quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - A ENGENHEIRA


(a faixa verde-clara no centro da foto é o duto cruzando os mares de morros)

A engenheira chegou no projeto. Alta, linda, loura, formada na Unicamp e com especialização em segurança do trabalho. Maravilhosa. Uniforme azul impecável, botas novas. Sequer desceu da caminhonete pra cumprimentar: estendia o braço pela janela, e exibia um pálido sorriso.
No primeiro local de visitação, nem quis descer ao local onde estávamos fazendo as sondagens: tínhamos que descer segurando em cordas. Reclamou dos insetos, de uma abelha e de uma joaninha que pousou em seu braço. Quando saímos do local, disse que as curvas da estrada faziam-na enjoar.
No segundo local, até que foi ver o pessoal trabalhando. Aí reparou que ali não existia um banheiro químico. Nosso encarregado, o Siqueira, pernambucano de olhos calmos, respondeu-lhe que ali, naquele tipo de obra, um banheiro químico era um severo impedimento ao trabalho. Nosso deslocamento era constante de um ponto a outro. Levar um banheiro químico para aqueles lugares era um ônus pesado demais para nossos funcionários. Quase como levar fogão de seis bocas num camping.
Então, a engenheira reparou que os funcionários estavam sem o protetor auricular. Novamente, com seu jeito calmo, Siqueira explicou que ali, na mata, não haviam ruídos que pudessem incomodar os funcionários. O bater do martelete de percussão não era continuado nem tinha um som exagerado.
Eu quis mostrar a ela as obras que estava vistoriando. Ela me deixou com o outro fiscal e voltou para a caminhonete. Voltarmos cerca de 40 minutos depois, e a encontramos deitada no banco da caminhonete, ar condicionado, dormindo o sono dos justos.
Disseram-me que ela tinha vindo pra ser chefe da fiscalização do projeto. Não sou nenhum especialista no assunto, mas é mais uma pessoa errada no lugar errado. Depois de quase dez anos sem contratar, as empresas estatais estão num serio dilema. Contratam recém-formados, mas por falta de quadros mais antigos, estes mal entram e já pegam cargos de chefia. O que essa menina vai chefiar?
Mal ela sabia, mas naquele bando de peões que ela viu operando a sonda havia Cícero, que já ganhou dinheiro compondo músicas. Havia o Melancia, contador de causos e anedotas de animar qualquer roda. E havia o Tonho, grande e forte como um urso, suave e simpático como uma criança.
Para além de qualquer projeto estão as pessoas.
As pessoas fazem projetos, constroem dutos, fazem leis, jogam futebol, dirigem grandes corporações, constroem ou destroem países inteiros. Perceber isso é crucial para qualquer empreendimento humano.
Será que a engenheira sabe disso? Pode até saber academicamente, mas tem o saber profundo, aquele que vem com o bater do coração e com o pulsar da existência?
Tomara que ela construa muitas coisas em sua vida profissional. Principalmente, tomara que ela veja, para além das obras prazos planilhas e cronogramas, aquele bando de gente boa e trabalhadora que está ali, fora do ar condicionado, fazendo concretamente o concreto de nossas vidas. Tomara.
(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

sábado, 11 de novembro de 2017

O MINUTO DE BARBOSA



Aquilo foi pouco tempo, menos de um minuto. Gighia passou por Bigode no meio do campo e veio vindo. Uns dizem que Bigode ficou acovardado. Outros lembram ainda do tapa que Bigode levara há pouco de Obdulio Varela e não reagira. Time medroso. O cúmulo da covardia diante da  pátria de chuteiras. 

Gighia avança, Fontana o acompanha de longe, voltando de costas, sem dar combate. Barbosa começa a pular nervoso, de sobreaviso - saio ou não saio? Milhões de olhos o acompanham, os músculos se retesam, os olhos não perdem um lance da aproximação de Gighia, que avança.

De todos os lados os olhos ansiosos estavam pregados naquela cena que se desenrolava veloz, Gighia já está entrando na grande área conduzindo a bola de cabeça baixa como um búfalo furioso, toda perseguição parecia inútil. O Maracanã, com mais de sessenta milhões de pessoas, toda a população brasileira daquela época, assistia mudo Aparício Varela entrando na área.

Tempos modernos, agora não eram trinta e três, mas somente onze. Capazes de anular toda a República, como um dia abalaram o Império. Os uruguaios estão chegando. Gighia chega mais perto e desfere o chute. Barbosa tem pouco tempo. Prepara-se nervoso, retesa os músculos e salta. A bola resvala em seus dedos e sai pra escanteio. O Maracanã respira aliviado. O jogo continuava empatado.

Terminado o jogo, éramos os melhores do mundo. Aquele dia os milhões de pessoas que lotavam o Maracanã não viram Barbosa cabisbaixo buscar a bola do desempate uruguaio no fundo das redes. Não houveram os pulos de alegria que Gighia dava com o jogo virado. Não houve a festa celeste. Não houve lágrimas entre a torcida brasileira, nem choros convulsivos dentro e fora do gramado. E, principalmente, não houve Obdulio Varela levantando a taça como o Gumercindo Saraiva que finalmente amarrava seus cavalos no centro do Rio.

Se Barbosa não tivesse espalmado aquele chute, viveria uma vida de caras viradas, de palavras rudes, de recriminação, de silencio e esquecimento. Teria que viver explicando que não fora frango, que não havia caveira de burro enterrada debaixo de sua meta. Não, a bola enfiada por Gighia não passara por entre seus dedos com o resto de sua vida. O minuto que começara com o drible e a arrancada havia terminado.

Ghigia não marcara o gol, e agora o Maracanã agradecido aplaudiu os artilheiros. Encerrado o jogo, cartolas invadiriam o gramado, felizes. Afinal, agora eles seriam consagrados como responsáveis pela conquista, desde as goleadas contra Suécia e Espanha até àquele suado empate com o Uruguai, dentro do Maracanã lotado. Os cartolas todos foram posteriormente eleitos deputados federais, e fizeram brilhante carreira na política.

Canções foram compostas para louvar os artilheiros, seus salários foram melhorados. Um filme foi rodado com os gols da partida, mostrando as cenas de júbilo e entusiasmo da torcida. Era o primeiro campeonato do mundo de futebol conquistado pela seleção brasileira. E dentro de nossa casa! O filme com o jogo da final de 1950 passou nos cinemas de todo o País, e mostrou aos meninos a glória de vestir o uniforme branco da seleção brasileira.

Depois de ter com a ponta dos dedos espalmado o chute venenoso de Ghigia, segregado àquela estranha profissão de hunos, sempre pisando onde não nascia grama, Barbosa continuaria em silêncio sua sina de buscar bolas no fundo do gol.

