segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 11: NA VILA DOS FUGITIVOS


Os escoteiros iam percorrendo as Serranias do Ribeira, repletas de matas de Araucaria
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 23 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão chegando atravessando as Serranias do Ribeira. Lá. eels chegaram numa cidade de gente mal-encarada. Será que eles vão ter problemas?)

Apesar de dormirem num paiol de milho cheio de ratazanas em Tuneiras, os rapazes acordaram animados naquela terça feira, 23 de dezembro. O final da primeira etapa da viagem, a cidade de Capela da Ribeira, poderia ser finalmente alcançada. 

Eles seguiram então no rumo norte, pela “estrada provisória, que ligava parcialmente Curitiba a capela da ribeira. Segundo o diário de Lídio, a estrada era muito malconservada, cheia de buracos, com pontes de madeira apodrecida. Ao longo da estrada, estavam passando continuamente tropas de mulas carregando balaios com milho e feijão. De vez em quando, uma carroça puxada por bois se fazia ouvir de longe, cortando o silencio da paisagem. 

Logo adiante os meninos ficaram assombrados: estavam passando pela Garganta do Leandro, onde o rio Passa-Vinte formava uma grande cachoeira. Para Lídio, o barulho era equivalente a um trovão, e podia ser ouvido a muitos metros de distância. 

Depois deste espetáculo bonito da natureza, começou outro, macabro: ao longo da estrada viam-se aqui e ali diversos esqueletos de caminhões de combate, enferrujando no clima quente e úmido do vale do Ribeira. Eram restos de antigos combates da Revolução Paulista de 1932. 

A região que eles estavam cruzando era a frente do Ribeira da guerra civil deflagrada com o manifesto constitucionalista de São Paulo. Apesar de não ser uma das frentes mais importantes, ali também haviam ocorrido alguns combates. 

Na garganta do Leandro Lídio notou horrorizado um cemitério com cruzes de ferro dos soldados mortos durante os combates da revolução constitucionalista de são Paulo. Havia apenas oito anos, aquela região havia sido palco de combate entre as forças de são Paulo com os batalhões paranaenses. 

Deixando para trás aquele cenário de guerra, os meninos passaram pela localidade de Poço grande e no inicio da tarde já estão no lugarejo de maria Gorda. Ali, Lídio anotou que existia a mina de cobre de Garapongá. A região do vale era também (ainda é) uma região riquíssima em bens minerais. 

Neste período havia uma grande concentração de pequenas minas de cobre e chumbo por toda a região. Em Apiaí, no lado paulista do vale, estava sendo construída uma Usina Experimental de Chumbo para beneficiar o minério e seus subprodutos, como a prata, o ouro e o zinco. Era um período de grande investimento público e privado, e pequenos povoados mineiros iam se formando aqui e ali, no meio da imensa mata. 

Depois de tomar um café e um bolo de fubá, os meninos seguiram rumo norte, em direção ao vilarejo de Epitácio Pessoa. 

No caminho, Lídio notou (e anotou em seu diário) que o rio que margeava a estrada, o rio grande, corria sobre um leito de areias muito brancas. Aqui e ali, haviam algumas pequenas cacheiras, que Lídio anotou como sendo de gré vermelha. Gré ou grés é uma palavra francesa para arenito, o que não está de todo incorreto, visto que realmente ocorrem muitos corpos de rochas que poderiam ser assim denominadas nesta época. 

Os jovens escoteiros estavam atravessando uma zona composta por rochas metamórficas muito antigas, que formam grandes cristas de serra, formada por duros quartzitos. Em outros locais, ocorriam mármores ora cinzentos, ora mais claros. Estas rochas eram a razão do potencial mineral do Vale do Ribeira. Só para dar um exemplo: na vila de Pedra Preta, onde hoje está a atual cidade de Tunas do Paraná, haveria de se iniciar alguns anos depois a extração de uma rocha ornamental muito usada hoje em dia, o “granito verde Tunas”. 

Nas encostas das serras que eles iam pacientemente atravessando, eram frequentes as cachoeiras. Nestas cachoeiras e corredeiras ao longo da estrada, as caninhas do mato e os cordões de frade estavam sempre presentes, batidas pelo vento formado pela energia das quedas d´água. Um espetáculo para encher os olhos...

Nesta bucólica caminhada, os meninos chegaram na vila de Epitácio Pessoa no fim da tarde. A vila já tinha sido mais importante, mas estava em decadência econômica. As casas de estuque tinham buracos na parede e estavam com aparência de malconservadas. A igrejinha pequena, no alto de uma pequena colina, não dava aparência melhor à vila. 

