segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O MELHOR ATLETIBA QUE EU NÃO VI


O Atle-tiba que não houve. Orgulhosamente, imagens da TVCAP.
Pra quem é paranaense e gosta de futebol, impossível não falar sobre o Atle-tiba. Ao longo de minha vida, vi muitos, tanto dentro do estádio quanto pela televisão, pelo rádio e mais recentemente pela internet. Vi ali jogar craques de verdade, como não existem mais hoje. Pelo Coritiba, vi jogar Zé Roberto, Paquito e Tião Abatiá,  Alex. Pelo Atlético, vi Di,  Sicupira, Assis & Washington, Paulo Rink, Adriano Gabiru e mesmo o menino (ex-menino!) Kleberson, que só brilhou mesmo com o manto sagrado rubro-negro e com a nossa tão maltradada amarelinha.
Vi jogos memoráveis e jogos nem tanto. Assisti empates sonolentos, goleadas sonoras de parte e parte, decisões de campeonato pra lá de tensas e cheias de brio. Vi anos de domínio coxa-branca, anos de domínio rubro-negro e muita, muita rivalidade.
Qual não foi minha surpresa ao ver pela internet (estou em Andrelândia – MG em trabalho de campo com meus alunos e colegas do curso de geologia da UNICAMP) o que aconteceu neste último domingo.
Que bom ver os dois rivais unidos e por uma causa mais que justa: o fim do monopólio das televisões (leia-se Rede Globo) na transmissão das partidas de futebol. Um negócio milionário que tira do torcedor a possibilidade de escolher ver seu time jogar. Quantas vezes não somos obrigados a ver o time “mais querido”, ou “a maior torcida do Brasil” apenas por interesse da citada rede de televisão? Quanto dinheiro os times “médios” perdem em  por causa de todas as maracutaias envolvidas nos negócios sobre direito de transmissão?
Sem falar na bagunça que são as federações de futebol no Brasil. Quando perdemos da Alemanha, houveram algumas vozes pedindo para que adotássemos um sistema melhor de organização do futebol, similar ao modelo alemão. Um modelo que fez o 0 x 2 de 2002 virar o 7 x 1 de 2014. Mas a quem isso interessa? Aos dirigentes de Federação e a própria CBF, definida por Juca Kfuri como a Casa Bandida do Futebol? Interessa aos empresários de jogadores que exploram meninos e ganham dinheiro de maneira desorganizada e inescrupulosa?
A vergonha alheia provocada pela Federação Paranaense ao cancelar o clássico por causa da falta de credenciamento de alguns jornalistas ligados a redes online é uma chacota. Um acinte. Uma piada de mau gosto. Aliás, a própria FPF é uma piada. Um ato digno de todos os dirigentes que teve essa associação, gente de moral duvidosa e sem escrúpulos, e que deveria estar com os dias contados. A organização do atual futebol brasileiro deveria voltar ao passado de onde veio e nos deixar jogar livres, independentes e felizes.
Isso vale para todo o esporte brasileiro. Está também na hora de deixar a futebolmania dirigir todos os interesses. Temos outros esportes e modalidades que também tem importância e merecem mais espaço nos corações e mentes dos brasileiros. Mas, essa crise também é um claro sinal de que tudo está mudando.
Por tudo isso, acho que este é o melhor Atletiba que não vi. Neste jogo, os dois rivais dentro do campo se uniram contra a máfia que controla e futebol e os grandes interesses financeiros das emissoras de televisão. Não é pouco. Como disse o técnico Paulo Autuori, é uma grande mudança de paradigma que a dupla Atletiba faz ao não se curvar a estes interesses.
Hoje é um dia que está bonito ser atleticano ou coxa-branca.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CIVILIZAÇÃO & BARBÁRIE


Que vivemos tempos estranhos todos sabem. No entanto, nada me deixa mais triste que todos os laços que tentamos criar, desde o fim da Segunda Guerra Mundial estejam se desfazendo diante de nossos olhos sem que ninguém consiga fazer nada.
Nestas horas tento invocar Santa Rosa Luxemburgo, pedindo que nos livre da barbárie. No entanto, ao longo destas ultimas semanas ou meses, o cenário parece ser consistentemente uma fragmentação e ruptura de laços frágeis, porem necessários.
Fazem dois séculos que estamos construindo espaços para o respeito e a dignidade individuais, os chamados Direitos humanos. Direitos esses que são das classes dominantes e pouco, muito pouco, das classes subalternas.
Os direitos da burguesia são fáceis de ver e respeitar. O direito dos outros, no entanto, é vilipendiado, negado, execrado.  Direitos humanos para humanos direitos, não é mesmo? Será que os direitos humanos de um humano “direito” branco são os mesmos de um humano “direito” negro? Será que um humano “errado” branco não tem mais direitos que um humano “direito” negro? Isso sem contar os humanos “errados” negros (ou índios, ou chechenos, ou de uma religião diferente da nossa), que são sumariamente eliminados.
Ao tentar uma construção social que seja inclusiva, que respeite classe social, credo, cor, gênero, não são fáceis os obstáculos que se interpõe. A discussão sobre humanos “errados” ou “certos” torna um debate difícil, oco, inconclusivo.
O que se vê é aumentarem barreiras, muros, dificuldades. O outro é sempre o inimigo, aquele de quem devo me defender com armas até os dentes. Estamos num tempo em que se declaram uma cínica guerra à pobreza, à diferença, negando valores fundamentais de altruísmo e solidariedade.
É com imensa tristeza que vejo a facilidade com que a mera ausência de polícia, uma polícia nem sempre boa ou cidadã, nos torna num amontoado de bestas ferozes. O que passa pela cabeça de um cidadão que saqueia uma loja? Ou nas pessoas que se aproveitam da confusão para praticar todo tipo de delitos?
Ao ver as cenas do caos no Espirito Santo, o que me vem à cabeça é que  parece que a barbárie vem nos aplicando um peremptório 7 a 1.
O que vemos surgir dessas greves de polícia é uma sociedade que não tem nenhum laço que a una. Uma sociedade esgarçada, desigual e que só se mantem unida pela força bruta e pela arbitrariedade da polícia que temos (Nos ajude, São Foucault!).
Chego a pensar que Trump tem razão ao impedir a entrada de refugiados, ou Temer e os partidos de sua coalizão golpista de impor retrocessos sociais e aumentar o nível de exploração do trabalho. Eles têm razões (as deles).
Nós é que somos estúpidos a pedir altruísmo e solidariedade numa sociedade marcada pela brutalidade e que regride ao tempo das invasões barbaras assim que a polícia desaparece. Essa sociedade eu não quero.
Feliz do povo que não precisa de polícia para viver em paz.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

