domingo, 15 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 3 - SURGE A PATRULHA TOURO

Anuncio no jornal O Dia, de Curitiba, informando o percurso dos "Itas" da Costeira, indo e vindo de Norte a Sul; 
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) são os escolhidos para compor a Patrulha Touro, que ira realizar a marcha até o Rio de Janeiro.)

Antonina era uma pequena cidade marítima, no estreito litoral do Paraná. Seu pequeno porto, porém, era muito bem situado. Localizado no fundo da baia de Paranaguá, estava no início da estrada da Graciosa, então o melhor caminho para o planalto. Enquanto a distância de Paranaguá a Curitiba era de 120 km, passando por rios e Serras altas, o caminho da graciosa, além de bonito, era o que oferecia o melhor custo benefício para os carroceiros e, depois, para os pequenos veículos a motor. O binômio porto mais próximo e a estrada da Graciosa constituía uma vantagem sensível para o comercio da Deitada-a-beira-do-mar. 

O porto de Paranaguá, uma das principais cidades do estado, também era um adversário terrível. Perdendo na questão geográfica, combateu com o estabelecimento de um novo modal de transporte como diferencial. Este diferencial seria a ligação do porto com a ferrovia. Paranaguá assumiu esta vantagem no final do século XIX, sendo o caminho final da linha férrea, inaugurada em 1885. Antonina, logo a seguir, emparelhava a disputa com o ramal ferroviário até a cidade de Morretes. Os dois portos, associados e concorrentes, eram pontos importantes do transporte marítimo de cabotagem do Rio de Janeiro para o sul do Brasil e mesmo para Uruguay e Argentina. 

Entretanto, a crescente malha ferroviária, embora muitas vezes parceira, também punha em xeque o transporte marítimo, principalmente no sul. A princípio, o trilho era um associado do transporte de cabotagem, fazendo ligações e encurtando distancias de maneira cooperativa. No entanto, com a chegada do automóvel, ameaçando a ferrovia, a cabotagem começou a rapidamente perder importância.
A década de 30 em Antonina foi um período de muito aperto econômico. Os velhos armazéns que antes controlavam o comércio da cidade com Curitiba e com os portos mais próximos, como Santos e Florianópolis, mudaram-se em sua maior parte para Paranaguá e Curitiba. O pequeno comércio local que não conseguiu se mudar da cidade e era dependente do sistema de cabotagem, começou a diminuir. Com a interrupção das atracagens da Costeira e do Loide na cidade, a situação começou a ficar desesperadora para estes comerciantes. Da mesma forma, os Sindicatos de Estivadores e os que trabalhavam nas firmas embarcadoras foram ainda mais duramente afetados. 

Não se sabe de onde veio a ideia de mandar os rapazes para o Rio. Mas, desde o início, a ideia pareceu boa. Estávamos vivendo no regime do Estado Novo, a Ditadura Varguista. O escotismo era um dos pilares de Vargas, assegurando o surgimento de uma juventude patriota e adestrada, fortemente associada ao regime. Uma vez que o destino das companhias de cabotagem estava em suas mãos, por que não quatro meninos a convencê-los? 

O grupo escoteiro Valle porto havia sido fundado havia três anos, em 1938. Era um grupo jovem, mas bastante organizado. Desde o início fortemente associado aos encontros escoteiros da região, possuía uma tropa bem treinada. Muitos destes escoteiros participaram nestes primeiros anos de diversos encontros de escoteiros em Joinville, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Era um grupo forte e motivado. 

Caminhadas também eram o forte do Grupo Escoteiro Valle Porto. Em maio de 1940, os escoteiros Rubens Nagorne Vieira, Lourival silva, Lydio dos Santos Cabreira e Alceu Pereira da Silva haviam participado de uma caminhada a pé de 82 km, ligando Antonina a Curitiba. Foi um feito notável. Este Raid, que era como se chamavam então este tipo de competição, foi o batismo da patrulha Touro. Esta foi, com algumas modificações, a patrulha encarregada da missão no Rio de Janeiro. 

Uma vez definido o grupo, foram reunidos na Patrulha Touro cinco rapazes que pudessem dar cabo da tarefa. A escolha, bem se pode imaginar, era a escolha de rapazes que tivessem experiência em caminhadas, em acampamentos, mas, que, também, pudessem agir como um grupo. Sem isso, a missão jamais poderia ter sido concluída com êxito. 

Quem eram estes rapazes?

sábado, 14 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 2 - PEGUEI UM ITA NO NORTE


O industrial Henrique Lage (1881-1941) e sua esposa Gabrielle Besanzoni (1888-1962). O drama pessoal do casal influenciou indiretamente a marcha dos escoteiros
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. Quais são as motivações da marcha dos escoteiros?)

Qual foi a motivação dos jovens escoteiros ao fazer esta tão grande e arriscada viagem?

O motivo era econômico, e tinha a ver com a sobrevivência do porto e da própria cidade. Na carta que estavam levando à Getúlio Vargas, os escoteiros pediam que fosse reaberto em Antonina o escritório da Companhia Costeira e do Loide Brasileiro, que haviam sido fechadas poucos meses antes. Estas eram importantes companhias de navegação que haviam pertencido ao industrial Henrique Lage (1881 – 1941). 

Filho de um importante industrial do ramo de carvão e dono de estaleiros, Henrique Lage estudou engenharia Naval nos Estados Unidos. Era um empresário extremamente dinâmico, e chegou a construir um verdadeiro império, envolvendo siderúrgicas, estaleiros e Companhias de navegação. Espreitando a oportunidade, Henrique Lage aproveitou-se da onda de substituição de importações no Brasil depois da 1ª Guerra mundial e fez fortuna vendendo navios em seu estaleiro na ilha do Vianna, em Niterói. 

Henrique Lage foi um capitão de indústria nacionalista e preocupado com o desenvolvimento nacional. Orgulhava-se de fabricar navios e mesmo aviões aqui mesmo no Brasil. Segundo se dizia, com um mínimo de peças importadas. Também foi o criador da primeira refinaria de sal brasileira, que fabricava a marca de Sal Ita, que existe até hoje.

Henrique Lage herdou do pai a companhia Costeira de Navegação. Era um resquício da antiga companhia Norton & Megaw, que fora nacionalizada nos primeiros tempos da República. Com o passar o tempo, a Costeira, junto com a companhia Loide brasileiro, foram as principais companhias de navegação do país. A Costeira tinha como características os navios que iniciavam seu nome com Ita, como Itagiba, Itaquera e Itassuci. Tamanha era a popularidade da Costeira, que Ita passou a significar para a população o mesmo que navio. Não por acaso, um dos grandes sucessos do início de carreira de Dorival Caymmi foi “peguei um Ita no Norte”. 

No entanto, depois de muito sucesso nos anos 20, nos anos 30 o império Henrique Lage começou a passar por dificuldades. A navegação de cabotagem passava por serias dificuldades, sentindo a competição do trem e do automóvel. Dependente de subsídios governamentais, as duas companhias estavam com sérios problemas financeiros. Em 1941, a comissão da marinha mercante aperta o cerco e suspende as subvenções pagas às companhias de navegação. 

