sábado, 24 de agosto de 2019

A AMAZONIA E A IRRESPONSABLIDADE DO GOVERNO BOLSONARO


O tuite de Macron: ontem, como hoje, a Amazonia está em chamas: qual a diferença?
Vivemos mesmo numa época muito estranha.
Esta semana, que começou com as nuvens negras escurecendo o céu do sudeste do Brasil, assustando a todos com as queimadas na Amazônia, terminou com o governo Bolsonaro acuado e desdizendo-se frente a ameaça internacional.
A tragédia continua se desenrolando, agora em tom de drama, com pinceladas de farsa. Com a reação internacional se avolumando, Bolsonaro faz mais do mesmo. Como o moleque de 12 anos que continua sendo, não levou desaforo pra casa. Se o xingam, ele devolve: “é a tua!”. Assim, protagonizou nestas últimas semanas diversos bate-bocas sobre temas ambientais com representantes de diversos países, sobretudo europeus.
O filhinho, candidato a ser diplomata, seguiu o papai, compartilhando um tuite que chamava o presidente da França de "idiota". “É a tua! Mexeu com papai, mexeu comigo!”. Depois, diante de vozes que o chamavam a razão, dizendo ser sua atitude incompatível com a de um pretendente a cargo de diplomata, ele recuou, como sempre faz o papi. Não, não foi bem assim, não quis dizer isso...
Assisti diversas manifestações da formadores de opinião na imprensa brasileira. Da esgotosfera das redes socais nem falo, por pudor. Outrossim, como diz um importante influencer moderno, é incrível ver as piruetas que os setores conservadores que ainda apoiam Bolsonaro fazem para contornar a caca que foi criada. 
A imprensa alinhada a Bolsonaro passou o dia reclamando da imagem antiga da foto que Macron colocou em seu tuite. Como que se para redimir da foto de dinamarqueses matando baleias que dias antes estava o próprio Jair  atribuindo a noruegueses. Ela, a imprensa bolsonarista, repetiu as platitudes sobre o alto grau de preservação das florestas do Brasil e atacando a mídia “globalista”. Citam estatísticas as mais variadas para provar que o repique da destruição da floresta não é tão grande assim.
Para começar: está certíssima Marina Silva, ao dizer que sempre houve desmatamento e queimada na Amazônia. Não é disso que se trata. O problema, e concordo com ela, é que estamos no limiar de um recrudescimento das ameaças a florestas, com o apoio nada velado do poder público.
Não vai ter nenhum vídeo de Jair botando fogo na mata, como um Nero caipira.
Entretanto, em abril deste ano, a pedido do presidente, o governo proibiu de queimar as maquinas apreendidas aos madeireiros pelos funcionários do IBAMA em Rondônia. Ao contrário, o próprio ministro do meio ambiente, o condenado por crimes ambientais Ricardo Salles, se reuniu com madeireiros para dar garantias de que o governo ia relativizar as apreensões, dando a certeza de sua impunidade.
O fiscal do IBAMA que multou Bolsonaro em 2012 foi afastado de suas funções e a multa que ele aplicou ao então deputado foi cancelada, para escárnio da lei.
O desmantelamento do aparato fiscalizatório desde janeiro é obvio. As falas e ações de Ricardo Salles no sentido de desmontar os órgãos de fiscalização e não punir crimes ambientais é patente. Sua determinação de “compensar”ruralistas com o dinheiro do fundo Amazônia provocou o colapso que se viu, até que os governos de Alemanha e Noruega retiraram seus repasses.
Quando o INPE informou que o desmatamento estava aumentando, o que o governo faz? Desmente e desacredita os dados. O presidente do INPE, Ricardo Galvão, defende a integridade dos dados do Instituto, e é demitido.
São tantos os sinais que, mesmo não dizendo, é fácil concluir que foi o próprio governo que incentivou o fogo na mata. O agora famoso jornal da cidade de Novo Progresso, no Pará, reclama do descaso governamental e clama ao presidente solução para os problemas dos fazendeiros. Numa terra sem lei, com os fiscais manietados e amordaçados, e sem os soldados da Força Nacional que os amparasse, os fazendeiros se sentiram livres para promover o criminoso “dia do fogo”, em 10 de agosto último. As chamas das queimadas foram detectadas pelos satélites de todo o mundo.
Com a "segunda feira negra" no Sudeste, a grita aumentou. São Paulo começou a entender o que acontecia com Boa Vista. O fogo e as queimadas ardiam no coração do continente, atingindo não só o Brasil, mas também Paraguai e Bolívia.
O governo faz de conta que não é com ele. “Sensacionalismo”,rebateu Ricardo Salles. No meio de seu terraplanismo mental, Jair acusou as ONGs de colocar fogo para incriminar o governo. “Perderam milhões, e agora podem estar se vingando”, disse aos jornalistas.
Foi quando o mundo se postou frente a ameaça que o governo acusou o golpe. Depois de bater boca com Macron, Bolsonaro teve que fazer um pronunciamento em rede pública de televisão para se explicar. E levar seu primeiro grande panelaço nacional. Nervoso ao ler o teleprompter (ele tem problemas cognitivos para fazê-lo, como se sabe), foi cômico ver Jair defendendo a "froresta" amazônica, a Lei Ambiental brasileira (“uma das mais avançadas do Mundo”, disse ele, com a boca contraída), acusando o clima seco da estação com culpado e fazendo uma defesa pífia e nacionalisteira de uma região que meses antes ele quase oferecera de graça à Donald Trump.
A única coisa de concreto, e a única coisa que sabe fazer, foi enviar o exército para a região (onde, exatamente?) numa operação de garantia da lei e da ordem. Melhor seria se estivesse enviando bombeiros...
Enquanto isso, a Amazônia continua ardendo. Os conflitos estão todos lá, com um governo reclamando do fogo (literal e metafórico) que ele mesmo ajudou a atear. A conta da irresponsabilidade mais cedo ou mais tarde, vai chegar para todos nós, brasileiros. 
Quais os planos para sair dessa enrascada? Ajuda aí, Adélio!!
[agora, é só esperar os bots (virtuais e de carne e osso) que vão vir desqualificar algum dado ou alguém]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A ESCURIDÃO AVANÇA (E TEM GENTE QUE NÃO QUER VER)