REBELIÃO ESCRAVA EM ANTONINA (FINAL)


Estava tudo uma balbúrdia: os escravos em Antonina tentavam uma rebelião!
 O delegado Alves D´Araújo estava preocupado. O suplente de delegado, em sua ausência, havia escrito ao govenador solicitando uma atitude. Essa atitude, bastante rápida aliás, havia sido o deslocamento de tropas de Curitiba para Antonina, assim como colocar o efetivo da Guarda Nacional de Antonina e de Morretes em alerta. E assim foi feito. Em janeiro de 1859 Antonina parecia uma praça de guerra.
Os soldados acampavam no campo da Matriz, e os cavalos ficavam por ali, pastando em meio as vacas. Uns e outros assavam ali uma carne bovina num fogo de chão. Outros soldados, com conhecidos no lugar, tiravam uma sesta e comiam uma sopinha quente dentro das casas. Outros tantos soldados ficavam, com seus cavalos e utensílios, acampados nos matos da entrada da cidade, próximo as ruinas da igreja do Saivá, em meio as vacas e as ruinas dos engenhos de mate semidestruídos.
Os escravos, ressabiados, haviam se recolhido, e cochichavam as escondidas. Uns diziam que o próprio Imperador havia libertado os escravos. Outros diziam, como haviam dito uns dias antes ao próprio delegado, que um navio inglês estaria no porto para assegurar a liberdade dos cativos. A esperança, assim como a ansiedade, era grande.
No entanto, nada aconteceu. Não veio navio inglês, e o Imperador tirava seus cochilos em Petrópolis e nem sabia dos pobres escravos de Antonina, que teriam que se virar à sua própria sorte. Como, aliás, sempre tinham feito.
Ao final do mês, já mais tranquilo, o delegado Alves D´Araújo emitiu um ofício onde deu por encerradas as preocupações dos donos de escravos do lugar, e as tropas voltaram a seus cantos de origem.
Não havia sido a primeira vez que a população branca da cidade havia se assustado com uma rebelião negra. Cerca de trinta anos antes, os escravos do industrial José Luiz Gomes, dono de um Estaleiro e de plantações de cana no Pinheirinho, haviam se revoltado, matado o seu patrão e fugido, segundo alguns levando moedas de ouro e cobre, para a costeira de Guaraqueçaba, onde foram caçados e mortos. Seus corpos foram estraçalhados e exibidos para “exemplo” em postes pelas estradas do município.
Nesta nova rebelião, entretanto, haviam alguns elementos novos: desde 1850 o tráfico negreiro havia sido extinto, boa parte por pressão das canhoneiras inglesas. Não era a toa que os escravos se referissem a um navio inglês. Havia uma certa esperança, entre os escravos, de breve libertação que, afinal, se mostrou “lenta, gradual e segura”, como só a elite brasileira consegue realizar.
No entanto, para os escravos restou somente a negociação de sua liberdade, num processo lento e demorado. Teriam que “comprar” sua alforria, caso por caso. Muitas vezes pediriam a alforria em processos judiciais contra um judiciário tendencioso, como o daquela época (!?). Teriam que procurar proteção nas irmandades religiosas, como a irmandade de São Benedito.
Finalmente, teriam que negociar a liberdade dos recém-nascidos com a lei do ventre livre (1871) e a dos idosos com a lei dos sexagenários em 1885, quase as vésperas da abolição. A abolição em Antonina foi tardia. No 13 de maio ainda haviam muitos escravos que foram “libertados” por seus senhores, como se já não houvessem sido pela lei Aurea.
Sem contar que não foi dada, como já na época se exigiam os movimentos abolicionistas, de alguma “reparação” aos escravos libertados. Esta reparação seria necessária, argumentavam estes grupos, para que os agora ex-escravos pudessem entrar de maneira digna no novo mercado de trabalho que então se formava no país. Nada foi feito, como se sabe.
Quem se maravilha com as centenárias construções da bela Antonina tem a real noção de que estas belezas foram construídas com trabalho escravo?
Quem hoje passa pela Igreja de São Benedito, ou ouve uma escola de samba antoninense poderia imaginar quanta dor e sofrimento andaram por estas ruas?


PS – a história é verídica: Para saber sobre a Revolta Escrava em Antonina e os documentos citados basta consultar o trabalho da historiadora Sílvia Correa de Freitas (http://revistas.ufpr.br/vernaculo/article/viewFile/18073/11777_);

domingo, 15 de janeiro de 2017

REBELIÃO ESCRAVA EM ANTONINA!

