sexta-feira, 27 de maio de 2016

PRECISAMOS FALAR SOBRE ESTUPRO


O estupro é um assunto?

Estive pensando em quantos homens  leem o título de alguma notícia nos jornais e redes sobre este assunto e logo passam para a notícia seguinte: “isso não me diz respeito!”.

Até quando vamos agir assim?

Vivemos num país fundado sobre o estupro. Foi um país cujo avanço “civilizacional” se deu no estupro cotidiano de mulheres escravizadas e submetidas já fazem quinhentos anos. Um país onde os “homens bons” tinham o direito sobre suas esposas e pelas demais mulheres da casa. Aliás, a maior parte dos estupros acontece entre pessoas que se conhecem – no Brasil, seria 68% dos casos (ver aqui).
Somos um país onde o estupro por parte de parentes ocorre no cotidiano das famílias, mas que nunca vem à tona por repressão e vergonha. Ou o estupro se dá dentro do casamento, o estupro marital, ou o estupro como um “direito” do homem em relação à sua mulher. Tudo dentro de quatro paredes, tudo amparado pelos “costumes”. O que acontece em casa em casa deve ficar, não é assim que a gente pensa e diz? Quantos casos de estupro ficam assim impunes?
O estupro tem uma característica perversa: em geral, a culpa é da vítima. Ora a vitima bebeu demais , ora está com roupa provocativa, ora deu mole, ou deu bola, ou qualquer bobagem do tipo. São frases que tipificam mais quem as diz, como foi a frase infeliz (mais uma!) do Cantor Lobão (ver aqui). A culpa é da vítima. É a vitima que sente vergonha, é a vitima que tem que esconder. Por isso, tão poucas mulheres fazem queixa do estupro que sofreram.
Esta perversidade também se revela no estupro como castigo: um exército invasor estupra as mulheres das zonas invadidas. Nas guerras modernas, as mulheres capturadas nas zonas de conflito são convertidas em escravas sexuais, como foi na Bósnia, como atualmente é na Síria/Iraque com o ISIS. Não por acaso, durante a guerra civil na Líbia, Muammar Gadaffi, antes de ser morto foi estuprado pelos seus captores como símbolo de sua “desonra”.
Com isso chegamos à questão da “Cultura do Estupro”, como vem se referindo a imprensa em relação ao caso escandaloso que estamos vivendo (quem acaba de chegar de marte leia aqui). Embora nos horrorize, não podemos nos espantar com os comentários e a apologia do estupro feitas na web. É assim que nós homens somos ensinados a pensar. uma frase terrivelmente infeliz é a famosa "se o estupro é inevitável, relaxa e goza". Como se a infeliz vítima fosse compartilhar do prazer doente de quem a violenta. Assim é nossa sociedade. Um dos xingamentos mais sérios que nos fazemos não é por acaso um desonroso “vai te foder”?
Também não por acaso Jair Bolsonaro (um dos mais perversos cultores do estupro em nosso país), para humilhar a deputada Maria do Rosário numa discussão sobre Direitos Humanos, disse que ela não merecia sequer ser estuprada (aqui). Aliás, Nicolas Sarkozi disse no passado coisa semelhante de Ângela Merkel. No passado Paulo Maluf foi o autor da famosa "estupra, mas não mata". Houve, nos momentos mais sombrios dos atos contra a presidenta Dilma, por si mesmos extremamente sombrios, falas insinuando estupro.
Devemos mudar nossa cultura. Isso passa pelo respeito e valorização da mulher, de todas as mulheres (veja mais aqui). Não importa se é na índia, na Alemanha, na Síria, no Rio de Janeiro ou dentro de nossa casa. Nós homens temos que mudar esta cultura. Chega de pensar que isso é um assunto “de mulher”. Chega de dar as costas para o sofrimento de tanta gente. Chega para o acobertamento de ações criminosas e que gera tantas vitimas, tanta gente sofrendo e, pior -  sentindo uma vergonha e uma culpa que não são merecidas.
Se não o fizermos estaremos endossando com nossa silenciosa omissão mais esta violência.


Sim, o estupro é um assunto. E um crime. Deve ser discutido, combatido e condenado. Por todxs. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O TEMPORA! O MORES!


Registro da reunião que mudou o rumo da Educação no Brasil...
Como já dizia Cicero no Senado Romano – “Que tempos! Que costumes!”. A desfaçatez já nada teme, a sabedoria de nada vale. Vivemos realmente num tempo difícil em que as pessoas não têm mais pudor em exibir sua ignorância e preconceito para todos verem. Não há nada mais feio do que a ignorância que se acha, a ignorância sem espelho em casa. Pior, estas pessoas ainda declamam arrogantemente sua ignorância nas ruas nas conversas e nas redes sociais como se estivessem falando de uma pia e devota peregrinação a Jerusalém...  
Não bastam os ataques e as interpretações (demasiado livres, diga-se de passagem) sobre nossa situação institucional, ainda temos que ver o ministro golpista da educação receber  - quem? Alexandre Frota e o tal do Marcelo sei-lá-quem para discutir os rumos da educação brasileira (ver aqui).

Onde iremos parar, caras-pálidas?

