quinta-feira, 23 de março de 2017

O CURIÓ DE SEU ADMARO



Certa vez, o Sr Admaro Santos estava atrás de um bom curió cantador. Sabendo da demanda, nosso amigo Pompéia apresenta ao Jornalista um curió que lhe agradou bastante. Negócio feito, Sr Admaro colocou a gaiola em sua varanda para ouvir a suave cantoria.
Entretanto, começou a perceber que a pobre ave não conseguia subir direito ao poleiro. Mancava, puxando uma perninha. Ao perceber isso, procurou logo o Pompéia, para colocá-lo a par do que acontecia com o curió.
Ao saber do ocorrido e levar um sabão do Sr Admaro, Pompéia não se abalou. Ouviu até o fim, e depois perguntou, em sua defesa:
“Doutor, o senhor quer um sabiá que cante ou um sabiá que dance? ”

PS – esta história me foi contada há uns dois anos atrás durante o Jequiti Cultural pelo meu amigo Epitácio Machado. Não menos importante, foi contada junto com o próprio Pompéia, que só deu um sorriso maroto quando perguntei se era mesmo verdade...Será que Seu Maneco gostaria de conta-la?

quarta-feira, 15 de março de 2017

A VOLTA PRA CASA: A CHEGADA TRIUNFAL!


Ao cair da tarde do dia 4 de março de 1942, depois de passar ao largo de Cananeia e entrar no canal da Ilha do Mel, o vapor que conduzia os cinco escoteiros estava chegando ao atracadouro do porto de Paranaguá. O fato do navio chegar até ali e não ir até Antonina era simplesmente o fato causador da viagem dos rapazes, fazia três meses quase: o fechamento da Companhia Costeira pelo Governo Federal, que fazia a rota comercial até Antonina.
A carta que os rapazes haviam entregado explicava ao Ditador as razões da cidade para ter a volta dos navios da Costeira de volta. Antonina era o caminho mais curto para Curitiba, servido diretamente pela estrada da Graciosa. Era o atracadouro mais ocidental da baia de Paranaguá, com obvias vantagens em termos de distância e, consequentemente, em fretes.
Os navios da Costeira, que haviam sido recentemente estatizados pelo Governo, eram o grande elo que unia Antonina na rede do comercio de cabotagem do Brasil. Sem ele, o comercio perdia todas as suas vantagens e a cidade perderia muito em importância e em dinheiro. Na carta, a cidade pedia que a costeira pudesse voltar, e apelava para os mais nobres sentimentos do ditador.
Getulio fez o que lhe convinha: posou para fotos com os rapazes, ressalvou-lhes a coragem. Fez com que a Costeira voltasse a tocar, de maneira tímida, o atracadouro antoninense. Mas era pouco. Quando o ditador caiu, em 1945, a Costeira desapareceu tão irremediavelmente que nenhuma viagem a pé poderia faze-la voltar. A viagem dos rapazes que agora terminava como um grande sucesso, na verdade havia sido um movimento de grande coragem, mas em vão.
Longe deste horizonte, os rapazes iam acompanhando a manobra do navio para atracar no porto de Paranaguá naquele início de noite. No cais, os meninos foram recebidos pelo chefe dos escoteiros de Antonina, Maneco Picanço, e por alguns antoninenses que moravam na cidade. Foi uma grande festa. Um Ford V8 preto estava ali, esperando para levar os rapazes de volta para casa. Seria a última viagem até Antonina, de onde haviam partido em dezembro.
O motorista foi encher o tanque, uma tarefa bastante complicada naqueles tempos. A gasolina estava racionada em tempos de guerra, e demorou quase duas horas para voltar com o tanque cheio. De tanque cheio também estavam os rapazes, levados pelo Chefe para fazer uma boquinha antes da última viagem.
O Ford deixou Paranaguá as 22:00 horas, passando pela vila de Morretes despois de quase duas horas de viagem. Prosseguiram até Porto de cima e São João, no entroncamento da Estrada da Graciosa, onde pararam para descansar. Ali estava esperando por eles o Sr Nicolau Cecyn, em seu Ford verde, para acompanha-los no trecho final. No quilometro 8 da rodovia da graciosa o delegado de polícia de Antonina, o Sr Penny Withers, esperava para dar a boa vinda aos rapazes, em nome do prefeito, Capitão Custodio Afonso Neto.
Quando a caravana chefiada pelo Ford Preto cruzou a Avenida Thiago Peixoto, os foguetes começaram. Segundo Lydio, o espetáculo pirotécnico era indescritível. Foguetes e morteiros estouravam sem cessar, anota ele. Os carros só pararam, em meio ao foguetório, depois do portal da cidade, próximo do pátio da Estação Ferroviária. Uma grande multidão cercava os rapazes, dando-lhes beijos e abraços.
Como Lydio anotou em seu diário, teve início um grande desfile escoteiro nas ruas de Antonina que durou parte da madrugada, que só terminou na Caserna da Tropa Valle Porto, acompanhados por grande massa de pessoas. Ali, finalmente, os rapazes foram dispensados de sua missão e puderam ir para suas casas.
Ao chegar em casa, com sua família, Lydio conta que estava muito excitado para dormir. Estava cansado, com fome, mas sem sono, querendo desesperadamente falar. Sua mãe, dona Nathalia, foi fazer um café. Enquanto isso, Lydio contava para seu pai alguns dos detalhes da viagem. Eram 4 da manhã quando finalmente conseguiu pegar no sono. Segundo conta, sentia falta do balanço do navio. Fechava os olhos e tentava reter na memória tudo o que havia acontecido naquela memorável madrugada.
Enfim, em casa!