Henrique Lage morre em junho de 1941. O governo Vargas começa a estender seus tentáculos para a companha, que é reestruturada. A viúva de Henrique Lage, a cantora lírica Italiana Gabriella Besanzoni, seria destituída logo a seguir. Para afastá-la da direção, o governo alega que a empresa só poderia ser dirigida por brasileiros. No ano seguinte, com a declaração de guerra as potencias do Eixo, as empresas seriam nacionalizadas. 

A Cidade de Antonina era muito dependente da navegação costeira, ou seja, da navegação de cabotagem. Com a reestruturação da companhia, os navios do Loide e da Costeira não chegariam mais na cidade, interrompendo os fluxos de comercio que a cidade mantinha. Alguma resposta tinha que vir. A resposta veio da Associação Comercial? Da Prefeitura? 

A solução, ainda que desesperada, veio do grupo de escoteiros.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 1 - INICIA-SE A NARRATIVA.


O escoteiro antoninense Milton Horibe entregando a Mensagem a Getúlio Vargas, em Petrópolis, fevereiro de 1942; uma grande epopéia tinha ali seu ponto máximo. 
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. Esta é a primeira de uma serie de postagens até o dia 5 de março, onde será contado o dia-a-dia da aventura. )

Poucas histórias sobre Antonina são tão cheias de ardor e espírito épico que a história da Marcha dos Escoteiros da Patrulha Touro, em 1941-42, a pé, de Antonina até o Rio de janeiro, perfazendo cerca de 1250 km. A aventura de quase três meses dos quatro rapazes viajando pelo Brasil para entregar uma carta ao Ditador Getúlio Vargas, em pleno Estado Novo, é, antes de mais nada, uma boa história. 

Dela, já se falou muito. Histórias correm, daqui pra lá de lá pra ali, sobre estas aventuras. Entrevistas, cerimonias comemorativas, textos em jornais e revistas (e mesmo dezenas de textos aqui neste blog modesto, mas honesto), assim como documentários mais ou menos teatralizados feitos para a televisão foram realizados. 

O texto dos diários do escoteiro Lídio Cabreira, digitalizado há mais de duas décadas, é a fonte principal. O que se pretende com esta serie de postagens é fazer uma cobertura a mais completa possível de toda a aventura, desde seus primeiros momentos em dezembro de 1941 até a volta triunfal dos rapazes para casa, em março de 1942.

Além de contar a história dos diários de Lídio, que são o fio condutor desta narrativa, foram acrescentados outros dados, como informações das cidades que os escoteiros passaram, muitas delas visitadas em anos recentes pelo autor destas linhas. Foram também realizadas pesquisas em jornais da época, principalmente os jornais do Rio e de São Paulo. Nelas, a aventura dos meninos está lá, ora como curiosidade, ora como espanto. 

Como todo relato, este é um relato incompleto. Faltam os originais do diário de Lídio, os quais poderiam trazer mais informações sobre a aventura. Faltam também mais documentação sobre os contatos entra a tropa Valle Porto, em Antonina, e a União dos escoteiros do Brasil, no Rio de Janeiro. Faltam mesmo documentação da própria UEB, que nunca reconheceu de maneira categórica a marcha dos escoteiros antoninenses como uma das maiores façanhas do escotismo brasileiro. 

A cidade de Antonina, nossa querida Deitada-a-beira-do-mar, sempre soube reconhecer os feitos dos rapazes. Muitas homenagens já foram feitas. Milton Horibe, o escoteiro de 1ª classe, e que foi o responsável pelo destino de entregar a carta a Getúlio Vargas, é nome de rua em sua terra. 

Uma história pode ser contada de vários jeitos. É o que costumamos chamar, neste nosso tempo tão difícil, de narrativa. Este é um convite. Convido a todos meus amigos e leitores deste blog a seguir esta história, que iremos contar aqui, ao longo dos próximos meses.

domingo, 1 de setembro de 2019

URUBLUES 100 MIL VISUALIZAÇÕES!!

print de hoje, quando passamos das 100.000 visualizações!! Obrigado a todxs!!

ANO NOVO EM ITAPETININGA


Quartel do 5º BC de Itapetininga, onde os rapazes ficaram na véspera de ano novo de 1942
As 6:00 da manhã os meninos partiram de Gramadinho, com destino a Itapetininga. Agora, a estrada era mais plana, com uma paisagem marcada por morros suaves. Era tão plano que as maiores elevações eram as arvores e capões de mato, circundadas por casas de fazenda. A estrada seguia cercada de grandes pés de eucalipto, que tornavam a paisagem mais tranquila e fácil de percorrer. Ao redor, sucediam-se grandes plantações a fazendas de gado.
Os rapazes também estavam mais acostumados com a caminhada, que se fazia sem maiores esforços. Já não sentiam tanto esgotamento físico. Somente no fim do dia batia um certo cansaço. E foi lá pelas 16 horas que eles chegaram em Itapetininga.
Itapetininga era sede do 5º batalhão de caçadores, o 5º BC, onde os meninos procuraram alojamento. Milton e Lídio já conheciam o quartel do 5º BC, em janeiro de 1940, vindo de um encontro escoteiro em São Paulo, os dois ali estiveram, pois havia a ideia de um grupo escoteiro na cidade, que acabou não vingando.
No quartel, foram recebidos pelo comandante, o tenente-coronel Orlando Werney Campello, que os tratou muito bem. O Tenente-coronel contou-lhes que na mocidade também tinha sido escoteiro, o que os deixou bem felizes. E os alojou numa das companhias do batalhão, onde deixaram as tralhas e entraram na fila do rango.
Depois do rango, os rapazes foram procurar o prefeito da cidade, para que assinasse o livro de passagem. No entanto, o que chamou atenção dos rapazes foi uma festa religiosa. Era a festa de Nossa Senhora Aparecida do Sul, padroeira da cidade.
Segundo Lídio nos conta em seu diário, era uma festa muito grande. Não faltaram romeiros, animados por cinco bandas de música e muitas barracas de comida. Na hora da festa, a igreja matriz foi iluminada por centenas de lâmpadas elétricas, que impressionou bastante os rapazes.
Lá pelas onze da noite, os rapazes voltaram ao quartel, para esperar a chegada do ano novo. Deitados nas camas, os cinco rapazes escutaram a grande festa de fogos e de repique de sinos e apito das fábricas saudando o ano de 1942 que se iniciava.
No entanto, naquele momento, segundo anotou Lídio em seu diário, todos os cinco estavam quietos, deitados em suas camas de quartel e pensando nos seus familiares lá, na cada vez mais distante Antonina. 

