr Lourival Fontes, que conversou demoradamente com eles a respeito da aventura deles. Lourival Fontes era um jornalista sergipano, que se mostrou um notório defensor de doutrinas autoritárias. Foi ele que imprimiu a maior parte da estratégia de propaganda fascista do DIP que os rapazes agora visitavam. Em julho deste mesmo ano de 1942, por causa das mudanças na política Getulista em relação a guerra, Lourival Fontes pediu sua demissão. 

Nesta visita dos rapazes ao DIP, o Dr Lourival Fontes deu a eles diversas fotografias oficiais. Entre elas, a icônica foto da entrega da carta a Getúlio por Milton Oribe. Temos claro, portanto, que a viagem dos rapazes ao Rio também foi uma propaganda do Regime do Estado Novo. Também lhes passou vários livros didáticos. 

Depois, eles passaram pela Federação Carioca dos Escoteiros. Agora, eles queriam receber notícias dos amigos e familiares, mas também saber como é que eles voltariam. 

Da parte dos rapazes, tudo era especulação. Canário achava que eles deveriam voltar de avião. Sonhava com uma viagem em que pudesse ver tudo do alto. Já para Manduca, o melhor seria voltar de trem, pois eles poderiam conhecer outras cidades. Lydio achava que de navio seria o método melhor e mais rápido. Chefe Beto dizia que o melhor seria voltar num automóvel militar. Já imaginou entrar em Antonina num daqueles caminhões de choque?

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 72: O COLEGIO VAZIO

O navio Olinda, da Carbonífera Sulriograndense, afundado por submarinos alemães em fevereiro de 1942
(Estamos no mês de fevereiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, percorreram 1250 quilômetros numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 11 de fevereiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão no Colégio Militar vazio, com a partida dos demais grupos escoteiros.)

Naquele domingo, 22 de fevereiro de 1942, os cinco escoteiros já estavam há 23 dias no Rio. 23 dias de um clima “Senegalês”, segundo Lydio. Pra combater o calor, muito ventilador e muito banho de água fria. Em vez de café, só tomavam mate gelado. 

Lydio, pra afastar o tedio, ficava a rabiscar o diário, que andava bem atrasado. Chefe beto, por outro lado, ficava na cama, a ler um jornal sobre as últimas notícias da guerra na Europa. 

As notícias aquele dia não eram boas. Havia poucos dias, o vapor Olinda, pertencente à carbonífera Riograndense, havia sido afundado por um Uboat alemão perto da costa do cabo Hateras, na costa americana. Este havia sido o segundo navio de bandeira brasileira afundado somente naquela semana. Havia poucos dias, o navio Buarque, pertencendo ao Loide brasileiro, havia sido afundado na mesma região. 

Até aquele momento, três navios brasileiros haviam sido afundados pelos alemães. No jornal do Brasil daquele dia, o secretario de estado americano Summer Wellles havia anunciado que, para os países aliados dos Estados Unidos no continente americano, seria instituído um sistema de comboios. 

Por outro lado, o jornal alertava para notícias falsas sendo propagadas sobre ataque alemães ao Brasil. Citava um caso de que um alerta havia sido emitido pera Natal, e pedia mais atenção para evitar pânico exagerado. Em tempo de guerra, tempo de fake News. 

Toda esta situação preocupava muito todos os que tinham que ser transportados via marítima. Os navios viajavam com o casco pintado de cinza, e nem sempre com a bandeira de seu pais. Muitos alarmes falsos deixavam a população alarmada com a presença de submarinos ao longo da costa brasileira. 

Ainda não havia chegado julho/agosto de 1942, tempo da “alegre carnificina” dos Uboats alemães em plena costa brasileira, que haveria de custa mais de 2500 vidas de brasileiros. Mas os dados estavam jogados. 

Os escoteiros, entretanto, também tinham preocupações com viagens. Aquele dia também, estava marcado como o dia de retorno das delegações escoteiras a seus estados. Os gaúchos foram os primeiros. As 8 da manhã, a bordo do vapor Aratimbó, o mesmo que os havia trazido à Capital Federal, os levou de volta. Sem incidentes, diga-se de passagem.

As 16:30 horas foi a vez da delegação paulista, que voltou de trem. 

E o Colégio Militar começou a ficar grande demais, só para os cinco. 

Cinco não, seis. Agora fazia parte da turma o escoteiro Gastão Batinga, que regressaria com os rapazes ao Paraná, pois pertencera a Delegação Gaúcha e tinha solicitado permissão de seus superiores apara voltar com os rapazes. 

Gastão era alagoano, e residia em Santa Maria, no Rio Grade do Sul. Entretanto, agora ele estava se mudando para Curitiba, já tinha até feito a matrícula. 

Lydio comenta com pesar que nem sabia o que o colega iria estudar. Ele não disse, e eles não perguntaram. Gastão Batinga era um colega muito bem, alegre e atencioso, e foi um baita companheirão nestes últimos dias de viagem.