quarta-feira, 8 de março de 2017

A VOLTA PRA CASA: PASSEANDO EM SANTOS


A praça Rui Barbosa e os bondes de Santos, cerca de 1940
Estava já escuro, mas mal o Vapor atracou nas docas do porto de Santos Lydio saltou para terra. Queria conhecer a cidade. Ficou muito impressionado com o movimento comercial do centro, mesmo àquela hora da noite. Visitou as praças Rui Barbosa e José Bonifácio, que gostou muito. Mas ficou mesmo impressionado com os bondes da cidade.
Os bondes tinham motorneiros vestidos em impecáveis ternos brancos, e usavam luvas. Chamou atenção os vastos bigodes que quase todos eles apresentavam. Só depois, mais tarde, se deu conta que eram quase todos portugueses. Deixando para trás os bondes, e andando um pouco mais, Lydio viu um circo.
Era o circo Piolom. Com sua tenda armada num terreno baldio das proximidades, estava bem na hora de mais um grande espetáculo. Provavelmente, o maior espetáculo da Terra. A vontade que Lydio sentiu de assistir ao espetáculo daquela noite só não foi maior do que o medo de perder o navio. Entrou de volta pelo armazém 12 e andou pelo cais apreciando os navios ali ancorados.  
Estavam ali ancorados diversos navios americanos e ingleses, os quais mostravam, na proa e na popa, canhões e metralhadoras antiaéreas. O tempo de guerra e o encontro com submarinos e belonaves alemãs não era uma ameaça distante, como já vimos. Os navios brasileiros que Lydio encontrou ali atracados também estavam armados. Mais do que os navios de guerra, entretanto, os cassinos flutuantes que também estavam ancorados ali também chamaram a sua atenção.
Havia muita gente e muita luz. De lá de dentro, muita música também ressoava. No interior do navio-cassino, imagina, Lydio, jogava-se e dançava-se freneticamente. A maioria dos frequentadores, segundo nota, eram estrangeiros. No próprio vapor em que viera, o carteado também corria solto no convés. O clima de festa dos navios ressoou intenso. No entanto, tinha que voltar ao seu navio. De volta, correu ao seu camarote e dormiu sob o embalo das ondas.
Pela manhã, ao acordar, os rapazes viram o movimento intenso do porto, com seus guindastes trabalhando freneticamente tirando e colocando cargas destinadas a todos os lugares do brasil e do mundo. Após o café, saíram para conhecer a cidade, agora de dia.
Após visitarem um conhecido de Antonina que estava morando em Santos, os rapazes andaram pelo centro e passearam pelas praias de Gonzaga e José Menino. Passaram de bonde pelo estádio de Vila Belmiro onde, mal sabiam eles, surgiria, dezesseis anos depois, a maior lenda do futebol mundial e um dos maiores times de futebol já vistos. Mas isto é outra história. Na cidade, mais do que o futebol, o que mais chamou a atenção dos rapazes foram os canais.
Iniciados em 1907 pelo engenheiro Saturnino de Brito, os canais eram uma grande inovação higienista e urbanística, drenando os terrenos alagadiços da Ilha e controlando as aguas pluviais. Contribuíram para o controle de doenças e induziram a ocupação urbana da cidade durante o século XX. O mais novo dos canais só seria terminado em 1968. Em 1942, os canais de Santos já eram uma obra de chamar a atenção dos jovens escoteiros. Lydio também notou os morros de Santos, observando lá em cima, a mancha branca da igreja de N.S. de Montserrat. Era hora de voltar ao navio.
Os rapazes ficaram no salão do navio, ouvindo as músicas tocadas ao piano pela jovem Doralice, gaúcha de Porto Alegre. De namorico com Milton Horibe, a gauchinha ficou por lá conversando alegremente com os rapazes, até que chegou a hora de se recolherem. Durante a madrugada, Lydio saiu ao convés para ver a tempestade que já citamos, a qual quase lhe custou a vida. Logo depois, o escoteiro voltou ao camarote e dormiu pesadamente. Quando acordou, havia perdido o café da manhã. No entanto, ao conversar no convés com um marujo, descobriu que estariam chegando em casa no começo daquela mesma noite.
Enfim, de volta pra casa!

sábado, 4 de março de 2017

A VOLTA PARA CASA: SOB A MIRA DOS SUBMARINOS ALEMÃES


Em março de 1942, a viagem de volta dos escoteiros antoninenses tinha o risco real de ataques de submarinos alemães
Na madrugada de 3 para 4 de março de 1942, o navio enfrentava uma forte tempestade em alto mar. Lydio Cabrera, entre assustado e encantado com o balanço do navio, saiu para fora.  Uma onda acabou atirando o escoteiro para os cabos da amurada, e Lydio receou que fosse atirado ao mar pelos vagalhões de agua salgada que varriam o convés. Um frio lhe correu a espinha e foi forte o medo de morrer ali, sem voltar a ver seus amigos e sua família.
Lydio ficou ali agarrado aos cabos mais uns quinze minutos, até que tomou coragem e voltou a seu camarote. Estava encharcado e gelado. Tomou um banho, caiu na cama e dormiu pesadamente. A viagem de volta estava tão cheia de histórias e percalços quanto a ida a pé até o Rio.
Haviam embarcado havia dois dias, de volta para a sua querida Antonina.  Ainda no Rio, o general Heitor Borges, chefe e grande patrocinador do escotismo no Brasil, havia feito uma brincadeira com os meninos, pedindo-lhes que voltassem de outra forma que não fosse a pé.  No dia da partida, o carro preto do General Heitor, dirigido pelo Dr. João, passou no quartel para levar os rapazes ao porto.
Ali no cais, ao se despedir do Dr. João, que tanto havia cuidado deles, os rapazes se emocionaram. Lydio conta em seu diário ter derramado algumas lagrimas naquela despedida. Sem a pronta ajuda do Dr João e de toda a Diretoria da UEB na época, os quatro rapazes não teriam se desincumbido de sua tarefa.
Já no navio, ao singrar as aguas da baia de Guanabara rumo a casa, os rapazes foram vendo as fortalezas do Rio de Janeiro e as montanhas azuis ao fundo, com um ar nostálgico de despedida. A paisagem foi sumindo no horizonte, até que só se via céu e mar.
Em viagem de primeira classe, os rapazes foram conhecendo um mundo novo: visitaram todo o convés, foram conversar com o comandante e com a tripulação, desceram ao porão para ver a casa de máquinas do navio. Desfrutaram das refeições fartas e exóticas. Lýdio experimentou lagosta pela primeira vez na vida. Em seu diário, anotou que as tais lagostas eram "uma espécie de camarão gigantesco, muito saboroso e de fácil digestão". Nas sobremesas, os rapazes se deliciaram com  sorvete de goiaba, tão bom que sempre repetiam.
Naquela noite o barco continuava navegando rumo sul, todo pintado de preto, e com as luzes apagadas. Quando os rapazes chegaram ao Rio, havia sido encerrada por aqueles dias a III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Esta conferência foi muito importante porque definiu a posição brasileira alinhada com os países Aliados e contra as potencias do Eixo.
O ataque a Pearl Harbour havia sido realizado em dezembro, poucos dias antes dos rapazes partirem de Antonina. Nesta reunião no Rio de Janeiro todos os países do continente americano, com a exceção de Argentina e o Chile, haviam se alinhado contra a agressão sofrida pelos Estados Unidos. Em pouco tempo, os submarinos alemães iriam começar o que um comandante alemão chamou de “alegre carnificina”: o ataque contra os navios mercantes nacionais, que vitimou por volta de 3.500 brasileiros e que seria decisivo para a declaração de guerra aos países do Eixo que o governo brasileiro fez cinco meses depois, em agosto.
Enquanto isso, Lydio anota em seu diário as precauções da embarcação para uma viagem em tempos de guerra. Com o receio de um ataque, o barco viajava todo pintado de preto, e nenhuma luz podia ser acesa no navio. Sequer fumar no convés era permitido. No meio de tantas preocupações, Lydio certificou-se de colocar um colete salva-vidas ao lado do beliche, para o caso de qualquer perigo.
Na primeira noite, a agitação entre os passageiros era geral: com o embalo do navio, os passageiros estavam todos enjoados, vomitando tudo o que haviam comido pela amurada. Milton Horibe, o chefe Beto e Manduca estavam entre os passageiros que passaram mal nesta primeira noite.
Após passar por todo o litoral paulista, tendo ao largo Ilha Bela e São Sebastião, o navio começou a mudar seu curso, e em breve estava atracando no Armazém 3 das docas de Santos. A última etapa da viagem estava chegando.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O FIM DO ANFÍBIO


