sábado, 24 de junho de 2017

EU NÃO AMO O BRASIL


legenda auto-explicativa (tirei daqui)
Eu não amo o Brasil. Por que deveria amá-lo?  
Houve uma época em que eu sinceramente acreditei no conto do Patriotismo. A época era outra. Eu também. Na escola cantávamos o Hino Nacional, sempre com medo de errar – afinal, era “amor eterno” ou “sonho intenso”? E aquele papo de “amor febril pelo Brasil? ”. Queriam por todo modo que fossemos todos febris e destemidos.
Além dos hinos, haviam os contos militares nos livros de história, contando anedotas como a da frase heroica de Caxias na ponte de Itororó, conclamando: “Quem for brasileiro que me siga!”.  Em todos os cantos havia o chamado a amar a Pátria, amar a bandeira, amar o hino. Por trás de tudo, na sala da Diretora, estava um general carrancudo numa foto.
Quantas vezes haviam concursos de redação com o tema patriotismo? Quantas bobagens não escrevemos contando que a cor de nossa bandeira eram os nossos recursos naturais (na verdade, o verde-amarelo eram as cores da Casa de Bragança!). Ou então dando exemplos históricos de patriotismo no Brasil, que recolhíamos em livros não muito rigorosos com a verdade histórica.
O patriotismo do tempo da Ditadura, no entanto, acabou-se que era doce quando a classe média não tinha mais como comprar fuscas ou passear em Buenos Aires e tomar uma cueca-cuela. A popularidade do governo militar e seus tecnocratas despencava na medida em que a economia vacilava. Entretanto, eu ainda não entendia aquilo tudo. Venho de uma família muito nacionalista, tanto de direita quanto de esquerda. O nacionalismo era o que nos unia. Por vezes, mesmo já me considerando de esquerda, eu me espantava, quando era rapaz, com as pessoas que criticavam o patriotismo ou que criticavam o Brasil. E o Amor Febril?
Com o passar do tempo, aquelas historias militares e aquele verde-amarelismo tosco foram sendo substituídos por sentimentos diferentes. Entendi, no começo da juventude, lutando pelas Eleições Diretas para presidente (DIRETAS JÁ!), que eu não amava mais o Brasil varonil das canções militares, aquelas que nos diziam que devíamos viver pela Pátria e morrer sem razão.
Como posso amar esse pais que se pinta todo de verde-amarelo somente às vésperas de uma Copa do Mundo, com uma bandeirinha tímida na porta das casas? Como amar o pais que no passado tinha como lema que se devia ama-lo ou então ir embora – “Brasil ame-o ou deixe-o”?
Que amor é esse?
Hoje, eu entendo este amor diferente. Eu não amo o Brasil dos manuais de Patriotismo, aquele que diz que patriotismo é amar e respeitar os símbolos: bandeira, brasão, hino. O patriotismo brasileiro é sui-generis: você tem que amar uma pátria que não te representa? Que no passado escravizou nossos avós negros e índios? Como amar um pais hoje que não respeita os direitos dos cidadãos mais pobres? Que não garante liberdade, pão e terra para todos? Como falar que o brasileiro não tem patriotismo se a Pátria ela mesma não tem brasileirismo?
Como amar um país cindido em dois, um Brasil branco e rico e o outro, preto e pobre? Um país onde os trabalhadores mais humildes sofrem com a exploração de mão de obra, com falta de acesso ao estudo, sem perspectiva de melhorar sua vida?
Eu não amo o Brasil. Eu amo os brasileiros, aqueles que extraem algum sentido do lugar sem sentido onde vivem.
Por outro lado, não se ama um país com o qual não temos laço – de família, de história, de vida. O patriotismo tal como inventado lá atrás na Revolução Francesa tinha este sentido – proteger a nós e os nossos dos “feroces soldats” da tirania. Na Primeira Guerra Mundial, em nome deste tal patriotismo, milhões de pessoas morreram como bois no matadouro pela conquista de alguns metros de terreno, ou pela glória de algum general.
O nazismo e o fascismo também foram exemplos acabados de como fazer de pessoas honestas soldados ferozes e cruéis, as buchas de canhão do patriotismo. E assim, juntando os exemplos históricos que conhecemos, não há como não concordar com a famosa frase de Samuel Johnson (1709-1784): “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.
Portanto, eu não amo o Brasil. Não amo seus símbolos. Acho um absurdo ficar falando de patriotismo sem cidadania. Um pais que teve escravos e não tem políticas de ações afirmativas decentes é um pais a se amar? Devemos amar o Brasil como as pessoas que pregam intervenção militar dizem? Felizmente para nós, tem um problema: os militares não amam a Pátria, amam seus empregos...
Hoje, muitos outros usam o Patriotismo para ações de ódio e de xenofobia. Se escudam em noções e conceitos antiquados (e fascistas) para dizer não ao outro, ao estrangeiro. Houve até a piada-pronta de um grupo que protestou na Avenida Paulista contra a imigração (ver aqui). Como disse um humorista de plantão, “no Brasil somente os Índios tem este direito. E ali na passeata não se viu índio nenhum”.
Eu amo as pessoas que eu amo, e isso não tem país. Hoje, posso dizer que tenho amigos pelo mundo. Eu amo minha terra não porque ela é minha terra, mas porque ali estão minhas raízes, minha família, meus amigos. Tudo isso e mais uma paisagenzinha bonita, tipo uma tarde de verão na Feira-mar, em Antonina, e está feito o estrago...
Patriotismo não. Sentimento do mundo sim. Ao Brasil, eu prefiro os brasileiros.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

OS LANCEIROS NEGROS E A AGONIA DA DEMOCRACIA


O Deputado estadual Jefferson Fernandes (PT-RS), antes de ser preso pela Brigada Militar na desocupação violenta da Ocupação Lanceiros Negros, em Porto Alegre, nesta ultima quarta- feira.

