sábado, 19 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 4)


Desembarque de passageiros no porto do Rio de Janeiro no século XIX. Imagine-se como era em Antonina...
A Villa Antonina estava animada em 1854, no início da emancipação da província. Eram vários os motivos para que os capelistas rissem à toa. A economia aumentava, pessoas começavam a antever um futuro melhor para os seus negócios. O principal motivo era que estava sendo desenvolvido, ainda que lentamente, um sistema de transporte de cabotagem baseado principalmente em navios a vela e que fazia a transição para navios movidos a carvão (ver mais detalhes aqui). Desde a Regência havia se iniciado uma incipiente navegação de cabotagem no Brasil. A Deitada-a-beira-do-mar era um dos pontos onde os navios atracavam.
Mas existiam vários problemas a serem resolvidos. Um deles era a falta de atracadouros. Não haviam locais bons para que passageiros e mercadorias pudessem desembarcar. Em 1858, o naturalista suíço Albert Tschudi (1818 -1889) assim descreveu o atracadouro:
Na baixa-mar, o desembarcadouro [de Antonina] é uma costa lamacenta muito traiçoeira; um dique de pedras nuas, nas quais há sempre o perigo de quebrar as pernas, não o torna nada melhor” (ver aqui).
Provavelmente o transporte de cargas e de pessoas era feito por pequenas canoas e chatas das embarcações até terra firme. Somente em 1865 o engenheiro Antônio Rebouças teve seu plano de construir uma ponte de embarque em Antonina aprovado. Não sabemos se teve sucesso ou se o atracadouro da cidade ainda teve que esperar ainda mais alguns anos (aqui).
Ainda em 1855 (ver aqui) o administrador interino da Mesa de Rendas, um dos órgãos ligados ao porto, estabelecia que o trabalho de embarque de mercadorias seria feito tão somente no lugar denominado Ponta da Pedra, no cais localizado em frente a rua Ypiranga (onde seria?). No regulamento (aqui) Pinheiro estabelece que todo aquele que “de algum ponto ou praia” se dirigirem ás embarcações terão as mercadorias apreendidas. Quanto contrabando deve ter passado....
Um relatório da Mesa de Rendas da Villa Antonina, publicada em novembro de 1854 (aqui), nos diz que, de maio a novembro, atracaram 29 embarcações no porto. Destes, 11 eram navios de pequena tonelagem, como lanchas, escunas ou iates. Estes barcos pequenos, movidos a vela, faziam transporte local, em geral para Santos, Iguape ou para os portos de Santa Catarina.
Os barcos médios, brigues ou patachos, alcançavam até 100 toneladas. Eram igualmente embarcações movidos a vela, com dois mastros e pequenas variações entre si na configuração das velas (Para diferenças, ver aqui) .  Estes veleiros faziam travessias maiores, tendo como destino Santos ou Rio de Janeiro.
As barcas eram os maiores navios. Também movidos a vento, tinham três mastros e as maiores tonelagens. O destaque no porto de Antonina naquele ano foi a barca Dianna, de 280 toneladas. Era cerca de dez vezes a tonelagem de uma escuna e ter vezes a de um brigue ou patacho. A Dianna transportou arroz, madeira e erva mate para o Rio de Janeiro.
As mercadorias, como vimos, eram produtos da terra, como arroz, madeira, telhas e cal. Por vezes, transportava-se também erva mate e farinha.
Outro destaque desta lista é o brigue Paranã. Era de Antonina, o que pressupõe um armador com porte suficiente para arcar com as despesas deste tipo de navio. Seu proprietário era Joaquim Leite Mendes. O brigue Paranã neste ano de 1854 fez duas viagens para o Rio de Janeiro, uma em maio e outra em outubro. Transportou para a Corte erva mate, madeira e arroz. Em janeiro de 1855 o Paranã publicou um artigo no Dezenove de Dezembro (aqui), em Curitiba, no qual anunciava ainda receber carga, além de oferecer “cômodos suficientes” para passageiros.
Um comercio incipiente começava a se fazer entre A Villa Antonina e a Capital. Com a chegada do conselheiro Zacarias a Estrada da Graciosa começava a ser reparada. Enfim a Graciosa deixaria de ser uma trilha de tropeiros para se tornar uma estrada carroçável. Em julho de 1855 foi expedida uma ordem (ver aqui) para o responsável pelas obras, o engenheiro Vilalva, a começar o calçamento de Curitiba até a borda do Campo e de Antonina até são João da Graciosa.
Oportunidades surgiam em todos os lados. Um comerciante capelista anuncia no jornal Dezenove de Dezembro (aqui) que dispunha armazenar e despachar cargas vindas do Rio de Janeiro para Curitiba. Diz que garante armazenagem por dois anos, com acondicionamento das mercadorias.
Outro comerciante capelista anuncia, em 1856 (aqui), a venda de terreno próximo ao mar, permitindo o acesso de embarcações e chatas. Segundo o anuncio, o terreno tem um excelente armazém construído com pedra e cal. Tem ainda um palacete construído de pedra, cal e excelentes madeiras, próxima do largo da matriz, com aprazível e elegante vista para o mar.
Neste mesmo anuncio se oferece também um armazém na Rua da Praia com 40 palmos de frente, com acomodações para família e negócio. O capitalista capelista prefere vender tudo, inclusive com escravos de ambos os sexos, a um só comprador.
Com escravos e tudo? E a gente ainda acha os nossos tempos estranhos...

sábado, 12 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (PARTE 3)


