terça-feira, 22 de janeiro de 2019

NEGACIONISTUS


Arte: Julian Fagotti
(Para Leda Gitahi)

Não há como negar: um dos gêneros mais comuns e importantes do período entre o Devoniano e o Cretáceo foram os anfíbios do gênero negacionistus. Estudos recentes da Paleontologia Imaginária jogam luz sobre alguns aspectos até então pouco esclarecidos do negacionistus e apontam novas causas para seu surgimento e posterior extinção (Souza & Brown, Imaginary Paleontology Review, 2019).


Segundo o trabalho citado, existiriam diversas espécies de negacionistus, cada uma adaptada ao seu paleo-ambiente. Uma das espécies mais antigas é o negacionistus holocausticus, que data do Devoniano inferior (S. Wiesenthal, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginaria de Tell Aviv, 1959). Segundo Wiesenthal, o n. holocausticus tinha olhos grandes, mas provavelmente tinha dificuldades de enxergar. O que em certa medida explica o seu desaparecimento, ao final do Permiano.


Da mesma forma que o negacionsitus holocausticus, o negacionustus climaticus foi outra espécie importante no registro paleontológico imaginário. Seu maior período de difusão parece ter se dado entre o Jurássico e o Cretáceo, tendo desaparecido ao final deste ultimo período. Não há evidências de n. climaticus acima do limite Cretáceo/Terciário, o limite K-T (Anais do Congresso de Paleontologia Imaginária de Honololu, 1959).


Ao que tudo indica, o n. climaticus tinha olhos bastante desenvolvidos, mas não conseguia enxergar com clareza (Lindzen & Ferry, Imaginary Paleontological Review, 2009). Também não eram muito bons em estatística, e não entendiam cálculos matemáticos e modelos climáticos complexos, o que pode, segundo alguns, ter levado a sua extinção ou reprovação em massa (Koch & Koch, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginaria da Filadélfia, 2005). Como quase todos os anfíbios, o n. climaticus também tinha uma língua retrátil longa, ferina e pegajosa. Seus alvos preferenciais, de quem se alimentava, eram insetos do gênero incautus sp (Exxonmobil, Secret Report, 2005).  


Um dos trabalhos mais interessantes para se entender o gênero negacionistus com certeza foi o de Sigmund Freud. Antes de se tornar o pai da psicanálise, o jovem Sigmund dedicou-se à paleontologia, e fazia trabalhos de campo em diversos sítios fossilíferos imaginários ao redor de Viena. Suas descobertas mais importantes resultaram num trabalho publicado nos Anais do Congresso Paleontológico Imaginário de Viena, 1890. Neste texto recentemente redescoberto, Freud percebeu que os negacionistus, apesar de bem equipados para a sobrevivência ao ambiente hostil do cretáceo, escolhiam negar a realidade como forma de escapar de verdades desconfortáveis. Ao fazê-lo, segundo Freud (op. cit.), as espécies de negacionistus acabavam por aceitar fatos alternativos e hipóteses de difícil comprovação empírica.


Existem alguns trabalhos que fazem uma relação entre o negacionistus climaticus e outras espécies, como o terraplanistus sp, o fascistus sp e o criacionistus sp (Trump, 2016; Bolsonaro et al., 2019). No entanto, embora similares, estudos recentes comprovam ser espécies distintas, porem adaptadas ao mesmo meio ambiente. Existe mesmo a hipótese de algumas destas espécies serem extraterrestres, com indicações de derivação lunática (Damares Alves, comunicação pessoal, 2019; D. Bertrand de Orleans e Bragança, 2018, Anais do congresso de Paleontologia Imaginaria de Petrópolis).


Um animal estranho e monstruosos num tempo estranho, como foi o Mesozoico, o negacionistus climaticus, apesar de suas vantagens competitivas, teria sido extinto junto com os grandes dinossauros. Uma teoria muito aceita no passado diz inclusive que os n. climaticus negaram a possibilidade de choque de meteoros com a Terra no final do Cretaceo (Suguio, Imaginary Paleontology Review, 2012).


No entanto, alguns dados recentes mostram que eles se extinguiram um pouco antes, no Cretáceo médio (Heartland Institute, Special Report, 2010). Segundo a teoria mais aceita atualmente, com a deposição de evidências cada vez mais esmagadoras, os n. climaticus foram soterrados por toneladas destas mesmas evidências que eles negavam, e acabaram se extinguindo (IPCC, 2006). Nem precisou de meteoro. 


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

TIROTEIOS NO CASAMENTO


A estrada de Guapiara a Apiaí hoje; foi por ela que os escoteiros passaram em dezembro de 1941;

(Para Salvador dos Santos Picanço, o maior incentivador para que eu escrevesse/reescrevesse esta historia)

Era sete horas da manhã quando os escoteiros se puseram na estrada, deixando Apiaí para trás .
Agora eles andavam por uma rodovia movimentada, e não mais numa estrada secundaria no meio do nada. Ao contraio do Vale da Ribeira no trecho paranaense, o tráfego de automóveis e ônibus ali era intenso. Volta e meia passava um carro ou ônibus e levantavam muita poeira, as vezes quase impedindo-os de enxergar claramente à frente.
A fina poeira do planalto de Apiaí era constantemente sacudida pelos carros da Viação Pássaro Azul e do expresso Paraná/São Paulo. Os ônibus da Viação Cometa também passavam. A poeira e o calor eram muito fortes. Ao meio dia, os rapazes pararam para descansar e comer um pouco. Almoçaram o farnel que traziam, resultado da noite anterior: costela de porco assada, pão e café.
Durante a caminhada eles continuamente assoviavam canções escoteiras, em geral dobrados que eram executados pela banda dos escoteiros, lá em Antonina. Era uma forma de passar o tempo, e superar o cansaço da viagem. Assim, iam alegremente a frente, cantando suas canções prediletas.
Quando as dificuldades e o cansaço surgiam, Lídio nos diz que eles procuravam lembrar-se da 8ª lei do escoteiro: “o escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades”. Com estes pensamentos em mente, e ritmados pelo som dos dobrados da sua banda, os meninos atravessaram os morros do planalto de Apiaí durante todo o dia.
Ao final do dia, estavam chegando na povoação de Banhado Grande. Banhado Grande era muito pequena, uma povoação à beira da estrada e composta por 9 casas de madeira, bem conservadas. Os rapazes procuraram pouso por ali. O inspetor de quarteirão da povoação os colocou numa velha casa abandonada. Foi um alivio, ter um teto para dormir!
Antes de se acomodarem, porém, os rapazes viram uma cerimonia de casamento celebrado na vila, e que os impressionou a todos. Lídio nos conta que o noivo chegou montado num belo cavalo negro, acompanhado de uma guarda de honra. A seguir, a noiva chegou numa carroça puxada por dois cavalos, toda enfeitada de flores. Atrás da carroça da noiva, vinha outra carroça enfeitada de flores com as damas. As damas estavam todas vestidas de branco, o que fez um belo contraste com as cores da paisagem.
Na casa do inspetor de quarteirão, onde seria celebrada a cerimonia, estavam aguardando os noivos o juiz de paz e o escrivão de Apiaí. A cerimônia foi celebrada, como de praxe. Na saída da cerimonia, em vez do tradicional arroz, os homens sacaram de seus revólveres e atiraram para o alto, em grande algazarra. Uma barragem de fogos também ocorreu, ensurdecendo a todos. Lídio notou que o foguetório assustou os animais.
Findo o casamento, o inspetor de quarteirão ofereceu uma janta aos rapazes, que estavam bastante impressionados com a cerimonia que haviam assistido. Durante a a jante, ele perguntou ao Inspetor sobre os caminhos que deveriam seguir nos próximos dias, seus problemas e dificuldades. E também contaram ao homem sobre a viagem e sobre os episódios que viveram até ali.
De tanto que falou da viagem, de Antonina e dos seus familiares lá longe, Lídio nesta noite teve dificuldade de dormir. ficou horas e horas no escuro, olhos abertos, lembrando de seus pais e familiares, lá na distante Antonina.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