sábado, 24 de agosto de 2019

A AMAZONIA E A IRRESPONSABLIDADE DO GOVERNO BOLSONARO


O tuite de Macron: ontem, como hoje, a Amazonia está em chamas: qual a diferença?
Vivemos mesmo numa época muito estranha.
Esta semana, que começou com as nuvens negras escurecendo o céu do sudeste do Brasil, assustando a todos com as queimadas na Amazônia, terminou com o governo Bolsonaro acuado e desdizendo-se frente a ameaça internacional.
A tragédia continua se desenrolando, agora em tom de drama, com pinceladas de farsa. Com a reação internacional se avolumando, Bolsonaro faz mais do mesmo. Como o moleque de 12 anos que continua sendo, não levou desaforo pra casa. Se o xingam, ele devolve: “é a tua!”. Assim, protagonizou nestas últimas semanas diversos bate-bocas sobre temas ambientais com representantes de diversos países, sobretudo europeus.
O filhinho, candidato a ser diplomata, seguiu o papai, compartilhando um tuite que chamava o presidente da França de "idiota". “É a tua! Mexeu com papai, mexeu comigo!”. Depois, diante de vozes que o chamavam a razão, dizendo ser sua atitude incompatível com a de um pretendente a cargo de diplomata, ele recuou, como sempre faz o papi. Não, não foi bem assim, não quis dizer isso...
Assisti diversas manifestações da formadores de opinião na imprensa brasileira. Da esgotosfera das redes socais nem falo, por pudor. Outrossim, como diz um importante influencer moderno, é incrível ver as piruetas que os setores conservadores que ainda apoiam Bolsonaro fazem para contornar a caca que foi criada. 
A imprensa alinhada a Bolsonaro passou o dia reclamando da imagem antiga da foto que Macron colocou em seu tuite. Como que se para redimir da foto de dinamarqueses matando baleias que dias antes estava o próprio Jair  atribuindo a noruegueses. Ela, a imprensa bolsonarista, repetiu as platitudes sobre o alto grau de preservação das florestas do Brasil e atacando a mídia “globalista”. Citam estatísticas as mais variadas para provar que o repique da destruição da floresta não é tão grande assim.
Para começar: está certíssima Marina Silva, ao dizer que sempre houve desmatamento e queimada na Amazônia. Não é disso que se trata. O problema, e concordo com ela, é que estamos no limiar de um recrudescimento das ameaças a florestas, com o apoio nada velado do poder público.
Não vai ter nenhum vídeo de Jair botando fogo na mata, como um Nero caipira.
Entretanto, em abril deste ano, a pedido do presidente, o governo proibiu de queimar as maquinas apreendidas aos madeireiros pelos funcionários do IBAMA em Rondônia. Ao contrário, o próprio ministro do meio ambiente, o condenado por crimes ambientais Ricardo Salles, se reuniu com madeireiros para dar garantias de que o governo ia relativizar as apreensões, dando a certeza de sua impunidade.
O fiscal do IBAMA que multou Bolsonaro em 2012 foi afastado de suas funções e a multa que ele aplicou ao então deputado foi cancelada, para escárnio da lei.
O desmantelamento do aparato fiscalizatório desde janeiro é obvio. As falas e ações de Ricardo Salles no sentido de desmontar os órgãos de fiscalização e não punir crimes ambientais é patente. Sua determinação de “compensar”ruralistas com o dinheiro do fundo Amazônia provocou o colapso que se viu, até que os governos de Alemanha e Noruega retiraram seus repasses.
Quando o INPE informou que o desmatamento estava aumentando, o que o governo faz? Desmente e desacredita os dados. O presidente do INPE, Ricardo Galvão, defende a integridade dos dados do Instituto, e é demitido.
São tantos os sinais que, mesmo não dizendo, é fácil concluir que foi o próprio governo que incentivou o fogo na mata. O agora famoso jornal da cidade de Novo Progresso, no Pará, reclama do descaso governamental e clama ao presidente solução para os problemas dos fazendeiros. Numa terra sem lei, com os fiscais manietados e amordaçados, e sem os soldados da Força Nacional que os amparasse, os fazendeiros se sentiram livres para promover o criminoso “dia do fogo”, em 10 de agosto último. As chamas das queimadas foram detectadas pelos satélites de todo o mundo.
Com a "segunda feira negra" no Sudeste, a grita aumentou. São Paulo começou a entender o que acontecia com Boa Vista. O fogo e as queimadas ardiam no coração do continente, atingindo não só o Brasil, mas também Paraguai e Bolívia.
O governo faz de conta que não é com ele. “Sensacionalismo”,rebateu Ricardo Salles. No meio de seu terraplanismo mental, Jair acusou as ONGs de colocar fogo para incriminar o governo. “Perderam milhões, e agora podem estar se vingando”, disse aos jornalistas.
Foi quando o mundo se postou frente a ameaça que o governo acusou o golpe. Depois de bater boca com Macron, Bolsonaro teve que fazer um pronunciamento em rede pública de televisão para se explicar. E levar seu primeiro grande panelaço nacional. Nervoso ao ler o teleprompter (ele tem problemas cognitivos para fazê-lo, como se sabe), foi cômico ver Jair defendendo a "froresta" amazônica, a Lei Ambiental brasileira (“uma das mais avançadas do Mundo”, disse ele, com a boca contraída), acusando o clima seco da estação com culpado e fazendo uma defesa pífia e nacionalisteira de uma região que meses antes ele quase oferecera de graça à Donald Trump.
A única coisa de concreto, e a única coisa que sabe fazer, foi enviar o exército para a região (onde, exatamente?) numa operação de garantia da lei e da ordem. Melhor seria se estivesse enviando bombeiros...
Enquanto isso, a Amazônia continua ardendo. Os conflitos estão todos lá, com um governo reclamando do fogo (literal e metafórico) que ele mesmo ajudou a atear. A conta da irresponsabilidade mais cedo ou mais tarde, vai chegar para todos nós, brasileiros. 
Quais os planos para sair dessa enrascada? Ajuda aí, Adélio!!
[agora, é só esperar os bots (virtuais e de carne e osso) que vão vir desqualificar algum dado ou alguém]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A ESCURIDÃO AVANÇA (E TEM GENTE QUE NÃO QUER VER)