Hoje de manhã, ao abrir a porta da cozinha vi uma cena macabra: umas perninhas boiando, inanimadas,  num balde de agua com Qboa. Ao chegar mais perto vi que não se tratava de nenhum ser liliputiano, mas sim de uma prosaica rãzinha, que acreditou estar voltando pra casa num pulo.
O corpinho da rã boiava no balde à luz da manhã de uma quarta-feira de cinzas. De imediato, não soube muito o que fazer. Funeral de animais é uma coisa complicada. Em geral, o funeral só é reservado para animais muito próximos, tanto na escala evolutiva quanto na vida. O cachorrinho de estimação das crianças. Meu coelhinho, o Bolinha, morto de causas desconhecidas no quintal de minha infância. O pardalzinho que tentamos salvar, eu e minhas irmãs, quando ele caiu do ninho. Mas, uma rã, e da qual nem tinha conhecimento até ver seu corpitcho de nadadora estirado no nosso balde de limpeza?
Optei por coloca-la no lixo, junto com outros dejetos orgânicos e não compostáveis. Ao pega-la pelas patas, vi que ela já estava enrijecida, os olhos abertos, a barriga inchada. Tive um nojinho, confesso. Mas cumpri minha missão.
 E fiquei pensando sobre nossa relação com os animais, principalmente aqueles animais que achamos não ter relações. Semana passada, apareceu aqui em casa uma cobra. Já apareceram outras duas, mas filhotes. Desta vez, segundo nossa diarista, era uma cobra mesmo. Volta e meia também passa por aqui um gambá, que já fez estragos com umas frutas e com o lixo que deixamos descoberto. Tem também os passarinhos, a fazer algazarra e gritar pelas arvores ao redor.
Optamos, Maria José e eu, por não termos animais de estimação. Dá trabalho para os dois lados. Pra criar tem que se dedicar, e, como viajamos muito, achamos que não compensa. Eu já tive os cachorros e outros bichos que meu pai tinha. Depois, tive os cachorros que meus filhos queriam ter. Agora, posso escolher não ter nada.
Mas, pelo que contei até aqui, acho que eles acabam por nos escolher. Acrescento à lista que dei anteriormente uma coruja enorme que as vezes passa por aqui e um sagui que certa vez gritava na nossa porta. São eles, os animais, que nos escolhem.
Vivemos num mundo ainda selvagem. Que digam os gafanhotos e pulgões e formigas que nos infestam o jardim, que ensejaram o surgimento da indústria de pesticidas. Sem contar, é claro, como os pernilongos e outros aedes, que criaram a indústria dos repelentes.
 E assim vamos, convivendo com eles e os exterminando. O extermínio é feito sem dó. Mato um mosquitinho sem ter dó na consciência. Mato um aedes com um misto de medo e fúria. Exterminamos as baratas com venenos e chineladas com um sorriso sádico nos lábios.
E o que dizer de uma morte involuntária, de um animal “bonitinho”? Que confundiu o balde com Qboa do outro balde ao lado, com agua limpa? Como fica então nossa consciência? Gusano, meu caro amigo Gusano, o verme da garrafa de mescal, me olha com um ar de cético: “vocês humanos ó se preocupam com vocês!”. É verdade, Gusano. Só o que é humano nos interessa. Por isso os sapos e  rãs são bonitinhos e as salamandras são demoníacas.
Devemos, então, nos preocupar com os animais por estarmos preocupados com nos mesmos? O que fazer se vivemos numa sociedade que consome mal e muito, com uma conta que não fecha? Parece que estamos presos dentro da cabine de um trem desgovernado cuja chave foi jogada fora. Gostando ou não gostando do que estamos vendo, estamos todos juntos. Quem quer produzir de qualquer jeito e que quer que haja alguma norma que respeite o meio, estamos todos na mesma civilização. Como as duas faces de uma moeda.
Vai dar cara ou coroa? Ou a moeda da civilização vai pro bueiro sem que se saiba o resultado?
Eu só sei que o fim de um  anfíbio não deveria ser  num balde de Qboa. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O MELHOR ATLETIBA QUE EU NÃO VI


O Atle-tiba que não houve. Orgulhosamente, imagens da TVCAP.
Pra quem é paranaense e gosta de futebol, impossível não falar sobre o Atle-tiba. Ao longo de minha vida, vi muitos, tanto dentro do estádio quanto pela televisão, pelo rádio e mais recentemente pela internet. Vi ali jogar craques de verdade, como não existem mais hoje. Pelo Coritiba, vi jogar Zé Roberto, Paquito e Tião Abatiá,  Alex. Pelo Atlético, vi Di,  Sicupira, Assis & Washington, Paulo Rink, Adriano Gabiru e mesmo o menino (ex-menino!) Kleberson, que só brilhou mesmo com o manto sagrado rubro-negro e com a nossa tão maltradada amarelinha.
Vi jogos memoráveis e jogos nem tanto. Assisti empates sonolentos, goleadas sonoras de parte e parte, decisões de campeonato pra lá de tensas e cheias de brio. Vi anos de domínio coxa-branca, anos de domínio rubro-negro e muita, muita rivalidade.
Qual não foi minha surpresa ao ver pela internet (estou em Andrelândia – MG em trabalho de campo com meus alunos e colegas do curso de geologia da UNICAMP) o que aconteceu neste último domingo.
Que bom ver os dois rivais unidos e por uma causa mais que justa: o fim do monopólio das televisões (leia-se Rede Globo) na transmissão das partidas de futebol. Um negócio milionário que tira do torcedor a possibilidade de escolher ver seu time jogar. Quantas vezes não somos obrigados a ver o time “mais querido”, ou “a maior torcida do Brasil” apenas por interesse da citada rede de televisão? Quanto dinheiro os times “médios” perdem em  por causa de todas as maracutaias envolvidas nos negócios sobre direito de transmissão?
Sem falar na bagunça que são as federações de futebol no Brasil. Quando perdemos da Alemanha, houveram algumas vozes pedindo para que adotássemos um sistema melhor de organização do futebol, similar ao modelo alemão. Um modelo que fez o 0 x 2 de 2002 virar o 7 x 1 de 2014. Mas a quem isso interessa? Aos dirigentes de Federação e a própria CBF, definida por Juca Kfuri como a Casa Bandida do Futebol? Interessa aos empresários de jogadores que exploram meninos e ganham dinheiro de maneira desorganizada e inescrupulosa?
A vergonha alheia provocada pela Federação Paranaense ao cancelar o clássico por causa da falta de credenciamento de alguns jornalistas ligados a redes online é uma chacota. Um acinte. Uma piada de mau gosto. Aliás, a própria FPF é uma piada. Um ato digno de todos os dirigentes que teve essa associação, gente de moral duvidosa e sem escrúpulos, e que deveria estar com os dias contados. A organização do atual futebol brasileiro deveria voltar ao passado de onde veio e nos deixar jogar livres, independentes e felizes.
Isso vale para todo o esporte brasileiro. Está também na hora de deixar a futebolmania dirigir todos os interesses. Temos outros esportes e modalidades que também tem importância e merecem mais espaço nos corações e mentes dos brasileiros. Mas, essa crise também é um claro sinal de que tudo está mudando.
Por tudo isso, acho que este é o melhor Atletiba que não vi. Neste jogo, os dois rivais dentro do campo se uniram contra a máfia que controla e futebol e os grandes interesses financeiros das emissoras de televisão. Não é pouco. Como disse o técnico Paulo Autuori, é uma grande mudança de paradigma que a dupla Atletiba faz ao não se curvar a estes interesses.
Hoje é um dia que está bonito ser atleticano ou coxa-branca.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CIVILIZAÇÃO & BARBÁRIE


