segunda-feira, 22 de outubro de 2018

EU NÃO SOU SOLDADO



Por volta do ano de 1950, apareceu em Antonina um oficial reformado, por nome de Major Pombo, como era conhecido.
O Major Pombo é desses que, pelo posto militar, entende que tudo tem que ser como ele deseja, e sempre aplicou aquele termo de soberania: “sabe com quem está falando?”
Tendo comprado um sitio nas redondezas do município, resolver levar a efeito sua pequena fazenda. Isto motivado pela valorização das terras e o incentivo à plantação de café, conseguiu o capataz e começou a sua vida de agricultor.
Teve pelo seu ímpeto do “você sabe com quem está falando” diversos atritos.
Certa ocasião veio à cidade para comprar carne para sua fazenda. Percorreu os açougues sem conseguir, a carne estava na vez da fita e os açougueiros tinham os seus compromissos, e não podiam atende-lo. Ficava irritado, e logo dizia: “sabe com quem está falando?”
Por ultimo foi ao açougue do senhor Ovídio Agner Mendes (Vidoca) e perguntou se tinha carne. O senhor Vidoca respondeu que não. Ele [o Major] vendo que existiam alguns pesos de carne, insistiu para ser atendido. O senhor Vidoca ponderou nos seus compromissos, motivo pelo qual sentia não poder atende-lo.
O Major Pombo irritou-se e logo disse: “você sabe com quem está falando?”
O senhor Vidoca parou o seu serviço, olhou bem para a personalidade, baixou os óculos e respondeu: “não sei com quem falo.”
O Major Pombo com autoridade: “é o Major Pombo.”
O senhor Vidoca deu uma risadinha e respondeu: “o senhor pode ser major – mas eu não sou soldado...”

domingo, 21 de outubro de 2018

NOS TEMPOS DA ESCOLA COM PARTIDO



Por causa dos acontecimentos recentes, eu me peguei pensando em minha infância. Algumas coisas vividas naquela época surgiram fortes. No meu primeiro ano escolar, eu lembrava da quantidade de faixas verde-amarelas que existiam na escola. E retratos do “presidente Médici”. Lembro-me de cantar hinos, muitos hinos. E do entusiasmo de slogans como “Ninguém segura este pais!”. E se segurasse? Nos vidros dos carros, estava o adesivo “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Que medo! E se eu não amar? Serei expulso?
No meu currículo, não existia História e Geografia, mas uma tal “Estudos sociais”. Por um lado, parecia uma coisa interessante, por ser multidisciplinar. Por outro, e isso logo percebemos, muita coisa não era colocada no currículo. Na prática, não tínhamos nem História, nem Geografia. Nem Estudos Sociais.
Tinha também uma disciplina chamada Educação Moral e Cívica. Era uma chatice de ficar vendo – e decorando – os símbolos da pátria. O Brasão, a Bandeira, os Hinos. Porque verde amarelo? “porque representam o verde das nossas matas, o amarelo a riqueza de nosso chão”. Era essa a explicação.
Ninguém dizia, por exemplo, que verde-amarelo eram as cores da casa de Bragança, da qual vieram nossos imperadores. E se o verde era tão importante, porque se desmatava tanto? Todos os dias víamos notícias sobre as obras da transamazônica. Eram frequentes na TV imagens icônicas de grandes arvores caindo, simbolizando a conquista da Amazônia.
(Sem nenhuma preocupação ambiental, nunca se desmatou tanto.)
Depois, tinha uma disciplina Estudos de Problemas Brasileiros. Tinha a questão das três “raças”. Tinha a questão do subdesenvolvimento. Mas não havia uma vontade real de discutir problemas brasileiros. Por que somos? Como somos? Como uma nação ainda adolescente, ainda colocávamos a culpa nos nossos pais. O culpado era Portugal, a culpa era do “passado ibérico”.
A responsabilidade nunca era nossa, nessa Escola com Partido. Neste tempo, a escola tinha claramente um partido. O partido do general de plantão. A abolição não era da responsabilidade dos traficantes de escravos. A política do atraso dos coronéis da República Velha não era da responsabilidade de ninguém. Getúlio Vargas não existia. Ele foi o presidente da Argentina?
Era tudo tão descarado que as coisas se naturalizavam por si. No governo Geisel e o seu slogan “Esse é um país que vai pra frente” mesmo sendo crianças todos já víamos o ridículo dessa posição de esconder o país embaixo do tapete. E se estivesse indo pra trás?
Hoje, temos realmente a sensação de estar indo pra trás. Algumas certezas dos últimos anos já são questionadas, algumas cláusulas pétreas são abertamente criticadas. Mas, em vez de propor avanços, estão sendo propostos atrasos. Em vez de mais escola, menos escola, como a proposta de mais ensino à distância. Distância de quem? Do professor?
Os professores estão sob ameaça. Em lugar de um ensino crítico, um ensino “Sem Partido”. Como se as pessoas que propõe esta perola não tivessem Partido. Ideologia, ou seja, o conjunto de valores e ideias de um individuo ou um grupo de indivíduos vivendo em sociedade, todos temos. Mas, para algumas pessoas, ideologia são as ideias do outro. O que eu penso é verdade. o que o outro pensa é ideologia. Tolinho.
Estamos voltando àquela escola hipócrita e autoritária de minha infância?  Onde não havia Educação Sexual, por exemplo, porque todos tinham medo de tratar o assunto? “Ideologia de gênero” é um caso. Inventaram essa jabuticaba para criticar o ensino de Educação Sexual nas escolas. Uma proposta séria, que tem por objetivo combater a intolerância e dar informações para que as crianças saibam se defender do abuso sexual. A maior parte das crianças vítimas de abuso jamais foram educadas por seus pais sobre o assunto. Estimular a ignorância é facilitar o abuso. Pelo visto, prefere-se o abuso.
Em vez de mais, menos debate. Em vez de ir mais fundo nos problemas para resolve-los, o silencio.
Eu achava que as escolas do passado tinham virado poeira do tempo. Que o pó cubra nossas escolas do futuro. 