Um dos sinais mais claros que as coisas estão mudando é a desfaçatez da violência. Como uma folha que amarelece de fora para dentro, a violência vem se instalando lentamente em nosso cotidiano. Como recentemente disse um artigo de Eliane Brum (ver aqui), é nas periferias do sistema que as pessoas primeiro se sentem à vontade para usar da violência sem nenhum receio ou pudor.
Uma evidência do final do mês de maio é o recente Massacre no Pará, quando nove homens e uma mulher foram mortos pela Polícia Militar em Pau D´Arco, a 867 km de Belém, quando resistiam a uma reintegração de posse (ver aqui). Os policiais chegaram a remover os corpos para evitar a perícia (ver aqui). Um mês antes, em abril, fazendeiros balearam índios da etnia Gamela do povoado de Bahias, em Viana (MA), tendo decepado a mão de um dos indígenas, Aldelir Ribeiro, de 37 anos (ver aqui). Essas chacinas covardes, uma delas perpetradas por supostos “Agentes da Lei”, entrou e saiu no noticiário como se se tratasse de um longínquo confronto no Afeganistão ou na Síria.
Esta semana, outro absurdo, desta vez em área urbana. A ocupação Lanceiros Negros, no centro de Porto Alegre, sofreu na noite desta ultima quarta-feira uma desocupação extremamente violenta, com uma ação excessiva da Brigada Militar. (Para quem não conhece o Rio Grande do Sul, Brigada Militar é o nome da PM no estado; o nome "Brigada" bem lembra a sua origem, como as demais PMs, como forças militares auxiliares ao Exército e à serviço das oligarquias estaduais.)
Na noite fria e chuvosa em Porto Alegre, véspera de feriado de Corpus Christi, usando bombas de efeito imoral, a Brigada Militar que realizava a desocupação chegou a prender o deputado estadual Jefferson Fernandes (PT-RS), presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa Gaúcha. Três horas depois, quando os brigadianos se deram conta da bobagem que fizeram, o deputado foi liberado. As mulheres da ocupação presas junto com ele, no entanto, continuaram detidas.
Enquanto isso, a Brigada atirava pelas janelas sofás, objetos de cozinha e até travesseiros e roupas de cama, conforme denunciou a reportagem ao vivo dos Jornalistas Livres. Retiradas a força do prédio, as famílias desalojadas estão precariamente alojadas num ginásio de Porto Alegre, sem condições de higiene ou de cozinhar.
Aliás, boa parte das 70 famílias que desde 2015 ocupavam o prédio histórico abandonado no centro de Porto Alegre vieram de uma outra zona de risco, a saber, de risco de enchente. Na Ocupação Lanceiros Negros, os moradores fizeram um experimento de moradia baseado na auto-gestão. No interior do prédio, que pertencia ao Estado e estava desocupado há mais de 10 anos, as famílias limparam tudo e montaram uma biblioteca, estabeleceram regras de convivência, se integraram com dignidade e respeito à vida do bairro.
A reintegração de posse ocorreu dentro da legalidade, com estamos vendo no Brasil desde o golpe de 2016. A Juiza Aline de Santos Guaranha ordenou “o cumprimento da ordem aos feriados e finais de semana e fora do horário de expediente, se necessário, evitando o máximo possível o transtorno ao trânsito de veículos e funcionamento habitual da cidade”. Dane-se o transtorno causado aos ocupantes. O importante é não perturbar a paz dos “cidadãos de bem”.
Os “cidadãos de bem”, aliás, não se furtaram a inundar de ódio as páginas da internet, clamando pelo direito de propriedade e pregando punições aos “vagabundos” e “parasitas”. Como se o direito de propriedade não fosse extensivo aos ocupantes, que precisam atuar nas franjas da lei para ter um local para morar. Para os  "cidadãos de bem" este direito é garantido sem restrições pelo Estado. No entanto, a propriedade privada pura e simples não é uma garantia da “Constituição Cidadã” que os golpistas querem a todo custo rasgar. Ela está justamente subordinada à sua função social. Não se tem o direito ilimitado de propriedade, portanto, se ela não atende ao conjunto da sociedade (ver mais aqui). Num estado que não cumpre seu papel de facilitar acesso a moradia, a Ocupação Lanceiros Negros, que fez da invasão sua arma de luta está coberta de razão.
Como contraponto ao Sistema que os obriga a transitar nas franjas, o nome "Lanceiros Negros" é excelente. Os Lanceiros Negros foram um grupo de combate da Revolução Farroupilha (ver mais aqui). Formado por ex-escravos e negros libertos, foi uma das forças de combate mais terríveis do Exército Farrapo em suas batalhas contra o Exército Imperial. O próprio Garibaldi, em suas Memórias, cita que a bravura dos Lanceiros Negros não poucas vezes o inspirou em combate. Traídos pelos próprios comandantes Farrapos, os Lanceiros Negros foram entregues desarmados às forças Imperiais, que os massacraram ao final de 1844, no denominado Massacre de Porongos. Os Lanceiros em sua maioria foram mortos e seus sobreviventes foram reescravizados. Afinal, era extremamente incômodo para a elite branca um batalhão de soldados negros e livres num país que condenava os negros à escravidão. O fim dos Lanceiros Negros foi o último obstáculo à pacificação da Província, pondo fim à Revolução Farroupilha.
Chegamos aos Lanceiros Negros modernos. Sem garantia de função social da propriedade, confinados a zonas de riscos de enchentes, são brutalmente retirados numa noite fria e chuvosa pela ação desproporcional da Brigada Militar. Homens, mulheres e crianças, como os lanceiros traídos em Porongos, se retiram, numa fria madrugada de junho, para um abrigo provisório na periferia de Porto Alegre.
Não houve sequer respeito pelo deputado que, com a força de seu mandato, tentava evitar toda a confusão. Atacado com gás de pimenta, chutado, espancado e finalmente preso pela Brigada, como numa afronta aos seus eleitores. Diga-se de passagem que um dos momentos mais civilizados da Republica Romana foi quando se admitiu que a pessoa do Tribuno da Plebe, que defendia os interesses da massa do cidadão, era por isso mesmo inviolável. A Brigada Militar, em pleno século XXI rasga a lei que jura defender atacando (este sim!) um digno representante do povo para defender um vago direito à propriedade.
O Governador, esse pobre coitado, diz que está tudo certo com a Brigada, diz que eles cumpriram o seu papel. Mas, quem é responsável pela extrema violência, se os brigadianos não são mais do que um instrumento do Estado, se não ele? Este é o papel de um governador, afinal eleito pelo povo? Uma repórter governista veste a carapuça e escreve que “cumprir ordem de despejo em uma noite de inverno e algemar um deputado estadual foram equívocos” (ver aqui).  O Governo se defende e diz que a oposição fez isso para “angariar dividendos políticos e midiáticos”. Será que foi tudo combinado, como numa sessão sadomasô? Um bate e o outro apanha, é isso?
 A folha verde e viçosa da Democracia vai se amarelando. Pelas bordas, lentamente. Ora é um mendigo, um noiado de crack. Depois, são os sem-terra, os índios. Não nos importamos com isso, moram longe, são todos vagabundos e parasitas. A folha verde vai se amarelando, até cair. Na hora em que baterem na nossa porta para nos levarem, como fizeram com tantos outros nas ditaduras do passado recente, não haverá mais por quem chorar.