(PUBLICADO AQUI PELA PRIMEIRA VEZ)

sábado, 21 de outubro de 2017

A CHUVA DIFÍCIL



Tá difícil chover por aqui.
As nuvens passam, passam e nada. Depois de ventar a noite inteira, o dia amanhece de sol. Limpinho, limpinho. Sem nem uma nuvem. Depois, o calor vai aumentando devagar. Os últimos dias estava insuportável de quente. O ar, extremamente seco. O nariz sofre. A sensação de boca seca nos persegue o tempo todo.
No jardim de casa, é só esquecer de molhar um dia e algumas plantas já começam a murchar. Haja água. E lá vamos nós a molhar as plantas. A terra vai engolindo avidamente toda a agua que colocamos. Quase dá pra ouvir o glut-glut-glut telúrico.
Choveu, mas muito pouco. As chuvas que passam por cima da gente nestes dias de primavera nos dão falsas esperanças. De noite, com o barulho do vento, me confundo esperando ouvir o som da chuva. De manhã, ao abrir as portas e ir para fora tomar o café olhando as plantas, me sinto enganado pelo vento.
As pessoas tentam olhar nas previsões do tempo, sempre tão seguras. Probabilidade de chuva: 57%. Não vai chover hoje, não vai chover amanhã. A chuva que estava prevista para o domingo passou por cima e nada. A esperança, ressequida.
As notícias que recebemos também andam ressequidas e desalentadoras. Na semana que passou, vimos os poderes da república batendo cabeça, disputando nacos de poder, inventando interpretações.
Pode-se dizer que desde que Aécio, esse semeador de ventos, começou a duvidar dos fundamentos da democracia, estamos todos ladeira abaixo. Do resultado das eleições ao golpeachment tudo o que tínhamos por regras foi se esfarelando. Agora, pau que bate em Chico não bate em Francisco. Precisamos antes perguntar para Gilmar Mendes.
O STF se acovarda. Bate em quem está fraco e não se sustenta contra os que estão fortes. A lei, ora a lei! O Senado da República, nada republicano, transforma-se numa agremiação que protege os seus. Seus comparsas.
Na Câmara, vigora a proteção ao presidente apanhado com a boca na botija em relações espúrias com o poder econômico. A ele é dado o benefício da dúvida que foi sonegado durante a consecução da deposição da presidenta eleita. A ele não se questiona o toma-la-dá-cá realizado com as bancadas do atraso a cada pedido de abertura de inquérito.
A fatura da “governabilidade” é paga regularmente. Nesta semana a bancada dos grotões e do atraso viu o governo estabelecer uma portaria que restringe a definição de escravidão e dificulta a atuação dos auditores.
Com isso, a escravidão volta ao interior do país. Quem quiser veja as consequências aqui.
O Brasil teve um passado tenebroso em termos de escravidão. Fomos o ultimo pais da américa a banir a escravidão num processo lento e doloroso que até hoje gera conflitos em nossa sociedade.
Com essa portaria, segundo os especialistas, vai facilitar a ação dos “gatos” aliciando mão de obra barata no interior do pais. A maior parte em projetos agropecuários na Amazônia. Mas isso não vale nada.
Para os donos dos grotões do pais, é esta a liberdade que eles querem. A liberdade do liberalismo brasileiro, essa aberração conceitual, é a liberdade de explorar sem freios a mão de obra. Nosso liberalismo tem as mãos manchadas de sangue.
Enquanto isso, tentamos levar nossas vidas. Quase sempre respondo um tudo bem com um “eu vou bem, mas o resto está uma merda!”. Eu estou bem. Tenho saúde, família, trabalho. Mas ando preocupado com a falta de chuva e com a falta de esperança.
Dias melhores virão. Dias melhores verão. Vai finalmente chover e as plantas do jardim vão ficar menos ressequidas. As tempestades do fim da primavera vão balançar as árvores e criar ravinas no solo. Mas o verão vai chegar.
No entanto, no deserto que se transformou este país, teremos alguma esperança?

sábado, 14 de outubro de 2017

O HIPOCONDRÍACO DOS MORRETES


Antônio Vieira dos Santos  
(Antonina em 1854 - parte IX)

Não resta dúvida: Antônio Vieira dos Santos (1794-1851) era um hipocondríaco.
Todos nós temos nossos defeitos, e a hipocondria não é dos piores. Mas Vieira dos Santos -  um comerciante nascido em Portugal e que viveu a maior parte de sua vida em Paranaguá e depois Morretes – tinha também outros defeitos e virtudes. Entre as virtudes/defeitos, estava o habito de tudo anotar e escrevinhar.
Não por acaso Vieira dos Santos foi o autor das Memórias Históricas de Paranaguá e Morretes, que lhe deram fama póstuma. Mas ele fazia ainda mais. Durante toda sua vida, ele anotou obsessivamente em diversos cadernos quase tudo que achou importante em seu quotidiano. Nascimento, casamento, mortes, acontecimentos os mais diversos, tudo ele anotava. 
Os cadernos de anotações de Vieira dos Santos, recentemente publicados pela editora da UFPR, são uma boa fonte de informações sobre a vida e o quotidiano das pessoas no século XIX no litoral do que alguns anos depois seria chamado de Província do Paraná.
Assim, como escrevinhador e hipocondríaco, ele nos legou informações importantes sobre a saúde em Morretes, Paranaguá e Antonina.
Vieira dos Santos, em suas anotações, faz uma listagem dos livros que possuía. É uma coleção modesta de um modesto comerciante. No entanto, muito se pode ler nesta listagem.
Nela, como em toda boa biblioteca de hipocondríacos, constam vários livros sobre medicina e doenças. Entre eles estava o livro “Medicina Doméstica ou Tratado Completo dos Meios de Conservar a Saúde”, um livro de medicina pratica e caseira escrito pelo médico inglês William Buchan (1729-1805).
Antes do popular Chernoviz, que seria o grande tratado de Medicina popular no Brasil na segunda metade do século XIX, o livro de Buchan era o grande tratado médico popular da época. Trata-se de um grande livro de medicina popular, escrito em linguagem simples e dando práticas de cura simples e práticas. Como o Doutor Google hoje.
Publicada em inglês em 1769, a obra teve diversas traduções para o português entre 1790 e 1840. Não sabemos qual a edição do livro de Vieira dos Santos. A edição que consultamos, de 1790, era uma tradução do francês para o português, neste caso o doutor Francisco Pujoll de Padrell filho, impresso na Typografia Rollandiana de Lisboa.
Assim como o Buchan, Vieira dos Santos ainda tinha o “Aviso ao Povo acerca de sua saúde”, do médico suíço Auguste Tissot (1728-1797). Escrito em 1773, é outro manual destinado as parteiras e aos sangradores e cirurgiões. O livro trazia informações e procedimentos para estes profissionais, na ausência de médicos.
Além destes best-sellers, Vieira dos Santos ainda possuía os “Princípios de cirurgia”, de autoria de Jorge de La Forge, do qual nada encontramos. Também nada encontramos do livro “Descrição compendioza das enfermidades mais crônicas dos exércitos”, pelo Barão de Wan Witen, ou do “Ensaios sobre a arte de formular”, de A.I. Abiber, datado de 1811.
Já o “compendio de ptos (sic) e vários remédios de cirurgia”, de Gonçalo Ruiz de Cabreira é conhecido na medicina portuguesa. Este último sabe-se que foi um importante medico português do século XVII, que compilou diversos tratados antigos de medicina.
Como não poderia deixar de ser, Vieira dos Santos também seguia os preceitos da homeopatia. Em sua biblioteca constam “A pratica elementar da homoeopathia pelo Doutor Mure“, de 1847. Tendo como subtítulo “Conselhos Clinicos, para qualquer pessoa, estranha completamente à medicina, poder tratar-se, e a muitos doentes, conforme os preceitos da homoeopathia, confirmados pelas experiências dos Doutores Aegide, Alther [...]”, é também um importante manual de praticas medicas. A tradução para o português foi feita pelo medico brasileiro João Vicente Martins (1810-1854).
Também estava nas estantes de Vieira dos Santos o livro “Noticias elementares de homeopatia e manual do fazendeiro, do capitão de navio e do pai de família, contendo a acção dos 24 principais medicamentos”. Esta era uma publicação do Instituto Homeopático do Brasil. A homeopatia estava chegando, e Vieira dos Santos não poderia deixar de ter estes livros.
Era uma medicina que se popularizava, e que chegava à casa das pessoas. No Brasil, muitos livros foram escritos para que os patrões cuidassem das doenças mais comuns de seus escravos (o fazendeiro), dos viajantes (o capitão de navio) e a medicina doméstica (o pai de família). Num país onde predominavam as práticas tradicionais, a medicina científica fazia sua entrada. Como bom hipocondríaco, Vieira dos Santos estava a par de tudo isso. 
Era uma gama de livros médicos respeitável para um modesto caixeiro da Villa dos Morretes. Munido desta ampla gama de informações e conhecimentos, Vieira dos Santos estava pronto para enfrentar os males que viriam a abater a ele e sua família.
(continua)

