quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A REPUBLICA DE CURITIBA



Curitiba tem estado nas cabeças e nas bocas recentemente como um local: a sede da tal “República de Curitiba”, a sucessora da “República do Galeão” dos desvarios udenistas do passado. Vi recentemente nas ruas os carros com adesivos apoiando Sergio Moro e suas investigações. O curitibano médio sente que ali esta se fazendo uma luta contra a corrupção, e se sente mais aliviado.

Afinal, todos sabemos que, se estamos vivendo (e sobrevivendo) numa sociedade marcada pela corrupção, a corrupção também nos atinge. No fundo no fundo, todos nos sentimos um pouco corruptos no nosso dia a dia. Molhar a mão do guarda, furar fila, andar acima da velocidade permitida são pequenas corrupções. E existem as grandes, as grandes maracutaias, aquelas que sabemos de longe, seja por conversas seja através de noticias na mídia. Se vemos isso acontecer sem fazer nada, então somos todos corruptos.

Quando aparece alguém querendo fazer justiça, queremos que ele puna os corruptos. E os puna exemplarmente. Segundo os psicanalistas, o desejo é que nosso cotidiano corrupto seja punido, e que nós também sejamos punidos por nossa corrupção. Aí vem a vontade de punir mais que a punição, punir exemplarmente. A vontade de punir (nos punir) é como a sensação do linchamento. Uma catarse coletiva toma conta da sociedade, que sente que está sendo regenerada e punida por suas culpas.

Entretanto, uma coisa é a justiça, outra o justiçamento. A primeira é lenta, exige contraprovas, não se contenta com versões, e nem sempre leva a catarse. Muitas vezes, a justiça não pode ser feita exemplarmente, pois a necessidade de provas é um imperativo e uma limitação da justiça. Não se pode punir sem absoluta certeza; a dúvida está do lado do réu. Por isso muitas vezes sentimos a sensação de que a justiça é distante, difícil, senão impossível.

Já o justiçamento não. Se a justiça não foi feita, podemos rapidamente estender uma corda numa árvore e pendurar o culpado. Sim, porque o culpado já o é de antemão. Precisa apenas de uma denúncia, umazinha só, e a culpa está feita, às favas as minúcias e as regras legais. Queremos de uma vez acabar com o culpado, e com ele acabar com nossa culpa. Quando acaba o justiçamento, uma sensação de euforia e de dever cumprido toma conta das pessoas, como uma boa injeção de dopamina.

O justiçamento pode deixar as pessoas mais relaxadas. Pode ser glamuroso, como num filme do Batman. Mas na vida real, com suas incerteza e suas nuances, o justiçamento espalha ainda mais injustiça do que aquela que pretende exterminar. Os prejulgamentos, os julgamentos midiáticos estão aí pra nos mostrar o quanto podemos nos equivocar e provocar ainda mais injustiças.

Existiu o caso da Escola Base em São Paulo. Existiu, nesta mesma Curitiba republicana, o longo processo das “bruxas de Guaratuba”, uma historia macabra de assassinato de crianças em rituais de magia negra que frequentou nosso imaginário nos anos 90. E existem os processos políticos travestidos de ações contra a corrupção, como estamos vendo hoje.

Nada contra investigações contra a corrupção. Quem não é a favor de investigar e punir atos de corrupção, ainda mais com o dinheiro público? No entanto, existe hoje uma série de perversões que estão sendo feitas em nome do combate à corrupção e que estão viciando e envenenando nossa jovem democracia.

A República de Curitiba, chefiada pelo juiz Moro, gerou uma serie de fatos controversos, muitos deles contestados pelos Juízes do Supremo e por muitos advogados no Brasil e fora dele. Prisões arbitrárias, investigações feitas de maneira parcial, divulgação ilegal de escutas telefônicas, são muitas as acusações de arbitrariedade manchando uma operação que deveria ser a “nossa” Operação Mãos Limpas.

O juiz Moro não é Batman. Não podemos concordar com um juiz justiceiro. As investigações devem ser feitas nos termos da lei. Claro, doa a quem doer. Não podemos ser coniventes com quem rouba dinheiro público. Mas este processo de investigação - e isso eu acho que é claro (é?) para todos - deve ser feito dentro da lei.

De boas intenções estão cheias as casas e as almas da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba. Uma cidade tão limpinha e organizada, Curitiba tem orgulho de si mesma. Tem tanto orgulho de seus ônibus vermelhos que não consegue pensar num sistema mais eficaz como o Metrô, por exemplo. A expansão da cidade gerada nos tempos da Ditadura e de Jaime Lerner já não se sustenta.

Mas o curitibano que põe adesivo no carro dizendo que apoia a Lava-Jato (incondicionalmente, talvez!) não anda de ônibus. É fácil sentir orgulho de algo que você vê de longe, na canaleta. Não pega os ônibus superlotados no horário de pico, não enfrenta as filas dos terminais. É fácil dizer que “o sistema de transporte funciona”, por que você não sente a sua atual deficiência.
O curitibano que acha que mora na capital ecológica não pode usar (nem pra limpar as mãos!) as águas do rio Belém, do Atuba e do Barigui. Acha que o frio é chique, mas mora em casas ruins termicamente, e usa roupas de frio igualmente caras e ruins. E se acha na Europa, cercado de araucárias por todos os lados.

É fácil não ver seus próprios pecados. É fácil esperar que um outro (um justiceiro) faça o “trabalho” que eu como cidadão não posso fazer. É fácil bater no peito e dizer que o problema são os outros. Assim como é fácil dar um like no facebook e colocar um comentário raivoso de que você é a favor do Batman.

A república de Curitiba eu quero outra.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

SOB A SOMBRA DO VULCÃO

O Vesúvio visto de Nápoles

Ontem eu estava com certo receio de Nápoles e dos napolitanos. Apesar de me julgar quase um napolitano, que achava que para conseguir esta condição era suficiente consumir sorvete napolitano (aquele com três sabores) e a pizza marguerita, cheguei aqui com os dois pés atrás. Confesso que minha primeira impressão foi a de um mundo caótico e sem lei. É um pouco assim mesmo. Mas tem também outras coisas.
Ao caminhar pela manhã pela cidade, não se pode ignorar a figura magna do Vesúvio. Sim, o grande vulcão que assombrou o império romano e submergiu as cidades de Pompeia e Herculano está ali, nas vistas de cada um. É como se, em Antonina, estivéssemos todo o tempo com um perigoso e avassalador morro do Feiticeiro.
Ao caminhar pela cidade sentimos que ela é habitada por um povo hedonista, que adora o prazer e se divertir. Como não se divertir, se você vive na boca de um vulcão? Fiz essa pergunta para mim mesmo varias vezes. Não sei se tenho uma boa resposta. A ultima erupção foi em 1944, os pracinhas brasileiros anotaram suas ocorrência quando passaram por aqui. Como reagiria frente a uma erupção?
O que impressiona em Nápoles é o sol, que brilha como em nenhum outro lugar que eu conheça. Uma luz que faz tudo se cobrir de uma aura, como se fosse uma pintura a óleo. Os pintores que vierem para a Itália no século XVIII inventaram um tipo de pintura que se encontra em todos os lugares, em todas as casas burguesas desde então: uma pintura em tons pastel, mostrando uma natureza perfeita e maravilhosa, numa baia perfeita e cheia de gente alegre. Arvores e céus perfeitos, desenhados em delicados tons pastel.
Não é assim, por suposto. As pessoas são rudes e grosseiras, e sua grosseria é visível nas ruas, no transito, no atendimento dos restaurantes. O lixo se acumula em todo o lugar, apesar dos carrinhos e das modernas caçambas de lixo em todas as ruas. No comercio há que se fazer atenção no troco, os taxistas (sempre eles – cadê o Uber?) querem nos enganar a todo o momento.
Nas ruas, vemos cartazes com figuras estranhas, candidatas a não sei o que. Eu não votaria em nenhum deles. Mas há quem vote, e esses são os napolitanos. Foram enganados, invadidos, envenenados, e não estão nem aí. Adoram sua baía, sua cidade e sua vida. Lutam pra manter tudo como está. A alegria é a família, a missa, os amigos. Faz quinhentos anos que é assim. Resistiram à Revolução Francesa, às Guerras Napoleônicas, à Unificação italiana, à Revolução Industrial, à invasão aliada durante a Segunda Guerra Mundial. Enfim, os napolitanos resistiram à Era Moderna. Apesar de andarem pra lá e pra cá com seus celulares, estarem na internet e assistirem à RAI, os napolitanos são seres do passado, tentando manter-se naquelas pinturas românticas de antanho.
Entendo perfeitamente.
Venho também de uma cidade que, embora pequena e insignificante e parada no tempo, não desiste jamais. Claro está que a Deitada-a-beira-do-mar não se compara com Nápoles e seus dois mil anos de história. Antonina não tem o Vesúvio, mas como disse antes, tem o Morro do Feiticeiro. Embora moderna, é também conservadora. As pessoas tem essa amabilidade rude e graciosa que encanta quem vem da modernidade. Que afaga quem vem, carente,  de relações capitalistas, tipo “Time is Money”, “no pain no gain”.  
O que eu quero dizer é que esta sensação de um tempo anterior a nós a qual, embora não se sustente, nos é muito cara. Não é possível passear pelas vielas de Nápoles sem sentir uma certa nostalgia deste tempo e deste espaço, mesmo que não pertençamos a este mundo. Eu, que tenho algumas fumaças deste ar pré-capitalista, que trago de minha vivência antoninense, me rendo e digo que um outro mundo é possível.