Os rapazes encontraram abrigo numa casa que servia de botequim, escola, residência e engenhoca de cachaça. Ao procurarem um rio para tomar banho, conversaram com alguns meninos da vila. Estes meninos disseram que os homens do lugar não estavam gostando da presença deles ali. Achavam que eles eram policiais procurando marginais e fugitivos  homiziados naquele fim de mundo. 

A razão para as suspeitas eram as vestimentas do chefe Beto. Vestido com um culote e portando um capacete, chefe Beto também tinha um revólver na cintura. O porte militar do jovem chefe escoteiro chamou a atenção dos homens da cidade. Ali, naquela vila cheia de fugitivos da justiça, a sua simples presença provocava verdadeiramente esta suspeita. 

Entretanto, o que realmente chamou atenção dos rapazes foi a professorinha da vila. Curiosa e bonitinha, ela atraiu a atenção dos rapazes, que ficaram conversando com a moça até a hora de dormir. 

Na hora de dormir, chefe Beto ficou com a única cama, tendo os outros que se contentar com o chão. Aquela seria a ultima noite dos rapazes no sertão paranaense.

domingo, 22 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 10: CANÁRIO, O GARFO NUMERO UM!


A Vila de Tuneiras, atual Tunas do Paraná, na década de 1950, dez anos depois da passagem dos escoteiros por lá.
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 22 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão cruzando o perigoso vale do ribeira, cheia de mato e gente mal-encarada.)

Ainda assustados com a notícia do horrendo crime de que ouviram falar na Vila de São Pedro, os rapazes acordaram cedo e não quiseram saber de conversa. Um café sem mistura e logo as 7:00 já estavam na estrada. 

Aquela região era repleta de pequenas estradinhas. Os rapazes caminhavam com cuidado para não se perder. Estavam procurando a vila de Bonsucesso. Depois de muito penar, acabaram acertando o caminho. O caminho, aliás, era estreito, e eles tinham que passar em fila indiana. Chefe Beto na frente Lydio encerrando a fila. A medida em que caminhavam, a distância de um para o outro ficava longa. Em alguns casos, chegaram a ficar um quilômetro uns dos outros. O cansaço ia dominando os rapazes, e eles pararam para descansar. 

Neste pouso, combinaram que iam caminhar todos juntos. Outra coisa a decidir era o que comer. Enganaram os estômagos com água com açúcar e continuaram a caminhar tentando ultrapassar de vez a Serra da Bocaina. Havia muitos passarinhos na trilha. Lydio, poético, chegou a definir sua cantoria como uma sinfonia desafinada. Também era muito atento as belas orquídeas e caraguatás, dispostas em arvores altas e nas altas pedras do caminho. 

Neste caminho, encontraram também muitas mulheres a cavalo. Lydio as descreveu como caboclas de olhos rasgados, tipo bugras. Eximias amazonas, cruzavam o caminho deles e saiam em desabalada carreira. Na certa, para avisar seus maridos que a Polícia Volante, ou seja, eles, estavam por perto.

 Com efeito, ao chegar nas casinhas no meio do mato os rapazes só encontravam cachorros magros e crianças maltrapilhas. Estas crianças só sabiam dizer que seus pais não estavam ali. Os cinco rapazes não tinham como perceber, mas esta era uma estratégia de invisibilidade. Assim as populações tradicionais e originarias haviam resistido à ocupação do estado brasileiro e suas levas de ocupação “civilizada” nestes cinco séculos. Parecia uma coisa banal, mas era uma estratégia muito bem elaborada. Era um lugar de estar e não estar, numa guerrilha perpetua. A “guerra brasílica” ainda era travada, sem que os escoteiros o soubessem, ali naqueles planaltos aparentemente desertos que eles estavam atravessando. 

Havia, ainda a fome. No meio da estrada, um pé de ingá carregado supriu por ora as forças da rapaziada. O cansaço era grande. De vez em quando, Lydio confessa, a tristeza tomava conta dos rapazes. Uma semana quase já longe de casa. E que perrengues! De vez em quando durante a caminhada, eles choravam bem baixinho longe dos outros para não serem notados. 