Que vivemos tempos estranhos todos sabem. No entanto, nada me deixa mais triste que todos os laços que tentamos criar, desde o fim da Segunda Guerra Mundial estejam se desfazendo diante de nossos olhos sem que ninguém consiga fazer nada.
Nestas horas tento invocar Santa Rosa Luxemburgo, pedindo que nos livre da barbárie. No entanto, ao longo destas ultimas semanas ou meses, o cenário parece ser consistentemente uma fragmentação e ruptura de laços frágeis, porem necessários.
Fazem dois séculos que estamos construindo espaços para o respeito e a dignidade individuais, os chamados Direitos humanos. Direitos esses que são das classes dominantes e pouco, muito pouco, das classes subalternas.
Os direitos da burguesia são fáceis de ver e respeitar. O direito dos outros, no entanto, é vilipendiado, negado, execrado.  Direitos humanos para humanos direitos, não é mesmo? Será que os direitos humanos de um humano “direito” branco são os mesmos de um humano “direito” negro? Será que um humano “errado” branco não tem mais direitos que um humano “direito” negro? Isso sem contar os humanos “errados” negros (ou índios, ou chechenos, ou de uma religião diferente da nossa), que são sumariamente eliminados.
Ao tentar uma construção social que seja inclusiva, que respeite classe social, credo, cor, gênero, não são fáceis os obstáculos que se interpõe. A discussão sobre humanos “errados” ou “certos” torna um debate difícil, oco, inconclusivo.
O que se vê é aumentarem barreiras, muros, dificuldades. O outro é sempre o inimigo, aquele de quem devo me defender com armas até os dentes. Estamos num tempo em que se declaram uma cínica guerra à pobreza, à diferença, negando valores fundamentais de altruísmo e solidariedade.
É com imensa tristeza que vejo a facilidade com que a mera ausência de polícia, uma polícia nem sempre boa ou cidadã, nos torna num amontoado de bestas ferozes. O que passa pela cabeça de um cidadão que saqueia uma loja? Ou nas pessoas que se aproveitam da confusão para praticar todo tipo de delitos?
Ao ver as cenas do caos no Espirito Santo, o que me vem à cabeça é que  parece que a barbárie vem nos aplicando um peremptório 7 a 1.
O que vemos surgir dessas greves de polícia é uma sociedade que não tem nenhum laço que a una. Uma sociedade esgarçada, desigual e que só se mantem unida pela força bruta e pela arbitrariedade da polícia que temos (Nos ajude, São Foucault!).
Chego a pensar que Trump tem razão ao impedir a entrada de refugiados, ou Temer e os partidos de sua coalizão golpista de impor retrocessos sociais e aumentar o nível de exploração do trabalho. Eles têm razões (as deles).
Nós é que somos estúpidos a pedir altruísmo e solidariedade numa sociedade marcada pela brutalidade e que regride ao tempo das invasões barbaras assim que a polícia desaparece. Essa sociedade eu não quero.
Feliz do povo que não precisa de polícia para viver em paz.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

REBELIÃO ESCRAVA EM ANTONINA (FINAL)


Estava tudo uma balbúrdia: os escravos em Antonina tentavam uma rebelião!
 O delegado Alves D´Araújo estava preocupado. O suplente de delegado, em sua ausência, havia escrito ao govenador solicitando uma atitude. Essa atitude, bastante rápida aliás, havia sido o deslocamento de tropas de Curitiba para Antonina, assim como colocar o efetivo da Guarda Nacional de Antonina e de Morretes em alerta. E assim foi feito. Em janeiro de 1859 Antonina parecia uma praça de guerra.
Os soldados acampavam no campo da Matriz, e os cavalos ficavam por ali, pastando em meio as vacas. Uns e outros assavam ali uma carne bovina num fogo de chão. Outros soldados, com conhecidos no lugar, tiravam uma sesta e comiam uma sopinha quente dentro das casas. Outros tantos soldados ficavam, com seus cavalos e utensílios, acampados nos matos da entrada da cidade, próximo as ruinas da igreja do Saivá, em meio as vacas e as ruinas dos engenhos de mate semidestruídos.
Os escravos, ressabiados, haviam se recolhido, e cochichavam as escondidas. Uns diziam que o próprio Imperador havia libertado os escravos. Outros diziam, como haviam dito uns dias antes ao próprio delegado, que um navio inglês estaria no porto para assegurar a liberdade dos cativos. A esperança, assim como a ansiedade, era grande.
No entanto, nada aconteceu. Não veio navio inglês, e o Imperador tirava seus cochilos em Petrópolis e nem sabia dos pobres escravos de Antonina, que teriam que se virar à sua própria sorte. Como, aliás, sempre tinham feito.
Ao final do mês, já mais tranquilo, o delegado Alves D´Araújo emitiu um ofício onde deu por encerradas as preocupações dos donos de escravos do lugar, e as tropas voltaram a seus cantos de origem.
Não havia sido a primeira vez que a população branca da cidade havia se assustado com uma rebelião negra. Cerca de trinta anos antes, os escravos do industrial José Luiz Gomes, dono de um Estaleiro e de plantações de cana no Pinheirinho, haviam se revoltado, matado o seu patrão e fugido, segundo alguns levando moedas de ouro e cobre, para a costeira de Guaraqueçaba, onde foram caçados e mortos. Seus corpos foram estraçalhados e exibidos para “exemplo” em postes pelas estradas do município.
Nesta nova rebelião, entretanto, haviam alguns elementos novos: desde 1850 o tráfico negreiro havia sido extinto, boa parte por pressão das canhoneiras inglesas. Não era a toa que os escravos se referissem a um navio inglês. Havia uma certa esperança, entre os escravos, de breve libertação que, afinal, se mostrou “lenta, gradual e segura”, como só a elite brasileira consegue realizar.
No entanto, para os escravos restou somente a negociação de sua liberdade, num processo lento e demorado. Teriam que “comprar” sua alforria, caso por caso. Muitas vezes pediriam a alforria em processos judiciais contra um judiciário tendencioso, como o daquela época (!?). Teriam que procurar proteção nas irmandades religiosas, como a irmandade de São Benedito.
Finalmente, teriam que negociar a liberdade dos recém-nascidos com a lei do ventre livre (1871) e a dos idosos com a lei dos sexagenários em 1885, quase as vésperas da abolição. A abolição em Antonina foi tardia. No 13 de maio ainda haviam muitos escravos que foram “libertados” por seus senhores, como se já não houvessem sido pela lei Aurea.
Sem contar que não foi dada, como já na época se exigiam os movimentos abolicionistas, de alguma “reparação” aos escravos libertados. Esta reparação seria necessária, argumentavam estes grupos, para que os agora ex-escravos pudessem entrar de maneira digna no novo mercado de trabalho que então se formava no país. Nada foi feito, como se sabe.
Quem se maravilha com as centenárias construções da bela Antonina tem a real noção de que estas belezas foram construídas com trabalho escravo?
Quem hoje passa pela Igreja de São Benedito, ou ouve uma escola de samba antoninense poderia imaginar quanta dor e sofrimento andaram por estas ruas?