sábado, 7 de outubro de 2017

A NOITE DOS BESOUROS



Ontem fez muito calor, e os insetos revoavam pela casa e pelo jardim. Ao longe, trovoadas e uma lua pálida prenunciavam a chuva que viria. No ar abafado, os besouros voavam, com seu jeito desengonçado. Diversos tipos de besouros, muitos besouros.
Dizem os entomologistas que o tempo presente não é a Idade do Homem, e sim a Idade do Besouro. Eles são o gênero mais comum, com maior quantidade de espécies. Um desses entomólogos, especializados em besouros, chegou a dizer: “Deus, se ele existe, tem uma especial predileção pelos besouros”.
Pois ontem à noite em meu jardim os besouros voavam. As lagartixas, esses seres mesozóicos, saiam de seus esconderijos para rodear as lâmpadas do jardim. Quando retornavam a seus esconderijos, estavam com a barriga preta de insetos. Todos eles: moscas, mariposas, formigas, vespas. E besouros.
Hoje de manhã, quando fui ao jardim, pude ver um desses besouros. Deitado de costas, o belo coleóptero jazia de costas no piso frio da varanda. Algumas formigas tentavam tirar alguma vantagem: pegar um pedaço de pata, de antena, tentar carrega-lo, qualquer coisa. Tinham muita pressa as formigas. O besouro, morto, parecia que estava com uma as patinhas levantadas como se pedisse socorro. Não existe socorro para besouros que caem de costas.
Ao ver o espetáculo da natureza e sua faina, comecei a me lembrar dos nossos tempos, quentes e abafados. Nas pessoas que não olham para os lados. O pobre besouro ali estendido e prestes a ser esquartejado pelas formigas éramos nós.
O outro está sempre errado. Ao outro não perdoamos a cor partidária, suas crenças, sua sexualidade. Não perdoamos a cor de sua pele, o jeito de seus cabelos, a maneira de se vestir. Não perdoamos o que dizem, o que cantam, o que escrevem. Um novo tempo de perseguições e proibições parece se avizinhar.
São noites quentes, como a noite de São Bartolomeu, a noite dos Cristais, a noite das Facas Longas. Nas noites longas e quentes os homens saem para matar os seus diferentes. A noite quente prenuncia a chuva.
Séculos de aprendizado com estas barbaridades não parecem comover os novos perseguidores. A moralidade surge como desculpa para novas imoralidades. As figuras públicas se escondem sob o véu da moralidade para proibir.
A velha Europa aprendeu no passado que perseguições e intolerância geram somente mais perseguição e intolerância. Hoje, todas estas lições parecem esquecidas. O ódio surge da intolerância. E aí vem a perseguição, a ameaça. O que o outro é não me ameaça. O que me ameaça é impedir o outro de ser. Se impedem o outro, logo depois vão impedir a mim.
O avanço das ideias intolerantes preocupa. Hoje, sabemos como começa e temos uma ideia de como termina. As noites quentes prenunciam chuva. As chuvas terminam com muitos insetos mortos no chão, devorados pelas formigas.
Parei por aí. Tenho muita coisa para fazer. Hoje o dia amanheceu de chuva e frio. Tenho muitos besouros para varrer no chão. É um dia cinzento e triste esse.  