FESTA DE SÃO BENEDITO


O centro da cidade de Apiaí em 1939-41

Para Alexandre Oliveira, meu querido amigo Alê

Os bravos escoteiros chegaram em Apiaí no dia 26 de dezembro de 1941. Cansados depois de vencer a Serra de Apiaí numa noite, vindos de Capela da Ribeira, eles foram procurar o prefeito municipal. Ao chegar numa cidade, os escoteiros tinham por obrigação procurar as autoridades para assinar o livro que dava conta da passagem deles pelo local.
No entanto, o prefeito de Apiaí, o Senhor Isaias Teixeira, acabou por fugir dos meninos. Estes o viram quando ele entrou em sua casa, em companhia de outro homem. No entanto, ao baterem na porta, informaram que ele não estava. Tudo Isso, segundo Lídio, porque o prefeito receou que eles fossem mendigar estadia no seu hotel, o Hotel Teixeira, o melhor hotel da cidade. “Isso nunca será esquecido por nós”, anotou Lídio em seu diário.
Por fim, os rapazes acabaram por montar barraca numa clareira perto da cidade. Haviam decidido não caminhar mais aquele dia, pois estavam todos cansados e com assaduras nas pernas. O local onde acamparam era um terreno onde havia um hospital em construção. Ali colocaram as lonas e se abrigaram do sol inclemente.
 Apiaí está localizada a mais de mil metros de altitude, num topo de morro, com uma avenida principal serpenteando pela cumeeira. Descendo desta avenida estão as ruas centrais onde estão as casas das pessoas mais ricas do lugar. Nos vales mais abaixo se encontram as casas mais simples, das pessoas mais pobres. Lídio anota que cerca de 70% das pessoas em Apiaí eram negros, provavelmente descendentes dos que trabalharam como escravos nas ricas Minas de Apiaí, que tanto fizeram a fama da cidade.
Apiaí tinha funcionando próxima da cidade a Mina do Morro, uma das mais importantes minas de ouro do vale do Ribeira. Explorada por uma empresa japonesa, a mina estava escavando galerias e tirando o ouro por métodos modernos de extração para a época. A exploração foi interrompida quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo, poucos meses depois da passagem dos escoteiros por Apiaí. A área da Mina do Morro hoje em dia é um parque bem próximo da cidade, com intensa visitação.
Do outro lado da cidade, a Usina Experimental de Chumbo, no bairro do Palmital, havia iniciado naquele mesmo ano de 1941 sua produção. Construída pelo governo paulista com a administração do IPT, a Usina Experimental também era uma aposta do governo paulista na exploração de chumbo e prata por técnicas mais modernas e baratas, viabilizando a produção das pequenas minas da região. Fechada durante a guerra, entretanto, a usina nunca mais funcionou.
No dia em que os rapazes por lá chegaram, a população negra de Apiaí estava em festa, pois era dia de São Benedito. Os rapazes, depois de um descanso, fizeram uma janta composta por costela de porco assada, pão e café de coador. Depois que o sol baixou, as cinco da tarde, eles foram à cidade para apreciar a festa em homenagem ao Santo.
A procissão, composta quase que totalmente por negros, era bastante impressionante, segundo o relato de Lídio. A confraria de São Benedito da cidade de Apiaí, carregava a estátua do Santo pelas ruas, ao som de cânticos, seguida por uma multidão. Os membros da confraria, responsáveis pelo andor, vestiam uma túnica branca e portavam tocheiros com vela.
Depois da procissão, já cansados, os rapazes voltaram ao seu acampamento improvisado nas obras do hospital, onde dormiram um sono pesado.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