batuque na cozinha, Sinhá não qué!
Em 15 de janeiro de 1859, o suplente de delegado Joaquim Leite Mendes estava desesperado com as notícias que estava recebendo. Com o olhar preocupado, tirou o chapéu e deu uma olhada pela janela. Lá fora, um semelhante dum calor, ele via os urubus pousados no telhado de asas abertas, depois da chuva que recém caíra e esperando a chuva que ia cair mais tarde. O morro do Feiticeiro estava semi-encoberto por uma nuvem fina. O ar estava abafado, mormacento.
Leite Mendes preocupava-se, pois o delegado Alves d’Araújo estava em viagem para a Vila do Príncipe [hoje Castro]. Que fazer? Depois de raciocinar olhando os telhados pela janela, tomou sua decisão. Pegou uma folha de papel, a pena e a tinta, sentou-se à mesa e, com sua fina caligrafia, começou a redigir um ofício endereçado ao governador da província, Francisco Liberato de Matos: “ontem estava este Município de Antonina  exposto a uma próxima sublevação de escravos sob protesto de sua liberdade geral que lhes foi conferida mas que foi negada por pessoa suspeita da cidade”.
Sim, a cidade de Antonina estava na iminência de uma sublevação de escravos! Como se daria isso? Leite Mendes tomou da pena e voltou a escrever: “servindo-se eles de dois grandes bailes denominados congadas que há muito tempo fazem todas as noites nesta cidade a pretexto de ensaio para sua festa de São Benedito”, explicou ele ao governador em sua caligrafia redonda. O tal do levante “terá lugar segundo consta no dia 20 deste mês, para por esse meio de reunião transmitiram essa notícia a escravatura dos sítios e consequentemente preparavam-se para o fim do sinistro plano”, explicou Leite Mendes.
Era o meio da tarde. Mas que fazer? A carta tinha que ir á Curitiba ainda aquele dia. Leite Mendes procurou um dos tropeiros de sua confiança, que estava com os cavalos amarrados ali no campo, perto da matriz. Sim, o tropeiro garantiu, um deles iria a Curitiba dentro de pouco tempo. Ia dormir em algum lugar da serra, mas antes do meio dia estaria chegando a Curitiba. Leite Mendes entregou-lhe a carta endereçada ao Governador e voltou pra casa, mais aliviado. Tinha cumprido sua missão.
Durante os dias que se seguiram, Curitiba e o litoral viveram momentos de angustia. As autoridades estavam simplesmente apavoradas com a possibilidade de um levante escravo em Antonina. Cartas foram endereçadas para Morretes e Paranaguá, prevenindo os senhores de escravos antes que a fagulha da revolta se espalhasse. O medo tomou conta das casas, e nem as tempestades de verão no final do dia davam algum alento aos patrões.
O governador mandou reforço policial para Antonina, enviando o Capitão Manoel Eufrásio de Assumpção e mais quatro soldados. Estes deveriam arregimentar os soldados disponíveis em Porto de Cima e Morretes. Assim reforçados, a brava tropa policial entraria em poucos dias numa Antonina em polvorosa, assustada com a possibilidade de um levante de escravos.
O próprio delegado Alves d´Araújo, no dia 19 de janeiro, quando retornou de sua viagem foi, ele mesmo, interpelado por alguns pretos mais desaforados. Estes exigiam que ele lhes desse a liberdade a que eles, os pretos, já tinham direito. Alves d´Araújo, é claro, não sabia de nenhuma alforria. “Mas tem sim”, disseram-lhe os pretos. Segundo os escravos, havia uma ordem de libertação geral direta da Coroa, e ele, Alves d`Araújo, estava, por interesses escusos e perversos, negando a eles conhecer a verdade. Havia, inclusive, um navio inglês chegando ao porto para protegê-los e fazer os senhores aplicar a lei.
Como diríamos hoje: que surrealista! Como diriam os antigos, que maçada!! Haverá então uma revolta escrava em Antonina? O que acontecerá?

(postado originalmente em janeiro de 2013)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A CONTROVÉRSIA DO QQTACONTECENO


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)

Para Marko Monteiro e Carolina Zabini
Depois da controvérsia do Antropoceno, uma nova e maior controvérsia acende os debates científicos da Paleontologia Imaginária. Assim, os debates sobre o período Antropoceno, sua delimitação temporal e mesmo a sua existência enquanto período geológico passaram a um segundo plano. O novo período proposto é o Qqtaconteceno (Crutzen, 2017).
Segundo Monteiro (2016) trata-se de um período além de controverso, perplexo. A sucessão normal das faunas e sua disputa no ecossistema planetário estariam se dando numa velocidade até então inaudita, complicando e fazendo modificar nossa compreensão da evolução planetária (Zabini, 2016).
No Qqtaconteceno, predominou amplamente sobre os demais o gênero feicebuquis. Havia o F. destrus e o F. sinistrus, que faziam grandes disputas em pontos nodais da rede (Ortellado, 1999). A arma destes grupos era uma enzima altamente tóxica chamada textão. O textão acumulava-se em grandes áreas, em geral inviabilizado a compreensão do que estava em disputa (Mainardi, 2013). Em geral, um grupo não entendia o que o outro dizia, e grandes toneladas deste material acumularam-se no registro sedimentar (Almeida, 1946).
Outros animais do gênero feicebuquis são os F. correntinus, que criava diversas correntes de bobagens que também marcaram o registro fóssil do Qqtaconteceno (Zuckerberg, 2012, 2013, 2015). O F. narcisistus era outra espécie característica, e mostrava com frequência as festas que frequentava, batizados, casamentos e fotos de crianças fofas (Kardashian, 2014) . Os mais estranhos, no entanto, são os F. abstinenticus, que se recusavam terminantemente a entrar. Dizia-se mesmo que tal espécie não existia, mas alguns exemplares foram achados juntamente com fosseis do gênero Instagranis (Favatto & Steinkpf, neste momento agora). Outro gênero característica deste período é o Tinderius sp, que tentava desesperadamente se acasalar, com resultados bastante duvidosos (Marquezine & Neymar Jr, 2014).
Mas não se trata somente do gênero feicebuquis, embora ele seja o predominante do período Qqtaconteceno. O gênero Tuitus também era muito comum (Safadão, 2015). Em geral os espécimes deste gênero eram similares aos do gênero Feicibuquis, porem mais curtos, com 140 vertebras (Porchat & Duvivier, 2012, 2013, 2016). Outra diferença qualitativa importante era que o Tuitus sp se organizavam segundo quais as espécies seguiam as outras, formando grandes aglomerados nos oceanos do Qqtaconteceno (Oparin, 1944).
Os registros também apontam mudanças ambientais causadas por grandes paquidermes como o Donaldus trumpicus do Qqtaconteceno da América do Norte. A princípio pouco representativas (1% do total), elas acabaram por tomar conta do registro no qqtaconteceno médio (Al Gore, 1999). A presença do D. trumpicus desorganizou os grandes sistemas evolutivos da região (Sanders & Clinton, 2015), determinando o avanço de espécimes predadoras mais antigas. A ligação do D. trumpicus com outros espécimes da Eurásia, como o Vladescus putinus da Russia conduziu a um retrocesso geral do registro paleontológico imaginário (Cameron, 2014).
No Brasil o Qqtaconteceno (Fora Temer, 2016) é fruto de um ambiente de estagnação paradoxalmente provocados pelos mamíferos do gênero Ministeriopublicus (Janot et al., 2014). Trata-se de uma espécie altamente seletiva, que preda somente os mamíferos esquerdos, deixando os mamíferos direitos livres para continuar predando (Calheiros & Jucá, 2016a, b). Os espécimes hoje dominantes, como os Patus amarelus e os Coxinhus raivosus são decorrência da perda de dominância de grandes espécimes do antropoceno recente como o gênero Ptistus sp. Na tentativa de extinguir as grandes espécies sindicalistas e populares não há certeza, mas há muita convicção (Dallagnol, 1933).
A perplexidade causada no Qqtaconteceno, no entanto, não é nova. Sócrates (apud Platão) já estava intrigado com o registro paleontológico da região de Qqtacontecenia, na Ásia Menor. Suas indagações sobre o Qqtaconteceno forneceram várias explicações que são utilizadas até hoje para entender o registro paleontológico imaginário. Na Alemanha, Karl Marx e Friedrich Hegel (Marx & Hegel, 1844) também propuseram explicações sobre o Qqtaconteceno, explicado como uma luta entre gêneros e ordens paleontológicas imaginárias.
Hoje há várias explicações sobre o Qqtaconteceno (Zizek, 2010; Bauman, 2011). No entanto, o registro paleontológico tem mostrado a consistente reentrada de mamíferos pleistocênicos e mesmo cretáceos nos ambientes modernos. Se o Antropoceno era um período contraditório, marcado pelas bruscas mudanças climáticas e ambientais, o Qqtaconteceno é um período onde a perplexidade faz parte do registro.
Há que se perguntar: tem algum meteoro disponível por aí?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A HISTORIA O ABSOLVERÁ?