terça-feira, 16 de outubro de 2018

VOLTAR PARA 40, 50 ANOS ATRAS



Escoteiros desfilando em Antonina nos anos 70
Em recente visita a um quartel do Bope, o Messias revelou seu sonho: “queria fazer o Brasil voltar 40, 50 anos atrás”. Disse isso com a sinceridade insana que o caracteriza. E confesso que fiquei apaixonado pela ideia. Para mim, seria voltar à infância e parte da adolescência. Voltar 40 a 50 anos, significaria eu voltar a ter entre 5 e 15 anos de idade.
Num instante, fui levado para a Antonina de minha infância, terra adorada, minha pátria no sentido mais puro do termo. Voltaria para os jogos de bola na rua, para os desfiles de 7 de Setembro fardado de escoteiro, para os bons amigos que você  tem neste período da vida. Revi minha vida como uma antiga foto preto e branco.
Bolsonaro teria neste período, entre 13 e 23 anos. Também uma idade boa. Adolescência. Tempos de formação. Seria o período que ele passou desde o final do colégio aqui no interior de São Paulo até o quartel, já tenente. Como não invejar voltar à juventude?
Neste período tocava no rádio a bossa nova. A Mangueira de 1973 falou da lenda da Mãe do Ouro, lenda da minha terra: "ola-lá, olá ô bábá! É a Mãe do Ouro que em nos salvar!". Tocava também outras coisas esquisitas, como “assassinaram o Camarão”, ou “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás". Mas tudo bem. Era a juventude.
Certa vez, eu e minha irmã colocamos um disco na vitrola de minha tia. Ela veio correndo da cozinha e tirou o disco, entre zangada e assustada. Era um disco de Geraldo Vandré, com uma música chamada “Caminhando”.
Na primeira série, uma colega de sala saiu da sala chorando, não voltou mais para a escola, a saudosa Escola de Aplicação Rocha Pombo de Antonina. Tinham prendido o pai dela, e ela estava muito triste. Ficamos muito assustados com a possibilidade dos nossas pais também desaparecerem e irem presos.
Mas, como nos explicaram depois, o pai dela era um “comunista”. A palavra era dita numa mistura de asco e desdém, como ainda hoje escuto alguns falando, como se ainda não tivessem saído da Guerra Fria. Não era comunista, pensava eu, aos sete anos. Era só o pai da nossa amiga.
Desfilávamos no Sete de Setembro, em grandes desfiles repletos de crianças. Certo dia, fui chamado para ler uma poesia no coreto da praça. Menino ainda, dei conta do recado diante do microfone, ainda que muito nervoso, as palavras saindo ásperas da boca. Nem me lembro do que se tratava o poema, sei que tinha “Brasil varonil” e “porvir”.
Nem todas as casas tinham telefones. Chamavam do vizinho, “telefone pra você”. Era o tal fone molecular. Cartas demoravam uma semana de Antonina para Londrina e quase um mês, se fosse para fora do Brasil.
Há cinquenta anos atrás o Brasil vivia o tal do milagre econômico dos generais. A economia crescia. As pessoas de classe média podiam ter carro, telefone. Nós tínhamos o melhor futebol do mundo e nossos estádios estavam cheios de craques: jogavam por aqui Zico, Rivelino, Carlos Alberto. Os mais velhos entre nós ainda se lembravam de ter visto Pelé jogando. Mundo bom.
Como não amar e querer voltar a este mundo, fiquei me perguntando. Imaginei, por exemplo, Carlos Alberto Brilhante Ustra, nosso Eichmann, saindo no fim da tarde do trabalho e indo para casa, ver a mulher e os filhos. Homem de bem.
Seu trabalho, hoje se sabe, era fazer crianças, como eu era na época, assistir seus pais serem torturados. Era estuprar moças “comunistas”. Era dar choque no pinto daqueles comunistas filhos da puta. Eles bem mereciam. Todo mês, Ustra recebia um holerite com o seu salário, pago com o dinheiro do contribuinte.
Os casos de corrupção, como o que resultou na exoneração do governador do Paraná Haroldo Leon Peres, em 1971, eram abafados. Lembro que a Veja, que então era uma revista decente, deu a notícia. A revista foi apreendida nas bancas. Meu pai, não sei como, conseguiu um exemplar. Passei muito tempo entregando a Veja para os amigos de meu pai lerem, na surdina, levando para a casa de cada um embrulhado em papel de pão.
Era também um mundo onde não podíamos falar com os filhos de mães desquitadas. Ainda não havia a lei do divórcio. Mulheres desquitadas eram perigosas, entendíamos nós, em nossa ideia infantil.
É exatamente este o mundo que o capitão quer voltar. De seus tempos de tenente. Um mundo onde homens brancos – e militares – podiam tudo. Livre, leve solto, os militares eram a lei. Quantas meninas ele não “comeu” por causa da farda?
Um mundo onde ser mulher era mais difícil. As mulheres não se separavam dos maridos por medo de perder a estabilidade econômica. E a violência doméstica? Disso não se falava. Se olhava, se percebia e não se falava. Mundo bom, este.
Na Amazônia, a chegada dos grandes projetos de estradas e mineração destruíam povos inteiros. Camisas contaminadas com vírus da gripe, dinamite jogada de helicóptero, valia tudo para matar índios. Um Vietnã aqui dentro e que não víamos. Cid Moreira, rapaz educado, ao apresentar o Jornal Nacional não falava destas coisas na hora da janta. Os homens de bem estavam descansando.
Voltar para quarenta, cinquenta anos atrás. Não sei se quero voltar a um mundo onde eu era criança e não decidia por mim. Hoje tenho cabelos grisalhos, tenho gastrite, tenho que visitar o urologista com regularidade e tenho dores nas costas. Mas não quero voltar quarenta anos. Qual seria o preço disso?
O preço desse sonho louco seria voltar ao mundo selvagem que era o Brasil daquela época. Tinha seu charme. Mas a Idade Média também tinha. Voltar a um mundo onde militares podiam entrar e acabar com uma festinha de rapazes porque o tenente queria uma moça que estava lá. Onde você não votava para presidente e governador.
Um mundo onde não tinham leis que coibiam abusos domésticos, porque o mal está dentro de casa, e não fora, sabiam? Ter leis de proteção às mulheres, lei de divórcio, criminalizar quem agride o diferente. Nada disso tinha. Respeito as minorias é um pressuposto de um mundo com justiça. Ao mundo de quarenta anos atrás, eu prefiro este nosso bagunçado mundo de hoje.
Qual será o preço que vamos pagar para um doido desses fazer a gente voltar no passado para viver seu sonho reacionário?

domingo, 7 de outubro de 2018

OS BOLSOMINIONS E O SENSO COMUM


Existem ideias que parecem simples. O mundo é simples e fácil de resolver.  Parece que sempre foi o obvio e nós, burros que somos, jamais vimos a verdade ali, na nossa frente. Parecem geniais, estas ideias. Mas não são. Muitas destas genialidades foram ditas por eleitores de Messias Bolsonaro no ultimo mês. 