PS – a história é verídica: Para saber sobre a Revolta Escrava em Antonina e os documentos citados basta consultar o trabalho da historiadora Sílvia Correa de Freitas (http://revistas.ufpr.br/vernaculo/article/viewFile/18073/11777_);

domingo, 15 de janeiro de 2017

REBELIÃO ESCRAVA EM ANTONINA!

batuque na cozinha, Sinhá não qué!
Em 15 de janeiro de 1859, o suplente de delegado Joaquim Leite Mendes estava desesperado com as notícias que estava recebendo. Com o olhar preocupado, tirou o chapéu e deu uma olhada pela janela. Lá fora, um semelhante dum calor, ele via os urubus pousados no telhado de asas abertas, depois da chuva que recém caíra e esperando a chuva que ia cair mais tarde. O morro do Feiticeiro estava semi-encoberto por uma nuvem fina. O ar estava abafado, mormacento.
Leite Mendes preocupava-se, pois o delegado Alves d’Araújo estava em viagem para a Vila do Príncipe [hoje Castro]. Que fazer? Depois de raciocinar olhando os telhados pela janela, tomou sua decisão. Pegou uma folha de papel, a pena e a tinta, sentou-se à mesa e, com sua fina caligrafia, começou a redigir um ofício endereçado ao governador da província, Francisco Liberato de Matos: “ontem estava este Município de Antonina  exposto a uma próxima sublevação de escravos sob protesto de sua liberdade geral que lhes foi conferida mas que foi negada por pessoa suspeita da cidade”.
Sim, a cidade de Antonina estava na iminência de uma sublevação de escravos! Como se daria isso? Leite Mendes tomou da pena e voltou a escrever: “servindo-se eles de dois grandes bailes denominados congadas que há muito tempo fazem todas as noites nesta cidade a pretexto de ensaio para sua festa de São Benedito”, explicou ele ao governador em sua caligrafia redonda. O tal do levante “terá lugar segundo consta no dia 20 deste mês, para por esse meio de reunião transmitiram essa notícia a escravatura dos sítios e consequentemente preparavam-se para o fim do sinistro plano”, explicou Leite Mendes.
Era o meio da tarde. Mas que fazer? A carta tinha que ir á Curitiba ainda aquele dia. Leite Mendes procurou um dos tropeiros de sua confiança, que estava com os cavalos amarrados ali no campo, perto da matriz. Sim, o tropeiro garantiu, um deles iria a Curitiba dentro de pouco tempo. Ia dormir em algum lugar da serra, mas antes do meio dia estaria chegando a Curitiba. Leite Mendes entregou-lhe a carta endereçada ao Governador e voltou pra casa, mais aliviado. Tinha cumprido sua missão.
Durante os dias que se seguiram, Curitiba e o litoral viveram momentos de angustia. As autoridades estavam simplesmente apavoradas com a possibilidade de um levante escravo em Antonina. Cartas foram endereçadas para Morretes e Paranaguá, prevenindo os senhores de escravos antes que a fagulha da revolta se espalhasse. O medo tomou conta das casas, e nem as tempestades de verão no final do dia davam algum alento aos patrões.
O governador mandou reforço policial para Antonina, enviando o Capitão Manoel Eufrásio de Assumpção e mais quatro soldados. Estes deveriam arregimentar os soldados disponíveis em Porto de Cima e Morretes. Assim reforçados, a brava tropa policial entraria em poucos dias numa Antonina em polvorosa, assustada com a possibilidade de um levante de escravos.
O próprio delegado Alves d´Araújo, no dia 19 de janeiro, quando retornou de sua viagem foi, ele mesmo, interpelado por alguns pretos mais desaforados. Estes exigiam que ele lhes desse a liberdade a que eles, os pretos, já tinham direito. Alves d´Araújo, é claro, não sabia de nenhuma alforria. “Mas tem sim”, disseram-lhe os pretos. Segundo os escravos, havia uma ordem de libertação geral direta da Coroa, e ele, Alves d`Araújo, estava, por interesses escusos e perversos, negando a eles conhecer a verdade. Havia, inclusive, um navio inglês chegando ao porto para protegê-los e fazer os senhores aplicar a lei.
Como diríamos hoje: que surrealista! Como diriam os antigos, que maçada!! Haverá então uma revolta escrava em Antonina? O que acontecerá?

(postado originalmente em janeiro de 2013)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A CONTROVÉRSIA DO QQTACONTECENO


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)