https://glo.bo/2MpalWZ
Está escuro lá fora. O dia passou assim, com muito vento e nebulosidade. Tudo escuro. O sol mal apareceu hoje de manhã. Por um instante eu o confundi com a Lua, mas não! Era ele, o sol, tentando escapar por entre as nuvens!
Fui correndo pegar o telefone pra fazer uma foto. Quando fui tirar as fotos, vi algumas fuligens caindo. Fuligem, pequenos pedaços carbonizados, em geral de folhas. Um dos pedaços tinha alguns centímetros de tamanho. Deve ser de algum incêndio grande por aqui por perto. Há alguns anos tinha mais fuligem, em geral folhas de cana queimada que caiam do céu. Esta fuligem diminuiu bastante depois que a fiscalização ambiental proibiu a queima da cana...fiscais do meio ambiente? O que tem a ver com o dia escuro?
Tendo o que ver, ou não, o dia inteiro passou assim: céu escuro, vento frio e ameaça de chuva. Aqui em Campinas, demora pra chover. Estamos no meio da estação seca. Só as frentes frias mais fortes passam. Hoje, as nuvens se concentravam ora num, ora noutro ponto do céu. De lá pra cá e de cá pra lá, sempre cinza escuras, ameaçadoras;
No supermercado, as luzes estavam acesas no meio da tarde. Fiz as compras pensando que estava anoitecendo, mas eram 4 da tarde. O resto do dia passou assim.
Agora à noite, quando começou uma chuvinha mais fraca, um cheiro forte de queimado tomou conta da casa. Dei uma vistoria olhando tomadas, vendo se haviam esquecido algo ligado. Nada. Eram as queimadas ao meu redor, como atestavam as partículas de fuligem caindo do céu.
Entretanto, uma coisa chamou a atenção de todos (e a minha também). O país está em chamas há quinze dias. Desde o tal “dia de fogo” dos fazendeiros de Novo Progresso, no Pará, o país está em chamas. Rondônia arde em chamas. A Bolívia e o Paraguai também. Os satélites apontam a concentração de nuvens.
Nos diferentes satélites, das mais diversas agênciasespaciais, a América do Sul está laranja, com seu coração em preto e vermelho. Não, nada de rubro-negrismo nessa hora. Trata-se da concentração de CO atmosférico. Do Acre até o vale do Paranapanema, uma mancha escura toma conta do continente. E, mais esmaecida, se estende pelo Atlântico.
Vejo que em Londrina, no extremo sul da mancha, a concentração está em 419 ppbv no site do windy.com. No norte do Paraguai a grande mancha vermelha varia entre 2000 a 5000 ppbv de CO. As manchas em Novo Progresso (PA) estão em 519 ppbv de CO.
A América do Sul está pegando fogo. Lá no coração.
Nada disso, entretanto, tem a ver com a escuridão dos céus do sudeste brasileiro hoje. Segundo o INPE - e eu acredito no INPE, a escuridão foi causada por uma frente fria (Não é um acreditar religioso, percebam. Acredito no INPE porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) trabalha com dados robustos de tempo/Clima e tem uma grande equipe de cientistas que interpretam estes dados).
Seja fogo ou seja frente fria, o que mais chamou atenção hoje, no entanto, foi que o dia pareceu noite. Como na metáfora.
A escuridão metafórica (também) avança. E tem gente que não quer ver.  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

BOLSONARO, O CACHORRO E O CAMINHÃO


O governo Bolsonaro parece com aquela história do cachorro e do caminhão. Sabe aquela história que quando a gente passa e o cachorro late late,  late, corre atrás dos carros, feroz? Se por acaso a gente pára o carro o cachorro também para. Porque ele não tem outro objetivo senão correr atrás do carro.


O governo Bolsonaro é exatamente esta historia, entre o cachorro e o caminhão. Qual era o seu objetivo? Parece, ao final de contas que o bolsonarismo queria: 1) Derrotar o PT; 2) A liberação das Armas e 3)Acabar com as multas dele (Bozo) no Transito e no Meio Ambiente. Nesta lista, pode ter  mais alguma outra coisa aqui e ali. Pode estar incluido, por exemplo, o fim do horário de verão e a mudança dos nomes no passaporte.
O governo tinha intenção de fazer a tal reforma da Previdência, dirão alguns. Mais ou menos, não é? A tal Reforma acabou aprovada, embora o governo tivesse atrapalhado bastante, segundo seus próprios aliados. Como disse recentemente um cientista politico, Bolsonaro gastou todos seus cartuchos numa só votação. E nas outras por vir, nos três anos e meio de governo?

E o resto das coisas? o resto ele está terceirizando para o tal Posto Ipiranga. O que se vai fazer com Educação? com Saúde? tudo indica que ele e seus ministros só sabem destruir e destruir, sem colocar nada no lugar. 
E na nossa posição no Mundo? Em termos mais amplos, muito além dos conversê de levar seu filho, aquele que fritou hambúrguer, para o posto de embaixador no EUA, Bolsonaro não sabe para que lado amarrar seu burro (?) nestes momentos de crise. 
Em tempos de rápida ascensão das potencias regionais, como a China, que ameaça em menos de dez anos se tornar a maior economia do mundo, Bolsonaro se amarra caninamente à Trump. 
Enquanto Pequim e Moscou se unem aos indianos para montar um super bloco que vai desafiar os Estados Unidos, Trump tenta tirar alguma vantagem. Briga aqui e ali para conversar com Kim. Kim é aliado do Pequim. Tem interesses, junto com os coreanos do sul, em participar das rotas da Silk Road. 
A China já está desbancando tecnologicamente os Estados Unidos. Nas outras áreas é uma questão de tempo. Trump tenta fazer falta, catimbar o jogo, mas ao que tudo indica, com ele ou sem ele, os Estados Unidos estão saindo fora do Z4. 
E Bolsonaro?
Alijado das conversas dos BRICS e sem entender patavina do que está se passando, ele está olhando pra rua, esperando passar o próximo caminhão.