É o cúmulo do escárnio. Um ministro – por mais golpista que fosse, o qual deveria estar cuidando das politicas da educação, que é um dos principais gargalos deste país, passa o tempo a tratar com arrivistas e sub-celebridades que estarão lá para dar suas “ideias” para ajudar  o pais que “eles” amam.  
Já tivemos ministros da educação abomináveis – Suplicy de Lacerda, Jarbas Passarinho, Ney Braga, o general Rubens Ludwig, só pra citar os do regime militar – pouco preocupados com educação de qualidade, com aumento no nível de cultura do país e outras causas de estado. O Brasil perdeu durante os anos 60 a chance de melhorar radicalmente a educação e aumentar o patamar de inteligência da nação como o fez com sucesso a ditadura sul-coreana, militar e de Direita como a nossa.
A nossa preocupação é sempre com o perigo da Senzala. Nossas “zelites” (aí incluída a classe média que “pensa” que é elite) morrem de medo da Senzala. “Educar pra que?”: era assim que falavam os coronéis do interior do Brasil para justificar que a massa permanecesse  iletrada. A massa trabalhadora, as mulheres em casa, ninguém deveria ter acesso a nada que cheirasse a educação.
Hoje, o mote é outro. As sub-celebridades que foram ao ministro levavam sua preocupação com a dita escola “partidária”. A preocupação é que as pessoas tenham uma educação que as torne mais criticas. Isso, segundo eles, seria “partidarizar” a educação. Ninguém está preocupado com melhorar o nível de nossa educação, com melhorar as condições dos professores, com melhorar os métodos de ensino. Não estamos nesta situação porque os governos e mesmo nosso amado povo não tem um real compromisso com a educação, que seja dita a verdade. Nossa educação está assim porque é “partidária”.
Vamos voltar então a estudar que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil por acaso, que a independência do Brasil foi feita porque um príncipe português gritou com a espada levantada à beira de um riacho nauseabundo. Eu aprendi, numa escola “não-partidária” que frequentei na minha infância, que os militares derrubaram um governo legitimamente eleito porque estavam salvando o Brasil....
Os arautos da Direita nas redes sociais adoram chamar os outros de “apedeuta” (consulte o google se você não sabe o significado). Lula seria o apedeuta dos apedeutas. Alias, escreva apedeuta no google e verá a ligação que os algoritmos fazem entre o nome “lula” e a palavra “apedeuta”.
(O que estas pessoas não falam e não querem falar que, por mais que se fale de Lula, ele jamais pode ser chamado de apedeuta. Chamar Lula de apedeuta é mais um dos muitos sintomas de preconceito social que temos, é a vingança dos que tem um carro na garagem contra um sertanejo que, contra todo o destino, venceu as barreiras de nossa sociedade de castas e teve por duas vezes o mérito de ser o presidente do país. Lula pode ser muitas coisas, mas burro com certeza ele não é. )
Acontece que muitas pessoas não são ignorantes porque querem. Muitas pessoas não tem acesso a um ensino de qualidade, e muitos sequer tiveram acesso ao ensino formal. Quantas vezes vemos exemplos de pessoas que, na velhice, vão para os bancos escolares para melhorar sua compreensão do mundo. A nossa sociedade de castas se revela no acesso que cada um tem ao ensino. Democratizar o acesso? Como? Estudar pra quê?, entoam nossos jovens de Direita, ecoando os coronéis de antanho. Pobres na universidade? Cotas?
Nenhum pais industrial moderno cresceu sem alavancagens sociais. Os Estados Unidos por anos tem sistemas de cotas raciais. Depois da segunda guerra mundial criou o “GI Bill”, um PROUNI para os soldados que vinham de vencer a segunda guerra. Sem um mínimo de alavancagem, ninguém sai de sua condição econômica e social. Não querer isso é ter o olhar no seu privilegio de classe, sem enxergar politicas mais abrangentes – de Estado – para melhorar a educação.
Com isso, voltamos ao “encontro” desta bela tarde de 25 de maio. Um ministro vinculado ao ensino pago e desclassificados preocupados com a “partidarização”. Cena que com certeza deixou o “Sensacionalista” e todos nós perplexos. Alexandre Frota é um desclassificado não porque ele foi ator “sério” que descambou para o pornô; a profissão de ator pornô pode ser digna para quem a exerce com dignidade. Alexandre Frota é a mais cabal demonstração de apedeuta que eu conheço. Ele não é um ator, é um lumpem. Alguém que teve acesso a um mínimo de educação e que trata da educação com desprezo. Trata o saber com escarnio. Quando foi a ultima vez que ele veio aproveitar de seu papel de sub-celebridade para falar sobre temas de educação?

 É este o dialogo que tem ocupado a educação brasileira. É esse o caminho que vamos trilhar.


Foi realmente pra isso que você bateu panelas e gritou “fora Querida”?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A COBRA-VIDRO E A DEMOCRACIA

Alguém já viu uma cobra-vidro? Segundo os biólogos, apesar do nome, trata-se de um lagarto. É um réptil carnívoro, que se alimenta de lagartas, lesmas e larvas. De hábitos diurnos, ela pode ser vista em campos e charcos. Os machos apresentam colorações esverdeadas e azuladas, enquanto as fêmeas possuem um risco localizado próximo ao dorso. Como a maioria dos lagartos, a cobra-vidro pode perder partes do corpo, que se regeneram. Assim, muitas vezes ela pode escapar dos predadores.
Certa vez, há muito tempo atrás, de manhã cedo,  eu estava indo para o colégio em Antonina, minha cidade natal. Na esquina da Rua Mestre Adriano com a Avenida Matarazzo – os antoninenses que me leem sabem direitinho onde é -  acabei me deparando com uma cobra-vidro. Assustado, acabei pisando nela, que se partiu em dois pedaços. Sai de lá meio orgulhoso do meu feito de enfrentar uma cobra, mas triste vendo aquele pobre animal se esvaindo na calçada. Não é uma lembrança da qual me orgulho.
Digo isso porque, nesta madrugada insone deste infame 17 de abril, acabei me lembrando deste episódio. Na verdade, a democracia é um bicho feio como a cobra-vidro. É desengonçada, terrível, aspecto feio e gosmento. Dá trabalho gostar dela. Quando atacada, às vezes ela expele parte do seu corpo para escapar dos agressores. E fica ali, frágil, escondida no capim, esperando se recuperar. Ou não.
O que foi feito neste dia foi uma operação desesperada. De alguns, pensando que se tratava de tirar um governo corrupto que fazia a vida de todos um inferno. De outro, porque com isso se livravam de punições inevitáveis que estão por vir. De outros ainda, porque o poder lhes cairia na mão sem ter que cabalar um só miserável voto popular.
Não condeno a maioria das pessoas que, de maneira apressada, achou que tirar a presidente Dilma seria como tirar um bode da sala, como conta a velha piada. Realmente, não dá pra defender o segundo governo Dilma. Foi uma sucessão de trapalhadas de um governo sitiado desde seu início.
O problema é a cobra – vidro, a pobre democracia brasileira. Ela é pequena, frágil, desengonçada. Este é seu maior período de estabilidade democrática em toda a nossa historia. Quando agredida, ela solta pedaços tenta sobreviver. Mas há um limite para esta sobrevivência.
Um processo de impeachment, com argumentos tão fracos é um processo muito, muito perigoso. Os argumentos eram tão fracos que os deputados preferiram falar em nome de Deus (em vão, como ensinam os catecismos!) do que explicar a seus eleitores que condenavam as pedaladas fiscais.
Condenar um governante por pedaladas fiscais, alias, é como expulsar um jogador por jogar com a camisa pra fora do calção. Não é a penalidade adequada. E deixa um precedente perigoso. Qualquer um pode ser impedido no futuro por procedimentos duvidosos, só na base do porque sim.
E, pior, estamos deixando de lutar contra a corrupção. Sim, a votação deste domingo vai referendar a impunidade de Eduardo Cunha e seus asseclas. Ele entrega Dilma, e seus pares o blindam de seus processos. Cadê a indignação, cadê as ruas cheias de indignação verde e amarela?
Ele deve estar morrendo de rir da cobra de vidro estrebuchando na sua frente, como um vilão de filme de sessão da tarde.


Infelizmente este processo, que ainda não terminou, ainda deixará muitas sequelas em nosso país....  

