sexta-feira, 20 de julho de 2018

OS INGLESES FELIZES


Gente feliz num domingo de sol em Trafalgar Square
Estamos felizes e sabemos disso”, estampava uma manchete interna do jornal inglês The Times na semana passada. “Mas o quanto isso pode durar?”, indagava ao final. De fato, os dias que passei na Grã-Bretanha foram dias de muito sol e calor. Isso altera o humor das pessoas. Para aumentar ainda mais a alegria inglesa, o desempenho de sua seleção na Copa do Mundo, chegando pela primeira vez desde 1990 numa semifinal da Copa  também contribuía para a alegria nacional.
Bem que percebi. Quando soube dos prognósticos do tempo na Velha Ilha, tratei de botar na minha mala algumas roupas de frio. O verão costuma ser mais ou menos o nosso inverno em Campinas. Temperaturas entre 14 e 25°C . No entanto, em alguns momentos de nossa estada por ali, vimos temperaturas de até 30°C, numa onda de calor que já dura quase dois meses.
Nas ruas, viam-se shorts, bermudas, sandálias. Filas para sorvete. Ruas lotadas, praças mais ainda. À noite, casais passeavam pelas ruas de mãos dadas, felizes. O índice de alegria dos ingleses é em média 7,3/10 segundo a matéria do Times, citando um trabalho de Andy Rope, chamado em tradução livre de “Felicidade: seu roteiro para a alegria interior”. No entanto, naqueles dias quentes de verão e bons resultados do futebol, a alegria inglesa beirava os 9,5 segundo o jornal.
Claro que não era tudo maravilha. A própria matéria reconhecia que eles estavam num momento atípico. Lembravam do mau humor britânico de 2016, quando eles perderam George Michael, Prince, David Bowie. E, além do mais, eles votaram pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.
Naquele momento, nos finais de semana de verão, o centro da cidade era tomado pelas pessoas. No sábado, 7/julho, o Gay Pride londrino reunia dezenas de milhares de pessoas no tradicional bairro gay do Soho, numa alegria carnavalesca. Britânica, é claro. As grandes avenidas do centro estavam proibidas para os carros, e haviam diversos shows de música pelas ruas, de todos os tipos e gostos. Enfim, dias bons e alegres.
Na Trafalgar Square, as pessoas se acumulavam a beira dos chafarizes, conversando, tomando sorvete, bebendo cerveja. Famílias inteiras, muitos idosos, pessoas de todas as cores e todas as procedências. Africanos, indianos, asiáticos, e muitos latino americanos. Deus, como tinha brasileiro por lá! Volta e meia ouvia-se aqui e ali uma língua que eu conseguia entender mais ou menos. Trafalgar Square estava linda e ensolarada. Tanto que lá de cima de seu monumento colossal, Lord Nelson deve ter tido vontade de descer e aproveitar o momento.
Segundo um depoimento do prof.  Richard Wiseman (!) da Universidade de Hertfordshire nesta mesma matéria do The Times, quando o sol aparece as pessoas se tornam mais dispostas a aceitar e ser generosas com estranhos. No entanto, acima dos 21°C as pessoas vão se tornando mais agressivas e violentas. (Ainda bem que nós, seres dos trópicos, não participamos desta estatística...).
Os (poucos) dias que passei em Londres deu pra sentir essa alegria. Andamos e muito pelo centro da cidade, onde com frequência víamos as pessoas espantadas com tanto calor. E com tanto sol. De volta para a ensolarada Campinas, com temperaturas parecidas (mas no inverno!), fico aqui pensando como temos estado tristes e depressivos com nossa situação, com nossa política, com nossa economia. Estamos tristes nos trópicos.
A alegria dos britânicos dura pouco, e por isso mesmo, é bom que eles aproveitem. Segundo o peculiar humor deles, as vezes o verão (lá deles) cai no fim de semana. A matéria do Times terminava alertando para que as mudanças sazonais de humor não impactem tanto nossas vidas. Prof Wiseman, sábio como ele só, diz que “temos que ligar nossa identidade com coisas que estão no nosso controle, como o trabalho ou relacionamentos”. Ser um pouco estoico ajuda, segundo ele. A matéria termina clamando por mais estoicismo e por mais drizzle, a chata garoa londrina.
Nós aqui, no nosso ensolarado continente, precisamos superar nossa tristeza e apatia. Como? Tem várias maneiras. Ajudar uma causa, comer comida saudável, fazer exercícios. Participar dos problemas do nosso trabalho, do nosso bairro. Estar com a família, os amigos. Escolher bem seu candidato nas próximas eleições. Procurar soluções coletivas para problemas comuns.
Os ingleses até podem atrelar a alegria deles a um verão, ou à seleção de Gareth Southgate (?).
Para nós, alegria é a prova dos nove.

domingo, 3 de junho de 2018

O NASCIMENTO DE GUARAPIROCABA

O Mapa de Pedro de Souza Pereira (1653), que mostra as "minas de Paranaguá"

Este é o mais antigo mapa da baia de Paranaguá. Foi executado em abril de 1653 por Pedro de Souza Pereira, a mando do governador geral Salvador Correia de Sá & Benevides. Mais detalhes sobre este mapa podem ser obtidos aqui. 

Na metade do século XVII foram intensas as buscas de minas de ouro nos “sertões do Pernagoa”, que nada mais era que o vale dos rios Cubatão (hoje Nhundiaquara), Cachoeira e Faisqueira, compreendendo os atuais municípios de Antonina e Morretes. 

Este é um dos mais antigos mapas de recursos minerais do Brasil, uma vez que ali estão demarcadas as “minas” ou lavras de ouro da época. Desde 1995 estou estudando sobre a mineração de ouro no Brasil do século XVII. Estou neste momento preparando uma monografia sobre este tema.  