Vivemos todos sob a sombra do vulcão. 

domingo, 12 de junho de 2016

NAPOLES NÃO É PARA PRINCIPIANTES

Piazza del Plebiscito, Napoli

Cesar e Napoleão cruzaram os Alpes uma vez. Eu e Zezinha, de uma maneira mais simples e banal, cruzamos os Alpes duas vezes ontem. A primeira, vindo do Brasil em direção a Munique, na Alemanha. Lá demoramos um tempo no aeroporto e pegamos outro avião para Napoli, aonde chegamos ao fim da tarde. Foi quando cruzamos os Alpes pela segunda vez. O tempo nublado não nos permitiu ver nada além das verdes campinas da Baviera e dos rudes penhascos próximos de Napoli.
O aeroporto de Nápoles é bem simples e meio velhinho, e me lembrou do antigo Santa Genoveva de Goiânia, antes das reformas da Copa. O motorista de taxi, que me lembrou de todos os motoristas de taxi do mundo, dirigiu feito um maluco pelas avenidas e como um “pazzo” pelas ruas velhas do centro de Nápoles. A noção de “transito caótico” dos guias de viagem é pouco. As ruas são estreitas e os carros e motos andam a toda, expulsando para os cantos os pedestres. Fiquei com pena de algumas velhinhas que vi pelo caminho, se esgueirando para uma proteção de metal que algumas vielas têm. Mal dá pra caber um carro e ali passam uma moto, um carro e dois pedestres. Ao mesmo tempo.
O motorista de taxi nos indicou alguns pontos, com uma bela vista do monte Vesúvio de do monte Somma, majestosamente situados no fundo da baia de Nápoles. Indicou o Quartiere Spagnoli, onde as ruas estreitas e prédios altos com varais de fora a fora dá a impressão do exótico que a Itália sempre mostrou aos turistas. Aquele abandono e pobreza blasé e aquele amontoamento de gente que se vê nos filmes italianos antigos.
Nossa anfitriã do AirBnB, a Marina, nos recebeu muito bem, mostrou os detalhes do quarto e da casa. Estamos num quarto no rés-do-chão de um prédio do século XVII, com as paredes descascando e janelas velhas e varais para a rua. Moraria num desses se obrigado pela necessidade, claro está. Mas se pudesse... Ah minha casinha!
Depois, Marina nos levou a conhecer a redondeza. Caminhamos pelas ruas do bairro, ruas estreitas e cheias de pequenos comércios: uma pizzaria, uma verduraria, uma mercearia, e essas outras coisas pré-capitalistas que a modernidade nos deixou sem. Nem temos tempo para comprar todas essas coisas num só lugar, o que dirá comprar tudo picado, e à dinheiro...
Mais abaixo está a grande Praça do Plebiscito, e seus grandes cafés, o Palácio Real, que está em reformas, e a opera São Carlos. Segundo Marina, ela está no mesmo nível do Scala de Milão. Tem na sua programação desta semana um “Romeu e Julieta”, a preços obviamente exorbitantes.
Marina nos deixou na galeria Umberto Primo e se foi. Voltamos no meio da multidão, de gente passeando num morno sábado à tarde.  Diz que as ruas são perigosas, e até crianças são batedoras de carteira. Vimos foi muita gente rindo e se divertindo, o que, dizem, é coisa que os napolitanos melhor sabem fazer.
Comemos uma marguerita à napolitana, uma massa de pão com massa de tomate e grandes (e poucas) folhas de manjericão e um pouco – muito pouco – de queijo. Em tempos de menos glúten e gordura, não é tão ruim assim. A noite chegou, e fomos dormir, exaustos de tanta viagem e novidade.

Ao que parece, Nápoles não é para principiantes....

domingo, 29 de maio de 2016

OBRIGADO, GEOLOGIA!




Obrigado, Geologia!

Eu ainda nem sabia quem era você, e você já estava na minha vida. A Geologia estava nos tijolos da minha casa, no vidro das janelas de minha escola, nos paralelepípedos da minha rua, no mar que banha a minha querida Antonina...

Quantas vezes fiquei na Prainha sentindo o lodo sob os meus pés, ou queimando meus pés nos lajedos da Ponta Da Pita, olhando lá longe o cimo da Serra do Mar, e nem sabia que tudo aquilo era mineral, era rocha, era granito. Quantas vezes, lá em Tamarana, eu ficava com meus pés vermelhos de poeira, ou ia tomar banho nas cachoeiras do rio Apucaraninha e não sabia o que era basalto, o que era arenito.

Obrigado, Geologia!

Obrigado por me fazer ver o pequeno mineral que constrói a rocha que constrói a montanha. Por ver bloco que vira seixo que vira areia que desce da serra que vira lama e vai atulhar o mar. Por ver o veio que vira minério que vira riqueza e que constrói casas, cidades, um país, o mundo.
Obrigado, Geologia, pelas grotas que visitei, pelas drenagens que percorri, pelos morros que subi, pelos frios e calores que já passei. Pelas cidades e pelos países que conheci, obrigado, Geologia!

Você já me levou ao fundo da Amazônia, às veredas do cerrado, às grotas das araucárias, aos píncaros da Serra do Mar! Graças a você conheci as fraldas dos Andes, o altiplano do México, os montes de Sichuan!

Por tua causa, também conheci, Geologia, lugares no fim do mundo, lixões e lugares imundos, grotões que se quer esquecer. Obrigado, Geologia, por me dar o de bom e do pior, meu alento e meu sustento, meu caminho pelo mundo!

Obrigado, Geologia, pelos amigos que fiz e farei, espalhados por todos os cantos! Amigos com quem já compartilhei o fácil e o difícil, barracas no meio do mato, uma casa no fim do mundo, uma fogueira no meio da noite, um gole d´água no fim da trilha, uma cerveja a beira mar.

Obrigado Geologia, por me fazer conhecer tanta gente, tantos mestres, minha medida das coisas, meu sentimento mais fundo!


Obrigado, Geologia, por fazer eu me sentir pequeno, pequeno ser, pequeno instante, na grande história do mundo....

sexta-feira, 27 de maio de 2016

PRECISAMOS FALAR SOBRE ESTUPRO


O estupro é um assunto?

Estive pensando em quantos homens  leem o título de alguma notícia nos jornais e redes sobre este assunto e logo passam para a notícia seguinte: “isso não me diz respeito!”.

Até quando vamos agir assim?