Eles passaram pela localidade de Antinha as 14 horas. As três e meia, já estavam avistando as pequenas casas da vila de Ouro Fino. Neste lugar, eles compraram um almoço de uma família polonesa que morava por ali. Enquanto a boia não ficava pronta, eles descansaram algumas horas num campo aberto, cortado por um Corguinho de água fria e limpa que corria para leste, na direção do rio Pardo. A sombra em que descansaram era um pé de Santa Barbara, frondosos e ramados. 

Quando a boia ficou pronta, eles avançaram. O almoço, depois de tanto tempo de aperto, era batatinha, repolho, ovos e farinha de milho. Como sobremesa, café com leite e broa de centeio. Lydio em seu diário faz uma singela homenagem seu colega Canário, eleito por unanimidade o garfo número um da turma. “Como comeu esse garoto”, comenta Lydio.

Depois de fazer uma pequena siesta na beira das arvores, os rapazes se aprontaram e seguiram viagem. Passagem, no caminho por uma plantação de linho, que desconheciam. Lydio anota que a plantação de linho parecia ouro. 

Já tinham caminhado 4 quilômetros, quando Milton parou: “Xi! Esqueci meu bornal com toda a minha roupa naquele último lugar que paramos! Mas eu não volto lá de jeito nenhum!”. Tentamos convencê-lo a ir, pois estaríamos esperando, mas ele não concordou, e seguimos viagem. 

Nesta altura, eles já haviam descido a serra do cadeado, que foi contornada por uma parte mais acessível. As 17 horas eles passaram pela vila de São Sebastião e, as 18 horas, chegaram em Tuneiras para pernoitar. 

Na povoação, deram um paiol de milho para eles dormirem. As camas eram feitas de palhas e sabugos, no entanto, as ratazanas também infestavam o lugar. Lydio acabou por dormir fora do paiol, perto do fogo, mas longe das ratazanas.

sábado, 21 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 9: UM CRIME HORRENDO



Uma vista do alto da Serra da Bocaina, na atual Bocaiuva do Sul (PR); os escoteiros a atravessaram em 21 de dezembro de 1941
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 21 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) ouvem historias de um crime horrenda ocorrido na vila de São Pedro.)

Os rapazes se puseram em marcha, depois de deixar a venda de seu Alderico Bandeira, na pequena vila de Capivari. Tinham que retomar a marcha, para recuperar o tempo que chuva torrencial da madrugada havia lhes tomado. 

As três e meia da tarde, chegaram ao pequeno povoado de Praia Grande. Pediram um café reforçado numa pequena venda de secos e molhados. Para atendê-los, uma moça loira muito bonita, que deixou a todos embasbacados. Mas eles não tinham tempo para isso. Tinham que andar. 

Neste fim de tarde, atravessaram as grandes florestas da bacia do Capivari-Pardo, dois grandes afluentes do rio Ribeira. Desde o dia anterior eles estavam nesta grande bacia. O ar do Planalto era mais fresco que o do Litoral, e as florestas, ao contrário da espessa Mata Atlântica, que percorreram desde Antonina até a Serra dos Órgãos, agora era dominado pela mata “suja” com muitas araucárias.

Num determinado trecho da floresta, os rapazes passaram por uma araucária muto grande à beira da estrada, que se destacava das demais. Parecia o Cristo redentor de braços abertos, conforme anotou Lídio em seu diário.

Logo depois de atravessarem no Rio Pardo numa ponte improvisada, eles escutaram um canto de galo. “Por aqui há alguma casa”, Chefe Beto comemorou. Dito e feito. Logo depois eles chegaram a uma pequena clareira escondida dentro de um pinheiral mais espesso. Havia muitas casas naquela clareira, além de uma grande serraria. Os rapazes logo prestaram atenção ao grande caminhão carregado de toras. Aos lados, muitas pilhas de tabuas estivadas. 

 Os habitantes da povoação receberam bem os escoteiros. O gerente da serraria os alojou numa casa desocupada. Entretanto, os rapazes não tiveram descanso. Eis que a rapaziada do local os intimou para um futebol, num gramado ali perto. Apesar de cansados, toparam o desafio. O jogo de futebol suíço foi renhido, e no final os visitantes perderam para o time da casa pelo placar de 10 a 8. Nada mal para quem tinha andado tudo que eles andaram desde cedo. 

Mas tinha mais. Manduca preparou uma janta. Especialidade: farofa de linguiça de porco, arroz, e um café reforçado com broa de milho. Logo depois, os rapazes da vila se juntaram a eles, e começou uma grande batucada. Lídio tocava uma gaitinha de boca, Canário era, claro, o cantor, e Manduca fazia a marcação com uma colher, repicando na outra. Milton se juntou aos sambistas e ficou acompanhando com um chocalho improvisado, numa latinha cheia de areia e grãos de arroz. Dos rapazes da vila, um tocava cavaquinho e outro, o pandeiro. 