Cartum de Renato Machado

Quantos e quantos bytes se gastaram (e se gastarão ainda) nestes dias em que em Cuba se preparam as exéquias de Fidel Castro?
De um lado, para muitos, ele é o grande líder da mítica Revolução Cubana, que embalou os sonhos de toda uma geração de latino-americanos. Inclusive os meus. Fidel foi o herói da igualdade e da solidariedade internacional, o camarada que enfrentou (e nunca se dobrou) ao Império. Que desafiou e sobreviveu a onze presidentes americanos. O libertador de Angola e o homem que derrotou o Apartheid e possibilitou Mandela e a África do Sul moderna.
De outro lado, para muitos, aparece a figura do ditador, do déspota, do autocrata. Neste relato, alguns o filiam a Stálin e Pol Pot, assim como a Hitler e Mussolini. Este é o relato da Cuba do paredón, da perseguição, prisão e tortura de inimigos políticos, o perseguidor de artistas, gays e deficientes.
Quem é Fidel? Perguntam-se todos. O que ele significa? Por que desperta tanto amor e tanto ódio?
Não tenho a resposta, nem sei se alguém a tem. Eduardo Galeano tem a dele (aqui). Para a Direita Raivosa brasileira, ver aqui. A melhor definição de tudo é o Cartum de Renato Machado quem faz mais jus à figura do comandante. Nem Céu nem inferno, mas a História, este é o lugar (veja o original aqui). A História o absolverá? Somente com o passar do tempo e com olhos menos apaixonados poderemos chegar a uma apreciação sincera da atuação do comandante.
Entretanto, esta discussão sobre Fidel não é somente uma discussão sobre Fidel. É uma discussão sobre nós, aqui e agora. Sobre o Brasil e seu momento atual. Vejo meus companheiros de esquerda, eu incluso, a defender apaixonadamente Fidel, relativizando o lado amargo da Revolução Cubana. De fato, “gentlemans” não ganham revoluções. É preciso ter estomago para tomar algumas medidas. Não sei se eu as teria ou não, não posso julgar moralmente uma decisão deste tipo cinquenta nos depois, confortavelmente sentado em minha mesa.
Na maior parte das questões, um atenuante óbvio se anuncia: tratava-se da Guerra Fria. Se houve barbaridades daquele lado (o bloco Socialista), do outro lado (o “nosso” bloco capitalista) quantas barbaridades também não foram cometidas? Se ficarmos só na América Latina temos os exemplos da política do porrete, quando os americanos tiravam do poder quem, do campo da esquerda, ameaçasse suas políticas. Podia ser através de golpes de prepostos ou intervenção militar direta. Exemplos abundam. Pra citar dois: a deposição de Jacobo Arbenz Guzman, na Guatemala em 1954, o golpe e a deposição do esquerdista Juan Bosch na República Dominicana, que culminou com a invasão estadunidense de 1965 (com participação da Ditadura Brasileira inclusive). Nesta lista, nem entrei na América do Sul....
O Caribe no pós-guerra era um arquipélago de ditaduras sanguinárias, protegidas por Washington. Como não esquecer da Nicarágua de Somoza (1934 – 1979), da República Dominicana de Trujillo (1931-1961), do Haiti de Papa Doc (1957-1971)?
Assim quando, do nada (para a imprensa americana) um grupo de jovens barbudos desafia e vence um destes ditadores, o não menos sanguinário Fulgêncio Batista (1933-1959), estava configurado o mito.  Sim, era possível.
Cuba sofre de um processo de atração e repulsão por seu vizinho do Norte desde sua independência, em 1898. Desde a sangrenta guerra da independência, a partir da insurreição liderada pelo também mítico José Marti (El hombre sincero de donde crece la palma!), os Estados Unidos frequentemente tomaram um papel que não lhes cabia na condução da ilha. A ocupação militar durou de 1891 a 1903. É deste ano a Emenda Platt, que se estenderia até o governo de Fulgêncio Batista, em 1933. Esta emenda dava o direito de os Estados Unidos intervir em Cuba sob pretextos diversos, limitando na prática a independência do país. Desta forma, a Revolução Cubana pode ser entendida neste contexto secular como uma reação à dominação americana e uma segunda etapa do processo de independência do país.
O embargo americano também explica diversas atitudes tomadas por Cuba desde os anos 60. A resistência torna-se seu mote, e a resistência a qualquer preço. Depois do colapso da URSS em 1991 e mesmo antes, a situação econômica piora. Mas a pequena ilha resiste. O embargo gera uma porção de problemas e uma justificativa bastante plausível ao governo cubano para tomar medidas duras. Um duro embargo que já dura mais de 50 anos.
Por outro, vejo meus amigos de direita com um relato que é verdade: sim, o regime cubano matou pessoas. Os fins justificam os meios? Não posso responder que sim. Mas entender o que aconteceu dentro do espectro de seu tempo ajuda a entender algumas decisões.
O discurso da Direita está sendo usado, no entanto, para culpar a atual esquerda brasileira. Acho isso injusto e prejudicial ao bom debate. A esquerda já fez uma boa autocrítica desta e de outras práticas do passado. Não se pode achar que Stálin e Pol Pot sejam nossos camaradas. Meus nunca foram.
Hoje, a esquerda brasileira – e é só por ela que posso falar -  é mais democrática e legalista que a direita. Falo isso com muito orgulho. Durante o golpe, embora esperneássemos, o poder foi entregue sem nenhuma resistência, dentro da lei, embora não houvesse concordância com sua interpretação.
Por outro lado, a direita sempre abusou da lei (A lei? Ora, a lei!).  A direita burra vive propondo - hoje! Agora! Neste instante! -  um retorno ao passado, um passado violento que nos remete ao mundo antes da Revolução Francesa, antes da cidadania e dos direitos do homem. Um mundo de lei e de ordem. “Direitos Humanos para humanos direitos”. Mas lei e ordem para quem, cara pálida? Continuamos a mesma política do Império e da Colônia, admitindo tortura e morte sem julgamento para os mais pobres, que não por acaso são pretos e índios.
A direita mais “light” vive fazendo armadilhas e mudando as leis. Para quem está reclamando das anistias ao caixa dois e as outras patifarias que o congresso está fazendo: lembrem-se da corrupção que foram os cinco anos para Sarney e a reeleição de Fernando Henrique. O prof. Luiz Felipe Alencastro há muitos anos atrás denunciou esse golpismo “light” através das mudanças constitucionais (aqui).
Falar de Fidel, hoje, é falar do Brasil. É isso que nossos amigos de direita querem nos dizer é: “Isso não serve para nós, não está vendo? ”. “É isto o que você quer para o Brasil? ”, como diziam no tempo da Ditadura. Não, isso não nos serve. Por exemplo, não compactuo com tortura e assassinato sem julgamento, como fez o Exército Brasileiro nos anos 70 (ver o livro de Elio Gaspari, “A Ditadura Escancarada”). Atrocidades que o Exército Brasileiro nunca admitiu, o que é mais vergonhoso ainda. Não compactuo com o genocídio de pretos e índios que as policias militares e diversas milícias vem fazendo no campo e nas cidades.
Não compactuo com políticas de discriminação social, religiosa e qualquer outra. Se Fidel tratou de forma abusiva os gays (los enfermitos), ele está numa companhia que não é boa, mas numerosa. A prática de castração química, prisão e morte foi muito comum no passado (veja os exemplos na Inglaterra e nos Estados Unidos, e mesmo aqui no Brasil) e ainda o é no presente em vários países. Isso tem que ser posto em sua correta dimensão: estava errado e tem que ser denunciado. Agora, eu acho estranho que muitos que reclamam da “Ditadura Gayzista” estejam agora se compadecendo de nossos companheiros homossexuais. Cubanos.
Não gostam de Fidel? Tudo bem. Não gostam de sua prática política? Faz parte do jogo. Eu acho Fidel uma grande liderança e uma pessoa importante na luta dos povos por mais igualdade. Ele é incoerente e cometeu erros, sim. Ninguém é coerente o tempo todo. Ele não é candidato a Santo. Mas não é possível ignorar que sua luta foi importante na melhoria de vida e na redução das desigualdades em Cuba e na América Latina. Não é possível ignorar seu papel no fim do Apartheid. Não é possível ignorar as conquistas da Medicina cubana (veja um depoimento do insuspeito jornalista Jorge Pontual, da Globonews, aqui).
Cuba tem os desafios dela (ver aqui), nós temos os nossos. Nós nunca enfrentamos, com exceção dos governos petistas, o desafio de superar nossas desigualdades. Vivemos numa sociedade estamental e extremamente desigual. Nossas classes dominantes nunca quiseram expandir o ensino e a cidadania. Pelo contrário, nos enfurnamos em condomínios fechados e depois reclamamos que a rua está tomada por bandidos. Não estamos nem aí para uma sociedade em que a polícia nos trate todos como iguais. Somos coniventes com a tortura nas delegacias e com a morte de jovens, pretos, índios. Somos lenientes com a cultura do estupro, expondo nossas mulheres a situações inconcebíveis. Temos aversão e permitimos que as pessoas LGBT sofram com a violência e o assassinato.
E depois, refestelados no sofá da casa assistindo à televisão ou, então, na tela do computador ou do telefone, ficamos nos horrorizando com estas mesmas coisas. Mas no país dos outros.
Enquanto isso, Fidel entra na História pela porta da frente.

