terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O SUICIDA



No ano de 1930 apareceu na firma J. Cordeiro um rapaz com aparência de seus 21 anos, à procura de serviço.
Foi o mesmo atendido em sua solicitação começando a trabalhar no armazém de serviços de descarga de vagões e carregamentos de lanchas, no que deu-se bem.
Logo no início, já de camaradagem com os demais trabalhadores, ficamos sabendo ser filho de bugre. Todos o conheciam pelo nome de Xixipe.
O rapaz logo se enamorou por uma tal Maria Louquinha, que morava na zona do Portinho. E não trabalhava mais, só pensando na sua amada.
Num domingo o mesmo encontrou a sua namorada com um Don Juan, na fonte da Carioca. Ficou muito triste, contou aos companheiros o que tinha acontecido, e disse que ia suicidar-se.
Os seus colegas, conhecendo a Maria Louquinha, começaram a rir.
O rapaz dirigiu-se à Ponte Bandeira Ribas, dizendo que ia suicidar-se mesmo. Os seus colegas ficaram surpresos ante a sua atitude e esperavam o trágico desfecho, quando o mesmo chega a cabeceira da ponte e senta-se.
O tempo formava-se, roncos de trovões, e não demorou muito cai um forte aguaceiro. O rapaz levantou-se e retornou ao armazém.
Quando o mesmo chegou ao armazém, o José Soares, seu colega de serviço o interrogou sobre sua atitude de suicidar-se, ao que o mesmo respondeu:
“a chuva está muito forte, e a maré muito cheia”.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

DORMINDO NO QUARTEL


Vista panorâmica do 6° RI, em Caçapava, onde os escoteiros pernoitaram

Não se pode dormir sossegado à beira de uma grande estrada, como a que atravessava o Vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro. Os escoteiros souberam disso bem cedo. Para ser mais exato, as 6 da manhã. Por ali circulavam os caminhões que levavam leite para a Indústria de Laticínios de Campos do Jordão. Havia também outras grandes indústrias de laticínios, como a Vigor e a Armour.
Como registra Lydio em seu diário, pelo menos leite nunca faltou nesta etapa da viagem. Frequentemente, os produtores lhes davam litros e mais litros de leite, que eles bebiam com o entusiasmo de bezerrinhos.
Naquele dia, entretanto, eles haviam caminhado sem descanso até umas onze horas. Era preciso, para recuperar o tempo perdido. Cansados e com fome, eles perguntaram pela comida ao chefe Beto. Chefe Beto respondeu-lhes que havia sobra do só um pouco de comida, mas ela era só para ele: "Cada um por si e Deus por todos”, acrescentou.
Dito isso, ele pegou um belo sanduiche de presunto e queijo e um resto de leite e começou a saboreá-lo na frente dos outros. Para os outros, só havia leite. E foi o que eles almoçaram.
Lydio comenta que estava anotando isso em seu diário para que todos possam sabe que a viagem deles não foi um mar de rosas. Em alguns momentos, a vontade de jogar tudo para cima e desistir eram muito grandes. Entretanto, não se sabe como, “só o esforço hercúleo e a união dos quatro”, desiludidos pela falta de consideração do Chefe Beto, “é que garantiu o sucesso da missão”. Mas isso era somente a metade do dia.
Logo logo uma grande duma chuva os apanhou no descampado, obrigando-os a se socorrerem numa choupana abandonada. Ficaram ali um tempo, esperando a chuva passar. Quando passou, retomaram o caminho em direção a Caçapava.
As três e meia da tarde passaram pela vilinha de Eugenio de Melo, que Lydio notou ter somente “umas vinte casas e uma igreja católica”. Ali, pararam numa vendinha e se fartaram de comer biscoitos e pão com queijo e mortadela. Chegaram ao luxo de tomar um guaraná cada um.
Á tardinha chegaram em Caçapava, lá, tinham destino certo: o quartel do 6° Regimento de Infantaria. O 6° RI era uma das mais antigas e famosas unidades do exercito brasileiro. Estava em Caçapava desde 1919, mas a unidade já havia participado da guerra do Paraguai. Entre 1915-16, foi mobilizado na repressão á rebelião do contestado. No ano seguinte, em 1943, o 6° RI, juntamente com o 11° RI de São João Del Rei foi parte da FEB, tendo participado de praticamente toda a campanha italiana. Mas isso é futuro.
Neste dia, os chanceleres discutiam se ficariam neutros ou se alinhariam com os Estados Unidos. O governo Vargas, tendo garantido a siderúrgica de Volta redonda com dinheiro americano, já sabia que lado tomar. Lá na Europa, era mais um dia de ocupação alemã. No Japão, tropas australianas tentavam impedir o avanço japonês.
Em 17 de janeiro de 1942 os escoteiros foram alojados no 6° RI de Caçapava, onde só deu tempo de largar as tralhas no alojamento e subir rápido para pegar a boia. Depois, de banho tomado, foram levados por um suboficial a conhecer Caçapava.
Lá, eles visitaram a Radio Sociedade de Caçapava e o Caçapava Tênis Clube. Lá, tinha um sarau dançante, mas Milton, Manduca e Canário, cansados, voltaram ao quartel. Lydio e Beto ainda tiveram forças para ir ao cinema. Lá, segundo Lydio, viram o seriado “besouro Verde” e depois um filme policial.
Quando voltaram para o quartel ainda tiveram tempo de ouvir no radio o final de Brasil e Argentina pela Taça Sul-americana. A argentina ganhou, mas os meninos ficaram felizes ao saber que Caju, o grande goleiro atleticano e da seleção fora a grande sensação da partida.
A chuva ainda caia lá fora, e fazia frio. Os meninos, dessa vez bem protegidos, puxaram as cobertas e dormiram;



sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FAZER AS PAZES NO VALE DO PARAIBA