Vivemos num país fundado sobre o estupro. Foi um país cujo avanço “civilizacional” se deu no estupro cotidiano de mulheres escravizadas e submetidas já fazem quinhentos anos. Um país onde os “homens bons” tinham o direito sobre suas esposas e pelas demais mulheres da casa. Aliás, a maior parte dos estupros acontece entre pessoas que se conhecem – no Brasil, seria 68% dos casos (ver aqui).
Somos um país onde o estupro por parte de parentes ocorre no cotidiano das famílias, mas que nunca vem à tona por repressão e vergonha. Ou o estupro se dá dentro do casamento, o estupro marital, ou o estupro como um “direito” do homem em relação à sua mulher. Tudo dentro de quatro paredes, tudo amparado pelos “costumes”. O que acontece em casa em casa deve ficar, não é assim que a gente pensa e diz? Quantos casos de estupro ficam assim impunes?
O estupro tem uma característica perversa: em geral, a culpa é da vítima. Ora a vitima bebeu demais , ora está com roupa provocativa, ora deu mole, ou deu bola, ou qualquer bobagem do tipo. São frases que tipificam mais quem as diz, como foi a frase infeliz (mais uma!) do Cantor Lobão (ver aqui). A culpa é da vítima. É a vitima que sente vergonha, é a vitima que tem que esconder. Por isso, tão poucas mulheres fazem queixa do estupro que sofreram.
Esta perversidade também se revela no estupro como castigo: um exército invasor estupra as mulheres das zonas invadidas. Nas guerras modernas, as mulheres capturadas nas zonas de conflito são convertidas em escravas sexuais, como foi na Bósnia, como atualmente é na Síria/Iraque com o ISIS. Não por acaso, durante a guerra civil na Líbia, Muammar Gadaffi, antes de ser morto foi estuprado pelos seus captores como símbolo de sua “desonra”.
Com isso chegamos à questão da “Cultura do Estupro”, como vem se referindo a imprensa em relação ao caso escandaloso que estamos vivendo (quem acaba de chegar de marte leia aqui). Embora nos horrorize, não podemos nos espantar com os comentários e a apologia do estupro feitas na web. É assim que nós homens somos ensinados a pensar. uma frase terrivelmente infeliz é a famosa "se o estupro é inevitável, relaxa e goza". Como se a infeliz vítima fosse compartilhar do prazer doente de quem a violenta. Assim é nossa sociedade. Um dos xingamentos mais sérios que nos fazemos não é por acaso um desonroso “vai te foder”?
Também não por acaso Jair Bolsonaro (um dos mais perversos cultores do estupro em nosso país), para humilhar a deputada Maria do Rosário numa discussão sobre Direitos Humanos, disse que ela não merecia sequer ser estuprada (aqui). Aliás, Nicolas Sarkozi disse no passado coisa semelhante de Ângela Merkel. No passado Paulo Maluf foi o autor da famosa "estupra, mas não mata". Houve, nos momentos mais sombrios dos atos contra a presidenta Dilma, por si mesmos extremamente sombrios, falas insinuando estupro.
Devemos mudar nossa cultura. Isso passa pelo respeito e valorização da mulher, de todas as mulheres (veja mais aqui). Não importa se é na índia, na Alemanha, na Síria, no Rio de Janeiro ou dentro de nossa casa. Nós homens temos que mudar esta cultura. Chega de pensar que isso é um assunto “de mulher”. Chega de dar as costas para o sofrimento de tanta gente. Chega para o acobertamento de ações criminosas e que gera tantas vitimas, tanta gente sofrendo e, pior -  sentindo uma vergonha e uma culpa que não são merecidas.
Se não o fizermos estaremos endossando com nossa silenciosa omissão mais esta violência.


Sim, o estupro é um assunto. E um crime. Deve ser discutido, combatido e condenado. Por todxs. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O TEMPORA! O MORES!


Registro da reunião que mudou o rumo da Educação no Brasil...
Como já dizia Cicero no Senado Romano – “Que tempos! Que costumes!”. A desfaçatez já nada teme, a sabedoria de nada vale. Vivemos realmente num tempo difícil em que as pessoas não têm mais pudor em exibir sua ignorância e preconceito para todos verem. Não há nada mais feio do que a ignorância que se acha, a ignorância sem espelho em casa. Pior, estas pessoas ainda declamam arrogantemente sua ignorância nas ruas nas conversas e nas redes sociais como se estivessem falando de uma pia e devota peregrinação a Jerusalém...  
Não bastam os ataques e as interpretações (demasiado livres, diga-se de passagem) sobre nossa situação institucional, ainda temos que ver o ministro golpista da educação receber  - quem? Alexandre Frota e o tal do Marcelo sei-lá-quem para discutir os rumos da educação brasileira (ver aqui).

Onde iremos parar, caras-pálidas?

É o cúmulo do escárnio. Um ministro – por mais golpista que fosse, o qual deveria estar cuidando das politicas da educação, que é um dos principais gargalos deste país, passa o tempo a tratar com arrivistas e sub-celebridades que estarão lá para dar suas “ideias” para ajudar  o pais que “eles” amam.  
Já tivemos ministros da educação abomináveis – Suplicy de Lacerda, Jarbas Passarinho, Ney Braga, o general Rubens Ludwig, só pra citar os do regime militar – pouco preocupados com educação de qualidade, com aumento no nível de cultura do país e outras causas de estado. O Brasil perdeu durante os anos 60 a chance de melhorar radicalmente a educação e aumentar o patamar de inteligência da nação como o fez com sucesso a ditadura sul-coreana, militar e de Direita como a nossa.
A nossa preocupação é sempre com o perigo da Senzala. Nossas “zelites” (aí incluída a classe média que “pensa” que é elite) morrem de medo da Senzala. “Educar pra que?”: era assim que falavam os coronéis do interior do Brasil para justificar que a massa permanecesse  iletrada. A massa trabalhadora, as mulheres em casa, ninguém deveria ter acesso a nada que cheirasse a educação.
Hoje, o mote é outro. As sub-celebridades que foram ao ministro levavam sua preocupação com a dita escola “partidária”. A preocupação é que as pessoas tenham uma educação que as torne mais criticas. Isso, segundo eles, seria “partidarizar” a educação. Ninguém está preocupado com melhorar o nível de nossa educação, com melhorar as condições dos professores, com melhorar os métodos de ensino. Não estamos nesta situação porque os governos e mesmo nosso amado povo não tem um real compromisso com a educação, que seja dita a verdade. Nossa educação está assim porque é “partidária”.
Vamos voltar então a estudar que Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil por acaso, que a independência do Brasil foi feita porque um príncipe português gritou com a espada levantada à beira de um riacho nauseabundo. Eu aprendi, numa escola “não-partidária” que frequentei na minha infância, que os militares derrubaram um governo legitimamente eleito porque estavam salvando o Brasil....
Os arautos da Direita nas redes sociais adoram chamar os outros de “apedeuta” (consulte o google se você não sabe o significado). Lula seria o apedeuta dos apedeutas. Alias, escreva apedeuta no google e verá a ligação que os algoritmos fazem entre o nome “lula” e a palavra “apedeuta”.
(O que estas pessoas não falam e não querem falar que, por mais que se fale de Lula, ele jamais pode ser chamado de apedeuta. Chamar Lula de apedeuta é mais um dos muitos sintomas de preconceito social que temos, é a vingança dos que tem um carro na garagem contra um sertanejo que, contra todo o destino, venceu as barreiras de nossa sociedade de castas e teve por duas vezes o mérito de ser o presidente do país. Lula pode ser muitas coisas, mas burro com certeza ele não é. )
Acontece que muitas pessoas não são ignorantes porque querem. Muitas pessoas não tem acesso a um ensino de qualidade, e muitos sequer tiveram acesso ao ensino formal. Quantas vezes vemos exemplos de pessoas que, na velhice, vão para os bancos escolares para melhorar sua compreensão do mundo. A nossa sociedade de castas se revela no acesso que cada um tem ao ensino. Democratizar o acesso? Como? Estudar pra quê?, entoam nossos jovens de Direita, ecoando os coronéis de antanho. Pobres na universidade? Cotas?
Nenhum pais industrial moderno cresceu sem alavancagens sociais. Os Estados Unidos por anos tem sistemas de cotas raciais. Depois da segunda guerra mundial criou o “GI Bill”, um PROUNI para os soldados que vinham de vencer a segunda guerra. Sem um mínimo de alavancagem, ninguém sai de sua condição econômica e social. Não querer isso é ter o olhar no seu privilegio de classe, sem enxergar politicas mais abrangentes – de Estado – para melhorar a educação.
Com isso, voltamos ao “encontro” desta bela tarde de 25 de maio. Um ministro vinculado ao ensino pago e desclassificados preocupados com a “partidarização”. Cena que com certeza deixou o “Sensacionalista” e todos nós perplexos. Alexandre Frota é um desclassificado não porque ele foi ator “sério” que descambou para o pornô; a profissão de ator pornô pode ser digna para quem a exerce com dignidade. Alexandre Frota é a mais cabal demonstração de apedeuta que eu conheço. Ele não é um ator, é um lumpem. Alguém que teve acesso a um mínimo de educação e que trata da educação com desprezo. Trata o saber com escarnio. Quando foi a ultima vez que ele veio aproveitar de seu papel de sub-celebridade para falar sobre temas de educação?

