quarta-feira, 30 de novembro de 2011

GANHAR, REZAR, SECAR

Não, a frase não é minha, e sim do Chico Sá, colunista da Folha de São Paulo e comentarista do Cartão Verde. Ganhar, rezar, secar. Ganhar do coxa, rezar para que os ataques do Galo e do Bahia funcionem e secar o Ceará e o Cruzeiro. Parece fácil falando, mas para o time que está ai, tarefas de Hercules. A frase resume bem nossa desdita: um time que esteve fora da ZR por somente uma rodada está chegando merecidamente à degola. Pra quem tentou fugir do mármore do inferno com Guerron, Nieto e Cia, agora só com Expedito, este sim um craque. 
Nossos queridos coxa-brancas, que sabem de cór e salteado como é o caminho pras profundas, riem mostrando os dentes. Pimenta nos olhos dos outros é colirio. Ainda está, na memória dos coxas aquele dia fatal de dezembro de 2009 quando tudo deu errado e o inferno se abriu para eles em pleno Couto. Azar, agora é nossa vez. 
Assim como eles, teremos que nos reinventar ano que vem, nossa torcida tem que voltar a ser a torcida sofrida mas guerreira que era no século passado, que voltar ao topo é uma consequência. Frise-se que nós nunca caimos. Nós começamos de baixo, empurrados pra lá pelo grupo dos 13. E aqui estamos, até pelo menos domingo que vem. Desde 95, quando subimos gloriosamente (e em cima de um certo alviverde) e passamos a ostentar no peito uma estrela de prata, jamais caimos. 
Pelo menos ano que vem estarei na arquibancada do Brinco de Ouro pra ver o gente ganhar do Guarani. Eu queria mesmo era estar no Lucarelli e ganhar da Ponte Preta, mas Papai Noel, assim como o Coelhinho da Pascoa e o Politico Honesto, simplesmente não existe. 
Furacão, Eô! Atletico-o-ô!
Vamos lá, Furacão!!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MUDANÇAS DE ESTAÇÃO


Avenida Nenê Chaminé, sem número

No começo do mês, estava em Nova Friburgo voltando de uma vistoria a locais onde haviam ocorrido escorregamento de terra em janeiro ultimo, em companhia de, entre outros, Claudio Amaral, diretor do DRM – o Serviço Geológico do Rio de Janeiro. Em toda o megadesastre, ele era quem falava pelo corpo técnico que estava cuidando dos risco geológicos na região, e, por força disso, era muito conhecido e requisitado pela população. Numa caminhada de cerca de trezentos metros ele foi parado pelo menos por duas vezes, por pessoas que vinham perguntar sobre a situação de risco de sua casa, de sua rua especifica. Educadamente, Claudio respondia a cada um, evitava polêmicas e fazia o possível para dar a melhor informação possível num universo intrincado onde ele, na verdade, mandava pouco. Pelo lado das pessoas, via-se claramente o desespero de quem já tinha passado por poucas e boas no passado recente. Muitos tinham sobrevivido por sorte. E não sabia direito a quem recorrer, a quem indagar sobre os riscos que estão por vir com o começo da próxima estação das chuvas.
Cerca de dez dias depois, estava na Deitada-a-beira-do-mar com meus alunos, subindo os morros e fazendo observações. Conversei com diversas pessoas, em praticamente todos os bairros ao redor do morro. Da mesma forma que as pessoas em Nova Friburgo, o que eu vi foi muita desesperança. Pessoas que perderam tudo e que se encontram desesperadas e perdidas, como o Edson, que interrompeu nosso trabalho achando que estávamos desrespeitando ou, pior, roubando a casa de sua mãe na laranjeira. Aos gritos, e completamente torrado, como se diz em antoninês, ele nos ameaçou, pedindo aos berros para que fossemos embora dali. Ao conversar com ele procurei entender sua reclamação e acalmá-lo. Era uma criança grande, literalmente sem chão, com a casa da mãe destroçada e cheia de lama, num cenário realmente aterrador. Chorou muito, pediu desculpas, se disse atordoado pelo sofrimento. Quando se acalmou, pediu dois reais. Não sei em que foram investidos os dois reais que dei a ele, mas pra coisa boa não foi.
Conversei com outras pessoas, melhor situadas que o pobre Edson. Tinham aonde ir, casa de parentes onde ficar, e não se sujeitavam a morar nos abrigos. “é muito humilhante”, me disse uma senhora que encontrei no Tucunduva. Na Laranjeira, uma mulher nos contou que as casas por ali estavam sendo paulatinamente depredada por bandos de rapazes desocupados, que buscavam as casas abandonadas pra fumar crak. Aqui e ali, via-se que algumas casas estavam sendo reocupadas, outras se viam guris entrando e saindo, num cenário que poderia ser de guerra. Mas é Antonina.
No bairro Floresta, em Morretes, conversei com seu Arlindo, um próspero agricultor que perdeu praticamente tudo na catástrofe, inclusive uma irmã. Não queria nada, nem cesta básica: “aqui não tem vagabundo”, disse, com orgulho de quem tira seu sustento da terra, e com suas próprias mãos. Uma terra, aliás, toda virada do avesso, cheia ainda de lama, pedras, troncos e restos de casas e carros. Mais pra frente, já havia terra livre de tocos e arada, esperando pra plantar. A indefinição do governo sobre o que fazer com a área não pode durar pra sempre, diz ele. Não há tempo a perder, a safra tem que ser plantada a tempo. A maior reclamação de seu Arlindo é não deixarem mais plantar na sua propriedade, agora declarada área de risco.
Em Nova Friburgo como em Antonina, as pessoas ainda estão perplexas, esperando respostas do poder público. Este, por mais bem intencionado que esteja, está as voltas com burocracia, lentidão, jogos de interesses. O planeta, que continua girando em torno de seu eixo, indiferente a nós como era indiferente aos dinossauros e outros quetais, se prepara para o verão do hemisfério meridional e suas chuvas intensas. 

sábado, 19 de novembro de 2011

NA TERRINHA


Estou na Deitada-a-beira-do-mar fazendo trabalhos de campo com meus alunos de Iniciação Cientifica, subindo os morros e procurando entender o que aconteceu na tragédia do 11 de março. Visitamos o bairro da Floresta, em morretes, onde uma gigantesca corrida de detritos vitimou 1 pessoa naquela fatidica sexta-feira. Um dia, todos estes fatos servirão para prevenção e não para entrar no rol das tragédias anunciadas. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

NOVA FRIBURGO

O Morro das Duas Pedras em Nova Friburgo (RJ), vista do morro  do bairro  Village;  as faixas em branco são escorregamentos de janeiro/11
Estou chegando de Nova Friburgo (RJ), onde fui participar de um simpósio de Geologia, onde se discutiu muito     sobre os eventos catastróficos destes ultimos anos em todo o Brasil. Foi muito interessante poder participar com colegas de todas as partes do país e principalmente os colegas geólogos do Rio de Janeiro, já calejados com os problemas de escorregamentos em eventos catastróficos.  Aqui em Nova Friburgo foram resgatados 850 corpos, mas a estimativa é que mais de 2 mil pessoas ainda estão desaparecidas. Corridas de Lama, como    as que ocorreram na Larangeira e no Cemiterio São Manoel foram especialmente letais.  Aprendi muito, espero poder aplicar um pouco do que aprendi na minha terrinha. Este fim de semana estarei aí, pra mais uma campanha de reconhecimento dos escorregamentos do morro do Bom Brinquedo. 