UMA CABANA NA SERRA DE APIAÍ


A cidade de Ribeira, antiga Capela da Ribeira, no tempo que os escoteiros passaram por lá; foto aérea obliqua tirada entre 1939-41 (aqui)
Depois da grande festa do Natal, os escoteiros acabaram por acordar tarde. Iam acordando uns aos outros, sonolentos, ainda com um pouco de ressaca da festa. Lídio conta que tomou café com maisena e uns doces que haviam sobrado da ceia. Irrequieto, foi passear.
Na cidade, o jovem escoteiro ficou abismado com os buracos de balas de fuzil e metralhadora ainda visíveis na pequena igreja matriz de Capela da Ribeira. Eram resquícios dos enfrentamentos entre tropas paulistas e paranaenses durante a Revolução Constitucionalista de 1932, ainda presentes nove anos depois. “Nem a casa de Deus eles respeitaram”, anotou depois em seu diário.
Pouco depois, ele fez o caminho de volta e foi até o posto fiscal de Paranaí, hoje conhecida como Adrianópolis. Lá, não encontrou os fiscais com quem havia feito camaradagem no dia anterior. E voltou à Capela da Ribeira.
Naquele tempo as duas cidades eram pequenas, e o surto industrial e mineiro estava ainda começando. Restritas pelo vale do rio Ribeira e pelos morros íngremes formados por rochas muito antigas, as duas cidades eram uma só. As casas eram construídas ao longo do único caminho possível. Somente onde o rio havia deixado algum terreno plano é que as duas cidades se espraiavam, ainda que pouco.
Lídio conta que os habitantes nunca haviam visto um escoteiro. E ainda mais aqueles, de uniformes e seguindo rumo a uma importante missão. Todos ficaram impressionados. As mocinhas, ainda mais.
Lídio nos conta de Iolanda, filha do padeiro, por quem teve seus sentimentos e que, por fim, deixou saudades. Manduca então reclamou que Lídio tinha “imã” para as mulheres. Lídio então brincou e disse que era porque Manduca tinha cabelo feio. Milton, mais lacônico, acompanhava a conversa rindo ora de um, ora de outro.
Durante a tarde, os rapazes não fizeram nada. Ou melhor, fizeram. Foram para o rio tomar banho e amenizar o calor. Diversos outros rapazes e moças da cidade (mais moças que rapazes, segundo anotou Lídio) também ficaram lá com eles na pequena praia de rio. O tempo passou e eles nem sentiram.
Os rapazes se despediram de Capela da Ribeira, onde tiveram acolhimento tão bom, e seguiram viagem. Saíram as oito da noite para uma caminhada noturna subindo a serra de Apiaí.
Todos eles haviam participado já de caminhadas nestas condições. A Patrulha Touro dos escoteiros de Antonina havia participado de diversas corridas do facho e subidas pela Serra da Graciosa. Pela sua experiência e resiliência é que foram os escolhidos para a missão.
Entretanto, a serra de Apiaí não era um desafio fácil. Pedregosa, coma estrada precária, a progressão era lenta. Apesar de estar mais fresco, a escuridão era total, e os meninos foram seguindo a trilha em fila indiana, com o auxilio de lanternas. Depois de cerca de cinco horas de intensa caminhada serra acima, encontraram um pequeno casebre abandonado na beira da estrada.
Exaustos, decidiram passar ali a noite.
Acordaram as cinco da manhã. A claridade fazia ver as rochas esparsas no alto da serra, assim como a floresta cerrada. Um espesso nevoeiro cobra os vales. Os rapazes ouviram um barulho de água ali por perto. Era um regato que cruzava a serra e fazia um barulho da água passando por entre as pedras. No entanto, o acesso até ele era difícil, pois o regato corria alojado numa ravina bastante funda, de acesso difícil.
No entanto, obstinados em tomar um café, os rapazes se aventuraram a descer a barroca para pegar água e trazer lenha para a fogueira. Todos, menos Milton. Ele fora poupado, pois a caminhada noturna havia produzido uma enorme assadura em suas virilhas.
As sete da manhã, depois do café, os rapazes voltaram à trilha. O sol alto ia castigando-os todos. Lídio conta que as pernas estavam todas arranhadas pelo capim corta-rapaz, e o sol fazia os arranhões queimar e coçar.
Somente lá pelas onze horas da manhã que eles finalmente chegaram à vila de Apiaí, novo trecho da jornada.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

UM NATAL NA CAPELA


A pracinha de Ribeira (SP), em dezembro de 2018...como ela era em dezembro de 1941, quando os escoteiros de Antonina passaram por ali?
Os escoteiros acordaram cedo naquela véspera de Natal. Era o Natal de 1941. Um natal triste para muita gente em muitos lugares do planeta. A guerra seguia feroz na Europa.
Os soviéticos lutavam desesperadamente para manter Moscou e Leningrado, ameaçadas pelas tropas Nazistas. Na África, a luta era por Bengazi, na Líbia. No entanto, era na Ásia que a guerra estava mais violenta. Os americanos estavam sendo derrotados nas Filipinas e os ingleses lutavam desesperadamente para manter Hong Kong frente ao avanço japonês.
Por outro lado, os meninos deixaram Epitácio Pessoa as 7 horas da manhã, agradecendo o pouso e a boa acolhida na vila. Agora desciam a estrada margeando o rio Grande rumo à Barra Grande, onde encontrariam o majestoso rio Ribeira de Iguape. Dali, era só seguir para Adrianópolis e cruzar a ponte que já estariam em São Paulo, etapa seguinte da marcha.
No caminho Lídio notou maravilhado os inúmeros monjolos que iam encontrando no caminho. Anotou que estes moinhos rústicos eram muito uteis naquelas paragens distantes, onde não havia energia elétrica ainda. E notava o movimento do soque com uma certa nostalgia: “um sobe e desce sem parar, um barulho gostoso de se ouvir”.
Os meninos chegaram na localidade de Descampado ao final da manhã. Lá, tiveram um contratempo, pois ninguém ali quis vender comida para eles. Nem um pãozinho. Fosse porque não tinham, fosse porque não queriam vender nada aos forasteiros, os rapazes tiveram que se contentar em comer biju com chimarrão.
Lídio anotou que, apesar de "desnutridos", os rapazes continuaram a caminhada sem queixas ou lamentações. Segundo ele, haviam perdido 6 quilos cada um nesta primeira etapa da viagem. E a tendência era perder ainda mais, anotava.
A viagem pela “estrada provisória” seguiu até Barra Grande, onde encontraram o Ribeira. Em dezembro, o rio estava barrento por causa da estação das chuvas. Somente algumas pedras eram visíveis ao longo do rio.
Cercado por morros bastante íngremes e com uma vegetação em diferentes tons de verde, os rapazes finalmente avistaram a rodovia federal, que chegava até Paranaí, a atual Adrianópolis. Antes de cruzar a ponte de concreto que ligava Adrianópolis a Capela da Ribeira – hoje o município paulista de Ribeira – os rapazes tomaram um chimarrão com os fiscais estaduais e federais no lado paranaense da ponte. E só depois cruzaram o rio.
A ponte sobre o Ribeira é uma luta eterna das duas comunidades, Ribeira e Adrianópolis. Esta que os meninos cruzaram foi a primeira ponte de concreto. O rio Ribeira, cheio de energia, não está nem aí para as pontes, e já derrubou todas elas. A atual ponte de concreto, a mais alta e reforçada de todas, foi construída em 1998-99, depois de ter sido destruída por uma forte cheia.
No lado paranaense, Lídio anotou, cheio de certa nostalgia, que havia do lado paranaense um grande outdoor onde estava escrito: “Paraná, Terra dos Pinheirais”.
Ao fim da tarde, na cidade de Capela da Ribeira, os rapazes procuraram as autoridades locais. Encontraram o Secretário da Prefeitura. Este avisou que ali não havia pensão suficiente para abriga-los todos, e o prefeito estava viajando. No entanto, o secretario lhes ofereceu sua própria casa.  
Depois de tomar banho no rio Ribeira e colocarem os uniformes “de gala”, os meninos foram para a praça principal, onde fizeram uma rápida reunião. Nesta reunião eles decidiram os próximos passos rumo a capital São Paulo, próxima etapa da viagem.  E decidiram enviar um telegrama para Antonina, para avisar que estavam todos bem.
Qual não foi o espanto dos rapazes ao descobrir que haviam dois telegramas esperando por eles, datados de dois dias antes: um da prefeitura municipal, avisando da presença dos escoteiros por ali. O outro telegrama era do chefe Picanço, pedindo para que o Chefe Beto entrasse em contato com ele, pois todos estavam ansiosos por notícias. Era o primeiro contato que tiveram desde que haviam saído de Antonina, oito dias antes.
Os escoteiros mandaram orgulhosos um telegrama: “Capella da Ribeira 24 dezembro 1941: chegamos hoje bons vencemos primeira etapa continuamos amanhã noite – Sempre Alerta! Beto Milton Lidio Manoel Antonio”.
Os rapazes ainda cheios de energia alugaram umas bicicletas e foram passear, menos o chefe beto e Canário, que ficaram no banco da praça descansando. Lídio ainda teve tempo de mandar cartas para a família e amigos. Também foi à alfaiataria do Elpidio. Lídio ainda mandou costurar suas calças descosturadas na entreperna, além de consertar um sem-número de botões da roupa dos demais.
Houve um apagão de energia elétrica, que durou até as nove da noite. A energia vinha de Apiaí, e demorou a ser reparada. Que inconveniente conveniente! Enquanto isso, os rapazes ficaram na praça escura e até arrumaram umas namoradas.
Depois, à meia noite, os rapazes assistiram a missa do Galo em Capela da Ribeira, ministrada pelo padre de Apiaí. Lídio aproveitou seu curriculum de coroinha e ajudou o padre, junto com uma menina que era Filha de Maria. Foi um comentário só na igreja: um coroinha vestido de escoteiro!
Depois, os rapazes participaram da ceia na casa do secretario municipal, onde estavam alojados. Foram servidas gasosa, soda limonada e vinho, além de um grande bolo com motivos natalinos.
Já era quase duas da manhã quando todos, exaustos, foram dormir. 
Dingobells!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A VILA DOS FUGITIVOS