Essa noite, felizes com o futebol e o samba, os rapazes tiveram sono de pedra. Cada um arrumou-se como pode. 

Quando acordaram, ao raiar do dia, trataram de cair na estrada. Lavaram-se na beira do Corguinho que banhava a vila, arrumaram as mochilas e encheram os cantis de água. As 8:00 iniciaram novamente a caminhada rumo norte. 

A paisagem era a mesma, mas agora teriam mais uma serra para atravessar, a Serra da Bocaina. Numa altura de 1400 metros sobre o nível do mar, esta serra era, entretanto, mais fácil de ser atravessada. Para isso, tinham que tomar a estrada no rumo da vila de São Pedro. 

Eram 13 horas da tarde quando pararam à beira da estrada, extenuados, para fazer uma ligeira refeição. Àquela altura, segundo Lídio, cada um deles já tinha perdido uns três quilos de peso. Segundo eles brincavam, a única coisa que tinha inchado eram as pernas, por causa das picadas de mosquitos. 

As pessoas que encontravam pelo caminho se espantavam com a estranha patrulha que encontravam no meio do mato. Quando sabiam da direção e do motivo da marcha dos rapazes, todos se espantavam: “Que gosto”, diziam alguns. "Que tolice!", diziam outros. O fato é que a presença deles ali naquele meio era bastante estranha para a população local. Não poucos olhavam para eles com desconfiança. 

Depois de atravessarem o rio Tucum, os rapazes chegaram afinal à pequena vila de São Pedro; aqui estavam próximos da estrada Curitiba-Adrianópolis, ou Curitiba-São Paulo. A vila de São Pedro, no entanto, era menos que uma vila. Era tão-somente um amontoado de casas. Os rapazes tinham a intenção de acampar ali, mas um senhor lhes ofereceu uma casa abandonada para se abrigarem da noite. A casa era velha, mas estava bem conservada. Com a ajuda de uma vassoura, os rapazes deram uma boa faxinada na casa, que ficou apresentável para o pouso. Dali a pouco, Manduca estava tirando para a turma um delicioso café tropeiro. 

No entanto, estavam faltando pães e biscoitos. Lídio foi encarregado de procurar nas imediações. Ele procurou um boteco ou venda, mas acabou não encontrando nada. No caminho de volta, chamou sua atenção um pequeno cercado com quatro cruzes. Eram recentes. Viu também uma grande mancha de carvão ao redor, parecendo ser um local que foi incendiado. 

Lídio perguntou a senhor vizinho este terreno. O vizinho contou a Lídio que aquela cena macabra era o que restava de um dos maiores crimes que havia acontecido ali no município. Ali havia uma pequena casa comercial. No cercado estavam enterrados o casal de comerciantes donos da venda, seu filho pequeno de quatro meses de idade e um empregado da casa. Eles haviam sido mortos por outro vizinho, compadre do casal e padrinho da criança. Havia sido um latrocínio puro e simples, somente com o interesse do roubo. 

O casal seu filho e o empregado foram mortos, seus corpos empilhados e queimados com querosene. 

Lídio voltou rapidamente para a casa abandonada onde estavam seus companheiros. Quando contou a história, todos ficaram apreensivos. Afinal, era, como eles tinham notado, um povoado onde todos andavam armados. As armas estavam à vista, sem o menor cuidado de escondê-las. 

Assim, desistiram de procurar mais mistura e jantaram café puro. Trancaram bem a casa e traçaram planos para o dia seguinte, onde iriam sair dali bem cedinho, deixando aquela gente desconfiada para trás.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 8: CURANDO AS FERIDAS



Sitio na atual Bocaiuva, antiga Queimadas...ainda hoje com pequenas propriedades e matas "sujas" com araucarias misturadas as outras espécies. Era uma paisagem semelhante a essa que os escoteiros encontraram em dezembro de 1941. 
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 20 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão andando pelas perigosas serranias do Ribeira.)

Depois do trecho mais perigoso de Serra, os rapazes caminhavam agora pelos morros do Planalto Curitibano. Os morros mais altos já estavam cobertos por um denso nevoeiro. Era uma cena magnifica. Após a trilha de incertezas, que, segundo Lydio, foi a subida da Serra, o animo já era outro, de alegria pela vitória conquistada. 