https://glo.bo/2MpalWZ
Está escuro lá fora. O dia passou assim, com muito vento e nebulosidade. Tudo escuro. O sol mal apareceu hoje de manhã. Por um instante eu o confundi com a Lua, mas não! Era ele, o sol, tentando escapar por entre as nuvens!
Fui correndo pegar o telefone pra fazer uma foto. Quando fui tirar as fotos, vi algumas fuligens caindo. Fuligem, pequenos pedaços carbonizados, em geral de folhas. Um dos pedaços tinha alguns centímetros de tamanho. Deve ser de algum incêndio grande por aqui por perto. Há alguns anos tinha mais fuligem, em geral folhas de cana queimada que caiam do céu. Esta fuligem diminuiu bastante depois que a fiscalização ambiental proibiu a queima da cana...fiscais do meio ambiente? O que tem a ver com o dia escuro?
Tendo o que ver, ou não, o dia inteiro passou assim: céu escuro, vento frio e ameaça de chuva. Aqui em Campinas, demora pra chover. Estamos no meio da estação seca. Só as frentes frias mais fortes passam. Hoje, as nuvens se concentravam ora num, ora noutro ponto do céu. De lá pra cá e de cá pra lá, sempre cinza escuras, ameaçadoras;
No supermercado, as luzes estavam acesas no meio da tarde. Fiz as compras pensando que estava anoitecendo, mas eram 4 da tarde. O resto do dia passou assim.
Agora à noite, quando começou uma chuvinha mais fraca, um cheiro forte de queimado tomou conta da casa. Dei uma vistoria olhando tomadas, vendo se haviam esquecido algo ligado. Nada. Eram as queimadas ao meu redor, como atestavam as partículas de fuligem caindo do céu.
Entretanto, uma coisa chamou a atenção de todos (e a minha também). O país está em chamas há quinze dias. Desde o tal “dia de fogo” dos fazendeiros de Novo Progresso, no Pará, o país está em chamas. Rondônia arde em chamas. A Bolívia e o Paraguai também. Os satélites apontam a concentração de nuvens.
Nos diferentes satélites, das mais diversas agênciasespaciais, a América do Sul está laranja, com seu coração em preto e vermelho. Não, nada de rubro-negrismo nessa hora. Trata-se da concentração de CO atmosférico. Do Acre até o vale do Paranapanema, uma mancha escura toma conta do continente. E, mais esmaecida, se estende pelo Atlântico.
Vejo que em Londrina, no extremo sul da mancha, a concentração está em 419 ppbv no site do windy.com. No norte do Paraguai a grande mancha vermelha varia entre 2000 a 5000 ppbv de CO. As manchas em Novo Progresso (PA) estão em 519 ppbv de CO.
A América do Sul está pegando fogo. Lá no coração.
Nada disso, entretanto, tem a ver com a escuridão dos céus do sudeste brasileiro hoje. Segundo o INPE - e eu acredito no INPE, a escuridão foi causada por uma frente fria (Não é um acreditar religioso, percebam. Acredito no INPE porque o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) trabalha com dados robustos de tempo/Clima e tem uma grande equipe de cientistas que interpretam estes dados).
Seja fogo ou seja frente fria, o que mais chamou atenção hoje, no entanto, foi que o dia pareceu noite. Como na metáfora.
A escuridão metafórica (também) avança. E tem gente que não quer ver.  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

BOLSONARO, O CACHORRO E O CAMINHÃO


O governo Bolsonaro parece com aquela história do cachorro e do caminhão. Sabe aquela história que quando a gente passa e o cachorro late late,  late, corre atrás dos carros, feroz? Se por acaso a gente pára o carro o cachorro também para. Porque ele não tem outro objetivo senão correr atrás do carro.


O governo Bolsonaro é exatamente esta historia, entre o cachorro e o caminhão. Qual era o seu objetivo? Parece, ao final de contas que o bolsonarismo queria: 1) Derrotar o PT; 2) A liberação das Armas e 3)Acabar com as multas dele (Bozo) no Transito e no Meio Ambiente. Nesta lista, pode ter  mais alguma outra coisa aqui e ali. Pode estar incluido, por exemplo, o fim do horário de verão e a mudança dos nomes no passaporte.
O governo tinha intenção de fazer a tal reforma da Previdência, dirão alguns. Mais ou menos, não é? A tal Reforma acabou aprovada, embora o governo tivesse atrapalhado bastante, segundo seus próprios aliados. Como disse recentemente um cientista politico, Bolsonaro gastou todos seus cartuchos numa só votação. E nas outras por vir, nos três anos e meio de governo?

E o resto das coisas? o resto ele está terceirizando para o tal Posto Ipiranga. O que se vai fazer com Educação? com Saúde? tudo indica que ele e seus ministros só sabem destruir e destruir, sem colocar nada no lugar. 
E na nossa posição no Mundo? Em termos mais amplos, muito além dos conversê de levar seu filho, aquele que fritou hambúrguer, para o posto de embaixador no EUA, Bolsonaro não sabe para que lado amarrar seu burro (?) nestes momentos de crise. 
Em tempos de rápida ascensão das potencias regionais, como a China, que ameaça em menos de dez anos se tornar a maior economia do mundo, Bolsonaro se amarra caninamente à Trump. 
Enquanto Pequim e Moscou se unem aos indianos para montar um super bloco que vai desafiar os Estados Unidos, Trump tenta tirar alguma vantagem. Briga aqui e ali para conversar com Kim. Kim é aliado do Pequim. Tem interesses, junto com os coreanos do sul, em participar das rotas da Silk Road. 
A China já está desbancando tecnologicamente os Estados Unidos. Nas outras áreas é uma questão de tempo. Trump tenta fazer falta, catimbar o jogo, mas ao que tudo indica, com ele ou sem ele, os Estados Unidos estão saindo fora do Z4. 
E Bolsonaro?
Alijado das conversas dos BRICS e sem entender patavina do que está se passando, ele está olhando pra rua, esperando passar o próximo caminhão.