domingo, 20 de novembro de 2016

HOMO DEBEM


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)


Os homens de bem não constroem Impérios;
apenas lhes fornecem a argamassa.
Millôr Fernandes
Dentre todos os locais do Leste Africano onde foram encontrados resquícios de hominídeos fósseis, nenhum tem causado tanta polêmica quanto a Garganta de Olduvai, onde foram pela primeira vez encontrados os restos fósseis do homo debem. Segundo o arqueólogo Osborne Leakey, primo de Richard Leakey, o homo debem foi uma espécie representativa do Pleistoceno inferior de Olduvai (O. Leakey, 1959). Os principais jazigos fossilíferos, localizado nos estratos superiores, indicam sua ocorrência imediatamente após as Grandes Guerras Pleistocênicas (Marshall, 1946).
Algumas características iniciais mostravam tratar-se de uma espécie dominante, de comportamento bastante singular. Consumia com avidez os produtos líticos de seu tempo, e desfrutou de um período de grande irradiação, tendo alcançado a maioria dos locais habitados pelos hominídeos de seu tempo (McLuham, 1960).  
Segundo os principais trabalhos sobre o homo debem, a espécie era reconhecida por ser muito produtiva, produzindo artefatos líticos de consumo para a maioria dos hominídeos de período (Ford, 1927; Toyota & Ford, 1957; Toyota et al., 1988). Tinha um comportamento monogâmico restrito, e se acasalava com fêmeas recatadas e das cavernas (Fora Temer, 2016). Segundo alguns pesquisadores do período, o homo debem era uma espécie muito respeitada e temida em todo o leste africano (Magnoli, 2011).
Estudos mais recentes, porém, mostram que o comportamento do homo debem não é tão homogêneo quanto aparentemente se pensou (Foulcault, 1974). Os homo debem eram na verdade uma espécie bastante subordinada entre os demais grupos de hominídeos. A espécie verdadeiramente dominante eram os homo debens, que controlavam os grandes caminhos murados (wall streeets, em inglês). Os homo debens dominavam a produção dos homo debem e exploravam seu trabalho de produção de manufaturas líticas (Pikety, 2012).
Frequentemente, durante as crises provocadas pelo homo debens, os homo debem perdiam suas ferramentas e ficavam sem ter o que fazer, vagando pelas savanas e consumindo bebidas alcoólicas (Bukowsky, 1960). As fêmeas da espécie rebelavam-se continuamente contra sua dominação, e os lares chefiados somente por fêmeas da espécie chegou a representar metade dos locais de moradia ao fim do pleistoceno (Beauvoir, 1956).
Depois de duas grandes crises, datadas pelo Carbono 14 em 100.929 e 100.208 BP (antes do presente), os homo debem foram praticamente extintos (Soros & Buffet, 2008). No entanto, algumas espécies de hominídeos inadaptados para as mudanças daquele início de milênio, acabavam por associar os homo debem a posturas retrógradas e conservadoras (O. Carvalho, 2013). Espécies parasitas como o Coxinhus sp e o Australopithecus bolsonarius participavam de estranhas festividades com os corpos pintados de amarelo e orando para uma divindade aquática (O Grande Pato), tentando lembrar dos homo debem como um exemplo positivo de hominídeo (R. Azevedo et al., comunicação verbal, 2016).
Alguns pesquisadores, no entanto, levantam a hipóteses de que os homo debem jamais tenham de fato existido. Segundo estes pesquisadores, a lenda dos homo debem, pacíficos e corretos, foi inventada para que os demais hominídeos da região se submetessem mais pacificamente aos homo debens (Chomsky, 1980; Chomsky, 2010; Chomsky, 2014). A polêmica subsistiu durante vários anos, sem resultados satisfatórios (Villa, 2012; Villa, 2013; Villa, 2014; Villa, 2015).
O que se sabe é que após a provável extinção dos homo debem persistiram vários anos de disputas no leste africano, entre os lados direito e esquerdo do vale de Olduvai, sobre quem se apropriaria do material lítico produzido. Não se sabe exatamente o que resultou, mas a ampla proliferação de hienas e urubus na região pode ser indicativo de uma extinção generalizada de vários espécimes de hominídeos (O. Leakey, 1964).