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O GRANDE DIA TINHA CHEGADO - parte 2

Página do jornal A Noite, de 20/fev/1942, mostrando fotos dos escoteiros com Getúlio Vargas. Como uma caricatura dele mesmo , GV trajava tern de linho branco e tinha sempre a mão seu havana. Ditadores são sempre simpáticos, difícil mesmo é a banalidade da democracia...

Getúlio Vargas veio para a solenidade vestido com um terno de linho branco, palheta, gravata borboleta e do seu inseparável charuto havana. Parece quase uma caricatura dele mesmo. Era um  clichê, paletó de linho branco e tudo, que vinha ali descendo a alameda do Palácio Rio Negro, acompanhado de dois majores aviadores, Cantalice e Rolim. O comandante Rolim havia vindo junto com a caravana dos escoteiros.
A imagem do presidente descendo sorridente a alameda deve ter realmente magnetizado os cento e cinquenta rapazes ali presentes. Lydio nos conta que “aos poucos ele veio se aproximando com seu sorriso de cativar”, sorrindo a acenando para os presentes. Ali estavam setenta escoteiros de Santa Maria, no Rio Grande do sul, que compunham a “Caravana Henrique Dodsworth”, que homenageava o intendente do Distrito Federal durante o Estado Novo.  Havia também a tropa mais numerosa, cerca de oitenta escoteiros paulistas, a maioria proveniente de Piracicaba e Campinas. E a pequena Patrulha Touro, representando a Tropa Vale Porto de Antonina, Paraná.
Estavam ainda presentes um repórter oficial e um fotógrafo do famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo), vários jornalistas credenciados e “uma porção de crianças e mocinhas”, segundo o testemunho de Lydio. Segundo a edição do dia seguinte de A Noite, o presidente havia sido surpreendido pela caravana escoteira durante a sua caminhada. Mas, como vinha até ali acompanhado do major Rolim, um dos integrantes da Caravana, isso parece pouco provável.
O General Heitor Borges, que era o presidente da UEB e idealizador do evento e da Caravana, chamada “Caravana Presidente Vargas”, fez as saudações. Segundo a reportagem do jornal A Noite, o general saudou o presidente num breve discurso e, em nome da Caravana, disse que os escoteiros estavam ali para expressar seu reconhecimento “pelas atenções que tem recebido”. A seguir, começaram as entregas das mensagens.
Os escoteiros gaúchos fizeram a entrega de um livro de madeira com gravuras em relevo. Os escoteiros paulistas entregaram, por intermédio de um lobinho, um enorme gomo de bambu envernizado também todo entalhado e com a mensagem em alto relevo. Foi então que chegou a vez dos escoteiros antoninenses. Milton Horibe deu um passo à frente e tendo a mão um pergaminho disse: “A mocidade de meu estado lhe envia, por nosso intermédio, suas saudações e seus cumprimentos”. Ao que Getúlio lhe respondeu: “essa vossa ação revela coragem, antes de tudo. Isso dá uma demonstração do caráter nobre e da fibra moral do escoteiro”.
Não se sabe o quanto estas frases e gestos foram pensados e ensaiados, como que escrevendo frases para ficar na história. Estas, com algumas pequenas modificações, são as frases do diário de Lydio e o dos jornais que noticiaram os fatos, como A Noite ou o Diário de Notícias. Mas o que transparece no diário de Lydio é a profunda emoção daquele encontro. Conta-nos ele que, depois desta troca de frases grandiloquentes, Getúlio aproximou-se e “abraçou-nos demoradamente”.
O Diário De Noticias relata ainda que o general Heitor Borges depois disso dirigiu-se ao presidente num também breve discurso, colocando-o a par das atividades a serem desenvolvidas pela UEB naquele ano, o que teve boa recepção por parte de Getúlio. Este, depois da pequena cerimonia, despediu-se e todos e, com seu havana nas mãos, foi para a sacada do palácio Rio Negro, de onde assistiu o desfile dos escoteiros ao som da Banda do 1º Batalhão de Caçadores.
Lydio relata que os “outros documentos” que haviam trazido, foram depois entregues ao ajudante de ordens do presidente.

A missão estava cumprida. Agora, restava a volta. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O GRANDE DIA HAVIA CHEGADO - parte 1

O Palácio Rio Negro, em Petrópolis, onde os escoteiros de Antonina encontraram-se, finalmente, com Getúlio Vargas em 1942
O grande dia havia chegado.
No quartel, todos estavam agitados, com os últimos preparativos para a viagem a Petrópolis, para ver o Presidente Vargas. “O reboliço era demais”, anota Lydio Cabreira em seu diário. Desde as 6 da manhã havia um intenso corre-corre de rapazes arrumando os uniformes, escovando os dentes, penteando os cabelos, colocando os lenços, os chapéus, os cintos, e toda a farda escoteira da época.
Os escoteiros seguiram em carros de choque da policia do exercito para Petrópolis, onde veraneava Getúlio Vargas. Só um escoteiro não foi. O chefe Beto, logo o chefe Beto, tivera que ir ao banheiro e havia perdido o transporte. Segundo Lydio, ele e seus colegas em vão apelaram aos chefes escoteiros para que esperassem por ele. Mas não. As 7:00 foi dada a ordem de largada. Os caminhões se foram e o chefe Beto ficou.
Lydio nos conta o trajeto: seguiram pela Quinta da Boa Vista, São Januário, Bonsucesso, Ramos, Penha, Vigário Geral. Quando os caminhões pegaram a Rio-Petrópolis, Lydio se encanta: aquela era “a rodovia mais bonita que eu já havia visto”. Não era para menos. Reconstruída a partir da antiga estrada imperial, a estrada foi remodelada por Washington Luiz, que a reinaugurara em 1928. Durante muito tempo, foi considerada a melhor estrada da América do Sul. Lydio nos conta que a rodovia era asfaltada e, em alguns locais, cimentada. Nas laterais da estrada as amuradas eram presas por cabos de aço, para evitar acidentes. Havia muitas pontes. As pontes em formas de arcos encantam Lydio: “eram verdadeiras maravilhas da engenharia brasileira”, comenta.  
A estrada era muito sinuosa, correndo por entre as matas de intenso verde. Os rapazes se encantam com sua beleza. A estrada, em alguns trechos era cavada na rocha. Para Lydio, estes trechos apresentavam “o aspecto de uma paisagem europeia”. O clima ia ficando mais frio na medida em que subiam. As matas verdejantes colaboravam para que o clima tropical fosse amainado e seu ar fosse de uma pureza total, conforme anotou Lydio.
A comitiva chegou em Petrópolis por volta das dez e meia. Os veículos seguiram para o quartel do 1° Batalhão de Caçadores, uma das tropas de elite do Brasil na época. Logo a seguir, os rapazes assistiram no pátio interno do quartel a uma parada militar de toda a corporação para homenagear o General Heitor Augusto Borges e sua comitiva. O general, que já era conhecido dos rapazes de Antonina, era uma das figuras mais importantes neste momento, e também era chefe da União dos Escoteiros. Era ele que estava por trás daquela solenidade.  
Depois da parada, os escoteiros fizeram o rancho nos refeitórios do quartel, e logo a seguir foram ao Palácio Rio Negro, onde ia ter início a solenidade daquele dia. O palácio era um belo prédio art nouveau construído pelo Barão do Rio Negro nos últimos anos da monarquia. Na Republica, o imóvel foi adquirido pelo estado, transformando-se no palácio de verão dos presidentes brasileiros. De todos eles, quem mais fez uso do palácio sem dúvida foi Getúlio Vargas. Não houve um verão em seu governo que ele lá não estivesse.
Enquanto isso, nos jardins do Palácio, os escoteiros, enfileirados, estavam impacientes. já estavam por lá aguardando havia meia hora quando o presidente finalmente apontou numa esquina. Getúlio Vargas, todo de branco, vinha a pé, depois do passeio que costumeiramente fazia após o almoço.