sábado, 23 de setembro de 2017

AO CHEGAR SETEMBRO


O casal de rolinhas, olhando desconfiado, enquanto isso tentam nos enganar e achar um local para seu ninho
Ontem foi o equinócio de primavera no hemisfério sul. Esta é uma primavera sem muita cara de primavera aqui no nosso canto do mundo. O espirito das pessoas não anda nada primaveril. Mas, vá lá, a primavera começou. O planeta deu um “clique” e girou um pouco em sua orbita, passando em cima do tropico. Agora se espera, aqui na parte de baixo do mundo, que os dias fiquem mais longos e com mais calor.
Aqui no nosso quintal vivemos uma seca que dura, com poucas interrupções, desde maio. Choveu, mas muito pouco, em junho e em agosto. A terra anda esturricada e dura. A grama e os capins altos estão meio secos. O céu azul as vezes chama algumas nuvens no horizonte, mas sem sinal de chuva.
As rolinhas teimam. Estão querendo viver, estão querendo se acasalar, criar filhotes. Fazem ninhos nos lugares mais estranhos: na samambaia, na lâmpada, no caibro da casa. Quando chegamos, o casal foge para longe e nos olha com ar de desconfiados. Eles lutam desesperadamente pela vida, pela sua vida.
Na nossa vida, continuamos com agruras. As pessoas se cumprimentam com os “como vai” e respondem com “tudo bem”, mesmo sabendo que nem tudo vai e muito menos bem. É a vida que teima em seguir.
Somos hoje uma sociedade cansada, sem esperança. A gente sempre desconfiou, mas agora temos certeza: somos comandados por bandidos. Estes bandidos desfilam impunemente em nossas telinhas, sorriem para si nas suas intermináveis reuniões. Estão intranquilos, mas tem a caneta em suas mãos. A caneta e o apoio da população.
Sim, nossa população apoia os bandidos e os corruptos. Com seu silencio, com sua omissão e com aquele pensamento que “aqueles lá” não prestam, não importa a cor. Alguns sabem que importa a cor. Mas a cor que manda agora é a cor deles, e então está ruim, mas está bom.
Nos sertões e nas periferias, o massacre é constante. As milícias de fazendeiros e as policias agindo como milícias estão se sentindo a vontade para fazer o que melhor sabem: assustar, expulsar ou matar. O que vier antes. Nas cidades, muitos aplaudem quando veem camponeses ou índios sendo mortos na televisão.
As outras milícias, as virtuais, não são menos letais: soltam os cachorros contra pobres, artistas, gays, mulheres, ciclistas (ciclistas?). Estão com a corda toda, fazendo seus robôs das redes sociais trabalharem contra a arte e a cultura. As milícias virtuais fazem o primeiro ataque. O judiciário não faz por menos: volta e meia um juiz iluminado proíbe arte, reflexão, discussão. O cerco vai se fechando.
Nas câmaras municipais, pululam as leis que vigiam os professores. As leis de censura brotam como que do chão. Nada de discutir escola, educação, inclusão. Agora,  trata-se de amordaçar professores.
A secura do chão se reflete na secura dos tempos. Parece que foi embora a saliva de nossas bocas, não há como gritar. A grita é inútil. Bem posicionados nas mídias, sempre tem alguém com um discurso de ódio e discriminação. A gritaria é enorme, como que  para desviar o foco dos reais problemas.
As chuvas que devem chegar não serão chuvas benfazejas. Serão grandes tempestades de vento, como ocorre em nossas primaveras. As rolinhas correm para fazer seus ninhos antes das tempestades. As fêmeas se seguram nos ninhos, mesmo debaixo de chuva, enquanto os machos correm atrás de galhos e alimento. Lá por dezembro, os filhotes, já fortinhos, ensaiarão seus primeiros voos.
Temos que esperar as tempestades, temos que resistir. Temos que construir outras saídas que não sejam responder aos odiadores. Temos que ter a nossa pauta, e não nos pautarmos pela deles.
A primavera é rude. Os tempos também. O que vamos fazer?
As rolinhas já estão fazendo. 

sábado, 16 de setembro de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 8)



Se nada mais adiantasse contra a cólera, era preciso recorrer as orações...
A epidemia de cólera estava batendo à porta da Deitada-a-beira-do-mar. A população estava apavorada. As autoridades, embora tomassem diversas medidas, não sabiam exatamente o que fazer. Havia uma certa noção que a higiene era importante. Mas não se sabia como a cólera se transmitia. Nem qual seria o tratamento mais adequado. Assim a cólera se espalhou por todo o mundo no século XIX.
Estas pandemias de cólera foram extremamente mortíferas em suas várias manifestações nos últimos duzentos anos. Houve um grande esforço por parte dos governos e dos cientistas de todos os países para se descobrir as causas e também a cura para a doença. Sabe-se que o vibrião colérico foi descrito pela primeira vez em 1854 pelo médico italiano Filipo Pacini (1812-1883) e pelo inglês Robert Koch (1843 - 1910) que fez o anúncio da descoberta do bacilo da cólera em 1883.
Na Inglaterra, os trabalhos do médico John Snow (1813-1858) foram decisivos para que se descobrisse os modos de contaminação. Mas métodos eficazes de controle da cólera só seriam viáveis décadas depois disso.
No Brasil de 1850 também não se tinha um quadro completo de conhecimento para impedir a propagação da doença. Estima-se que o cólera tenha feito cerca de 200 mil vítimas no período 1855-56. Isso no tempo que a população total do pais era de aproximadamente 8 milhões de habitantes. Segundo Donald Cooper (ver aqui) , cerca de dois terços das vítimas foram provavelmente os escravos, que viviam em situação mais precária de higiene.
No entanto, como tratar a doença? As opiniões entre os médicos e autoridades também eram as mais diversas. Para alguns, um remédio infalível seria o sumo de limão. No Pará, onde o surto da doença foi bastante forte, o próprio presidente da província pareceu ter se convencido dos poderes curativos do suco de limão. A carta que o Presidente da Província do Pará escreveu foi publicada no dezenove de dezembro, na qual ele relata o tratamento (veja aqui). Na matéria publicada há também a citação de diversas pessoas que teriam sido curadas quando tratadas com o sumo de limão. A lista é bastante extensa.
Há também uma nota falando de um remédio sugerido por um médico francês, que seria também bastante eficaz (veja aqui).
Como em todo o caso de grandes epidemias, tentava-se de tudo o que estivesse ao alcance. Talvez não tenham sido poucos os que recorreram a curandeiros e a simpatias, remédios caseiros e outras formas de cura.
Também haviam as soluções metafísicas para a epidemia. Existem no período diversas publicações no jornal, onde se vendem as populares orações da estrela do céu e a oração de nossa senhora do desterro. Essas são orações muito comuns, que as pessoas deveriam comprar impresso e carregar consigo como proteção para a peste. Nossa Senhora do Desterro era a santa que protegia das pestes, bruxarias e calamidades. Era a ela que os piedosos e devotos habitantes da Deitada-a-beira-do-mar recorriam nestes momentos de aflição.  
De qualquer forma, parece que em 1857 os efeitos da epidemia parecem ter passado. Numa comunicação do presidente da província o texto cita a salubridade da província, que fora poupada pelo cólera. Da mesma forma, os hospitais improvisados construídos em Paranaguá e antonina foram desmobilizados (veja aqui). O governo imperial estabeleceu poucos anos depois um código para os portos onde estabelecia diversas normas de higiene (Ver o Código Naval do Império aqui).
E as outras doenças? Quais eram as doenças mais comuns em antonina e no litoral neste período? Como as pessoas se tratavam?

sábado, 9 de setembro de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 7)


A Cholera morbus sendo recepcionada pelos médicos brasileiros e pelas condições precárias de saúde e higiene (fonte)

(Esta crônica é dedicada a meu grande amigo Marcos Cruz Alves)