(Esta postagem é dedicada à minha amiga e companheira Maria José, que me apresentou ao mundo ao sul do rio Mampituba, que tanto gosto)

domingo, 11 de junho de 2017

A MORTE DE BATMAN

Adam West, em foto de 1999, sentado sobre o bat-móvel


Entre tantas perdas que tivemos recentemente, uma delas me bateu tanto que senti, depois de algum tempo, vontade de escrever algumas maltraçadas linhas. Trata-se da morte de Adam West, o icônico Batman do seriado dos anos 60.
Com a perda de West, senti que muito de meu passado está ficando irremediavelmente distante. As tardes em frente da velha – e grande -  TV preto e branco, vendo assustado as encrencas em que se metiam Batman e Robin, lutando contra inimigos não menos icônicos como o Charada, o Pinguim, o Coringa e a não menos temível – e por isso mesmo adorável - Mulher-gato são tardes cada vez mais distantes e apagadas na memória.
Adam West vestiu um Batman da contracultura, um Batman que vinha direto dos gibis, com muita meta-linguagem e com um cenário super-colorido e sua linguagem de socos onomatopaicos – os formidáveis Crash, Pow, Thud...
Era um Batman juvenil e alegre, bem distante daquele Batman introspectivo e sombrio que a série “Cavaleiro das Trevas” viria a impor a partir dos anos 80. Um Batman com falhas, um vingador obsessivo, um ser transtornado e perturbado.
Como não amar aquele imperturbável ricaço que descia por uma passagem secreta para seu esconderijo secreto para lutar contra o mal? Quem nunca quis ter uma segunda identidade e uma batcaverna para se esconder e trabalhar nas mais incríveis ferramentas? Usar o cinto de utilidades, tão kitsch quanto incrível, inventar poções borbulhantes em tubos de ensaio gigantes ou dirigir o bat-móvel ou o batplano pelas ruas e pelos céus de Gotham City?
Santa ingenuidade, Batman! Doce ingenuidade, Batman, embalada em frente da TV preto e branco da sala de estar...
Hoje em dia, em que vivemos nesta lamentável gangorra de emoções ruins e golpes baixos, temos juízes e procuradores que se travestem de Batman. Querem ser justiceiros, querem fazer a diferença como se justiceiros fossem, e não trabalhadores da justiça. Que fazem seu serviço como se dirigissem batmóveis e enfrentassem Coringas ou Charadas, quando o que na verdade enfrentam são os temers, os jucás, os renans, os aécios, bandidos mais espertos e muito mais barra-pesada.
E a justiça? Batman podia pegar seu bat-fone e ligar para o Comissário Gordon e tudo estava resolvido. Batman era um funcionário do Estado, agindo nos interstícios do poder do estado. Quando tudo parecia perdido, o home morcego havia sido capturado pelos vilões e estava para ser morto, aparecia a polícia de Gotham City – o herói estava salvo, e os bandidos estavam presos.
Quem vai prender quem? As lamentáveis Cortes que temos, a deplorável magistratura que sustentamos com nossos impostos é ela mesma cheia de Pinguins e Charadas. Não há espaço para ingenuidade, a lei e a ordem vão se esvaindo como areia por entre nossos dedos e tudo o que foi construído com muito esforço nos últimos trinta anos - a minha vida adulta – se esboroa frente aos interesses privados e à vontade do tal de “mercado”, sem que temas de moral e ética provoquem a mínima indignação.
Todo o legado do século XX e as suas guerras mundiais parece não ser mais levado a sério. A luta contra os nacionalismos perversos e beligerantes como o nazismo, o fascismo e o nacionalismo nipônico, a luta contra a exclusão social, a luta pelas soluções globais negociadas e pelas leis e valores democráticos – o quer que isso queira dizer – ficam cada vez mais relativos.
O colorido vibrante do Batman de Adam West talvez queira nos dizer alguma coisa, nos lembrar de algo que ficou para trás. Um Bat-sinal.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

JOÃO E GERALDO, GERALDO E JOÃO


Confusão na Cracolândia é de Geraldo ou de João? (fonte)
Era uma vez Geraldo, era uma vez João. João e Geraldo, Geraldo e João. Geraldo era médico, um médico sacristão. Governador dessa gente, ele descia o porrete, ele adorava o bastão.  Já João era empresário, e não desdenhava tostão. Era prefeito gabola, se vestia de gari pra fingir que trabalhava. Pintava muro de cinza, pois gostava da cidade, mas não gostava das cores e nem de diversidade.  
Geraldo vinha de longe, do sopé da Mantiqueira. Era médico, homem simples, religioso com fervor. Acreditava, o coitado, que o homem drogado é um fraco, que é homem sem moral. Pra se curar de verdade, precisa de medicina e precisa de internação. Foi por isso que criou o projeto “Redenção”. Pra cada doente internado, Geraldo é que se redimia, mandava eles pra longe, pra onde a cidade não via.
João não quer saber de nada: ele quer é botar no chão, limpa a rua, dá escracho, e quer varrer pobre embora para a cidade arrumar : “Pobre pra lá do tapume, que não quero nem ver! ”. “Para cá chamo Jaime Lerner, cabra muito inteligente, pra deixar a cidade linda, cheia de luz indireta, boutique e floreira bonita”. Essa cidade granfina que ia brotar dos cortiços, que ia vencer as trevas, seria a “Nova Luz”, na ideia de João.
João e Geraldo, Geraldo e João. Ao chegar na Cracolândia, começou a confusão. Era polícia de um lado, era drogado pro outro, bala pra tudo que é lado. Nada disso era problema, pensava João: “Tudo era viciado, pardo preto cafuzo - isso nem gente é”. Prenderam então muita gente, bateram em muito noiado, botaram num camburão. Uns eram para o presidio, outros para internação, pra limpar a Cracolândia, implantar a Redenção. Era cassetete e bala construindo a Nova Luz.
Atrás vinham os tratores fazer a demolição. Ao derrubar uma casa, ali tinha gente ainda, que susto, que maldição! Esse monturo de gente, misturado com tijolo, gente preso no banheiro, parede caindo abaixo, era o mundo que caia em quem era noiado ou não. Quem tava na Cracolândia era gente sem valia, sem finança ou garantia, sem apoio e sem tostão. O meganha enfim gritou: “Que todos saiam da frente que já vamos demolir! ”. Lá de dentro uma vozinha, sem medo de resistir – “muita calma seu tenente, que aqui o que tem sim é gente, com direito de ir a vir”.
Geraldo e João, João e Geraldo. Pra acabar com a droga, não se acaba com o drogado: tem que dar uma chance pra ele se redimir. Problema não é a droga, problema é a pobreza, a falta de opção. Destruir a Cracolândia é só promover desmantelo, é como enxugar o gelo, só esparrama os noiado. Surgem outras cracolândias pela cidade inteira, tão rápido como o lacrimogêneo das bombas de gás da polícia: é toda a cidade a chorar.
Só com moral não resolve o problema do drogado: ele sabe seu estado, está no fundo do poço, mas com cassetete e alvoroço ninguém pode se curar. Pra eles largar o vício dê emprego e dignidade, que eles fazem sacrifício, e vão a droga largar. A vida na rua é dureza, e ninguém quer morar lá. O problema dessas drogas é problema de pobreza, rico também usa droga, mas tem casa para voltar.
João e Geraldo, Geraldo e João. Pra problema complicado, difícil é solução. Esparramar gente e bala e derrubar os cortiço é a pior solução. Sem encarar de verdade a tal da complexidade, livrar do crack a cidade vocês não irão nunca ver.  Vencer desemprego e pobreza, dar ao pobre seu orgulho, pra se acabar com o vicio é a verdadeira questão. Tratar o povo no cacete e tratar vicio com bala só revela o raciocínio de quem não tem compaixão. De João e de Geraldo, de Geraldo e de João.