Um grande alvoroço tomou conta da tropa. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

UM CARNAVAL NO ESTADO NOVO - FINAL

Foliões dançam na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, nos bailes públicos do carnaval de 1942; os rapazes antoninenses estavam por ali...
Finalmente o ultimo dia do Carnaval de 1942 havia chegado. Aí, sim, não teve o que segurasse os rapazes dentro das rígidas normas do Colégio Militar. Quem seguraria os rapazes ali alojados com o maior carnaval do Brasil rugindo ali na frente e fazendo tremer as casas?
Segundo o diário de Lydio, eles saíram bem cedo e voltaram bem tarde. Neste ultimo dia, o ponto preferido dos rapazes foi a Avenida Rio Branco. Foi uma mudança que foi se operando devagar no carnaval do Rio de Janeiro, com os desfiles paulatinamente migrando da praça Onze, em obras para o surgimento da nova Avenida Getúlio Vargas, para a Avenida Rio Branco.
A Avenida Rio Branco era o pedaço da maior animação e, segundo Lydio, era também o ponto das maiores brigas. A todo o momento os blocos de sujo saiam praticando o que Lydio chamou de “malvadezas”, assim mesmo, entre aspas, com as folionas que “desse bola”. Eram os onipresentes engraçadinhos que mexiam com a mulher dos outros. O resultado eram tumultos. Por vezes, segundo o relato, surgiam as “peixeiras” e alguém se feria com gravidade. Se hoje em dia isso ainda é comum, é de se imaginar que as brigas e a violência no carnaval fossem muito mais letais que hoje.
Os bares e cafés das imediações da Avenida Rio Branco neste ultimo dia de carnaval estavam lotados, e não venciam a demanda da freguesia. A região estava cheia de gente. Lá pelas 15 horas uma equipe da Radio Nacional colocou altos falantes ao longo da avenida e logo se formou um monumental baile ao ar livre. Todos pulavam e cantavam as musicas deste e de outros carnavais. Lydio anotou “A Jardineira”, “Praça Onze” e “Mamãe Eu Quero”.
Na verdade este foi um carnaval muito rico de novas canções. É o ano em que surgem alguns grandes “hits” do carnaval, como “A Mulher Do Leiteiro”, “Nós, Os Carecas” e principalmente “Está Chegando A Hora”. É um samba de Henricão e Rubens Campos, uma adaptação da valsa “Cielito Lindo”, de A. Sedas e F. Tudela, cantado por Carmem Costa. Carmem era empregada doméstica na casa de Francisco Alves, e lançou neste ano o samba que e que consagrou como uma das grandes cantoras brasileiras e está até hoje na cabeça do povo.
Luzes coloridas foram acesas quando chegou a noite. O espetáculo prosseguiu com desfiles de carros alegóricos. Os desfiles não eram como os desfiles de hoje. Eram desfiles de sociedades e clubes, em carros alegóricos com temas carnavalescos. Enquanto isso, na Praça onze, havia o desfile das escolas de Samba. Naquele ano, numa disputa apertadíssima, a grande campeã foi a Portela, com o enredo “Vida no samba”. Em segundo lugar ficou a “Depois eu Digo” , com o samba “uma noite feliz” e, mais atrás na pontuação, a eterna Estação Primeira de Mangueira, com o samba “A Vitória do Samba nas Américas”.
Na avenida Rio Branco, vendo os desfiles das sociedades, Lydio nos conta que eles traziam belas garotas de maiô, com belas pernas de fora e rebolando sem parar. “Aquilo deixava os marmanjões com água na boca”, diz ele, também boquiaberto. Mas Lydio não estava só de água na boca. Eis que, lá numa linha, ele nos diz que estava assistindo o desfile “agarrado à Lurdinha”, e não queria mais nada da vida. Com certeza queria. Não sabemos mais nada de Lurdinha, mas com certeza todos sabemos como são os amores de carnaval e ainda mais para jovens adolescentes. Que bela e inesquecível noite deve ter sido!
Mas o carnaval de 1942 ia acabando. Eram quase onze da noite. Encerrando o desfile vieram as grandes sociedades: clubes sociedade dos tenentes, sociedade fenianos, pierrôs da caverna e outros de que Lydio não conseguia lembrar. Quando regressaram ao alojamento, os rapazes ainda escutavam os cantos de nostalgia:“É hoje só só só../Vai se acabar já já já!”...
E assim os rapazes se despedem também do carnaval carioca. Lydio ainda nos diz que espera um dia voltar a vê-lo novamente. Mas, antes disso, muito antes disso, eles tinham uma missão a cumprir: entregar a carta para o presidente.
Será que conseguiriam?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

UM CARNAVAL NO ESTADO NOVO - parte 2


O Centro e a Zona Norte visto do Corcovado (1940)
(continua a saga dos escoteiros antoninenses no Rio, no carnaval de 1942, antes de entregarem a mensagem a Getúlio Vargas; livremente baseado nos diários do escoteiro Lydio Cabrera) 