 É este o dialogo que tem ocupado a educação brasileira. É esse o caminho que vamos trilhar.


Foi realmente pra isso que você bateu panelas e gritou “fora Querida”?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A COBRA-VIDRO E A DEMOCRACIA

Alguém já viu uma cobra-vidro? Segundo os biólogos, apesar do nome, trata-se de um lagarto. É um réptil carnívoro, que se alimenta de lagartas, lesmas e larvas. De hábitos diurnos, ela pode ser vista em campos e charcos. Os machos apresentam colorações esverdeadas e azuladas, enquanto as fêmeas possuem um risco localizado próximo ao dorso. Como a maioria dos lagartos, a cobra-vidro pode perder partes do corpo, que se regeneram. Assim, muitas vezes ela pode escapar dos predadores.
Certa vez, há muito tempo atrás, de manhã cedo,  eu estava indo para o colégio em Antonina, minha cidade natal. Na esquina da Rua Mestre Adriano com a Avenida Matarazzo – os antoninenses que me leem sabem direitinho onde é -  acabei me deparando com uma cobra-vidro. Assustado, acabei pisando nela, que se partiu em dois pedaços. Sai de lá meio orgulhoso do meu feito de enfrentar uma cobra, mas triste vendo aquele pobre animal se esvaindo na calçada. Não é uma lembrança da qual me orgulho.
Digo isso porque, nesta madrugada insone deste infame 17 de abril, acabei me lembrando deste episódio. Na verdade, a democracia é um bicho feio como a cobra-vidro. É desengonçada, terrível, aspecto feio e gosmento. Dá trabalho gostar dela. Quando atacada, às vezes ela expele parte do seu corpo para escapar dos agressores. E fica ali, frágil, escondida no capim, esperando se recuperar. Ou não.
O que foi feito neste dia foi uma operação desesperada. De alguns, pensando que se tratava de tirar um governo corrupto que fazia a vida de todos um inferno. De outro, porque com isso se livravam de punições inevitáveis que estão por vir. De outros ainda, porque o poder lhes cairia na mão sem ter que cabalar um só miserável voto popular.
Não condeno a maioria das pessoas que, de maneira apressada, achou que tirar a presidente Dilma seria como tirar um bode da sala, como conta a velha piada. Realmente, não dá pra defender o segundo governo Dilma. Foi uma sucessão de trapalhadas de um governo sitiado desde seu início.
O problema é a cobra – vidro, a pobre democracia brasileira. Ela é pequena, frágil, desengonçada. Este é seu maior período de estabilidade democrática em toda a nossa historia. Quando agredida, ela solta pedaços tenta sobreviver. Mas há um limite para esta sobrevivência.
Um processo de impeachment, com argumentos tão fracos é um processo muito, muito perigoso. Os argumentos eram tão fracos que os deputados preferiram falar em nome de Deus (em vão, como ensinam os catecismos!) do que explicar a seus eleitores que condenavam as pedaladas fiscais.
Condenar um governante por pedaladas fiscais, alias, é como expulsar um jogador por jogar com a camisa pra fora do calção. Não é a penalidade adequada. E deixa um precedente perigoso. Qualquer um pode ser impedido no futuro por procedimentos duvidosos, só na base do porque sim.
E, pior, estamos deixando de lutar contra a corrupção. Sim, a votação deste domingo vai referendar a impunidade de Eduardo Cunha e seus asseclas. Ele entrega Dilma, e seus pares o blindam de seus processos. Cadê a indignação, cadê as ruas cheias de indignação verde e amarela?
Ele deve estar morrendo de rir da cobra de vidro estrebuchando na sua frente, como um vilão de filme de sessão da tarde.


Infelizmente este processo, que ainda não terminou, ainda deixará muitas sequelas em nosso país....  

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O GRANDE DIA TINHA CHEGADO - parte 2

Página do jornal A Noite, de 20/fev/1942, mostrando fotos dos escoteiros com Getúlio Vargas. Como uma caricatura dele mesmo , GV trajava tern de linho branco e tinha sempre a mão seu havana. Ditadores são sempre simpáticos, difícil mesmo é a banalidade da democracia...

Getúlio Vargas veio para a solenidade vestido com um terno de linho branco, palheta, gravata borboleta e do seu inseparável charuto havana. Parece quase uma caricatura dele mesmo. Era um  clichê, paletó de linho branco e tudo, que vinha ali descendo a alameda do Palácio Rio Negro, acompanhado de dois majores aviadores, Cantalice e Rolim. O comandante Rolim havia vindo junto com a caravana dos escoteiros.
A imagem do presidente descendo sorridente a alameda deve ter realmente magnetizado os cento e cinquenta rapazes ali presentes. Lydio nos conta que “aos poucos ele veio se aproximando com seu sorriso de cativar”, sorrindo a acenando para os presentes. Ali estavam setenta escoteiros de Santa Maria, no Rio Grande do sul, que compunham a “Caravana Henrique Dodsworth”, que homenageava o intendente do Distrito Federal durante o Estado Novo.  Havia também a tropa mais numerosa, cerca de oitenta escoteiros paulistas, a maioria proveniente de Piracicaba e Campinas. E a pequena Patrulha Touro, representando a Tropa Vale Porto de Antonina, Paraná.
Estavam ainda presentes um repórter oficial e um fotógrafo do famigerado DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo), vários jornalistas credenciados e “uma porção de crianças e mocinhas”, segundo o testemunho de Lydio. Segundo a edição do dia seguinte de A Noite, o presidente havia sido surpreendido pela caravana escoteira durante a sua caminhada. Mas, como vinha até ali acompanhado do major Rolim, um dos integrantes da Caravana, isso parece pouco provável.
O General Heitor Borges, que era o presidente da UEB e idealizador do evento e da Caravana, chamada “Caravana Presidente Vargas”, fez as saudações. Segundo a reportagem do jornal A Noite, o general saudou o presidente num breve discurso e, em nome da Caravana, disse que os escoteiros estavam ali para expressar seu reconhecimento “pelas atenções que tem recebido”. A seguir, começaram as entregas das mensagens.
Os escoteiros gaúchos fizeram a entrega de um livro de madeira com gravuras em relevo. Os escoteiros paulistas entregaram, por intermédio de um lobinho, um enorme gomo de bambu envernizado também todo entalhado e com a mensagem em alto relevo. Foi então que chegou a vez dos escoteiros antoninenses. Milton Horibe deu um passo à frente e tendo a mão um pergaminho disse: “A mocidade de meu estado lhe envia, por nosso intermédio, suas saudações e seus cumprimentos”. Ao que Getúlio lhe respondeu: “essa vossa ação revela coragem, antes de tudo. Isso dá uma demonstração do caráter nobre e da fibra moral do escoteiro”.
Não se sabe o quanto estas frases e gestos foram pensados e ensaiados, como que escrevendo frases para ficar na história. Estas, com algumas pequenas modificações, são as frases do diário de Lydio e o dos jornais que noticiaram os fatos, como A Noite ou o Diário de Notícias. Mas o que transparece no diário de Lydio é a profunda emoção daquele encontro. Conta-nos ele que, depois desta troca de frases grandiloquentes, Getúlio aproximou-se e “abraçou-nos demoradamente”.
O Diário De Noticias relata ainda que o general Heitor Borges depois disso dirigiu-se ao presidente num também breve discurso, colocando-o a par das atividades a serem desenvolvidas pela UEB naquele ano, o que teve boa recepção por parte de Getúlio. Este, depois da pequena cerimonia, despediu-se e todos e, com seu havana nas mãos, foi para a sacada do palácio Rio Negro, de onde assistiu o desfile dos escoteiros ao som da Banda do 1º Batalhão de Caçadores.
Lydio relata que os “outros documentos” que haviam trazido, foram depois entregues ao ajudante de ordens do presidente.