sábado, 22 de abril de 2017

SOBRE GAMBÁS E SABIÁS

Flagrante do feroz gambazinho rugindo por entre as flores...
Aqui em casa temos um longo histórico de convivência com gambás e sabiás.
Os sabiás estão aqui quase todos os dias, faça chuva ou faça sol. Quando cortamos a grama, aumenta a quantidade dos bichos. Fica um monte deles na grama, para lá e pra cá. Gosto de ver os pulinhos que eles dão, num caminhar desajeitado tão típico dos tordos. Sua luta diária contra os vermes e as minhocas do gramado é quase épica, é um destes terríveis espetáculos da natureza. Ver o pássaro gigante e predador lutando contra o frágil e indefeso anelídeo é um duelo terrivelmente cruel e desigual, ocorrendo bem ali na nossa frente. Não deveria enternecer nossos corações, mas enternece. Não torcemos (eu não torço) para a minhoca. Sempre acho lindo o sabiá olhar para os lados, a minhoca (ou parte dela) retorcendo-se no seu bico. Num instante depois, o pássaro sai logo voando. Os filhotes precisam comer.
Os gambás são noturnos, e vivem sempre aprontando alguma. A lista é grande. Certa vez um gambá comeu os caquis que estavam no secador de frutas. Uns caquis belíssimos, vermelhinhos e docinhos. Não os culpo, eram realmente muito apetitosos e suculentos. Outra vez, remexeram no lixo, e fizeram uma grande duma bagunça na área de serviço. Outra vez ainda, Maria José se deparou com um destes gambás na cozinha e tentou espanta-lo de maneira gentil. Ele não se deu por achado, e ela então o cutucou com uma vassoura. Ele rosnou e mostrou os dentes. Vendo que o bichinho ia resistir, ela fez uso da mais letal das armas: o esguicho. Com uma potentíssima mangueira esguichando no seu focinho, o marsupial não teve mais argumentos e bateu em retirada. A cozinha ficou parecendo um território conflagrado, mas eles nunca mais se atreveram a entrar aqui dentro.
No máximo, andavam pelo quintal, num horário entre as dez e onze da noite. Entravam e saiam quase todos os dias, correndo pelo gramado. As vezes em dois, as vezes um. Até que estes dias eles reapareceram: roubaram uma manga e a deixaram semimordida no gramando. Era um sinal de sua presença. Outro dia, escutei um guincho e vimos dois gambás passeando pela fiação de luz em frente de casa. A luz dos postes refletindo por trás sobre os bichos lhes conferiam uma aura, como que recortados da escuridão. Ficamos um bom tempo apreciando os bichos a caminhar por entre as altas voltagens dos cabos elétricos da rua, vagarosamente, como se quisessem nos mostrar suas habilidades de malabaristas.
Ontem à noite recebemos a visita de um gamba ainda filhote. Sem se incomodar com nossa presença ficou por ali, mordiscando coisas no escuro. Quando fui ver quem era, ele fugiu. Fugiu para uma arvore cheia de flores. Quando apontei para ele minha cruel máquina fotográfica, ele soltou um rugido tão terrível que me fez medo. Parecia o Flor, do Bambi, rugindo por entre as flores do jardim. Foi engraçado e terno, que ri e deixei o bicho em paz.  Ele passou o resto da noite saracoteando por ali procurando sua comida.
Hoje de manhã, um sabiá estava na calçada, andando desengonçado por entre os matinhos que surgem nas frestas. Com um golpe certeiro, apanhou uma lagarta, a ficou ali a lutar contra ela. Fiquei um tempo torcendo por ele. Quando a lagarta não se mexia mais, ele a pegou no bico, deu uma virada de cabeça bem de passarinho, e se foi.
Quando tudo parece tão terrível, nada como cuidar do próprio jardim, como pedia o Cândido de Voltaire. Voltar ao simples. Os gambás e sabiás e suas urgências me parecem hoje um contraponto bem exato para a correria em que a gente se mete assim, sem-querer-querendo. O feroz gambá rugindo por entre as flores, entre assustado e assustador, e o pequeno sabiá catando comida para a prole somos nós.

(PS - vi que, entre feliz e assustado, esta é a 300ª postagem neste blog; puxa! um marco!  obrigado a todos pela paciente leitura e critica destas maltraçadas linhas....)

quarta-feira, 29 de março de 2017

OS "MILIONARIOS DOS QUILÔMETROS" CHEGAM AO FIM DA JORNADA




Era uma segunda feira de quaresma, e a igreja matriz de Antonina estava cheia. Parecia que era festa de agosto, a igreja lotada de gente, o burburinho tomando conta do átrio e ressoando pela nave da matriz. Era um dia de festa e regozijo. As oito horas da noite do dia 9 de março de 1942 o padre Leonardo Starzinski rezou uma missa em homenagem aos cinco escoteiros.
Faziam sete anos que o padre Leonardo estava ali na paroquia. Iniciara seu vicariato em 1936, substituindo o enérgico padre Bernardo Peirick, que havia feito muitas reformas na matriz, que ainda hoje guardam seu estilo. Padre Leonardo, ao contrário de padre Bernardo, eram um catequizador. Naquela noite na missa noturna, esperando pelo seu sermão, havia paroquianos especiais: os cinco rapazes recém-chegados de sua jornada a pé ao Rio de Janeiro.
Para o sermão, escolheu alguns trechos selecionados do Êxodo, falando das agruras sofridas pelos judeus em sua busca pela Terra Santa. Os sacrifícios, os descaminhos, as incertezas, tudo isso foi citado em seu sermão. Os rapazes escutaram tudo com atenção e devoção. Ao encerrar, padre Leonardo pediu a Deus para que os rapazes seguissem sempre os caminhos do Bem. E ressaltou que o seu feito servisse de modelo para as gerações de escoteiros do futuro, como anotou Lydio Cabrera em seu diário.
A aventura chegara ao fim. Depois das festividades da volta, houve ainda diversas atividades sociais a cumprir. Lydio nos conta que, no dia seguinte à chegada, aceitara tomar um chá na casa da Profª Assíria Linhares, onde contou um pouco de sua experiência à velha mestra. À tarde, os cinco rapazes foram visitar o capitão Custodio Raposo Neto, Prefeito Municipal, junto a outras autoridades, conforme anotou Lydio. Depois, ainda deram uma entrevista para o jornalista João da Cruz Leite, editor do Jornal de Antonina. Já estava de noite quando saíram de lá.
Mas as festividades prosseguiam: ainda nesta noite houve um jantar de confraternização na casa do Chefe Picanço. Lá, em volta da mesa, seu Manequinho fez um pequeno discurso, dizendo-se muito satisfeito com o feito dos cinco rapazes. Ressaltou que os esforços e a força de vontade de cada um haviam contribuído para o sucesso da missão. Eles eram, para seu Maneco, o orgulho do escotismo antoninense. Talvez, frisou o chefe, um feito desta envergadura nunca mais viesse a ser repetido no escotismo brasileiro.
Na reunião da noite, na Caserna dos Escoteiros, houve ainda uma Sessão Cívica. A bandeirante Araildes Horibe saudou os rapazes, finalizando com estas palavras: “os vossos nomes serão gravados na História de Antonina e com letras de ouro, no livro desta Associação, como os milionários dos quilômetros”. O Chefe Beto, agradecendo as palavras da Bandeirante Escoteira, disse que, “se fosse preciso, eles o fariam novamente, e com grande satisfação”. Ao final, a banda musical da tropa escoteira começou a tocar um dobrado, aumentando a alegria da festa. Com todos eufóricos cantando o Hino Nacional, a sessão foi finalmente encerrada. A missão havia acabado.
Ao sair da igreja aquele dia, sentindo o vento fresco vindo do mar, os cinco rapazes não sabiam do que a vida ia fazer deles. Cada um voltou a suas casas, a suas famílias, e cada um viveu suas vidas. Os meninos, durante toda sua vida, foram intensamente homenageados na cidade, onde viraram nome de rua, e onde sempre foram solicitados a contar os detalhes de sua aventura.
Mas sua missão não foi jamais esquecida. Hoje, mais de 70 anos, os valentes e ingênuos rapazes da Capela ainda povoam as nossas mentes. Não há antoninense que não saiba, ao menos por cima, sobre a sua expedição. Alguns os chamam de heróis. Outros, de loucos. Outros, ainda, acham que seu sacrifício valeu somente para um bando de políticos aproveitadores. Muito embora o significado verdadeiro de sua jornada se tenha perdido no tempo e nas memorias de quem a viveu, o feito ainda impressiona.
Não há como não se impressionar com cinco rapazes perdidos no mundo para entregar uma carta ao presidente. A carta em si não significou muito, mas a jornada colocou Antonina no mapa. Isto não é pouco.