A atual cidade de Tunas do Paraná em 1955, quatorze anos depois dos escoteiros atravessarem a região 

Apesar de dormirem num paiol de milho cheio de ratazanas no lugarejo chamado Tuneiras, os rapazes acordaram animados naquela terça feira, 23 de dezembro de 1941. O final da primeira etapa da viagem, a cidade de Capela da Ribeira, já no estado de São Paulo, poderia ser finalmente alcançada.

Eles seguiram então no rumo norte, pela “estrada provisória", que ligava parcialmente Curitiba à Capela da Ribeira. Segundo o diário de Lídio, a estrada era muito malconservada, cheia de buracos, com pontes de madeira apodrecida. Ao longo da estrada, estavam passando continuamente tropas de mulas carregando balaios com milho e feijão. De vez em quando, uma carroça puxada por bois se fazia ouvir de longe, cortando o silencio da paisagem com sua estranha música.

Logo adiante os meninos ficaram assombrados: estavam passando pela Garganta do Leandro, onde o rio Passa-Vinte formava uma grande cachoeira. Para Lídio, o barulho era equivalente a um trovão, e podia ser ouvido a muitos metros de distância.

Depois deste espetáculo bonito da natureza, começou outro, macabro: ao longo da estrada viam-se aqui e ali diversos esqueletos de caminhões de combate, enferrujando no clima quente e úmido do vale do Ribeira. Eram restos de antigos combates da Revolução Paulista de 1932.

A região que eles estavam cruzando era a frente do Ribeira da guerra civil deflagrada com o manifesto constitucionalista de São Paulo, em julho de 1932. Apesar de não ser uma das frentes mais importantes, ali também haviam ocorrido alguns combates.

Na Garganta do Leandro Lídio notou horrorizado um cemitério com cruzes de ferro dos soldados mortos durante os combates da revolução constitucionalista. Havia apenas nove anos, aquela região havia sido palco de combate entre as forças de São Paulo com os batalhões paranaenses.

Deixando para trás aquele cenário de guerra, os meninos passaram pela localidade de Poço Grande e no inicio da tarde já estão no lugarejo de Maria Gorda. Ali, Lídio anotou que existia a mina de cobre de Garapongá. A região do vale era também (ainda é) uma região riquíssima em bens minerais.

Neste período havia uma grande concentração de pequenas minas de cobre e chumbo por toda a região. Em Apiaí, no lado paulista do vale, estava sendo construída uma Usina Experimental de Chumbo para beneficiar o minério e seus subprodutos, como a prata, o ouro e o zinco. Era um período de grande investimento público e privado, e pequenos povoados mineiros iam se formando aqui e ali, no meio da imensa mata.

Depois de tomar um café e um bolo de fubá, os meninos seguiram rumo norte, em direção ao vilarejo de Epitácio Pessoa.

No caminho, Lídio notou (e anotou em seu diário) que o rio que margeava a estrada, o rio Grande, corria sobre um leito de areias muito brancas. Aqui e ali, haviam algumas pequenas cacheiras, que Lídio anotou como sendo de gré vermelha. Gré ou grés é uma palavra francesa para arenito, rocha formada pela solidificação de depósitos de areia. o uso da palavra grés por Lidio não está de todo incorreto, visto que realmente ocorrem muitos corpos de rochas que poderiam ser assim denominadas nesta época.

Os jovens escoteiros estavam atravessando uma zona composta por rochas metamórficas muito antigas, que formam grandes cristas de serra, formada por duros quartzitos. Em outros locais, ocorriam mármores ora cinzentos, ora mais claros. Estas rochas eram a razão do potencial mineral do Vale do Ribeira. Só para dar um exemplo: na vila de Pedra Preta, onde hoje está a atual cidade de Tunas do Paraná, haveria de se iniciar alguns anos depois a extração de uma rocha ornamental muito usada hoje em dia, o “granito verde Tunas”.

Nas encostas das serras que eles iam pacientemente atravessando, eram frequentes as cachoeiras. Nestas cachoeiras e corredeiras ao longo da estrada, as caninhas do mato e os cordões de frade estavam sempre presentes, batidas pelo vento formado pela energia das quedas d´água. Um espetáculo para encher os olhos...

Nesta bucólica caminhada, os meninos chegaram na vila de Epitácio Pessoa no fim da tarde. A vila já tinha sido mais importante, mas estava em decadência econômica. As casas de estuque tinham buracos na parede e estavam com aparência de malconservadas. A igrejinha pequena, no alto de uma pequena colina, não dava aparência melhor à vila.

Os rapazes encontraram abrigo numa casa que servia ao mesmo tempo de botequim, escola, residência e engenhoca de cachaça. Ao procurarem um rio para tomar banho, conversaram com alguns meninos da vila. Estes meninos disseram que os homens do lugar não estavam gostando da presença deles ali. Achavam que eles eram policiais procurando marginais e fugitivos  homiziados naquele fim de mundo.

A razão para as suspeitas eram as vestimentas do chefe Beto. Vestido com um culote e portando um capacete, chefe Beto também tinha um revólver na cintura. O porte militar do jovem chefe escoteiro chamou a atenção dos homens da cidade. Ali, naquela vila cheia de fugitivos da justiça, a sua simples presença provocava verdadeiramente esta suspeita.

Entretanto, o que realmente chamou atenção dos rapazes foi a professorinha da vila. Curiosa e bonitinha, ela atraiu a atenção dos rapazes, que ficaram conversando com a moça até a hora de dormir.