domingo, 6 de novembro de 2016

A CAPELA E SEU ANIVERSÁRIO: SAUDADES

Os meninos magrinhos dos anos 60/70 marchando no aniversário da Deitada-a-beira-do-mar
Mais um dia ensolarado por aqui. Venta um pouco de manhã, faz um friozinho, mas daqui a pouco o sol levanta e vai esquentar muito. Grandes nuvens se formam nas serras ao norte, rumo de Minas. Os passarinhos fazem uma feroz algazarra pelas arvores ao redor.
Vejo no meu telefone que o tempo em Antonina é nublado, com 50% de probabilidade de chuvas. A temperatura oscila pouco, entre confortáveis 19 e 23 graus. Será que vai ter desfile?
Quando era pequeno, esse era o terror dos dias 6 de novembro: será que vai chover? Se chovesse muito, o desfile do aniversário da cidade seria cancelado: como assim, não desfilar? A gente ensaiava um monte, noites e noites lá na caserna dos escoteiros, para que todos marchassem bonitinho, todos juntos, pé direito, pé esquerdo, num mesmo ritmo marcial. Se chovesse, como seria?
Nos meus anos de guri, todos se reuniam no coreto da praça: as escolas, as associações beneficentes, os escoteiros. Era um mundo, penso hoje, ainda tributário da era Vargas e daquele mundo protofascista das corporações. Mas, para nós, naquele tempo, isso não importava. Era uma festa. Todos estavam de roupas de festa. Nós, escoteiros, impecavelmente fardados.
No coreto, os discursos. Nem me lembro. A gente não ouvia direito, ou não entendia direito. Não devia ser coisa séria mesmo. Estávamos ali tentando ser marciais, brincando de soldadinhos. Lá em cima, o Prefeito, o Presidente da Câmara ou quem quer que fosse o orador, nada disso nos importava. Ficávamos vendo era quem chagava atrasado, quem havia esquecido alguma peça da farda, quem estava com o lenço arrumado, o bibico certo na cabeça.
Depois, vinha o desfile.
Os escoteiros abriam o desfile, marciais e garbosos o quanto podíamos ser marciais e garbosos aqueles meninos magros mal cabendo nas fardas. Na verdade, desfilávamos para nós mesmos e para nossas famílias. Sempre quando passávamos tinha um grupo que aplaudia um de nós, gritava o nome, batia palmas. Eram as famílias que estavam ali, enxergando-se naquele menino de farda um futuro e um passado.
Ficávamos sempre muito nervosos durante o desfile, de olho pra ver se estava tudo certo, se todos estavam de passo certo. Estávamos todos nervosíssimos até chegarmos ao Jequiti, onde o desfile terminava. Ali, quando nos dispersávamos, tínhamos uma outra tarefa: cuidar da “segurança” do desfile.
Armados de grossos bastões de madeira, ficávamos 1á frente da multidão para impedir que se atravessasse a pista do desfile, coisa que quase nunca acontecia. E ali ficávamos, marciais, “cuidando” do desfile das escolas e das associações. Era um prazer ter toda aquela responsabilidade. Lembro do orgulho que nós sentíamos por estar ali, fazendo parte das comemorações da cidade.
Acho que esta é a minha emoção mais marcante do dia 6 de novembro.
Faz muito tempo que não vou a um desfile do aniversário da Deitada-a-beira-do-mar (o deste ano é do 219º aniversário da elevação à vila, não é isso?). Aquelas lembranças são de um outro tempo, de uma outra cultura, de uma outra pessoa. Não sei como são os desfiles hoje, nem sei se teria paciência para assisti-los.
Sinto mesmo é uma grande e carinhosa lembrança de minha infância, de meus companheiros. Lembrança de um tempo que eu me sentia ligado profundamente a minha cidade e à sua gente. Por mais que me esforce, aquelas sensações aparecem para mim borradas como numa fotografia antiga.
Saudades, Capela! Saudades, Grupo Escoteiro Valle Porto de Antonina!

sábado, 8 de outubro de 2016

A OUTRA REPÚBLICA DE CURITIBA



Curitiba
   O interventor do estado
   era um pinheiro inabalável

   inabaláveis pinheiros igualmente
   o secretário da segurança pública
   o presidente da academia de letras
   o dono do jornal
   o bispo o arcebispo o magnífico reitor

   ah se naqueles tempos
   a gente tivesse
   (armando glauco dalton)
   um bom machado!