Vista aérea de Jacareí e do Rio Paraíba do Sul em 1940, pouco antes dos escoteiros de Antonina passarem por ali. 
As sete horas da manhã, os escoteiros acordaram com os apitos da Maria Fumaça. Aquele dia, eles dormiram na cadeia de Jacareí, hospedados pelo delegado Clodoaldo de Abreu. Clodoaldo, que era irmão do comerciante antoninense Leopoldino de Abreu, havia recebido os meninos com a cordialidade de conterrâneos que se encontram no estrangeiro. Oferecera-lhes um rancho reforçado e deixara que estendessem as roupas molhadas no varal da cadeia. Não devia estar muito cheia a cadeia de Jacareí nesta quente sexta feira de janeiro de 1942.
Neste mesmo dia, os jornais do Rio de Janeiro noticiavam o início de uma ampla ofensiva Soviética na Ucrânia. Os japoneses ameaçavam Singapura, na Ásia. Mas a maior noticia da guerra, no entanto, era ali no Rio. Chanceleres de praticamente todos os países americanos estavam reunidos na capital federal, para discutir solidariedade internacional e repudio ao ataque japonês recém sofrido pelos Estados Unidos na base naval de Pearl Harbour, no Havaí.  
A III Conferencia de Chanceleres dos países americanos no Rio de janeiro em janeiro de 1942 significou um alinhamento da maior parte dos países à causa aliada. A partir daí a beligerância iria aumentar, bem com o ataque de submarinos alemães a navios brasileiros, forçando Getúlio Vargas a declarar guerra aos países do Eixo em agosto de 1942.
Enquanto isso, ali na delegacia de Jacareí, os meninos tomaram rapidamente o seu café. Logo, se puseram na estrada. Ao meio dia, pararam na localidade de Rio Comprido, próximo a São José dos Campos, onde lancharam café com leite, pão e ovos fritos. Lydio anotou em seu diário que essas despesas foram da ordem de 7.500 réis.
Logo depois, morrendo de calor, atravessaram um pequeno córrego e passaram por um pequeno aglomerado de casas chamado Vila Ema, onde ganharam alguns abacaxis, prontamente devorados. Continuaram subindo o morro até São José dos Campos.  Atravessarem rapidamente a cidadezinha e acamparam a uns 4 km adiante, num pequeno campinho.
Fazia trinta dias que os bravos escoteiros haviam saído de Antonina, em sua marcha rumo ao Rio de Janeiro. Era um momento de celebração no meio da viagem. A barraca foi armada e a fogueira acesa.
O “banquete” constou de peixe seco, farinha de milho, arroz e café com leite, acompanhado de pães quentes. Essa estranha mistura foi acompanhada de uma intensa discussão sobre os planos vindouros e para apagar os desentendimentos do passado recente.
Havia poucos dias, na altura de Guararema, o desentendimento entre os quatro meninos e o chefe Beto havia posto a missão em risco. Houve um estranhamento, eles se separaram, mas depois voltaram a se encontrar. Havia magoas a serem postas de lado. E, conta Lydio, foi o que fizeram. dali a pouco estavam contando piadas e rindo, despreocupados.
Aquele era um momento difícil na historia da humanidade. Ao longe, milhões morriam nos campos de combate e nas cidades conflagradas. O Brasil vivia um momento de apreensão em saber para qual lado penderia nesta guerra. Lá longe, na pequena Antonina, suas famílias estavam apreensivas com o que estava acontecendo com os cinco rapazes.
Afastado o desentendimento, eles estavam bem. Lydio conta em seu diário que tirou sua gaita de boca do bolso e todos começaram a cantar as marchinhas do carnaval daquele ano. Quase todos sabiam de cor todas as letras, pois eles as ouviam com frequência no rádio. Um pouco mais longe, sentado num toco de madeira, chefe Beto cachimbava.
Ao anoitecer, cada um procurou se aconchegar num canto da barraca e dormiram o sono dos cansados.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

ANTONINA CRIA...E O MUNDO COPIA (2)


A Ponta da Pita no final do Paleolítico Superior, onde a roda foi inventada por Barreano em 500 adC (antes de Carcanha)
 Para Neuton Pires

A genialidade antoninense dispensa apresentações. Aqui, entre a ilha do Teixeira e o pico Paraná, surgiu muita coisa essencial para a humanidade. Entretanto, a falta de jeito antoninense também dispensa apresentações. Assim como o barreado, que foi criado aqui e copiado em Morretes e em Paranaguá, muitas outras coisas criadas na baia de Guarapirocaba foram lamentavelmente copiadas alhures.
Os filhos da Deitada-a-beira-do-mar, por um motivo inexplicável, sempre foram passados pra trás por pessoas inescrupulosas, que ganharam dinheiro e glória com estes inventos geniais. E nós ficamos sem a fama. E sem a bufunfa.
Mas isso pouco importa. Tendo farinha e um peixe, uma cerveja gelada, deixe a fama e a grana lá pra eles. Não é assim? Como o pirão, dinheiro e glória também passam.

Uma das mais antigas invenções antoninenses foi, sem sombra de dúvida, a roda. Sim, a roda, qual o espanto? A roda foi inventada em Antonina.
A roda foi inventada por Barreano nos idos de 500 adC (Antes de Carcanha). Sua inspiração original foi ver um bebum rolando no chão após uma caranguejada no sambaqui do Godo. No entanto, a vida que seguia. Barreano demorou mais outros 500 anos pra colocar a ideia em prática...dava muito trabalho.

Durante os experimentos que levaram a criação final da roda, Barreano verificou que o processo original, usando pessoas, era uma tonteira só. A Turma do Litro, observando os experimentos ali perto do trapiche, disse diversas vezes para Barreano que aquela era uma invenção sem futuro. Afinal, o goró dá menos trabalho pra tontear, com uma relação custo-benefício mais rápida.

Mas Barreano não desistiu. Continuou pesquisando. Alguns dizem que contou com ajuda de pesquisadores da UNICAMP, mas isso é pura especulação. Trabalhando sozinho, sem apoio da FAPESP, Barreano levou mais 500 anos para se perceber que troncos eram mais apropriados. E mais 500 anos pra se aperceber que cortando os troncos dava mais resultado.

Quando a coisa estava quase pronta, Barreano ficou feliz: havia inventado a roda! Ele ainda não sabia muito bem pra que servia. só sabia que tinha dado um trabalho danado. Mais do que estava acostumado. Então, merecendo um descanso, ele foi comemorar a sua genial invenção com uma caranguejada no Sambaqui da Ponta da Pita.