Na segunda feira os escoteiros tiveram que passar a manhã de castigo. A punição por ter ficado tempo demais no carnaval e entrado tarde no alojamento foi a arrumação dos quartos e dos banheiros do Colégio Militar, onde estavam alojados. Lydio ficou arrumando camas, mais de 90, segundo ele. Milton varreu os três alojamentos e Canário lavou e secou os cinco banheiros. E lavaram rapidinho, por que senão não iria ter passeio para eles.
O dia foi de passeios e caminhadas com os outros escoteiros. Fora os cinco antoninenses, havia mais duas delegações: os escoteiros paulistas, um grupo de 85 pessoas,  que haviam chegado de trem dias atrás, e os escoteiros gaúchos, cerca de 70 rapazes, que haviam chegado por mar no dia anterior. O grupo todo fez uma caminhada sob sol quente da Lapa até o bondinho do Corcovado. Os cinco rapazes lembraram-se dos de estrada, onde passaram por situações piores que aquela. O sofrimento os fortaleceu e deu motivo de orgulho.  Lydio comentou, com ironia, que os escoteiros gaúchos e paulistas que estavam com eles na caminhada só assim puderam ter uma pálida ideia do que era caminhar durante quarenta e quatro dias.
Apesar do sol quente, os rapazes chegaram finalmente ao Corcovado.  Subiram para apreciar a paisagem. De lá de cima, os cinco se extasiaram com a imensa vista.  Morrendo de sede, eles se fartaram de tomar refrigerantes no barzinho lá no alto, segundo as anotações de Lydio. A vista imponente maravilhou os rapazes. Lydio comentou sobre a baia de Guanabara, descreveu as ilhas todas. Do outro lado, ficou impressionado com o tamanho do Oceano. Notou também a lagoa Rodrigo de Freitas, que descreveu como bonita e cheia de barcos de recreio. As fotos da época da estada dos rapazes no Rio deve ter sido similar as fotos que temos hoje disponíveis na internet.  Nele, pode-se ver uma cidade já grande, com avenidas sendo construidas e prédios sendo erguidos no centro e na zona sul.

foto de Peter Fuss - 1938
Era uma cidade sendo reprojetada. A preocupação nesta época, era com obras de mobilidade e com a doutrina do higienismo, então muito em voga. A cidade demanda por ligação entre seus eixos de crescimento, assim como requer cuidados com a drenagem de águas pluviais e o abastecimento de água. Neste período destacam-se as obras da Avenida Getúlio Vargas que, como vimos, foi a causa da destruição da Praça Onze, lamentada no samba do ano anterior. A Avenida Brasil estava sendo projetada. Para melhorar e a ligação da Zona Norte com a Zona Sul da cidade O morro de Santo Antônio estava sendo demolido. Era um Rio em obras a cidade que os quatro escoteiros estavam vendo.
Ao voltar para o Colégio Militar, onde estavam alojados, os rapazes ainda viram os blocos, ranchos e frevos que iam passando, indo para o carnaval. Neste dia, entretanto, não ia ter folia. Todos voltaram nos horários regulamentares, tomaram banho e fizeram fila para o jantar. O resto da noite foi de conversas com os demais escoteiros que estavam por lá.


Ainda tinha um dia de carnaval....

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

UM CARNAVAL NO ESTADO NOVO - parte 1

Orson Welles filmando o carnaval do Rio em 1942....pera lá, será que vi um escoteiro de Antonina nesta foto? o que ele estará fazendo lá?
A rapaziada estava em alerta. Mas desta vez não era o Sempre Alerta do Escotismo. Aquele sábado pela manhã, 14 de fevereiro de 1942, ao ir ao cais receber uma tropa de escoteiros que chegava via marítima, os quatro escoteiros antoninenses perceberam que a Capital estava diferente. Ao andar pela cidade de bonde e de trem – tinham feito um passeio ao Jardim Botânico - os rapazes iam sentido que a cidade era tomada de um ritmo diferente, produzido pelos tambores, tamborins, cuícas, ganzás, recos-recos e pandeiros, como anota o escoteiro Lydio Cabreira em seu diário:“escutamos muitas batucadas pelos morros e ruas”. O carnaval estava chegando. 
No domingo, nada podia mais deter os rapazes. Emprestaram alguns trajes civis dos colegas cariocas, pois no carnaval era proibido usar farda, mesmo que fosse a farda escoteira. O clima de festa vai contaminando a todos.  Lydio nos diz que desde o inicio do dia a “batucada tinha dominado a cidade”. Os meninos Beto, Milton, Lydio, Manduca e Canário iam se maravilhando com a grandeza da festa.
As pessoas vão chegando de bonde, de trem, a pé, todos fantasiados. Lydio notou que a fantasia tinha um sentido: a nudez. “seminus, aquele povo não queria saber de nada. Só uma coisa passava pela sua mente: orgia e nada mais”, escreveu em seu diário. Ao longo da avenida as bandas iam passando, tocando sucessos deste e de outros carnavais. Lydio não se contém e vai atrás de um cordão.
O destino de todos os cordões era a Praça Onze, onde Lydio  viu, encantado, Orson Wells e sua equipe filmando a folia. O cineasta americano estava no Brasil filmando o seu documentário ”It´s All True”, que nunca foi acabado. Embevecido vendo a filmagem, Lydio enfim percebeu que havia se perdido de seus companheiros. Mas tudo era alegria, diz ele, e seguiu pulando no meio da multidão. A música não parava nunca.
Uma das musicas mais cantadas deste carnaval era uma marchinha do ano anterior, “Praça Onze”, de Erivelto Martins e Grande Otelo, que lamentava justamente o fim da praça, que estava sendo  engolida pelas obras de urbanização da cidade. Local central e cosmopolita, a praça abrigava os imigrantes recém-chegados e a boemia da cidade e era o principal ponto de circulação dos blocos do carnaval de rua. Os foliões continuavam chorando o fim da praça na própria Praça Onze, onde as obras só iriam ser finalizadas em 1944, dando lugar à Avenida Getúlio Vargas. Em meio aos escombros da praça os foliões cantavam “Guardai os vossos pandeiros, guardai!”, meio como protesto, meio como lamentação.
Lydio passou o dia todo por ali, na fuzarca, como ele dizia. Acabou almoçando e jantando alguns pastéis. “Bastou”, segundo ele, cuja fome não era de comida, e sim de festa. Continuou pulando e só mais tarde, já noite, foi que reencontrou seus companheiros Canário e Manduca. os rapazes continuaram perambulando pela Praça Onze, e só muito mais tarde é que decidiram voltar ao Colégio Militar, onde estavam alojados. Eram onze da noite.
Tiveram que pular o muro, pois o guarda não os deixou entrar. No entanto, apesar de todos os cuidados para não serem descobertos, os escoteiros paulistas de guarda no alojamento descobriram a chegada dos foliões. Pegaram um castigo: no dia seguinte, tiveram que arrumar todas as camas, varrer os alojamentos e limpar o banheiro. “Tudo bem, falar o que?”, pensou Lydio, e anotou mais essa em seu diário.
O carnaval só estava começando....

domingo, 24 de janeiro de 2016

AI DE TI, ANTONINA!!


Palavra do Senhor no Evangelho de São Maneco Cego:

Ai de ti, Antonina!