(José Paulo Paes)


Muito tem se falado na tal “República de Curitiba”. Para uns, trata-se de gente fazendo a lei; para outros, trata-se do judiciário extrapolando sua função, com os juízes e Ministério Público tornando-se “justiceiros”, conforme já discuti aqui no blog. No entanto, para longe dessa Curitiba oficial (seria oficialesca?), gostaria de fazer algumas considerações sobre uma outra República de Curitiba.
Trata-se da Curitiba que se ergue para além da Curitiba oficial, das canaletas do expresso, do calçadão da rua XV e do bosque do Papa. Uma Curitiba diferente da Curitiba que frequenta os shows do Teatro Guaíra ou os saraus do Clube Curitibano. A Curitiba suja, a Curitiba feia, a Curitiba que não está no mapa.
Trata-se da Curitiba da cultura underground. Nos pequenos bares ao redor da Reitoria, nos palcos do TUC, nos coletivos artísticos que hoje proliferam na vida cultural da cidade. Uma efervescência que ultrapassa em quantidade a qualidade muito do que a cultura oficial vem produzindo. Estes grupos hoje estão produzindo uma inquietação que vai além da acomodação da classe média curitibana e seu sentimento que seu “Batman” togado vai resolver seus problemas enquanto estão sentados no sofá da sala.
No passado, esta Curitiba era representada pelas figuras marginais da cidade. O grande ícone sempre foi Santa Maria Bueno, a santa das putas. Assassinada por seu amante no final do século, seu tumulo na ala mais pobre do cemitério municipal é hoje o grande centro de peregrinação. São as prostitutas, as mulheres humildes, deserdadas na sociedade Família & Propriedade os que buscam seu consolo. Outro grande ídolo foi Gilda, o traveco, o sujo, o odiado e amado nos anos 70 e 80. Não havia como não vê-la na rua XV, amável e provocante, de vestido e barba por fazer. Eu vi.
Não por acaso, hoje Maria Bueno e Gilda são ícones desta Republica de Curitiba. Por seu papel transgressor, seu desafio á bem-comportada ordem, sua afronta aos bons costumes, elas representam a Curitiba que não se verga as luminárias de plástico “para turista ver”, como já reclamou no passado outro ícone fora do eixo, Dalton Trevisan. Esta Republica de Curitiba é o espirito de Paulo Leminski, a tropeçar bêbado pelas canaletas do ônibus expresso, a cantar suas maldições. É a Curitiba de Ademir Plá, a nos embalar nossas manhãs na rua XV com sua música torta e sua estética riponga.
Hoje, é a Curitiba dos coletivos, dos shows na praça do ciclista, da ocupação da Funarte, da recusa a participar da arte oficial. É a arte dura e provocante de coletivos como o Agua Viva Concentrado Artístico e a Selvática, entre outros, que fazem a outra República de Curitiba dar as caras, e denunciar a ordem e o progresso da Curitiba bonitinha, limpinha e ordinária. É a Curitiba da transgressão, do transgênero, do transbordamento da inquietude que desafia a Curitiba dos carros caros e dos edifícios empresariais limpinhos, cheios de homens engravatados e mulheres de tailleur, prontos para descer o cacete no novo, no feio e no diferente.
Como amar Curitiba? Não sei. Nem tentei. Nunca me seduziu essa estética de classe média de morar em sobradinho e essas canaletas de ônibus que fazem os pobres morarem cada vez mais longe. O aperto dos terminais de ônibus contrasta com o espaço aberto do Centro Cívico, esse elefante branco manchado do sangue dos professores paranaenses por mais de um governo “democrático”. Temos que dizer não ao “Paraná das Famílias” e da “Curitiba que tem túmulo no Cemitério Municipal”, como disse no passado um orgulhoso Rafael Greca.
A verdadeira República de Curitiba é a cidade das casas de madeira, das fachadas de lambrequins. É a república dos trabalhadores indo de bicicleta para o trabalho, das diaristas atulhando os ônibus expressos para o centro. É a dos bailões sertanejos da periferia, das peladas da várzea, das calçadas de grama, dos botequins sujos servindo ovo com rolmops. É a Curitiba das prostitutas, dos trabalhadores humildes, dos empregados do comercio, cantados por Dalton Trevisan. A Curitiba dos negros e dos polacos, e dos polacos pretos. Essa cidade simples e humilde (muitas vezes conservadora), mas que valem mais do que quadras inteiras da Agua Verde e do Jardim social.
 Viva Gilda e Santa Maria Bueno. Essa é a República de Curitiba.
A outra, a tal, que a História tenha piedade.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O NOVO TEMPO SAQUAREMA

Foto auto-explicativa de Marcelo Camargo (agencia Brasil)