domingo, 30 de junho de 2019

O DIABO NA TERRA DE VALE PORTO


foto: Eduardo Nascimento
Já faz algum tempo que o Sete-Peles mora em Antonina. Alguns dizem que ele sempre morou ali, “por isso Antonina não vai pra frente”. Outros acham que não, ele veio pra cá nos anos 90, quando houve o último suspiro do Porto. Ou que ele veio num destes Festivais de Inverno, gostou e ficou. Ou foi num carnaval? Eu nem sei dizer...
O que se sabe é que ele sempre evitou morar no centro, tão cheio de pecados e pecadores. Procurou casa no Batel, na Pita, a acabou morando uns tempos no Jardim Maria Luiza, num sobrado alugado. Depois, mudou-se para a Graciosa de Cima, onde mora num terreno estreito e com uma vista divina (?) para o mar e para as Serras.
O Capiroto é um senhor branco, classe média, de meia idade. Um homem de bem, de hábitos simples e metódicos. Todo dia de manhã bem cedo sai passear com seu cão preto e peludo, desce até a praça da Feira-mar, passa diante do Casarão dos Macedo chega até o belvedere da Matriz e, depois, volta pra casa. Outras vezes, mais animado, vai pelo Tucunduva e dá a volta no Morro do Bom Brinquedo, voltando pelo Batel.
O Coisa-ruim frequenta as missas na matriz, assim como assiste as celebrações especiais na igreja do Bom Jesus do Saivá. Também frequenta as igrejas protestantes tradicionais e as neopentecostais. Há quem diga que o viu num terreiro de Umbanda, mas acho que é maledicência.
Já foi convidado pra entrar no partido tal ou qual, ou sair pra candidato a vereador por diversos partidos. Até pra vice-prefeito foi sondado. A todos, o Grão-tinhoso explica que não gosta de política, e que prefere viver assim, quieto, no seu canto. Os políticos saem cabisbaixos de sua casa.
Ao que se saiba o Bode Preto nunca brigou com os vizinhos por causa de muros ou cercas. Também é bem silencioso e não incomoda ninguém com gritos ou música alta. Vive sozinho, com o seu cão preto. É recatado, e ninguém nunca o viu botando ninguém pra dentro de casa, seja mulher ou seja homem.
Ou seja, não é um antoninense comum. As pessoas na doce Deitada-a-beira-do-mar seguem pela vida barulhentas, brigonas, intempestivas, reclamando do vizinho, da prefeitura, da chuva. Falam do carro novo do vereador, da reforma na casa do assessor da prefeitura, do vizinho, do cunhado, dos buracos na rua, dos matos nas calçadas.
De noite, estão nas igrejas rezando ou no bar bebendo. Os da igreja acreditando na perdição dos que estão no bar e os do bar vendo afundar-se a vida dos que estão na igreja. Ao se encontrarem nas esquinas falam de coisas graves e sérias. Como sobre a corrupção dos outros e, sobretudo, concordam que são todos, os da igreja e os do bar, autênticos homens de bem.
Estes tempos, estava na terrinha, conversando e tomando um chopp com um amigo querido, na pizzaria ali no final da Avenida do Samba. Questionei o fato de o diabo estar entre nós. Meu amigo disse não se importar. “Ele não incomoda ninguém, paga o IPTU regularmente”, me disse ele.
Mas e o mal? Ele não é o mal? Perguntei. Este meu amigo, cínico e divertido como só um bom capelista pode ser, me olhou e disse: “Pára, Jeffinho!”. Sorriu, deu um gole no Chopp e continuou: “o mal não está nele, está em você. Você é que vê o mal nele”. Tive que concordar.
E ele continuou: “fico feliz de ele morar aqui, em Antonina, perto da gente. Você vê ele cada vez que sai pra passear. Ele é o nosso metro. Como ele é culpado de tudo, podemos continuar a viver como vivemos”.  “E isso é bom?”, perguntei. Meu amigo me olhou com ares de dúvida: “Sinceramente, não sei, é assim que vivemos. Não é?”
Concordei com ele. Meu chopp estava esquentando. Dei um gole e fiquei olhando as mariposas a rodar ao redor das lâmpadas da rua. Os paralelepípedos estavam brilhando por causa da última chuva que tinha caído, fazia alguns minutos. 

sábado, 15 de junho de 2019

A NEVE EM ESTES PARK - Diarios (norte)americanos 5


As montanhas, próximo do Parque Nacional das Rochosas, Colorado
No domingo, tinha uma saída de campo, relacionada ao simpósio que estou participando. Iriamos conhecer algumas áreas ao redor que tinham sofrido com fluxos de detritos. E era nas Rochosas!  Estava tão feliz e ansioso em fazer a tal saída de campo, que me atrapalhei um pouco. Estava preocupado em perder a hora. Fico sempre preocupado em ficar preocupado com a hora. E, em geral, quando isso acontece, eu perco o sono.
Entretanto, desta vez estava cansado da longa viagem de avião, e tinha outra coisa a meu favor: uma diferença de três horas a mais. Pude descansar o suficiente e ainda chegar a tempo.  A saída era nos fundos da grande casa dos estudantes, que se chama Ben Parker Center. Trata-se de um prédio grande e que funciona como um centro de conferências. No térreo, tem ainda uma autêntica loja de departamentos que vende produtos da marca Colorado School of Mines.
Quando cheguei lá no ponto de encontro da excursão, tinha uma verdadeira legião estrangeira. No caminho, havia conhecido um professor italiano, muito simpático. Conheci também um professor coreano, e conversamos bastante. Quando todos chegaram, os anfitriões americanos nos colocaram no ônibus para partir.
Era interessante o caldo de gente naquele ônibus: ceilandeses, japoneses, coreanos, taiwaneses, neozelandeses, ingleses, suíços, americanos e, é claro, um brasileiro.  Todos especialistas em fluxos de detritos.
A viagem foi muito interessante. Começamos pela cidade de Boulder, que sofreu com diversos escorregamentos em 2013. Nada que meus conterrâneos antoninenses não saibam. Foi bastante feio, com muita destruição, embora não tivessem sofrido perda de vidas.  Alguns lugares, como vimos mais adiante na cidade de Lyon, ainda estavam reconstruindo suas casas, cinco anos depois do acidente.
Golden e Boulder estão a cerda de 1700 m de altura, no platô do Colorado. É uma área muito plana. E onde está a maior parte da região metropolitana de Denver. Depois, vem uma pequena linha de morros, o Front range. Muito interessante porque existem várias camadas de rocha com mergulho alto (os hog-backs) que tornam a paisagem mais bonita. E, depois do Front Range, começa a montanha propriamente dita.
Foi um dos campos mais bonitos que já tive. As montanhas maravilhosas e nevadas, cheias de charme e beleza. Não é preciso dizer que estava um frio danado e as roupas que levei deram pro gasto, mas estava frio.
As montanhas eram nevadas ou pedregosas. Mas, na encosta, eram comuns os pinheiros, que desciam até as pequenas planícies. Aqui e ali, nestas planícies no meio do parque, viam-se manadas de cervos pastando tranquilamente. Quase sempre eram bandos de fêmeas e machos jovens, pastando na grama verde do fim da primavera. Coisa bonita de se ver.
Almoçamos numa antiga estação de esqui. a estação de Estes Park funcionou de 1940 a 1992, quando parou por não ter mais neve. Tem gente por aí que ainda acha que há um aquecimento global e que existem indícios que o clima está mudando. O Estes Park é um sinal disso.
Aqui e ali, nas encostas do Estes Park, nas drenagens e entre os pinheiros, havia umas manchas brancas. Algumas estavam meio sujas, visas de longe. Fiquei intrigado. Fui lá ver. Era gelo, com as bordas já derretidas, e que era como uma areia grossa na mão. 
Perguntei aos colegas ali ao lado se era neve. Eles se espantaram comigo porque eu não conhecia neve, e eu fiquei com um pouco de vergonha. Logo desfiquei. Afinal, não conhecia a neve mesmo...No entanto, uma coisa é certa: com vergonha ou sem vergonha, foi meu primeiro contato com a neve. Voltei para o ônibus bem feliz.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