Charge denunciando o recrutamento forçado no Brasil do século XIX
As eleições no Segundo Reinado eram marcadas pela fraude e pela violência. Não raro os conflitos acabavam em brigas generalizadas. E estas brigas muitas vezes ocorriam dentro da própria Igreja, onde as eleições eram realizadas.
Não temos registros de violência nas eleições da Deitada-a-beira-do-mar. A profa. Cecília Westphalen narra uma eleição com duas vários feridos e mortes ocorrida em 1852 em São José dos Pinhais. Outra vez ainda, em 1849, uma eleição para a assembleia não foi realizada em Curitiba por causa dos distúrbios e violências. As autoridades da cidade tiveram que se refugiar em Morretes, segundo Antônio Vieira dos Santos. Uma tropa vinda de São Paulo passou por Antonina rumo a Curitiba para conter os ânimos. Mas tudo já tinha sossegado e a eleição já havia sido realizada.
Naquele tempo na província, haviam dois grandes partidos. Os Conservadores, nacionalmente apelidados de Saquaremas, eram chamados no Paraná de “Cascudos”. Os Liberais, ou Luzias, eram chamados de “Farrapos”.
As eleições de 1854 no paraná foram feitas sob a vigência da nova “Lei Regulamentar”, de 1846. Quem elaborava as listas e coordenava os trabalhos de votação eram as mesas eleitorais dos distritos. Cabia ao Juiz de Paz, juntamente com os eleitores de paroquia eleitos nas ultimas eleições montar as tais mesas. Como as mesas eleitorais escolhiam que podia e quem não podia votar, seu controle era disputado pelos partidos. Em Paranaguá o Juiz de Paz que enviou a lista de votantes era Manoel Antônio Guimarães, futuro Visconde de Nácar, destacado comerciante e membro do Partido Conservador. Nesta eleição Guimarães foi leito deputado provincial. Um dos seus genros um foi eleito deputado provincial e outro deputado geral.  Dizia-se, não sem razão, quem controlava a mesa controlava a eleição.
Em 1854 foram realizadas as primeiras eleições para senador da nova província. Como mandava a legislação, foi eleita uma lista tríplice, posteriormente enviada ao Imperador. O Senador vitalício escolhido foi o mais votado: João da Silva Machado, o Barão de Antonina. Nascido no Rio Grande do Sul, João Machado era envolvido com o comércio de tropas. Sua base era a região dos Campos Gerais, principalmente em Castro.
Não tinha nenhuma relação com a cidade que lhe conferiu o baronato. Aliás, seu título de barão foi resultado de sua lealdade ao poder imperial durante a Revolução Farroupilha e durante a Revolução Liberal de 1842. Foi também um grande incentivador da imigração alemã na província, que culminou com a fundação da colônia alemã de Rio Negro. Aos 72 anos e residente em São Paulo, esta eleição foi um momento alto de sua vida.
O poder na província do Paraná, assim como em todo o Brasil, era um privilégio dos mais ricos. As pessoas simples deveriam, neste contexto, procurar a proteção de um patrono a quem pudessem recorrer nas necessidades. As famílias mais poderosas tinham ao eu redor um grande número de agregados.
Um agregado era uma pessoa que, mesmo sem vínculos de sangue, fazia parte da família em troca de favores. Podia ser um pequeno agricultor que tinha autorização para ter sua terra na propriedade do senhor, ou algum trabalhador urbano avulso que fizesse pequenos serviços em troca de sustento.  As teias de patronagem da sociedade imperial procuravam abranger a todos, em complexas relações de favores e obrigações.  
Uma das maiores ameaças para os homens livres pobres era o recrutamento forçado. Por qualquer motivo – brigas, bebedeiras, ou vagabundagem – alguém podia ser enviado para servir seja no exército seja na marinha ou em alguma milícia. Este recrutamento forçado era utilizado com instrumento de barganha pelas autoridades, tentando conter a violência e garantir a lealdade das pessoas mais humildes.
Em geral, estes alistados a força não tardavam em desertar. O resultado é que a maior parte do trabalho policial era prender e remeter de volta estes desertores a suas unidades. Em novembro de 1854  (ver aqui) José Pereira, natural do Sambaqui, em Antonina, a pretexto de “mal comportado e vicioso” havia sido recrutado para a marinha.
Entretanto, a prisão de José Pereira havia se dado próximo de eleições, quando o recrutamento era proibido. Colocado no navio para o Rio de Janeiro, onde serviria na Marinha Imperial, José Pereira havia conseguido fugir. Agora, travava uma luta judicial para provar que não era desertor.
O transporte tanto dos recrutas quanto dos desertores – era tudo a mesma coisa – era feito da mesma forma que para os escravos.  Em 1855 o delegado de Policia de Antonina foi ressarcido pelo transporte de “recrutas e desertores” de Antonina para Paranaguá (ver aqui). Para tanto, o delegado José Dias Barbosa havia comprado correntes, gargalheiras, algemas e cadeados para o transporte. Foram transportados ao todo onze desertores e três recrutas (ver aqui). 
(Continua)

domingo, 6 de agosto de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 2)


"Bazar eleitoral”, charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867 (ver aqui).
Uma vez que no Brasil Imperial a igreja fazia parte do estado e a religião católica era a religião oficial, a construção e manutenção das igrejas era um assunto público. Frequentemente se vê nos jornais da época relatórios oficiais tratando destes temas. No Dezenove de Dezembro de 1866, há um relatório sobre as principais igrejas da província (ver aqui). Entre elas, a da Deitada-a-beira-do-mar.
Consta que a matriz de Antonina sofreu reparos gerais em 1860, financiados com “esmola dos fiéis e auxilio da câmara”. Faltava, entretanto, para conclusão das obras a colocação do forro, um altar lateral e corredores. O texto também diz que a torre estava com a cúpula arruinada, necessitando de “prompto comcerto”, reboque e caiação. Segundo o texto, o orçamento para esta última etapa era de 5 contos de reis (aproximadamente 500 mil reais em valores de hoje). Já as igrejas de São Benedito e Bom Jesus do Saivá ainda vão em andamento, “com os auxílios dos fiéis e a pequena consignação dada pela província”.
A morte em Antonina, como na maior parte do Brasil, era um evento. E um evento público, que poderia e deveria ser assistido por todos. Não era raro que o quarto do moribundo fosse tomado por uma multidão. Em 1855 os irmãos Francisco Antônio, José Candido e Ignacio José de Souza publicam uma nota no jornal (ver aqui) onde agradecem aos que acompanharam o funeral de seu pai. Os irmãos também agradecem aos que “acompanharão os acima em seus desgostos”, ou seja, na hora da morte.
Nos funerais deste período o prestigio e a salvação do morto eram garantidos com funerais numerosos. Quanto mais gente e mais barulho, o funeral tinha tudo para ser bem-sucedido. Segundo as crenças da época, garantia a salvação da alma. Embora já estivesse em desuso, era comum a presença de muitos padres para acompanhar o funeral. Bento Soares da Costa e dona Maria Joaquina Soares da Rocha, além de agradecer as pessoas que acompanharam os funerais de sua filha Anna Bernardina, agradecem também aos padres Antônio Machado Lima e Jordão Homem Pedroso (ver aqui).
Os defuntos eram enterrados com roupas de suas irmandades. No caso de oficiais da Guarda Nacional, eram enterrados com seus uniformes de gala. Crianças eram enterradas com roupas de anjos, os “anjinhos”.
Os funerais, assim como os de hoje, eram feitos imediatamente após a morte, no máximo no dia seguinte. Em setembro de 1856, Joaquim Antônio dos santos Souza publicou matéria no jornal dezenove de dezembro em que reclama do vigário de antonina. O padre João Homem Pedroso, por “capricho indiscreto”, havia retardado o translado do corpo de sua mãe. A senhora fora enterrada no cemitério de Morretes, quarenta horas após seu falecimento (ver aqui).
As igrejas, neste tempo também eram importantes por que ali é que se realizavam as eleições. Afinal, os distritos eleitorais eram divididos em Paróquias. Pode parecer estranho ao leitor de hoje, mas, num regime em que a Igreja era atrelada ao Estado tem uma certa lógica. Em geral, as igrejas eram os maiores e os mais bem construídos prédios de uma cidade ou vila. Era natural que o Estado usasse deste fato para ali fazer as votações e a apuração dos votos.
Só podia votar neste tempo a população masculina livre que podia comprovar uma certa renda anual de 100 mil réis. Não era uma renda alta, mas já excluía muita gente. Cada distrito, pelo número de pessoas aptas a votar, os eleitores de paróquia, elegia um certo número de “eleitores de província” para o colégio eleitoral. Era este Colégio Eleitoral que escolhia os deputados provinciais e os deputados que iam a corte.
Com a emancipação do Paraná a Província, inúmeras modificações estavam sendo feitas. Em 1855 foram criados os colégios eleitorais de Antonina Morretes e Porto de Cima, independentes de Paranaguá (ver aqui). Em 1856 Antonina tinha 8 eleitores (ver aqui), contra os 3 eleitores de Porto de Cima, os 7 de Morretes e os 26 de Paranaguá.
Para ser candidato a eleitor, ou seja, para participar do colégio eleitoral, o cidadão tinha que comprovar uma renda mínima de 200 mil reis. Candidatos a Deputado deveriam ter uma renda mínima de 400 mil reis e para senador essa quantia chegava a 800 mil reis. Eleições no Brasil imperial era um assunto da elite.Não é de estranhar que as listas de eleitores eram geralmente encabeçadas pelos comerciantes e fazendeiros mais ricos de uma determinada localidade. A lista de eleitores de Paranaguá em 1856 era liderada por Manuel Antônio Guimarães, o Visconde de Nácar. Em Antonina e Morretes as listas eram preenchidas com nomes de pequenos comerciantes e agricultores.
As eleições se realizavam no dia 31 de dezembro. Os trabalhos se iniciavam com uma missa solene na igreja. Não raro, as pessoas iam a esta missa com seus melhores trajes. Era comum que os integrantes da Guarda Nacional de cada localidade fossem nestas missas com seus melhores uniformes, cheios de galonas e medalhas.  Depois, a comissão eleitoral tomava posse do edifício e a eleição era feita.
(continua)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