A missão estava cumprida. Agora, restava a volta. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O GRANDE DIA HAVIA CHEGADO - parte 1

O Palácio Rio Negro, em Petrópolis, onde os escoteiros de Antonina encontraram-se, finalmente, com Getúlio Vargas em 1942
O grande dia havia chegado.
No quartel, todos estavam agitados, com os últimos preparativos para a viagem a Petrópolis, para ver o Presidente Vargas. “O reboliço era demais”, anota Lydio Cabreira em seu diário. Desde as 6 da manhã havia um intenso corre-corre de rapazes arrumando os uniformes, escovando os dentes, penteando os cabelos, colocando os lenços, os chapéus, os cintos, e toda a farda escoteira da época.
Os escoteiros seguiram em carros de choque da policia do exercito para Petrópolis, onde veraneava Getúlio Vargas. Só um escoteiro não foi. O chefe Beto, logo o chefe Beto, tivera que ir ao banheiro e havia perdido o transporte. Segundo Lydio, ele e seus colegas em vão apelaram aos chefes escoteiros para que esperassem por ele. Mas não. As 7:00 foi dada a ordem de largada. Os caminhões se foram e o chefe Beto ficou.
Lydio nos conta o trajeto: seguiram pela Quinta da Boa Vista, São Januário, Bonsucesso, Ramos, Penha, Vigário Geral. Quando os caminhões pegaram a Rio-Petrópolis, Lydio se encanta: aquela era “a rodovia mais bonita que eu já havia visto”. Não era para menos. Reconstruída a partir da antiga estrada imperial, a estrada foi remodelada por Washington Luiz, que a reinaugurara em 1928. Durante muito tempo, foi considerada a melhor estrada da América do Sul. Lydio nos conta que a rodovia era asfaltada e, em alguns locais, cimentada. Nas laterais da estrada as amuradas eram presas por cabos de aço, para evitar acidentes. Havia muitas pontes. As pontes em formas de arcos encantam Lydio: “eram verdadeiras maravilhas da engenharia brasileira”, comenta.  
A estrada era muito sinuosa, correndo por entre as matas de intenso verde. Os rapazes se encantam com sua beleza. A estrada, em alguns trechos era cavada na rocha. Para Lydio, estes trechos apresentavam “o aspecto de uma paisagem europeia”. O clima ia ficando mais frio na medida em que subiam. As matas verdejantes colaboravam para que o clima tropical fosse amainado e seu ar fosse de uma pureza total, conforme anotou Lydio.
A comitiva chegou em Petrópolis por volta das dez e meia. Os veículos seguiram para o quartel do 1° Batalhão de Caçadores, uma das tropas de elite do Brasil na época. Logo a seguir, os rapazes assistiram no pátio interno do quartel a uma parada militar de toda a corporação para homenagear o General Heitor Augusto Borges e sua comitiva. O general, que já era conhecido dos rapazes de Antonina, era uma das figuras mais importantes neste momento, e também era chefe da União dos Escoteiros. Era ele que estava por trás daquela solenidade.  
Depois da parada, os escoteiros fizeram o rancho nos refeitórios do quartel, e logo a seguir foram ao Palácio Rio Negro, onde ia ter início a solenidade daquele dia. O palácio era um belo prédio art nouveau construído pelo Barão do Rio Negro nos últimos anos da monarquia. Na Republica, o imóvel foi adquirido pelo estado, transformando-se no palácio de verão dos presidentes brasileiros. De todos eles, quem mais fez uso do palácio sem dúvida foi Getúlio Vargas. Não houve um verão em seu governo que ele lá não estivesse.
Enquanto isso, nos jardins do Palácio, os escoteiros, enfileirados, estavam impacientes. já estavam por lá aguardando havia meia hora quando o presidente finalmente apontou numa esquina. Getúlio Vargas, todo de branco, vinha a pé, depois do passeio que costumeiramente fazia após o almoço.

Um grande alvoroço tomou conta da tropa. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

UM CARNAVAL NO ESTADO NOVO - FINAL

Foliões dançam na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, nos bailes públicos do carnaval de 1942; os rapazes antoninenses estavam por ali...
Finalmente o ultimo dia do Carnaval de 1942 havia chegado. Aí, sim, não teve o que segurasse os rapazes dentro das rígidas normas do Colégio Militar. Quem seguraria os rapazes ali alojados com o maior carnaval do Brasil rugindo ali na frente e fazendo tremer as casas?
Segundo o diário de Lydio, eles saíram bem cedo e voltaram bem tarde. Neste ultimo dia, o ponto preferido dos rapazes foi a Avenida Rio Branco. Foi uma mudança que foi se operando devagar no carnaval do Rio de Janeiro, com os desfiles paulatinamente migrando da praça Onze, em obras para o surgimento da nova Avenida Getúlio Vargas, para a Avenida Rio Branco.
A Avenida Rio Branco era o pedaço da maior animação e, segundo Lydio, era também o ponto das maiores brigas. A todo o momento os blocos de sujo saiam praticando o que Lydio chamou de “malvadezas”, assim mesmo, entre aspas, com as folionas que “desse bola”. Eram os onipresentes engraçadinhos que mexiam com a mulher dos outros. O resultado eram tumultos. Por vezes, segundo o relato, surgiam as “peixeiras” e alguém se feria com gravidade. Se hoje em dia isso ainda é comum, é de se imaginar que as brigas e a violência no carnaval fossem muito mais letais que hoje.
Os bares e cafés das imediações da Avenida Rio Branco neste ultimo dia de carnaval estavam lotados, e não venciam a demanda da freguesia. A região estava cheia de gente. Lá pelas 15 horas uma equipe da Radio Nacional colocou altos falantes ao longo da avenida e logo se formou um monumental baile ao ar livre. Todos pulavam e cantavam as musicas deste e de outros carnavais. Lydio anotou “A Jardineira”, “Praça Onze” e “Mamãe Eu Quero”.
Na verdade este foi um carnaval muito rico de novas canções. É o ano em que surgem alguns grandes “hits” do carnaval, como “A Mulher Do Leiteiro”, “Nós, Os Carecas” e principalmente “Está Chegando A Hora”. É um samba de Henricão e Rubens Campos, uma adaptação da valsa “Cielito Lindo”, de A. Sedas e F. Tudela, cantado por Carmem Costa. Carmem era empregada doméstica na casa de Francisco Alves, e lançou neste ano o samba que e que consagrou como uma das grandes cantoras brasileiras e está até hoje na cabeça do povo.
Luzes coloridas foram acesas quando chegou a noite. O espetáculo prosseguiu com desfiles de carros alegóricos. Os desfiles não eram como os desfiles de hoje. Eram desfiles de sociedades e clubes, em carros alegóricos com temas carnavalescos. Enquanto isso, na Praça onze, havia o desfile das escolas de Samba. Naquele ano, numa disputa apertadíssima, a grande campeã foi a Portela, com o enredo “Vida no samba”. Em segundo lugar ficou a “Depois eu Digo” , com o samba “uma noite feliz” e, mais atrás na pontuação, a eterna Estação Primeira de Mangueira, com o samba “A Vitória do Samba nas Américas”.
Na avenida Rio Branco, vendo os desfiles das sociedades, Lydio nos conta que eles traziam belas garotas de maiô, com belas pernas de fora e rebolando sem parar. “Aquilo deixava os marmanjões com água na boca”, diz ele, também boquiaberto. Mas Lydio não estava só de água na boca. Eis que, lá numa linha, ele nos diz que estava assistindo o desfile “agarrado à Lurdinha”, e não queria mais nada da vida. Com certeza queria. Não sabemos mais nada de Lurdinha, mas com certeza todos sabemos como são os amores de carnaval e ainda mais para jovens adolescentes. Que bela e inesquecível noite deve ter sido!
Mas o carnaval de 1942 ia acabando. Eram quase onze da noite. Encerrando o desfile vieram as grandes sociedades: clubes sociedade dos tenentes, sociedade fenianos, pierrôs da caverna e outros de que Lydio não conseguia lembrar. Quando regressaram ao alojamento, os rapazes ainda escutavam os cantos de nostalgia:“É hoje só só só../Vai se acabar já já já!”...
E assim os rapazes se despedem também do carnaval carioca. Lydio ainda nos diz que espera um dia voltar a vê-lo novamente. Mas, antes disso, muito antes disso, eles tinham uma missão a cumprir: entregar a carta para o presidente.
Será que conseguiriam?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