Escorregamentos no bairro Village, Nova Friburgo (RJ), em janeiro /11

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

COMENTARISTUS LEVIANUS

(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)



O comentaristus levianus é um dos organismos fósseis mais comuns do permiano inferior. Segundo alguns dos maiores estudiosos da espécie, como F. VaiaMerdrov, estes vermes proliferavam em redes infectas, ocupando um nicho muito particular, de águas turvas e redutoras. As características da espécie indicam pouca acuidade visual, cérebro pouco desenvolvido e dedos longos característicos, que os permitiam longas jornadas de digitação frenética e sem descanso.

Segundo um dos seus maiores estudiosos, o general Golbery do Couto & Silva, em seu livro “Malufismo, etapa superior do Adhemarismo”, os c. levianus mais primitivos alimentavam-se dos excrementos de espécimes populistas como o carlus lacerdis e o janius quadrius. Quando surgiram, no inicio do permiano, ocuparam rapidamente os nichos de outras espécies de comentaristus, como o c. fanaticus, o c. raivosus e o c. homofobicus. Juntando as características destas três espécimes, os comentaristus levianus foram ocupando nichos paleoecológicos importantes nas partes mais profundas e menos oxigenadas dos mares permianos. Segundo as últimas descobertas, em seu período de maior apogeu, os comentaristus levianus se alimentavam de excrementos de animais ainda mais rasteiros e de capacidade cerebral ainda menor que os precedentes, como o reinaldus azevedus ou o diogus mainardii, então muito comuns neste tipo de ambiente.

Os primeiros exemplares fósseis do comentaristus levianus foram primeiramente descritos no século XVIII pelo paleontólogo francês Silvousplez . Diderot, numa carta a Silvouplez, foi o primeiro a notar que o comentaristus levianus deveria ter vivido em ambientes anóxicos, onde era pouco comum a entrada de luz e oxigênio (Diderot, carta a Silvouplêz, Editions du Sans Porvir).

F. Vaiamerdrov, eminente paleontólogo imaginário soviético, estudou a fundo o comentaristus levianus, não sem antes passar longas temporadas (in)voluntárias na Sibéria, onde encontrou numerosos exemplares fósseis. No entanto, em camadas à esquerda do rio Volga, nos Urais, Vaiamerdov descobriu fosseis de comentaristus levianus formando comunidades com o patrulheirus ideologicus, outra espécie nefasta que evoluiria até o triássico médio. Juntamente com o politicamenticus correctus, estes organismos ocupariam todos os mares permianos.

No entanto, o c. levianus não tinha predadores à altura, uma vez que os mares estavam infectados e muito escuros, e prosseguiam fazendo muito estrago nestes ambientes. Não tinham dó de nenhuma espécime doente ou mutilada, e as perseguiam até matá-las com grandes doses de enzimas que secretavam, como a preconceituose e a revanchose (Silva, 2002, 2006; Roussef, 2010).

Para Vaiamerdov (Congresso de Paleontologia Imaginária de Vladivostok, 1956), o que acabou extinguindo o c. levianus foram as mudanças no ambiente geradas a partir do final do permiano. Com a oxigenação dos oceanos a partir da ruptura do Pangea, acabaram com os ambientes estagnantes e sem luz. Com isso, e precisando se expor em ambientes mais iluminados e menos estagnados, os comentaristus levianus, sem a proteção do anonimato, não tiveram nada de interessante a propor, e acabaram por se extinguir rapidamente.

domingo, 6 de novembro de 2011

IMPONENTE E LINDA É ELA

Hoje é domingo, pé de cachimbo. Já tarde da noite, trabalhando no fim de semana, são as contingências da vida de professor universitário. São os cavacos do oficio. Amanhã devo ir a Nova Friburgo (RJ) para um simpósio de geologia e onde, pela primeira vez na minha vida, vou coordenar uma mesa-redonda. Também devo participar de alguns debates sobre os desastres geológicos da região serrana do Rio este ano. Infelizmente, não deu tempo de preparar uma comunicação sobre o desastre da terrinha. Mas estarei lá, vou ver e aprender o que puder.

Pois então, minha terrinha faz hoje 214 anos de feliz existência. Feliz? Meu amigo gusano já vai me interrogar: afinal, amigo, o que é a felicidade? É um estado de espírito, uma condição, uma pré-condição, o que? Não sei responder, amigo gusano. Talvez, na próxima ida à terrinha, tenha que buscar ajuda espiritual de Pai Zinho de obatalá, meu guia metafísico que só me mete em enrascada.

O que sei é que minha terra sempre foi uma terra valente e brigadora. Brigou pra ser uma cidade, contra os interesses do lado de lá da ilha de Teixeira. Brigou pra ser uma paróquia, pra poder rezar em paz. O 6 de novembro, quando finalmente nos emancipamos, foi um dia de festa popular, talvez um prelúdio de nosso carnaval. Ermelino de Leão que o diga, lá no seu “Fatos e Homens”.

Depois, Antonina brigou pra ser porto. Conseguiu. Não foi só um porto, foi um porto importante, o 3º de Brasil nos anos 1930. Antes, o pessoal do lado de lá da ilha do Teixeira fez o que pode pra nos impedir. D Pedro II foi contra os anseios dos capelistas e nos tirou a ferrovia. Está lá, nos diários do velho, já comentados neste espaço. Depois, bem depois, conseguimos nosso ramal. Conseguimos pavimentar o Caminho da Graciosa, até a construção da moderna BR-277 o melhor caminho do litoral para o planalto.

A segunda metade do século XX foi ruim, não dá pra negar. O progresso de Antonina foi todo pra Paranaguá. Desde os anos 1970, lutamos pela sobrevivência do porto e da cidade. muitos de nós está em Paranaguá e Curitiba, em vez de estar comendo um caranguejo na Ponta da Pita. Teríamos chegado hoje a uma população de 50 mil habitantes facilmente.

Mas nada disso aconteceu. Nosso cantinho de baía empacou, mas não perdeu a ternura jamais. Contra o baixo astral, contra o pessimismo, nosso povo sabe sorrir, sabe rir, sabe gargalhar. Temos nossas festas pra se divertir, temos o carnaval pra pular, um peixinho de vez em quando, um pirão do mesmo...será que alguém ai sabe o que é a felicidade?