quinta-feira, 23 de março de 2017

O CURIÓ DE SEU ADMARO



Certa vez, o Sr Admaro Santos estava atrás de um bom curió cantador. Sabendo da demanda, nosso amigo Pompéia apresenta ao Jornalista um curió que lhe agradou bastante. Negócio feito, Sr Admaro colocou a gaiola em sua varanda para ouvir a suave cantoria.
Entretanto, começou a perceber que a pobre ave não conseguia subir direito ao poleiro. Mancava, puxando uma perninha. Ao perceber isso, procurou logo o Pompéia, para colocá-lo a par do que acontecia com o curió.
Ao saber do ocorrido e levar um sabão do Sr Admaro, Pompéia não se abalou. Ouviu até o fim, e depois perguntou, em sua defesa:
“Doutor, o senhor quer um curió que cante ou um curió que dance? ”

PS – esta história me foi contada há uns dois anos atrás durante o Jequiti Cultural pelo meu amigo Epitácio Machado. Não menos importante, foi contada junto com o próprio Pompéia, que só deu um sorriso maroto quando perguntei se era mesmo verdade...Será que Seu Maneco gostaria de conta-la?

quarta-feira, 15 de março de 2017

A VOLTA PRA CASA: A CHEGADA TRIUNFAL!


Ao cair da tarde do dia 4 de março de 1942, depois de passar ao largo de Cananeia e entrar no canal da Ilha do Mel, o vapor que conduzia os cinco escoteiros estava chegando ao atracadouro do porto de Paranaguá. O fato do navio chegar até ali e não ir até Antonina era simplesmente o fato causador da viagem dos rapazes, fazia três meses quase: o fechamento da Companhia Costeira pelo Governo Federal, que fazia a rota comercial até Antonina.
A carta que os rapazes haviam entregado explicava ao Ditador as razões da cidade para ter a volta dos navios da Costeira de volta. Antonina era o caminho mais curto para Curitiba, servido diretamente pela estrada da Graciosa. Era o atracadouro mais ocidental da baia de Paranaguá, com obvias vantagens em termos de distância e, consequentemente, em fretes.
Os navios da Costeira, que haviam sido recentemente estatizados pelo Governo, eram o grande elo que unia Antonina na rede do comercio de cabotagem do Brasil. Sem ele, o comercio perdia todas as suas vantagens e a cidade perderia muito em importância e em dinheiro. Na carta, a cidade pedia que a costeira pudesse voltar, e apelava para os mais nobres sentimentos do ditador.
Getulio fez o que lhe convinha: posou para fotos com os rapazes, ressalvou-lhes a coragem. Fez com que a Costeira voltasse a tocar, de maneira tímida, o atracadouro antoninense. Mas era pouco. Quando o ditador caiu, em 1945, a Costeira desapareceu tão irremediavelmente que nenhuma viagem a pé poderia faze-la voltar. A viagem dos rapazes que agora terminava como um grande sucesso, na verdade havia sido um movimento de grande coragem, mas em vão.
Longe deste horizonte, os rapazes iam acompanhando a manobra do navio para atracar no porto de Paranaguá naquele início de noite. No cais, os meninos foram recebidos pelo chefe dos escoteiros de Antonina, Maneco Picanço, e por alguns antoninenses que moravam na cidade. Foi uma grande festa. Um Ford V8 preto estava ali, esperando para levar os rapazes de volta para casa. Seria a última viagem até Antonina, de onde haviam partido em dezembro.
O motorista foi encher o tanque, uma tarefa bastante complicada naqueles tempos. A gasolina estava racionada em tempos de guerra, e demorou quase duas horas para voltar com o tanque cheio. De tanque cheio também estavam os rapazes, levados pelo Chefe para fazer uma boquinha antes da última viagem.
O Ford deixou Paranaguá as 22:00 horas, passando pela vila de Morretes despois de quase duas horas de viagem. Prosseguiram até Porto de cima e São João, no entroncamento da Estrada da Graciosa, onde pararam para descansar. Ali estava esperando por eles o Sr Nicolau Cecyn, em seu Ford verde, para acompanha-los no trecho final. No quilometro 8 da rodovia da graciosa o delegado de polícia de Antonina, o Sr Penny Withers, esperava para dar a boa vinda aos rapazes, em nome do prefeito, Capitão Custodio Afonso Neto.
Quando a caravana chefiada pelo Ford Preto cruzou a Avenida Thiago Peixoto, os foguetes começaram. Segundo Lydio, o espetáculo pirotécnico era indescritível. Foguetes e morteiros estouravam sem cessar, anota ele. Os carros só pararam, em meio ao foguetório, depois do portal da cidade, próximo do pátio da Estação Ferroviária. Uma grande multidão cercava os rapazes, dando-lhes beijos e abraços.
Como Lydio anotou em seu diário, teve início um grande desfile escoteiro nas ruas de Antonina que durou parte da madrugada, que só terminou na Caserna da Tropa Valle Porto, acompanhados por grande massa de pessoas. Ali, finalmente, os rapazes foram dispensados de sua missão e puderam ir para suas casas.
Ao chegar em casa, com sua família, Lydio conta que estava muito excitado para dormir. Estava cansado, com fome, mas sem sono, querendo desesperadamente falar. Sua mãe, dona Nathalia, foi fazer um café. Enquanto isso, Lydio contava para seu pai alguns dos detalhes da viagem. Eram 4 da manhã quando finalmente conseguiu pegar no sono. Segundo conta, sentia falta do balanço do navio. Fechava os olhos e tentava reter na memória tudo o que havia acontecido naquela memorável madrugada.
Enfim, em casa!