Na hora de dormir, chefe Beto ficou com a única cama, tendo os outros que se contentar com o chão. Aquela seria a ultima noite dos rapazes no sertão paranaense.

domingo, 25 de novembro de 2018

O BEBADO, AS ELEIÇÕES E A FANTA LARANJA


Antigamente, as eleições no Brasil eram muito violentas. Quase como as ultimas. Para coibir essa violência, a legislação eleitoral criou a "Lei Seca": um dia antes e no dia da eleição bebidas alcoólicas não poderiam ser vendidas ou consumidas em local público. 

Numa eleição antiga, num bar da cidade, um conhecido bêbado capelista estava sentado na mesa de um bar perto do Mercado Municipal, com uma garrafa de Fanta laranja e um copo. 

O Delegado, ao passar por ali, viu a cena a perguntou ao Bêbado: "voce está bebendo?" "refrigerante", respondeu o bêbado. 

O Delegado não acreditou. Repetiu a pergunta e obteve a mesma resposta. Então, ele olhou para o copo de Fanta na mesa e disse: "Voce não me engana, seu cabra!". Dito isso, passou a mão no copo e tomou um gole. "É Fanta mesmo!", espantou-se o Delegado. Ao sair ainda disse ao Bêbado: "poxa, voce está mudando, hein?". 

Mal o Delegado virou a esquina, o bêbado passou a mão na garrafa - que era onde estava a cachaça - e tomou mais um gole, feliz. 

(essa é mais uma daquelas que, se Seu Maneco não escreveu, se soubesse da historia, ele a teria escrito, com certeza...)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

EU DENUNCIO MEUS DOUTRINADORES


Acho que é muito justo. As pessoas que me enviaram para o caminho que eu trilho hoje, devem ser denunciadas como doutrinadores. Afinal, estes professores me conduziram a pensar torto como eu penso hoje. E devem ser denunciados para o devido julgamento.
Eu denuncio dona Laura Veiga, por me introduzir ao mundo escolar com tanto afeto e carinho. Eu denuncio dona Janete Mangini, por me deixar, no terceiro ano primário, a ir até a janela ver o pássaro brincando na poça d´água, sem me interpelar ou julgar. E denuncio dona Enery Parodi, por me ensinar verbos, substantivos, adjetivos. Graças a esta doutrinação nefasta, hoje eu vejo ações, objetos, qualidades.
Eu denuncio professor José Augusto Mendes, o Zezo, por me ensinar a somar, multiplicar e (doutrinador nefasto!) a dividir. Este doutrinador também me ensinou a ser um professor que só passa adiante quando o ultimo aluno aprendeu a lição. Ninguém fica para trás. Professor Zezo, tão católico, leu Mao Zedong?
A professora Vera Peixoto, na 5ª serie, me fez pensar em rochas e minerais...e eu acabei virando geólogo! Que doutrinadora terrível! Eu denuncio também a professora Laís por me ensinar na quinta série que a teoria das três raças tinha problemas. Que raça eu era? Branco? Negro? Índio? Um pouco de tudo, ou nada? Eu denuncio minha professora de francês da sexta série, que me passou um texto com as palavras Liberté, Egalité, Fraternité...que comunista!
Eu denuncio meus professores de Biologia por me ensinarem que os seres vivos evoluem. Eu denuncio meus professores de Física ao demostrar que matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distancias. E os meus professores de Química, que me doutrinaram a perceber que o mundo estava cheio de átomos e vazio de metafisica? Todos doutrinadores! Era isso mesmo, professor Borsato, grande químico, grande doutrinador? Eu também denuncio meus professores de desenho, por me ensinarem, gauche que sou, a escrever torto por linhas certas...
Eu denuncio o professor Teófilo Bacha Filho, por me mostrar que a história da humanidade era a história da luta de classes. Doutrinador vil! História antiga, feudalismo, capitalismo, que coisa insana é essa? Revolução Francesa? Revolução russa?  Doutrinador imundo!!
Eu denuncio o professor Márcio Imenes, por mostrar (e demostrar) que a matemática podia ser uma coisa simples fácil e observável. Acessível a todos. Comunista sujo! Professor Trotta, ensinando que as leis de Newton não valiam no universo quântico...que canalha doutrinador!!
Eu denuncio o professor Gastão Octávio Franco da Luz por doutrinar a mim e meus colegas sobre temas subversivos como Metodologia cientifica e outra coisas dignas de comunistas. Eu denuncio a professora Rosamarie Becker por nos ensinar sobre os diferentes tipos de sedimentos, tão democráticos estes!
Eu denuncio o professor Elimar Trein, ex-preso político, por nos doutrinar sobre temas subversivos como Geologia Estrutural, ética, profissionalismo! Denuncio os profs Marlene e José Henrique Popp por me ensinarem sobre ambientes de sedimentação, paleontologia e política universitária. Eu denuncio o professor Riad Salamuni por doutrinador confesso, que falava abertamente sobre humanidade e compaixão, além de água “subterranha”.
(Por ter um coração cheio de sangue vermelho (!), uma alegria infinita e uma cabeça aberta para os sonhos (sempre tão subversivos!), eu denuncio também o professor Dante Romanó júnior, notório doutrinador).  
Eu denuncio o professor José Manuel dos Reis Neto, por ser um nefasto doutrinador. Além de doutrinar sobre petrografia metamórfica, também ensinou humanidades, políticas, amizades, afetos que não se encerram.  O professor Ernani Rosa Filho, outro notório doutrinador, eu o denuncio também!!
Eu denuncio o professor Benjamim Bley de Brito Neves, outro grande doutrinador!! Então a Tectônica de Placas? Então a poesia? A geologia do agreste, a brotar água fresca e poesia, tudo isso cabe na sua Geotectônica? Que desvio! Pobre ciência com um doutrinador deste naipe! Onde vamos parar?
Eu os denuncio todos, professores! Vocês me doutrinaram! Me ensinaram o certo, o errado, e o avesso do certo e do errado. Vocês me tornaram o ser lamentável e incerto que sou. Vocês me ensinaram que o mundo é incerto, que a ciência nos orienta, mas também não é tudo.  
Nos caminhos incertos do mundo vocês me ensinaram a confiar. Na razão? Não. Em mim.
Hoje graças a vocês, eu duvido de tudo. Pergunto antes de ter certeza. Me informo antes de agir. Quando trabalho com colegas, vocês me ensinaram a ser profissional. Quando trabalho com alunos, vocês me ensinaram a ter paciência e dedicação. Quanto estou junto do povo brasileiro, que me pagou os estudos, você me ensinaram a ter humildade e gratidão.
Eu os denuncio a todos. Vocês me doutrinaram.
Muito obrigado.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A BOLSA E A VIDA