Neste inicio de século XXI, quando tudo parecia que ia melhorar, eis que a catástrofe se abate sobre a terra de Valle Porto. Casas destruídas, bairros destruídos, gente ferida, gente morta. Nessas horas, pensando bem, foi até bom não termos 50 mil habintantes, muitos dos quais estariam ocupando nossos morros. A tragédia que nos abateu poderia ser maior.

Como diz o lema de Eduardo Bó: “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. O bagrinho é antes de tudo um forte. Vamos vencer. Antonina já é um canto do paraíso, um convite à felicidade, o que quer que isso queira dizer. Vamos cuidar de nossa cidade, vamos cuidar de nossos morros, de nossa baía, de nosso patrimônio histórico, artístico, cultural e industrial. Como diria a letra de um – só um – de um de nossos muitos hinos: “Minha Antonina gentil, és um pedaço de aquarela das belezas do Brasil!”. Com saudades e lagrimas nos olhos encerro esta simples crônica.

Como é linda esta cidade!!














quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CONVERSAS COM GUSANO (1): DIA DOS MORTOS

uma catrina, vestida de noiva, na frente de uma lojinha em Guanajuato, México
Hoje é dia dos mortos. Não sou nada religioso, ao contrário, embora procure respeitar as crenças todas. Acho que muitas mal não fazem, outras são duvidas existenciais disfarçadas de religião. Fanatismos e dogmatismos, esses eu detesto. Mas, como eu dizia, hoje é dia dos mortos e estou particularmente tocado. Um pouco porque estive no México, fiz amigos mexicanos e aprendi um pouco sobre o quanto a data é significativa para eles. É um dia da família ir ao cemitério e levar iguarias aos seus mortos. As festividades duram quase um mês, sendo parte integrante da cultura mexicana. Mortos, esqueletos, caveiras, você encontra em qualquer lugar, em qualquer esquina. Os esqueletos femininos, com chapéus e outras coisas afins, têm até nome: são as “catrinas”, sei lá eu por que.

Para nós é outra coisa. É um dia calmo, em que sempre chove um pouco, garoa branda. Em Antonina, é certeza de uma garoazinha. Aqui em Campinas o céu está azul e faz um friozinho. Dia de se levar flores aos cemitérios, limpar túmulos, acender velas aos mortos. Em respeito a tudo isso, embora ache que tudo acaba e pronto, sem deus nem justiça, fiz minha parte e acendi uma vela na sala aqui em casa, pra homenagear meus mortos queridos. O pouco que fiz de psicanálise me diz que isso é mais para mim do que para eles, que já se foram e são hoje só uma saudade. Quando eu me for, minhas saudades irão comigo, minhas lembranças e meus sentimentos acabam como uma chama que se apaga com o vento: acho que é esse o significado da vela que arde em minha lareira.

Trouxe um amigo do México. Não é bem verdade nem é correto dizer que se pode comprar um amigo, mas foi exatamente o que fiz. Comprei uma garrafa de um aguardente mexicano, o mezcal. Dentro das boas garrafas de mescal vem dentro um verme, um bigato, como dizem os paulistas. É garantia de que o mezcal foi feito do mais puro agave, que á uma das variedades de nossa pita. Destilando-se o mescal é que se obtém a tequila.

Pois bem, tenho tido altas conversas com Gusano, o verme de minha garrafa de mescal (gusano é verme em espanhol). Conversas profundas, existenciais. Coisas de cachaceiro, diriam alguns – o mais correto seria dizer mezcalero. Para afogar mágoas, nada melhor que conversar com um amigo engarrafado e já afogado em mezcal. Gusano tem me contado coisas interessantes sobre o amor, a felicidade, a solidão, a saudade.

Um pouco de tudo isso têm sido minhas recentes conversas com Gusano. Sentir saudade da família, dos filhos, dos amigos é mais fácil em terra estrangeira, quando tudo está distante, segundo Gusano. Sentir saudade dos mortos é outro estágio, saudade dos que não tem mais presença física, só a memória mediada pela cabeça dos que estão vivos. Gusano me disse um pouco mais: a mais funda saudade é a saudade de nós mesmos, daqueles que já fomos, que já vivemos e sentimos. A saudade que é irmã da solidão, não a solidão simples, mas a solidão existencial, o estar só por entre as gentes, como diria Fernando Pessoa.

Se pudéssemos voltar no tempo e fazer tudo diferente! Mas isso não existe, é uma impossibilidade física, vivemos no mundo de Newton, Einstein e Heisenberg : tudo existe e funciona, mas é relativo e incerto vezes a velocidade da luz ao quadrado. Gusano é taxativo: deixe de chororô e bola pra frente, amigo. Pois é, amigo Gusano, é isso aí, bola pra frente. Temos que viver e viver com nossos atos e das conseqüências deles. Os mortos estão mortos, já nada podem fazer. Nós, os vivos, mesmo iludidos no espaço-tempo é que temos que literalmente carregar a chama, enquanto nos caber viver. E viveremos, caro Gusano, coerentes com o que aprendemos com nossos mortos.

Depois de um vendaval no sábado que nos deixou sem luz e arrancou arvores por aqui, agora faz um sol bonito. O sol, esse, nasce pra todos e não está nem aí se estamos eufóricos ou melancólicos. Sim, Gusano, nesse dia dos mortos o bom mesmo é viver e aproveitar a claridade e o calor.
Meu amigo Gusano, profundo como sempre, dentro da garrafa de mezcal lendo alguns papers...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

TEMPESTADES À VISTA


Nuvens no alto do Morro do Feiticeiro, sinal de chuva na terrinha

Outubro está acabando. Aqui em Barão Geraldo, onde moro, as vezes chove outras bate sol, como diria o poeta. Mas não é poesia, é que aqui a temporada de chuvas está começando. De marco a setembro até faz um friozinho, até cai uma e outra chuvinha, mas o normal é que o tempo fique seco e ensolarado. Agora espessas nuvens percorrem o céu e, no fim da tarde, cai uma chuva. Mas isso é só a primavera. No verão, em dezembro e janeiro, será pior, com grandes tempestades e enxurradas caindo sem aviso e rios enchendo de uma hora pra outra. Em são Paulo, quem se arrisca em locais baixos pode ter seu veiculo arrastado para uma vala. Fevereiro e março as chuvas caem mais devagar, mas ainda chove muito. E tudo recomeça.

É aí que começo a me lembrar de minha terrinha, onde chove porque sim e chove porque não. No verão, chove mais ainda. No verão passado, a chuva deixou mortos, feridos, desabrigados e uma destruição como nunca se viu nas terras de Valle Porto. Como será o próximo verão?

Os meus amigos da MINEROPAR, valentes como sempre, estão firmes lá em cima do morro, descrevendo os barrancos, anotando as pedras, mapeando as fissuras do verão passado. Em breve, teremos um bom mapeamento do morro, do Bom Brinquedo até o Tucunduva. Existe um pluviômetro instalado no corpo de bombeiros, atento para qualquer seqüência de chuvas anormais.