domingo, 30 de junho de 2019

O DIABO NA TERRA DE VALE PORTO


foto: Eduardo Nascimento
Já faz algum tempo que o Sete-Peles mora em Antonina. Alguns dizem que ele sempre morou ali, “por isso Antonina não vai pra frente”. Outros acham que não, ele veio pra cá nos anos 90, quando houve o último suspiro do Porto. Ou que ele veio num destes Festivais de Inverno, gostou e ficou. Ou foi num carnaval? Eu nem sei dizer...
O que se sabe é que ele sempre evitou morar no centro, tão cheio de pecados e pecadores. Procurou casa no Batel, na Pita, a acabou morando uns tempos no Jardim Maria Luiza, num sobrado alugado. Depois, mudou-se para a Graciosa de Cima, onde mora num terreno estreito e com uma vista divina (?) para o mar e para as Serras.
O Capiroto é um senhor branco, classe média, de meia idade. Um homem de bem, de hábitos simples e metódicos. Todo dia de manhã bem cedo sai passear com seu cão preto e peludo, desce até a praça da Feira-mar, passa diante do Casarão dos Macedo chega até o belvedere da Matriz e, depois, volta pra casa. Outras vezes, mais animado, vai pelo Tucunduva e dá a volta no Morro do Bom Brinquedo, voltando pelo Batel.
O Coisa-ruim frequenta as missas na matriz, assim como assiste as celebrações especiais na igreja do Bom Jesus do Saivá. Também frequenta as igrejas protestantes tradicionais e as neopentecostais. Há quem diga que o viu num terreiro de Umbanda, mas acho que é maledicência.
Já foi convidado pra entrar no partido tal ou qual, ou sair pra candidato a vereador por diversos partidos. Até pra vice-prefeito foi sondado. A todos, o Grão-tinhoso explica que não gosta de política, e que prefere viver assim, quieto, no seu canto. Os políticos saem cabisbaixos de sua casa.
Ao que se saiba o Bode Preto nunca brigou com os vizinhos por causa de muros ou cercas. Também é bem silencioso e não incomoda ninguém com gritos ou música alta. Vive sozinho, com o seu cão preto. É recatado, e ninguém nunca o viu botando ninguém pra dentro de casa, seja mulher ou seja homem.
Ou seja, não é um antoninense comum. As pessoas na doce Deitada-a-beira-do-mar seguem pela vida barulhentas, brigonas, intempestivas, reclamando do vizinho, da prefeitura, da chuva. Falam do carro novo do vereador, da reforma na casa do assessor da prefeitura, do vizinho, do cunhado, dos buracos na rua, dos matos nas calçadas.
De noite, estão nas igrejas rezando ou no bar bebendo. Os da igreja acreditando na perdição dos que estão no bar e os do bar vendo afundar-se a vida dos que estão na igreja. Ao se encontrarem nas esquinas falam de coisas graves e sérias. Como sobre a corrupção dos outros e, sobretudo, concordam que são todos, os da igreja e os do bar, autênticos homens de bem.
Estes tempos, estava na terrinha, conversando e tomando um chopp com um amigo querido, na pizzaria ali no final da Avenida do Samba. Questionei o fato de o diabo estar entre nós. Meu amigo disse não se importar. “Ele não incomoda ninguém, paga o IPTU regularmente”, me disse ele.
Mas e o mal? Ele não é o mal? Perguntei. Este meu amigo, cínico e divertido como só um bom capelista pode ser, me olhou e disse: “Pára, Jeffinho!”. Sorriu, deu um gole no Chopp e continuou: “o mal não está nele, está em você. Você é que vê o mal nele”. Tive que concordar.
E ele continuou: “fico feliz de ele morar aqui, em Antonina, perto da gente. Você vê ele cada vez que sai pra passear. Ele é o nosso metro. Como ele é culpado de tudo, podemos continuar a viver como vivemos”.  E isso é bom?”, perguntei. Meu amigo me olhou com ares de dúvida: “Sinceramente, não sei, é assim que vivemos. Não é?”
Concordei com ele. Meu chopp estava esquentando. Dei um gole e fiquei olhando as mariposas a rodar ao redor das lâmpadas da rua. Os paralelepípedos estavam brilhando por causa da última chuva que tinha caído, fazia alguns minutos. 

sábado, 15 de junho de 2019

A NEVE EM ESTES PARK - Diarios (norte)americanos 5


As montanhas, próximo do Parque Nacional das Rochosas, Colorado
No domingo, tinha uma saída de campo, relacionada ao simpósio que estou participando. Iriamos conhecer algumas áreas ao redor que tinham sofrido com fluxos de detritos. E era nas Rochosas!  Estava tão feliz e ansioso em fazer a tal saída de campo, que me atrapalhei um pouco. Estava preocupado em perder a hora. Fico sempre preocupado em ficar preocupado com a hora. E, em geral, quando isso acontece, eu perco o sono.
Entretanto, desta vez estava cansado da longa viagem de avião, e tinha outra coisa a meu favor: uma diferença de três horas a mais. Pude descansar o suficiente e ainda chegar a tempo.  A saída era nos fundos da grande casa dos estudantes, que se chama Ben Parker Center. Trata-se de um prédio grande e que funciona como um centro de conferências. No térreo, tem ainda uma autêntica loja de departamentos que vende produtos da marca Colorado School of Mines.
Quando cheguei lá no ponto de encontro da excursão, tinha uma verdadeira legião estrangeira. No caminho, havia conhecido um professor italiano, muito simpático. Conheci também um professor coreano, e conversamos bastante. Quando todos chegaram, os anfitriões americanos nos colocaram no ônibus para partir.
Era interessante o caldo de gente naquele ônibus: ceilandeses, japoneses, coreanos, taiwaneses, neozelandeses, ingleses, suíços, americanos e, é claro, um brasileiro.  Todos especialistas em fluxos de detritos.
A viagem foi muito interessante. Começamos pela cidade de Boulder, que sofreu com diversos escorregamentos em 2013. Nada que meus conterrâneos antoninenses não saibam. Foi bastante feio, com muita destruição, embora não tivessem sofrido perda de vidas.  Alguns lugares, como vimos mais adiante na cidade de Lyon, ainda estavam reconstruindo suas casas, cinco anos depois do acidente.
Golden e Boulder estão a cerda de 1700 m de altura, no platô do Colorado. É uma área muito plana. E onde está a maior parte da região metropolitana de Denver. Depois, vem uma pequena linha de morros, o Front range. Muito interessante porque existem várias camadas de rocha com mergulho alto (os hog-backs) que tornam a paisagem mais bonita. E, depois do Front Range, começa a montanha propriamente dita.
Foi um dos campos mais bonitos que já tive. As montanhas maravilhosas e nevadas, cheias de charme e beleza. Não é preciso dizer que estava um frio danado e as roupas que levei deram pro gasto, mas estava frio.
As montanhas eram nevadas ou pedregosas. Mas, na encosta, eram comuns os pinheiros, que desciam até as pequenas planícies. Aqui e ali, nestas planícies no meio do parque, viam-se manadas de cervos pastando tranquilamente. Quase sempre eram bandos de fêmeas e machos jovens, pastando na grama verde do fim da primavera. Coisa bonita de se ver.
Almoçamos numa antiga estação de esqui. a estação de Estes Park funcionou de 1940 a 1992, quando parou por não ter mais neve. Tem gente por aí que ainda acha que há um aquecimento global e que existem indícios que o clima está mudando. O Estes Park é um sinal disso.
Aqui e ali, nas encostas do Estes Park, nas drenagens e entre os pinheiros, havia umas manchas brancas. Algumas estavam meio sujas, visas de longe. Fiquei intrigado. Fui lá ver. Era gelo, com as bordas já derretidas, e que era como uma areia grossa na mão. 
Perguntei aos colegas ali ao lado se era neve. Eles se espantaram comigo porque eu não conhecia neve, e eu fiquei com um pouco de vergonha. Logo desfiquei. Afinal, não conhecia a neve mesmo...No entanto, uma coisa é certa: com vergonha ou sem vergonha, foi meu primeiro contato com a neve. Voltei para o ônibus bem feliz.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