Em 1994 houveram mais de 400 casos de cólera morbo em Paranaguá. Há ainda quem se lembre. A nossa vizinha foi atingida na oitava e última grande pandemia de cólera (1991-95) que atingiu principalmente a América do Sul e central. Na época as discussões giravam em torno de como pudemos ao final do século XX permitir o avanço de uma doença transmitida por condições precárias de higiene. E, naturalmente, se culpavam os mais atingidos, os mais pobres, por “não ter consciência” e se permitir viver (e morrer) em tais condições.
Em 1855-56 houve a primeira grande epidemia de cólera no Brasil. Este surto atingiu mais fortemente a Corte e o Norte, onde a doença se iniciou. Até então estivemos livres da doença, que teve seis grandes eventos desde o início do século. Originaria da Índia, os ingleses a levaram para a Europa. A partir daí, o vibrião ganhou o mundo.
Em 10 de outubro de 1855 o Dezenove de Dezembro publicou um relatório do Dr José Cândido da Silva Murici, que apontava algumas providencias a serem tomadas para impedir a entrada do cólera no Paraná (ver aqui). O Relatório baseava-se num outro Relatório, da Comissão Sanitária do Império.
Entre as medidas propostas pelo Dr Murici estavam a vinda de seis médicos e dois farmacêuticos para a província. Era grande a falta de médicos e de remédios para combater a cólera. Existiam lugares populosos em toda a província, onde não havia botica ou “ao menos, um curandeiro”.
Outra questão era a segurança sanitária nos portos. Sugeria o doutor ativar a construção de um lazareto em Paranaguá para controlar a entrada da doença na província.
O doutor também reclamava da falta de asseio da população, e a adulteração dos alimentos. Também alertava a “falta de força moral” das câmaras municipais e suas autoridades para se impor o asseio e fazer os vendedores terem mais cuidado.
O Doutor Murici propunha a construção de hospitais em cada cidade ou vila, propondo um para homens e outro para mulheres. Estes hospitais teriam que ter botica, além de médicos e pessoal suficiente para tratar dos enfermos.
Além disso, propunha o doutor a criação de comissões por quarteirão, para cuidar dos primeiros socorros e para transportar os doentes para os hospitais mais próximos. Uma vez que as pessoas acometidas da doença são de todos os sexos, o doutor Murici acha que seria “justo” que mulheres possam participar destas comissões.
O transporte dos doentes teria que ser feito por padiola. O transporte seria feito por escravos de cada quarteirão. Este serviço seria de primeira necessidade e os senhores não poderiam, por seu “vil egoísmo”, afastar seus escravos deste trabalho.
No caso de contaminação de uma localidade, poderiam ser erguidas barreiras entre estas e as localidades ainda não contaminadas. Entre o litoral e a serra-acima o Doutor Murici propunha a trancar as estradas da Graciosa e Itupava e colocar uma barreira de quarentena no Rio do Pinto.
Em Curitiba, o relatório propunha aterrar tanques como o do Bittencourt, na entrada da cidade. Também propunha aterros no rio Ivo e um ataque severo a aguas estagnadas na área urbana. Era, como já vimos, uma consequência da aplicação pratica da teoria dos miasmas.
O governo provincial gastou doze contos de reis, cerca de um milhão e duzentos mil reais na moeda de hoje, nas medidas preventivas contra o cólera, conforme informou à Assembleia Legislativa o padre Damaso Correa (ver aqui). A câmara de Antonina foi autorizada a dispor de 22 mil reis da mesa de rendas para as atividades de combate ao cólera.
Como consequência do relatório, comissões foram montadas em todos os munícipios e villas, onde era possível. Em Antonina, o Dr Carlos Tobias Reksteiner foi nomeado para fazer parte da comissão extraordinária de saúde pública da vila (ver aqui). O mesmo aconteceu para o doutor Theodoro Reichest, que foi encarregado da construção da casa de quarentena e lazareto, o que deveria ser feito “sem perda de tempo” (ver aqui).
Ainda em dezembro de 1855 o governo provincial respondia à comissão de saúde pública, que havia solicitado a criação de um hospital na vila para “socorrer os enfermos pobres”. Dizia que logo resolveria a requisição. Não sabemos de que maneira isso foi resolvido.
O medo da contaminação era muito grande. A notícia que dois marinheiros provenientes de Belém que haviam morrido em Paranaguá com sintomas de cólera. Numa nota de Curitiba, o redator avisava o fiscal de saúde pública que “o cholera está batendo à porta!”, chamando a atenção para o estado imundo que estava a rua do comercio (ver aqui). "Deus se compadeça de nós!”, concluía o texto. Os redatores do Dezenove, por outro lado,  pediam que não houvessem “receios exagerados” ou “terror intempestivo”. Segundo o jornal, as autoridades estavam fazendo o possível para evitar a chegado do mal (ver aqui).
Havia ainda os que encontravam algum humor na situação: Francisco Caetano de Souza, avisando através de anúncio que estava indo para o Rio de Janeiro em fevereiro de 1856, avisava que pretendia voltar “se o cholera o permitir” (ver aqui).
(continua)

sábado, 2 de setembro de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 6)