Estive na terrinha em setembro, fiquei cinco dias com meus alunos aqui da UNICAMP, fazendo um mapa dos escorregamentos de terra da laranjeira e coletando dados para um mapa geológico da cidade. Conversei com varias pessoas, como meu querido Eduardo Bó, vi o lançamento de seu livro e compartilhei com ele a preocupação de todos com o verão chegando. Conversei inclusive com Canduca, que se mostrou também preocupado com os preparativos para este próximo verão, com a questão dos desabrigados e tantas outras.

No entanto, fiquei um tempo ocupado com meus trabalhos e com meus alunos e comecei a ver a blogosfera capelista de vez em quando, quando tinha tempo. O que vejo é que a blogosfera, que antes era um lugar de discussão e debate, está virando uma grande arena eleitoral. Todos com seus blogs, com as exceções de praxe, estão só tentando ocupar espaços para a eleição que se aproxima. Alguns serão vereadores, outros continuarão vereadores, outros serão secretários municipais. Outros, ainda, ficarão de fora da partilha do bolo e irão para a oposição. E com Antonina? Tirando as exceções de sempre, alguém se preocupa?

Não sou candidato a nada, embora tenha minhas idéias e opiniões sobre política. Algumas delas eu exponho aqui no meu blog ou no Bacucu de meu querido amigo Neutinho. Para minha honra, um tempo desses tive até meu nome sondado pra ser candidato nas eleições da terrinha. Mas não. Estou longe. Meu projeto de vida neste momento é bem outro. Até me pergunto, aqui no meu rico exílio em Barão Geraldo, se vale a pena ter um blog voltado pra minha terra. Será que vale o tempo e o esforço de ter idéias e escrever num espaço virtual para poucas pessoas, que nem sei o que pensam do que escrevo?

Quero deixar claro que escrevo sobre tudo para mim mesmo, é por necessidade quase vital de falar algo que arrisco estas maltraçadas linhas. Poderia estar escrevendo sobre outras coisas, para outras pessoas, mesmo outras cidades. Porem, sou teimoso. Amo minha terra e seu povo. Por ela, reviro céus e terra. Mas confesso que, nesse quente mês de outubro, estou cansado, muito cansado. Me preocupa sobretudo que o embate eleitoral do ano que vem seja vazio e inconseqüente, quando sabemos que o verão e as chuvas estão chegando e a reconstrução da cidade depois da tragédia ainda precise da ajuda de todos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

NO MORRO DO BOM BRINQUEDO

O ex-bairro da Laranjeira vista do escorregamento maior;
Setembro está sendo um mês terrível aqui no blog. Depois de voltar de uma viagem de duas semanas ao México, tive ainda uma viagem de aproximadamente 5 dias para trabalhar nos escorregamentos da terrinha. Passamos o tempo quase todo subindo e descendo o morro do Bom Brinquedo, na Laranjeira e na Graciosa-Portinho. Estou orientando um grupo de estudantes de geologia aqui da UNICAMP pra tentarmos entender os processos geológicos envolvidos na catástrofe de 11 de março. Assim, talvez, poderemos dar uma pequena contribuição para podermos minimamente prevenir catástrofes deste tipo no futuro.



Claro que também aproveitei pra participar do lançamento do livro do nosso querido Eduardo Bó, a grande expressão artística de nossa terra. O lançamento, feito no excelente espaço do Siri do Portinho, que eu não conhecia. Muita gente esteve lá pra conferir e participar do lançamento, inclusive duas estrelas Máximas do carnaval de Antonina, Guaxica (A bailarina) e a “Velha”. Muito bom mesmo.


O sol está brilhando mais forte, o solo já secou. No entanto, a destruição foi muito grande, e muita gente ainda está longe de casa. Entendo a pressa de se estar num lugar que possamos chamar de nosso. No entanto, as coisas não correm assim tão fáceis. Em Blumenau ainda tem gente desabrigado da tragédia de 2008. Não temos ainda uma certeza das áreas de risco e como elas podem se comportar no futuro. A partir de novembro as chuvas recomecam, temos um verão naturalmente chuvoso, e os morros tem que agüentar até lá. A MINEROPAR está mapeando a área morro por morro, casa por casa, em conjunto com a Ademadan. Tudo isso está sendo passado para a Defesa Civil, que terá um sistema muito melhor para atender as demandas futuras.


Acredito que, apesar dos percalços, Antonina estará saindo dessa tragédia melhor do que entrou, há quase seis meses. Mas a caminhada é longa e cheia de lama, e temos que percorre-la.

sábado, 10 de setembro de 2011

TEOTIHUACAN

Consegui realizar um sonho de guri, e subi na piramide do sol, em Teotihuacán, uma das maiores e mais antigas cidades da Mesoamérica. Quantas vezes subi o muro de minha casa - o qual ainda existe na rua Cel Líbero - imaginando a proeza que eu vi nos livros. Que bom. Abraços a todos. semana que vem estou de volta!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PACHUCA E ANTONINA

 
antiga casa de maquinas da mina La Dificultad, em Real del Monte, Hidalgo, Mexico; agora é um espaço dedicado à historia da Mineração e a shows