Ai de ti, pobre e velha cidade! Ai de ti, cidade mesquinha e miserável, com suas ruas cheirando a mijo, suas casas cheirando a mofo, castigada pelo sol e pelos ventos e maltratada pelas chuvas e pelas marés!
Ai de tuas ruas cheias de mato, de teus muros caídos, de tuas casas sem cuidado!  Ai de teus miseráveis quintais, tanto os cheios de trastes, velharias e sujeira, quanto os limpinhos e recendendo a flores. Ai de tua baia assoreada, cheia de mato e sujeira!
Ai de ti e de teus filhos, perdidos em suas ruas, perdidos nas casas, perdidos no mundo imenso além da Serra e além do Mar!
Mandei marés de lua, mas vós não vos importunastes! Mandei marés de sete anos, mas ninguém deu a mínima! Mandei assorear a baia, para enchê-la de entulhos e lodo, mas continuastes no pecado!
Enviei temporais e chuvas imensas que fizessem derreter teus morros e destruir suas casas, mas nada mudou vossa conduta, Antonina!
Ai te ti, Antonina!
Ai de teus filhos que se perderam no mar: enfrentando as águas salobras de nossa baia, ou enfrentando os mares bravios para além da barra de Superagui!  Ai dos teus filhos que se perderam além da Serra: enfrentando o frio, o vento e as outras cidades, tão mais amistosas e hospitaleiras que a nossa! Ai dos bagrinhos que enfrentaram o barro e o pó das estradas, dos que trabalharam em grandes plantações, em imensas fábricas e escuras minas! Ai também dos que trabalharam em escritórios ou nas mil vezes malditas profissões liberais! Ai dos que encontraram colegas, amigos e amores para longe do Morro do Bom Brinquedo ou da Ponta da Pita! Ai dos que se enganaram achando que este mundo além da Serra era melhor, ou mais injusto, ou a última chance!
Ai também dos que permaneceram caminhando em tuas ruas ou vivendo em tuas casas, Antonina! Ai dos que tentaram ganhar dinheiro e dos que não mexeram uma palha. Ai dos que viveram das heranças, dos que roubaram as pensões dos avós ou dos que trabalharam honestamente! Ai  de teus profissionais liberais, teus comerciantes e teus funcionários públicos! Ai, sobretudo, de teus trabalhadores, que moram na Pita ou Batel ou Tucunduva ou Praia dos Polacos ou Portinho, e que em vão carpiram quintais, fizeram faxina, carregaram caminhões e cuidaram de crianças e velhos!
 Ai também dos trabalhadores que no passado carregaram navios, cavaram estradas e construíram pontes, e tentaram sinceramente, construir uma cidade no fundo daquela infecta baia. Ai das mulheres que, por gerações, pariram filhos e alimentaram suas preguiçosas famílias, que costuraram roupas e fizeram rendas de bilros e fizeram bolos e doces para vender fora. Ai das mulheres que lavaram roupa pra fora, ai das cozinheiras, copeiras e ai das pobres criadas, abusadas por todos!
Ai de teus políticos, teus sindicalistas, teus policiais, teus juízes!! Ai de teus padres e teus pastores! Ai de teus jornalistas e blogueiros! Ai dos teus haters, que pensam estar a salvo sob o anonimato da internet! Ai dos deputados, governadores, senadores, e de todos os que vêm aqui pedir voto! Ai dos que usam a inocência das pessoas, dos que compram voto, dos que te corrompem e te roubam, pobre cidade!  
Ai de ti porque você se deixa roubar, Antonina!! Não és mais pobre de espírito do que aqueles te expoliam, falsa e hipócrita cidade!! Você não é melhor nem pior que Goianésia, que Anicuns, que Laranjeiras do Sul. Ai dos que querem teu mal, Antonina, mas presta atenção! Ai dos que querem teu bem!! Ai daqueles que querem te salvar de alguém, de alguma coisa, de qualquer coisa, deles mesmos!!

Ai de ti, Antonina!!

Ai de ti, cidade tão cheia de pecados! Eu te amaldiçoo a sofrer neste mundo sem remissão a sorte daqueles que existem só por existir!
Pois que é chegada a hora da remissão sem salvação, da salvação com culpa eterna. Pois que te condeno a existir, Antonina, enquanto o mar ou os ventos ou as chuvas assim quiserem. Não te destruirei como a Babilônia, afogada em pecados! Não farei as ondas destruírem o mercado, ou os ventos derrubarem a igreja da Colina. Também não espalharei o terror e a morte no Jequiti, no Cabral, na Caixa D´Água e no Quilometro 4, Antonina!
Mas te condenarei a coisa pior: existir sem brilho, sem alegria, sem pompa nem majestade, pobre cidade!
Teus carnavais não brilharão mais, teus cantores e poetas não cantarão mais as suas glórias, cidade amaldiçoada! Teus pintores não vão mais por as suas belas tardes no papel, e tua historia vai se apagar sem que dela conhecêsseis a metade, Antonina! Tuas ruas se cobrirão de mato e ninguém terá forças para carpi-lo! Teus bares e restaurantes ficarão as moscas e tuas igrejas vazias!
Haverá um dia em que, perdida no marasmo e na mediocridade, ninguém mais se lembrará de ti, Antonina! Neste dia os haters de internet aparecerão finalmente nas ruas da cidade, babando e falando suas frases desconexas e cheias de rancor, mas não haverá ninguém para escuta-los!
Não haverá o rio do Nunes, não haverá a Caçarola do Joca, ou a Igreja do Bom Jesus. Não haverá mais desfile de escandalosas nem procissão de Nossa Senhora Do Pilar. Ninguém vai querer saber de suas qualidades, velha cidade, ou dará risadas com os não poucos defeitos dos bagrinhos seus filhos. Nunca foste e jamais será a Capital da Música, pois não haverá ninguém para cantar seus hinos!
Por que tua hora chegou, Antonina! Não há mais espaço para ti na terra! Te dei Mar, Arte e Amor, mas os desperdiçaste!  Que caia sobre ti a minha ira!
E assim falou o Senhor sobre a cidade de Antonina.



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

PROCRASTINOS, O DEUS DE NOSSO TEMPO


Estatua inacabada de Procrastinos (sec IV aC, Jônia setentrional, a esquerda de quem vai para Mileto) 
Para Ricardo Castillo 
(que não é absolutamente 
devoto de Procrastinos...)