O que se pode apreender é que as minas de Pernagoa (leia-se Antonina & Morretes) foram importantes não pela quantidade de ouro gerada (menos de uma tonelada métrica em cem anos), mas pelo acúmulo de conhecimento e preparaçào do que hoje se conhece como "recursos humanos". 

Consta que foi um escravo (provavelmente índio) que trabalhou em Paranaguá o primeiro descobridor do ouro de Minas Gerais, conforme o relato do Padre Antonil. Muitos dos mineradores da região de Paranaguá se mudaram para as novas Minas Gerais, e lá fizeram suas vidas.

Legenda do mapa, mostrando as principais feições geográficas da Baia e a "ilha de Guarapirocaba"


O mapa é um típico mapa do século XVII, e procura mostrar a região em três dimensões, mostrando a vista da baía de Paranaguá para quem entra em sua barra. As proporções não são lá muito exatas, mas algumas feições geográficas estão bem representadas. 

Algumas denominações célebres, como Ilha do Mel e Ilha das Peças já existiam nessa época, como se pode ver na legenda. Ali consta, pela primeira vez, a expressão “ilha de guarapirocaba”, e não baia de guarapirocaba, conforme registra a nossa tradição, que vem de Ermelino de Leão.

 "A Ilha de Guarapirocaba" nada mais é que a atual ilha da Ponta Grossa, se não estou enganado. Outra feição bem característica é a menção ao caminho de queritiba, ou curitiba-iva, então o principal acesso para o Planalto

Vê-se que Curitiba, então um mero garimpo de serra-acima, ainda não tinha uma grafia consagrada. Outra coisa interessante é a atual ilha das rosas, denominada “Ilha dos guarás ou aves vermelhas”. O Nhundiaquara, o maior rio, é representado com uma canoa rasgando seu estuário e as denominações de minas em toda sua extensão. 

Outra coisa interessante sobre este mapa é que uma cópia dele foi capturada por piratas holandeses, alarmando os portugueses sobre um possível ataque as minas de Paranaguá, facilmente acessíveis por mar. Lembre-se que nesta época Holanda ainda dominava Pernambuco. 

Detalhe que mostra a baia de antonina, com  a indicação do caminho de Curitiba (Curitiba-iva), a Ilha de Guarapirocaba e a Ilha das Rosas

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O POVÃO ENTRA EM CENA



A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquela que a negue

(Chico Buarque , Canção pela unidade da América Latina)

Até agora eles estiveram ausentes das discussões, como se não fosse com eles. Olhavam de longe, desconfiados. Mas, apesar de desconfiados, pegavam os ônibus e iam trabalhar. Nestes últimos dias, foi diferente. Será que o “povão”, esta massa difusa que reúne operários, empregados do comercio e serviços, autônomos, técnicos e todos os serviços, finalmente entrou na arena política? Essa massa de trabalhadores não se mexeu durante o golpeachment. Também não se moveu durante a prisão de Lula. Mas estava lá, atenta.
Agora, aqui e ali, a montanha se move. As pessoas brotam como que do chão, e vão para os piquetes dos caminhoneiros. Leio na imprensa estrangeira (a BBC está dando um show de cobertura) que todos estão descontentes com a situação. Uma manicure de 33 anos num piquete na Regis Bittencourt relata ao ElPaís: "Tudo é muito caro. A gente não vive como poderia viver, porque nosso dinheiro é tão pouco e vai todo para imposto. O que você faz com um salário mínimo? Você vai no mercado e não consegue fazer uma compra decente". 
Mais adiante, no mesmo piquete, um outro manifestante, intitulando-se eleitor de Bolsonaro, diz ao repórter: "Você está contente com o país em que está vivendo? Tem que ter alguma coisa. O Temer está destruindo o Brasil". Ao ser perguntado se ele achava que a tal intervenção militar iria ajudar, ele não sabe responder.
Outros protestos ocorrem aqui e ali, de forma espontânea. Ontem, diversos pontos aqui de Campinas houve bloqueio de ruas e avenidas e dois ônibus foram queimados. Nada a ver com os piquetes. Nada a ver com os caminhoneiros. Todos estão perplexos com a situação.
O povão quer tirar este governo, por reconhece-lo corrupto e elitista. A greve dos caminhoneiros abriu esta possibilidade. Agora, não é mais um protesto de classe média. É a grande massa trabalhadora que entra em cena, coisa rara de ver na história do Brasil. Rara, mas sempre decisiva.
Assim foi nos momentos decisivos da abolição dos escravos. Assim foi nas manifestações de rua em 1983, quando encurralaram a Ditadura Militar com protestos e saques em diversos cantos do Brasil. Assim é a luta cotidiana de diversos movimentos populares, como as ocupações urbanas, os trabalhadores rurais sem-terra, os sem teto, os índios. Mas que hoje se potencializa e chega as cidades.
No entanto, essa grande massa é lenta e confusa. Sem direção. Há uma luta pela hegemonia deste movimento pelos grupos que querem uma intervenção militar. Sem Lula, preso em Curitiba, a massa está confusa e sem saber o rumo. Nestes dias, esteve sob a influência dos autoritários. Trata-se, entretanto, de uma intervenção militar confusa, sui generis, que ninguém sabe direito o que é. Algo como uma cura milagrosa, um remédio salvador. Coisa temporária, dizem alguns, para consertar o país. Mas ninguém sabe dizer ao certo o que é, como deve ser feita.
Para estas pessoas a solução mágica foi dada. Intervenção militar. Como a esquerda fez que foi e não foi, a massa está sendo cooptada por este movimento autoritário e com matizes fascistas. Limpar quem, cara pálida? Só os políticos? Aham. Já vimos este filme.
Desde a deposição da presidenta Dilma pelo Congresso, naquela sessão dos horrores há dois anos, só vemos a situação piorando. Como era previsto, há uma anarquia institucional, um bate-cabeça generalizado entre os três poderes. Um ministério publico enlouquecido. O Fla-flu disputando o discurso hegemônico até então se resumia à classe média. Agora, um novo personagem entra em campo. O povão.
Os protestos populares começaram a se diluir nas estradas na tarde desta terça. Os dirigentes sindicais dos caminhoneiros dizem que acabou, é pra se desmobilizar. Mas eles, os caminhoneiros e o povo, não se desmobilizam. Sentem que ali há uma chance. Sentem que há uma chance de ir além e mudar o país. Como? Ninguém sabe.
Parece que os protestos destes últimos dias, e mesmo os pedidos de intervenção militar não são nada mais nada menos que um grande, confuso e difuso Fora Temer. O povo não aguenta mais o presidente vampiro e seu governo zumbi, como eles mesmo disseram nas ruas e nas estradas. Não aguenta mais a economia, a política, os escândalos de corrupção abafados pelo congresso.
Mais do que intervenção militar, o povão está querendo um monumental Fora Temer.
Fora Temer.