UM CARNAVAL NO ESTADO NOVO - parte 2


O Centro e a Zona Norte visto do Corcovado (1940)
(continua a saga dos escoteiros antoninenses no Rio, no carnaval de 1942, antes de entregarem a mensagem a Getúlio Vargas; livremente baseado nos diários do escoteiro Lydio Cabrera) 

Na segunda feira os escoteiros tiveram que passar a manhã de castigo. A punição por ter ficado tempo demais no carnaval e entrado tarde no alojamento foi a arrumação dos quartos e dos banheiros do Colégio Militar, onde estavam alojados. Lydio ficou arrumando camas, mais de 90, segundo ele. Milton varreu os três alojamentos e Canário lavou e secou os cinco banheiros. E lavaram rapidinho, por que senão não iria ter passeio para eles.
O dia foi de passeios e caminhadas com os outros escoteiros. Fora os cinco antoninenses, havia mais duas delegações: os escoteiros paulistas, um grupo de 85 pessoas,  que haviam chegado de trem dias atrás, e os escoteiros gaúchos, cerca de 70 rapazes, que haviam chegado por mar no dia anterior. O grupo todo fez uma caminhada sob sol quente da Lapa até o bondinho do Corcovado. Os cinco rapazes lembraram-se dos de estrada, onde passaram por situações piores que aquela. O sofrimento os fortaleceu e deu motivo de orgulho.  Lydio comentou, com ironia, que os escoteiros gaúchos e paulistas que estavam com eles na caminhada só assim puderam ter uma pálida ideia do que era caminhar durante quarenta e quatro dias.
Apesar do sol quente, os rapazes chegaram finalmente ao Corcovado.  Subiram para apreciar a paisagem. De lá de cima, os cinco se extasiaram com a imensa vista.  Morrendo de sede, eles se fartaram de tomar refrigerantes no barzinho lá no alto, segundo as anotações de Lydio. A vista imponente maravilhou os rapazes. Lydio comentou sobre a baia de Guanabara, descreveu as ilhas todas. Do outro lado, ficou impressionado com o tamanho do Oceano. Notou também a lagoa Rodrigo de Freitas, que descreveu como bonita e cheia de barcos de recreio. As fotos da época da estada dos rapazes no Rio deve ter sido similar as fotos que temos hoje disponíveis na internet.  Nele, pode-se ver uma cidade já grande, com avenidas sendo construidas e prédios sendo erguidos no centro e na zona sul.

foto de Peter Fuss - 1938
Era uma cidade sendo reprojetada. A preocupação nesta época, era com obras de mobilidade e com a doutrina do higienismo, então muito em voga. A cidade demanda por ligação entre seus eixos de crescimento, assim como requer cuidados com a drenagem de águas pluviais e o abastecimento de água. Neste período destacam-se as obras da Avenida Getúlio Vargas que, como vimos, foi a causa da destruição da Praça Onze, lamentada no samba do ano anterior. A Avenida Brasil estava sendo projetada. Para melhorar e a ligação da Zona Norte com a Zona Sul da cidade O morro de Santo Antônio estava sendo demolido. Era um Rio em obras a cidade que os quatro escoteiros estavam vendo.
Ao voltar para o Colégio Militar, onde estavam alojados, os rapazes ainda viram os blocos, ranchos e frevos que iam passando, indo para o carnaval. Neste dia, entretanto, não ia ter folia. Todos voltaram nos horários regulamentares, tomaram banho e fizeram fila para o jantar. O resto da noite foi de conversas com os demais escoteiros que estavam por lá.


Ainda tinha um dia de carnaval....

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

UM CARNAVAL NO ESTADO NOVO - parte 1

Orson Welles filmando o carnaval do Rio em 1942....pera lá, será que vi um escoteiro de Antonina nesta foto? o que ele estará fazendo lá?
A rapaziada estava em alerta. Mas desta vez não era o Sempre Alerta do Escotismo. Aquele sábado pela manhã, 14 de fevereiro de 1942, ao ir ao cais receber uma tropa de escoteiros que chegava via marítima, os quatro escoteiros antoninenses perceberam que a Capital estava diferente. Ao andar pela cidade de bonde e de trem – tinham feito um passeio ao Jardim Botânico - os rapazes iam sentido que a cidade era tomada de um ritmo diferente, produzido pelos tambores, tamborins, cuícas, ganzás, recos-recos e pandeiros, como anota o escoteiro Lydio Cabreira em seu diário:“escutamos muitas batucadas pelos morros e ruas”. O carnaval estava chegando. 
No domingo, nada podia mais deter os rapazes. Emprestaram alguns trajes civis dos colegas cariocas, pois no carnaval era proibido usar farda, mesmo que fosse a farda escoteira. O clima de festa vai contaminando a todos.  Lydio nos diz que desde o inicio do dia a “batucada tinha dominado a cidade”. Os meninos Beto, Milton, Lydio, Manduca e Canário iam se maravilhando com a grandeza da festa.
As pessoas vão chegando de bonde, de trem, a pé, todos fantasiados. Lydio notou que a fantasia tinha um sentido: a nudez. “seminus, aquele povo não queria saber de nada. Só uma coisa passava pela sua mente: orgia e nada mais”, escreveu em seu diário. Ao longo da avenida as bandas iam passando, tocando sucessos deste e de outros carnavais. Lydio não se contém e vai atrás de um cordão.
O destino de todos os cordões era a Praça Onze, onde Lydio  viu, encantado, Orson Wells e sua equipe filmando a folia. O cineasta americano estava no Brasil filmando o seu documentário ”It´s All True”, que nunca foi acabado. Embevecido vendo a filmagem, Lydio enfim percebeu que havia se perdido de seus companheiros. Mas tudo era alegria, diz ele, e seguiu pulando no meio da multidão. A música não parava nunca.
Uma das musicas mais cantadas deste carnaval era uma marchinha do ano anterior, “Praça Onze”, de Erivelto Martins e Grande Otelo, que lamentava justamente o fim da praça, que estava sendo  engolida pelas obras de urbanização da cidade. Local central e cosmopolita, a praça abrigava os imigrantes recém-chegados e a boemia da cidade e era o principal ponto de circulação dos blocos do carnaval de rua. Os foliões continuavam chorando o fim da praça na própria Praça Onze, onde as obras só iriam ser finalizadas em 1944, dando lugar à Avenida Getúlio Vargas. Em meio aos escombros da praça os foliões cantavam “Guardai os vossos pandeiros, guardai!”, meio como protesto, meio como lamentação.
Lydio passou o dia todo por ali, na fuzarca, como ele dizia. Acabou almoçando e jantando alguns pastéis. “Bastou”, segundo ele, cuja fome não era de comida, e sim de festa. Continuou pulando e só mais tarde, já noite, foi que reencontrou seus companheiros Canário e Manduca. os rapazes continuaram perambulando pela Praça Onze, e só muito mais tarde é que decidiram voltar ao Colégio Militar, onde estavam alojados. Eram onze da noite.
Tiveram que pular o muro, pois o guarda não os deixou entrar. No entanto, apesar de todos os cuidados para não serem descobertos, os escoteiros paulistas de guarda no alojamento descobriram a chegada dos foliões. Pegaram um castigo: no dia seguinte, tiveram que arrumar todas as camas, varrer os alojamentos e limpar o banheiro. “Tudo bem, falar o que?”, pensou Lydio, e anotou mais essa em seu diário.
O carnaval só estava começando....

domingo, 24 de janeiro de 2016

AI DE TI, ANTONINA!!