Neste momento, estou em Real Del Monte, pequena cidade mineira perto de Pachuca, capital do estado de Hidalgo, México. Estou aqui num congresso sobre patrimônio mineiro, com pessoas do mundo todo. Estou aprendendo muito, num clima muito legal, de muita camaradagem. Está sendo bem interessante, discutimos historia da mineração e a conservação do patrimônio mineiro aqui neste lugar charmoso, a 2700 m de altitude, um pouco como Ouro Preto um pouco como Campos do Jordão. Para um bagrinho que se criou na Rua Coronel Libero, perto do Cine Opera, não está nada mal.
Algumas coisas que se discutiram aqui servem para a discussão sobre o patrimônio da Deitada-a-beira-do-mar. Uma das coisas que se discutiu aqui é a noção de patrimônio industrial. O que consideramos patrimônio industrial faz parte do patrimônio cultural e deve ser preservado para as futuras gerações. Pachuca e Real Del Monte, por exemplo, têm varias minas que se transformaram em museus. Algumas delas têm grandes exposições nas instalações industriais, uma delas – a mina de Acosta – tem inclusive um galeria subterrânea preservada onde os turistas entram para aprender como era o trabalho subterrâneo. Aqui, se aprende como foi o passado dos trabalhadores das minas, seus instrumentos, suas técnicas, suas histórias. Uma maquina antiga, em vez de servir de ferro velho, vai servir para contar como viviam e trabalhavam nossos pais a avós. Como se diz por aqui, “é Padre!” – ou seja, legal.
Antonina tem um passado industrial de respeito. Tem instalações portuárias que deveriam estar contando para os turistas sobre como era trabalhar no porto, como era a vida destes trabalhadores, que equipamentos usavam. Têm as instalações do Matarazzo, um patrimônio arquitetônico e industrial belíssimo, que está se destruindo por inércia publica e incapacidade de gestão por parte dos donos. Temos toda a linha férrea, subutilizada. Onde está um projeto que recupere a alegria de se andar de trem? Pessoas pagam caro por isso, e a cidade muito teria a ganhar. Em antonina, temos toda uma zona portuária, a antiga, que ia desde o portinho até o casarão, e tem também o atual porto, cujas instalações foram há muito sucateadas por falta de visão dos administradores da APPA. É ou não é? Alem disso, tem o terminal de cargas, que ainda pode ser aproveitado também como uma zona de visitação no futuro, e que não pode ser desmantelado por um burocrata qualquer.
Têm a antiga mina de ferro, os altos fornos e suas histórias. Onde estão? Por que jogamos todo este passado no lixo como se fosse uma coisa ruim e perversa? É necessário revalorizar os antigos locais de trabalho, como uma nova oportunidade a ser construída. Os turistas poderiam estar conhecendo tudo isso. A juventude poderia trabalhar como guias, e contar esta história. Isso tudo serve para melhorar renda, aumentar a auto-estima da comunidade, aumentar a educação e a consciência da população.
Nesta etapa em que se discute o patrimônio histórico da cidade, e seu tombamento pelo IPHAN, por que não nos perguntarmos sobre o patrimônio industrial da cidade? O que temos que pode ser visto, mostrado, reconstituído? Como vamos fazer isso? Tudo o que for feito dará frutos, tão certo como as goiabeiras que nascem frondosas em nossos quintais. São algumas lições que Pachuca, no México, pode dar à nossa subtropical,  malemolente e bela Deitada-a-beira-do-mar.
(escrito em 4/09/2011)

domingo, 4 de setembro de 2011

TENOCHTITLÁN E CIDADE DO MÉXICO

Em primeiro plano, as ruinas do templo maior de Tenochtitlán, a antiga capital asteca; ao fundo, a catedral da atual cidade do México; Muita história e muita cultura, as vezes ocupando o mesmo lugar - as ruinas do templo foram arrasadas e soterradas para a construção da cidade do México.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

NI UN MUERTO MÁS!

No tradicional e boemio bairro de Coyoacán, na cidade do México, um protesto contra a onda de violencia no pais. Coyoacán, que quer dizer "os lobos" no idioma nahuatl, era o bairro bicho-grilo onde moravam Frida kahlo, Diego Rivera e, também, Leon Trostsky.

sábado, 27 de agosto de 2011

ARRIBA, MUCHACHO!!

Estou abduzido estes tempos, em função de minhas atividades didáticas e dos preparativos de uma viagem; Estou indo apresentar um trabalho na Cidade do México...se der eu posto alguma coisa de lá

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SAMPA

O Pico do Jaraguá, ponto culminante da Panaméricas-de-Africas-Utópicas-Túmulo-do-samba-o-mais-possivel-quilombo-de-zumbi, bem no fim da tarde

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DARDANELOS

A cachoeira de Dardanelos em Aripuanã (MT) em 2006, antes da Usina Hidroelétrica...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O ABUSO DO ABUSO

(Mais um crônica antiga, publicada no Bacucu com Farinha  - aqui, com os comentários publicados à época - em novembro de 2008 ; Querido Neutinho, será que esse absurdo continua na Deitada-a-beira-do-mar?)

Uma das coisas mais repugnantes que existem é o abuso sexual de crianças e adolescentes. Por noticias que tive de amigos, o problema em Antonina, que sempre existiu, está atingindo proporções alarmantes. Miséria, falta de educação, de perspectivas de vida, tudo contribui para ambiente no qual o abuso vai ocorrer. O que, é claro, que não impede que o abuso ocorra em situações diferentes, e mesmo em famílias abastadas. Nestes casos é praticamente impossível punir os abusadores, uma vez que a própria família, por medo ou vergonha, acaba por proteger o abusador.

Segundo as pessoas que trabalham com vítimas de abuso sexual, o ato em si não é tudo: o pior e mais execrável é a seqüela psicológica. O abusado jamais se perdoa - ele se culpa e destrói tudo que vier pra fazê-lo feliz. É um ser humano incompleto. Por isso são vitimas fáceis da bebida, da droga, da prostituição.

Alem do abuso que ocorre dentro de casa, existem em Antonina grupos “organizados’ para perpetrar estas barbaridades. Em nossa orla, existem muitas pessoas que já vêm de Curitiba preparadas. Com doces, balas, pequenas quantias em dinheiro, as crianças são facilmente atraídas para as suas pocilgas. Os malacos levam muita bebida,vão sem as famílias. O processo se inicia com a criança se oferecendo pra varrer,limpar. Elas vão, depois se submetem, fazem os favores por 5 reais.

Os pais sabem do abuso não querem que ninguém se meta. Por vergonha, ou mesmo por receber vantagens (que vantagens, meu Deus?) nesse horrível comércio, quem deveria zelar se omite, e mesmo protege os abusadores. Por isso o Conselho Tutelar é inoperante na maior parte destes casos.

Esse é o caldo de cultura em que prolifera a prostituição infantil e juvenil, tanto de meninas quanto de meninos. Uma cultura onde a gravidez precoce é cada vez mais comum. Onde as drogas, principalmente as drogas baratas, como o crack, vicejam e se espalham como incêndio em capim seco, incontrolável. Onde pessoas como eu, você, nossos filhos ou netos, são arrastadas para o ralo, para a máquina de moer da sociedade, sem nenhuma chance de defesa. Pior, sem nenhuma piedade.

O que fazer? Tudo, ou quase nada. Participar como voluntário das ações do Conselho Tutelar ou da Pastoral da Criança, como tantos abnegados já vem fazendo há muitos anos. Criar novas oportunidades para estas crianças, através da arte ou do esporte, como o exemplo de Nite, publicado aqui no Bacucú com Farinha. Devemos denunciar as ações que levam ao abuso. Cobrar das instituições e autoridades políticas públicas de inserção social para as populações mais carentes. Punir a corrupção e os corruptos. Cobrar educação, educação, educação e educação. Só ela nos salva. Educação de qualidade para nossas crianças. E me perdoem o clichê, mas salvar o futuro de uma criança vale um passaporte para o paraíso. Onde quer que o paraíso esteja. Tomara que seja neste mundo mesmo, ali na Deitada-a-beira-do-mar....










segunda-feira, 15 de agosto de 2011

VIVA N. S. DO PILAR!!