Na feira deste domingo, enquanto escolhia abobrinhas e pepinos japoneses, escutei casualmente a conversa de dois homens ao meu lado. Conversa de homem. De homem de bem. Os dois falavam de Bolsa. Um falou “a Bolsa subiu”. O outro concordou e respondeu: “Tomara que continue assim”. Pelo pouco que pude perceber, os dois estavam falando das pesquisas da ultima semana que apontavam o favoritismo de Bolsonaro e a aparente euforia do mercado com esta notícia.
Em geral, eu sempre fico espantado com o noticiário econômico. As oscilações para cima e para baixo das bolsas de valores tem a ver com causas que nem sempre compreendemos. Se compreendemos, muitas vezes nos chocamos. Algumas muitas vezes, notícias aparentemente boas não são boas para omercado: o aumento do numero de empregos nos EUA em 2011, por exemplo. Outras vezes, compreensivelmente, os mercados reagem com perplexidade, como foi com a notícia da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.
No Brasil, o ciclo é o mesmo. Os mercados reagem favoravelmente se existem indícios de que vai haver reforma da previdência, por exemplo. Isso vai ser uma tremenda dor de cabeça para os trabalhadores, mas o “tal do mercado” comemora. Se as negociações da Reforma da Previdência emperram, o mercado reage em baixa.
Eu não entendo nada de Economia. Alguns dizem que é uma ciência humana. Muitos discordam. Eu não entendo nada de economês. Tenho alguns palpites. Muito dizem que os mercados são a melhor maneira de organizar a atividade econômica. Que a tal da mão invisível nos guiaria por ações concretas e seguras, onde todos sairiam ganhando.
Outros dizem que um governo seguro pode melhorar a mão do mercado. Uma ação política por parte do Estado pode resolver os problemas de assimetria entre os entes econômicos. Eu acho que isso é o mais seguro. Não confio em mãos metafisicas.
Nada nos garante que as ações dos governos nos mercados sejam sempre sérias e sábias. São decisões políticas, marcadas por interesses de grupos. Mas o mercado, qual um graxaim selvagem, não gosta de amarras. Morde as cordas e sai desvairado pela noite à procura de presas. Assim pode ser o mercado.
 Por vezes, o mercado beira o cinismo. No dia da facada que Bolsonaro levou, o mercado reagiu com alta. Segundo os analistas, prevendo as facilidades que o Coiso teria com sua vitimização, como realmente teve. Marcelo Coelho, na Folha, perguntou se os mercados são amorais ou imorais. Qual é a sua resposta para esta pergunta?
Hoje, o mercado está em alta. Os que fazem negócios estão otimistas. Vão poder ganhar muito dinheiro, fazer bons negócios. Por isso as Bolsas “sobem”. Entretanto, nem sempre o que o mercado quer é o que a sociedade quer. Mas, quando isso acontece, os homens na feira de domingo discutem felizes sobre as tendências da bolsa.
O mercado reagiu em alta quando Collor de Mello ganhou as eleições. Reagiu muito bem à eleição de Hitler, por exemplo. E reagiu muito bem quando Temer, o vampiro, conseguiu o seu cargo e sua "ponte para o futuro" naquela votação horripilante de um congresso pouco comprometido com o interesse publico. Nem sempre o Mercado reage bem à democracia. Assim como deve ter reagido bem quando o golpe sangrento de Pinochet derrubou o governo socialista legitimamente eleito de Salvador Allende.
Os mercados não levam em conta a economia real. Aquela que nós todos fazemos no dia a dia. Não aquela feliz economia de Adam Smith, do padeiro e do açougueiro que acreditam na mão invisível. O mercado, a maior parte dele, joga contra a sociedade que lhes dá suporte. São amorais. São imorais. Os mercados devem ser criminalizados sempre que trouxerem prejuízos para a sociedade pagar. Os banqueiros e especuladores da crise de 2008 nos Estados Unidos deveriam ter sido presos . Eram grandes demais para quebrar?
Adam Smith acreditava na moralidade dos agentes econômicos. Eu concordo, e acho que assim deve ser. Por respeito a mim, por respeito a você. Os mercados devem se comportar, ter regras dentro da moralidade, e não fora dela. E que, se não se comporta, o mercado não venha chorar as pitangas depois que quebram de tanto especular, como foi na crise do subprime. 
Ser o candidato do Mercado não quer dizer grande coisa. Ser o candidato das liberdades todas é muito, quase tudo. É tudo o que temos pra hoje. 

O Mercado somos nós. 


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

EU NÃO SOU SOLDADO



Por volta do ano de 1950, apareceu em Antonina um oficial reformado, por nome de Major Pombo, como era conhecido.
O Major Pombo é desses que, pelo posto militar, entende que tudo tem que ser como ele deseja, e sempre aplicou aquele termo de soberania: “sabe com quem está falando?”
Tendo comprado um sitio nas redondezas do município, resolver levar a efeito sua pequena fazenda. Isto motivado pela valorização das terras e o incentivo à plantação de café, conseguiu o capataz e começou a sua vida de agricultor.
Teve pelo seu ímpeto do “você sabe com quem está falando” diversos atritos.
Certa ocasião veio à cidade para comprar carne para sua fazenda. Percorreu os açougues sem conseguir, a carne estava na vez da fita e os açougueiros tinham os seus compromissos, e não podiam atende-lo. Ficava irritado, e logo dizia: “sabe com quem está falando?”
Por ultimo foi ao açougue do senhor Ovídio Agner Mendes (Vidoca) e perguntou se tinha carne. O senhor Vidoca respondeu que não. Ele [o Major] vendo que existiam alguns pesos de carne, insistiu para ser atendido. O senhor Vidoca ponderou nos seus compromissos, motivo pelo qual sentia não poder atende-lo.
O Major Pombo irritou-se e logo disse: “você sabe com quem está falando?”
O senhor Vidoca parou o seu serviço, olhou bem para a personalidade, baixou os óculos e respondeu: “não sei com quem falo.”
O Major Pombo com autoridade: “é o Major Pombo.”
O senhor Vidoca deu uma risadinha e respondeu: “o senhor pode ser major – mas eu não sou soldado...”