UMA TARDE EM GOLDEN - Diários (norte) americanos 4


Feirinha semanal de produtos naturais em Golden; ao fundo, as capas de basalto mesozoico, parecendo muralhas;
Depois de alguns contratempos, consegui achar o alojamento estudantil da Colorado School of Mines, onde me encontro agora. A princípio, ninguém dos meninos na recepção do campus sabia do que se tratava. Foi uma pesquisadora que estava por ali, a Nicole, que tratou de me levar ao alojamento. Viva Nicole! Agora, finalmente, estou em casa em Golden.
No dia seguinte, sai para conhecer o campus da Colorado School of Mines. É um campus muito bonito, e bastante grande.  Tem várias e várias quadras, bem típica do que se conhece dos campi americanos, com prédios,  grama e ruas arborizadas e tranquilas. Dispersos pelas quadras, estão prédios de vários institutos. Achei o prédio da Engenharia de Minas, que é o carro chefe da escola, e o prédio da Geologia e da Química. Tem também a sede local do Serviço Geológico Americano, o USGS.
Aqui, pelo que me falou Frances Renger, geólogo do USGS, aqui em Golden trabalha uma equipe de cerca de 100 pessoas que é responsável pela parte de escorregamentos – que é o motivo do simpósio para o qual estou aqui – e um centro de estudos de terremotos, referência no país. O USGS é uma das grandes referencias mundiais da geologia.
A missão do USGS, gravada no seu logo, diz tudo: Ciência para um mundo em transformação. Pra nós, na insondável e elegível burrice que nos assola, parece coisa de outro mundo. Estamos, no Brasil, destruindo literalmente nossos serviços geológicos. Fazendo conhecimento virar pó. Por aqui, com Trump e com tudo, o USGS tem trabalhos técnicos em diversas áreas, inclusive em educação. E tem um papel importante nas decisões do governo federal relativas à geologia e ao meio ambiente. 
O campus da Colorado School of Mines é todo gramado e arborizado, limpinho e cheio de esculturas. Algumas de bom gosto, outras nem tanto. Tem prédios desde 1874, quando a escola foi fundada, até prédios modernos ainda em construção (só pra lembrar: nossa mais antiga escola de minas, a Escola de Minas de Ouro Preto, é de 1876). 

Alguns destes edifícios mais antigos apresentam na fachada colunas coríntias cheias de adornos e enfeites. Em geral, não gosto muito destas fachadas grandiosas, barrocas. Entretanto, os estilos são os mais diversos, desde o neoclássico mais feioso até o moderno mais esquisito. Outros, que parecem ser dos anos 80 parecem os nossos indefectíveis “pinotinhos”, só que mais grandiosos.
Saí para andar pela cidade de Golden. Ela é muito limpinha e organizada. Ruas que se cruzam em ângulo reto, fachadas meio feiosas, mas charmosas, lembrando o estilo velho oeste. Nas calçadas e nas casas, inúmeras decorações com um arenito vermelho muito característico da cidade. Na avenida Washington há uma grande instalação com as inscrições “Welcome to Golden”. De tão brega até parece bonita.
Logo depois, cruza-se a ponte do Clear Creek. É um rio de montanha, com forte correnteza e cheio de blocos de pedra. De rocha, perdão! A água não está muito clara, apesar do nome do rio.  Nesta época do ano, uma época chuvosa nas montanhas, o degelo ainda está operando forte. Logo, a água tem uma cor vermelho sujo.
Era um sábado ensolarado. Havia uma feirinha de produtos naturais num espaço aberto. Barraquinhas organizadas, vendendo desde frutas (poucas), verduras e legumes orgânicos, além de pães de todos os tipos. Não vi comida mexicana. E ainda haviam barraquinhas de mel, artesanatos, produtos esotéricos. Tudo o que uma feirinha tem direito. Bem limpinha e arrumadinha. 
Havia muita gente no parque, ao longo do rio. Gente passeando com cachorro, de bicicleta, a pé. Famílias, casais, grupos de amigos. Um grupo de bombeiros (acho que voluntários), todos de camiseta vermelha, estavam tendo alguma espécie de aula de campo observando o Clear Creek e sua correnteza. Mais acima, havia pessoas fazendo boia cross e canoagem. Um destes fazia proezas admiráveis com seu pequeno caiaque, numa pequena queda do rio, mantendo-se sempre no lugar e dando cambalhotas, virando de um lado para outro. Muita gente parou para ver. Eu incluído.
O entorno da cidade, que fica numa vale, é composto por grandes muralhas de basalto. Uma delas se destaca, por parecer uma pequena mesa. Dão um toque geológico especial para a pequena Golden, tão ligada á geologia e à história da mineração.
A tarde estava bonita, mas eu precisava descansar. O dia seguinte seria intenso, com a nossa excursão para as rochosas, para ver os grandes fluxos de detritos por lá. Voltei para o alojamento e procurei dormir o sono dos justos. Justamente.  

segunda-feira, 10 de junho de 2019

OS CÉUS DE DENVER - Diários (norte)americanos 3


briga de nuvens no céu de Denver, Colorado
Para quem estava apreensivo com a viagem até Denver, tudo correu direitinho. Fui um dos últimos a entrar, depois de ser chamado e verificado pelos funcionários da companhia aérea. Depois de olhar tudo, listagens, cartões de embarque e passaporte, me colocaram na rampa de acesso com um “nice trip, Mr Picano!”. Não perdi tempo, e corri para o avião.
O voo para Denver foi tranquilo. Espremido entre dois adolescentes, que só tinham olhos e ouvidos e tudo o mais que que se queira para seus celulares, fiz uma viagem tranquila, lendo meu livrinho e vendo umas comédias no avião.
A paisagem era monótona, uma grande planície que se estendia até onde a vista alcançava. Ao redor de Dallas não se via muitos sinais de agricultura. Só mesmo perto de Denver é que o ambiente ficou mais verde. Era uma grande colcha de retalhos com quadrados ora mais ora menos verdes e alguns circulares, por conta dos pivôs de irrigação.
Quando o avião virou pra aterrissar é que vi pela primeira vez as Rochosas. Um espetáculo fascinante, uma grande barreira azulada ao fundo, onde termina a grande planície. Aqui e ali, alguns picos nevados. Picos nevados dão uma sensação diferente e bonita, principalmente quando você está de longe.
Ao chegar no aeroporto de Denver, fui direto pegar minha mala. Estava apreensivo, pois não sabia direito se ia achá-la ou não. Já ouvi histórias terríveis de extravios de malas em aeroportos americanos. Quando eu entrei no salão de despacho de bagagens eu já estava pensando em como ia ficar vários dias com a roupa do corpo.
Minha mala, com alça, estava paradinha no corredor, lado a lado com outras malas de outras pessoas que devem ter se perdido em algum lugar. A pessoa se perde, mas a mala não. Não tinha ninguém ali pra me exigir o ticket. Peguei a mala e fui embora.
Demorei um pouco pra me entender com a máquina que vendia os bilhetes de trem. Se não fosse a intervenção do guardinha da estação, não teria conseguido. Me senti um analfabeto funcional. Mas o guardinha me tranquilizou: “essas maquinas são malucas mesmo. Ninguém entende o que elas querem”. Agradeci e fui embora.
O resto da viagem foi tranquilo. Peguei um trem até o centro de Denver, e com o mesmo bilhete, que ninguém me cobrou, cheguei até a cidade de Golden, onde estou agora. Nós, brasileiros, em geral nos espantamos com essas coisas. Pensando na nossa situação, dá uma sensação de falência da nossa cultura. Quando vamos ter coisas controladas pela nossa confiança mútua?
O céu estava limpo, mas logo nublou com as nuvens vindo das cordilheiras nevadas. O céu de Denver era um céu azul bonito, de verão. Lembrei-me até dos versos de Mário Quintana sobre os belos céus azuis de Porto Alegre. Aqui e ali, algumas nuvens fofas e gordinhas da estação. Logo o céu, que parecia ter um pé direito muito mais alto, nublou com a chegada das nuvens de chuva. Uma chuva de verão, cheia de vento e com alguns raios aqui e ali.
Protegido pelo vidro do trem, foi bonito ver a chegada daquela chuva. Lembrei até de um dia de infância, na janela de minha casa de Antonina, vendo uma forte tempestade de verão chegar, junto com minha tia Zila.
Era assustador o negrume da chuva, e o vento que ela trazia. Tia Zila me confortou, me fazendo ver que era o poder da natureza. E ele era bonito e não assustador. A forte tempestade de verão passou, como todas passam. No entanto, sua passagem me deixou feliz e não mais assustado com seu poder. Passei a mostrar para meus filhos a chuva que chegava, segundo os mesmos princípios de beleza e força. Nenhum deles se tornou meteorologista, mas acho que hoje enfrentam chuvas numa boa, sem medo.
Logo peguei o trem para Golden, na bela estação central de Denver. Toda remodelada, ela é bem bonita e merece mais que um reles translado. É uma estação do século passado, bem grande, que foi recentemente reformada e está cheia de lojas cafés e livrarias. mas fui pegar meu trem.
À medida que o trem chegava perto de Golden, a chuva e as montanhas ficavam mais perto. É um trajeto bem bonito e bem rápido. Na beira da estrada existem diversos conjuntos residenciais de tijolinho vermelho aparente, lembrando as vilas inglesas,  de casas todas iguais. Até os condomínios de prédios baixos tem esse formato.
O trem finalmente nos deixou num grande complexo de prédios, que compreendem o Distrito do condado de Jefferson, ao qual pertence a cidade de Golden. Sim, o nome é esse e eu fiquei procurando umas placas para tirar selfie com meu nome. Mas o ônibus chegou antes. Estava próximo ao meu destino.