(CANÇÃO DO EXÍLIO)


Palmas pulmões Palmares
minha terra não sabia,
o que se planta se dá:
arroz, feijão e pitanga
as aves que aqui gorjeiam
terreiros de saravá

Os poetas de minha terra
são cambistas, motoristas
declamando ditirambos
em torres de ametista
(os frutos podres das árvores
pedem pelo sabiá)


Palmas pulmões Palmares
em cismar sozinho à noite
(vontade de me casar!)
minha terra tem capela
lá no alto da colina
Da Senhora do Pilar

(1999)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

SEM PERDER A TERNURA JAMAIS


Eis que chega, a galope, o segundo domingo de agosto. Depois do dia das mães, do dia dos namorados e antes do dia das crianças, vem o famigerado dia dos pais. É uma data complicada, bem no meio do ano, num mês de cinco semanas, trinta e um dias e, pra piorar, mês de cachorro louco. Foi o mês do suicídio de Getulio e da renuncia de Jânio. Mês brabo, traiçoeiro. Em Antonina, é uma neblina só. Às vezes, que me lembro, limpava o tempo lá pelas duas da tarde. Lembro meu querido professor Zezo, aliás uma das maiores figuras de minha vida, que brincava quando via que a gente não tinha entendido a formula de báskara ou outra equação qualquer: “Tá com cara de neblina de agosto!”.

Quando eu ligava pro meu pai pra felicitá-lo pelo dia, este sempre me devolvia, debochado: “dia dos pais é todo dia!”. Mas não ligasse pra ver a encrenca que dava! Já comentei diversas vezes o quanto não entendia meu pai, e o quanto mais o entendi quanto mais fundo entrei neste estranho ramo, o da paternidade. Em primeiro lugar, pai é básico. Tem que falar o mais simples, o mais direto, o mais chato. Não interessa se você gosta ou não, o pai tem que dizer e você têm que ouvir. Faz parte, como diria o filósofo.

Meu pai tinha um jeito meio distante de nos tratar. Guardava certa formalidade, certa rispidez, um jeito meio sem jeito. Quando virei pai, me descobri também um pouco assim, formal e distante. Sim, a fruta nunca cai longe do pé. Não exigia que meus filhos me chamassem de Senhor e não de você, como meu pai exigia. Mas faltava algo, faltava um elo, e aquilo me incomodava. Demorei pra entender que meu pai era tão tímido e reservado quanto eu, e que o jeito distante e sem carinho era só o jeito dele, não era falta de amor. Era um amor simples, de pai amoroso e meio sem jeito de demonstrar o amor incondicional que ele nos devotava.

Alem de meu pai, sempre tive outras grandes figuras masculinas em minha vida, às quais também devo muito de minha maneira de ser e pensar (embora o que eu pense e faça, principalmente o que faço de torto e de errado na vida não tenha nada a ver com nenhum deles). O professor Zezo foi um deles. Meu avô materno, Seu Otavio Lima. Meus tios Edilson Leal, Edmilson Dahle, Fausto Lima, Milton Picanço... a lista é grande e eu paro por aqui, certo de ter cometido alguma injustiça com muitos que não citei.

Por outro lado, agora um profissional do ramo – em setembro deste ano faz 21 anos que eu entrei na função paterna – eu acho que tive alguns acertos, entre os muitos erros que a gente sempre comete, incondicionalmente. E admiro alguns amigos que são pais, confesso que sempre procuro imitar o que aprendo. Meu amigo Eduardo Pasko, grande geólogo hoje trabalhando no Tocantins, é um desses. Eu admirava – e invejava, por que não? – a facilidade que ele tinha (e tem) em conversar com os três filhos, em mostrar claramente o que ele queria, o que ele estava sentindo. Era pai e também era amigo, de um jeito que só se entende vendo, e que só se aprende fazendo. Por outro lado, eu sentia nos filhos dele pessoas que cresciam bem, amparadas e protegidas, nem que fosse só emocionalmente. Apesar de não conhecer pessoalmente o Cequinel, inenarrável impagável e imprestável diretor presidente das organizações Ornitorrinco, vejo nas suas manifestações na gloriosa blogosfera capelista um pouco desse desassombro de criar gente neste mundo às vezes tão bom, às vezes tão cruel e intolerante.

Por que é isso: aquelas criaturinhas bonitinhas, fofinhas e engraçadinhas crescem, criam espinhas, encorpam e vão viver suas vidas. Vidas que não pertencem a mais ninguém, eles estão sozinhos no mundo, assim como nós e nossos pais também estivemos até hoje. Filhos vêm sem manual do fabricante, são uma aventura ingrata e inglória, sem nenhuma recompensa a não ser a vida mesmo, os gens ali, se replicando, sem explicação maior. Não há explicação maior para a vida, pelo menos eu acredito nisso. Ser pai é ser duro, mas sem jamais perder a ternura, como diria o Che, ele mesmo um pai ausente, mas presente aos seus próprios filhos em termos de exemplo e carinhosa lembrança.




quinta-feira, 11 de agosto de 2011

TIPOS DE RUA OU CONHECIDOS POR APELIDOS

(meu avô, Maneco Picanço (1904-1968) tinha um diário onde anotava causos e eventos do cotidano da cidade; se tivesse conhecido a internet, "seu" Maneco teria sido blogueiro....)

João das Velhas, Manequinho Louco,Betara, Mané Alegria, Lisandro Corvo, João das Couve, Mandechuria, Benedito Maluco, Picangó, Cafuruçá, Gegé Rapoza, Família Rapoza, Manoel Flauta, Benedito Jacaré, Arrasta a Sandalia, Turco Secco, Chico Nhenhein, Piloto, Barreano, Corisco,Trovoada, Imediato, Jajá, Shazan, Mel Quitão(?), Mané Diabo, Prisciliano Páo

(NE – Esta lista contém alguns dos apelidos curiosos que nós bagrinhos cultivamos, e que foram anotados por Seu Maneco nos anos 1950; existem muitos mais, claro. Estou fazendo uma pesquisa para publicar os diários completos de seu Maneco, e agradeceria se alguém tiver alguma informação biográfica sobre as pessoas citadas; podem me mandar aqui nos comentários ou para meu email: jeffpicanco@yahoo.com; abraços a todos)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

GUARDA-TE LÁ


O Canyon do Guartelá em abril deste ano; o nome, segundo os guias do parque, vem de um recado de um fazendeiro, que estava cercado pelos indios Kaingang  a outro, que lhe perguntou se precisava de ajuda: "Guarda-te lá que aqui estou bem".



terça-feira, 9 de agosto de 2011

VAI UMA BALINHA AÍ?

(esta é uma crônica antiga, de novembro de 2008, publicada no Bacucu com Farinha (ver aqui), de meu inoxidável amigo Neuton Pires)

Ao chegar a Antonina, eu sempre reparo, logo na entrada, na alegria do bairro do Batel: as pessoas a pé, de bicicleta, andando de lá pra cá e conversando, alegremente, nas igrejas, nos botecos, nas casas. Pra quem vem de Curitiba, todos sabem, isso faz diferença. Significa: estou em casa.