UMA TARDE EM GOLDEN - Diários (norte) americanos 4


Feirinha semanal de produtos naturais em Golden; ao fundo, as capas de basalto mesozoico, parecendo muralhas;
Depois de alguns contratempos, consegui achar o alojamento estudantil da Colorado School of Mines, onde me encontro agora. A princípio, ninguém dos meninos na recepção do campus sabia do que se tratava. Foi uma pesquisadora que estava por ali, a Nicole, que tratou de me levar ao alojamento. Viva Nicole! Agora, finalmente, estou em casa em Golden.
No dia seguinte, sai para conhecer o campus da Colorado School of Mines. É um campus muito bonito, e bastante grande.  Tem várias e várias quadras, bem típica do que se conhece dos campi americanos, com prédios,  grama e ruas arborizadas e tranquilas. Dispersos pelas quadras, estão prédios de vários institutos. Achei o prédio da Engenharia de Minas, que é o carro chefe da escola, e o prédio da Geologia e da Química. Tem também a sede local do Serviço Geológico Americano, o USGS.
Aqui, pelo que me falou Frances Renger, geólogo do USGS, aqui em Golden trabalha uma equipe de cerca de 100 pessoas que é responsável pela parte de escorregamentos – que é o motivo do simpósio para o qual estou aqui – e um centro de estudos de terremotos, referência no país. O USGS é uma das grandes referencias mundiais da geologia.
A missão do USGS, gravada no seu logo, diz tudo: Ciência para um mundo em transformação. Pra nós, na insondável e elegível burrice que nos assola, parece coisa de outro mundo. Estamos, no Brasil, destruindo literalmente nossos serviços geológicos. Fazendo conhecimento virar pó. Por aqui, com Trump e com tudo, o USGS tem trabalhos técnicos em diversas áreas, inclusive em educação. E tem um papel importante nas decisões do governo federal relativas à geologia e ao meio ambiente. 
O campus da Colorado School of Mines é todo gramado e arborizado, limpinho e cheio de esculturas. Algumas de bom gosto, outras nem tanto. Tem prédios desde 1874, quando a escola foi fundada, até prédios modernos ainda em construção (só pra lembrar: nossa mais antiga escola de minas, a Escola de Minas de Ouro Preto, é de 1876). 

Alguns destes edifícios mais antigos apresentam na fachada colunas coríntias cheias de adornos e enfeites. Em geral, não gosto muito destas fachadas grandiosas, barrocas. Entretanto, os estilos são os mais diversos, desde o neoclássico mais feioso até o moderno mais esquisito. Outros, que parecem ser dos anos 80 parecem os nossos indefectíveis “pinotinhos”, só que mais grandiosos.
Saí para andar pela cidade de Golden. Ela é muito limpinha e organizada. Ruas que se cruzam em ângulo reto, fachadas meio feiosas, mas charmosas, lembrando o estilo velho oeste. Nas calçadas e nas casas, inúmeras decorações com um arenito vermelho muito característico da cidade. Na avenida Washington há uma grande instalação com as inscrições “Welcome to Golden”. De tão brega até parece bonita.
Logo depois, cruza-se a ponte do Clear Creek. É um rio de montanha, com forte correnteza e cheio de blocos de pedra. De rocha, perdão! A água não está muito clara, apesar do nome do rio.  Nesta época do ano, uma época chuvosa nas montanhas, o degelo ainda está operando forte. Logo, a água tem uma cor vermelho sujo.
Era um sábado ensolarado. Havia uma feirinha de produtos naturais num espaço aberto. Barraquinhas organizadas, vendendo desde frutas (poucas), verduras e legumes orgânicos, além de pães de todos os tipos. Não vi comida mexicana. E ainda haviam barraquinhas de mel, artesanatos, produtos esotéricos. Tudo o que uma feirinha tem direito. Bem limpinha e arrumadinha. 
Havia muita gente no parque, ao longo do rio. Gente passeando com cachorro, de bicicleta, a pé. Famílias, casais, grupos de amigos. Um grupo de bombeiros (acho que voluntários), todos de camiseta vermelha, estavam tendo alguma espécie de aula de campo observando o Clear Creek e sua correnteza. Mais acima, havia pessoas fazendo boia cross e canoagem. Um destes fazia proezas admiráveis com seu pequeno caiaque, numa pequena queda do rio, mantendo-se sempre no lugar e dando cambalhotas, virando de um lado para outro. Muita gente parou para ver. Eu incluído.
O entorno da cidade, que fica numa vale, é composto por grandes muralhas de basalto. Uma delas se destaca, por parecer uma pequena mesa. Dão um toque geológico especial para a pequena Golden, tão ligada á geologia e à história da mineração.
A tarde estava bonita, mas eu precisava descansar. O dia seguinte seria intenso, com a nossa excursão para as rochosas, para ver os grandes fluxos de detritos por lá. Voltei para o alojamento e procurei dormir o sono dos justos. Justamente.  