domingo, 27 de maio de 2018

A BOLEIA E A REVOLUÇÃO





Estamos vivendo um momento revolucionário. Quem disse isso foi o grande cientista social Léo, da dupla sertaneja Victor e Léo. Conhecido pelas suas posições conservadoras, o sertanejo Léo tem hoje uma posição coincidente com o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU.
A apresentadora Rachel Sheerazade, a rainha do mais tosco reacionarismo nacional, gravou um vídeo em que se mostra perplexa com os caminhoneiros “baderneiros, que querem nos transformar numa Venezuela”. Em diversos sites e comentários de esquerda, pessoas criticam o caráter reacionário dos caminhoneiros. Muitos, inclusive eu, lembraram o papel dos caminhoneiros chilenos na queda de Allende.
Por todos estes pequenos exemplos, vê-se que a greve dos caminhoneiros tem dado vazão a uma série de manifestações contraditórias. Muitos tem medo de uma greve de caminhoneiros, pelos mais diversos motivos. Alguns se assustam com os problemas de abastecimento. Na quarta e quinta, a correria aos postos de gasolina foi histérica. Outros tem medo pois muitas noticias dão conta de que grupos de caminhoneiros apoiam uma intervenção militar.
O governo, através do ministro Raul Jungman, desde quarta feira tem dito que a greve é um locaute, ou seja, uma greve de patrões, o que é proibida por lei. Por outro lado, na quinta feira chegou a fazer uma reunião em que firmou um acordo que poria fim a greve. Faltou, entretanto, combinar com os russos, ou melhor, com os caminhoneiros. Sexta o movimento continuou e recrudesceu. Por fim, Temer, o sem-força, teve que apelar para o exército e as policias estaduais.
Mas, afinal, quem são os caminhoneiros? Heróis ou bandidos? Direita ou esquerda?
Ao que tudo indica, o resultado é muito mais complexo que se imagina. Para o professor Ricardo Antunes (ver aqui), a forma de trabalho dos caminhoneiros faz com que as suas greves tenham em geral um grande componente patronal. Somente 45% dos caminhoneiros são autônomos. o restante trabalha para empresas de logística. Quando há confluência entre os interesses dos caminhoneiros e de seus patrões, o que é o caso nesta greve, as paralizações tornam-se mais fortes. 
Como notou a professora Larissa Riberti num texto que viralizou no facebook (tirei daqui), trata-se de uma luta complexa, e que não é uma luta do bem contra o mal. Não é a toa que encontramos posições politicas tão diversas nessa categoria que envolve desde empresários até "proletários do transporte". Os sindicatos estão batendo cabeça brigando entre si enquanto a base segue firme na luta, fechando as estradas. Existem caminhoneiros de todos os matizes ideológicos, como no resto da sociedade. Não há polarização ideológica nem nos tuites contra e a favor da greve. 
Claro que existem os malucos que defendem uma intervenção militar (E que devem estar bem felizes com a intervenção militar em cima deles...). Estes são os mais estridentes. Vi um video de um maluco discursando em cima de um tanque. Patético. Mas não quer dizer que sejam maioria. Assim como foi provado no episódio do assassinato de Marielle, tais grupos radicais são ativos, mas minoritários. E, até o momento, os militares "de verdade" seguem as diretrizes do governo do Vampiro, reprimindo o movimento.
Por outro lado, eu acho que esse lado "proletário" do movimento é o que mais assusta. Em geral o caminhoneiro é um cara de classe média baixa, sem muita escolarização, vivendo no limite da reprodução de sua mão de obra. Nisso ele não é diferente do operário que trabalha numa fabrica e recebe salário. Sua identificação como igual pelo povo é imediata. Talvez por isso a repulsa de Sheerazade e de muitos colegas de academia. 
Temos muito medo de revoltas populares. Assim como no passado nossa elite e classes médias eram aterrorizadas com o medo de uma revolta dos escravos. O medo de uma revolta popular nos paralisa. O caminhoneiro assim se impõe no imaginário dos humildes como um herói que afronta um governo impopular. Na classe média, é o perigo proletário que surge, trazendo desabastecimento e - horror dos horrores! - a falta de gasolina.
Na extrema direita, é um aliado a favor da intervenção militar. Para a esquerda, um agente reacionário. Para a extrema esquerda, o estopim de uma greve geral que traga a revolução. Para os neoliberais, um sinal de que precisa privatizar tudo. 
Enquanto isso, no mundo real, os piquetes continuam, a gasolina vai voltando devagar aos postos. Mas as pessoas continuam ressabiadas. Ninguém sabe o que fazer. 
Quando deram o "golpe do impeachment", que destituiu um governo legitimamente eleito, foi aberta uma caixa de pandora. Felizmente, apesar da retórica de alguns, ainda não pegamos em armas. Mas, como no mito, ainda tem muito diabo pra sair dessa caixa.
Neste momento, não sabemos mais quem manda no país. Só nas rodovias. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