Quando estou longe, no entanto, eu quero guardar algo dessa alegria comigo. Para tanto, recorro às lembranças dos amigos, da infância, dos momentos bons. Passo tempo lembrando coisas, olhando fotos velhas, lendo e rabiscando, olhando os blogs capelistas, como diz o “vox populi”.

Existe, porem, outra coisa que me diz disso tudo sem ser velho ou saudosista. São as nossas gloriosas balas de banana. Existe a Bala Antonina, assim como existe a Bala Pilar, que recentemente perdeu o direito de usar a marca para um concorrente mineiro. Virou Bala Polar, mas continua igualmente doce. Doces recordações de uma atmosfera mágica de infância, a se dissolver lentamente na boca. Antigamente se dizia que quem bebia da água da Fonte da Laranjeira nunca mais se esquecia de Antonina. Hoje, as Balas Antonina cumprem esse papel magistralmente.

Certo dia estava em Belo Horizonte, no escritório central da empresa onde trabalho, e levei um pacote de balas de banana. Do diretor-presidente à faxineira, criei uma legião de fãs da bala de banana. “É da minha terra”, explicava. “Lê o nome ali no rótulo”. Passei o resto do dia com pessoas vindo á minha sala: “tem mais daquela bala gostosa aí?”.

Uma visita básica ao google, e descubro mais: milhares de entradas para “balas de banana antonina”. Muitas, mas muitas vezes, as balas geram singelas declarações de amor. Para Ivan Sebben, estudante de jornalismo da UFPR, em seu blog, durante o festival de inverno, “o carisma da pequena açucarada logo se fez notar em incontáveis pequenas embalagens ao léu. De repente, fulano ia escrever, e esbarrava a mão em algo. Era ela, miúda e sapeca, escondida debaixo do papel, uma bala de banana!”. Em outro blog, o rapaz guardava no bolso uma bala de banana pra presentear a namorada. Enfim, em todas as histórias lá estava ela, miúda, a desnudar carinhos, a espalhar doces prazeres.

Em outra entrada do google, descobrimos que as Balas de Banana Antonina foram criadas em 1975 pra substituir a declinante produção de palmito. Soubemos que as balas de banana são feitas com bananas caturra selecionadas, plantadas na sombra para evitar pragas. Que o processo é inteiramente artesanal, entrando somente a banana e o açúcar. Que em Morretes também tem... hummm...não, Morretes não tem Bala de Banana Antonina!!

Em tempos de globalização, sugiro que o processo de fabricação das balas de banana seja registrado como os da União Européia, que gerou as marcas do vinho, do queijo, do champanhe. O vinho Bourdeaux (pronuncia-se bordô) é somente o vinho produzido na região de Bourdeaux, segundo os métodos registrados. O champanhe é a bebida fabricada na região da Champagne, e os demais serão considerados meros espumantes. “Balas de Banana de Antonina” são as balas feitas na região de Antonina segundo o método tal e qual.

Que orgulho! E que prazer! Vai uma balinha aí?

(PS - Aqui em Campinas, o pessoal tem me cobrado: "pô, você não traz mais as balas de tua terra"...é, preciso dar um pulinho ai, moçada!!)

domingo, 7 de agosto de 2011

ANTONINA ANTIGA - III


Até o final dos anos 1960, esse era o portal da Estrada da Graciosa. Para os bagrinhos, que tantas e tantas gerações lutaram para que a estreita e tortuosa estrada para o planalto fosse o caminho – o único! – para a capital, esse marco significa antes de mais nada, um marco zero. A Estrada da Graciosa era o principal trunfo dos primitivos capelistas em favor de seu porto, que distava, pela Graciosa, somente 80 km da capital. Por Paranaguá, o caminho por terra era de 120 km.

Quando D. Pedro II definiu, em sua visita a Antonina (ver aqui), que a estrada de ferro seria construída por Paranaguá, foi uma ducha de água fria nos ânimos capelistas. A concessão do ramal Morretes-Antonina foi tardia – havíamos perdido a guerra dos portos no tempo do Império.

Nos anos 1930, no auge de nosso porto, foi encampada uma luta pela desequiparação dos fretes ferroviários. Em 1938, durante a visita de um ministro dos transportes do governo varguista, os antoninenses protestaram – e conseguiram por um breve período – que os fretes antoninenses não tivessem a concorrência desleal dos subsídios dados aos fretes parnanguaras. Mas foi só. Dos anos 50 pra cá, Paranaguá só cresceu enquanto Antonina minguava.

Esta foto, de idade incerta, mas provavelmente dos anos 1950 ou 1960, mostra o monumento tal como era antigamente, na entrada da cidade, praticamente em frente ao atual hospital Silvio Linhares. Foi removido na gestão modernizante do Dr Romildo Gonçalves Pereira, e colocado lá perto do “Guapê”, então a entrada da cidade. Lembro que meu pai protestou contra a remoção do monumento. Era, segundo ele, uma descaracterização da cidade e de sua história. No lugar onde se encontrava, foi colocada uma placa de bronze e alguns azulejos – não sei se a placa ainda está no lugar ou se foi removida.

Por um lado, olhando de hoje, acho que era necessária a remoção ou remodelação do Portal – a cidade cresceu e veículos maiores não passariam por ali. Creio que foi essa a intenção do Dr Romildo, cuja gestão se caracterizou, entre outras, pela demolição do antigo mercado e pela construção da atual rodoviária. Foi nesse momento, aliás, que ele e meu pai brigaram. Meu pai não via sentido em tanta demolição, e eu acho que ele também tinha razão. Não se moderniza apagando o passado, e existiam - e existem - outras alernativas para a conservaçao de monumentos. Sem contar que o Portal é turístico e charmoso, na entrada da cidade.

Por outro lado, é inegável que as cidades crescem: também a antiga Constantinopla, atual Istambul, superou suas muralhas por duas vezes. A diferença é que se você for ver a muralha construída por Constantino no seculo IV d.C. ela ainda está lá - em ruínas, mas está. Nosso progresso, embora necessário, é feito de maneira estúpida, destruindo o passado pra construir o futuro, mas que futuro? A nossa atual rodoviária é hoje um monumento ao nada, é um estorvo sem nenhuma beleza nem eficiência. O mercado construído nos anos 70 foi destruído e reconstruído de novo, numa obra que levou anos pra ser terminada. O que o atual mercado contribui para nossa história e para a nossa bela paisagem?

Voltemos à nossa foto. A foto em questão foi tirada num fim de tarde, e num belo dia de sol. O Morro do Feiticeiro, lá atrás, sem nuvens, nos dá garantia disso. Pelos postes de luz, parece ser coisa dos anos 50 ou 60. No centro do portal e da foto, um menino – quem seria? – posa comportado, com as mãos para trás. O calçamento parece que não existe, e a grama – ou o mato mesmo – crescem na coluna à nossa direita. As colunas do portal, com uma decoração geométrica bem simples, estão aparentemente pichadas com símbolos de notas musicais.