quarta-feira, 8 de março de 2017

A VOLTA PRA CASA: PASSEANDO EM SANTOS


A praça Rui Barbosa e os bondes de Santos, cerca de 1940
Estava já escuro, mas mal o Vapor atracou nas docas do porto de Santos Lydio saltou para terra. Queria conhecer a cidade. Ficou muito impressionado com o movimento comercial do centro, mesmo àquela hora da noite. Visitou as praças Rui Barbosa e José Bonifácio, que gostou muito. Mas ficou mesmo impressionado com os bondes da cidade.
Os bondes tinham motorneiros vestidos em impecáveis ternos brancos, e usavam luvas. Chamou atenção os vastos bigodes que quase todos eles apresentavam. Só depois, mais tarde, se deu conta que eram quase todos portugueses. Deixando para trás os bondes, e andando um pouco mais, Lydio viu um circo.
Era o circo Piolom. Com sua tenda armada num terreno baldio das proximidades, estava bem na hora de mais um grande espetáculo. Provavelmente, o maior espetáculo da Terra. A vontade que Lydio sentiu de assistir ao espetáculo daquela noite só não foi maior do que o medo de perder o navio. Entrou de volta pelo armazém 12 e andou pelo cais apreciando os navios ali ancorados.  
Estavam ali ancorados diversos navios americanos e ingleses, os quais mostravam, na proa e na popa, canhões e metralhadoras antiaéreas. O tempo de guerra e o encontro com submarinos e belonaves alemãs não era uma ameaça distante, como já vimos. Os navios brasileiros que Lydio encontrou ali atracados também estavam armados. Mais do que os navios de guerra, entretanto, os cassinos flutuantes que também estavam ancorados ali também chamaram a sua atenção.
Havia muita gente e muita luz. De lá de dentro, muita música também ressoava. No interior do navio-cassino, imagina, Lydio, jogava-se e dançava-se freneticamente. A maioria dos frequentadores, segundo nota, eram estrangeiros. No próprio vapor em que viera, o carteado também corria solto no convés. O clima de festa dos navios ressoou intenso. No entanto, tinha que voltar ao seu navio. De volta, correu ao seu camarote e dormiu sob o embalo das ondas.
Pela manhã, ao acordar, os rapazes viram o movimento intenso do porto, com seus guindastes trabalhando freneticamente tirando e colocando cargas destinadas a todos os lugares do brasil e do mundo. Após o café, saíram para conhecer a cidade, agora de dia.
Após visitarem um conhecido de Antonina que estava morando em Santos, os rapazes andaram pelo centro e passearam pelas praias de Gonzaga e José Menino. Passaram de bonde pelo estádio de Vila Belmiro onde, mal sabiam eles, surgiria, dezesseis anos depois, a maior lenda do futebol mundial e um dos maiores times de futebol já vistos. Mas isto é outra história. Na cidade, mais do que o futebol, o que mais chamou a atenção dos rapazes foram os canais.
Iniciados em 1907 pelo engenheiro Saturnino de Brito, os canais eram uma grande inovação higienista e urbanística, drenando os terrenos alagadiços da Ilha e controlando as aguas pluviais. Contribuíram para o controle de doenças e induziram a ocupação urbana da cidade durante o século XX. O mais novo dos canais só seria terminado em 1968. Em 1942, os canais de Santos já eram uma obra de chamar a atenção dos jovens escoteiros. Lydio também notou os morros de Santos, observando lá em cima, a mancha branca da igreja de N.S. de Montserrat. Era hora de voltar ao navio.
Os rapazes ficaram no salão do navio, ouvindo as músicas tocadas ao piano pela jovem Doralice, gaúcha de Porto Alegre. De namorico com Milton Horibe, a gauchinha ficou por lá conversando alegremente com os rapazes, até que chegou a hora de se recolherem. Durante a madrugada, Lydio saiu ao convés para ver a tempestade que já citamos, a qual quase lhe custou a vida. Logo depois, o escoteiro voltou ao camarote e dormiu pesadamente. Quando acordou, havia perdido o café da manhã. No entanto, ao conversar no convés com um marujo, descobriu que estariam chegando em casa no começo daquela mesma noite.
Enfim, de volta pra casa!

sábado, 4 de março de 2017

A VOLTA PARA CASA: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES


Em março de 1942, a viagem de volta dos escoteiros antoninenses tinha o risco real de ataques de submarinos alemães
Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o navio enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora.  Uma onda acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada, e Lydio receou que fosse atirado ao mar pelos vagalhões de agua salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha e foi forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família.
Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos, até que tomou coragem e voltou a seu camarote. Estava encharcado e gelado. Tomou um banho, caiu na cama e dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio.
Haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa.
Já no navio, ao singrar as aguas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar.
Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com  sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam.
Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.
O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. Em pouco tempo, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros e que seria decisivo para a declaração de guerra aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto.
Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, o barco viajava todo pintado de preto, e nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.
Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite.
Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estava atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O FIM DO ANFÍBIO