Para Marko Monteiro e Carolina Zabini
Depois da controvérsia do Antropoceno, uma nova e maior controvérsia acende os debates científicos da Paleontologia Imaginária. Assim, os debates sobre o período Antropoceno, sua delimitação temporal e mesmo a sua existência enquanto período geológico passaram a um segundo plano. O novo período proposto é o Qqtaconteceno (Crutzen, 2017).
Segundo Monteiro (2016) trata-se de um período além de controverso, perplexo. A sucessão normal das faunas e sua disputa no ecossistema planetário estariam se dando numa velocidade até então inaudita, complicando e fazendo modificar nossa compreensão da evolução planetária (Zabini, 2016).
No Qqtaconteceno, predominou amplamente sobre os demais o gênero feicebuquis. Havia o F. destrus e o F. sinistrus, que faziam grandes disputas em pontos nodais da rede (Ortellado, 1999). A arma destes grupos era uma enzima altamente tóxica chamada textão. O textão acumulava-se em grandes áreas, em geral inviabilizado a compreensão do que estava em disputa (Mainardi, 2013). Em geral, um grupo não entendia o que o outro dizia, e grandes toneladas deste material acumularam-se no registro sedimentar (Almeida, 1946).
Outros animais do gênero feicebuquis são os F. correntinus, que criava diversas correntes de bobagens que também marcaram o registro fóssil do Qqtaconteceno (Zuckerberg, 2012, 2013, 2015). O F. narcisistus era outra espécie característica, e mostrava com frequência as festas que frequentava, batizados, casamentos e fotos de crianças fofas (Kardashian, 2014) . Os mais estranhos, no entanto, são os F. abstinenticus, que se recusavam terminantemente a entrar. Dizia-se mesmo que tal espécie não existia, mas alguns exemplares foram achados juntamente com fosseis do gênero Instagranis (Favatto & Steinkpf, neste momento agora). Outro gênero característica deste período é o Tinderius sp, que tentava desesperadamente se acasalar, com resultados bastante duvidosos (Marquezine & Neymar Jr, 2014).
Mas não se trata somente do gênero feicebuquis, embora ele seja o predominante do período Qqtaconteceno. O gênero Tuitus também era muito comum (Safadão, 2015). Em geral os espécimes deste gênero eram similares aos do gênero Feicibuquis, porem mais curtos, com 140 vertebras (Porchat & Duvivier, 2012, 2013, 2016). Outra diferença qualitativa importante era que o Tuitus sp se organizavam segundo quais as espécies seguiam as outras, formando grandes aglomerados nos oceanos do Qqtaconteceno (Oparin, 1944).
Os registros também apontam mudanças ambientais causadas por grandes paquidermes como o Donaldus trumpicus do Qqtaconteceno da América do Norte. A princípio pouco representativas (1% do total), elas acabaram por tomar conta do registro no qqtaconteceno médio (Al Gore, 1999). A presença do D. trumpicus desorganizou os grandes sistemas evolutivos da região (Sanders & Clinton, 2015), determinando o avanço de espécimes predadoras mais antigas. A ligação do D. trumpicus com outros espécimes da Eurásia, como o Vladescus putinus da Russia conduziu a um retrocesso geral do registro paleontológico imaginário (Cameron, 2014).
No Brasil o Qqtaconteceno (Fora Temer, 2016) é fruto de um ambiente de estagnação paradoxalmente provocados pelos mamíferos do gênero Ministeriopublicus (Janot et al., 2014). Trata-se de uma espécie altamente seletiva, que preda somente os mamíferos esquerdos, deixando os mamíferos direitos livres para continuar predando (Calheiros & Jucá, 2016a, b). Os espécimes hoje dominantes, como os Patus amarelus e os Coxinhus raivosus são decorrência da perda de dominância de grandes espécimes do antropoceno recente como o gênero Ptistus sp. Na tentativa de extinguir as grandes espécies sindicalistas e populares não há certeza, mas há muita convicção (Dallagnol, 1933).
A perplexidade causada no Qqtaconteceno, no entanto, não é nova. Sócrates (apud Platão) já estava intrigado com o registro paleontológico da região de Qqtacontecenia, na Ásia Menor. Suas indagações sobre o Qqtaconteceno forneceram várias explicações que são utilizadas até hoje para entender o registro paleontológico imaginário. Na Alemanha, Karl Marx e Friedrich Hegel (Marx & Hegel, 1844) também propuseram explicações sobre o Qqtaconteceno, explicado como uma luta entre gêneros e ordens paleontológicas imaginárias.
Hoje há várias explicações sobre o Qqtaconteceno (Zizek, 2010; Bauman, 2011). No entanto, o registro paleontológico tem mostrado a consistente reentrada de mamíferos pleistocênicos e mesmo cretáceos nos ambientes modernos. Se o Antropoceno era um período contraditório, marcado pelas bruscas mudanças climáticas e ambientais, o Qqtaconteceno é um período onde a perplexidade faz parte do registro.
Há que se perguntar: tem algum meteoro disponível por aí?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A HISTORIA O ABSOLVERÁ?