ANTONINA EM 1854 (parte 1)


"Vista Geral de Antonina,1872", aquarela sobre papel de William Lloyd, 11 x 34 cm (duas folhas coladas), Liga Ambiental, Curitiba;

Um breve resumo de jornal (ver aqui) nos dá uma ideia de como era a Deitada-abeira-do-mar há 163 anos atrás.
Na década de 1850, a Villa de Antonina (não mais a Villa Antonina) tinha 4160 habitantes. Destes, 2092 homens e 2062 mulheres. A maioria é jovem: 2410 tem menos de 21 anos. 1168 habitantes têm entre 20 e 40 anos e 582 são mais velhos. Em 1853, segundo este censo, houveram 248 nascimentos e 102 enterros, sem precisar a idade. Trata-se, portanto, de uma comunidade com predomínio de jovens e crianças.
Dos seus habitantes, o censo consta com 2664 brancos, 604 mulatos e pardos e 892 pretos. O total de escravos é de 838, o que representa 20% do total da população. Não temos dados a partir destes para ver como era distribuída a posse destes escravos.
Esta população estava espalhada por 12 quarteirões, que eram os bairros a partir dos quais se fazia o censo. Estes quarteirões eram: 1) a vila; 2) a estrada da vila para a capital (a saída da cidade, no caso desde o fim do morro do bom brinquedo até alguma altura da estrada da graciosa); 3) estrada da vila para Porto De Cima; 4). No rio de são João até as Carniças (porto das carniças); 5) Saquarema; 6) Registro (foz do Nhundiaquara); 7) Faisqueira; 8) rio do Serro (Cedro?); 9) Cachoeira; 10) Cacatu; 11) novamente na Faisqueira; 12) Nhundiaquara.
Não temos ideia (o texto não indica) quantos fogos existiam em cada quarteirão. O “fogo”, unidade básica do Brasil nos primeiros séculos eram as casas, onde moravam as pessoas.
Segundo o censo, o município tinha 48 casas de negócio. Em termos de agropecuária, tinha 454 sítios de plantação e lavoura e 56 sítios de criação de animais. A produção deveria ser majoritariamente de cana e mandioca. Haviam 33 engenhos de aguardente em funcionamento trabalhando com bois e 25 engenhos movidos por agua. Além disso, havia ainda 30 olarias, que fabricavam louça, telha e tijolo.
A luz destes dados, a sociedade capelista era fundamentalmente agrária, produzindo como excedentes cachaça e farinha de mandioca. A mão de obra destes engenhos era provavelmente escrava. Faltam maios dados para ir além disso, mas comparando com outras áreas é esse o quadro que surge.
A população deveria habitar majoritariamente a zona rural, só indo à cidade aos domingos para a missa. Nestes dias, deveria lotar a pequena capela da colina. Neste tempo já se havia perdido o costume de se fazer transportar em redes e liteiras, como nos tempos coloniais. As famílias vinham em procissão, com o pai à frente, a mulher e os filhos logo depois. Encerrando o cortejo, os escravos, que ficavam no fundo da igreja. O tamanho do cortejo refletia a riqueza e a importância da família naquela sociedade.
Naquele tempo, era importante socialmente fazer parte das irmandades. Na Deitada-a-beira-do-mar, existiam três: a de são Benedito, a mais antiga, a do Pilar e a do Santíssimo Sacramento. Em geral, estas irmandades tinham a presença de todos, sendo as pessoas mais ricas e poderosas convidadas para cargos de direção. Eram as irmandades que faziam as festas e que organizavam a vida da vila.
Os padres, neste tempo em que não havia separação entre Igreja e Estado, eram funcionários públicos. Recebiam um salário do governo, a côngrua, que mal dava para suas despesas. Complementavam seus ganhos com contribuições recebidas das irmandades e de particulares para festas, casamentos, batizados e funerais.
Haviam três igrejas na vila. Destas, a única que tinha condições para missas era a matriz. A Igreja de São Benedito estava apenas coberta. A do Bom Jesus só tinha as paredes. O cemitério do Bom Jesus era particular, e não havia ainda recebido a benção. Provavelmente, as pessoas eram enterradas, como o costume da época, nas igrejas. Não temos ideia como seriam e onde estão os corpos destas pessoas. As pessoas mais ricas eram enterradas mais próximo do altar. As outras conformavam-se com as partes menos nobre e, aos escravos, era reservado o adro ou as partes externas.
(continua)

domingo, 16 de julho de 2017

A MARIA ANTONIETA DAS ARAUCARIAS



Nem assaz alhures e antanho
era um evento tamanho
a sagração nupcial”
Edu Lobo e Chico Buarque,
O Grande Circo Místico