UM PAIS NA BANGUELA



Sem caminhão o Brasil para, não é isso? É uma verdade nestes dias que correm. A greve dos caminhões chega ao seu quinto dia, com radicalização de todas as partes. O governo Temer, esse zumbi comandado por um vampiro, não sabe como sair da armadilha que ele mesmo criou. Os grevistas, numerosos e radicalizados, não tem comando efetivo e a anarquia começa a se instalar em vários lugares.
Ao que tudo indica, o movimento começou espontâneo. Os caminhoneiros autônomos, que em geral trabalham sempre na estica, com uma margem de sobrevivência muito estreita, não aguentou a política de preços promovida por Pedro parente, o homem do golpe dirigindo a Petrobras.
A frota brasileira de caminhões é uma das mais velhas do mundo. Os caminhoneiros não têm como comprar caminhões novos. Vivem trabalhando no limite da resistência física, a base de rebites e outros quetais. Os acidentes nas rodovias envolvendo caminhões tem uma frequência assustadora.
Por isso, a política “neoliberal” de Pedro Parente, de fazer reajustes automáticos do preço do combustível estava inviabilizando a vida dos caminhoneiros autônomos. Impossibilitados de manter suas parcas rendas, eles se rebelaram de maneira espontânea na ultima segunda feira.
O movimento acabou crescendo com a adesão de empresários, donos de grandes frotas, também pressionados pela política de preços de Pedro Parente. A greve, que era de autônomos, virou uma greve também de patrões. Não por acaso, as acusações de locaute são frequentes, tanto no governo quanto na imprensa.
A reunião em Brasília ontem, com os ministros do governo, foi uma reunião de empresários e algumas centrais sindicais. Não estava visível, a princípio, mas as pessoas que fizeram o acordo com Eliseu Padilha não tinham representatividade no movimento. O movimento não aceitou o acordo, e a radicalização aumenta.
Agora, surgem outros fantasmas. Temer, o presidente vampirode um governo zumbi, ameaça com a força. Escutam-se, entre alguns caminhoneiros, vozes pedindo intervenção militar. Os incendiários começam a divulgar mensagens para espalhar o térreo e o medo entre a população. Enquanto isso, o desabastecimento começa a ser uma ameaça real para milhões de pessoas.
O acordo que seria firmado entre o governo e os caminhoneiros começa a ser visto de uma maneira diferente. Muitos apoiam o movimento. Outros, criticam o fato de uma categoria usar de seu poder de pressão para obter um acordo que beira a chantagem. Outros movimentos surgem, como o dos motoboys e o de motoristas de van, pedindo uma diminuição também no preço da gasolina.
Eu particularmente, tenho muito receio de movimentações de caminhoneiros. Uma greve destas, em 1972 no Chile, acabou sendo o estopim do golpe que depôs Salvador Allende. Depois, se soube que o movimento dos caminhoneiros havia sido patrocinado pela CIA. Em 2015, um locaute semelhante pedia a deposição do governo de Dilma Rousseff.
Temer precisa de Pedro Parente. Por trás dos preços cada vez mais altos dos combustíveis estão setores ligados à distribuição do petróleo. Também adoram essa política o poderoso setor sucroalcooleiro, que amargou muitas perdas no passado com a política de manter baixo o preço da gasolina.
O impasse está criado. Vamos sofrer um final de semana de radicalização e desabastecimento. Outras greves semelhantes podem se formar no rastro da paralização dos caminhoneiros. O governo não tem credibilidade nem representa nada além dele mesmo, pois foi produto de uma deposição de um governo legalmente eleito. Não consegue nem ser neoliberal. Com o congresso do seu lado, não conseguiu aprovar todas as reformas que o capital queria. (O trabalho que trabalhe mais, e se cale.)
Usar a força nunca é bom. Paradoxalmente, pode ser um sinal de fraqueza. Deixar a população refém de uma categoria também não é bom, pois gera caos e anarquia. Da justiça brasileira nem é bom falar. Ela é responsável por boa parte do caos em que nos encontramos. a saída é o improviso, a falta de organização, a anarquia.
Vem a minha cabeça aquela frase que sempre achei injusta. Aquela que dizia que nós brasileiros não precisamos de furacões e terremotos. Temos nós mesmos, a brigar nas redes sociais num fla-flu sem fim. Temos um congresso que só se reúne para definir seus próprios interesses. Uma justiça capenga e parcial. E um presidente que não enxerga seu rosto no espelho.
Que São Mad Max olhe por nós.