domingo, 21 de outubro de 2018

NOS TEMPOS DA ESCOLA COM PARTIDO



Por causa dos acontecimentos recentes, eu me peguei pensando em minha infância. Algumas coisas vividas naquela época surgiram fortes. No meu primeiro ano escolar, eu lembrava da quantidade de faixas verde-amarelas que existiam na escola. E retratos do “presidente Médici”. Lembro-me de cantar hinos, muitos hinos. E do entusiasmo de slogans como “Ninguém segura este pais!”. E se segurasse? Nos vidros dos carros, estava o adesivo “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Que medo! E se eu não amar? Serei expulso?
No meu currículo, não existia História e Geografia, mas uma tal “Estudos sociais”. Por um lado, parecia uma coisa interessante, por ser multidisciplinar. Por outro, e isso logo percebemos, muita coisa não era colocada no currículo. Na prática, não tínhamos nem História, nem Geografia. Nem Estudos Sociais.
Tinha também uma disciplina chamada Educação Moral e Cívica. Era uma chatice de ficar vendo – e decorando – os símbolos da pátria. O Brasão, a Bandeira, os Hinos. Porque verde amarelo? “porque representam o verde das nossas matas, o amarelo a riqueza de nosso chão”. Era essa a explicação.
Ninguém dizia, por exemplo, que verde-amarelo eram as cores da casa de Bragança, da qual vieram nossos imperadores. E se o verde era tão importante, porque se desmatava tanto? Todos os dias víamos notícias sobre as obras da transamazônica. Eram frequentes na TV imagens icônicas de grandes arvores caindo, simbolizando a conquista da Amazônia.
(Sem nenhuma preocupação ambiental, nunca se desmatou tanto.)
Depois, tinha uma disciplina Estudos de Problemas Brasileiros. Tinha a questão das três “raças”. Tinha a questão do subdesenvolvimento. Mas não havia uma vontade real de discutir problemas brasileiros. Por que somos? Como somos? Como uma nação ainda adolescente, ainda colocávamos a culpa nos nossos pais. O culpado era Portugal, a culpa era do “passado ibérico”.
A responsabilidade nunca era nossa, nessa Escola com Partido. Neste tempo, a escola tinha claramente um partido. O partido do general de plantão. A abolição não era da responsabilidade dos traficantes de escravos. A política do atraso dos coronéis da República Velha não era da responsabilidade de ninguém. Getúlio Vargas não existia. Ele foi o presidente da Argentina?
Era tudo tão descarado que as coisas se naturalizavam por si. No governo Geisel e o seu slogan “Esse é um país que vai pra frente” mesmo sendo crianças todos já víamos o ridículo dessa posição de esconder o país embaixo do tapete. E se estivesse indo pra trás?
Hoje, temos realmente a sensação de estar indo pra trás. Algumas certezas dos últimos anos já são questionadas, algumas cláusulas pétreas são abertamente criticadas. Mas, em vez de propor avanços, estão sendo propostos atrasos. Em vez de mais escola, menos escola, como a proposta de mais ensino à distância. Distância de quem? Do professor?
Os professores estão sob ameaça. Em lugar de um ensino crítico, um ensino “Sem Partido”. Como se as pessoas que propõe esta perola não tivessem Partido. Ideologia, ou seja, o conjunto de valores e ideias de um individuo ou um grupo de indivíduos vivendo em sociedade, todos temos. Mas, para algumas pessoas, ideologia são as ideias do outro. O que eu penso é verdade. o que o outro pensa é ideologia. Tolinho.
Estamos voltando àquela escola hipócrita e autoritária de minha infância?  Onde não havia Educação Sexual, por exemplo, porque todos tinham medo de tratar o assunto? “Ideologia de gênero” é um caso. Inventaram essa jabuticaba para criticar o ensino de Educação Sexual nas escolas. Uma proposta séria, que tem por objetivo combater a intolerância e dar informações para que as crianças saibam se defender do abuso sexual. A maior parte das crianças vítimas de abuso jamais foram educadas por seus pais sobre o assunto. Estimular a ignorância é facilitar o abuso. Pelo visto, prefere-se o abuso.
Em vez de mais, menos debate. Em vez de ir mais fundo nos problemas para resolve-los, o silencio.
Eu achava que as escolas do passado tinham virado poeira do tempo. Que o pó cubra nossas escolas do futuro. 

terça-feira, 16 de outubro de 2018

VOLTAR PARA 40, 50 ANOS ATRAS



Escoteiros desfilando em Antonina nos anos 70
Em recente visita a um quartel do Bope, o Messias revelou seu sonho: “queria fazer o Brasil voltar 40, 50 anos atrás”. Disse isso com a sinceridade insana que o caracteriza. E confesso que fiquei apaixonado pela ideia. Para mim, seria voltar à infância e parte da adolescência. Voltar 40 a 50 anos, significaria eu voltar a ter entre 5 e 15 anos de idade.
Num instante, fui levado para a Antonina de minha infância, terra adorada, minha pátria no sentido mais puro do termo. Voltaria para os jogos de bola na rua, para os desfiles de 7 de Setembro fardado de escoteiro, para os bons amigos que você  tem neste período da vida. Revi minha vida como uma antiga foto preto e branco.
Bolsonaro teria neste período, entre 13 e 23 anos. Também uma idade boa. Adolescência. Tempos de formação. Seria o período que ele passou desde o final do colégio aqui no interior de São Paulo até o quartel, já tenente. Como não invejar voltar à juventude?
Neste período tocava no rádio a bossa nova. A Mangueira de 1973 falou da lenda da Mãe do Ouro, lenda da minha terra: "ola-lá, olá ô bábá! É a Mãe do Ouro que em nos salvar!". Tocava também outras coisas esquisitas, como “assassinaram o Camarão”, ou “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás". Mas tudo bem. Era a juventude.
Certa vez, eu e minha irmã colocamos um disco na vitrola de minha tia. Ela veio correndo da cozinha e tirou o disco, entre zangada e assustada. Era um disco de Geraldo Vandré, com uma música chamada “Caminhando”.
Na primeira série, uma colega de sala saiu da sala chorando, não voltou mais para a escola, a saudosa Escola de Aplicação Rocha Pombo de Antonina. Tinham prendido o pai dela, e ela estava muito triste. Ficamos muito assustados com a possibilidade dos nossas pais também desaparecerem e irem presos.
Mas, como nos explicaram depois, o pai dela era um “comunista”. A palavra era dita numa mistura de asco e desdém, como ainda hoje escuto alguns falando, como se ainda não tivessem saído da Guerra Fria. Não era comunista, pensava eu, aos sete anos. Era só o pai da nossa amiga.
Desfilávamos no Sete de Setembro, em grandes desfiles repletos de crianças. Certo dia, fui chamado para ler uma poesia no coreto da praça. Menino ainda, dei conta do recado diante do microfone, ainda que muito nervoso, as palavras saindo ásperas da boca. Nem me lembro do que se tratava o poema, sei que tinha “Brasil varonil” e “porvir”.
Nem todas as casas tinham telefones. Chamavam do vizinho, “telefone pra você”. Era o tal fone molecular. Cartas demoravam uma semana de Antonina para Londrina e quase um mês, se fosse para fora do Brasil.
Há cinquenta anos atrás o Brasil vivia o tal do milagre econômico dos generais. A economia crescia. As pessoas de classe média podiam ter carro, telefone. Nós tínhamos o melhor futebol do mundo e nossos estádios estavam cheios de craques: jogavam por aqui Zico, Rivelino, Carlos Alberto. Os mais velhos entre nós ainda se lembravam de ter visto Pelé jogando. Mundo bom.
Como não amar e querer voltar a este mundo, fiquei me perguntando. Imaginei, por exemplo, Carlos Alberto Brilhante Ustra, nosso Eichmann, saindo no fim da tarde do trabalho e indo para casa, ver a mulher e os filhos. Homem de bem.
Seu trabalho, hoje se sabe, era fazer crianças, como eu era na época, assistir seus pais serem torturados. Era estuprar moças “comunistas”. Era dar choque no pinto daqueles comunistas filhos da puta. Eles bem mereciam. Todo mês, Ustra recebia um holerite com o seu salário, pago com o dinheiro do contribuinte.
Os casos de corrupção, como o que resultou na exoneração do governador do Paraná Haroldo Leon Peres, em 1971, eram abafados. Lembro que a Veja, que então era uma revista decente, deu a notícia. A revista foi apreendida nas bancas. Meu pai, não sei como, conseguiu um exemplar. Passei muito tempo entregando a Veja para os amigos de meu pai lerem, na surdina, levando para a casa de cada um embrulhado em papel de pão.
Era também um mundo onde não podíamos falar com os filhos de mães desquitadas. Ainda não havia a lei do divórcio. Mulheres desquitadas eram perigosas, entendíamos nós, em nossa ideia infantil.
É exatamente este o mundo que o capitão quer voltar. De seus tempos de tenente. Um mundo onde homens brancos – e militares – podiam tudo. Livre, leve solto, os militares eram a lei. Quantas meninas ele não “comeu” por causa da farda?
Um mundo onde ser mulher era mais difícil. As mulheres não se separavam dos maridos por medo de perder a estabilidade econômica. E a violência doméstica? Disso não se falava. Se olhava, se percebia e não se falava. Mundo bom, este.
Na Amazônia, a chegada dos grandes projetos de estradas e mineração destruíam povos inteiros. Camisas contaminadas com vírus da gripe, dinamite jogada de helicóptero, valia tudo para matar índios. Um Vietnã aqui dentro e que não víamos. Cid Moreira, rapaz educado, ao apresentar o Jornal Nacional não falava destas coisas na hora da janta. Os homens de bem estavam descansando.
Voltar para quarenta, cinquenta anos atrás. Não sei se quero voltar a um mundo onde eu era criança e não decidia por mim. Hoje tenho cabelos grisalhos, tenho gastrite, tenho que visitar o urologista com regularidade e tenho dores nas costas. Mas não quero voltar quarenta anos. Qual seria o preço disso?
O preço desse sonho louco seria voltar ao mundo selvagem que era o Brasil daquela época. Tinha seu charme. Mas a Idade Média também tinha. Voltar a um mundo onde militares podiam entrar e acabar com uma festinha de rapazes porque o tenente queria uma moça que estava lá. Onde você não votava para presidente e governador.
Um mundo onde não tinham leis que coibiam abusos domésticos, porque o mal está dentro de casa, e não fora, sabiam? Ter leis de proteção às mulheres, lei de divórcio, criminalizar quem agride o diferente. Nada disso tinha. Respeito as minorias é um pressuposto de um mundo com justiça. Ao mundo de quarenta anos atrás, eu prefiro este nosso bagunçado mundo de hoje.
Qual será o preço que vamos pagar para um doido desses fazer a gente voltar no passado para viver seu sonho reacionário?