Ao descer do Morro, os rapazes acharam a água que eles estavam precisando. Aquele riozinho, muito apropriadamente, era chamado de Rio Paraíso. Segundo Lydio, foi uma alegria total. Logo, estavam os cinco completamente pelados, tomando banho no pequeno riacho de agua fria. Neste local, Milton tirou uma foto do grupo (não se sabe se vestidos ou pelados). Infelizmente, a foto queimou ao ser revelada...

Logo depois, eles atravessavam o rio Paraiso e cruzaram um extenso trecho a facão, poia a mata ainda era muito densa. Logo depois, chegaram a uma estrada. Estavam próximos ao Rio Ribeirão Grande. 

Lídio espantou-se ao ver casas cobertas com telhas de tabuinhas. Para ele pareceu uma aldeia africana. Seguindo pela estrada alcançaram uma venda e quatro quilômetros adiante acamparam numa roça de milho. 

Uma vez armada a barraca, os rapazes se dividiram para procurar lenha e água. Outros procuraram pedras para fazer de fogão. Afinal, acenderam a lenha, e Manduca e Canário ficaram ocupados em cozinhar o milho. 

No relógio de Lydio marcava 19:30 hortas quando eles finalmente comeram o milho e tomaram uma revigorante xícara de café. Estavam tão assustados, animados e felizes que cada um fez uma prece para Deus e para Nossa Senhora do Pilar por terem vencido mais esta etapa. 

No entanto, a coisa não andou tão bem assim. As 4 horas da manhã um forte temporal com vento forte derrubou a barraca, e deixou os rapazes em apuros. Completamente ensopados, os rapazes não tiveram jeito senão levantar acampamento e seguir adianta, procurar um abrigo. 

Já estava amanhecendo quando eles alcançaram a vendo do Senhor Alderico Bandeira, onde eles, encharcados até os ossos, como anotou Lydio, acabaram por pedir guarida. 

O senhor Alderico era um prospero comerciante da região. Compadecido, mandou os rapazes entrar e trocar as roupas num como do da sua casa. No salão, ao lado do armazém, havia uma grande acumulação de sacos vazios, apetrechos de couro e mais cestos e balaios para carregar cereais. Tudo na maior desordem, segundo Lydio. Eram materiais para carregar cereais, principalmente milho. Aqui nesta zona agrícola a tração animal ainda era muito importante para o transporte de excedentes. 

Ali havia uma criação de suínos que deixou os rapazes de queixo caído. Eram porcos da raça Duroc, faixa branca e polanchin. Segundo Lydio, alguns daqueles porcos chegavam a pesar mais de 10 arrobas, ou 140 quilos! 

A chuva continuava; o senhor Alderico os convidou para tomar café com pão feito em casa. Também tinha marmelada, o que deixou os rapazes mais satisfeitos. Eles estavam no povoado de Capivari. Segundo o diário de Lydio, esta povoação não existe mais – está sob a represa do Capivari, construída na década de 60-70. 

Na venda, continuava a chover. Abrigando-se da chuva como eles, estava um senhor meio idoso, que, quando andava, coxeava de uma perna. Estava com um ferimento muito feio e antigo. Só tinha um paninho fedido enrolado na perna. Os rapazes não perderam tempo, e trocaram a bandagem do ferimento do senhor, com cuidado, removeram o pano grosseiro, e fizeram uma lavagem com água oxigenada. Depois, drenaram todo o pus e aplicaram pomada Minâncora sobre a ferida. A ferida foi envolvida com atadura de gaze e esparadrapo. O senhor ficou muito aliviado e agradeceu muito a boa vontade dos escoteiros. 

As 11:30, seu Alderico ofereceu para eles um baita almoço. Tinha feijão com arroz, galinha assada recheada, polenta frita, batatinha. Um verdadeiro banquete. O Chefe Beto fez menção de pagar pelo almoço, mas seu Alderico se recusou a receber: “Para vocês é de graça”. A chuva já estava amainando e eles tinham que seguir viagem.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 7: O RAPAZ MISTERIOSO



Enquanto os escoteiros antoninenses subiam a Serra dos Orgãos, em dezembro de 1941, soldados soviéticos se preparam para defender Moscou das tropas nazistas
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 19 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão tentando atravessar a Serra dos órgãos. Eles vão precisar de toda ajuda...terrena e do além...)