segunda-feira, 10 de junho de 2019

OS CÉUS DE DENVER - Diários (norte)americanos 3


briga de nuvens no céu de Denver, Colorado
Para quem estava apreensivo com a viagem até Denver, tudo correu direitinho. Fui um dos últimos a entrar, depois de ser chamado e verificado pelos funcionários da companhia aérea. Depois de olhar tudo, listagens, cartões de embarque e passaporte, me colocaram na rampa de acesso com um “nice trip, Mr Picano!”. Não perdi tempo, e corri para o avião.
O voo para Denver foi tranquilo. Espremido entre dois adolescentes, que só tinham olhos e ouvidos e tudo o mais que que se queira para seus celulares, fiz uma viagem tranquila, lendo meu livrinho e vendo umas comédias no avião.
A paisagem era monótona, uma grande planície que se estendia até onde a vista alcançava. Ao redor de Dallas não se via muitos sinais de agricultura. Só mesmo perto de Denver é que o ambiente ficou mais verde. Era uma grande colcha de retalhos com quadrados ora mais ora menos verdes e alguns circulares, por conta dos pivôs de irrigação.
Quando o avião virou pra aterrissar é que vi pela primeira vez as Rochosas. Um espetáculo fascinante, uma grande barreira azulada ao fundo, onde termina a grande planície. Aqui e ali, alguns picos nevados. Picos nevados dão uma sensação diferente e bonita, principalmente quando você está de longe.
Ao chegar no aeroporto de Denver, fui direto pegar minha mala. Estava apreensivo, pois não sabia direito se ia achá-la ou não. Já ouvi histórias terríveis de extravios de malas em aeroportos americanos. Quando eu entrei no salão de despacho de bagagens eu já estava pensando em como ia ficar vários dias com a roupa do corpo.
Minha mala, com alça, estava paradinha no corredor, lado a lado com outras malas de outras pessoas que devem ter se perdido em algum lugar. A pessoa se perde, mas a mala não. Não tinha ninguém ali pra me exigir o ticket. Peguei a mala e fui embora.
Demorei um pouco pra me entender com a máquina que vendia os bilhetes de trem. Se não fosse a intervenção do guardinha da estação, não teria conseguido. Me senti um analfabeto funcional. Mas o guardinha me tranquilizou: “essas maquinas são malucas mesmo. Ninguém entende o que elas querem”. Agradeci e fui embora.
O resto da viagem foi tranquilo. Peguei um trem até o centro de Denver, e com o mesmo bilhete, que ninguém me cobrou, cheguei até a cidade de Golden, onde estou agora. Nós, brasileiros, em geral nos espantamos com essas coisas. Pensando na nossa situação, dá uma sensação de falência da nossa cultura. Quando vamos ter coisas controladas pela nossa confiança mútua?
O céu estava limpo, mas logo nublou com as nuvens vindo das cordilheiras nevadas. O céu de Denver era um céu azul bonito, de verão. Lembrei-me até dos versos de Mário Quintana sobre os belos céus azuis de Porto Alegre. Aqui e ali, algumas nuvens fofas e gordinhas da estação. Logo o céu, que parecia ter um pé direito muito mais alto, nublou com a chegada das nuvens de chuva. Uma chuva de verão, cheia de vento e com alguns raios aqui e ali.
Protegido pelo vidro do trem, foi bonito ver a chegada daquela chuva. Lembrei até de um dia de infância, na janela de minha casa de Antonina, vendo uma forte tempestade de verão chegar, junto com minha tia Zila.
Era assustador o negrume da chuva, e o vento que ela trazia. Tia Zila me confortou, me fazendo ver que era o poder da natureza. E ele era bonito e não assustador. A forte tempestade de verão passou, como todas passam. No entanto, sua passagem me deixou feliz e não mais assustado com seu poder. Passei a mostrar para meus filhos a chuva que chegava, segundo os mesmos princípios de beleza e força. Nenhum deles se tornou meteorologista, mas acho que hoje enfrentam chuvas numa boa, sem medo.
Logo peguei o trem para Golden, na bela estação central de Denver. Toda remodelada, ela é bem bonita e merece mais que um reles translado. É uma estação do século passado, bem grande, que foi recentemente reformada e está cheia de lojas cafés e livrarias. mas fui pegar meu trem.
À medida que o trem chegava perto de Golden, a chuva e as montanhas ficavam mais perto. É um trajeto bem bonito e bem rápido. Na beira da estrada existem diversos conjuntos residenciais de tijolinho vermelho aparente, lembrando as vilas inglesas,  de casas todas iguais. Até os condomínios de prédios baixos tem esse formato.
O trem finalmente nos deixou num grande complexo de prédios, que compreendem o Distrito do condado de Jefferson, ao qual pertence a cidade de Golden. Sim, o nome é esse e eu fiquei procurando umas placas para tirar selfie com meu nome. Mas o ônibus chegou antes. Estava próximo ao meu destino.

domingo, 9 de junho de 2019

CORRER EM AEROPORTO - Diários (norte)americanos, 2 (a missão)



Odeio correr em aeroporto. Detesto. Convenhamos, não é o melhor lugar pra correr. Está mais para o estresse que para a saúde. Correr no aeroporto é correr num lugar cheio de gente, cheio de pisos diferentes, escadas, escadas rolantes, um infindável número de quiosques de coisas no seu caminho. E temos que correr.
Em geral, não é uma corrida simples. Além de ser uma corrida de obstáculos, você ainda está carregando alguma coisa. Uma mala, uma mochila, um pacote com o presente que você comprou para alguém querido, suas blusas de lã...a lista é infindável.
Já fui bom de corrida. Tive tempos memoráveis antes de meus joelhos me traírem. Hoje, correr é praticamente só no aeroporto. E eu detesto. Correr contra todos os que estão no seu caminho, tenham eles culpa ou não de estar na sua frente. Nunca tem nem nunca terão culpa, exceto os distraídos crônicos, dentre os quais me incluo. Correr contra o tempo, correr para pegar um check in aberto, correr para não perder o voo. Correr pra alguma coisa que vai acontecer e você não tem tempo.
Ontem, quando entrei nos Estados Unidos, entrei por Dallas. Passei por toda a parafernália da imigração. As entrevistas até nem são muito complicadas, e o pessoal se mostrou atencioso. O problema é passar pelos tais detectores. Tive que, como todos, tirar os sapatos, os cintos, estripar a mochila e abrir tudo. Esvaziar os bolsos, colocar tudo para fora.
Dentro daquele escâner de gente, é você praticamente como veio ao mundo, tirando algumas roupas por cima. Fiquei com medo. E se o escâner mostrasse quem eu sou? Quem eu realmente sou? Anos e anos de análise e terapia (freudiana e lacaniana), de meditações, de conversas profundas e discussões de relacionamento – vou encontrar quem eu sou no escâner de um aeroporto no Texas? Bizarro.
Depois, de passar pelo escâner, tive que correr. Fiz de tudo para não correr, mas meu voo estava ora num canto ora no outro, e fiquei perdido entre os balcões de embarque. Quando eu achei, foi depois de uma maratona e uma meia maratona e mais o complemento de uns 100 metros rasos com um “peixinho” na chegada. No entanto, apesar de todo este esforço, perdi meu voo.
A funcionária do balcão da companhia aérea não deu muita bola para meu sofrimento. Não teve qualquer pressa em fazer suas funções. Cada coisa a seu tempo, “no rush”. Entretanto, apesar de sua cara de poucos amigos, Cindi (era o nome no crachá) me deu uma outra possibilidade. Um voo no outro terminal. Outra viagem dentro do aeroporto. Trem, escadas rolantes, corredores imensos e vazios. Aqui estou. Espero nunca mais correr em aeroportos.
Estou aqui, em outro guichê, em outra espera, cheio de gente ansiosa ao meu redor. Eu tento esconder minha ansiedade. Mas estou ansioso. Será que vou conseguir embarcar? Será que vou ficar por aqui pra sempre, como aquele filme do Tom Hanks? Menos, Jeffinho, menos...
Só fico pensando na minha mala, que já despachei...será que um dia vamos nos encontrar?