Não houve assunto na “Capital Ecológica” que não fosse o grande espetáculo que foi o casamento de Maria Victoria Borguetti Barros. A Maria Antonieta das araucárias. A moça, herdeira presuntiva (?) do clã dos Barros, queria se casar. E então a princesa escolheu (sonho de noiva!) a Igreja do Rosário, bem no centro de Curitiba. Para a Festa de suas bodas, a jovem deputada pelo PP escolheu, naturalmente, a Sociedade Garibaldi, que fica logo ali, logo ali do ladinho, como diríamos em Antonina. E deu no que deu.
As coisas não cheiravam bem desde a semana passada, quando foi mostrada pela imprensa a bizarra estrutura da festa no Palácio Garibaldi.  Tudo indicava que um grande evento sem-noção estava para acontecer. A ocupação de bens tombados, a ostentação da Festa de Maria Victoria, os preparativos na Igreja do Rosário, tudo indicava um cenário perfeito para uma manifestação.
Segundo o Blog do Esmael, a ovação foi pensada dentro do próprio palácio do governo estadual. Certamente por pessoas contrárias à pré-candidatura de Cida Borguetti, a mãe da noiva, ao governo do estado.  A própria direita xucra do MBL não via com bons olhos a ostentação, embora apoiem Temer e outros canalhas, como Beto Richa. Foram, entretanto, os movimentos de esquerda que foram à frente da Igreja distribuir ovos e enfrentar a polícia. Ponto pra nós.   
As cenas de confronto e as ovações foram amplamente divulgadas pelas redes, não é preciso repeti-las aqui. Outros já falaram da ostentação, do momento, da falta de sensibilidade (ver aqui). O que me incomoda é outra coisa.
copiei daqui
Quando esteve na Província do Paraná, em 1880, D. Pedro II soube, por um político local, que o Dr Jesuíno Marcondes (1927-1903) estava fazendo falcatruas com compra e vendas de terras, fraudando o Tesouro Imperial. O imperador ficou furioso, e anotou em seu diário: “outra vez! ”. Nada aconteceu. Jesuíno Marcondes foi por diversas vezes Presidente da Província. Era inclusive o presidente em exercício quando veio a República, que o fez exilar-se belamente em Genebra, onde morreu.
Silvio Barros, o pai de Maria Victoria e Ministro Golpista da Saúde, deu declarações à imprensa dizendo que “tudo ocorreu como deveria” (ver aqui). A própria noiva teria dito aos jornais que isso era o “preço da democracia”. Ou seja, eles tinham plena certeza do confronto e o programaram, como se fosse uma propaganda política. Eles vão ficar expostos, todo mundo vai falar deles, a casamento vai virar “trend topic” nas redes e tudo bem. Eles saem ganhando com a exposição.
É este o cerne da questão. Enquanto os políticos da “Revolução Corrupta” estão ocupando espaços e alterando radicalmente as leis e a política, o que fazemos? Quais as metas? Estamos nas cordas, tentando defender Lula, tentando defender o PT. Mas, o que nós dizemos para a população que está perdendo seus direitos e está vendo essa barafunda toda?

De que adianta falar do simbólico, dizer que a igreja do Rosário era uma igreja da “irmandade dos homens pretos”? Maria Victoria quer se casar lá porque a igreja é bonitinha. Se tiver problemas de condução, ela pega um camburão. Se não der pra ir, ela chama a polícia. Pior, a polícia vai quando ela chama!
O poder no Paraná (e no Brasil, por suposto) está nas mãos desta canalha. Uma canalha que dorme bem de noite.

Quem precisa de desprincesamento somos nós.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