domingo, 9 de junho de 2019

CORRER EM AEROPORTO - Diários (norte)americanos, 2 (a missão)



Odeio correr em aeroporto. Detesto. Convenhamos, não é o melhor lugar pra correr. Está mais para o estresse que para a saúde. Correr no aeroporto é correr num lugar cheio de gente, cheio de pisos diferentes, escadas, escadas rolantes, um infindável número de quiosques de coisas no seu caminho. E temos que correr.
Em geral, não é uma corrida simples. Além de ser uma corrida de obstáculos, você ainda está carregando alguma coisa. Uma mala, uma mochila, um pacote com o presente que você comprou para alguém querido, suas blusas de lã...a lista é infindável.
Já fui bom de corrida. Tive tempos memoráveis antes de meus joelhos me traírem. Hoje, correr é praticamente só no aeroporto. E eu detesto. Correr contra todos os que estão no seu caminho, tenham eles culpa ou não de estar na sua frente. Nunca tem nem nunca terão culpa, exceto os distraídos crônicos, dentre os quais me incluo. Correr contra o tempo, correr para pegar um check in aberto, correr para não perder o voo. Correr pra alguma coisa que vai acontecer e você não tem tempo.
Ontem, quando entrei nos Estados Unidos, entrei por Dallas. Passei por toda a parafernália da imigração. As entrevistas até nem são muito complicadas, e o pessoal se mostrou atencioso. O problema é passar pelos tais detectores. Tive que, como todos, tirar os sapatos, os cintos, estripar a mochila e abrir tudo. Esvaziar os bolsos, colocar tudo para fora.
Dentro daquele escâner de gente, é você praticamente como veio ao mundo, tirando algumas roupas por cima. Fiquei com medo. E se o escâner mostrasse quem eu sou? Quem eu realmente sou? Anos e anos de análise e terapia (freudiana e lacaniana), de meditações, de conversas profundas e discussões de relacionamento – vou encontrar quem eu sou no escâner de um aeroporto no Texas? Bizarro.
Depois, de passar pelo escâner, tive que correr. Fiz de tudo para não correr, mas meu voo estava ora num canto ora no outro, e fiquei perdido entre os balcões de embarque. Quando eu achei, foi depois de uma maratona e uma meia maratona e mais o complemento de uns 100 metros rasos com um “peixinho” na chegada. No entanto, apesar de todo este esforço, perdi meu voo.
A funcionária do balcão da companhia aérea não deu muita bola para meu sofrimento. Não teve qualquer pressa em fazer suas funções. Cada coisa a seu tempo, “no rush”. Entretanto, apesar de sua cara de poucos amigos, Cindi (era o nome no crachá) me deu uma outra possibilidade. Um voo no outro terminal. Outra viagem dentro do aeroporto. Trem, escadas rolantes, corredores imensos e vazios. Aqui estou. Espero nunca mais correr em aeroportos.
Estou aqui, em outro guichê, em outra espera, cheio de gente ansiosa ao meu redor. Eu tento esconder minha ansiedade. Mas estou ansioso. Será que vou conseguir embarcar? Será que vou ficar por aqui pra sempre, como aquele filme do Tom Hanks? Menos, Jeffinho, menos...
Só fico pensando na minha mala, que já despachei...será que um dia vamos nos encontrar?

sexta-feira, 7 de junho de 2019

FAZER A AMÉRICA - Diarios (Norte) Americanos 1

https://bit.ly/2XyHqBI
Estou escrevendo do aeroporto de Guarulhos, enquanto aguardo um voo para Denver, nos Estados Unidos. Estou indo participar de um simpósio internacional sobre fluxos de detritos, que tem sido meu assunto de pesquisa nos últimos anos.


Estou meio cansado com a correria dos últimos dias. Véspera de viagem é sempre assim: um monte de pendências para serem ajeitadas antes de ir. Agora não é diferente, mas com um grau de intensidade maior que as últimas vezes.


No caminho do aeroporto, dormi no ônibus e acordei já na marginal, com seu sol fraquinho de início de inverno. Até o trânsito da Marginal parecia fraquinho. Agora, mais a noite, o tempo esfriou e chega a estar nublado.


Aqui ao redor de mim, no aeroporto, começa a se formar o burburinho de passageiros esperando ser chamados. Os funcionários da companhia aérea começam a se posicionar em seus postos. Um misto de ansiedade e impaciência toma conta das faces das pessoas, esperando os serem chamadas para o avião.


Eu estou muito ansioso. Vai ser minha primeira vez nos Estados Unidos, e estarei sozinho. Não domino o inglês como gostaria, o que me dá doses adicionais de ansiedade. Mas tudo bem, ansiedade se vence, se domina e vai adiante. No entanto, existe outra incógnita: os Estados Unidos: O que vou ver por lá?


Existem vários Estados Unidos, e vou conhecer uma pequena parte. Vou ficar a maior parte do tempo na cidade de Golden, onde fica a Colorado School of Mines, uma das mais prestigiosas escolas de mineração do mundo, e onde vai ser o simpósio. Devemos ter inclusive uma saída de campo no domingo para visitar algumas áreas de debris flows nas Montanhas Rochosas. O que me deixa bem feliz. Vou acrescentar mais uma cadeia de montanhas no meu currículo.