sexta-feira, 7 de junho de 2019

FAZER A AMÉRICA - Diarios (Norte) Americanos 1

https://bit.ly/2XyHqBI
Estou escrevendo do aeroporto de Guarulhos, enquanto aguardo um voo para Denver, nos Estados Unidos. Estou indo participar de um simpósio internacional sobre fluxos de detritos, que tem sido meu assunto de pesquisa nos últimos anos.


Estou meio cansado com a correria dos últimos dias. Véspera de viagem é sempre assim: um monte de pendências para serem ajeitadas antes de ir. Agora não é diferente, mas com um grau de intensidade maior que as últimas vezes.


No caminho do aeroporto, dormi no ônibus e acordei já na marginal, com seu sol fraquinho de início de inverno. Até o trânsito da Marginal parecia fraquinho. Agora, mais a noite, o tempo esfriou e chega a estar nublado.


Aqui ao redor de mim, no aeroporto, começa a se formar o burburinho de passageiros esperando ser chamados. Os funcionários da companhia aérea começam a se posicionar em seus postos. Um misto de ansiedade e impaciência toma conta das faces das pessoas, esperando os serem chamadas para o avião.


Eu estou muito ansioso. Vai ser minha primeira vez nos Estados Unidos, e estarei sozinho. Não domino o inglês como gostaria, o que me dá doses adicionais de ansiedade. Mas tudo bem, ansiedade se vence, se domina e vai adiante. No entanto, existe outra incógnita: os Estados Unidos: O que vou ver por lá?


Existem vários Estados Unidos, e vou conhecer uma pequena parte. Vou ficar a maior parte do tempo na cidade de Golden, onde fica a Colorado School of Mines, uma das mais prestigiosas escolas de mineração do mundo, e onde vai ser o simpósio. Devemos ter inclusive uma saída de campo no domingo para visitar algumas áreas de debris flows nas Montanhas Rochosas. O que me deixa bem feliz. Vou acrescentar mais uma cadeia de montanhas no meu currículo.


Todos nos temos uma ideia dos Estados Unidos, mesmo os que, como eu, jamais colocaram os pés por lá. Essa visão nos é dada pela onipresente indústria cinematográfica americana, sempre a nos conceder narrativas as mais diversas sobre o país e seu povo.


Hollywood nos deu tanto narrativas de chave heroica, com grandes personagens que representam a paz e a liberdade contra os maldosos vilões que querem destruir o sonho americano. De outro, narrativas de chave crítica mostrando as mazelas da sociedade, com seus heróis dúbios e seus finais irônicos, como se dissessem:  isso aqui não é bem assim como vocês pensam.


Fazer a América. Eis um sonho persistente e que se mostra muito forte, mesmo atualmente. Como não querer uma vida de muito trabalho, mas com uma casa e um belo gramado? Nem sempre o sonho é a realidade. Mas, para quem vem de outros sonhos, e mesmo de alguns pesadelos, parece que o sonho americano é possível.


Cada um têm seu sonho, seu desejo e, portanto, a sua América. Qual será a minha América, dentro do estreito recorte que vou ter pelos próximos dias?

sexta-feira, 31 de maio de 2019

PROPRIOLAVUS


(ilustração Julian Fagotti)
A Paleontologia Imaginaria não é futebol, mas também é uma caixinha de surpresas. Entre os fósseis imaginários que estão catalogados ou descritos já lá se vão milhares, como comprova a produção da Imaginary Paleontology Review, um dos periódicos de maior impacto do mundo científico imaginário.
Um destes fósseis, entre tantos outros, é bastante singular pelo fato de não ser um fóssil. Trata-se do propriolavus. A história é longa, e vai ser contada aqui um tanto abreviadamente, dada a exiguidade de tempo e espaço. Ou seja, temos mais o que fazer...
O propriolavus não é nenhuma novidade na escala do tempo paleontológico.  Desde a antiguidade se conhecem estas feições:  trata-se de feições aleatórias nas rochas, preenchidas por cimentos ou óxidos, muitas vezes dando a impressão de formar figuras. Em cientifiquÊs são chamados dendritos. Nestes dendritos, uns veem a Virgem Maria, outros veem um coelho. Outras ainda, um sapo engolindo uma estrela. Foi descrita também um quati malhado e uma concha de amonite. A maioria, entretanto, nada vê. Porquê é só uma mancha na rocha, e não um fóssil.
Aristóteles citou uma destas impressões em sua Física, volume II (hoje perdida), recuperada numa citação de latina de Flavius inflavius: “em terras da Capadócia acharam muitas destas figuras, que não querem dizer coisa nenhuma. Lá, são chamadas de propriolavus”. Na Idade Média tal feição foi descrita por Santo Agostinho, referindo-se a elas como “imposturas da pedra”.
No mundo islâmico, esta figura foi descrita por Ibn Sina, também conhecido na Europa como Avicena. Ibn Sina descreveu tais feições como imposturas e como alucinações que a luz do sol poderia provocar. Para Al Jabr, um dos mais famosos alquímicos islâmicos, o propriolavus era somente fruto da imaginação. Na tradução latina de al Jabr, realizada no século XIV pelo sábio bizantino Constantino da Beócia, o propriolavus foi descrito como “parente do azinhavre e do azebre”.
A história do propriolavus começa a mudar com a leitura da obra do padre Anastasius Kircher. Em seu texto “quae et nos credimus, quod impostor esset propriolavus”, Padre Kircher coloca em questão se o propriolavus seria uma impostura.  Ou, então, uma mera brincadeira da Natureza, ou lusus naturae, como se dizia naquela época.
O texto kircheriano chegou a Inglaterra, onde recebeu uma leitura atenta de Stebe de Bannon. Stebe de Bannon, como sabemos, que estava na época envolvido numa conspiração para assassinar metade das monarquias europeias e instaurar um reino cruzado na Europa Ocidental. Descoberto seu plano, foi esconder-se na América.
Em suas andanças pelo continente norte americano, Stebe de Bannon encontrou vários espécimes do propriolavus, alguns com o mau cheiro característico. Não se sabe exatamente como, num destes trabalhos subterrâneos de Stebe de Bannon, o propriolavus auto-intitulou-se fóssil, com o nome científico de Olavus decarvalhus. A seção tipo onde ocorreria o presumido fóssil seria a região de Richmond, na Virginia. Coberto de razão, o propriolavus começou a ser estudado por diversas pessoas em diversos lugares da América Portuguesa.
Consta que o mineiro Silvério dos Reis foi um dos maiores especialistas no estudo do propriolavus. Apaixonado pelo estudo do propriolavus, Silvério dos Reis chegou mesmo a enviar alguns espécimes para o filósofo Emanuel Kant, que então estava se interessando por assuntos de Paleontologia. Mas o eminente filosofo achou o propriolavus sem importância, e sequer respondeu as cartas de Silvério dos Reis.
Revoltado com a ausência de resposta, Silvério acusou o então alferes Joaquim Jose da Silva Xavier de haver sabotado seu contato com Kant. Silva Xavier sofreu então um sério assassinato de reputação, orquestrado pelo propriolavus, que via em tudo sinais de perseguição. Como se sabe, o Alferes, ao final, foi condenado a morte na forca e diversos outros cidadãos mineiros tiveram seus bens confiscados e foram enviados para o exilio por conta das maquinações de Silvério do Reis e do propriolavus.
O autointitulado fóssil Olavus decarvalhus não foi muito bem aceito na comunidade cientifica. A maior parte dos pesquisadores sequer reconhecia sua existência. No entanto, sempre coberto por camada e mais camadas sedimentares de razão, o Olavus decarvalhus estava sempre acompanhado de um pequeno grupo de leigos que acreditavam piamente em seu caráter fossilífero.
Durante um certo período geológico, chegou a ter alguma relevância, inclusive poder. Chegou a ser considerado o suporte de espécimes unicelulares como o Velez sp e o weintraubius balburdicus. Mas quando começou a abrir mais fortemente sua boca, o Olavus decarvalhus foi se tornando mais conhecido. Quanto mais conhecido, menos estudiosos acreditavam nele.
O propriolavus extinguiu-se totalmente ao fim do Antropoceno inferior. Deixou, em vez de impressões fósseis, um sem-número de dívidas para seus seguidores pagarem.