Uma delas é a questão da violência. Como numa conversa de bar, o cara se posiciona, firme: “tem que botar mais polícia!”. A evidência empírica mostra que mais policia não resolve. Resolve aqui, não resolve ali, e a violência continua tudo igual.
O cara do bar retruca: “tem que botar o exército!”. Que ideia genial! Porque não pensamos nisso antes? Em minha vida cheguei a ver três intervenções do exercito no Rio de Janeiro. Se intervenção militar resolvesse, o Rio seria uma Suíça. Mas não é. Ou é?
Bandido bom é bandido morto. Quem nunca ouviu essa platitude? Parece simples, como num faroeste: tem os mocinhos e tem os bandidos. Os bandidos, é claro, tem todos os defeitos do mundo. Os bandidos são facínoras e sem piedade. O mocinho consegue matar 10, 100, mil, e ainda vai ganhar o beijo da mocinha ou a benção do padre.
Neste mundo tão simples, não cabe complexidade. Por que será que a maior parte das vitimas da polícia são jovens negros? O cara do bar hesita em sua resposta, porque vai entrar no terreno do preconceito. O cara do bar, que não é o general Mourão, tem algum filtro do que fala. Não vai fazer nenhum discurso justificando a violência pela “raça” da vítima, alguma falta de “caráter”, nem falar sobre a “malandragem dos negros”, como fez o general Mourão. Mas pensa. Você pode imaginar o que ele pensa? Ou no que ele vota?
Ideias simples, muitas vezes cheias de informações falsas e preconceitos sempre existiram. Falar de segurança publica não é tarefa para o cara do bar. Por que a criminalidade hoje mudou das grandes para as pequenas cidades? Porque mudou dos grandes centros para o norte e nordeste? Como deter o tráfico de drogas? Como lutar contra as milícias?
Nenhuma destas questões tem uma resposta simples. Muitas soluções já foram tentadas. A maior parte, envolvendo mais armas, mais violência, mais guerra. E a violência não para de crescer. O homem do bar não sabe o que fazer.
Aí entra o medo. O discurso do medo. Todos precisamos nos armar. Outra ideia simples e aparentemente perfeita. No entanto, sabemos que aumento dos homicídios por armas de fogo em razão da ausência de políticas específicas (veja aqui). Como resolver isso? Com políticas de segurança.
Mais ciência e menos Chuck Norris.
Mas o homem do bar não se convence. Ele conhece zil e um exemplos de que isso não funciona. E insiste nas ideias simples e de fácil implementação, fáceis como um chá de boldo pra curar a ressaca.
São ideias do senso comum. Se te disserem que um peso com penas e um peso de chumbo caem com a mesma velocidade você acredita? Parece óbvio que o peso de chumbo cai mais rápido. Você está vendo isso. Mas não é. Galileu precisou de muita experimentação para provar isso.
Levar o conhecimento acima do senso comum, da observação simples. Soluções negociadas e complexas para problemas complexos. Pensar com ciência e criatividade. Em lugar disso, você vê uma fala vazia de conteúdo e cheia de emoção. Quando não, ódio.
Insistir em senso comum e ideias simples como as disseminadas no último mês nos levam a mais do mesmo. Ou vamos daqui a quatro anos trocar as fraldas e os políticos pela mesma razão, como disse Eça de Queiroz numa placa de caminhão.  
Se daqui a quatro anos ainda houver democracia, essa coisa tão esquisita e tão longe do senso comum....


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

VOCE VOTOU NO COLLOR?



Vocês se lembram de alguém que tenha votado no Collor?
Eu me lembro de muita gente que teve essa opção funesta em 1989. Foram, inclusive, a maioria dos leitores. Mas, anos depois, ninguém mais admitia ter votado nele. Não me lembro de ver ninguém batendo no peito, orgulhoso, dizendo: “Eu votei no homem!
Lembro que uma vez, ao conversar com alguém na rua e que não me conhecia, eu fiz uma falsa confissão: “pois é, eu votei no Collor. E me arrependo muito”. De imediato, a pessoa me fez uma cara de empatia e contrição, respondendo “eu também me arrependi!”.
Hoje, parece que estamos numa situação semelhante: o numero de pessoas que quer votar no capitão reformado é muito grande. Quase todos se inflam de orgulho ao dizer que o candidato que escolheram é “limpo”. E que é contra a corrupção. Quando escuto isso, imediatamente me vem à memoria o “Caçador de Marajás”.
Ele também dizia que era uma força renovadora na política. Vinha também de um pequeno partido sem expressão, o PRN. Para todos os lados, o que se via era a bandeira da corrupção (Veja aqui o discurso dele em 1989) . Qual era a sua proposta para a saúde? – “Caçar os Marajás!” Qual sua proposta para a economia? – “Caçar os Marajás!”. Era o monocórdico discurso.
 Vínhamos de um tempo muito estranho. O regime militar havia acabado melancólico, uns quatro anos antes. Decisões políticas equivocadas, o fantasma de milhares de casos de corrupção abafados, o general Newton Cruz fechando Brasília no dia da votação das Diretas já. O regime militar era um cadáver na sala. Para ocupar a presidência, em lugar de Tancredo Neves, assumiu José Sarney, um político astuto, mas despreparado. Suas ações intempestivas na economia levaram a mais caos, e a uma hiperinflação. As primeiras eleições presidenciais desde 1960 ocorriam num ambiente de caos econômico e de desesperança com a política.
Collor foi uma aposta praticamente pessoal de Roberto Marinho,o dono da Globo, para afastar a ameaça de um governo de esquerda. Naquele momento, a principal preocupação eram Leonel Brizola e Lula. Collor e seu discurso anticorrupção caíram no gosto do Dr Roberto, que foi o seu mais fiel eleitor.
A história todos sabem. Cercado de corruptos por todos os lados, com uma economia em frangalhos, impopular e abandonado pelo seu benfeitor, Collor amargou o impeachment.
A história é cruel. Foi cruel com Collor. Seus eleitores o esqueceram e o apagaram da memória. Tudo se passou, na cabeça das pessoas que o elegeram, com se jamais tivesse se passado. Um esquecimento conveniente, todavia, que acalma as consciências. No entanto, tudo foi verdade.
Hoje, estamos novamente com um candidato anticorrupção na dianteira das intenções de voto. Um candidato de passado insignificante, que em mais de 30 anos pulou de partido em partido, e que em todo esse tempo não teve sequer um projeto aprovado.
Galopando em cima de um discurso anticorrupção, ele promete mais segurança. Os planos são vagos: dizem somente que policia vai ter carta branca para matar. Quem conhece minimamente o Brasil sabe quem vai morrer: os pretos e pobres. Mas mesmo assim, as pessoas embarcam neste autoengano. Mesmo muitos eleitores pretos e pobres.  
Não há como não fazer o paralelo com Collor. A história de povos sem consciência se repete e se repete, ora om farsa, ora como tragédia. O fascismo que ele representa, entretanto, é muito pior Collor e sua “República das Alagoas”. Estão quase todos embarcando numa canoa furada, sabendo que é furada. Tentando desesperadamente se convencer que não está furada.
Bolsonaro é um preço muito alto para se livrar do PT.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O CANDIDATO QUE NÃO AMAVA AS MULHERES