Todos nos temos uma ideia dos Estados Unidos, mesmo os que, como eu, jamais colocaram os pés por lá. Essa visão nos é dada pela onipresente indústria cinematográfica americana, sempre a nos conceder narrativas as mais diversas sobre o país e seu povo.


Hollywood nos deu tanto narrativas de chave heroica, com grandes personagens que representam a paz e a liberdade contra os maldosos vilões que querem destruir o sonho americano. De outro, narrativas de chave crítica mostrando as mazelas da sociedade, com seus heróis dúbios e seus finais irônicos, como se dissessem:  isso aqui não é bem assim como vocês pensam.


Fazer a América. Eis um sonho persistente e que se mostra muito forte, mesmo atualmente. Como não querer uma vida de muito trabalho, mas com uma casa e um belo gramado? Nem sempre o sonho é a realidade. Mas, para quem vem de outros sonhos, e mesmo de alguns pesadelos, parece que o sonho americano é possível.


Cada um têm seu sonho, seu desejo e, portanto, a sua América. Qual será a minha América, dentro do estreito recorte que vou ter pelos próximos dias?

sexta-feira, 31 de maio de 2019

PROPRIOLAVUS


(ilustração Julian Fagotti)
A Paleontologia Imaginaria não é futebol, mas também é uma caixinha de surpresas. Entre os fósseis imaginários que estão catalogados ou descritos já lá se vão milhares, como comprova a produção da Imaginary Paleontology Review, um dos periódicos de maior impacto do mundo científico imaginário.
Um destes fósseis, entre tantos outros, é bastante singular pelo fato de não ser um fóssil. Trata-se do propriolavus. A história é longa, e vai ser contada aqui um tanto abreviadamente, dada a exiguidade de tempo e espaço. Ou seja, temos mais o que fazer...
O propriolavus não é nenhuma novidade na escala do tempo paleontológico.  Desde a antiguidade se conhecem estas feições:  trata-se de feições aleatórias nas rochas, preenchidas por cimentos ou óxidos, muitas vezes dando a impressão de formar figuras. Em cientifiquÊs são chamados dendritos. Nestes dendritos, uns veem a Virgem Maria, outros veem um coelho. Outras ainda, um sapo engolindo uma estrela. Foi descrita também um quati malhado e uma concha de amonite. A maioria, entretanto, nada vê. Porquê é só uma mancha na rocha, e não um fóssil.
Aristóteles citou uma destas impressões em sua Física, volume II (hoje perdida), recuperada numa citação de latina de Flavius inflavius: “em terras da Capadócia acharam muitas destas figuras, que não querem dizer coisa nenhuma. Lá, são chamadas de propriolavus”. Na Idade Média tal feição foi descrita por Santo Agostinho, referindo-se a elas como “imposturas da pedra”.
No mundo islâmico, esta figura foi descrita por Ibn Sina, também conhecido na Europa como Avicena. Ibn Sina descreveu tais feições como imposturas e como alucinações que a luz do sol poderia provocar. Para Al Jabr, um dos mais famosos alquímicos islâmicos, o propriolavus era somente fruto da imaginação. Na tradução latina de al Jabr, realizada no século XIV pelo sábio bizantino Constantino da Beócia, o propriolavus foi descrito como “parente do azinhavre e do azebre”.
A história do propriolavus começa a mudar com a leitura da obra do padre Anastasius Kircher. Em seu texto “quae et nos credimus, quod impostor esset propriolavus”, Padre Kircher coloca em questão se o propriolavus seria uma impostura.  Ou, então, uma mera brincadeira da Natureza, ou lusus naturae, como se dizia naquela época.
O texto kircheriano chegou a Inglaterra, onde recebeu uma leitura atenta de Stebe de Bannon. Stebe de Bannon, como sabemos, que estava na época envolvido numa conspiração para assassinar metade das monarquias europeias e instaurar um reino cruzado na Europa Ocidental. Descoberto seu plano, foi esconder-se na América.
Em suas andanças pelo continente norte americano, Stebe de Bannon encontrou vários espécimes do propriolavus, alguns com o mau cheiro característico. Não se sabe exatamente como, num destes trabalhos subterrâneos de Stebe de Bannon, o propriolavus auto-intitulou-se fóssil, com o nome científico de Olavus decarvalhus. A seção tipo onde ocorreria o presumido fóssil seria a região de Richmond, na Virginia. Coberto de razão, o propriolavus começou a ser estudado por diversas pessoas em diversos lugares da América Portuguesa.
Consta que o mineiro Silvério dos Reis foi um dos maiores especialistas no estudo do propriolavus. Apaixonado pelo estudo do propriolavus, Silvério dos Reis chegou mesmo a enviar alguns espécimes para o filósofo Emanuel Kant, que então estava se interessando por assuntos de Paleontologia. Mas o eminente filosofo achou o propriolavus sem importância, e sequer respondeu as cartas de Silvério dos Reis.
Revoltado com a ausência de resposta, Silvério acusou o então alferes Joaquim Jose da Silva Xavier de haver sabotado seu contato com Kant. Silva Xavier sofreu então um sério assassinato de reputação, orquestrado pelo propriolavus, que via em tudo sinais de perseguição. Como se sabe, o Alferes, ao final, foi condenado a morte na forca e diversos outros cidadãos mineiros tiveram seus bens confiscados e foram enviados para o exilio por conta das maquinações de Silvério do Reis e do propriolavus.
O autointitulado fóssil Olavus decarvalhus não foi muito bem aceito na comunidade cientifica. A maior parte dos pesquisadores sequer reconhecia sua existência. No entanto, sempre coberto por camada e mais camadas sedimentares de razão, o Olavus decarvalhus estava sempre acompanhado de um pequeno grupo de leigos que acreditavam piamente em seu caráter fossilífero.
Durante um certo período geológico, chegou a ter alguma relevância, inclusive poder. Chegou a ser considerado o suporte de espécimes unicelulares como o Velez sp e o weintraubius balburdicus. Mas quando começou a abrir mais fortemente sua boca, o Olavus decarvalhus foi se tornando mais conhecido. Quanto mais conhecido, menos estudiosos acreditavam nele.
O propriolavus extinguiu-se totalmente ao fim do Antropoceno inferior. Deixou, em vez de impressões fósseis, um sem-número de dívidas para seus seguidores pagarem.




 (a Paleontologia Imaginária é um ramo da Paleontologia que trata de animais incertos; é um ramo do conhecimento que faz fronteiras com a paleontologia, a geografia, a física molecular, a psicologia e com Morretes (PR). Como membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia Imaginária (SBPI) e colaborador da South American Review of Imaginary Paleontology, periódico classe A1 da CAPES, venho através deste blog fazer a divulgação científica da Palentologia Imaginária para o publico interessado em ciências)