 (a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)






sexta-feira, 17 de maio de 2019

O DESASTRE "EMINENTE"

https://bit.ly/2JsQHYO

Não tenho por hábito criticar os erros de português das pessoas. A professora Deise Picanço, minha irmã, sempre me preveniu: “nunca caçoe ou critique quem escreve ou fala errado”. Para ela, professora da UFPR, escrever errado ou certo é função da trajetória de vida que cada um teve. E isso ninguém escolhe. Caçoar de quem fala errado, diz Deise, é perpetuar antigas injustiças, é castigar quem já foi castigado com uma educação ruim.
Depois que aprendi isso, passei a relevar gramáticas ou ortografias. Quem fala “errado”, mas se comunica bem, na verdade está vencendo uma barreira cultural e social. Um exemplo de pessoa com pouco estudo, mas muita inteligência, é o presidente Lula. Apesar do seu português ruim, é um orador incomparável e um político como poucos. Quer seus detratores queiram, quer não.
 Como a sociedade que queremos não precisa de barreiras culturais e sociais entre pessoas mais e menos cultas, todos com algo a dizer merecem ser ouvidos. Com isso, a língua se enriquece, a comunicação se enriquece, a cultura se enriquece. O povo “enrica”. Quantas falas de hoje se originaram das falas “erradas” das massas populares? Inclusive nossa língua, o português, a tal “última flor do Lácio”, não era um latim popular, portanto “mal falado”?
Consigo, portanto, entender que uma pessoa que não teve acesso a uma cultura escolar mínima se expresse mal ou com alguma dificuldade, mas se expresse. Entendo e respeito. Eu mesmo cometo aqui e ali muitas faltas contra o léxico ou a concordância. Não estou aqui pra puxar a orelha de ninguém por isso.
No entanto, dos tuites dos primeiros-filhos às manifestações dos ocupantes dos primeiros e segundos escalões da República, as escorregadas da comunicação oficial no idioma de Camões são muitas. O governo que não nos governa há quase 5 meses nos dá repetidamente grandes quantidades de mancadas no léxico e na ortografia.
Não me preocupo com os erros de ortografia, mas com o que eles revelam. Antes de mais nada, o desleixo gramatical dos Bolsonaro (e dos bolsominions de primeiro e segundo escalões) são, antes de mais nada, reveladores de uma maneira de pensar.
Tais escorregadas refletem sobretudo a falta de uma cultura escolar suficiente destas pessoas, e dizem muito sobre a pressa ou o desleixo com a expressão escrita. Mas eu vejo mais que isso. Mais importante que erros de português, a ortografia falha dos próceres do atual governo marcam um certo desprezo e ódio à cultura e ao conhecimento. Como disse um amigo, "é o governo do não sei e não quero saber".
Este desprezo não está somente nas confusões entre palavras como “iminente” e “eminente”, entre “incitar” ou “insitar”. Este desprezo também não está na falta de coerência e de concordância de alguns tuites. Está no discurso mais profundo.
A blitzkrieg bolsonarista contra a Universidade veio também pela sua divisão Panzer, o WhatsApp. Os analistas das redes começaram a notar desde o dia 30 de abril próximo passadoum aumento no disparo de mensagens dizendo que as universidades eram centros devagabundos e maconheiros. Para provar, estes Zaps mostravam fotos de gente pelada, algumas de eventos ocorridos em universidades privadas, outros de ações descontextualizadas, como uma performance contra o Holocausto que virou uma reles orgia nas mensagens dos haters.
Como disse um colega daqui em seu twiter recentemente, eu também vi na internet alguns destas mensagens nos informando destas festas loucas com bebidas, drogas e gente pelada. Estas festas, pelo que diziam os Zaps,  ocorreriam diariamente pelo Campus. Da mesma forma que o referido colega, fiquei muito chateado com o fato de tais festas ocorrerem aqui do meu lado e eu nunca ficar sabendo.... nem um convitinho recebi!
Depois das críticas iniciais e da repercussão negativa das falas do governo, o discurso mudou. Primeiro, tentaram provar matematicamente, pois que a matemática é uma ciência nobre. Como os esquerdistas são notoriamente de humanas, foram usadas barrinhas de chocolate para ilustrar aaula de economia do Ministro. No entanto, além da explicação obscura sobre as porcentagens, o presidente guloso pecou no discurso e na encenação, tão típicos das Humanas e das Artes, ao comer disfarçadamente (?) o chocolatinho que deveria durar até setembro...
Depois das manifestações do #tsunamidaeducação, que levou centenas de milhares de estudantes brasileiros às ruas, o discurso mudou de novo. Os meninos e meninas mal saídos da adolescência que vi aqui nas ruas de Campinas e de todo o Brasil defendendo a Escola pública eram “idiotas” e “inocentes úteis”.
Será que o presidente teve a intenção de trazer um discurso da Guerra fria para o momento atual de propósito? Ou ele não sabe fazer outro discurso além dos que ele ouviu nos quarteis, nos anos 70, antes de ser defenestrado por indisciplina?
Os liberais, que votaram no Amoedo e não tem nada com isso, estão neste momento nas redes sociais para explicar que os meninos e meninas que querem ter a chance de ter uma universidade ou uma carreira na ciência não entenderam o Ministro mãos de tesoura. Afinal, todos os que estavam na rua eram incuráveis esquerdistas. Todos.
Estes esquerdistas, como se sabe, carecem dos recursos cognitivos mais óbvios.  Os esquerdopatas, doentes que são, não entendem que “contingenciamento não é corte”. Fiquei feliz ao ler alguns posts por aí. Ainda bem que nós esquerdopatas temos os liberais-eleitores-do-amoedo para nos curar!
Mas o discurso contra as universidades segue firme. No dia 14 foi assinado um decreto que tira dos reitores a autonomia para nomear pró-reitores, e coloca os Arapongas da ABIN para investigar todos os candidatos a altos cargos nas universidades. É claro que é uma provocação e uma ameaça, mas não vai colar. Veremos.
Não se pode, entretanto, acusar este governo de monotonia. Hoje, surgiu um texto veiculado pelo whats do presidente, em que reclama que o país é ingovernável, dirigido por corporações que não querem o bem do povo. Bolsonaro quer, mas não consegue (!) governar. Ô dó! O texto*, obra prima da teoria da conspiração, ressuscita as “Forças ocultas” que tanto assombraram Jânio Quadros em seus delírios político-etílicos.
(outra coisa interessante é que o texto é bem escrito, ao contrário das algaravias do Capitão e seus filhinhos e apaniguados do Olavo. Quem sabe o escritor, dotado de domínio da língua, não quisesse ser visto em companhia dos tatibitates do governo e preferiu se preservar, mantendo-se anônimo).
Este é um governo que sequer começou, mas já está fazendo água. A palavra impeachment voltou a correr, dita pela boca do próprio presidente. Não sei se é por aí. Não precisamos de mais impeachments. Não é, Aécio? Mas a incompetência e inapetência do governo por governar o precede.
A facada do Adélio nos fez eleger um presidente de cera, que agora se derrete ao veranico de maio. Existem, aqui e ali, quem ainda veja nele um mito. Mais e mais pessoas, finalmente, estão vendo não um mito, mas um mico.
Como diria alguma fonte oficial do governo, estamos diante de um Desastre “eminente”. 