O LADRÃO DE ANTONINA


Pobre país! A corrupção alimenta a vaidade, para dar vida ao patriotismo!” – é a legenda da charge de Ângelo Agostini, publicada em “O Cabrião”, 1867 (copiei daqui).
Hoje vivemos tempos muito turbulentos. Em nome do combate a corrupção, diversas ações têm sido realizadas. Recentemente, na nossa bela Deitada-a-beira-do-mar, tivemos uma prisão importante, de uma pessoa bastante poderosa. Por outro lado, inúmeras prisões são realizadas num espetáculo de mídia, como se o mais importante fosse a encenação e não o principal. Quando a pessoa presa é liberada, por problemas da acusação, seja por insuficiência na acusação, seja por falta de provas, a grita é enorme.
Não é possível condenar por convicção, como já dissemos. Por outro lado, em outros processos provas arrasadoras são mostradas e não provocam nem ação de polícia nem indignação das pessoas. Estes são os tristes tempos em que vivemos. Como era, no passado, o combate à corrupção? Como casos de roubo do bem público eram tratados no Paraná e em Antonina no passado?
Esta é a história de Luiz Tibireçá da Silva Dória, que foi nomeado em 21 de abril de 1854 como coletor interino das rendas provinciais da Villa de Antonina (ver aqui). Era um cargo importante: Luiz Tibireçá deveria recolher os impostos devidos e, no momento certo, fazer também os pagamentos aos funcionários públicos e demais despesas do governo.
Trata-se de um cargo vital para a arrecadação de impostos do governo. O tal do coletor, por isso mesmo, é uma pessoa importante socialmente nas cidades onde havia a tal da coletoria, e assim o foi durante muito tempo. Era ele que literalmente coletava os impostos e fazia os devidos pagamentos do governo. Pra se ter uma ideia, no Paraná, os pagamentos e o recebimento de impostos só foram separados, da maneira como temos hoje, no início dos anos 1960, no governo Ney Braga.
Não sabemos, em função dos poucos documentos que temos, quem era Luiz Tibireçá, onde nasceu ou qual era sua família. Entretanto, parece, pelos seus atos subsequentes tratar-se de uma pessoa de uma família bem situada socialmente, tanto é que foi nomeado coletor. Na época de sua nomeação, Luiz Tibireçá devia ser bem jovem e inconsequente, como mostraram seus atos. Era o início das atividades da nova província do Paraná.
Pouco antes, em dezembro de 1853, a antiga 5ª Comarca de São Paulo desmembrava-se e surgia a Província do Paraná. Quando o Baiano Zacarias de Gois e Vasconcellos, destacada figura da política imperial, subiu a serra para instalar Curitiba como capital da nova província, tudo estava sendo iniciado. O Conselheiro Zacarias demorou-se ali por pouco tempo, onde organizou minimamente os cargos e funções da nova província. Construir estradas, arrumar os portos, fazer as instituições funcionarem, foi esta sua tarefa. Assim, numa de suas penadas, Luiz Tibireçá foi nomeado coletor e também o agente dos correios na graciosa Villa de Antonina (ver aqui).
Num comunicado de janeiro de 1855, sabemos que ele era também o agente interino dos correios. O engenheiro Villalva, que iniciava os trabalhos de calçamento da Estrada da Graciosa, foi incumbido de entregar a Luiz Tibireçá duas mulas e uma cangalha, para transporte do correio entre Curitiba e Antonina (ver aqui).
Foi quando tudo entornou. A demissão de Luiz Tibireçá ocorreu em 29 de abril de 1855, pouco mais de um ano após sua nomeação (aqui). Pouco antes disso, nosso jovem coletor havia se apropriado de tudo o que tinha conseguido arrecadar dos impostos devidos a província e, como se dizia naquela época, tinha-se escafedido. Arre, que biltre!
Em matéria no jornal “O Dezenove de Dezembro” de 25 de abril de 1855, consta que Luiz Tibireçá, de posse dos impostos surrupiados da coletoria provincial, estava fugindo para o Rio da Prata (aqui). Era o caminho natural dos que faziam malfeitos, principalmente os pecuniários. Nos jornais e nas conversas, todos o davam como vivendo bem e feliz, seja em Montevidéu, seja em Buenos Aires.   À tripa forra, como se dizia na época.
No entanto, nosso meliante não havia ido assim tão longe. Dedicado a gastar o dinheiro em tão má hora adquirido, pôs-se a gastar em farras e divertimentos bem próximo de Antonina. Mais precisamente na Villa de Desterro, Capital da província de Santa Catarina.
E foi ali, na Ilha da Magia, que Luiz Tibireçá foi finalmente preso. Conduzido preso a Paranaguá e posteriormente à Curitiba, o sacripantas foi devidamente inquirido pelo doutor delegado sobre o dinheiro que havia se apropriado. Qual não foi a surpresa do nobre policial ao verificar que Luiz Tibireçá havia gasto “em dissipações, jogos, passeios e divertimentos” tudo o que havia roubado em Antonina (ver aqui). Nada, nem um mísero mil-réis havia sobrado! Ali mesmo Luiz Tibireçá foi incurso em diversos itens do código criminal, e remetido a julgamento em Paranaguá.
Para os que acreditam ser a justiça brasileira desde sempre muito morosa, aqui vai um espanto: seis meses depois, em 4 de janeiro de 1856 já estava concluído o processo de Luiz Tibireçá. Não conseguimos saber qual foi sua pena, em face dos documentos analisados. Sabemos, entretanto, que o larápio passou seus dias de apenado na cadeia de Paranaguá. Ali, em fevereiro de 1858, Luiz Tibiriçá faz um pedido para que sua mulher, Adelaide Ferreira da Silva Doria, pudesse permanecer com ele na cadeia. O pedido foi indeferido (ver aqui).  
Entretanto, nem tudo são espinhos na vida de nosso ex-coletor. Em fevereiro de 1863, ou seja, cerca de cinco anos depois, ele está vivendo muito provavelmente na bela Ponta Grossa, a Princesa dos Campos. Neste período, sabemos pelos jornais que Luiz Tibireçá é o 1º secretário da prestigiosa “Sociedade Patriótica Defensora da Nação” (ver aqui).  Nesta Sociedade, com outros cidadãos ilustres, ele assina um manifesto contra agentes britânicos, que faziam “represálias injustas” contra navios brasileiros ao longo de nossa costa. Logo ele!
Sabemos que fez sua carreira como advogado. Numa de suas lutas no tribunal, em janeiro de 1864, Luiz Tibireçá perdeu um caso. Como membro do Ministério Público de Ponta Grossa, ele não conseguiu a condenação de Maria Cecilia, acusada de furto (ver aqui). No entanto isto pouco valia. Tanto a defesa quanto a acusação fizeram, segundo a notícia do jornal, um debate que beirou o “sublime”.  Já em março de 1865, quando os bravos Voluntários da Pátria passam por Ponta Grossa indo juntar-se aos que já lutavam contra Solano Lopez, Luiz Tibireçá é um dos inflamados oradores (ver aqui). Em 1867, o escrivão Joaquim José de Camargo passa um certidão de bons antecedentes a nosso bom Luiz Tibireçá (ver aqui).
Nada mais sabemos deste interessante personagem. Vemos entretanto que ele conseguiu dar a volta por cima e ser um cidadão de bem e querido na nova comunidade que adotou. No entanto, parece importante reparar na pena relativamente branda para um homem branco e rico. E se ele fosse preto e pobre? Quanto tempo ficaria preso? Poderia pedir para que sua esposa ficasse com ele na cadeia?
A história de Luiz Tibireçá nos mostra, por outro lado, que pouco mudamos neste país. Continuamos a prender os pobres e a soltar os ricos. Nosso contingente de presidiários fala por si. Mesmo quando lidamos com causas como a corrupção política, pouco muda. Um presidente operário vale menos que um presidente advogado, mesmo que as provas contra um sejam duvidosas e contra o outro sejam materiais e comprovadas.
Luiz Tibireçá errou de século. Hoje, quem sabe, ele não pegaria uma prisão domiciliar? Ou nem isso?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

LAVAJATUS


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)

Entre todos os fósseis estudados no período Triássico, os répteis do grupo Lavajatus foram uma de suas espécies mais características. Foram especialmente dominantes entre o Triássico inferior (Andar Bumlaiano), quando tiveram rápida radiação (Janot, 2015). Depois de um período onde foram os predadores mais importantes (Moro et al., 2016), acabaram por se extinguir no final do Triássico superior (Andar Joesleyano).
O gênero federalicus foi um dos gêneros mais importantes do Triássico inferior. Tratam-se, provavelmente, de saurídeos pequenos e muito velozes, que andavam em bandos, atacando preferencialmente de manhã bem cedo (Silva et al., atas do Congresso de Paleontologia Imaginária de Curitiba, 2016). No entanto, apesar de seus hábitos matinais, paradoxalmente, estes saurídeos tinham problemas de visão, já que foram registrados muitos espécimes usando óculos de proteção, em especial de cor escura. Muitos espécimes especialmente bem preservados foram desenterrados em diversos sítios paleontológicos imaginários (Silva, op.cit.).
Alguns destes espécimes do gênero federalicus foram objeto de muita especulação nos meios científicos, como o federalicus lenhadoris e, principalmente, o federalicus niponicus. No entanto, estes espécimes eram periféricos, e logo desapareceram no registro paleontológico. Os mais importantes, na escala evolutiva eram os saurídeos do gênero ministeriopublicus.
Entre os espécimes do gênero ministeriopublicus, era bastante ruidoso o M.  dallagnolicus. Este espécime era especialmente perigoso porque matava suas vítimas com mordidas sépticas e com apresentações mortíferas de powerpoint (Zavascky, 2015). Quando atacava suas presas nas planícies deltaicas do Triássico médio, o dallagnolicus não tinha provas, mas tinha muita convicção.
Os métodos de caça dos ministeriopublicus eram geralmente derrubar as presas e arrasta-las para cavernas especialmente selecionadas. Uma vez lá dentro, os ministeriopublicus faziam-nas delatar umas às outras. Outra forma de caça eram os vazamentos seletivos (Moro, 2016), quando inundavam uma área selecionada no lado esquerdo dos vales para caçar os animais pegos de surpresa em armadilhas. Os animais do lado direito, durante o Triássico inferior, escapavam com facilidade destas armadilhas (Neves & Mendes, 2015).
Os saurídeos do grupo lavajatus irradiaram-se bastante durante o Triássico médio, especialmente dispersos no território sul-americano. São encontrados sítios com ocorrências de ossadas quase intactas destes animais ao longo de quase todo o território brasileiro, embora espécies possam ter sido encontradas também em jazimentos no Equador, Colômbia e Peru (Santos & Toledo; Atas do Congresso de Paleontologia imaginária das Ilhas Cayman, 2012).
Nos sítios paleontológicos fósseis do Brasil existem muitas controvérsias sobre ocorrências de saurídeos do gênero ptistus nos sítios paleontológicos de Atibaia e no Guarujá (OAS, 2013). No entanto, sobram evidencias de saurídeos do gênero tucanossauros em diversos pontos de Minas Gerais e de São Paulo (M. Odebrecht, comunicação pessoal). Escavações no metrô paulistano revelaram, ao menos parcialmente, alguns esconderijos fósseis ainda não suficientemente investigados (ALSTOM, 2012).
O ministériopublicus, com auxílio dos federalicus, predavam seletivamente os sáurios do gênero ptistus, que quase foram extintos ao final do período Carniano (Andar Pallociano). No entanto, na medida em que se achavam mais poderosos e dominando todo o ambiente, no período Ladiniano, os saurídeos da lavajatus se aproximavam dos dinossauros maiores e mais ferozes, tentando domina-los, o que acarretou sua extinção (Jucá, Atas do Congresso de Paleontologia Imaginária das Bahamas, 2016).
Existem evidências que os saurídeos do grupo lavajatus foram extintos no final do triássico. Os grandes dinossauros do gênero pmdbistus, acuados pelos federalicus e pelo ministeriopublicus finalmente reagiram (Jucá, op. cit.). Algumas espécies de federalicus foram privadas de recursos ambientais e se extinguiram já no período Temeriano. Os saurídeos do gênero tucanossaurus encontravam uma saída ambiental sofisticada através do mecanismo dos Sifões Transientes Facilitadores (STF), ficando facilmente fora do acesso dos animais do grupo lavajatus e continuaram se multiplicando (Mendes & Neves, 2016; Neves & Mendes, 2017; Fachin & Mello, 2017). O ministeriopublicus, também sofrendo em condições adversas, acabou por se extinguir ao fim do Triássico (Andar Wesleyano).
No entanto, o consumo exagerado de pastagens mesozoicas por parte dos grandes sáurios dos gêneros pmdbistus e tucanossauros e outras espécimes menores começou a afetar a totalidade do ambiente. O consumo indiscriminado de capins do gênero propina sp acabou por inviabilizar toda a fauna da região (Batista & Odebrecht, 2017a, b). Existem evidências de extinções maciças de diversas espécies de saurópodes em todo o Gondwana Meridional no início do Jurássico (Maia, em preparação). Nesta área do planeta, durante o Mesozoico, essa fauna toda não precisava de meteoros ou de extensos episódios de vulcanismo para se extinguir.