Hoje de manhã, ao abrir a porta da cozinha vi uma cena macabra: umas perninhas boiando, inanimadas,  num balde de agua com Qboa. Ao chegar mais perto vi que não se tratava de nenhum ser liliputiano, mas sim de uma prosaica rãzinha, que acreditou estar voltando pra casa num pulo.
O corpinho da rã boiava no balde à luz da manhã de uma quarta-feira de cinzas. De imediato, não soube muito o que fazer. Funeral de animais é uma coisa complicada. Em geral, o funeral só é reservado para animais muito próximos, tanto na escala evolutiva quanto na vida. O cachorrinho de estimação das crianças. Meu coelhinho, o Bolinha, morto de causas desconhecidas no quintal de minha infância. O pardalzinho que tentamos salvar, eu e minhas irmãs, quando ele caiu do ninho. Mas, uma rã, e da qual nem tinha conhecimento até ver seu corpitcho de nadadora estirado no nosso balde de limpeza?
Optei por coloca-la no lixo, junto com outros dejetos orgânicos e não compostáveis. Ao pega-la pelas patas, vi que ela já estava enrijecida, os olhos abertos, a barriga inchada. Tive um nojinho, confesso. Mas cumpri minha missão.
 E fiquei pensando sobre nossa relação com os animais, principalmente aqueles animais que achamos não ter relações. Semana passada, apareceu aqui em casa uma cobra. Já apareceram outras duas, mas filhotes. Desta vez, segundo nossa diarista, era uma cobra mesmo. Volta e meia também passa por aqui um gambá, que já fez estragos com umas frutas e com o lixo que deixamos descoberto. Tem também os passarinhos, a fazer algazarra e gritar pelas arvores ao redor.
Optamos, Maria José e eu, por não termos animais de estimação. Dá trabalho para os dois lados. Pra criar tem que se dedicar, e, como viajamos muito, achamos que não compensa. Eu já tive os cachorros e outros bichos que meu pai tinha. Depois, tive os cachorros que meus filhos queriam ter. Agora, posso escolher não ter nada.
Mas, pelo que contei até aqui, acho que eles acabam por nos escolher. Acrescento à lista que dei anteriormente uma coruja enorme que as vezes passa por aqui e um sagui que certa vez gritava na nossa porta. São eles, os animais, que nos escolhem.
Vivemos num mundo ainda selvagem. Que digam os gafanhotos e pulgões e formigas que nos infestam o jardim, que ensejaram o surgimento da indústria de pesticidas. Sem contar, é claro, como os pernilongos e outros aedes, que criaram a indústria dos repelentes.
 E assim vamos, convivendo com eles e os exterminando. O extermínio é feito sem dó. Mato um mosquitinho sem ter dó na consciência. Mato um aedes com um misto de medo e fúria. Exterminamos as baratas com venenos e chineladas com um sorriso sádico nos lábios.
E o que dizer de uma morte involuntária, de um animal “bonitinho”? Que confundiu o balde com Qboa do outro balde ao lado, com agua limpa? Como fica então nossa consciência? Gusano, meu caro amigo Gusano, o verme da garrafa de mescal, me olha com um ar de cético: “vocês humanos ó se preocupam com vocês!”. É verdade, Gusano. Só o que é humano nos interessa. Por isso os sapos e  rãs são bonitinhos e as salamandras são demoníacas.
Devemos, então, nos preocupar com os animais por estarmos preocupados com nos mesmos? O que fazer se vivemos numa sociedade que consome mal e muito, com uma conta que não fecha? Parece que estamos presos dentro da cabine de um trem desgovernado cuja chave foi jogada fora. Gostando ou não gostando do que estamos vendo, estamos todos juntos. Quem quer produzir de qualquer jeito e que quer que haja alguma norma que respeite o meio, estamos todos na mesma civilização. Como as duas faces de uma moeda.
Vai dar cara ou coroa? Ou a moeda da civilização vai pro bueiro sem que se saiba o resultado?
Eu só sei que o fim de um  anfíbio não deveria ser  num balde de Qboa. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O MELHOR ATLETIBA QUE EU NÃO VI


O Atle-tiba que não houve. Orgulhosamente, imagens da TVCAP.
Pra quem é paranaense e gosta de futebol, impossível não falar sobre o Atle-tiba. Ao longo de minha vida, vi muitos, tanto dentro do estádio quanto pela televisão, pelo rádio e mais recentemente pela internet. Vi ali jogar craques de verdade, como não existem mais hoje. Pelo Coritiba, vi jogar Zé Roberto, Paquito e Tião Abatiá,  Alex. Pelo Atlético, vi Di,  Sicupira, Assis & Washington, Paulo Rink, Adriano Gabiru e mesmo o menino (ex-menino!) Kleberson, que só brilhou mesmo com o manto sagrado rubro-negro e com a nossa tão maltradada amarelinha.
Vi jogos memoráveis e jogos nem tanto. Assisti empates sonolentos, goleadas sonoras de parte e parte, decisões de campeonato pra lá de tensas e cheias de brio. Vi anos de domínio coxa-branca, anos de domínio rubro-negro e muita, muita rivalidade.
Qual não foi minha surpresa ao ver pela internet (estou em Andrelândia – MG em trabalho de campo com meus alunos e colegas do curso de geologia da UNICAMP) o que aconteceu neste último domingo.
Que bom ver os dois rivais unidos e por uma causa mais que justa: o fim do monopólio das televisões (leia-se Rede Globo) na transmissão das partidas de futebol. Um negócio milionário que tira do torcedor a possibilidade de escolher ver seu time jogar. Quantas vezes não somos obrigados a ver o time “mais querido”, ou “a maior torcida do Brasil” apenas por interesse da citada rede de televisão? Quanto dinheiro os times “médios” perdem em  por causa de todas as maracutaias envolvidas nos negócios sobre direito de transmissão?
Sem falar na bagunça que são as federações de futebol no Brasil. Quando perdemos da Alemanha, houveram algumas vozes pedindo para que adotássemos um sistema melhor de organização do futebol, similar ao modelo alemão. Um modelo que fez o 0 x 2 de 2002 virar o 7 x 1 de 2014. Mas a quem isso interessa? Aos dirigentes de Federação e a própria CBF, definida por Juca Kfuri como a Casa Bandida do Futebol? Interessa aos empresários de jogadores que exploram meninos e ganham dinheiro de maneira desorganizada e inescrupulosa?
A vergonha alheia provocada pela Federação Paranaense ao cancelar o clássico por causa da falta de credenciamento de alguns jornalistas ligados a redes online é uma chacota. Um acinte. Uma piada de mau gosto. Aliás, a própria FPF é uma piada. Um ato digno de todos os dirigentes que teve essa associação, gente de moral duvidosa e sem escrúpulos, e que deveria estar com os dias contados. A organização do atual futebol brasileiro deveria voltar ao passado de onde veio e nos deixar jogar livres, independentes e felizes.
Isso vale para todo o esporte brasileiro. Está também na hora de deixar a futebolmania dirigir todos os interesses. Temos outros esportes e modalidades que também tem importância e merecem mais espaço nos corações e mentes dos brasileiros. Mas, essa crise também é um claro sinal de que tudo está mudando.
Por tudo isso, acho que este é o melhor Atletiba que não vi. Neste jogo, os dois rivais dentro do campo se uniram contra a máfia que controla e futebol e os grandes interesses financeiros das emissoras de televisão. Não é pouco. Como disse o técnico Paulo Autuori, é uma grande mudança de paradigma que a dupla Atletiba faz ao não se curvar a estes interesses.
Hoje é um dia que está bonito ser atleticano ou coxa-branca.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CIVILIZAÇÃO & BARBÁRIE