Ateus, agnósticos e outros incréus em geral, creiam neste pobre bagrinho: Procrastinos é o Deus de nosso tempo.
Um dos muitos e mal conhecidos deuses olímpicos, Procrastinos era filho de Cronos, o Tempo, e Réia, a Terra. Desde pequeno, Procrastinos era um deus muito cruel e amoral, o que lhe conferiu uma grande legião de seguidores, cujas origens nascem na Grécia Clássica e chegam a nosso tempo. Procrastinos, em lugar de fazer o que seu pai Cronos mandava, ficava pelas ruas do Olimpo fazendo nada, caçando formigas pra arrancar as cabeças ou matando passarinho com cetra (ou bodoque ou estilingue, dependendo da região da Grécia que estamos falando).
No entanto, houve um tempo em que Procrastinos se revoltou contra seu Destino, e tentou matar o Tempo. Cronos, seu pai colérico e vingativo, sentindo-se ameaçado pelo jovem deus, o atirou num imundo sofá cheio de ácaros e o condenou a assistir Sessão da Tarde até o fim dos tempos. Procrastinos só sobreviveu este castigo com grandes doses de Ovomaltine e bolachas negresco, que lhe eram dadas as escondidas pelas ninfas advertises. Vendo que o comportamento do deus não melhorava, Cronos ampliou o castigo, e o condenou a também assistir Malhação.
Esta existência cruel e tediosa não impediu, porém, que Procrastinos tivesse uma imensa legião de seguidores. Trata-se de um culto brando e cotidiano, exercido em silencio e devoção. De fato, o culto a Procrastinos não tem o voluntarismo do estridente culto das religiões monoteístas modernas. Apesar de ter alguns inegáveis pontos de contato, seu culto também não segue a linha das religiões orientais e seus ritos de silencio e paz interior.
O culto a Procrastinos é um culto do desassossego, da anti-paz de espirito. Seus adeptos estão sempre num grande estado de confusão mental, de desordem interior, procurando um vir-a-ser num futuro próximo e ao mesmo tempo distante, onde tudo terá uma solução mágica e misteriosa. Momentaneamente saciados, os adeptos do deus então se atiram num sofá reverencial, para assistir sabe-se lá o que na televisão, ou, em tempos mais recentes, no computador. Hoje, as Redes Sociais são um grande espaço de culto a Procrastinos.
Não existiam, na Grécia Antiga, muitos espaços para o culto a Procrastinos. O que se sabe é que, embora mais reverenciado que Zeus e muito mais amado que Apolo, os seguidores de Procrastinos não construíram nenhum templo de culto digno de nota. Ao que parece, houve muitos projetos, mas poucos saíram do papel, dado o empenho dos fieis aos cultos de procrastinação (prokrastineia), como vieram a ser chamados. Algumas vezes, os cultos de Procratinos eram feitos juntamente com os cultos báquicos, desde que não exigissem muito esforço. A ênfase na produção de uva, o culto das videiras e o envase do vinho não eram entendidos pelos procrastinadores, como vieram a ser chamados os seguidores de Procrastinos.
Platão tinha uma visão bastante positiva de Procrastinos, e colocou no Timeu um dialogo com Flésias de Epidauro, onde havia um elogio da atividade dos procrastinadores, muitas vezes mal compreendido pelos platônicos mais diligentes. Já Aristóteles (sempre ele!) condenava o culto a Procrastinos, tendo escrito alguns parágrafos furibundos no terceiro volume de sua Física. No entanto, esta foi uma obra que, por influência de Procrastinos, o Estagirita não conseguiu terminar. Em Roma, os epicuristas viam com bastante simpatia o culto a Procrastinos, o qual, entretanto, era veementemente combatido pelos estoicos.
Já Santo Tomas de Aquino condenou com veemência o culto a Procrastinos, que se desenvolvia sem cessar por toda a Idade Media, mesmo após a morte do culto dos deuses clássicos. Em seu clássico “blasfêmia procrastinas vulgus in teolodiceam nostram" escrita em 1257 em Paris, o sábio e santo iniciou uma veemente  obra contra Procrastinos, a procrastinação e os procrastinadores. No entanto, por motivos que permanecem  um tanto obscuros até para os estudiosos da vida e da obra de S. Tomás, a obra infelizmente não foi concluída.

(este pequeno opúsculo sobre o grande deus Procrastinos deveria prosseguir em quinze volumes e dois tomos, com notas das edições grega, latina e árabe. Entretanto, isso exige muito esforço! Vou deixar a segunda parte, de mais três paginas pra amanhã, e continuo depois do almoço, assim que tomar um café. Eu juro!! Por Procrastinos!!)


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O INDUSTRIAL E O CANTADOR


Hoje, ao andar pela Deitada-a-beira-do-mar, vi uma placa de rua que me deixou intrigado: o que fazem ali, juntos, Bento Cego e o Comendador Matarazzo?
De um lado, temos Bento Cego (1821 – 189?), nosso bardo, talvez o maior artista antoninense de todos os tempos.  Pobre e cego , o negro Bento nasceu numa casinha humilde no bairro do Registro, em Antonina.  Saiu de lá, em tenra idade, para ganhar o mundo em duelos e trovas de viola. Teve uma vida sofrida e memorável, tendo sido autor de versos sublimes cantados em feiras e festas profanas e religiosas de todo o centro-sul do Brasil, desde o Rio Grande do Sul até Minas Gerais. O pouco que sabemos de sua vida foi pesquisado pelo cônego Manoel Vicente da silva, e pelo jornalista Nestor de Castro (ver aqui).
De outro lado, o Comendador Matarazzo (1883-1920), o primeiro filho brasileiro do industrial Francisco Matarazzo. Durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto o pai Francisco participava do esforço de guerra italiano, o jovem industrial Ermelino aumentava o capital e as instalações das Indústrias Matarazzo no Brasil. É de 1917 a construção do moinho do Itapema, que mudou para sempre Antonina com a implantação do parque industrial e de um bairro praticamente inteiro. Falecido num acidente de carro na Itália em 1920, o jovem Comendador Ermelino (tinha só 36 anos) foi uma promessa de curta duração, mas que deixou marcas duradouras em nossa incipiente industrialização.
Mesmo as duas ruas são muito diferentes. A Rua Bento Cego é bem menor, e inicia-se na Praça Coronel Macedo, piamente, próximo ao largo da matriz. Atravessa inicialmente a Rua do Esteiro, a pecaminosa Rua do Esteiro dos puteiros de outrora, a hoje simples e modesta Rua Dr. Mello. Depois da pequena ponte do Esteiro, a rua atravessa humildemente uma grande zona de mangue, cheia de água, capins e de rizófora, a arvore do mangue. Construída com aterro sobre o mangue, sentimos ao atravessa-la  o cheiro de podre e a sensação de estar no meio do barro e das águas escuras e salobras de nossos manguezais. A Rua Bento Cego termina simples, na esquina da grande Avenida Comendador Maratazzo.
A Avenida Comendador Matarazzo inicia-se no porto, cruza as casas de tijolinho e o grande complexo dos Moinhos Matarazzo, grande obra da arquitetura industrial do inicio do século. Ao seu redor existiam diversos grandes armazéns – o Valente, a Sermara e tantos outros. Eram construções simples e grandes, com algumas ruínas ainda aparecendo, e que representavam importantes firmas de navegação de outrora. Hoje pouco visíveis, eram muito importantes os trilhos do trem, que seguiam paralela e obedientemente em toda a sua extensão. Enquanto que pela rua iam os automóveis, ao seu lado os vagões transportavam todo o tipo de mercadoria para os armazéns e o próprio porto, ali bem do seu lado, no Itapema.
O que podemos imaginar neste encontro entre figuras tão díspares como Bento Cego e o Comendador Matarazzo? O que diria Bento Cego para o Comendador? E ele, o que responderia? Bento cego cantaria uma trova, louvando os feitos do industrial? Será que ele, um provável apreciador da opera italiana, se comoveria com os versos singelos do negro cantador? Seria um encontro grandioso, para acima do bem e do mal, ou seria um grande fiasco, um mero encontro banal entre dois seres que não se conhecem, não se apreciam, não se entendem?
E o que a Antonina de hoje diria para estes dois personagens? Bento Cego teria enfim seu reconhecimento pelos seus concidadãos? Será que apreciaríamos de verdade seus versos, e canto e seu sofrimento? E o Comendador, será que teria alguma empatia pelos bagrinhos de hoje em seus carros e seus celulares correndo, andando, amando e trabalhando por nossas ruas tortas?