Arte: Julian Fagotti

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ANTONINA E A CORRUPÇÃO



Que Antonina é fantástica, todos já sabem. Todo mundo que sentiu no rosto o vento do mar na colina da matriz ou quem já comeu bolinho de bacalhau no mercado sabe do que estou falando. Antonina, a Deitada-abeira-do-mar, a cidade e sua gente, tem um jeito diferente, que ri dos percalços da vida, que brinca e fala o malemolente linguajar dos bagrinhos, é um lugar especial, que cativa e encanta.
No entanto, na noite desse frio domingo de julho, soube que a cidade era a notícia do Fantástico, da rede globo (assim mesmo, em minúsculas). Faz anos que não vejo o Fantástico. Tem coisa melhor para fazer nas noites de domingo. Inclusive fazer nada. Ver esse programa sensacionalista e apelativo não é uma boa maneira de começar a semana. Por isso, não vi.
Mas sei do que estão falando. Qualquer um no Brasil sabe o que estamos falando. Aqui na região de Campinas, que tem cerca de 3,1 milhões de habitantes e concentra 8,5% do PIB paulista, o problema da corrupção é endêmico (aqui). Recentemente, em 2012, o prefeito de Limeira (300 mil habitantes) foi afastado do cargo por corrupção (aqui), mas voltou por decisão judicial. Na lista da Lava jato constam o ex-prefeito e o atual prefeito de Campinas (1 milhão e 200 mil habitantes), o ex-prefeito de Paulínia (80 mil habitantes) e Sumaré (260 mil habitantes). A corrupção está no nosso dia-a-dia, em nível municipal.
Se digitamos na busca do Google “prefeito corrupto” dá aproximadamente 495 mil entradas. “Corrupção prefeitura” dá 848 mil entradas e “prefeito afastado por improbidade administrativa” dá 293 mil entradas. O número de casos é grande, quase como uma epidemia.  
Como não saber da corrupção? No caso do indigitado ex-prefeito, já sabíamos antes da eleição (ver aqui). Briguei com grandes amigos meus por causa dele, o “grande apolítico” (aqui). Toda vez que vou à Antonina, alguém me conta de um causo. Quando a câmara tentou enquadra-lo, ele comprou a câmara. Todos sabiam. Por que o espanto agora?
Parece que todos sabem. E quem está “lá dentro” não tem pudor em ganhar o que não lhe é devido. Pessoas honestas e bem-intencionadas acabam “entrando no esquema” e saindo sujas como qualquer ladrão de galinha.
Não adianta fazer mea culpa, como vejo alguns fazendo. Não adianta chorar. Culpa quem tem é pecador. Criminoso é quem comete crime. A culpa pode ser resolvida num culto evangélico ou num confessionário. O crime é resolvido com a devolução do roubado e com uma pena a ser paga, dependendo do crime.
Alguns estão se deliciando com o outro apanhado com a boca na botija. Ou a boca no dinheiro. No entanto, não podemos nos comportar como se fôssemos incorruptíveis, ou como se isso não acontecesse conosco - ou com nossa família. Fechar os olhos para isso é um caminho para cairmos na armadilha. Devemos sim é pensar no quanto somos cúmplices com estes esquemas, quanto não deixamos – por ação ou omissão – nosso dinheiro e nossos direitos irem para o ralo.
A nível estadual, vocês no Paraná têm o Beto Richa, que dispensa apresentação. Aqui em São Paulo temos Alckmin e os 24 anos de PSDB e seus esquemas mal resolvidos e impunes. Ambos aliás eleitos no primeiro turno. A nível Nacional, estamos vendo que boa parte da população tolera um presidente notoriamente corrupto, mas que os livrou do “monstro petista”. Para não termos as “pedaladas” ou as pretensas bobagens que a presidenta Dilma falava, tolera-se a corrupção e as gafes internacionais de Fora Temer. No congresso e na justiça, a impunidade rola à solta, como se rissem de nós. Foi para isso que o pessoal com a camisa da seleção foi pra rua?
No caso da Deitada-a-beira-do-mar, mais do que virar um festival de piadas no Jequiti ou um Fla-Flu, devemos pensar melhor. Até que ponto nos deixamos levar por este estado de coisas, que nos levou a ser conivente e naturalizar a corrupção até chegar no ponto que chegamos?  
Até porque, na internet, estão batendo nos fracos, pra variar. O nosso conhecido assessor que beija dinheiro, nosso ex-vereador que chora, todos esses são arraia miúda, café pequeno. Bagrinho no pior sentido da palavra. O esquema maior, no entanto, continua na ativa e ditando as políticas da Terra de Valle Porto. Esse aí, quem se atreve a apontar?
(Como muitos devem notar, não estou há tempos escrevendo sobre Antonina e seu cotidiano aqui no blog. Os motivos são muitos. O principal é que, de longe, é mais difícil enxergar as folhas das arvores. Não se pode falar de longe, de onde estou. Por isso, não tenho mais comentado sobre fatos de cotidiano. Mas esse me pareceu importante demais.)