As epidemias eram grandes ameaças no século XIX. Capa da Revista Ilustrada de 1876 mostrando a grande ceifeira aprontando as suas...e Antonina?
Antonina em 1854 era um lugar insignificante. Quando esteve brevemente na Deitada-a-beira-do-mar, em 1858, foi com essa palavra que o naturalista suíço Johan Tshudi descreveu a cidade (aqui). No entanto, ele não deixou de ressaltar que o cenário da cidade, com as serras ao fundo, fosse realmente encantador. Tshudi passeou pela cidade com somente ”duas ruas paralelas e uma fileira bem comprida de casas, que dão para uma praça coberta de capim, onde pastavam cavalos e vacas”.
Segundo Ermelino de leão, o que existia era a Rua Direita, a atual XV de novembro, e a Rua da Charqueada, atual Carlos Gomes da Costa. Esta última passou a se chamar depois rua de São Benedito, cuja igreja, ainda em construção, era a mais importante construção da rua. As duas ruas iam dar no largo da Matriz, a atual praça Coronel Macedo. Por ali, no campo aberto próximo da colina o mato crescia e todos deixavam para pastar os animais que Tshudi viu. A outras ruas, como a ladeira que vinha da matriz (a Ladeira da Matriz, portanto), as ruas da Fonte e do Lava-pés, citados por Ermelino, eram somente “carreiros” por entre as casas.
No entanto, a pequena e insignificante villa, que se tornaria oficialmente cidade três anos depois, tinha planos para si própria. Em 5 de setembro de 1854 é publicado nos jornais (aqui) uma resolução da Câmara Municipal da Villa Antonina sobre as posturas municipais. Posturas municipais são uma série de normas que as câmaras municipais produzem para ordenar as cidades (aqui).
O decreto estabelecia que os proprietários de datas teriam um prazo de até dois anos para edifica-las, sob pena de multa. Depois de 10 anos, a câmara poderia desapropria-lo. As casas eram obrigadas a serem alinhadas pela direção das extremidades da rua.
Os muros deveriam ter um mínimo de 12 palmos de altura, ou seja, cerca de 2,7 m. Os muros e as casas deveriam ser caiados ao menos a cada dois anos, sob pena de multa. Também era obrigatório o calçamento das frentes das casas, no nível da rua. Tudo isso era ônus do proprietário.
Quem tinha carro, ou seja, carro de tração animal que trafegasse pelas ruas da vila deveria pagar uma taxa de 2 mil reis anuais. Aos infratores, a multa triplicava.
Também os negociantes ambulantes tinham que pagar uma licença anual. Era comum naquela época a grande quantidade de vendedores ambulantes andando com tabuleiros e caixas pala cidade como pelas áreas rurais.
Havia uma preocupação grande com a saúde pública. O artigo 8º da resolução previa multas para quem deixasse porcos, cães e cabras vagando pelas ruas. Da mesma forma, todo aquele que atirasse as ruas “qualquer coisa de fácil putrefação”, ou que servisse de estorvo ao trafego de pessoas e carros deveria pagar uma multa e era, além disso, obrigado a lança-la fora. No caso de não se saber quem foi o porcalhão, o fiscal fazia o lançamento às custas da Câmara.
Era evidente a preocupação higienista do poder público. Naquela época acreditava-se na teoria dos miasmas, que eram doenças transmitidas pelo ar. Quando esteve em Antonina em 1883, o jornalista teuto-brasileiro Karl Von Koseritz (1830-1890) (aqui) notou que Antonina não era uma cidade limpa. O que o preocupava era que O pior estado sanitário é devido à extraordinária extensão das marés”. A lama do mangue assim exposta ao sol fazia Koseritz acreditar que em Antonina “não deverão faltar os miasmas”. 
A população da cidade se preocupava com sua saúde. Nos anos 1850 os surtos de cólera no Rio de Janeiro preocupavam as autoridades da nova província (aqui). Antonina e Paranaguá eram os locais mais preocupantes, devido as ligações marítimas frequentes com a Corte. Havia inclusive o projeto de uma quarentena para possíveis infetados na estrada da Graciosa e do Itupava.
No entanto, como resistir? Segundo o relatório enviado ao Presidente da Província, relatam planos a serem desenvolvidos no caso de uma real epidemia. Haviam poucos hospitais, com poucos leitos. Algumas localidades possuíam poucos médicos e algumas onde não se encontra “ao menos um curandeiro”.
Felizmente, a tal epidemia de cólera não veio. Mas, e se viesse? Como poderiam os nossos trisavós se safarem desta?
(continua)

sábado, 26 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 5)


Os escravos viviam sendo submetidos a humilhações e castigos; na Deitada-a-beira-do-mar não foi diferente...
A escravidão sempre foi um peso na História do Brasil. Antonina também tem seus pesos a carregar. Apesar de todo o clima de euforia com a melhora da economia no início dos anos 1850, os antoninenses livres dormiam sonos intranquilos. Desde o final do século passado, a revolta de escravos que havia resultado na República Haitiana era um pesadelo recorrente.
Por outro lado, a pressão inglesa pelo fim da escravidão era cada vez mais forte. Poucos anos antes, em 1850, um navio de guerra inglês, o HMS Cormorant, havia entrado na baia de Paranaguá e capturado os navios negreiros ali ancorados.
A história oficial narra que patriotas brasileiros revidaram, e chegaram a trocar tiros de canhão com a belonave inglesa na Fortaleza da Ilha do Mel. Há uma placa comemorativa lá no velho forte sobre o tal “Incidente Cormorant”. Pelo que se depreende dos relatos, o navio inglês entrou e saiu da barra da Fortaleza como e quando quis. Os tais dos patriotas gastaram pólvora contra um inimigo poderoso e uma causa ignóbil. Mas isso é um julgamento da posteridade...
Em 1854, na Villa Antonina, de cada cinco moradores, um era escravo. Tamanho contingente despertava muito medo entre os senhores, por receio de represálias. As revoltas de escravos, diante deste medo todo, eram punidas com redobrado rigor.
 O fato é que naquela época as histórias de navios ingleses que viriam libertar os escravos eram muito comuns. Em janeiro de 1859 a cidade estava em estado de alerta com uma possível revolta escrava (ver aqui). Alguns escravos chegaram a interpelar o delegado, acusando de que este estava escondendo notícias de uma possível emancipação dos escravos. O delegado, com medo, mandou descer tropas de Curitiba e Morretes. Ao fim, nada aconteceu (ver aqui).
O medo era que se repetissem os terríveis acontecimentos de 1835. Naquela época, os escravos do armador José Luiz Gomes assassinaram seu senhor e, segundo os relatos, roubaram uma fortuna em moedas. Isso foi narrado por Ermelino de Leão no livro "Antonina, Fatos e Homens", capítulo 20, pag. 136.
José Luiz Gomes tinha um grande sítio no Pinherinho. Era armador de navios e participava do tráfico negreiro, tendo acumulado grande fortuna. Depois de assassinar seu senhor, os escravos fugitivos foram capturados e mortos, tendo seus corpos exibidos em postes por toda a área do Pinheirinho. Tempos terríveis.
A resistência dos escravos também se dava de outras maneiras. Em 1º de outubro de 1855 o preto João, de nação congo, fugiu de seu senhor Manoel José da Rosa Junior, morador da rua da Carioca em Antonina. Segundo o anúncio (ver aqui), João tinha 20 anos, era baixo e tinha pouca barba, dedos curtos, dentes afinados e olhos um pouco vermelhos. Tinha fala atrapalhada. Quando fugiu levou roupa de algodão, calças riscadas e um cobertor.
Era comum essa descrição mais ou menos detalhada. Na falta de fotos, ela garantia a identificação do escravo fugitivo. A gratificação para quem apreendesse João Congo era de 40 mil réis.  Para se ter uma ideia, um escravo custava nesta época cerca de 320 mil reis.
Em novembro de 1854 o cidadão capelista Antônio José Alves publica um anúncio no Dezenove de Dezembro (ver aqui) avisando da fuga de seu escravo Antônio. Segundo o anuncio, Antônio tinha cor parda e estatura ordinária, olhos pequenos, corpo reforçado, cabelo corredio, pernas grossas e um tanto zaimbras (o que seria isso?). Tinha ainda os pés esparramados. Quando fugiu vestia camisa e calça de algodão grosso, e um embrulho com mais alguma roupa. O senhor ainda prometia recompensa para quem lhe devolvesse Antônio, além de uma “gratidão eterna”. Ainda segundo o anúncio, Antônio tinha como profissão oficial de pedreiro.
Uma fonte de renda muito comum nesta época era o aluguel de escravos como Antônio para atividades diversas, como pedreiros, carpinteiros, etc. Eram os chamados “pretos de ganho”. Num processo de 1859 descrito por Silvia Correia de Freitas (ver aqui) descreve um caso de violência envolvendo um “preto de ganho”.
O preto Simão, que trabalhava alugado  como padeiro, foi castigado por Luís Manoel da Cunha, dono de uma Padaria na Deitada-a-beira-do-mar. Ao ser acordado de madrugada para trabalhar na massadeira de pães, Simão argumentou que não era seu serviço e foi por isso castigado com bofetadas e golpes de cabo de vassoura. Simão então levantou-se e foi para a casa de seu senhor, pois este havia lhe garantido que “não aguentasse desaforo”.
O castigo físico dos escravos era uma constante. Entretanto havia na sociedade uma ideia de que este castigo deveria ser “justo”. Em junho de 1859 foi aberto em Antonina um processo do escravo Diogo, que estava na cadeia para se avaliar seu estado. Diogo dizia estar com a costela fraturada e um braço bastante machucado.
Os presos da cadeia diziam que Diogo estava vazando sangue pelo nariz e pela boca. Não conseguia se mover e estava prestes a morrer. No entanto, todos os testemunhos, a maior parte negociantes e lavradores da cidade diziam que o escravo apanhara de seu senhor por motivo justo.
Diogo não foi interrogado no inquérito. Francisco Ferreira Correa, promotor de justiça em Paranaguá, faz um arrazoado sobre as reclamações do escravo Diogo. Diz o promotor que o senhor tinha direito a castigar seu escravo, e que o espancamento não tinha sido brutal.