Ou será que nós, passando todo o dia pela esquina de um encontro tão improvável talvez preferíssemos  nem pensar nisso, ocupados que estamos com nossa existência? Será que se eles tivessem de fato algo  a nos dizer, talvez preferíssemos não ouvir?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

TREINADORES DE KAMIKAZES



Neste ano, foram comemorados os centenários de diversas efemérides macabras. Na Europa, 1915 foi o ano da guerra de trincheiras, do impasse, do desperdício inútil de vidas. No Brasil foi o período mais sangrento da repressão na guerra civil do Contestado, onde mais de dez mil pessoas morreram de doença, de fome e de tiro.
Os acontecimentos recentes não nos dão muito motivo de comemoração. O Estado islâmico se impõe e faz vitimas inocentes na Oriente Médio, na Europa e na África. A razão parece ter se perdido em algum lugar do 11eme arrondissement de Paris, numa rua de Bagdá ou num hotel em Tombuctu. Jovens são aliciados para virarem mártires de causas no mínimo questionáveis.
Aqui no Brasil a única diferença é que ainda não nos metralhamos publicamente. Mas a indiferença pelo todo e a vontade de vencer a qualquer custo para manter o poder (ou os cargos) a estão minando a Republica. Estamos, como o mundo, num momento de polarização e de enfrentamento muito grandes.
Estes tempo passei por uma situação em que uma pessoa, para me ferir, tomou uma atitude meio suicida, quase kamikaze de se portar. Eu sei que isso sempre tem consequências. Na juventude, fui um kamikaze numa determinada situação política. Claro que minha causa era “importante”, como são todas as causas pelas quais morrem os kamikazes. Mas meu “sacrifício” de nada valeu à “causa” e eu ainda passei (e ainda passo) sofrendo com as consequências de minha atitude. Eu sei, pelo menos figurativamente, o que é ser um kamikaze.
Mas eu comecei a pensar para além da situação do kamikaze: eu comecei a pensar em quem treina um kamikaze. Quem é essa pessoa? Ela entra em combate? Boa parte das vezes não. Mas instiga, fustiga, cria no seu pupilo uma situação emocional de obediência cega. Partir para a morte, e ao mesmo tempo infligir a maior baixa possível ao inimigo. É a estratégia dos que não tem força, e estão desesperados. Eu vou, mas levo um monte comigo. Parece filme de guerra, mas não, é a vida real. Tem consequências.
Quem treina um kamikaze também acha que a causa é justa. Que tem deus ou a historia a seu lado. Cria nos potenciais suicidas um estado mental de euforia com questões como honra, martírio, recompensas no além, no futuro, no reconhecimento dos que ficam.
Quem treina um kamikaze é um covarde, ponto. Alguém que acha que o seu deus, a sua causa ou o seu ego são tão importantes que vale o sacrifício de uma carreira, ou pior, de uma vida? O século XX nos deu muitos exemplos destes lideres carismáticos que fazem seu povo passar por imensos sacrifícios para....nada. Para mais sacrifício, para a morte, para absolutamente nada.

Existem os que se acham donos de um saber excepcional, de uma verdade absoluta. Por esse saber e essa verdade, não hesitam em colocar a vida de outros em risco. Covardes, fazem seu joguinho sujo de mandar meninos e meninas alegres ao matadouro. Alguns destes treinadores de kamikazes acham que são novos Moisés conduzindo seu povo eleito pelo deserto. Mas não passam de impostores como Jim Jones, o tal califa Baghdadi e outros despotazinhos medíocres e de ego grande que encontramos por ai. 

(andei meio afastado do blog devido a um trabalho que me consumiu bastante; mas, assim que a poeira baixar, voltaremos a blogar como D´antes)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

AO CHEGAR SETEMBRO...


01/09/1888
Nascia Heitor Soares Gomes
01/09/1920
Nascia Setembrino da Costa Alves
02/09/1918
Era lançado o livro ‘Fatos e Homens’, de Ermelino de Leão
04/09/1848           
Nascia, em São Paulo, Brasílio Augusto Machado de Oliveira
04/09/1857
Nascia, em Morretes, José Francisco da Rocha Pombo
07/09/1922           
Inaugurada a Estação Ferroviária em frente à Igreja do Bom Jesus
07/09/1938
Fundado o Grupo de Escoteiros ‘Valle Porto
11/09/1915
Nascia Carlos Gomes da Costa
12/09/1714   
Atendendo pedido de Manuel do Valle Porto o Bispo do Rio de Janeiro, Frei Francisco de São Jerônimo,autorizava a construção de uma capela na fazenda Graciosa
23/09/1931
Falecia o Coronel Antônio Ribeiro de Macedo
28/09/1898
Inaugurado o Mercado Municipal (demolido em 70)
28/09/1902
Nascia, em Esp. Santo do Pinhal-SP, João da Cruz Leite

sábado, 1 de agosto de 2015

ANTONINA NO MÊS DA NEBLINA...



05/08/1924

Nascia Milton Oribe

07/08/1942

Falecia o Dr. Heitor Soares Gomes

07/08/1943

Explosão e incêndio destruíam a estação ferroviária da Laranjeira

13/08/1860

João da Silva Machado recebia o título de ‘Barão de Antonina’

14/08/1906

Falecia Nestor Pereira de Castro

15/08/1885  

Inaugurada a Casa Escolar Dr. Brasílio Machado (Brasílio Augusto Machado de Oliveira era o Presidente da Província)

18/08/1892  

Inaugurados o ramal ferroviário Morretes-Antonina e a estação ferroviária da Laranjeira 

20/08/1854

Iniciada a construção da estrada da Graciosa

29/08/1797  

Portaria do Governador da Capitania de São Paulo, Antônio Manuel de Mello e Castro Mendonça, elevava a Freguesia de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa à Villa Antonina

29/08/1991

Falecia, no Rio de Janeiro, Moisés Wille Lupion de Tróia

30/08/1975

Fundada a Filarmônica Antoninense

31/08/1946

Fundado o Ginásio Municipal de Antonina