Palavra do Senhor no Evangelho de São Maneco Cego:

Ai de ti, Antonina!

Ai de ti, pobre e velha cidade! Ai de ti, cidade mesquinha e miserável, com suas ruas cheirando a mijo, suas casas cheirando a mofo, castigada pelo sol e pelos ventos e maltratada pelas chuvas e pelas marés!
Ai de tuas ruas cheias de mato, de teus muros caídos, de tuas casas sem cuidado!  Ai de teus miseráveis quintais, tanto os cheios de trastes, velharias e sujeira, quanto os limpinhos e recendendo a flores. Ai de tua baia assoreada, cheia de mato e sujeira!
Ai de ti e de teus filhos, perdidos em suas ruas, perdidos nas casas, perdidos no mundo imenso além da Serra e além do Mar!
Mandei marés de lua, mas vós não vos importunastes! Mandei marés de sete anos, mas ninguém deu a mínima! Mandei assorear a baia, para enchê-la de entulhos e lodo, mas continuastes no pecado!
Enviei temporais e chuvas imensas que fizessem derreter teus morros e destruir suas casas, mas nada mudou vossa conduta, Antonina!
Ai te ti, Antonina!
Ai de teus filhos que se perderam no mar: enfrentando as águas salobras de nossa baia, ou enfrentando os mares bravios para além da barra de Superagui!  Ai dos teus filhos que se perderam além da Serra: enfrentando o frio, o vento e as outras cidades, tão mais amistosas e hospitaleiras que a nossa! Ai dos bagrinhos que enfrentaram o barro e o pó das estradas, dos que trabalharam em grandes plantações, em imensas fábricas e escuras minas! Ai também dos que trabalharam em escritórios ou nas mil vezes malditas profissões liberais! Ai dos que encontraram colegas, amigos e amores para longe do Morro do Bom Brinquedo ou da Ponta da Pita! Ai dos que se enganaram achando que este mundo além da Serra era melhor, ou mais injusto, ou a última chance!
Ai também dos que permaneceram caminhando em tuas ruas ou vivendo em tuas casas, Antonina! Ai dos que tentaram ganhar dinheiro e dos que não mexeram uma palha. Ai dos que viveram das heranças, dos que roubaram as pensões dos avós ou dos que trabalharam honestamente! Ai  de teus profissionais liberais, teus comerciantes e teus funcionários públicos! Ai, sobretudo, de teus trabalhadores, que moram na Pita ou Batel ou Tucunduva ou Praia dos Polacos ou Portinho, e que em vão carpiram quintais, fizeram faxina, carregaram caminhões e cuidaram de crianças e velhos!
 Ai também dos trabalhadores que no passado carregaram navios, cavaram estradas e construíram pontes, e tentaram sinceramente, construir uma cidade no fundo daquela infecta baia. Ai das mulheres que, por gerações, pariram filhos e alimentaram suas preguiçosas famílias, que costuraram roupas e fizeram rendas de bilros e fizeram bolos e doces para vender fora. Ai das mulheres que lavaram roupa pra fora, ai das cozinheiras, copeiras e ai das pobres criadas, abusadas por todos!
Ai de teus políticos, teus sindicalistas, teus policiais, teus juízes!! Ai de teus padres e teus pastores! Ai de teus jornalistas e blogueiros! Ai dos teus haters, que pensam estar a salvo sob o anonimato da internet! Ai dos deputados, governadores, senadores, e de todos os que vêm aqui pedir voto! Ai dos que usam a inocência das pessoas, dos que compram voto, dos que te corrompem e te roubam, pobre cidade!  
Ai de ti porque você se deixa roubar, Antonina!! Não és mais pobre de espírito do que aqueles te expoliam, falsa e hipócrita cidade!! Você não é melhor nem pior que Goianésia, que Anicuns, que Laranjeiras do Sul. Ai dos que querem teu mal, Antonina, mas presta atenção! Ai dos que querem teu bem!! Ai daqueles que querem te salvar de alguém, de alguma coisa, de qualquer coisa, deles mesmos!!

Ai de ti, Antonina!!

Ai de ti, cidade tão cheia de pecados! Eu te amaldiçoo a sofrer neste mundo sem remissão a sorte daqueles que existem só por existir!
Pois que é chegada a hora da remissão sem salvação, da salvação com culpa eterna. Pois que te condeno a existir, Antonina, enquanto o mar ou os ventos ou as chuvas assim quiserem. Não te destruirei como a Babilônia, afogada em pecados! Não farei as ondas destruírem o mercado, ou os ventos derrubarem a igreja da Colina. Também não espalharei o terror e a morte no Jequiti, no Cabral, na Caixa D´Água e no Quilometro 4, Antonina!
Mas te condenarei a coisa pior: existir sem brilho, sem alegria, sem pompa nem majestade, pobre cidade!
Teus carnavais não brilharão mais, teus cantores e poetas não cantarão mais as suas glórias, cidade amaldiçoada! Teus pintores não vão mais por as suas belas tardes no papel, e tua historia vai se apagar sem que dela conhecêsseis a metade, Antonina! Tuas ruas se cobrirão de mato e ninguém terá forças para carpi-lo! Teus bares e restaurantes ficarão as moscas e tuas igrejas vazias!
Haverá um dia em que, perdida no marasmo e na mediocridade, ninguém mais se lembrará de ti, Antonina! Neste dia os haters de internet aparecerão finalmente nas ruas da cidade, babando e falando suas frases desconexas e cheias de rancor, mas não haverá ninguém para escuta-los!
Não haverá o rio do Nunes, não haverá a Caçarola do Joca, ou a Igreja do Bom Jesus. Não haverá mais desfile de escandalosas nem procissão de Nossa Senhora Do Pilar. Ninguém vai querer saber de suas qualidades, velha cidade, ou dará risadas com os não poucos defeitos dos bagrinhos seus filhos. Nunca foste e jamais será a Capital da Música, pois não haverá ninguém para cantar seus hinos!
Por que tua hora chegou, Antonina! Não há mais espaço para ti na terra! Te dei Mar, Arte e Amor, mas os desperdiçaste!  Que caia sobre ti a minha ira!
E assim falou o Senhor sobre a cidade de Antonina.



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

PROCRASTINOS, O DEUS DE NOSSO TEMPO


Estatua inacabada de Procrastinos (sec IV aC, Jônia setentrional, a esquerda de quem vai para Mileto) 
Para Ricardo Castillo 
(que não é absolutamente 
devoto de Procrastinos...)