No entanto, alguns homens de Neandertal, de passagem pelo trapiche municipal, que naquela época estava estragado, prestaram muita atenção nos experimentos de Barreano. Quando ele saiu pra comemorar, eles furtivamente pegaram um exemplar da roda e saíram de fininho.

Cerca de 500 anos depois, quando Barreano voltou da caranguejada, viu que sua invenção já havia sido roubada, aperfeiçoada e patenteada pelos homens de Neandertal. Tentou protestar, mas a Turma do Litro, ali do lado, deu risada de sua cara: “Não falamos que isso não ia dar certo, Barreano? Tava na cara! Inventar a roda? Vê se pode... Coisa mais inútil... Dá uma bicada aqui, na mardita”.

E assim se passaram mais 500 anos.


(mais uma crônica cronicamente antiga (2009?), repaginada)

domingo, 7 de janeiro de 2018

O BAGRE E O CELACANTO


tirei daqui

Para Salvador Picanço (1934-2008)




O celacanto é uma espécie de peixe que se supunha extinta há muito tempo, desde o cretáceo, há 65 milhões de anos atrás. Até ser pescado na costa da África do Sul, em 1938, acreditava-se que era somente um fóssil, atulhando prateleiras de museus de paleontologia. Hoje, sabe-se, ainda existem celacantos nos mares. Poucos, mas existem, como que pra contrariar a evolução das espécies, pra nos contrariar.

A mesma coisa se diz dos políticos honestos. O senso comum diz que eles não existem. Pra nos contrariar, os políticos honestos, como os celacantos, fazem suas aparições aqui e ali. Por estes dias, lamentou-se a perda do senador Jefferson Peres (PDT-AM), tido como um dos celacantos do congresso nacional. Sua defesa da ética e da honestidade, num oceano de pragmatismos partidários, dossiês e caixas-dois, foi como um delicado agitar de barbatanas sacudindo o imenso oceano. Entretanto, como dizia um bem-humorado grafitti dos muros de Sampa, no final dos anos 70, celacanto provoca maremoto. Quem sabe se ainda não teremos algum tsunami de ética agitando o lodo destes nossos mares?

Entre nós, bagres, sempre houve e haverá celacantos, embora os baiacus sempre pareçam mais numerosos. Conheci um destes celacantos bem de perto: Dodô Picanço. Com sua aparição na política antoninense, no início dos anos 70, ele foi um fenômeno, como bem prova sua votação pra vereador em 1972. Entre 1970 e 1976, sua presença dotou Antonina de inúmeras conquistas, como a restaurações das igrejas históricas, inúmeras agitações, como a Expoteira, e uma marcante atuação no legislativo municipal, numa época em que não havia salário pra motivar nossos vereadores.

Eu era muito piá nesta época, mas lembro dos comentários dele sobre as dificuldades de trazer recursos para a cidade naquela época de início de vacas magras. Lembro, também, da quantidade de “aspones” de deputados que apareciam em nossa casa com propostas indecorosas, e que ele os enxotou a todos. Diziam que era mão-de-vaca. Nunca vi ninguém tão generoso. Nunca fez muita questão de dinheiro. Era um político que mais gastou que ganhou dinheiro na política. Bicho raro. Celacanto.

Em casa, vivemos sempre modestamente, com seus recursos de funcionário público. Seu tempo e suas energias, ele os gastava com sua Antonina, com os escoteiros, com os seus bichos na chácara. Tirava, do dinheiro de sua aposentadoria, os recursos pra financiar esta sua ultima e quixotesca campanha para a Prefeitura. Até o fim, ele acreditava poder ajudar, poder fazer a diferença, poder fazer a cidade que ele amava sair da lama.

As pessoas de bem tem nojo de política, ódio dos políticos, e não as culpo. A maior parte deles merece nosso desdém. Só que, em nossa sociedade, quem os coloca lá somos nós. Eles são nossa cara, portanto. A política é a arte do possível, e nenhum político, sozinho, conseguirá nos levar ao paraíso. Esse caminho é coletivo.

Não sei se estamos melhores ou piores nos tempos que correm. Sei que precisamos de celacantos. Que eles existem, existem. Precisam é sair das tocas, agitar esse lodo, mostrar pras pessoas que seriedade e ética existem.  Eu sei que eles existem, eu já vi um celacanto bem de perto. Celacanto provoca maremoto.


(Este texto de 2008 é um texto que, aos meus olhos de hoje, é bastante ingênuo. Em tempos de Lava-jato, essas noções de decência e honestidade estão bem mais complicadas. Parace uma outra época e um outro mundo. O que fica é a lembrança de meu pai, que hoje faria 84 anos. Falei sobre isso outras vezes, aqui e aqui.)

Saudades, seu Dodô!




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

ANTONINA CRIA...E O MUNDO COPIA (1)



Todos sabem da genialidade antoninense. Nesta formosa baía, que foi um presente do mar, foram engendradas algumas das mais importantes invenções da humanidade. Embora a humanidade não tenha sido avisada, claro está.

Dessa vez, nossas pesquisas apontam para mais um invento genial de um bagrinho também genial e que estão na base de nossa vida cotidiana. Falo do computador pessoal e da linguagem binária, criados em Antonina no final dos anos 70 por ninguém mais ninguém menos que Rellen Salu Berght.

Compositor genial, digno filho de uma terra de tantos compositores, o pequeno e esguio Rellen, vulgo Ratete, sempre foi acima da média. O que poucos sabem é que Rellen além de seus dotes de músico, também tinha um talento matemático e mecânico invulgares para sua época. Um talento desses que só surgem na Deitada-a-beira-do-mar, evidente.

Rellen então procurava uma máquina que fizesse o samba-enredo perfeito para o carnaval. Depois de muito queimar as pestanas, ele combinou uma televisão velha Philco e uma maquina de escrever Olivetti e juntou as duas numa geringonça só. Para compor os sambas, Rellen bolou uma linguagem matemática que pudesse representar o batuque de nossas escolas de samba. Mas afinal, o que seria essa linguagem matemática próxima do batuque?