Cartum de Renato Machado

Quantos e quantos bytes se gastaram (e se gastarão ainda) nestes dias em que em Cuba se preparam as exéquias de Fidel Castro?
De um lado, para muitos, ele é o grande líder da mítica Revolução Cubana, que embalou os sonhos de toda uma geração de latino-americanos. Inclusive os meus. Fidel foi o herói da igualdade e da solidariedade internacional, o camarada que enfrentou (e nunca se dobrou) ao Império. Que desafiou e sobreviveu a onze presidentes americanos. O libertador de Angola e o homem que derrotou o Apartheid e possibilitou Mandela e a África do Sul moderna.
De outro lado, para muitos, aparece a figura do ditador, do déspota, do autocrata. Neste relato, alguns o filiam a Stálin e Pol Pot, assim como a Hitler e Mussolini. Este é o relato da Cuba do paredón, da perseguição, prisão e tortura de inimigos políticos, o perseguidor de artistas, gays e deficientes.
Quem é Fidel? Perguntam-se todos. O que ele significa? Por que desperta tanto amor e tanto ódio?
Não tenho a resposta, nem sei se alguém a tem. Eduardo Galeano tem a dele (aqui). Para a Direita Raivosa brasileira, ver aqui. A melhor definição de tudo é o Cartum de Renato Machado quem faz mais jus à figura do comandante. Nem Céu nem inferno, mas a História, este é o lugar (veja o original aqui). A História o absolverá? Somente com o passar do tempo e com olhos menos apaixonados poderemos chegar a uma apreciação sincera da atuação do comandante.
Entretanto, esta discussão sobre Fidel não é somente uma discussão sobre Fidel. É uma discussão sobre nós, aqui e agora. Sobre o Brasil e seu momento atual. Vejo meus companheiros de esquerda, eu incluso, a defender apaixonadamente Fidel, relativizando o lado amargo da Revolução Cubana. De fato, “gentlemans” não ganham revoluções. É preciso ter estomago para tomar algumas medidas. Não sei se eu as teria ou não, não posso julgar moralmente uma decisão deste tipo cinquenta nos depois, confortavelmente sentado em minha mesa.
Na maior parte das questões, um atenuante óbvio se anuncia: tratava-se da Guerra Fria. Se houve barbaridades daquele lado (o bloco Socialista), do outro lado (o “nosso” bloco capitalista) quantas barbaridades também não foram cometidas? Se ficarmos só na América Latina temos os exemplos da política do porrete, quando os americanos tiravam do poder quem, do campo da esquerda, ameaçasse suas políticas. Podia ser através de golpes de prepostos ou intervenção militar direta. Exemplos abundam. Pra citar dois: a deposição de Jacobo Arbenz Guzman, na Guatemala em 1954, o golpe e a deposição do esquerdista Juan Bosch na República Dominicana, que culminou com a invasão estadunidense de 1965 (com participação da Ditadura Brasileira inclusive). Nesta lista, nem entrei na América do Sul....
O Caribe no pós-guerra era um arquipélago de ditaduras sanguinárias, protegidas por Washington. Como não esquecer da Nicarágua de Somoza (1934 – 1979), da República Dominicana de Trujillo (1931-1961), do Haiti de Papa Doc (1957-1971)?
Assim quando, do nada (para a imprensa americana) um grupo de jovens barbudos desafia e vence um destes ditadores, o não menos sanguinário Fulgêncio Batista (1933-1959), estava configurado o mito.  Sim, era possível.
Cuba sofre de um processo de atração e repulsão por seu vizinho do Norte desde sua independência, em 1898. Desde a sangrenta guerra da independência, a partir da insurreição liderada pelo também mítico José Marti (El hombre sincero de donde crece la palma!), os Estados Unidos frequentemente tomaram um papel que não lhes cabia na condução da ilha. A ocupação militar durou de 1891 a 1903. É deste ano a Emenda Platt, que se estenderia até o governo de Fulgêncio Batista, em 1933. Esta emenda dava o direito de os Estados Unidos intervir em Cuba sob pretextos diversos, limitando na prática a independência do país. Desta forma, a Revolução Cubana pode ser entendida neste contexto secular como uma reação à dominação americana e uma segunda etapa do processo de independência do país.
O embargo americano também explica diversas atitudes tomadas por Cuba desde os anos 60. A resistência torna-se seu mote, e a resistência a qualquer preço. Depois do colapso da URSS em 1991 e mesmo antes, a situação econômica piora. Mas a pequena ilha resiste. O embargo gera uma porção de problemas e uma justificativa bastante plausível ao governo cubano para tomar medidas duras. Um duro embargo que já dura mais de 50 anos.
Por outro, vejo meus amigos de direita com um relato que é verdade: sim, o regime cubano matou pessoas. Os fins justificam os meios? Não posso responder que sim. Mas entender o que aconteceu dentro do espectro de seu tempo ajuda a entender algumas decisões.
O discurso da Direita está sendo usado, no entanto, para culpar a atual esquerda brasileira. Acho isso injusto e prejudicial ao bom debate. A esquerda já fez uma boa autocrítica desta e de outras práticas do passado. Não se pode achar que Stálin e Pol Pot sejam nossos camaradas. Meus nunca foram.
Hoje, a esquerda brasileira – e é só por ela que posso falar -  é mais democrática e legalista que a direita. Falo isso com muito orgulho. Durante o golpe, embora esperneássemos, o poder foi entregue sem nenhuma resistência, dentro da lei, embora não houvesse concordância com sua interpretação.
Por outro lado, a direita sempre abusou da lei (A lei? Ora, a lei!).  A direita burra vive propondo - hoje! Agora! Neste instante! -  um retorno ao passado, um passado violento que nos remete ao mundo antes da Revolução Francesa, antes da cidadania e dos direitos do homem. Um mundo de lei e de ordem. “Direitos Humanos para humanos direitos”. Mas lei e ordem para quem, cara pálida? Continuamos a mesma política do Império e da Colônia, admitindo tortura e morte sem julgamento para os mais pobres, que não por acaso são pretos e índios.
A direita mais “light” vive fazendo armadilhas e mudando as leis. Para quem está reclamando das anistias ao caixa dois e as outras patifarias que o congresso está fazendo: lembrem-se da corrupção que foram os cinco anos para Sarney e a reeleição de Fernando Henrique. O prof. Luiz Felipe Alencastro há muitos anos atrás denunciou esse golpismo “light” através das mudanças constitucionais (aqui).
Falar de Fidel, hoje, é falar do Brasil. É isso que nossos amigos de direita querem nos dizer é: “Isso não serve para nós, não está vendo? ”. “É isto o que você quer para o Brasil? ”, como diziam no tempo da Ditadura. Não, isso não nos serve. Por exemplo, não compactuo com tortura e assassinato sem julgamento, como fez o Exército Brasileiro nos anos 70 (ver o livro de Elio Gaspari, “A Ditadura Escancarada”). Atrocidades que o Exército Brasileiro nunca admitiu, o que é mais vergonhoso ainda. Não compactuo com o genocídio de pretos e índios que as policias militares e diversas milícias vem fazendo no campo e nas cidades.
Não compactuo com políticas de discriminação social, religiosa e qualquer outra. Se Fidel tratou de forma abusiva os gays (los enfermitos), ele está numa companhia que não é boa, mas numerosa. A prática de castração química, prisão e morte foi muito comum no passado (veja os exemplos na Inglaterra e nos Estados Unidos, e mesmo aqui no Brasil) e ainda o é no presente em vários países. Isso tem que ser posto em sua correta dimensão: estava errado e tem que ser denunciado. Agora, eu acho estranho que muitos que reclamam da “Ditadura Gayzista” estejam agora se compadecendo de nossos companheiros homossexuais. Cubanos.
Não gostam de Fidel? Tudo bem. Não gostam de sua prática política? Faz parte do jogo. Eu acho Fidel uma grande liderança e uma pessoa importante na luta dos povos por mais igualdade. Ele é incoerente e cometeu erros, sim. Ninguém é coerente o tempo todo. Ele não é candidato a Santo. Mas não é possível ignorar que sua luta foi importante na melhoria de vida e na redução das desigualdades em Cuba e na América Latina. Não é possível ignorar seu papel no fim do Apartheid. Não é possível ignorar as conquistas da Medicina cubana (veja um depoimento do insuspeito jornalista Jorge Pontual, da Globonews, aqui).
Cuba tem os desafios dela (ver aqui), nós temos os nossos. Nós nunca enfrentamos, com exceção dos governos petistas, o desafio de superar nossas desigualdades. Vivemos numa sociedade estamental e extremamente desigual. Nossas classes dominantes nunca quiseram expandir o ensino e a cidadania. Pelo contrário, nos enfurnamos em condomínios fechados e depois reclamamos que a rua está tomada por bandidos. Não estamos nem aí para uma sociedade em que a polícia nos trate todos como iguais. Somos coniventes com a tortura nas delegacias e com a morte de jovens, pretos, índios. Somos lenientes com a cultura do estupro, expondo nossas mulheres a situações inconcebíveis. Temos aversão e permitimos que as pessoas LGBT sofram com a violência e o assassinato.
E depois, refestelados no sofá da casa assistindo à televisão ou, então, na tela do computador ou do telefone, ficamos nos horrorizando com estas mesmas coisas. Mas no país dos outros.
Enquanto isso, Fidel entra na História pela porta da frente.

domingo, 20 de novembro de 2016

HOMO DEBEM


(a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)