Hoje acordei bem cedo. Chovia e fazia frio. Levantei para retirar algumas coisas que deixamos no jardim e que estavam molhando. Voltei pra dentro molhado, sentido o vento frio na cara. Hoje, parece que o dia inteiro foi assim, feio e frio.
É num dia assim que vivemos um dos momentos mais tristes da historia politica do Brasil.
Tudo já estava anunciado de antemão. Os acordos já tinham sido feitos e ninguém acreditava que seria possível uma reviravolta de ultima hora nessa votação.
Dilma Roussef errou, e errou muito. Mas também acertou, várias vezes.  No seu segundo mandato, foi impiedosamente impedida de governar pelas "pautas-bomba" de Eduardo Cunha. Não há como defender o governo de Dilma pelo conjunto da obra. Mas defender a legalidade e a democracia, essa é a questão que se coloca. Como disse o blogueiro Daniel Buarque (aqui), o impeachment de Dilma Roussef acabou por reforçar nossa imagem de Democracia “disfuncional”.
Quanto ao julgamento:  foi impressionante ver Dilma Roussef durante 14 horas de sessão ali, firme, respondendo as questões duras que lhe foram feitas. Muitos estranharam o seu jeito demorado de responder, a fala muitas vezes repleta de tecnicalidades e alguns equívocos. Muitos dos que vi fazendo gracinha com os eventuais deslizes de Dilma Rousseff não passariam numa mera apresentação de seminário na faculdade. Mas, no “haterismo” da internet, viram doutores.
Num bombardeio desses, o que ficou não foram os eventuais equívocos e deslizes, mas os muitos acertos de sua narrativa. O que ficou foi sim uma Presidenta da República respondendo politicamente a um julgamento baseado em falsas premissas. E ela as respondeu, uma a uma. Collor faltou à dele, e duvido que muitos destes doutos senhores ali do Senado tivesse a força demonstrada por Dilma ao fazê-lo.
Sim, porque a vontade de destitui-la veio muito antes das razões que se levantaram para tanto. Primeiro queriam a recontagem dos votos. Não deu em nada. Depois, desconfiaram das urnas eletrônicas. Como se tivessem pequenos petralhas digitais nas urnas fraudando votos, o que obviamente não foi verificado. A verdade é que a direita no Brasil sempre tem desconfianças com as urnas, e não só das eletrônicas. Desde a UDN, quando a democracia de massas se implantou no Brasil, preferem o caminho do golpe ou das mudanças constitucionais. Voltaremos a este assunto em outra ocasião.
Bom, aí vieram as tais das pedaladas fiscais. É um argumento muito fraco. Para o especialista Kai Micheal Kenkel, do Instituto alemão de Estudos Globais e Regional e observador do processo, o uso das pedaladas configuraram um abuso do mecanismo de impeachment (ver aqui). Segundo ele, além dos vários pareceres que demonstraram que as pedaladas não podem ser enquadradas como crime, uma vez que “outros presidentes já fizeram uso das pedaladas fiscais. A única diferença é a envergadura, que foi maior sob Dilma", conclui Kenkel.
As tais das pedaladas fiscais soarão no futuro tão ridículas quanto outros processos políticos do passado.
Lembro aqui, do famoso Plano Cohen. Divulgado pelo governo de Getúlio Vargas em 1937, continha um suposto plano de tomada do poder pelos comunistas. Sabe-se hoje que foi escrito pelo então capitão do exército (e não por acaso golpista de 64) Olímpio Mourão Filho, militante integralista, e que serviu de pretexto pra a consumação do golpe do Estado Novo (para saber mais veja aqui).
Pretextos para golpes de estado não faltam, mesmo para nossa tão pouco criativa elite econômico-financeira.
O que estamos assistindo é a volta do grupo conservador a cena politica brasileira. Depois de treze anos de um governo que foi timidamente progressista, as “forças vivas da nação“, como em 64, deram uma volta por cima. E que volta por cima! Um “Regresso” bem a seu modo. Não é um golpe de estado. Mas tem o cheiro ruim, o gosto amargo e a aparência estragada de um golpe de estado.
 Sob os céus do Brasil (que hoje amanheceram frios e cinzentos por aqui) instala-se mais um “tempo Saquarema”. “Partido Saquarema” era o apelido dado pelo povo aos integrantes do Partido Conservador dos tempos do Império, advindo da região do estado do Rio dominada politicamente (leia-se pela violência e capangagem) por vários influentes lideres deste Partido.
Este é o Brasil do “Centrão Saquarema”, dominado por homens brancos de meia idade e apoiado pelos três maiores partidos da casa: o Partido do Boi, o Partido da Bala e o Partido da Bíblia. Baseado na violência e na coerção física, como os saquaremas imperiais, a nova ordem quer impor uma plataforma derrotada pelas urnas. Quer remover direitos e dar algumas vantagens a burguesia rentista brasileira, famosa por sua dependência (eles sim!) das “leis Rouanet” da economia. O Centrão Saquarema quer desnacionalizar por preço vil o pouco que nos resta de riquezas naturais. E quer acabar – leia-se criminalizar - com toda a oposição de esquerda.
Outro não é o significado desta quarta feira. Amanhã, sob a égide dos novos saquaremas, a merda vira ouro, os meganhas da PF voltam para seu lugar, os pobres vão para a cadeia. E todos na Casa Grande, depois de longos treze anos, finalmente podem dormir o sono dos (hã?) justos.
Fim da História.
Mas...a Historia tem fim?

A conferir.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

OS "BONS TEMPOS" DE MUNIRA PELUSO

Eu não estava com muita vontade de opinar sobre as eleições municipais de Antonina, por diversas razões. Sem nenhum desdouro aos demais candidatos à vaga de prefeito, continuo achando que Zé Paulo deveria ter uma chance de governar Antonina. As razões já dei aqui neste blog. Mas essa resposta, bem sei,  cabe aos quinze mil (quinze mil?) eleitores da Deitada-a-beira-do-mar.
O que eu gostaria de comentar – mais uma vez – é a longevidade da candidatura Munira Peluso. A movimentação na internet e no facebook começou com a clara intenção de alavancar sua campanha. O tal do grupo público aberto parece bem demonstrar isso.
Conforme já falei aqui, Munira Peluso tem cerca de vinte a vinte e cinco por cento dos votos cativos. Isso não muda, pois é um eleitorado que veio com ela desde os anos 90 do século passado. As politicas clientelistas da ex-prefeita, que também já discuti aqui, contribuem para isso.
A campanha é bem óbvia. Fala de um tempo no passado, um tempo ideal. O álbum de fotos  “Bons Tempos”, mostra em tons descoloridos uma Antonina ideal, como se Antoninas ideais existissem. Obras realizadas, pessoas felizes, notícias boas nos jornais. Parece que tudo corria as mil maravilhas neste breve tempo, em comparação com os tempos que se seguiram.
Esta é uma tática ilusionista. Vista do tempo nebuloso de hoje, parece que havia uma era de ouro em Antonina, maior até que os tempos de Heitor Soares Gomes.   O que, evidentemente, é uma grande bobagem.
Naqueles tempos, Munira nadou numa corrente de prosperidade do governo Jaime Lerner (Quem se lembra?),  com a inauguração do Terminal Frigorifico e em algumas outras politicas que já não mais existem. Nem seu antigo benfeitor, Beto Richa, pode mais ajudar ninguém. A grande oferta de empregos daquela época não é possível mais hoje. Ou seja, uma gestão Munira neste já tão avançado século não seria mais do mesmo. A conjuntura é outra.
Claro que olhar para o passado olhando a partir do desastre ético da gestão D´Homero dá algumas vantagens em comparação com prefeitos anteriores, todos eles.  Mas esquecer o nepotismo e a mediocridade de uma gestão que quase acabou com o Carnaval de Antonina -quem se lembra? Essa era a Antonina de “Mônica”: parentes na prefeitura, moralismo de araque sufocando as festas públicas, valentões espancando desafetos e opositores.

Eram realmente bons tempos?