Genial como sempre foi, Rellen associou o batuque a um padrão numérico. O um para a batida do surdo e o zero para o tempo, combinando várias seqüências com as ordens 01010101010. Essa, segundo Rellen, era a linguagem dos batuques. Esse processo demorou vários anos, até que, em 1982, Rellen chegou à perfeição. A máquina começou a suar e bufar, apitando e se agitando freneticamente. Na tela da tevê, acoplada a maquina de escrever, começou a surgir uma composição e uma melodia: “Sonhei que era carnaval, festa do povo/ Que bom seria...”.

Rellen correu para mostrar a todos o resultado de seu invento. Cabeça avoada que sempre foi, esqueceu a máquina ligada e a porta aberta. Por ali, nesse instante, passavam dois gringos, dois jovens nerds que foram mandados pelos pais para o Brasil para se divertirem e relaxar, pois não sabiam nada da vida. Dois babacões, que não sabiam pegar mulher, mas sabiam tudo de matemática e mecânica. William Gates e Steve Jobs eram seus nomes.

Estupefatos com a máquina que estavam vendo, os dois copiaram rapidamente os manuscritos de Rellen deixados em cima da mesa. E traduziram a linguagem dos batuques por “baituques”, cujo nome depois seria simplificado para bites. E deram no pé com os manuscritos, enquanto Rellen, vestido de conde, cantava sua glória na avenida do samba.

E o resto da história todos já sabem.  

(texto publicado primeiramente aqui)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

CHICA GARIMPEIRA

Chica Garimpeira na entrada de uma boca de lavra/2008

Estes dias estive visitando umas áreas de Francisca Alves Barroso, a Chica Garimpeira. Num universo masculino como é o universo garimpeiro, uma mulher como Chica, dona de draga na lavra do Vermelho durante muitos anos, é um fato impressionante.
Separada, trabalhou em frigoríficos, casas de família, em lojas. Tinha três filhos pra criar. Um dia, um tio a chamou pra ir trabalhar com ele numa draga no Crixás. Ela foi e nunca mais saiu deste universo. Veio para Cavalcante (GO) e, nas barrancas do Vermelho e do Tocantins, criou seus filhos e comprou seu pedaço de chão. Foi garimpeira e professora municipal.
Em 2003, com as obras da barragem, perde a draga e a área de garimpo. Até a escola onde dava aula foi inundada. Entra no movimento dos atingidos por barragens, o MAB, e vira uma ativa liderança local. Ganha 10 mil reais de indenização. “Mixaria”, diz, revoltada. Questões por posse de terra com vizinhos já levaram, segundo ela, um neto e um sobrinho. Diz que não quer vingança, e que Deus proverá. “Aqui se faz, aqui se paga”, arremata.


E lá vai ela. Andando firme pelo cerrado, subindo e descendo morro, de chinelo de dedo e uma bolsa feminina no braço, vai me mostrando as áreas que quer negociar. “O que é? pra que que serve? Tem utilidade?“ Tudo tem que ter utilidade na vida de Chica Garimpeira. Tem que botar o feijão na mesa, tem que criar os filhos e netos. A filha mais velha mora em Londres. Chica tem pressa, muita fé em Deus e muito ódio no coração para com os assassinos de seus meninos. Hoje, com o tempo e os filhos já criados, ela quer sossego, um pedaço de terra e muito trabalho de roça pra fazer. Que pessoa impressionante essa Chica Garimpeira...

(essa é uma crônica de 2008, quando eu trabalhava Com exploração Mineral em Goiás) Ver aqui

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - ROMARIA (4)


A basílica de Aparecida; minha romaria chegou até lá!
Em meio à correria que foi minha permanência nas obras do duto Atibaia-Taubaté, consegui fazer algumas coisas interessantes. Conheci um pouco mais o vale do Paraíba, e percebi que estava perto de alguns lugares chave de nossa historia e de nossa cultura.

Tive o privilegio de trabalhar nas margens do rio Buquira. Ora pois, houve um cidadão que, tendo uma fazenda nas margens deste rio, meditou muito sobre os problemas da agricultura, do homem e do Brasil, que foi exatamente Jose Bento Monteiro Lobato.
Em Caçapava, visitei o museu do 6º RI, um dos pilares da antiga FEB, responsável sozinho pela captura da 148ª divisão alemã, já no fim da guerra. Com meu amor, visitei campos do Jordão, e conheci um pouco da cidade, a flor da serra da Mantiqueira.
E principalmente, conheci Aparecida. Eu achei que nunca fosse fazer uma peregrinação a aparecida. Mas fui indo, indo e no final estava lá eu, andando pelas naves da imensa basílica, vendo as pessoas colocando velas e fazendo preces. Claro, como xodó de igreja velha que sou, preferi mil vezes a basílica velha, que está sendo reformada.
Lá dentro, me encantei com a imagem da santa, com os desenhos, com a história, com a arquitetura. Mas me encantei mais com as pessoas e sua fé. Você via a fé das pessoas. Você via pelo rosto das pessoas o seu desejo de estar em comunhão com o divino.
Vi um senhor, meio velhinho, que estava lá com a família. Ele se foi chegando pra perto do altar, tímido, passo por passo, temeroso. Perto do altar, ele começou a fazer algo como se fosse uma oração em silencio. Era nítido que ele estava pedindo alguma coisa ao divino. E era bonito de ver, no meio de todo aquele seu maljeito, que ele conseguiu: na volta pra encontrar a mulher os filhos e os netos, o rosto dele era só luz.
Me comovi tanto, que também rezei. Rezei uma reza meio tatibitate, de quem não tem jeito pra coisa. Rezei por mim, por ti, por nós. Talvez, como na musica, já que não sabia mais rezar, o certo era só mostrar meu olhar, como o velhinho que havia visto fazia pouco. Mas já estava bom.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OS VERMES FELIZES