O Portal da Graciosa surge na foto como um guardião de uma cidade branca e radiante por trás dele, numa perspectiva simples, mas, com o perdão do trocadilho, graciosa. No entanto, sabemos que hoje essa cidade graciosa por trás do portal não existe mais. Existem outras cidades, outras Antoninas, umas melhores e outras piores, mas todas cheias de uma gente tão alegre e hospitaleira que o coração da gente se enche de paz e inspiração.

sábado, 6 de agosto de 2011

TEMPESTADES


Van Ruisdael, "The tempest"

Em Janeiro de 1846, Vieira dos Santos, na "Memória Histórica de Morretes" descreve outro grande Desastre Natural na região, segundo ele provocada por ventos de Leste. Houve inundação em Morretes e grandes deslizamentos de terra na Serra do Mar,destruindo pontes e estradas. Já temos, portanto, duas citações destes Desastres nos no séculos XVIII e XIX (ver aqui no blog). E no século XX, alguem registrou algo parecido? com voces, o texto de Vieira dos Santos, na grafia original:

"Nos dias 28, 29 e 30 de Janeiro tendo havido copiôzas chuvas sem çessar de dia e de noite em tão grande cópia, e tangidas por fortes ventos Leste e mormente contra as altas Serras, cujas torrentes aglomerando se no grande rio Cubatão [Nhundiaquara], fizerão elevar a corrente de suas agoas a mais de 25 palmos de altura, e foi memorada esta grande cheia como hum segundo Dilúvio nunca acontecido desde o primeiro em 1796. Esta grande enchente sahindo da madre natural do Rio cobrio todas as várzeas lateraes do mesmo, no local desta Villa todas as ruas ficarão inundadas e em alguas a agoa chegou até meios edefiçios, a môr parte dos habitantes se forão acolher ao alto da Igreja e nella procurar abrigo, e outras, em alguas Cazas mais altas ao nível das ruas, nas noites de 20 [29?] e 30 cauzou terror aos habitantes estas grandes massas dagoas despenhando se das altas Serras fez desabar pedaços das mesmas montanhas, e principal na estradas de Coritiba e do Arraial; fes demolir todas as pontes, e te a que atravessa a do ribeirão no meio da Villa, arruinarão se alguns edeficios, houverão grandes avarias no gêneros Commerciaes depositados nos Armazéns e Agricultura sofreo grandes estragos em suas lavouras: esta enchente inda durou mais dois ou três dias em sua vazante te ficarem as agoas no seu curso natural. "

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

DE BAGRES SE FAZ A CRÔNICA

Diz-se por ai que a crônica é um gênero literário leve, despretensioso e menor. É verdade e não é, acredito eu. Alguns, os mestres do gênero, faziam da crônica até a não crônica. Rubem Braga, por exemplo. Ele ia desenvolvendo um assunto como não queria nada – às vezes não queria mesmo! – escrevia, colocava uma flor aqui, um livro ali, uma observação acolá, e um final que nos deixava boquiabertos: havia nos enrolado direitinho, nos fazendo ler até o fim aquele monte de nadas que ele ia tecendo com sua Remington, tipo por tipo. Genial. Outros que adoro: adoro ler o Cony e o Ruy Castro, na Folha, assim como adoro ler o Veríssimo, um craque do gênero.

Antigamente, tinha o Carlos Drummond de Andrade, que riqueza! Tinha também o Lourenço Diaféria, no Estadão. Adorava ler o Mauro Santayanna, que escrevia antigamente na folha de São Paulo. Tempos atrás, tive a oportunidade de dizer isso pessoalmente a ele, num avião que pegamos de Brasília para BH. No começo ele até ficou assustado com meu assédio, depois abriu um sorriso simpático e me deu um aperto de mão. Ganhei meu dia.

E os cronistas políticos? Lia sempre, sem entender nada, o Carlos Castelo Branco, o Claudio Abramo, e outros. Quando era bom, lia o texto do cara, mesmo não concordando com ele. Era o caso do Paulo Francis, que adorávamos odiar. Cuidado com ex-trotskistas, como disse estes tempos Daulo Toberto Nequinel, da boquirrota Ornitorrinco Corporation, ele mesmo se definindo um trotskista moderado (Que quer dizer isso mesmo, Gequinel?). Bom, como já dizia, cuidado com ex-trostskistas. Eles são capazes de tudo, até escrever certo por linhas erradas. Paulo Francis era um desses.

Na crônica esportiva, adorava, na Gazeta Do Povo, o Carneiro Neto, por razões quase óbvias (aliás, faltam 39 pontos pra alcançar 47 e fugirmos do rebaixamento este ano, moçada!!). Hoje, curto muito o José Roberto Torero e o Xico Sá, da Folha, embora ambos tenham uma paixão clubística por certo piscídeo da Baixada Santista. O Juca Kfuri, com seu sambe de uma nota só contra a corrupção no futebol é leitura obrigatória de quem gosta dos temas de bola no pé.

Quando a blogosfera antoninense surgiu, eu lia com muito interesse os textos do meu querido Nerval Pires, que conheço desde os tempos de guri, quando ele tinha um programa na Rádio. Até hoje, não perco os textos do Bó, nosso decano-mor da blogosfera, conosco desde os tempos do jornalzinho de stencil. Também eram interessantes os textos de nosso querido Guardião Do Portinho. Onde andará nosso cavaleiro solitário? Será que ele foi desalojado na tragédia de março?

Tudo isso pra dizer que estou achando nossa blogosfera, inclusive o Bacucu com Farinha, do indômito Neutinho Pires, e o meu Urublues, um tanto sem sal. Tem cerca de 15 blogs dos mais diversos assuntos e interesses, dos mais diversos matizes ideológicos e religiosos e clubísticos, mas o clima está meio assim-assim, de marasmo, de esperar-como-está-pra-ver-como-fica. Ninguém se arrisca a um movimento, ninguém sai da intermediária. Será que, tirando o incansável Bó, nós outros cansamos? Será que está todo mundo esperando a procissão do dia 15? Será que estão esperando pra definir os candidatos nas eleições do ano que vem?

Bagre que dorme a onda leva...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

DOUTOR PELO REEMBOLSO POSTAL


Certa ocasião na Camara Municipal o vereador Alfredo Jacob, desejando fazer prevalecer a sua personalidade , estando com a palavra, e recebendo diversos apartes, entre os quais do vereador Manoel Picanço, desejando fazer demagogia, respondeu ao aparte, dizendo que ele, formado de acordo com o titulo que possuia, não responderia aos apartes do vereador Picanço, porque este vereador somente servia para ministrar crianças...E o vereador Picanço respondeu...
- "Eu somente sirvo para ministrar crianças, porque não tive a felicidade do nobre colega em receber um titulo de Doutor pelo Reembolso Postal!"