sábado, 5 de maio de 2018

O CAMINHO DE DAMASCO DA DEMOCRACIA


Estamos desmoronando? (tirei daqui)
Este está sendo um mês de maio de céu azul e um pouco de calor. O ar está seco. Não como fica em agosto ou setembro, mas está seco. As acerolas do fundo do quintal começam a rarear. Somente conseguimos algumas com muito esforço, nos galhos mais altos. Daqui a pouco, não haverá mais acerolas.
Estive doente um tempo. Segundo a médica que me atendeu, é uma sinusite. Foi então que entendi porque estava tão cansado, o ar tão difícil, a respiração difícil mesmo nos dias mais bonitos. Não é bonito estar doente.
Estive em viagem de campo quando vi as notícias do prédio que desabou. Mais uma tragédia causada por um estado desorganizado e pela criminalização da pobreza. Vi uma entrevista da urbanista Raquel Rolnik sobre o caso, criticando a política habitacional brasileira, causadora desta e de tantas tragédias.
Mas ninguém está nem aí para as tragédias. Parece que a engrenagem dos que querem ver sangue a todo custo começa a se movimentar. Os movimentos são previsíveis: 1) duas pessoas, ativistas que estavam no acampamento pró-Lulaem Curitiba são baleadas; 2) no mesmo acampamento, um delegado da policia federalinvade o acampamento e quebra equipamentos. A máquina de assustar e de matar, tão cara ao imaginário dos nossos homens de bem, está à solta. Com direito a palmas e likes.
Enquanto isso, nova tragédia se desenrola no centro velho de São Paulo. O movimento já é conhecido do caso Marielle: as redes começam a injuria “ad hominem” [injúria à pessoa, e não às suas ideias ou ações]: os ocupantes são bandidos, marginais, arruaceiros.
 Um dos mortos, Ricardo Oliveira Galvão Pinheiro, rapidamente aparece nas redes como membro do PCC, matador de policiais, tinha extensa ficha criminal e voltou ao prédio para recolher malas de dinheiro. Nada disso era verdade.
Será que as tragédias não podem ser vividas sem que tenham que ser ajustadas ao roteiro destes haters?
Entre os desabrigados existem muitas pessoas de bem, pessoas dignas. Mas, é claro, não se pode ver isso. Se estão brigando por seus direitos com as armas do movimento popular são logo “bandidos”. Não ganhar o suficiente para um aluguel, por mais barato que seja, é uma prova criminal. Uma ficha corrida.
Estamos bem. Já cruzamos diversas linhas. Em novembro de 2014 os atuais homens de bem, atendendo ao apelo de Aécio Neves, a quem hoje dizem que desprezam, começaram a obstruir e liquidar um governo legitimamente eleito. Hoje, não se sabe quem manda mais no país, se o Supremo, o Congresso, o pífio presidente traíra ou um juiz de primeira instância.
As linhas estão sendo cruzadas: não se respeitam eleições, não se respeitam leis, não se respeitam instituições. Não se respeitam adversários políticos. Um shopping de Londrina, cidade em que tenho família e que tanto gosto, abriga um stand de tiro cujos alvos são os ex-presidentes Lula e Dilma. Crianças aprendem a odiar. Sabemos o fim disso, não é, Adolfo?
Estamos em maio. O clima anuncia chuvas e trovoadas, apesar do tempo seco que se anuncia. O ódio se alastra. Pessoas de bem são mais uma vez usadas como bucha de canhão de interesses excusos. Alegremente, postam absurdos, xingam, desrespeitam. Por enquanto, e só por enquanto, alguns arriscam um tirinho aqui e ali.
É a democracia a brasileira encontrando seu caminho de Damasco?

domingo, 22 de abril de 2018

OS FEIOS E FEDIDOS CHEGARAM


"hein? Capitalismo Mercantil? no comprendo..."
Já vai já meio milênio e mais de dezoito anos.

Certo dia, uma praia na Terra dos Papagaios amanheceu com uns barcos estranhos ao longo da costa. Lá pelo meio do dia, veio uma canoa para a praia. Eram uns caras feios, fedidos, macilentos. Queriam água, comida. Foi dada comida pra que fossem embora logo. Depois de uns dias, com uma cara melhor, mas ainda fedidos, vieram aos montes pra uma pequena ilha em frente. Estavam com medo.

Lá na ilha, um cara vestindo uma longa túnica preta, começou a falar algumas coisas sérias para os outros, que ouviam compungidos. Deveria ser algo religioso, ou coisa que o valha. Ergueu um pedaço de comida na mão, molhou numa taça com uma bebida vermelha e estranha, comeu e deu de comer para os outros. Primeiro, para os chefes, depois para o resto.

O chefe, este. Tinha muito medo, andava sempre escoltado. Tinha umas roupas vermelhas, usava uns colares estranhos. Tinha um olhar meio blasé, olhava tudo e todos de cima, menos o tal da túnica preta. Perto dele, outro homem com roupa simples ficava atento olhando tudo. De vez em quando, fazia algumas anotações num pedaço de papel.

Os outros, ficavam levando barris e barris de água pra dentro dos barcos, levavam comida, lavavam tudo. Ficavam olhando espantados para as mulheres na beira da praia. Parecia que nunca tinham visto mulher. Olhavam com vergonha, de olhos baixos, como se não quisessem ver. Estranhos.

Alguns foram lá nos barcos. O chefe lhes deu uns vidros coloridos e uns espelhos, de que gostaram muito. Viram alguns animais estranhos, um deles parecia um jacu pequeno, só que com penas vermelhas.

Depois de alguns dias, dois dos navios se foram, levando os papeis que o homem atento ficou dias e dias escrevendo. Os outros acabaram convencendo um dos nossos a ir com eles. Ele achou divertido, e se foi.

No dia de irem embora, deixaram três deles aqui na praia. Os homens ficaram chorando feito filhote de jaguar que perde a mãe. Parecia que ficavam por castigo.

Castigo ou não castigo, isso não era com a gente. Um deles foi morto neste mesmo dia, e fizemos uma grande festa com muita bebida. Pena que a carne do sujeito fosse tão dura e sem gosto. Os outros dois, ficaram um tempo mais por aqui e os matamos depois de uma grande vitória sobre os temiminós, nossos inimigos. Com um pouquinho de comida saudável e descanso, a carne deles ficou mais aceitável.

Dos outros, nem soubemos mais. Diz-que foram para as Índias, em busca de fortuna.

Pra que, se o Paraíso é aqui, e agora?

(este é um texto antigo, repaginado...acho que ainda rola...)

sábado, 14 de abril de 2018

SONATA DE OUTONO


https://sarahabed.com/about/
tirei daqui
O dia está ensolarado. Um pouco de vento, e uns cirros no céu anunciam uma chuva para breve. Chuva que, por certo, não virá, ressecando o solo, as plantas e nossas vidas.  É nosso outono.