A prova é que o exame de delito, efetuado cinco dias depois da queixa, mostra que o escravo não teve nenhum osso quebrado. Segundo o nobre promotor, “o corretivo consistiu em um castigo moderado, o que é permitido no parágrafo 26° do artigo 16 do Código Criminal”.

O promotor Corrêa acrescenta que o réu, o Senhor Correa, não deveria ir à julgamento. A surra em Diogo não configurara um castigo severo. Além disso, a punição de um senhor que castiga seus escravos, argumenta o promotor, “ficaria com um precedente que acarretaria consequências de desrespeito e insubordinação dos escravos para com seus senhores” (aqui).

Estas são histórias pouco edificantes da bela Antonina. Muitas outras histórias de brutalidade e desrespeito poderiam ser contadas. Essas poucas historias, terríveis, nos remetem diretamente para nosso tempo.

Apesar de já não termos escravos, quantas vezes atos semelhantes não se repetem? Quantas vezes nos calamos vendo a brutalidade ocorrer na nossa frente? Quantas vezes ainda vamos tolerar a morte banal de pessoas simples e humildes somente pelo fato de serem humildes? Como um branco (e filho de desembargadora!) sai inocente após ser preso com drogas e armas, enquanto o negro Rafael Braga continua preso por porte de Pinho Sol?


sábado, 19 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 4)


Desembarque de passageiros no porto do Rio de Janeiro no século XIX. Imagine-se como era em Antonina...
A Villa Antonina estava animada em 1854, no início da emancipação da província. Eram vários os motivos para que os capelistas rissem à toa. A economia aumentava, pessoas começavam a antever um futuro melhor para os seus negócios. O principal motivo era que estava sendo desenvolvido, ainda que lentamente, um sistema de transporte de cabotagem baseado principalmente em navios a vela e que fazia a transição para navios movidos a carvão (ver mais detalhes aqui). Desde a Regência havia se iniciado uma incipiente navegação de cabotagem no Brasil. A Deitada-a-beira-do-mar era um dos pontos onde os navios atracavam.
Mas existiam vários problemas a serem resolvidos. Um deles era a falta de atracadouros. Não haviam locais bons para que passageiros e mercadorias pudessem desembarcar. Em 1858, o naturalista suíço Albert Tschudi (1818 -1889) assim descreveu o atracadouro:
Na baixa-mar, o desembarcadouro [de Antonina] é uma costa lamacenta muito traiçoeira; um dique de pedras nuas, nas quais há sempre o perigo de quebrar as pernas, não o torna nada melhor” (ver aqui).
Provavelmente o transporte de cargas e de pessoas era feito por pequenas canoas e chatas das embarcações até terra firme. Somente em 1865 o engenheiro Antônio Rebouças teve seu plano de construir uma ponte de embarque em Antonina aprovado. Não sabemos se teve sucesso ou se o atracadouro da cidade ainda teve que esperar ainda mais alguns anos (aqui).
Ainda em 1855 (ver aqui) o administrador interino da Mesa de Rendas, um dos órgãos ligados ao porto, estabelecia que o trabalho de embarque de mercadorias seria feito tão somente no lugar denominado Ponta da Pedra, no cais localizado em frente a rua Ypiranga (onde seria?). No regulamento (aqui) Pinheiro estabelece que todo aquele que “de algum ponto ou praia” se dirigirem ás embarcações terão as mercadorias apreendidas. Quanto contrabando deve ter passado....
Um relatório da Mesa de Rendas da Villa Antonina, publicada em novembro de 1854 (aqui), nos diz que, de maio a novembro, atracaram 29 embarcações no porto. Destes, 11 eram navios de pequena tonelagem, como lanchas, escunas ou iates. Estes barcos pequenos, movidos a vela, faziam transporte local, em geral para Santos, Iguape ou para os portos de Santa Catarina.
Os barcos médios, brigues ou patachos, alcançavam até 100 toneladas. Eram igualmente embarcações movidos a vela, com dois mastros e pequenas variações entre si na configuração das velas (Para diferenças, ver aqui) .  Estes veleiros faziam travessias maiores, tendo como destino Santos ou Rio de Janeiro.
As barcas eram os maiores navios. Também movidos a vento, tinham três mastros e as maiores tonelagens. O destaque no porto de Antonina naquele ano foi a barca Dianna, de 280 toneladas. Era cerca de dez vezes a tonelagem de uma escuna e ter vezes a de um brigue ou patacho. A Dianna transportou arroz, madeira e erva mate para o Rio de Janeiro.
As mercadorias, como vimos, eram produtos da terra, como arroz, madeira, telhas e cal. Por vezes, transportava-se também erva mate e farinha.
Outro destaque desta lista é o brigue Paranã. Era de Antonina, o que pressupõe um armador com porte suficiente para arcar com as despesas deste tipo de navio. Seu proprietário era Joaquim Leite Mendes. O brigue Paranã neste ano de 1854 fez duas viagens para o Rio de Janeiro, uma em maio e outra em outubro. Transportou para a Corte erva mate, madeira e arroz. Em janeiro de 1855 o Paranã publicou um artigo no Dezenove de Dezembro (aqui), em Curitiba, no qual anunciava ainda receber carga, além de oferecer “cômodos suficientes” para passageiros.
Um comercio incipiente começava a se fazer entre A Villa Antonina e a Capital. Com a chegada do conselheiro Zacarias a Estrada da Graciosa começava a ser reparada. Enfim a Graciosa deixaria de ser uma trilha de tropeiros para se tornar uma estrada carroçável. Em julho de 1855 foi expedida uma ordem (ver aqui) para o responsável pelas obras, o engenheiro Vilalva, a começar o calçamento de Curitiba até a borda do Campo e de Antonina até são João da Graciosa.
Oportunidades surgiam em todos os lados. Um comerciante capelista anuncia no jornal Dezenove de Dezembro (aqui) que dispunha armazenar e despachar cargas vindas do Rio de Janeiro para Curitiba. Diz que garante armazenagem por dois anos, com acondicionamento das mercadorias.
Outro comerciante capelista anuncia, em 1856 (aqui), a venda de terreno próximo ao mar, permitindo o acesso de embarcações e chatas. Segundo o anuncio, o terreno tem um excelente armazém construído com pedra e cal. Tem ainda um palacete construído de pedra, cal e excelentes madeiras, próxima do largo da matriz, com aprazível e elegante vista para o mar.
Neste mesmo anuncio se oferece também um armazém na Rua da Praia com 40 palmos de frente, com acomodações para família e negócio. O capitalista capelista prefere vender tudo, inclusive com escravos de ambos os sexos, a um só comprador.
Com escravos e tudo? E a gente ainda acha os nossos tempos estranhos...