Os bolsonaristas que saíram as ruas no domingo foram dispersados, em São Paulo, por uma forte chuva. Problemas com São Pedro, talvez? Mas, ainda assim, mesmo molhada, a manifestação dos bolsonaros foi uma manifestação muito grande. Foi uma reação contra as grandes manifestações anti-bolsonaro deste sábado, que reuniram centenas de milhares (milhões?) de pessoas pelo país. Principalmente mulheres.
Por mais que se grite e esperneie contra o Coiso, a grandereação contra o capitão reformado parece ser mesmo a feminina. Os números gritam: cerca de 50% das mulheres não votariam “de jeito nenhum” neste candidato, contra 33% dos homens.  
Recentemente, o jornal El Pais comparou o movimento das mulheres contra Bolsonaro com a história lendária da Hidra de Lerna, a que se cortava uma cabeça e cresciam várias. O ataque dos grupos bolsonaristas à página “mulheres contra Bolsonaro” no Facebook deu impulso não só ao grupo, mas também incentivou o surgimento de outros grupos e deu ânimo para as manifestações de rua deste último fim de semana.
Esta rejeição é muito bem explicada. A misoginia do discurso bolsonarista não conhece limites. É famoso o seu discurso do “não te estupro por que você não merece”, contra a deputada Maria do Rosário. É uma fala das cavernas. O estupro como forma de punição, como houve nas sociedades primitivas, juntamente com a diminuição da oponente mulher: nem isso você merece.
Alias, desmerecer mulheres é uma pratica desse discurso: a tal da “fraquejada” do capitão reformado teria gerado sua única filha mulher. Outra vez a afirmação do feminino como o fraco, o inferior. Tal desmerecimento tambémse reflete nos salários inferiores recebidos pelas mulheres, conforme já explicou o douto candidato: “Afinal, elas engravidam...”
Por isso e muito mais, não se espere que as mulheres se encantem pelas propostas do capitão. Ali somente há mais do mesmo: depreciação, aviltamento, subordinação. Tudo coisas que a sociedade já jogou e está jogando na lata de lixo dos costumes.
 Mas o bolsonarismo é persistente: numa fala recente o deputado E. Bolsonaro também citou que, ao contrario das mulheres de “esquerda”, que repudiam a candidatura de seu pai são menos higiênicas que as mulheres de direita. Nada mais fascista que um discurso higienista. A fala do bolsonarismo, enfim, é um discurso de ódio e aversão às mulheres.
As mulheres que, aliás, já tem muitos outros problemas em viver num mundo machista e patriarcal. Agora, tem ainda que se preocupar com um candidato a presidente misógino. Há a violência cotidiana, a violência doméstica. Há a violência nas ruas. Há a violência do mundo do trabalho. Tudo isso, não vê quem não quer, impacta também nossa economia e nossa sociedade.
 E ainda vem o tal vice, o general Mourão, a dizer mais uma de suas “pérolas”: famílias lideradaspor mulheres são “fábricas de desajustados”. Como se não bastasse toda a carga sobre as mulheres, ainda sobra a culpa pela crise da sociedade na qual elas não mandam.
Essa carga e esse discurso estão se refletindo agora nas urnas. O capitão e seu vice general tem muito com que se preocupar. Afinal, elas são a maioria. E sabem muito bem qual a carga que pesa, qual a fala que fere, qual a violência que mata.
O capitão e todos os que acham esse discurso “politicamente incorreto” e “lacrador” bacana, que coloquem suas barbas de molho. É muito fácil falar isso em rodinhas de homens. Nestas rodas, em geral, ganha quem mais se mostrar cruel e misógino. Quem contar mais barbaridades, ganha uns risinhos de aprovação e uns comentários maldosos. É o cara. Pois não é.
(Eu já frequentei essas rodas. Eu mesmo já fiz comentários deste tipo. Fui criado num ambiente machista. Eu mesmo sou e tenho muitas atitudes machistas. Estou aprendendo a não ser, com ajuda de todas as mulheres com quem convivo. Também acho que o mundo deve caminhar numa outra direção. Eu quero um mundo onde o feminino e o masculino e outras orientações sexuais possam viver em paz.)
A realidade é bem outra. Somos uma sociedade de mulheres forte e de homens infantilizados. Muitos desses homens aí até sabem fazer um churrasco, mas não sabem esquentar papinha de bebê. Nas rodinhas de homens que temos hoje, quantos não são os bolsonaros, contando suas safadezas e mesquinharias com mulheres como se fosse uma busca pelo Graal? Enquanto isso, lá estão elas, em casa, a cuidar da vida e da família, e até deles mesmos.
É o mundo das famílias sem homem, tanto real quanto virtualmente. Só não sabe disso aquele mundinho de testosterona e misoginia que são os quartéis. Ah, os quartéis! Alguns destes homens, vivendo nesta bolha, até se acham e se intitulam “homens de bem”!
Os homens como chefe de família são mais raros que no passado. Ao contrário do que disse o general Mourão, o que há é um país onde as mulheres já são 40% dos chefes de família. E na maioria das vezes dão conta do recado, apesar dos pesares.
Por tudo isso, temos um embate inédito nestas eleições. Um embate entre a sociedade contra uma visão de mundo. Uma sociedade majoritariamente feminina. Que não é monocrática, nem unitária, nem partidária. A espinha dorsal deste movimento, desta vez, são elas.
O espaço que a sociedade está colocando para todos aqueles que queiram mandar, ordenar regulamentar ou violentar o corpo das mulheres está ficando cada vez mais estreito. Isso não se dá por ideologia, ou por politica institucional. Isso vem se dando por ações políticas no nosso cotidiano. Não dá pra fingir que isso não existe. O empoderamento feminino veio para ficar.
O mundo dos candidatos que não amam as mulheres está com os dias contados.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O ANTIPETISMO E A VERGONHA ALHEIA