Ontem à noite fui surpreendido com a noticia do ataque americano (mais ingleses e franceses) em instalações na Síria, que supostamente abrigariam armas químicas. Fui dormir sem saber se acordaria num mundo conflagrado, já que havia promessa de resposta russa. O Armagedon pululuva nas redes sociais.

Hoje, já se sabe que, fora os danos de sempre, nada aconteceu de verdade. Algumas instalações sírias foram destruídas. Os russos protestam veementemente, mas não encostaram o dedo em seus próprios mísseis. Uma reclamação formal e uma proposta de reunião do Conselho de Segurança. O próprio Secretário-Geral condena o ataque. Aqui ao meu lado ouço o barulho das crianças da casa ao lado brincando na piscina.

Por curiosidade, deixo a televisão ligada na Al-Jazeera. De cara, vejo um debate entre um analista da Bloomberg e Glenn Greenwald, do Intercept. Debate duro. A mesma toda dos outros debates que vejo depois: por um lado uns acusam Trump de piorar o que já estava ruim, e ainda usando o argumento das armas químicas. O próprio Secretário-Geral da ONU Guterres disse que haviam técnicos no local prontos para investigar se ali haviam armas químicas. Do outro, a alegação de que era preciso combater armas químicas e os civis sírios.

Milhões de sírios estão dispersos hoje pelo mundo. Vivendo em acampamentos, tomando barcos frágeis sob controle de contrabandistas para fugir da guerra civil que já dura sete anos. E eles são quem tem que arcar com os custos em vidas e infraestrutura por cada ação militar, “cirúrgica” ou não, cometida em seu território, no intrincado xadrez que é a guerra civil lá deles.

Continuo vendo a al-Jazeera. Logo depois, um duro debate entre um representante palestino e um ex-ministro da justiça de Israel sobre os últimos acontecimentos em Gaza. Pelo que entendi, tropas israelenses e mesmo snipers foram usados para dispersar uma manifestação palestina na faixa de Gaza. Outro debate duro.

Fui cuidar da casa. Afinal, o mundo não vai acabar, e tenho coisas a fazer. Fico me lembrando do nosso quintal. Há uma semana Lula está preso em Curitiba. Um tribunal desses aí tirou o agora ex-governador Geraldo Alckmin da lista da Lava Jato. O entendimento é que o caixa dois não é crime, e tem que ser julgado na justiça criminal. Parece que a sangria vai sendo estancada. Com o Supremo, com tudo.

O mundo não vai acabar. Ao menos por enquanto. Tem muito louco à solta por aí, com poder para fazer isso acontecer. Aqui, ninguém sabe o que vai acontecer. Estamos longe de virar uma síria. Mas tem muito louco que gostaria de fazer isso acontecer em terras tupiniquins. Não seria difícil. Já temos uma guerra civil latente contra os pobres. As milícias já estão ocupando território, como nas guerras civis mais banais. Mas ninguém do lado de cá do “apartheid” em que vivemos pensa nisso a sério, como Marielle Franco pensou.

Um mês do assassinato de Marielle, e tudo vai se resumindo a notícias cada vez mais esparsas e cartazes desbotados nos corredores da universidade. Milhões de pessoas em todo mundo apoiam o bombardeio de Trump sem questionar. Na televisão, aberta, fechada ou por streaming, o que se vê são “famosos”. Nas redes sociais, podemos saber mais sobre eles: quem são? Como se reproduzem? A banalidade vai tornando tudo irreal, tudo borrado e apagado como uma folha de papel impressa que ficou na chuva.

O Armagedon de ontem à noite se dilui como as nuvens que vi no céu há pouco.  Uma amiga querida me corrige que a Al-Jazeera é igual ao nosso PIG, e que suas matérias sobre a guerra civil na síria são igualmente ridículas. Concordo. Acho que estou muito preso ao meu umbigo, sem procurar ver o que acontece no mundo, como fazia antes. Vamos lá, então. O outono está só começando.

domingo, 8 de abril de 2018

AS RIMAS DE ADEODATO


o bravo Adeodato, líder camponês do Contestado, preso em 1916
Em 14 de agosto de 1916 o jornal O Dia – órgão do Partido Republicano Catarinense informou sobre a chegada de Adeodato, o último grande líder da Revolta do Contestado, preso, à capital do estado.
Adeodato, ou Leodato, era um mulato de 29 anos. Tinha sido, nos últimos tempos da revolta do Contestado, o chefe do reduto de Taquaruçu. Neste reduto, onde viviam mais de 10 mil pessoas, o jovem Adeodato era o chefe incontestável.
De todas as lideranças do contestado, Adeodato era o primeiro grande chefe que não era beato. O movimento havia sido iniciado com a veneração a São Joao De Maria, um beato que percorrera a região no final do século XIX, tendo desaparecido sem que se soubesse seu destino.
Foi sucedido por São José de Maria, o beato Guerreiro, que havia pregado nos sertões de Santa Catarina. Havia separado seu povo escolhido, os pelados, que tinham sua cabeça raspada em sinal de devoção. Os pelados se contrapunham aos peludos, os outros, que representavam os grandes proprietários de terras, o governo, as grandes companhias ferroviárias.
São João de Maria morreu em combate em 1912, na batalha do Irani, quando os seu pelados derrotaram uma companhia da Policia Militar do Paraná, comandada pelo coronel João Gualberto. Joao Gualberto, tão valente quanto inconsequente, adentrou o acampamento matando mulheres e crianças, tendo sido detido pelos pelados, que destroçaram sua companhia em combate singular, matando João Gualberto a golpes de facão.
Adeodato comandou Taquaruçu, o último dos grandes redutos dos pelados entre 1915 a 1916, quando foi preso. Chefe camponês, Adeodato comandou o reduto com mãos de ferro, liquidando qualquer um que se opusesse a ele. O terror de Adeodato foi decisivo na unidade dos pelados nos últimos combates em Taquaruçu, em 1916. Por fim, o “Antônio Silvino do Contestado” foi preso e enviado para Florianópolis.
Adeodato foi julgado e condenado a 30 anos de prisão. No momento de sua sentença, uma testemunha ocular anotou as rimas que o réu declamou para o tribunal reunido e o público assistente. Em seus versos, repletos de ironias, Adeodato fez seu canto e sua defesa.