tirei daqui
As chuvas estão cada vez mais intensas. Os temporais se avolumam, felizmente sem muito vento. Faz até um tempo mais fresco e agradável. No interior de Goiás, quando esse tempo começava, o pessoal dizia, com o acento característico: “invernô baum”.
O solo ainda não está encharcado, e as frutas “da água” começam a dar suas flores: nosso pé de acerola já começou a dar umas florzinhas tímidas e azuladas. Os passarinhos felizes saem a procurar alimento. Pardais vasculham a grama a procura de minhocas.
Os insetos zunem felizes com o calor e a umidade. Ficamos preocupados com os mosquitos: já houve um caso de chukungunha no bairro. Potes, vasos e utensílios domésticos devem ser virados pra baixo, pra não deixar a agua acumular.
De todos os animais do jardim, os mais felizes, entretanto, são os vermes da composteira. Cada vez que vou jogar alguma coisa por lá eu vejo que eles aumentaram em quantidade. Eles vivem numa superabundância. O calor, a umidade e a oferta contínua de alimento fazem vermes gordos e felizes. Restos de mangas e coisas moles e doces são as primeiras coisas a serem atacadas. É uma comilança feliz.
Estes dias, ao voltar da composteira, pensei nos projetos do governo golpista. O paralelo é claro. Estamos num momento em que tudo é feito com a maior desfaçatez. Milhões são aprovados em renúncias fiscais, em liberação de verbas parlamentares, em distribuição de cargos. Tudo em superabundância, como os vermes da composteira.
Nós, do outro lado, estamos em contenção de despesas, contingenciamento, penúria e escassez. Sem falar dos milhões de desempregados. A chuva e o calor ainda não chegaram.
Os vermes felizes e protegidos. Semana passada, ao tomar posse, o superintendente da Policia Federal fez um discurso obsceno sobre malas e provas. Mas ninguém prestou atenção. No máximo, umas figurinhas de “grr” no facebook.
Índios e pequenos posseiros continuam ameaçados por grileiros e capangas dos fazendeiros. Não há mais proteção, não há mais pudor. O sangue escorre dos grotões.
Nas cidades, pipocam aqui e ali os projetos da grife “Escola sem partido”. Com o discurso da moralidade, a censura ameaça as escolas e os professores. Só falta começar abertamente a caça às bruxas.
Faz calor, o mormaço se instala. O ar fica mais “pesado”, os insetos se agitam. O céu escurece. Vai chover. Os vermes, felizes, prosseguem sua faina de comer e comer e comer.
Parece que nada detém os vermes. As pessoas que diziam combater a corrupção estão felizes. O governo popular que os incomodava está por ora afastado. Os deputados e o presidente golpista estão perto de cercear a Policia Federal: uma mala cheia de dinheiro não prova nada.
Os tais dos meninos liberais estão assumindo sua cara de ogro e provando que o liberalismo brasileiro não é tão liberal assim. Os liberais de 64 aplaudiram a deposição de João Goulart, assim como os liberais da República Velha eram coronéis mandões e os do império não se opuseram a principio contra a escravidão. A perseguição moralista e censuradora que os jovens liberais fazem aos artistas e à liberdade artística está de acordo com as ideias autoritárias dos que querem a volta do autoritarismo militar. Tudo certo.
Os vermes continuam. A “suruba” dos vermes não para.
A primavera se desmancha em calor e umidade. Nuvens negras passeiam livremente pelo céu. Céu roxo, cinza chumbo, como diria o poeta. O pais assiste mudo à catástrofe que se aproxima.
Vamos permitir?
Os vermes – e só os vermes – estão felizes.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - OS OITO DE NAVARONE (3)

Tonho e Melancia descendo o morro em São Jose dos Campos. Melancia, pra variar, fazendo graça montando a mula

Quase todas as vezes que íamos fazer alguma investigação geotécnica nesta obra do duto, precisávamos colocar as ferramentas de sondagem no alto de um morro, em geral muito íngreme. Colocar as coisas a pé era penoso, e já estavam todos fatigados ao final da campanha.

Nosso colega Gilberto Marchioro tomou uma atitude ousada, como é do seu feitio, e contratou algumas mulas, com cangalha e tudo, pra auxiliar na empreitada. Quando vi a mula com o material, tive certeza: era uma operação de guerra.

Em várias situações, depois de verificarmos que o terreno era inacessível, procurávamos na região algum morador que tivesse mulas com cangalha: sempre tinha um.

Certa vez, procurávamos por uma mula numa estradinha perdida de um canto perdido de são Jose dos campos. Achamos um sitio num lugar muito bonito, cheio de mata e de água. Veio nos receber um dos filhos da dona, que soubemos depois ser pedreiro. Quando conversamos sobre a mula, ele disse que tinha uma, mas não sabia botar cangalha. Nós também não, e tínhamos mais o que fazer. Recusamos a oferta.

No entanto, ao saber que precisávamos subir o morro levando a sonda, o cara se ofereceu: “eu e meus irmãos levamos isso pra vocês. Somos em oito”. “Oito, aqui?” perguntamos. Ao receber a confirmação, ficamos espantados com tanta gente, mas era difícil recusar uma oferta daquela: oito pessoas a ajudar a carregar nossas equipagens todas, era quase o paraíso.

À noite, ficamos comentando aquilo: falávamos sobre “os oito do sítio”, ríamos muito da situação. “Parece uma operação de guerra”, alguém completou. “ah, já sei, os oito de Navarone!”. E pronto, os oito do sitio ficaram conhecidos como “os Oito de Navarone”.

Acontece que no dia seguinte eu fui pra outro lugar, e não acompanhei a instalação do equipamento de sondagem no alto do morro. Quando, de noite, encontrei o meu amigo Rômulo, que estivera lá naquela frente  de trabalho ajudando a instalar os equipamentos, perguntei dos Oito de Navarone. Ele fez uma cara de sacana, abriu uma risada, e me respondeu: “dos oito, só sobrou um!”. “Como assim?”, quis saber, intrigado.

Pois é”, explicou ele, “quando o pessoal chegou aqui e viu a quantidade de coisa que tinha pra subir o morro, desistiram. Só ficou um deles, o mais velho, que era pedreiro em São Jose dos campos. Ele sozinho nos ajudou a levar as coisas. Ajudou muito”.

Era muita coisa mesmo. E o pessoal era tudo gente de cidade, pouco acostumados com trabalho bruto, caiu fora logo que viu. Mas a piada ficou: “Rômulo, e os oito de Navarone?” “Só sobrou um!” dizia ele, rindo e mostrando com os dedos quantos eram e quantos sobraram.