sábado, 24 de junho de 2017

EU NÃO AMO O BRASIL


legenda auto-explicativa (tirei daqui)
Eu não amo o Brasil. Por que deveria amá-lo?  
Houve uma época em que eu sinceramente acreditei no conto do Patriotismo. A época era outra. Eu também. Na escola cantávamos o Hino Nacional, sempre com medo de errar – afinal, era “amor eterno” ou “sonho intenso”? E aquele papo de “amor febril pelo Brasil? ”. Queriam por todo modo que fossemos todos febris e destemidos.
Além dos hinos, haviam os contos militares nos livros de história, contando anedotas como a da frase heroica de Caxias na ponte de Itororó, conclamando: “Quem for brasileiro que me siga!”.  Em todos os cantos havia o chamado a amar a Pátria, amar a bandeira, amar o hino. Por trás de tudo, na sala da Diretora, estava um general carrancudo numa foto.
Quantas vezes haviam concursos de redação com o tema patriotismo? Quantas bobagens não escrevemos contando que a cor de nossa bandeira eram os nossos recursos naturais (na verdade, o verde-amarelo eram as cores da Casa de Bragança!). Ou então dando exemplos históricos de patriotismo no Brasil, que recolhíamos em livros não muito rigorosos com a verdade histórica.
O patriotismo do tempo da Ditadura, no entanto, acabou-se que era doce quando a classe média não tinha mais como comprar fuscas ou passear em Buenos Aires e tomar uma cueca-cuela. A popularidade do governo militar e seus tecnocratas despencava na medida em que a economia vacilava. Entretanto, eu ainda não entendia aquilo tudo. Venho de uma família muito nacionalista, tanto de direita quanto de esquerda. O nacionalismo era o que nos unia. Por vezes, mesmo já me considerando de esquerda, eu me espantava, quando era rapaz, com as pessoas que criticavam o patriotismo ou que criticavam o Brasil. E o Amor Febril?
Com o passar do tempo, aquelas historias militares e aquele verde-amarelismo tosco foram sendo substituídos por sentimentos diferentes. Entendi, no começo da juventude, lutando pelas Eleições Diretas para presidente (DIRETAS JÁ!), que eu não amava mais o Brasil varonil das canções militares, aquelas que nos diziam que devíamos viver pela Pátria e morrer sem razão.
Como posso amar esse pais que se pinta todo de verde-amarelo somente às vésperas de uma Copa do Mundo, com uma bandeirinha tímida na porta das casas? Como amar o pais que no passado tinha como lema que se devia ama-lo ou então ir embora – “Brasil ame-o ou deixe-o”?
Que amor é esse?
Hoje, eu entendo este amor diferente. Eu não amo o Brasil dos manuais de Patriotismo, aquele que diz que patriotismo é amar e respeitar os símbolos: bandeira, brasão, hino. O patriotismo brasileiro é sui-generis: você tem que amar uma pátria que não te representa? Que no passado escravizou nossos avós negros e índios? Como amar um pais hoje que não respeita os direitos dos cidadãos mais pobres? Que não garante liberdade, pão e terra para todos? Como falar que o brasileiro não tem patriotismo se a Pátria ela mesma não tem brasileirismo?
Como amar um país cindido em dois, um Brasil branco e rico e o outro, preto e pobre? Um país onde os trabalhadores mais humildes sofrem com a exploração de mão de obra, com falta de acesso ao estudo, sem perspectiva de melhorar sua vida?
Eu não amo o Brasil. Eu amo os brasileiros, aqueles que extraem algum sentido do lugar sem sentido onde vivem.
Por outro lado, não se ama um país com o qual não temos laço – de família, de história, de vida. O patriotismo tal como inventado lá atrás na Revolução Francesa tinha este sentido – proteger a nós e os nossos dos “feroces soldats” da tirania. Na Primeira Guerra Mundial, em nome deste tal patriotismo, milhões de pessoas morreram como bois no matadouro pela conquista de alguns metros de terreno, ou pela glória de algum general.
O nazismo e o fascismo também foram exemplos acabados de como fazer de pessoas honestas soldados ferozes e cruéis, as buchas de canhão do patriotismo. E assim, juntando os exemplos históricos que conhecemos, não há como não concordar com a famosa frase de Samuel Johnson (1709-1784): “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.
Portanto, eu não amo o Brasil. Não amo seus símbolos. Acho um absurdo ficar falando de patriotismo sem cidadania. Um pais que teve escravos e não tem políticas de ações afirmativas decentes é um pais a se amar? Devemos amar o Brasil como as pessoas que pregam intervenção militar dizem? Felizmente para nós, tem um problema: os militares não amam a Pátria, amam seus empregos...
Hoje, muitos outros usam o Patriotismo para ações de ódio e de xenofobia. Se escudam em noções e conceitos antiquados (e fascistas) para dizer não ao outro, ao estrangeiro. Houve até a piada-pronta de um grupo que protestou na Avenida Paulista contra a imigração (ver aqui). Como disse um humorista de plantão, “no Brasil somente os Índios tem este direito. E ali na passeata não se viu índio nenhum”.
Eu amo as pessoas que eu amo, e isso não tem país. Hoje, posso dizer que tenho amigos pelo mundo. Eu amo minha terra não porque ela é minha terra, mas porque ali estão minhas raízes, minha família, meus amigos. Tudo isso e mais uma paisagenzinha bonita, tipo uma tarde de verão na Feira-mar, em Antonina, e está feito o estrago...
Patriotismo não. Sentimento do mundo sim. Ao Brasil, eu prefiro os brasileiros.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

OS LANCEIROS NEGROS E A AGONIA DA DEMOCRACIA


O Deputado estadual Jefferson Fernandes (PT-RS), antes de ser preso pela Brigada Militar na desocupação violenta da Ocupação Lanceiros Negros, em Porto Alegre, nesta ultima quarta- feira.