Adeodato zombou dos vencedores e expôs cruamente as agruras dos camponeses do Contestado, uma guerra que o Brasil (e o sul do Brasil, hoje tão conservador e reacionário) faz questão de esquecer:

Trinta ano vô cantá
Relatando as travessura
Que aqui neste processo
Acoumaro de diabrura
Me acusaro de mir morte
Que levei a sepultura
Mas levei aqui do mundo
Dei descanso às criatura

Nada disso acho crime
Ao contrário é bravura
Afastei aqui do mundo
Os que tinha vida dura
Bem por isso tô contente
De luta, nesta artura
Pra tira muitos cabocro
Das pobreza e das agrura

Sô iguar a picapau
Que qualquer madeira fura
Sô nas carta o Rei de Espada
Desaforo não atura
Sô quinem toro de briga
Por nadinha armo turra
Nego bão de minha raça
Não tem chão que se apura

Pra tirar os mar do mundo
Tinha feito uma jura
Ajudei nosso governo
A quem amo de ternura
Acabei com deiz mil pobre
Que livrei da escravatura
Liquidei todos faminto
 E os doente sem mais cura

Quem quisesse terra e escola
Eu lis dava uma surra
Ajudando os do governo
No recheio de suas burra
A pobreza pro inferno
Onde lá o diabo urra
Essa terra é de nos rico
Nossas veias são mais pura!

A pobreza que se enforque
E se enterre numa lura
Sendo pobre é oireiudo
Só os bobo é que zurra
Os que nasce bem esperto
Bom emprego eles percura
Quem é pobre nesse mundo
Só merece sepurtura

Bem agora me despeço
Só dos rico, com doçura
Tenho sombra e agua fresca
Na cadeia tem fartura
C´um abraço ao meu governo
Deixo a minha assinatura
Por Leodato M. Ramos
Arrespondo nessa artura

Adeodato foi um dos grandes líderes camponeses do Brasil, cuja memoria precisa ser lembrada. Este dados foram compilados do livro “Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916”, do professor Paulo Pinheiro machado da UFSC; .
A história completa pode ser encontrada em: Machado, Paulo Pinheiro. Lideranças do contestado: a formação e a actuação das chefias caboclas, 1912-1916. Vol. 17. Editora da UNICAMP, 2004.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

HÁ MUITA PRESSA NESSA NOITE


copiei daqui
Há muita pressa nessa noite. Há uma pressa em julgar e condenar. Que pressa é essa? Ao que parece, essa noite o confronto foi adiado. Amanhã, o desfecho.
Há também uma certa pressa neste desfecho. Que desfecho? O que acontecerá nesta bela manhã de 7 de abril? Na noite de amanhã muitos dormirão satisfeitos, achando que sua sede de vingança foi saciada. Muitos tripudiarão e escarnecerão de quem lutou gritou e esperneou, mas perdeu.
Quem perdeu? Quem ganhou? Essa não é uma resposta simples nesta fresca manhã de abril. Quem perde com uma justiça vingadora? Uma justiça vingadora que quer punir de qualquer jeito, é a melhor negação que existe de justiça. Justiça?
Há quem sonhe com justiça. Há quem sonhe com um mundo de bons e maus. Mas o que não vemos é que nosso mundo é um mundo de trabalho e capital, todos igualmente bons e maus, cada um à sua maneira. O que existe é um mundo de interesses. Uns mais outros menos mesquinhos. Todos igualmente bons e igualmente maus, dependendo de como se olha.
O mundo não é simples. Nem comporta mocinhos e bandidos. É um mundo de interesses. Capital quer o trabalho de quem não tem capital. O trabalho quer trabalhar e arrancar uma migalha do capital. O capital não gosta do trabalho: é feio, sujo, imundo, fala mal. O trabalho também não gosta do capital, mas tolera seu salário mensal.
Há muita pressa nessa noite. O capital tem pressa (Tempo é dinheiro!). Precisamos tirar tudo do trabalho: sua voz, seu líder, sua inspiração, sua moral. Parece que não há garantias para quem defendo o trabalho. O próprio trabalho parece hesitante, em sua luta contra o capital.
Nesta noite, alguns dormem. Outros, fazem vigília. Outros pensam que fazem o certo, o bom, o moral. São anjos, são puros, balança na mão e espada na outra. A procuração de Deus no elástico da cueca. Anjos de cueca no reino do capital.  
Há muita pressa. Há pouca justiça. Há o trabalho. E há o capital.  