O trabalho era realmente bruto, quase uma operação de guerra, cruel e sem piedade. Coisa de gente doida mesmo. Ou trabalho pra mula, com cangalha e tudo. Até o pessoal de Navarone, dos oito só sobrou um. Coisa besta, sô!

(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

domingo, 26 de novembro de 2017

CRÔNICAS DO DUTO (2) - FITZCARRALDO

Ao longo do eixo do duto, a corrente humana para levar os equipamentos para o local de sondagem
Escavocar o solo para colocar um duto não é tarefa fácil, em nenhum lugar do mundo. É coisa pra cachorro grande.  Tipo a Petrobras. Existem muitos serviços que exigem muito, mas muito esforço mesmo. Acompanhei na semana passada a retirada de duas sondas percussivas de um local ao longo da faixa que foi uma epopeia.
Pra começar, o terreno era muito íngreme e escarpado. Os morros muito altos, quase tudo com o topo na cota 1000 m (acima do mar). Não havia estradas ou caminhos que facilitassem a entrada destes equipamentos, cada um dos quais pesa mais de 200 quilos de ferragem, mais motores, mangueiras, chaves e outros equipamentos. Só um destes equipamentos, o percussor, um cilindro de ferro com 25 cm de diâmetro mais uma haste de 80 cm, pesa 65 quilos. Carinhosamente apelidado “Jorginho” pelos sondadores, é individualmente a peça mais pesada e difícil de carregar.
Mas os bravos pernambucanos da equipe de sondagem conseguiram fazer com que tais equipamentos descessem a tal da encosta. Pra descer, descíamos segurando em cordas. Pra subir, uma vez encerrado o trabalho, convocamos uma turma de mais de 15 pessoas exclusivamente pra tirar as ferragens da grota.
Com cordas e muita vontade, as pecas foram amarradas e içadas uma a uma vertente após vertente. Eram duas vertentes, ambas muito íngremes. Os equipamentos, amarrados uns nos outros, muitas vezes pesando cem quilos ou mais.
Foram dispostas cerca de vinte pessoas, a cada patamar da encosta, pra ajudar a puxar os equipamentos. Vistos de longe, os uniformes azuis e cinzas faziam uma linha pontilhada ao longo do morro. Parecia uma cena de Fitzcarraldo, filme do diretor Werner Herzog, onde uma multidão de trabalhadores puxa um enorme barco morro acima na Amazônia.
O pessoal puxou as cordas rindo e brincando uns com os outros, parecendo uma grande brincadeira. Uma alegria que nos contagiou a todos, e fez com que o trabalho fosse menos penoso. Impressionante mesmo.

(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CRONICAS DO DUTO - A ENGENHEIRA


(a faixa verde-clara no centro da foto é o duto cruzando os mares de morros)

A engenheira chegou no projeto. Alta, linda, loura, formada na Unicamp e com especialização em segurança do trabalho. Maravilhosa. Uniforme azul impecável, botas novas. Sequer desceu da caminhonete pra cumprimentar: estendia o braço pela janela, e exibia um pálido sorriso.
No primeiro local de visitação, nem quis descer ao local onde estávamos fazendo as sondagens: tínhamos que descer segurando em cordas. Reclamou dos insetos, de uma abelha e de uma joaninha que pousou em seu braço. Quando saímos do local, disse que as curvas da estrada faziam-na enjoar.
No segundo local, até que foi ver o pessoal trabalhando. Aí reparou que ali não existia um banheiro químico. Nosso encarregado, o Siqueira, pernambucano de olhos calmos, respondeu-lhe que ali, naquele tipo de obra, um banheiro químico era um severo impedimento ao trabalho. Nosso deslocamento era constante de um ponto a outro. Levar um banheiro químico para aqueles lugares era um ônus pesado demais para nossos funcionários. Quase como levar fogão de seis bocas num camping.
Então, a engenheira reparou que os funcionários estavam sem o protetor auricular. Novamente, com seu jeito calmo, Siqueira explicou que ali, na mata, não haviam ruídos que pudessem incomodar os funcionários. O bater do martelete de percussão não era continuado nem tinha um som exagerado.
Eu quis mostrar a ela as obras que estava vistoriando. Ela me deixou com o outro fiscal e voltou para a caminhonete. Voltarmos cerca de 40 minutos depois, e a encontramos deitada no banco da caminhonete, ar condicionado, dormindo o sono dos justos.
Disseram-me que ela tinha vindo pra ser chefe da fiscalização do projeto. Não sou nenhum especialista no assunto, mas é mais uma pessoa errada no lugar errado. Depois de quase dez anos sem contratar, as empresas estatais estão num serio dilema. Contratam recém-formados, mas por falta de quadros mais antigos, estes mal entram e já pegam cargos de chefia. O que essa menina vai chefiar?
Mal ela sabia, mas naquele bando de peões que ela viu operando a sonda havia Cícero, que já ganhou dinheiro compondo músicas. Havia o Melancia, contador de causos e anedotas de animar qualquer roda. E havia o Tonho, grande e forte como um urso, suave e simpático como uma criança.
Para além de qualquer projeto estão as pessoas.
As pessoas fazem projetos, constroem dutos, fazem leis, jogam futebol, dirigem grandes corporações, constroem ou destroem países inteiros. Perceber isso é crucial para qualquer empreendimento humano.
Será que a engenheira sabe disso? Pode até saber academicamente, mas tem o saber profundo, aquele que vem com o bater do coração e com o pulsar da existência?
Tomara que ela construa muitas coisas em sua vida profissional. Principalmente, tomara que ela veja, para além das obras prazos planilhas e cronogramas, aquele bando de gente boa e trabalhadora que está ali, fora do ar condicionado, fazendo concretamente o concreto de nossas vidas. Tomara.
(Estas crônicas eu escrevi quando trabalhava num projeto de gasoduto entre Atibaia e Sao José dos Campos, em São Paulo, no final de 2009.)

(publicado em 2009 pela primeira vez aqui)

sábado, 11 de novembro de 2017

O MINUTO DE BARBOSA



Aquilo foi pouco tempo, menos de um minuto. Gighia passou por Bigode no meio do campo e veio vindo. Uns dizem que Bigode ficou acovardado. Outros lembram ainda do tapa que Bigode levara há pouco de Obdulio Varela e não reagira. Time medroso. O cúmulo da covardia diante da  pátria de chuteiras. 