domingo, 7 de outubro de 2018

OS BOLSOMINIONS E O SENSO COMUM


Existem ideias que parecem simples. O mundo é simples e fácil de resolver.  Parece que sempre foi o obvio e nós, burros que somos, jamais vimos a verdade ali, na nossa frente. Parecem geniais, estas ideias. Mas não são. Muitas destas genialidades foram ditas por eleitores de Messias Bolsonaro no ultimo mês. 

Uma delas é a questão da violência. Como numa conversa de bar, o cara se posiciona, firme: “tem que botar mais polícia!”. A evidência empírica mostra que mais policia não resolve. Resolve aqui, não resolve ali, e a violência continua tudo igual.
O cara do bar retruca: “tem que botar o exército!”. Que ideia genial! Porque não pensamos nisso antes? Em minha vida cheguei a ver três intervenções do exercito no Rio de Janeiro. Se intervenção militar resolvesse, o Rio seria uma Suíça. Mas não é. Ou é?
Bandido bom é bandido morto. Quem nunca ouviu essa platitude? Parece simples, como num faroeste: tem os mocinhos e tem os bandidos. Os bandidos, é claro, tem todos os defeitos do mundo. Os bandidos são facínoras e sem piedade. O mocinho consegue matar 10, 100, mil, e ainda vai ganhar o beijo da mocinha ou a benção do padre.
Neste mundo tão simples, não cabe complexidade. Por que será que a maior parte das vitimas da polícia são jovens negros? O cara do bar hesita em sua resposta, porque vai entrar no terreno do preconceito. O cara do bar, que não é o general Mourão, tem algum filtro do que fala. Não vai fazer nenhum discurso justificando a violência pela “raça” da vítima, alguma falta de “caráter”, nem falar sobre a “malandragem dos negros”, como fez o general Mourão. Mas pensa. Você pode imaginar o que ele pensa? Ou no que ele vota?
Ideias simples, muitas vezes cheias de informações falsas e preconceitos sempre existiram. Falar de segurança publica não é tarefa para o cara do bar. Por que a criminalidade hoje mudou das grandes para as pequenas cidades? Porque mudou dos grandes centros para o norte e nordeste? Como deter o tráfico de drogas? Como lutar contra as milícias?
Nenhuma destas questões tem uma resposta simples. Muitas soluções já foram tentadas. A maior parte, envolvendo mais armas, mais violência, mais guerra. E a violência não para de crescer. O homem do bar não sabe o que fazer.
Aí entra o medo. O discurso do medo. Todos precisamos nos armar. Outra ideia simples e aparentemente perfeita. No entanto, sabemos que aumento dos homicídios por armas de fogo em razão da ausência de políticas específicas (veja aqui). Como resolver isso? Com políticas de segurança.
Mais ciência e menos Chuck Norris.
Mas o homem do bar não se convence. Ele conhece zil e um exemplos de que isso não funciona. E insiste nas ideias simples e de fácil implementação, fáceis como um chá de boldo pra curar a ressaca.
São ideias do senso comum. Se te disserem que um peso com penas e um peso de chumbo caem com a mesma velocidade você acredita? Parece óbvio que o peso de chumbo cai mais rápido. Você está vendo isso. Mas não é. Galileu precisou de muita experimentação para provar isso.
Levar o conhecimento acima do senso comum, da observação simples. Soluções negociadas e complexas para problemas complexos. Pensar com ciência e criatividade. Em lugar disso, você vê uma fala vazia de conteúdo e cheia de emoção. Quando não, ódio.
Insistir em senso comum e ideias simples como as disseminadas no último mês nos levam a mais do mesmo. Ou vamos daqui a quatro anos trocar as fraldas e os políticos pela mesma razão, como disse Eça de Queiroz numa placa de caminhão.  
Se daqui a quatro anos ainda houver democracia, essa coisa tão esquisita e tão longe do senso comum....