*agora a noite acharam o autor do texto...um eleitor de João Amoedo (!?)

sexta-feira, 3 de maio de 2019

LINGUIÇA SALGADA COM FARINHA SURUÍ


Bairro da Serraria, Capão Bonito (SP), 1940. 
No dia seguinte, os escoteiros aproveitaram as camas da pensão do Chefe Mimi, e dormiram um pouco mais. O sol forte do caminho ia começando a produzir seus estragos. Os rapazes, como de hábito, acordaram cedo. No entanto, tiveram que esperar pelo café, para ser tomado com o chefe e sua família. Tomaram um bom café ao redor da mesa da pensão. Mas os rapazes estavam impacientes, a estrada os esperava. Lá pelas 9:30, puseram-se novamente em marcha.
A partir de Capão Bonito, os rapazes entrariam numa região bem mais plana que o planalto de Apiaí e as serras de Paranapiacaba. No plano, também, havia vários caminhos a percorrer. O mais curto deles passava por cidades pequenas, como São Miguel Arcanjo e Pilar do Sul. No entanto, avaliaram que seria muito mais penoso, e com menos estrutura. Decidiram, portanto, seguir a rota mais antiga e mais longa, mas que passava por centros maiores, como Gramadinho, Itapetininga Sorocaba e São Roque.
O caminho foi bastante tranquilo. Apesar do sol forte, os rapazes chegaram a Gramadinho, a próxima etapa da viagem, ainda no fim do dia. Lá, acabaram por pedir pouso numa Delegacia de Polícia. Lídio não esqueceria esta noite.
Atacado por uma forte dor de cabeça, Lídio pediu aos companheiros um copo de agua para tomar uma aspirina. Milton e Manduca foram ao poço que havia nos fundos da delegacia. Mas eles estavam demorando para trazer o tal do copo de água. Lídio se impacientou. Mesmo com febre e dor de cabeça, foi lá fora ver onde eles estavam. A situação que encontrou não era nada fácil.
Com os pés no chão frio e meio zonzo da febre, Lídio foi encontrar os companheiros. No meio da noite, Milton e Manduca estavam tentando passar por um arame farpado que dava acesso ao poço. O acesso se fazia por meio de um caracol de arame farpado, que foi difícil de cruzar no meio da noite escura.
Uma vez resolvido o acesso ao poço, os rapazes tiveram que consertar a manivela do poço, que estava quebrada. Mas, apesar de todos os perrengues, ainda viriam outros mais:  quando puxaram a água do poço viram que o balde estava furado. Nada de água. A febre de Lídio continuava.
Um deles foi pegar uma marmita. Improvisada como balde, jogaram a marmita lá embaixo. Quando rodaram a manivela, cada barulhinho que a manivela fazia era uma apreensão só. Mas deu tudo certo: a marmita desceu e voltou lá de baixo cheia água. No entanto, quando foram ver, a água era meio salobra. Mas Lídio estava desesperado. A febre seguia e ele estava louco para tomar a aspirina. Nessa hora, o rapaz não quis nem saber. Pegou a marmita e tomou a aspirina na água ruim do poço da Delegacia.
Quando voltaram para o alojamento, ainda meio zonzo, os rapazes foram dormir. Após um momento, a dor de cabeça de Lídio foi passando e, com ela, veio o sono. Somente no dia seguinte foi que ele se lembrou de uma linguiça salgada com farinha suruí, que havia comido na noite anterior.