O antipetismo foi uma das maiores forças políticas dos últimos anos. Baseado principalmente nas classes médias, o fervor antipetista tem se tornado mais ativo desde 2013. Em 2015/2016 foi importante no apoio ao golpeachment. Esteve ausente enquanto o PT parecia nas cordas, com a longa questão da prisão e da proibição da candidatura do presidente Lula. Com a ascensão de Haddad nas pesquisas, já se ouve novamente nas redes o urro dos paneleiros. Será que o antipetismo vai ser efetivo esta vez?
Na verdade, depois do golpeachment, a Montanha pariu um rato (ou um morcego?). Toda a fúria antipetista do passado recente resultou em Temer. O governo do Vampiro começou com o famoso ministério dos homens brancos e terminou melancólico, durante uma greve de caminhoneiros contra a politica de liberação dos preços dos combustíveis. Como todos sabem, o vampiro só não foi deposto porque ninguém se interessou em ocupar seu lugar.
Agora, a nova versão da fúria antipetista quer fazer do que era drama uma tragédia. Em vez de nos ofertar um ministério de homens brancos notáveis e emplumados, o novo antipetismo nos oferece o Coiso e seu show de horrores.
Diogo Mainardi, entre outros, urra por um pacto entre os candidatos mais ao centro, muitos deles ditos liberais, e o Coiso. Muitos dos ditos liberais (na economia!) embarcaram na campanha dos milicos e estão de lá, dando seus pitacos. Abraçados com a criatura.
Como a UDN do passado, chamada de “vivandeira”, pois ia aos quartéis pedir pela força o poder que não tinha no voto, o atual antipetismo não é diferente. Não tem pejo em embarcar numa candidatura que prega o“autogolpe”, como fez recentemente o general Mourão em entrevista na Globonews.
Tudo isso para evitar o que seria “O” mal maior, ou seja, a vitória de um candidato petista. Com seu horror à pobreza, o antipetismo inventa seus monstros. Um deles, já bem conhecido, é o Movimento Brasil Livre, de tantas e tão nefastas atuações. Depois de ter tido varias de suas paginas retiradas do ar pelo próprio Facebook por divulgar notícias falsas, o grupo de meninos também está engajado em sua luta pelo Coiso.
O MBL tem se dedicado, por exemplo, a criticar FHC em seu apelo por um “Centro Democrático”: “se o PSDB não consegue representar que não quer o PT, apareceu outro para fazer isso”. Para bom entendedor, este paladino descrito pelo MBL é o candidato que questiona a lisura das eleições.
O antipetismo urra. Tem lá suas razões, embora poucas. Imagina  que ele, o antipetismo, seja portador milagroso da verdade, como muitas vezes os “antas” pregam ser. Os irrequietos grupos antipetistas são – segundo eles mesmos – os porta-vozes de uma maioria silenciosa, que tudo sabe e todo julga.
Nada mais estranho (e minoritário) que uma maioria silenciosa. Possessos, quando são flagrados em minoria, despencam o verbo sobre os de sempre: as minorias, os intelectuais esquerdistas, os pobres, os sem cultura. Ninguém presta, são todos uns idiotas, ignorantes, inocentes úteis. Não raro, são doentes que precisam de "cura". Essa fala já é bem conhecida dos esgotos das redes sociais.
Seria importante lembrar que o segmento que apoia politicas socialistas e social-democráticas no Brasil são um terço do eleitorado. Junto com o povão mais humilde, chega a 40% do total facilmente. Para o bem ou para o mal, é uma quantidade grande de gente, assumida, bem posicionada. Não há como jogar todo esse povo no mar, a não ser no mais louco dos delírios do mais delirante fascista.
No desespero desta reta final de campanha, os antipetistas se agarram aos milicos doidos e “míticos”. Os mais espertos dentre eles sabem muito bem o que estão fazendo ao aderir à caserna. Os demais vão no delírio das soluções simples do Coiso. Vergonha alheia. Vão fazer papel de ridículos perante a História. Se é que se importam com a propria biografia...
Ninguém mandou o Carlos Lacerda não ter deixado publicado o seu livro de memórias...

domingo, 23 de setembro de 2018

CONTRA O FASCISMO (#ELENÃO)


A população de Londres comemorando a vitória sobre o nazi-fascismo em 1945, em manchete do Daily Mail
As próximas duas semanas serão decisivas. O fascismo, representado pelo #elenão, está se consolidando, em níveis jamais vistos. Precisamos pensar este fato para além de nossos estômagos e construir uma grande frente que possa afastar a possibilidade de um governo com matizes fascistas no brasil. Para isso, precisamos nos situar e ver quem são nossos potenciais aliados e com quem nós podemos contar nessa luta. E lutar para conquistar corações e mentes, para impedir um mal maior no Brasil.
Não nos enganemos: o projeto de poder de #elenão e sua tchurma é claramente fascista. Sua proposta baseia-se claramente num culto explícito da ordem. Uma ordem baseada na violência de estado e em práticas autoritárias de governo, como já apontado por muitos.
Uma proposta de ordem a segurança que dá salvo conduto aos agentes da lei para “fazerem justiça” pelas próprias mãos. Uma proposta que é simples e de fácil compreensão, mas de aplicação difícil e duvidosa, já que estamos lidando com policiais de verdade e não com anjos.
O nacionalismo, o culto à pátria e a família são outras características típicas do neofascismo. Como ferramenta de coesão social, apontar o inimigo externo como o culpado é típico destes regimes. A família modelo é a família hétero, cis, machocêntrica. Branca, devemos acrescentar? Outros modelos de família são demonizados, como o fez recentemente o vice, General Mourão.
Estes discursos se referem a uma prática de governo que desprotege os menos favorecidos e as minorias vulneráveis. O caráter misógino e homofóbico do discurso neofascista é mais do que evidente e dispensa comentários. Mais uma vez, a pratica de culpar as minorias pelos males da sociedade volta para assombrar a sociedade, como já fez no passado.
Pouco se sabe de suas propostas em outras áreas. Na educação, sua proposta é a censura e a mordaça, via os projetos “Escolas Sem partido”. Na economia, uma proposta “liberal” que na prática aumenta a desigualdade. Embora tenha voltado atrás, a pulga continua atrás da orelha.
De qualquer modo, a questão é muito séria. Os partidos de esquerda precisam ter uma plataforma comum. Os partidos de centro precisam ser atraídos. Chega dessa bobagem de chamar quem discorda de fascista. A ciência política já definiu claramente o que é fascista. Vão se informar.
É necessário que liberais e socialistas de todos os matizes se unam para combater o inimigo comum, o fascismo. Unidos, liberais e socialistas já combateram o fascismo no passado, derrotando-o exemplarmente. Precisamos recordar deste momento.
Neste momento de crise, uma crise econômica violenta, que esta semana fez dez anos, é natural que o mundo esteja preocupado e perplexo. Como nos anos 1930, a crise econômica fez surgir propostas de sociedade que levaram o mundo a crises terríveis e guerras, que ceifaram milhões de vidas. Neste sentido, a guerra da Síria pode ser um paralelo com a guerra civil espanhola. Os pactos do pós Segunda Guerra Mundial estão sendo rompidos por todos os lados.
O mundo inteiro está em convulsão. Ninguém está contente com a sua vida. Os problemas se acumulam. No entanto, o principal problema são os que oferecem soluções simples. Como o muro de Donald Trump; o Brexit, e outras. Soluções simples que impõe problemas extraordinários e criam novos.
Neste contexto, o “Coiso” representa isso. O próprio jornal conservador inglês The Economist publicou uma matéria sobre a ascensão do fascismo brasileiro e mostrando-o como uma terrível ameaça à toda América Latina.
Não podemos subestimar o poder deste discurso do ódio. Nos estados Unidos, esse foi o caminho da vitória de Trump.  Precisamos conquistar os corações e mentes que se deixaram dominar por ele.
Antes de desqualificar estas pessoas, precisamos mostrar que o caminho da democracia e da liberdade é mais complexo e mais difícil. Mas que este caminho difícil e tortuoso é o único que pode levar a uma humanidade mais inclusiva e a um mundo de paz e prosperidade.
São Heisenberg, rogai por nós!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