Um dos sinais mais claros que as coisas estão mudando é a desfaçatez da violência. Como uma folha que amarelece de fora para dentro, a violência vem se instalando lentamente em nosso cotidiano. Como recentemente disse um artigo de Eliane Brum (ver aqui), é nas periferias do sistema que as pessoas primeiro se sentem à vontade para usar da violência sem nenhum receio ou pudor.
Uma evidência do final do mês de maio é o recente Massacre no Pará, quando nove homens e uma mulher foram mortos pela Polícia Militar em Pau D´Arco, a 867 km de Belém, quando resistiam a uma reintegração de posse (ver aqui). Os policiais chegaram a remover os corpos para evitar a perícia (ver aqui). Um mês antes, em abril, fazendeiros balearam índios da etnia Gamela do povoado de Bahias, em Viana (MA), tendo decepado a mão de um dos indígenas, Aldelir Ribeiro, de 37 anos (ver aqui). Essas chacinas covardes, uma delas perpetradas por supostos “Agentes da Lei”, entrou e saiu no noticiário como se se tratasse de um longínquo confronto no Afeganistão ou na Síria.
Esta semana, outro absurdo, desta vez em área urbana. A ocupação Lanceiros Negros, no centro de Porto Alegre, sofreu na noite desta ultima quarta-feira uma desocupação extremamente violenta, com uma ação excessiva da Brigada Militar. (Para quem não conhece o Rio Grande do Sul, Brigada Militar é o nome da PM no estado; o nome "Brigada" bem lembra a sua origem, como as demais PMs, como forças militares auxiliares ao Exército e à serviço das oligarquias estaduais.)
Na noite fria e chuvosa em Porto Alegre, véspera de feriado de Corpus Christi, usando bombas de efeito imoral, a Brigada Militar que realizava a desocupação chegou a prender o deputado estadual Jefferson Fernandes (PT-RS), presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa Gaúcha. Três horas depois, quando os brigadianos se deram conta da bobagem que fizeram, o deputado foi liberado. As mulheres da ocupação presas junto com ele, no entanto, continuaram detidas.
Enquanto isso, a Brigada atirava pelas janelas sofás, objetos de cozinha e até travesseiros e roupas de cama, conforme denunciou a reportagem ao vivo dos Jornalistas Livres. Retiradas a força do prédio, as famílias desalojadas estão precariamente alojadas num ginásio de Porto Alegre, sem condições de higiene ou de cozinhar.
Aliás, boa parte das 70 famílias que desde 2015 ocupavam o prédio histórico abandonado no centro de Porto Alegre vieram de uma outra zona de risco, a saber, de risco de enchente. Na Ocupação Lanceiros Negros, os moradores fizeram um experimento de moradia baseado na auto-gestão. No interior do prédio, que pertencia ao Estado e estava desocupado há mais de 10 anos, as famílias limparam tudo e montaram uma biblioteca, estabeleceram regras de convivência, se integraram com dignidade e respeito à vida do bairro.
A reintegração de posse ocorreu dentro da legalidade, com estamos vendo no Brasil desde o golpe de 2016. A Juiza Aline de Santos Guaranha ordenou “o cumprimento da ordem aos feriados e finais de semana e fora do horário de expediente, se necessário, evitando o máximo possível o transtorno ao trânsito de veículos e funcionamento habitual da cidade”. Dane-se o transtorno causado aos ocupantes. O importante é não perturbar a paz dos “cidadãos de bem”.
Os “cidadãos de bem”, aliás, não se furtaram a inundar de ódio as páginas da internet, clamando pelo direito de propriedade e pregando punições aos “vagabundos” e “parasitas”. Como se o direito de propriedade não fosse extensivo aos ocupantes, que precisam atuar nas franjas da lei para ter um local para morar. Para os  "cidadãos de bem" este direito é garantido sem restrições pelo Estado. No entanto, a propriedade privada pura e simples não é uma garantia da “Constituição Cidadã” que os golpistas querem a todo custo rasgar. Ela está justamente subordinada à sua função social. Não se tem o direito ilimitado de propriedade, portanto, se ela não atende ao conjunto da sociedade (ver mais aqui). Num estado que não cumpre seu papel de facilitar acesso a moradia, a Ocupação Lanceiros Negros, que fez da invasão sua arma de luta está coberta de razão.
Como contraponto ao Sistema que os obriga a transitar nas franjas, o nome "Lanceiros Negros" é excelente. Os Lanceiros Negros foram um grupo de combate da Revolução Farroupilha (ver mais aqui). Formado por ex-escravos e negros libertos, foi uma das forças de combate mais terríveis do Exército Farrapo em suas batalhas contra o Exército Imperial. O próprio Garibaldi, em suas Memórias, cita que a bravura dos Lanceiros Negros não poucas vezes o inspirou em combate. Traídos pelos próprios comandantes Farrapos, os Lanceiros Negros foram entregues desarmados às forças Imperiais, que os massacraram ao final de 1844, no denominado Massacre de Porongos. Os Lanceiros em sua maioria foram mortos e seus sobreviventes foram reescravizados. Afinal, era extremamente incômodo para a elite branca um batalhão de soldados negros e livres num país que condenava os negros à escravidão. O fim dos Lanceiros Negros foi o último obstáculo à pacificação da Província, pondo fim à Revolução Farroupilha.
Chegamos aos Lanceiros Negros modernos. Sem garantia de função social da propriedade, confinados a zonas de riscos de enchentes, são brutalmente retirados numa noite fria e chuvosa pela ação desproporcional da Brigada Militar. Homens, mulheres e crianças, como os lanceiros traídos em Porongos, se retiram, numa fria madrugada de junho, para um abrigo provisório na periferia de Porto Alegre.
Não houve sequer respeito pelo deputado que, com a força de seu mandato, tentava evitar toda a confusão. Atacado com gás de pimenta, chutado, espancado e finalmente preso pela Brigada, como numa afronta aos seus eleitores. Diga-se de passagem que um dos momentos mais civilizados da Republica Romana foi quando se admitiu que a pessoa do Tribuno da Plebe, que defendia os interesses da massa do cidadão, era por isso mesmo inviolável. A Brigada Militar, em pleno século XXI rasga a lei que jura defender atacando (este sim!) um digno representante do povo para defender um vago direito à propriedade.
O Governador, esse pobre coitado, diz que está tudo certo com a Brigada, diz que eles cumpriram o seu papel. Mas, quem é responsável pela extrema violência, se os brigadianos não são mais do que um instrumento do Estado, se não ele? Este é o papel de um governador, afinal eleito pelo povo? Uma repórter governista veste a carapuça e escreve que “cumprir ordem de despejo em uma noite de inverno e algemar um deputado estadual foram equívocos” (ver aqui).  O Governo se defende e diz que a oposição fez isso para “angariar dividendos políticos e midiáticos”. Será que foi tudo combinado, como numa sessão sadomasô? Um bate e o outro apanha, é isso?
 A folha verde e viçosa da Democracia vai se amarelando. Pelas bordas, lentamente. Ora é um mendigo, um noiado de crack. Depois, são os sem-terra, os índios. Não nos importamos com isso, moram longe, são todos vagabundos e parasitas. A folha verde vai se amarelando, até cair. Na hora em que baterem na nossa porta para nos levarem, como fizeram com tantos outros nas ditaduras do passado recente, não haverá mais por quem chorar.

(Esta postagem é dedicada à minha amiga e companheira Maria José, que me apresentou ao mundo ao sul do rio Mampituba, que tanto gosto)