sábado, 12 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 3)


Charge denunciando o recrutamento forçado no Brasil do século XIX
As eleições no Segundo Reinado eram marcadas pela fraude e pela violência. Não raro os conflitos acabavam em brigas generalizadas. E estas brigas muitas vezes ocorriam dentro da própria Igreja, onde as eleições eram realizadas.
Não temos registros de violência nas eleições da Deitada-a-beira-do-mar. A profa. Cecília Westphalen narra uma eleição com duas vários feridos e mortes ocorrida em 1852 em São José dos Pinhais. Outra vez ainda, em 1849, uma eleição para a assembleia não foi realizada em Curitiba por causa dos distúrbios e violências. As autoridades da cidade tiveram que se refugiar em Morretes, segundo Antônio Vieira dos Santos. Uma tropa vinda de São Paulo passou por Antonina rumo a Curitiba para conter os ânimos. Mas tudo já tinha sossegado e a eleição já havia sido realizada.
Naquele tempo na província, haviam dois grandes partidos. Os Conservadores, nacionalmente apelidados de Saquaremas, eram chamados no Paraná de “Cascudos”. Os Liberais, ou Luzias, eram chamados de “Farrapos”.
As eleições de 1854 no paraná foram feitas sob a vigência da nova “Lei Regulamentar”, de 1846. Quem elaborava as listas e coordenava os trabalhos de votação eram as mesas eleitorais dos distritos. Cabia ao Juiz de Paz, juntamente com os eleitores de paroquia eleitos nas ultimas eleições montar as tais mesas. Como as mesas eleitorais escolhiam que podia e quem não podia votar, seu controle era disputado pelos partidos. Em Paranaguá o Juiz de Paz que enviou a lista de votantes era Manoel Antônio Guimarães, futuro Visconde de Nácar, destacado comerciante e membro do Partido Conservador. Nesta eleição Guimarães foi leito deputado provincial. Um dos seus genros um foi eleito deputado provincial e outro deputado geral.  Dizia-se, não sem razão, quem controlava a mesa controlava a eleição.
Em 1854 foram realizadas as primeiras eleições para senador da nova província. Como mandava a legislação, foi eleita uma lista tríplice, posteriormente enviada ao Imperador. O Senador vitalício escolhido foi o mais votado: João da Silva Machado, o Barão de Antonina. Nascido no Rio Grande do Sul, João Machado era envolvido com o comércio de tropas. Sua base era a região dos Campos Gerais, principalmente em Castro.
Não tinha nenhuma relação com a cidade que lhe conferiu o baronato. Aliás, seu título de barão foi resultado de sua lealdade ao poder imperial durante a Revolução Farroupilha e durante a Revolução Liberal de 1842. Foi também um grande incentivador da imigração alemã na província, que culminou com a fundação da colônia alemã de Rio Negro. Aos 72 anos e residente em São Paulo, esta eleição foi um momento alto de sua vida.
O poder na província do Paraná, assim como em todo o Brasil, era um privilégio dos mais ricos. As pessoas simples deveriam, neste contexto, procurar a proteção de um patrono a quem pudessem recorrer nas necessidades. As famílias mais poderosas tinham ao eu redor um grande número de agregados.
Um agregado era uma pessoa que, mesmo sem vínculos de sangue, fazia parte da família em troca de favores. Podia ser um pequeno agricultor que tinha autorização para ter sua terra na propriedade do senhor, ou algum trabalhador urbano avulso que fizesse pequenos serviços em troca de sustento.  As teias de patronagem da sociedade imperial procuravam abranger a todos, em complexas relações de favores e obrigações.  
Uma das maiores ameaças para os homens livres pobres era o recrutamento forçado. Por qualquer motivo – brigas, bebedeiras, ou vagabundagem – alguém podia ser enviado para servir seja no exército seja na marinha ou em alguma milícia. Este recrutamento forçado era utilizado com instrumento de barganha pelas autoridades, tentando conter a violência e garantir a lealdade das pessoas mais humildes.
Em geral, estes alistados a força não tardavam em desertar. O resultado é que a maior parte do trabalho policial era prender e remeter de volta estes desertores a suas unidades. Em novembro de 1854  (ver aqui) José Pereira, natural do Sambaqui, em Antonina, a pretexto de “mal comportado e vicioso” havia sido recrutado para a marinha.
Entretanto, a prisão de José Pereira havia se dado próximo de eleições, quando o recrutamento era proibido. Colocado no navio para o Rio de Janeiro, onde serviria na Marinha Imperial, José Pereira havia conseguido fugir. Agora, travava uma luta judicial para provar que não era desertor.
O transporte tanto dos recrutas quanto dos desertores – era tudo a mesma coisa – era feito da mesma forma que para os escravos.  Em 1855 o delegado de Policia de Antonina foi ressarcido pelo transporte de “recrutas e desertores” de Antonina para Paranaguá (ver aqui). Para tanto, o delegado José Dias Barbosa havia comprado correntes, gargalheiras, algemas e cadeados para o transporte. Foram transportados ao todo onze desertores e três recrutas (ver aqui). 
(Continua)