OS INGLESES FELIZES


Gente feliz num domingo de sol em Trafalgar Square
Estamos felizes e sabemos disso”, estampava uma manchete interna do jornal inglês The Times na semana passada. “Mas o quanto isso pode durar?”, indagava ao final. De fato, os dias que passei na Grã-Bretanha foram dias de muito sol e calor. Isso altera o humor das pessoas. Para aumentar ainda mais a alegria inglesa, o desempenho de sua seleção na Copa do Mundo, chegando pela primeira vez desde 1990 numa semifinal da Copa  também contribuía para a alegria nacional.
Bem que percebi. Quando soube dos prognósticos do tempo na Velha Ilha, tratei de botar na minha mala algumas roupas de frio. O verão costuma ser mais ou menos o nosso inverno em Campinas. Temperaturas entre 14 e 25°C . No entanto, em alguns momentos de nossa estada por ali, vimos temperaturas de até 30°C, numa onda de calor que já dura quase dois meses.
Nas ruas, viam-se shorts, bermudas, sandálias. Filas para sorvete. Ruas lotadas, praças mais ainda. À noite, casais passeavam pelas ruas de mãos dadas, felizes. O índice de alegria dos ingleses é em média 7,3/10 segundo a matéria do Times, citando um trabalho de Andy Rope, chamado em tradução livre de “Felicidade: seu roteiro para a alegria interior”. No entanto, naqueles dias quentes de verão e bons resultados do futebol, a alegria inglesa beirava os 9,5 segundo o jornal.
Claro que não era tudo maravilha. A própria matéria reconhecia que eles estavam num momento atípico. Lembravam do mau humor britânico de 2016, quando eles perderam George Michael, Prince, David Bowie. E, além do mais, eles votaram pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.
Naquele momento, nos finais de semana de verão, o centro da cidade era tomado pelas pessoas. No sábado, 7/julho, o Gay Pride londrino reunia dezenas de milhares de pessoas no tradicional bairro gay do Soho, numa alegria carnavalesca. Britânica, é claro. As grandes avenidas do centro estavam proibidas para os carros, e haviam diversos shows de música pelas ruas, de todos os tipos e gostos. Enfim, dias bons e alegres.
Na Trafalgar Square, as pessoas se acumulavam a beira dos chafarizes, conversando, tomando sorvete, bebendo cerveja. Famílias inteiras, muitos idosos, pessoas de todas as cores e todas as procedências. Africanos, indianos, asiáticos, e muitos latino americanos. Deus, como tinha brasileiro por lá! Volta e meia ouvia-se aqui e ali uma língua que eu conseguia entender mais ou menos. Trafalgar Square estava linda e ensolarada. Tanto que lá de cima de seu monumento colossal, Lord Nelson deve ter tido vontade de descer e aproveitar o momento.
Segundo um depoimento do prof.  Richard Wiseman (!) da Universidade de Hertfordshire nesta mesma matéria do The Times, quando o sol aparece as pessoas se tornam mais dispostas a aceitar e ser generosas com estranhos. No entanto, acima dos 21°C as pessoas vão se tornando mais agressivas e violentas. (Ainda bem que nós, seres dos trópicos, não participamos desta estatística...).
Os (poucos) dias que passei em Londres deu pra sentir essa alegria. Andamos e muito pelo centro da cidade, onde com frequência víamos as pessoas espantadas com tanto calor. E com tanto sol. De volta para a ensolarada Campinas, com temperaturas parecidas (mas no inverno!), fico aqui pensando como temos estado tristes e depressivos com nossa situação, com nossa política, com nossa economia. Estamos tristes nos trópicos.
A alegria dos britânicos dura pouco, e por isso mesmo, é bom que eles aproveitem. Segundo o peculiar humor deles, as vezes o verão (lá deles) cai no fim de semana. A matéria do Times terminava alertando para que as mudanças sazonais de humor não impactem tanto nossas vidas. Prof Wiseman, sábio como ele só, diz que “temos que ligar nossa identidade com coisas que estão no nosso controle, como o trabalho ou relacionamentos”. Ser um pouco estoico ajuda, segundo ele. A matéria termina clamando por mais estoicismo e por mais drizzle, a chata garoa londrina.
Nós aqui, no nosso ensolarado continente, precisamos superar nossa tristeza e apatia. Como? Tem várias maneiras. Ajudar uma causa, comer comida saudável, fazer exercícios. Participar dos problemas do nosso trabalho, do nosso bairro. Estar com a família, os amigos. Escolher bem seu candidato nas próximas eleições. Procurar soluções coletivas para problemas comuns.
Os ingleses até podem atrelar a alegria deles a um verão, ou à seleção de Gareth Southgate (?).
Para nós, alegria é a prova dos nove.

domingo, 3 de junho de 2018

O NASCIMENTO DE GUARAPIROCABA

O Mapa de Pedro de Souza Pereira (1653), que mostra as "minas de Paranaguá"

Este é o mais antigo mapa da baia de Paranaguá. Foi executado em abril de 1653 por Pedro de Souza Pereira, a mando do governador geral Salvador Correia de Sá & Benevides. Mais detalhes sobre este mapa podem ser obtidos aqui. 