Os homens de bem não constroem Impérios;
apenas lhes fornecem a argamassa.
Millôr Fernandes
Dentre todos os locais do Leste Africano onde foram encontrados resquícios de hominídeos fósseis, nenhum tem causado tanta polêmica quanto a Garganta de Olduvai, onde foram pela primeira vez encontrados os restos fósseis do homo debem. Segundo o arqueólogo Osborne Leakey, primo de Richard Leakey, o homo debem foi uma espécie representativa do Pleistoceno inferior de Olduvai (O. Leakey, 1959). Os principais jazigos fossilíferos, localizado nos estratos superiores, indicam sua ocorrência imediatamente após as Grandes Guerras Pleistocênicas (Marshall, 1946).
Algumas características iniciais mostravam tratar-se de uma espécie dominante, de comportamento bastante singular. Consumia com avidez os produtos líticos de seu tempo, e desfrutou de um período de grande irradiação, tendo alcançado a maioria dos locais habitados pelos hominídeos de seu tempo (McLuham, 1960).  
Segundo os principais trabalhos sobre o homo debem, a espécie era reconhecida por ser muito produtiva, produzindo artefatos líticos de consumo para a maioria dos hominídeos de período (Ford, 1927; Toyota & Ford, 1957; Toyota et al., 1988). Tinha um comportamento monogâmico restrito, e se acasalava com fêmeas recatadas e das cavernas (Fora Temer, 2016). Segundo alguns pesquisadores do período, o homo debem era uma espécie muito respeitada e temida em todo o leste africano (Magnoli, 2011).
Estudos mais recentes, porém, mostram que o comportamento do homo debem não é tão homogêneo quanto aparentemente se pensou (Foulcault, 1974). Os homo debem eram na verdade uma espécie bastante subordinada entre os demais grupos de hominídeos. A espécie verdadeiramente dominante eram os homo debens, que controlavam os grandes caminhos murados (wall streeets, em inglês). Os homo debens dominavam a produção dos homo debem e exploravam seu trabalho de produção de manufaturas líticas (Pikety, 2012).
Frequentemente, durante as crises provocadas pelo homo debens, os homo debem perdiam suas ferramentas e ficavam sem ter o que fazer, vagando pelas savanas e consumindo bebidas alcoólicas (Bukowsky, 1960). As fêmeas da espécie rebelavam-se continuamente contra sua dominação, e os lares chefiados somente por fêmeas da espécie chegou a representar metade dos locais de moradia ao fim do pleistoceno (Beauvoir, 1956).
Depois de duas grandes crises, datadas pelo Carbono 14 em 100.929 e 100.208 BP (antes do presente), os homo debem foram praticamente extintos (Soros & Buffet, 2008). No entanto, algumas espécies de hominídeos inadaptados para as mudanças daquele início de milênio, acabavam por associar os homo debem a posturas retrógradas e conservadoras (O. Carvalho, 2013). Espécies parasitas como o Coxinhus sp e o Australopithecus bolsonarius participavam de estranhas festividades com os corpos pintados de amarelo e orando para uma divindade aquática (O Grande Pato), tentando lembrar dos homo debem como um exemplo positivo de hominídeo (R. Azevedo et al., comunicação verbal, 2016).
Alguns pesquisadores, no entanto, levantam a hipóteses de que os homo debem jamais tenham de fato existido. Segundo estes pesquisadores, a lenda dos homo debem, pacíficos e corretos, foi inventada para que os demais hominídeos da região se submetessem mais pacificamente aos homo debens (Chomsky, 1980; Chomsky, 2010; Chomsky, 2014). A polêmica subsistiu durante vários anos, sem resultados satisfatórios (Villa, 2012; Villa, 2013; Villa, 2014; Villa, 2015).
O que se sabe é que após a provável extinção dos homo debem persistiram vários anos de disputas no leste africano, entre os lados direito e esquerdo do vale de Olduvai, sobre quem se apropriaria do material lítico produzido. Não se sabe exatamente o que resultou, mas a ampla proliferação de hienas e urubus na região pode ser indicativo de uma extinção generalizada de vários espécimes de hominídeos (O. Leakey, 1964).


domingo, 6 de novembro de 2016

A CAPELA E SEU ANIVERSÁRIO: SAUDADES

Os meninos magrinhos dos anos 60/70 marchando no aniversário da Deitada-a-beira-do-mar
Mais um dia ensolarado por aqui. Venta um pouco de manhã, faz um friozinho, mas daqui a pouco o sol levanta e vai esquentar muito. Grandes nuvens se formam nas serras ao norte, rumo de Minas. Os passarinhos fazem uma feroz algazarra pelas arvores ao redor.
Vejo no meu telefone que o tempo em Antonina é nublado, com 50% de probabilidade de chuvas. A temperatura oscila pouco, entre confortáveis 19 e 23 graus. Será que vai ter desfile?
Quando era pequeno, esse era o terror dos dias 6 de novembro: será que vai chover? Se chovesse muito, o desfile do aniversário da cidade seria cancelado: como assim, não desfilar? A gente ensaiava um monte, noites e noites lá na caserna dos escoteiros, para que todos marchassem bonitinho, todos juntos, pé direito, pé esquerdo, num mesmo ritmo marcial. Se chovesse, como seria?
Nos meus anos de guri, todos se reuniam no coreto da praça: as escolas, as associações beneficentes, os escoteiros. Era um mundo, penso hoje, ainda tributário da era Vargas e daquele mundo protofascista das corporações. Mas, para nós, naquele tempo, isso não importava. Era uma festa. Todos estavam de roupas de festa. Nós, escoteiros, impecavelmente fardados.
No coreto, os discursos. Nem me lembro. A gente não ouvia direito, ou não entendia direito. Não devia ser coisa séria mesmo. Estávamos ali tentando ser marciais, brincando de soldadinhos. Lá em cima, o Prefeito, o Presidente da Câmara ou quem quer que fosse o orador, nada disso nos importava. Ficávamos vendo era quem chagava atrasado, quem havia esquecido alguma peça da farda, quem estava com o lenço arrumado, o bibico certo na cabeça.
Depois, vinha o desfile.
Os escoteiros abriam o desfile, marciais e garbosos o quanto podíamos ser marciais e garbosos aqueles meninos magros mal cabendo nas fardas. Na verdade, desfilávamos para nós mesmos e para nossas famílias. Sempre quando passávamos tinha um grupo que aplaudia um de nós, gritava o nome, batia palmas. Eram as famílias que estavam ali, enxergando-se naquele menino de farda um futuro e um passado.
Ficávamos sempre muito nervosos durante o desfile, de olho pra ver se estava tudo certo, se todos estavam de passo certo. Estávamos todos nervosíssimos até chegarmos ao Jequiti, onde o desfile terminava. Ali, quando nos dispersávamos, tínhamos uma outra tarefa: cuidar da “segurança” do desfile.
Armados de grossos bastões de madeira, ficávamos 1á frente da multidão para impedir que se atravessasse a pista do desfile, coisa que quase nunca acontecia. E ali ficávamos, marciais, “cuidando” do desfile das escolas e das associações. Era um prazer ter toda aquela responsabilidade. Lembro do orgulho que nós sentíamos por estar ali, fazendo parte das comemorações da cidade.
Acho que esta é a minha emoção mais marcante do dia 6 de novembro.
Faz muito tempo que não vou a um desfile do aniversário da Deitada-a-beira-do-mar (o deste ano é do 219º aniversário da elevação à vila, não é isso?). Aquelas lembranças são de um outro tempo, de uma outra cultura, de uma outra pessoa. Não sei como são os desfiles hoje, nem sei se teria paciência para assisti-los.
Sinto mesmo é uma grande e carinhosa lembrança de minha infância, de meus companheiros. Lembrança de um tempo que eu me sentia ligado profundamente a minha cidade e à sua gente. Por mais que me esforce, aquelas sensações aparecem para mim borradas como numa fotografia antiga.
Saudades, Capela! Saudades, Grupo Escoteiro Valle Porto de Antonina!