Que vivemos tempos estranhos todos sabem. No entanto, nada me deixa mais triste que todos os laços que tentamos criar, desde o fim da Segunda Guerra Mundial estejam se desfazendo diante de nossos olhos sem que ninguém consiga fazer nada.
Nestas horas tento invocar Santa Rosa Luxemburgo, pedindo que nos livre da barbárie. No entanto, ao longo destas ultimas semanas ou meses, o cenário parece ser consistentemente uma fragmentação e ruptura de laços frágeis, porem necessários.
Fazem dois séculos que estamos construindo espaços para o respeito e a dignidade individuais, os chamados Direitos humanos. Direitos esses que são das classes dominantes e pouco, muito pouco, das classes subalternas.
Os direitos da burguesia são fáceis de ver e respeitar. O direito dos outros, no entanto, é vilipendiado, negado, execrado.  Direitos humanos para humanos direitos, não é mesmo? Será que os direitos humanos de um humano “direito” branco são os mesmos de um humano “direito” negro? Será que um humano “errado” branco não tem mais direitos que um humano “direito” negro? Isso sem contar os humanos “errados” negros (ou índios, ou chechenos, ou de uma religião diferente da nossa), que são sumariamente eliminados.
Ao tentar uma construção social que seja inclusiva, que respeite classe social, credo, cor, gênero, não são fáceis os obstáculos que se interpõe. A discussão sobre humanos “errados” ou “certos” torna um debate difícil, oco, inconclusivo.
O que se vê é aumentarem barreiras, muros, dificuldades. O outro é sempre o inimigo, aquele de quem devo me defender com armas até os dentes. Estamos num tempo em que se declaram uma cínica guerra à pobreza, à diferença, negando valores fundamentais de altruísmo e solidariedade.
É com imensa tristeza que vejo a facilidade com que a mera ausência de polícia, uma polícia nem sempre boa ou cidadã, nos torna num amontoado de bestas ferozes. O que passa pela cabeça de um cidadão que saqueia uma loja? Ou nas pessoas que se aproveitam da confusão para praticar todo tipo de delitos?
Ao ver as cenas do caos no Espirito Santo, o que me vem à cabeça é que  parece que a barbárie vem nos aplicando um peremptório 7 a 1.
O que vemos surgir dessas greves de polícia é uma sociedade que não tem nenhum laço que a una. Uma sociedade esgarçada, desigual e que só se mantem unida pela força bruta e pela arbitrariedade da polícia que temos (Nos ajude, São Foucault!).
Chego a pensar que Trump tem razão ao impedir a entrada de refugiados, ou Temer e os partidos de sua coalizão golpista de impor retrocessos sociais e aumentar o nível de exploração do trabalho. Eles têm razões (as deles).
Nós é que somos estúpidos a pedir altruísmo e solidariedade numa sociedade marcada pela brutalidade e que regride ao tempo das invasões barbaras assim que a polícia desaparece. Essa sociedade eu não quero.
Feliz do povo que não precisa de polícia para viver em paz.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

REBELIÃO ESCRAVA EM ANTONINA (FINAL)


Estava tudo uma balbúrdia: os escravos em Antonina tentavam uma rebelião!
 O delegado Alves D´Araújo estava preocupado. O suplente de delegado, em sua ausência, havia escrito ao govenador solicitando uma atitude. Essa atitude, bastante rápida aliás, havia sido o deslocamento de tropas de Curitiba para Antonina, assim como colocar o efetivo da Guarda Nacional de Antonina e de Morretes em alerta. E assim foi feito. Em janeiro de 1859 Antonina parecia uma praça de guerra.
Os soldados acampavam no campo da Matriz, e os cavalos ficavam por ali, pastando em meio as vacas. Uns e outros assavam ali uma carne bovina num fogo de chão. Outros soldados, com conhecidos no lugar, tiravam uma sesta e comiam uma sopinha quente dentro das casas. Outros tantos soldados ficavam, com seus cavalos e utensílios, acampados nos matos da entrada da cidade, próximo as ruinas da igreja do Saivá, em meio as vacas e as ruinas dos engenhos de mate semidestruídos.
Os escravos, ressabiados, haviam se recolhido, e cochichavam as escondidas. Uns diziam que o próprio Imperador havia libertado os escravos. Outros diziam, como haviam dito uns dias antes ao próprio delegado, que um navio inglês estaria no porto para assegurar a liberdade dos cativos. A esperança, assim como a ansiedade, era grande.
No entanto, nada aconteceu. Não veio navio inglês, e o Imperador tirava seus cochilos em Petrópolis e nem sabia dos pobres escravos de Antonina, que teriam que se virar à sua própria sorte. Como, aliás, sempre tinham feito.
Ao final do mês, já mais tranquilo, o delegado Alves D´Araújo emitiu um ofício onde deu por encerradas as preocupações dos donos de escravos do lugar, e as tropas voltaram a seus cantos de origem.
Não havia sido a primeira vez que a população branca da cidade havia se assustado com uma rebelião negra. Cerca de trinta anos antes, os escravos do industrial José Luiz Gomes, dono de um Estaleiro e de plantações de cana no Pinheirinho, haviam se revoltado, matado o seu patrão e fugido, segundo alguns levando moedas de ouro e cobre, para a costeira de Guaraqueçaba, onde foram caçados e mortos. Seus corpos foram estraçalhados e exibidos para “exemplo” em postes pelas estradas do município.
Nesta nova rebelião, entretanto, haviam alguns elementos novos: desde 1850 o tráfico negreiro havia sido extinto, boa parte por pressão das canhoneiras inglesas. Não era a toa que os escravos se referissem a um navio inglês. Havia uma certa esperança, entre os escravos, de breve libertação que, afinal, se mostrou “lenta, gradual e segura”, como só a elite brasileira consegue realizar.
No entanto, para os escravos restou somente a negociação de sua liberdade, num processo lento e demorado. Teriam que “comprar” sua alforria, caso por caso. Muitas vezes pediriam a alforria em processos judiciais contra um judiciário tendencioso, como o daquela época (!?). Teriam que procurar proteção nas irmandades religiosas, como a irmandade de São Benedito.
Finalmente, teriam que negociar a liberdade dos recém-nascidos com a lei do ventre livre (1871) e a dos idosos com a lei dos sexagenários em 1885, quase as vésperas da abolição. A abolição em Antonina foi tardia. No 13 de maio ainda haviam muitos escravos que foram “libertados” por seus senhores, como se já não houvessem sido pela lei Aurea.
Sem contar que não foi dada, como já na época se exigiam os movimentos abolicionistas, de alguma “reparação” aos escravos libertados. Esta reparação seria necessária, argumentavam estes grupos, para que os agora ex-escravos pudessem entrar de maneira digna no novo mercado de trabalho que então se formava no país. Nada foi feito, como se sabe.
Quem se maravilha com as centenárias construções da bela Antonina tem a real noção de que estas belezas foram construídas com trabalho escravo?
Quem hoje passa pela Igreja de São Benedito, ou ouve uma escola de samba antoninense poderia imaginar quanta dor e sofrimento andaram por estas ruas?


PS – a história é verídica: Para saber sobre a Revolta Escrava em Antonina e os documentos citados basta consultar o trabalho da historiadora Sílvia Correa de Freitas (http://revistas.ufpr.br/vernaculo/article/viewFile/18073/11777_);