Na metade do século XVII foram intensas as buscas de minas de ouro nos “sertões do Pernagoa”, que nada mais era que o vale dos rios Cubatão (hoje Nhundiaquara), Cachoeira e Faisqueira, compreendendo os atuais municípios de Antonina e Morretes. 

Este é um dos mais antigos mapas de recursos minerais do Brasil, uma vez que ali estão demarcadas as “minas” ou lavras de ouro da época. Desde 1995 estou estudando sobre a mineração de ouro no Brasil do século XVII. Estou neste momento preparando uma monografia sobre este tema.  

O que se pode apreender é que as minas de Pernagoa (leia-se Antonina & Morretes) foram importantes não pela quantidade de ouro gerada (menos de uma tonelada métrica em cem anos), mas pelo acúmulo de conhecimento e preparaçào do que hoje se conhece como "recursos humanos". 

Consta que foi um escravo (provavelmente índio) que trabalhou em Paranaguá o primeiro descobridor do ouro de Minas Gerais, conforme o relato do Padre Antonil. Muitos dos mineradores da região de Paranaguá se mudaram para as novas Minas Gerais, e lá fizeram suas vidas.

Legenda do mapa, mostrando as principais feições geográficas da Baia e a "ilha de Guarapirocaba"


O mapa é um típico mapa do século XVII, e procura mostrar a região em três dimensões, mostrando a vista da baía de Paranaguá para quem entra em sua barra. As proporções não são lá muito exatas, mas algumas feições geográficas estão bem representadas. 

Algumas denominações célebres, como Ilha do Mel e Ilha das Peças já existiam nessa época, como se pode ver na legenda. Ali consta, pela primeira vez, a expressão “ilha de guarapirocaba”, e não baia de guarapirocaba, conforme registra a nossa tradição, que vem de Ermelino de Leão.

 "A Ilha de Guarapirocaba" nada mais é que a atual ilha da Ponta Grossa, se não estou enganado. Outra feição bem característica é a menção ao caminho de queritiba, ou curitiba-iva, então o principal acesso para o Planalto

Vê-se que Curitiba, então um mero garimpo de serra-acima, ainda não tinha uma grafia consagrada. Outra coisa interessante é a atual ilha das rosas, denominada “Ilha dos guarás ou aves vermelhas”. O Nhundiaquara, o maior rio, é representado com uma canoa rasgando seu estuário e as denominações de minas em toda sua extensão. 

Outra coisa interessante sobre este mapa é que uma cópia dele foi capturada por piratas holandeses, alarmando os portugueses sobre um possível ataque as minas de Paranaguá, facilmente acessíveis por mar. Lembre-se que nesta época Holanda ainda dominava Pernambuco. 

Detalhe que mostra a baia de antonina, com  a indicação do caminho de Curitiba (Curitiba-iva), a Ilha de Guarapirocaba e a Ilha das Rosas

quarta-feira, 30 de maio de 2018

O POVÃO ENTRA EM CENA



A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquela que a negue

(Chico Buarque , Canção pela unidade da América Latina)

Até agora eles estiveram ausentes das discussões, como se não fosse com eles. Olhavam de longe, desconfiados. Mas, apesar de desconfiados, pegavam os ônibus e iam trabalhar. Nestes últimos dias, foi diferente. Será que o “povão”, esta massa difusa que reúne operários, empregados do comercio e serviços, autônomos, técnicos e todos os serviços, finalmente entrou na arena política? Essa massa de trabalhadores não se mexeu durante o golpeachment. Também não se moveu durante a prisão de Lula. Mas estava lá, atenta.
Agora, aqui e ali, a montanha se move. As pessoas brotam como que do chão, e vão para os piquetes dos caminhoneiros. Leio na imprensa estrangeira (a BBC está dando um show de cobertura) que todos estão descontentes com a situação. Uma manicure de 33 anos num piquete na Regis Bittencourt relata ao ElPaís: "Tudo é muito caro. A gente não vive como poderia viver, porque nosso dinheiro é tão pouco e vai todo para imposto. O que você faz com um salário mínimo? Você vai no mercado e não consegue fazer uma compra decente". 
Mais adiante, no mesmo piquete, um outro manifestante, intitulando-se eleitor de Bolsonaro, diz ao repórter: "Você está contente com o país em que está vivendo? Tem que ter alguma coisa. O Temer está destruindo o Brasil". Ao ser perguntado se ele achava que a tal intervenção militar iria ajudar, ele não sabe responder.
Outros protestos ocorrem aqui e ali, de forma espontânea. Ontem, diversos pontos aqui de Campinas houve bloqueio de ruas e avenidas e dois ônibus foram queimados. Nada a ver com os piquetes. Nada a ver com os caminhoneiros. Todos estão perplexos com a situação.
O povão quer tirar este governo, por reconhece-lo corrupto e elitista. A greve dos caminhoneiros abriu esta possibilidade. Agora, não é mais um protesto de classe média. É a grande massa trabalhadora que entra em cena, coisa rara de ver na história do Brasil. Rara, mas sempre decisiva.
Assim foi nos momentos decisivos da abolição dos escravos. Assim foi nas manifestações de rua em 1983, quando encurralaram a Ditadura Militar com protestos e saques em diversos cantos do Brasil. Assim é a luta cotidiana de diversos movimentos populares, como as ocupações urbanas, os trabalhadores rurais sem-terra, os sem teto, os índios. Mas que hoje se potencializa e chega as cidades.
No entanto, essa grande massa é lenta e confusa. Sem direção. Há uma luta pela hegemonia deste movimento pelos grupos que querem uma intervenção militar. Sem Lula, preso em Curitiba, a massa está confusa e sem saber o rumo. Nestes dias, esteve sob a influência dos autoritários. Trata-se, entretanto, de uma intervenção militar confusa, sui generis, que ninguém sabe direito o que é. Algo como uma cura milagrosa, um remédio salvador. Coisa temporária, dizem alguns, para consertar o país. Mas ninguém sabe dizer ao certo o que é, como deve ser feita.
Para estas pessoas a solução mágica foi dada. Intervenção militar. Como a esquerda fez que foi e não foi, a massa está sendo cooptada por este movimento autoritário e com matizes fascistas. Limpar quem, cara pálida? Só os políticos? Aham. Já vimos este filme.
Desde a deposição da presidenta Dilma pelo Congresso, naquela sessão dos horrores há dois anos, só vemos a situação piorando. Como era previsto, há uma anarquia institucional, um bate-cabeça generalizado entre os três poderes. Um ministério publico enlouquecido. O Fla-flu disputando o discurso hegemônico até então se resumia à classe média. Agora, um novo personagem entra em campo. O povão.
Os protestos populares começaram a se diluir nas estradas na tarde desta terça. Os dirigentes sindicais dos caminhoneiros dizem que acabou, é pra se desmobilizar. Mas eles, os caminhoneiros e o povo, não se desmobilizam. Sentem que ali há uma chance. Sentem que há uma chance de ir além e mudar o país. Como? Ninguém sabe.
Parece que os protestos destes últimos dias, e mesmo os pedidos de intervenção militar não são nada mais nada menos que um grande, confuso e difuso Fora Temer. O povo não aguenta mais o presidente vampiro e seu governo zumbi, como eles mesmo disseram nas ruas e nas estradas. Não aguenta mais a economia, a política, os escândalos de corrupção abafados pelo congresso.
Mais do que intervenção militar, o povão está querendo um monumental Fora Temer.
Fora Temer.