Gighia avança, Fontana o acompanha de longe, voltando de costas, sem dar combate. Barbosa começa a pular nervoso, de sobreaviso - saio ou não saio? Milhões de olhos o acompanham, os músculos se retesam, os olhos não perdem um lance da aproximação de Gighia, que avança.

De todos os lados os olhos ansiosos estavam pregados naquela cena que se desenrolava veloz, Gighia já está entrando na grande área conduzindo a bola de cabeça baixa como um búfalo furioso, toda perseguição parecia inútil. O Maracanã, com mais de sessenta milhões de pessoas, toda a população brasileira daquela época, assistia mudo Aparício Varela entrando na área.

Tempos modernos, agora não eram trinta e três, mas somente onze. Capazes de anular toda a República, como um dia abalaram o Império. Os uruguaios estão chegando. Gighia chega mais perto e desfere o chute. Barbosa tem pouco tempo. Prepara-se nervoso, retesa os músculos e salta. A bola resvala em seus dedos e sai pra escanteio. O Maracanã respira aliviado. O jogo continuava empatado.

Terminado o jogo, éramos os melhores do mundo. Aquele dia os milhões de pessoas que lotavam o Maracanã não viram Barbosa cabisbaixo buscar a bola do desempate uruguaio no fundo das redes. Não houveram os pulos de alegria que Gighia dava com o jogo virado. Não houve a festa celeste. Não houve lágrimas entre a torcida brasileira, nem choros convulsivos dentro e fora do gramado. E, principalmente, não houve Obdulio Varela levantando a taça como o Gumercindo Saraiva que finalmente amarrava seus cavalos no centro do Rio.

Se Barbosa não tivesse espalmado aquele chute, viveria uma vida de caras viradas, de palavras rudes, de recriminação, de silencio e esquecimento. Teria que viver explicando que não fora frango, que não havia caveira de burro enterrada debaixo de sua meta. Não, a bola enfiada por Gighia não passara por entre seus dedos com o resto de sua vida. O minuto que começara com o drible e a arrancada havia terminado.

Ghigia não marcara o gol, e agora o Maracanã agradecido aplaudiu os artilheiros. Encerrado o jogo, cartolas invadiriam o gramado, felizes. Afinal, agora eles seriam consagrados como responsáveis pela conquista, desde as goleadas contra Suécia e Espanha até àquele suado empate com o Uruguai, dentro do Maracanã lotado. Os cartolas todos foram posteriormente eleitos deputados federais, e fizeram brilhante carreira na política.

Canções foram compostas para louvar os artilheiros, seus salários foram melhorados. Um filme foi rodado com os gols da partida, mostrando as cenas de júbilo e entusiasmo da torcida. Era o primeiro campeonato do mundo de futebol conquistado pela seleção brasileira. E dentro de nossa casa! O filme com o jogo da final de 1950 passou nos cinemas de todo o País, e mostrou aos meninos a glória de vestir o uniforme branco da seleção brasileira.

Depois de ter com a ponta dos dedos espalmado o chute venenoso de Ghigia, segregado àquela estranha profissão de hunos, sempre pisando onde não nascia grama, Barbosa continuaria em silêncio sua sina de buscar bolas no fundo do gol.

(PUBLICADO AQUI PELA PRIMEIRA VEZ)

sábado, 21 de outubro de 2017

A CHUVA DIFÍCIL



Tá difícil chover por aqui.
As nuvens passam, passam e nada. Depois de ventar a noite inteira, o dia amanhece de sol. Limpinho, limpinho. Sem nem uma nuvem. Depois, o calor vai aumentando devagar. Os últimos dias estava insuportável de quente. O ar, extremamente seco. O nariz sofre. A sensação de boca seca nos persegue o tempo todo.
No jardim de casa, é só esquecer de molhar um dia e algumas plantas já começam a murchar. Haja água. E lá vamos nós a molhar as plantas. A terra vai engolindo avidamente toda a agua que colocamos. Quase dá pra ouvir o glut-glut-glut telúrico.
Choveu, mas muito pouco. As chuvas que passam por cima da gente nestes dias de primavera nos dão falsas esperanças. De noite, com o barulho do vento, me confundo esperando ouvir o som da chuva. De manhã, ao abrir as portas e ir para fora tomar o café olhando as plantas, me sinto enganado pelo vento.
As pessoas tentam olhar nas previsões do tempo, sempre tão seguras. Probabilidade de chuva: 57%. Não vai chover hoje, não vai chover amanhã. A chuva que estava prevista para o domingo passou por cima e nada. A esperança, ressequida.
As notícias que recebemos também andam ressequidas e desalentadoras. Na semana que passou, vimos os poderes da república batendo cabeça, disputando nacos de poder, inventando interpretações.
Pode-se dizer que desde que Aécio, esse semeador de ventos, começou a duvidar dos fundamentos da democracia, estamos todos ladeira abaixo. Do resultado das eleições ao golpeachment tudo o que tínhamos por regras foi se esfarelando. Agora, pau que bate em Chico não bate em Francisco. Precisamos antes perguntar para Gilmar Mendes.
O STF se acovarda. Bate em quem está fraco e não se sustenta contra os que estão fortes. A lei, ora a lei! O Senado da República, nada republicano, transforma-se numa agremiação que protege os seus. Seus comparsas.
Na Câmara, vigora a proteção ao presidente apanhado com a boca na botija em relações espúrias com o poder econômico. A ele é dado o benefício da dúvida que foi sonegado durante a consecução da deposição da presidenta eleita. A ele não se questiona o toma-la-dá-cá realizado com as bancadas do atraso a cada pedido de abertura de inquérito.
A fatura da “governabilidade” é paga regularmente. Nesta semana a bancada dos grotões e do atraso viu o governo estabelecer uma portaria que restringe a definição de escravidão e dificulta a atuação dos auditores.
Com isso, a escravidão volta ao interior do país. Quem quiser veja as consequências aqui.
O Brasil teve um passado tenebroso em termos de escravidão. Fomos o ultimo pais da américa a banir a escravidão num processo lento e doloroso que até hoje gera conflitos em nossa sociedade.
Com essa portaria, segundo os especialistas, vai facilitar a ação dos “gatos” aliciando mão de obra barata no interior do pais. A maior parte em projetos agropecuários na Amazônia. Mas isso não vale nada.
Para os donos dos grotões do pais, é esta a liberdade que eles querem. A liberdade do liberalismo brasileiro, essa aberração conceitual, é a liberdade de explorar sem freios a mão de obra. Nosso liberalismo tem as mãos manchadas de sangue.
Enquanto isso, tentamos levar nossas vidas. Quase sempre respondo um tudo bem com um “eu vou bem, mas o resto está uma merda!”. Eu estou bem. Tenho saúde, família, trabalho. Mas ando preocupado com a falta de chuva e com a falta de esperança.
Dias melhores virão. Dias melhores verão. Vai finalmente chover e as plantas do jardim vão ficar menos ressequidas. As tempestades do fim da primavera vão balançar as árvores e criar ravinas no solo. Mas o verão vai chegar.
No entanto, no deserto que se transformou este país, teremos alguma esperança?