domingo, 1 de abril de 2018

UM PRIMEIRO DE ABRIL CONTRA A MENTIRA



Hoje é primeiro de abril e domingo de Páscoa. Qualquer coisa que seja dita hoje pode cair na brincadeira de 1° de abril. Aliás, estamos numa época em que parece que todo dia é primeiro de abril. As disputas ferozes de narrativas que temos visto no mundo todo nestes últimos anos pelo menos estão colocando-nos todos numa situação muito complicada.
Eu sinceramente acho que tudo isso começa com a crise do subprime em 2008. Desde lá, como na crise de 1929, as economias centrais e as periféricas começaram a patinar. As pessoas, a se desentender. O preço de diversas mercadorias (eu ia dizer commodity, mas fiquei com vergonha...) começaram a despencar. Com isso, varias economias baseadas na exportação de produtos primários acaba sofrendo. Mas enfim, não sou economista pra dizer isso com todas as letras.
Por outro lado, temos uma narrativa política a ser debatida. Foi Golpe ou foi impeachment? Tecnicamente, foi um impeachment, tudo dentro da lei. Certo? Sim, foi dentro da Lei. Mas todo impeachment não é sobre crimes, é sobre política. O impeachment de Dilma Rousseff foi político. No entanto, a razão subjacente era outra: tinha-se que, nas palavras imortalizadas por Romero Jucá, “estancar a sangria”. Sangria do que? Da lava jato. Livrar os políticos envolvidos nas investigações com um “grande acordo”, ainda nas imorredouras palavras de Jucá, “com Supremo, com tudo”. Uma vez que era político, era preciso interpretar a lei até o seu limite, porem sem torcer demais. Como lavar roupa de seda.
Por tudo isso, o impeachment de Dilma foi uma farsa. Para a jornalista do New York Times, Amanda Staub, que não é comunista nem trabalha para um jornal comunista, dizer que o medo da lava jato dá “às elites políticas [brasileiras] um meio e um incentivo para expor seus rivais, sabendo que isso provavelmente os arruinará”. Por isso a felicidade com que os deputados e depois os senadores participaram daquela votação grotesca de maio e depois de agosto. Lembram?
Mas hoje é primeiro de abril. Há 54 anos atrás teve inicio o golpe que levou os militares ao poder no Brasil. Com a polarização que temos neste momento, vejo muitos posts louvando a Ditadura e tentando mesmo mudar a narrativa. Inúmeras fake news são postadas a todo momento para reforçar isso. O levantamento das postagens após a morte da vereadora Marielle Franco mostrou que se trata de um grupo minoritário, menos de 7%. Mas isso não quer dizer que não seja importante. E preocupante.
A rapidez com que as pessoas se apegam as noticias falsas é uma coisa preocupante. Numa entrevista recente ao jornal El Pais, o ciberengenherio Christopher Wylie expos alguns fatos ligados ao recente escândalo da Cambridge Analytica (veja mais sobre o escândalo aqui), que trabalhou nas eleições de Trump e do Brexit. Ele afirma cabalmente que houve trapaça, que houve distribuição de notícias falsas para enganar os eleitores.
A Cambridge Analytica atuava, por exemplo, identificando nas redes sociais pessoas suscetíveis a cair em teorias conspiratórias. A partir daí, segundo Christopher Wylie,você fabrica blogs ou sites que parecem notícias e os mostra o tempo todo às pessoas mais receptivas a esse pensamento conspiratório”. Estas pessoas começam a replicar este conteúdo e não acreditam nas noticias veiculadas pelos jornais sérios. Segundo ele, aconteceu nos Estados Unidos com uma notícia que Obama estaria enviando tropas para o Texas porque ele não deixaria o governo. A noticia era falsa, mas criou uma comoção tremenda. Assim vão manipulando as pessoas.
A  manipulação no Brasil já está acontecendo. Há anos, como o caso do Lulinha ser o dono da Friboi. Muita gente “de bem” acreditou.  Foi bem claro no episódio da morte de Marielle Franco. Na semana seguinte, com os tiros à caravana de Lula, as noticias falsas pulularam. Paginas do facebook foram tiradas do ar por propagar noticias falsas e calunias. A tal desembargadora de ideias racistas e homofóbicas vai sofrer processo. Mas os robozinhos continuam. Movimentos como o MBL continuam a propagar mentiras.
As pessoas não percebem isso? Não, e por um motivo muito simples: os robozinhos dão o que eles querem receber. Alimentam com notícias que falsas, mas que comprovam uma ideia que a pessoa já tem. E o ciclo da ignorância se fecha. O círculo da ignorância só beneficia o fascismo que está no ar, denso como uma fumaça tóxica.
Neste primeiro de abril precisamos paradoxalmente estar alertas para a mentira.

sexta-feira, 16 de março de 2018

ODE PARA MARIELLE



Marielle era mulher e negra a foi assassinada anteontem. Centenas de negros são assassinados no Brasil todos os dias. Muitos destes negros e negras assassinados eram policiais. Muitos cidadãos negros, muitos outros, mas que não são nem policiais nem soldados, são assassinados todos os dias.
Marielle era mulher e negra e vereadora. Foi eleita com 65.000 votos. Marielle não era só uma mulher negra: era uma delegada do povo. Ela representava milhares de pessoas, muitas pessoas mais que as que votaram nela. Marielle era um símbolo.
Marielle era negra e pobre. No entanto, venceu essas dificuldades, tornou-se socióloga, tornou-se militante. Em sua militância, conseguiu apoios e foi eleita vereadora. Uma vereadora dos pobres. Marielle era uma lutadora.
Mariele era vereadora e negra. Lutava pelos seus, os da Maré, da Rocinha, de Acari. Denunciava a morte de negros pela polícia. Denunciava a morte de policiais pelas milícias. Ajudava as famílias dos atingidos pela violência, sem distinção. Lutava contra a invasão das casas das pessoas sem mandado, contra a intervenção de Temer. Marielle era um alvo.
Marielle era vereadora e negra e mulher. Foi executada depois de denunciar as mortes que estavam ocorrendo sob a intervenção. Dois homens, cinco tiros, queima roupa. Coisa de gente que sabe do assunto. Marielle não é mais.
Marielle é uma, Marielle é muitas. Marielle é milhões.  Juntas as Marielles, de um lado e de outro da vida. A Marielle vereadora, a Marielle militante, a Marielle mulher, a Marielle lutadora. Marielle é mais.
Juntas as Marielles. Gritam seus gritos de dor e esperança. A Maré vai mudar. Marielle é um simbolo, um alvo. Marielle é mais.
Gritem todos que os direitos humanos só servem pra bandido. Quando a policia invadir sua casa, lembrem-se de Marielle.