domingo, 27 de maio de 2018

A BOLEIA E A REVOLUÇÃO





Estamos vivendo um momento revolucionário. Quem disse isso foi o grande cientista social Léo, da dupla sertaneja Victor e Léo. Conhecido pelas suas posições conservadoras, o sertanejo Léo tem hoje uma posição coincidente com o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU.
A apresentadora Rachel Sheerazade, a rainha do mais tosco reacionarismo nacional, gravou um vídeo em que se mostra perplexa com os caminhoneiros “baderneiros, que querem nos transformar numa Venezuela”. Em diversos sites e comentários de esquerda, pessoas criticam o caráter reacionário dos caminhoneiros. Muitos, inclusive eu, lembraram o papel dos caminhoneiros chilenos na queda de Allende.
Por todos estes pequenos exemplos, vê-se que a greve dos caminhoneiros tem dado vazão a uma série de manifestações contraditórias. Muitos tem medo de uma greve de caminhoneiros, pelos mais diversos motivos. Alguns se assustam com os problemas de abastecimento. Na quarta e quinta, a correria aos postos de gasolina foi histérica. Outros tem medo pois muitas noticias dão conta de que grupos de caminhoneiros apoiam uma intervenção militar.
O governo, através do ministro Raul Jungman, desde quarta feira tem dito que a greve é um locaute, ou seja, uma greve de patrões, o que é proibida por lei. Por outro lado, na quinta feira chegou a fazer uma reunião em que firmou um acordo que poria fim a greve. Faltou, entretanto, combinar com os russos, ou melhor, com os caminhoneiros. Sexta o movimento continuou e recrudesceu. Por fim, Temer, o sem-força, teve que apelar para o exército e as policias estaduais.
Mas, afinal, quem são os caminhoneiros? Heróis ou bandidos? Direita ou esquerda?
Ao que tudo indica, o resultado é muito mais complexo que se imagina. Para o professor Ricardo Antunes (ver aqui), a forma de trabalho dos caminhoneiros faz com que as suas greves tenham em geral um grande componente patronal. Somente 45% dos caminhoneiros são autônomos. o restante trabalha para empresas de logística. Quando há confluência entre os interesses dos caminhoneiros e de seus patrões, o que é o caso nesta greve, as paralizações tornam-se mais fortes. 
Como notou a professora Larissa Riberti num texto que viralizou no facebook (tirei daqui), trata-se de uma luta complexa, e que não é uma luta do bem contra o mal. Não é a toa que encontramos posições politicas tão diversas nessa categoria que envolve desde empresários até "proletários do transporte". Os sindicatos estão batendo cabeça brigando entre si enquanto a base segue firme na luta, fechando as estradas. Existem caminhoneiros de todos os matizes ideológicos, como no resto da sociedade. Não há polarização ideológica nem nos tuites contra e a favor da greve. 
Claro que existem os malucos que defendem uma intervenção militar (E que devem estar bem felizes com a intervenção militar em cima deles...). Estes são os mais estridentes. Vi um video de um maluco discursando em cima de um tanque. Patético. Mas não quer dizer que sejam maioria. Assim como foi provado no episódio do assassinato de Marielle, tais grupos radicais são ativos, mas minoritários. E, até o momento, os militares "de verdade" seguem as diretrizes do governo do Vampiro, reprimindo o movimento.
Por outro lado, eu acho que esse lado "proletário" do movimento é o que mais assusta. Em geral o caminhoneiro é um cara de classe média baixa, sem muita escolarização, vivendo no limite da reprodução de sua mão de obra. Nisso ele não é diferente do operário que trabalha numa fabrica e recebe salário. Sua identificação como igual pelo povo é imediata. Talvez por isso a repulsa de Sheerazade e de muitos colegas de academia. 
Temos muito medo de revoltas populares. Assim como no passado nossa elite e classes médias eram aterrorizadas com o medo de uma revolta dos escravos. O medo de uma revolta popular nos paralisa. O caminhoneiro assim se impõe no imaginário dos humildes como um herói que afronta um governo impopular. Na classe média, é o perigo proletário que surge, trazendo desabastecimento e - horror dos horrores! - a falta de gasolina.
Na extrema direita, é um aliado a favor da intervenção militar. Para a esquerda, um agente reacionário. Para a extrema esquerda, o estopim de uma greve geral que traga a revolução. Para os neoliberais, um sinal de que precisa privatizar tudo. 
Enquanto isso, no mundo real, os piquetes continuam, a gasolina vai voltando devagar aos postos. Mas as pessoas continuam ressabiadas. Ninguém sabe o que fazer. 
Quando deram o "golpe do impeachment", que destituiu um governo legitimamente eleito, foi aberta uma caixa de pandora. Felizmente, apesar da retórica de alguns, ainda não pegamos em armas. Mas, como no mito, ainda tem muito diabo pra sair dessa caixa.
Neste momento, não sabemos mais quem manda no país. Só nas rodovias.