sábado, 14 de outubro de 2017

O HIPOCONDRÍACO DOS MORRETES


Antônio Vieira dos Santos  
(Antonina em 1854 - parte IX)

Não resta dúvida: Antônio Vieira dos Santos (1794-1851) era um hipocondríaco.
Todos nós temos nossos defeitos, e a hipocondria não é dos piores. Mas Vieira dos Santos -  um comerciante nascido em Portugal e que viveu a maior parte de sua vida em Paranaguá e depois Morretes – tinha também outros defeitos e virtudes. Entre as virtudes/defeitos, estava o habito de tudo anotar e escrevinhar.
Não por acaso Vieira dos Santos foi o autor das Memórias Históricas de Paranaguá e Morretes, que lhe deram fama póstuma. Mas ele fazia ainda mais. Durante toda sua vida, ele anotou obsessivamente em diversos cadernos quase tudo que achou importante em seu quotidiano. Nascimento, casamento, mortes, acontecimentos os mais diversos, tudo ele anotava. 
Os cadernos de anotações de Vieira dos Santos, recentemente publicados pela editora da UFPR, são uma boa fonte de informações sobre a vida e o quotidiano das pessoas no século XIX no litoral do que alguns anos depois seria chamado de Província do Paraná.
Assim, como escrevinhador e hipocondríaco, ele nos legou informações importantes sobre a saúde em Morretes, Paranaguá e Antonina.
Vieira dos Santos, em suas anotações, faz uma listagem dos livros que possuía. É uma coleção modesta de um modesto comerciante. No entanto, muito se pode ler nesta listagem.
Nela, como em toda boa biblioteca de hipocondríacos, constam vários livros sobre medicina e doenças. Entre eles estava o livro “Medicina Doméstica ou Tratado Completo dos Meios de Conservar a Saúde”, um livro de medicina pratica e caseira escrito pelo médico inglês William Buchan (1729-1805).
Antes do popular Chernoviz, que seria o grande tratado de Medicina popular no Brasil na segunda metade do século XIX, o livro de Buchan era o grande tratado médico popular da época. Trata-se de um grande livro de medicina popular, escrito em linguagem simples e dando práticas de cura simples e práticas. Como o Doutor Google hoje.
Publicada em inglês em 1769, a obra teve diversas traduções para o português entre 1790 e 1840. Não sabemos qual a edição do livro de Vieira dos Santos. A edição que consultamos, de 1790, era uma tradução do francês para o português, neste caso o doutor Francisco Pujoll de Padrell filho, impresso na Typografia Rollandiana de Lisboa.
Assim como o Buchan, Vieira dos Santos ainda tinha o “Aviso ao Povo acerca de sua saúde”, do médico suíço Auguste Tissot (1728-1797). Escrito em 1773, é outro manual destinado as parteiras e aos sangradores e cirurgiões. O livro trazia informações e procedimentos para estes profissionais, na ausência de médicos.
Além destes best-sellers, Vieira dos Santos ainda possuía os “Princípios de cirurgia”, de autoria de Jorge de La Forge, do qual nada encontramos. Também nada encontramos do livro “Descrição compendioza das enfermidades mais crônicas dos exércitos”, pelo Barão de Wan Witen, ou do “Ensaios sobre a arte de formular”, de A.I. Abiber, datado de 1811.
Já o “compendio de ptos (sic) e vários remédios de cirurgia”, de Gonçalo Ruiz de Cabreira é conhecido na medicina portuguesa. Este último sabe-se que foi um importante medico português do século XVII, que compilou diversos tratados antigos de medicina.
Como não poderia deixar de ser, Vieira dos Santos também seguia os preceitos da homeopatia. Em sua biblioteca constam “A pratica elementar da homoeopathia pelo Doutor Mure“, de 1847. Tendo como subtítulo “Conselhos Clinicos, para qualquer pessoa, estranha completamente à medicina, poder tratar-se, e a muitos doentes, conforme os preceitos da homoeopathia, confirmados pelas experiências dos Doutores Aegide, Alther [...]”, é também um importante manual de praticas medicas. A tradução para o português foi feita pelo medico brasileiro João Vicente Martins (1810-1854).
Também estava nas estantes de Vieira dos Santos o livro “Noticias elementares de homeopatia e manual do fazendeiro, do capitão de navio e do pai de família, contendo a acção dos 24 principais medicamentos”. Esta era uma publicação do Instituto Homeopático do Brasil. A homeopatia estava chegando, e Vieira dos Santos não poderia deixar de ter estes livros.
Era uma medicina que se popularizava, e que chegava à casa das pessoas. No Brasil, muitos livros foram escritos para que os patrões cuidassem das doenças mais comuns de seus escravos (o fazendeiro), dos viajantes (o capitão de navio) e a medicina doméstica (o pai de família). Num país onde predominavam as práticas tradicionais, a medicina científica fazia sua entrada. Como bom hipocondríaco, Vieira dos Santos estava a par de tudo isso. 
Era uma gama de livros médicos respeitável para um modesto caixeiro da Villa dos Morretes. Munido desta ampla gama de informações e conhecimentos, Vieira dos Santos estava pronto para enfrentar os males que viriam a abater a ele e sua família.
(continua)