Ateus, agnósticos e outros incréus em geral, creiam neste pobre bagrinho: Procrastinos é o Deus de nosso tempo.
Um dos muitos e mal conhecidos deuses olímpicos, Procrastinos era filho de Cronos, o Tempo, e Réia, a Terra. Desde pequeno, Procrastinos era um deus muito cruel e amoral, o que lhe conferiu uma grande legião de seguidores, cujas origens nascem na Grécia Clássica e chegam a nosso tempo. Procrastinos, em lugar de fazer o que seu pai Cronos mandava, ficava pelas ruas do Olimpo fazendo nada, caçando formigas pra arrancar as cabeças ou matando passarinho com cetra (ou bodoque ou estilingue, dependendo da região da Grécia que estamos falando).
No entanto, houve um tempo em que Procrastinos se revoltou contra seu Destino, e tentou matar o Tempo. Cronos, seu pai colérico e vingativo, sentindo-se ameaçado pelo jovem deus, o atirou num imundo sofá cheio de ácaros e o condenou a assistir Sessão da Tarde até o fim dos tempos. Procrastinos só sobreviveu este castigo com grandes doses de Ovomaltine e bolachas negresco, que lhe eram dadas as escondidas pelas ninfas advertises. Vendo que o comportamento do deus não melhorava, Cronos ampliou o castigo, e o condenou a também assistir Malhação.
Esta existência cruel e tediosa não impediu, porém, que Procrastinos tivesse uma imensa legião de seguidores. Trata-se de um culto brando e cotidiano, exercido em silencio e devoção. De fato, o culto a Procrastinos não tem o voluntarismo do estridente culto das religiões monoteístas modernas. Apesar de ter alguns inegáveis pontos de contato, seu culto também não segue a linha das religiões orientais e seus ritos de silencio e paz interior.
O culto a Procrastinos é um culto do desassossego, da anti-paz de espirito. Seus adeptos estão sempre num grande estado de confusão mental, de desordem interior, procurando um vir-a-ser num futuro próximo e ao mesmo tempo distante, onde tudo terá uma solução mágica e misteriosa. Momentaneamente saciados, os adeptos do deus então se atiram num sofá reverencial, para assistir sabe-se lá o que na televisão, ou, em tempos mais recentes, no computador. Hoje, as Redes Sociais são um grande espaço de culto a Procrastinos.
Não existiam, na Grécia Antiga, muitos espaços para o culto a Procrastinos. O que se sabe é que, embora mais reverenciado que Zeus e muito mais amado que Apolo, os seguidores de Procrastinos não construíram nenhum templo de culto digno de nota. Ao que parece, houve muitos projetos, mas poucos saíram do papel, dado o empenho dos fieis aos cultos de procrastinação (prokrastineia), como vieram a ser chamados. Algumas vezes, os cultos de Procratinos eram feitos juntamente com os cultos báquicos, desde que não exigissem muito esforço. A ênfase na produção de uva, o culto das videiras e o envase do vinho não eram entendidos pelos procrastinadores, como vieram a ser chamados os seguidores de Procrastinos.
Platão tinha uma visão bastante positiva de Procrastinos, e colocou no Timeu um dialogo com Flésias de Epidauro, onde havia um elogio da atividade dos procrastinadores, muitas vezes mal compreendido pelos platônicos mais diligentes. Já Aristóteles (sempre ele!) condenava o culto a Procrastinos, tendo escrito alguns parágrafos furibundos no terceiro volume de sua Física. No entanto, esta foi uma obra que, por influência de Procrastinos, o Estagirita não conseguiu terminar. Em Roma, os epicuristas viam com bastante simpatia o culto a Procrastinos, o qual, entretanto, era veementemente combatido pelos estoicos.
Já Santo Tomas de Aquino condenou com veemência o culto a Procrastinos, que se desenvolvia sem cessar por toda a Idade Media, mesmo após a morte do culto dos deuses clássicos. Em seu clássico “blasfêmia procrastinas vulgus in teolodiceam nostram" escrita em 1257 em Paris, o sábio e santo iniciou uma veemente  obra contra Procrastinos, a procrastinação e os procrastinadores. No entanto, por motivos que permanecem  um tanto obscuros até para os estudiosos da vida e da obra de S. Tomás, a obra infelizmente não foi concluída.

(este pequeno opúsculo sobre o grande deus Procrastinos deveria prosseguir em quinze volumes e dois tomos, com notas das edições grega, latina e árabe. Entretanto, isso exige muito esforço! Vou deixar a segunda parte, de mais três paginas pra amanhã, e continuo depois do almoço, assim que tomar um café. Eu juro!! Por Procrastinos!!)


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O INDUSTRIAL E O CANTADOR


Hoje, ao andar pela Deitada-a-beira-do-mar, vi uma placa de rua que me deixou intrigado: o que fazem ali, juntos, Bento Cego e o Comendador Matarazzo?
De um lado, temos Bento Cego (1821 – 189?), nosso bardo, talvez o maior artista antoninense de todos os tempos.  Pobre e cego , o negro Bento nasceu numa casinha humilde no bairro do Registro, em Antonina.  Saiu de lá, em tenra idade, para ganhar o mundo em duelos e trovas de viola. Teve uma vida sofrida e memorável, tendo sido autor de versos sublimes cantados em feiras e festas profanas e religiosas de todo o centro-sul do Brasil, desde o Rio Grande do Sul até Minas Gerais. O pouco que sabemos de sua vida foi pesquisado pelo cônego Manoel Vicente da silva, e pelo jornalista Nestor de Castro (ver aqui).
De outro lado, o Comendador Matarazzo (1883-1920), o primeiro filho brasileiro do industrial Francisco Matarazzo. Durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto o pai Francisco participava do esforço de guerra italiano, o jovem industrial Ermelino aumentava o capital e as instalações das Indústrias Matarazzo no Brasil. É de 1917 a construção do moinho do Itapema, que mudou para sempre Antonina com a implantação do parque industrial e de um bairro praticamente inteiro. Falecido num acidente de carro na Itália em 1920, o jovem Comendador Ermelino (tinha só 36 anos) foi uma promessa de curta duração, mas que deixou marcas duradouras em nossa incipiente industrialização.
Mesmo as duas ruas são muito diferentes. A Rua Bento Cego é bem menor, e inicia-se na Praça Coronel Macedo, piamente, próximo ao largo da matriz. Atravessa inicialmente a Rua do Esteiro, a pecaminosa Rua do Esteiro dos puteiros de outrora, a hoje simples e modesta Rua Dr. Mello. Depois da pequena ponte do Esteiro, a rua atravessa humildemente uma grande zona de mangue, cheia de água, capins e de rizófora, a arvore do mangue. Construída com aterro sobre o mangue, sentimos ao atravessa-la  o cheiro de podre e a sensação de estar no meio do barro e das águas escuras e salobras de nossos manguezais. A Rua Bento Cego termina simples, na esquina da grande Avenida Comendador Maratazzo.
A Avenida Comendador Matarazzo inicia-se no porto, cruza as casas de tijolinho e o grande complexo dos Moinhos Matarazzo, grande obra da arquitetura industrial do inicio do século. Ao seu redor existiam diversos grandes armazéns – o Valente, a Sermara e tantos outros. Eram construções simples e grandes, com algumas ruínas ainda aparecendo, e que representavam importantes firmas de navegação de outrora. Hoje pouco visíveis, eram muito importantes os trilhos do trem, que seguiam paralela e obedientemente em toda a sua extensão. Enquanto que pela rua iam os automóveis, ao seu lado os vagões transportavam todo o tipo de mercadoria para os armazéns e o próprio porto, ali bem do seu lado, no Itapema.
O que podemos imaginar neste encontro entre figuras tão díspares como Bento Cego e o Comendador Matarazzo? O que diria Bento Cego para o Comendador? E ele, o que responderia? Bento cego cantaria uma trova, louvando os feitos do industrial? Será que ele, um provável apreciador da opera italiana, se comoveria com os versos singelos do negro cantador? Seria um encontro grandioso, para acima do bem e do mal, ou seria um grande fiasco, um mero encontro banal entre dois seres que não se conhecem, não se apreciam, não se entendem?
E o que a Antonina de hoje diria para estes dois personagens? Bento Cego teria enfim seu reconhecimento pelos seus concidadãos? Será que apreciaríamos de verdade seus versos, e canto e seu sofrimento? E o Comendador, será que teria alguma empatia pelos bagrinhos de hoje em seus carros e seus celulares correndo, andando, amando e trabalhando por nossas ruas tortas?

Ou será que nós, passando todo o dia pela esquina de um encontro tão improvável talvez preferíssemos  nem pensar nisso, ocupados que estamos com nossa existência? Será que se eles tivessem de fato algo  a nos dizer, talvez preferíssemos não ouvir?