Depois de tomar café, e cansados pela noite mal dormida, os rapazes seguiram firmes pela estreita trilha. Caminhavam com o uso de bastões, com a mochila nas costas e muito medo de se perder. Lydio ia sempre rezando, pedindo sucesso. Além do mato fechado, atravessaram muitas roças de mandioca abandonadas. 

Chegaram na casa do último morador da região, conhecido por Antônio Órfão. Só mesmo um órfão para ficar morando aqui neste fim de mundo, devem ter pensado os rapazes. O Seu Antônio, simpático, contou aos rapazes que eles já estavam subindo pra Serra dos Órgãos. 

Bem perto deles estava o Pico paraná, o maior pico da serra e o mais alto pico da região sul. Hoje, a altura do pico paraná está calculada em xxxm. Majestoso e enevoado, o grande paredão de granito era, na época, um desafio para os escaladores de montanhas. 

Sem ter pretensões de escaladores, os rapazes prosseguiam subindo. A vegetação era cada vez pior: cheio de espinhos, bambus, pequenas epífitas, capins. Tudo machucava, tudo picava. Até as plantas eram agressivas: espinhos, urtiga e capim corta-rapaz. Lydio teve uma epifania: chegariam ao objetivo custasse o que custasse. Não eram aquelas montanhas e aquele mato que os deteriam. Pedras e mais pedras, fendas, paredões, nada os deteria. Cobras venenosas, como jararacas, urutus, jararacuçus, bicoraias, verde, caninana, e aranhas caranguejeiras, nada os deteria. 

Só a água. Quando acabou a água dos cantis, os rapazes começaram a se desesperar. Um deles gritou: “Ai, estou morrendo de sede! Água, pelo amor de Deus!”. As gargantas secas se desesperavam sem água. 

Chefe Beto teve uma ideia: cortar taquaras e beber a água que tinha dentro do caniço. Quando cortaram um caniço, no entanto, de lá saltou um marandová gigante! Ao ver o bicho cabeludo correndo desesperado pelo chão, os rapazes sentiram tão abandonados quanto ele: como fazer para ter água?

Logo, descobriram no chão, debaixo das folhagens, algumas pegadas de cavalo com água da chuva estagnada. Os rapazes saciaram a sede usando algodão na boca para filtrar a água amarela e cheia de mosquitos daquelas poças d’água.
Saciados, comera, alguns enlatados. Tinha até goiabada, não podia estar tão ruim...o bornal de Lydio ia ficando mais leve...

Pouco mais adiante encontraram um caçador. Ele nos avisou que havia uma vara de porcos do mato por ali. “ela tá ali, na barrocada. Pode atacar e dar muitas dor de cabeça pra vosmisseis”.  Os rapazes trataram de sair logo dali. Chefe Beto seguia na frente. Milton ia atrás, tropeçando em todos os buracos, segundo Lydio. Eles seguiam bem o caminha das patas da vara de porcos, e iam subindo a serra. Ali havia muitas aves. Muito frequentemente ouviam o batido da araponga ao longe. Subiram muito, até ficarem extenuados. Lydio conta que eles pareciam perto do céu. 

Estava já meio escuro, embora fosse ainda três e meia da tarde. Foi quando um rapaz surgiu ali no meio da trilha. Ao saber para onde os escoteiros iam, ele se propôs a guiá-los. O caminho era muito perigoso. Aqui e ali, gigantescos paredões apontavam para cima e fendas profundas formavam precipícios. Lydio conta que, em determinado momento tropeçou num buraco, e ficou sem equilibro na beira de um precipício. Canário até gritou: Cuidado Lydio!”. Mas, naquela situação, foi a mão firma do rapaz desconhecido que o segurou e o pôs em equilíbrio na trilha. 

Seguiram caminhando, até próximo do rio Capivari. Numa encruzilhada, o rapaz desapareceu, embrenhando-se por um caminho. Lydio e os demais rapazes não perceberam que ele tinha ido embora. Quem seria ele?

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 6: "É A ONÇA!"

A Serra dos Orgãos, que foi atravessada pelos escoteiros em 1941, vista do bairoo do Batel
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 18 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão ainda no município de Antonina, no sopé da Serra dos Órgãos. Como eles vão cruzar estas serranias cheias de mato e animais peçonhentos?)


Quando, na manhã seguinte, os rapazes acordaram na Fazenda Olímpia, fizeram muitas massagens para aliviar os membros doloridos. A aventura estava só começando...

Chefe Beto conversou com o encarregado da fazenda na hora do café. Queria saber qual o melhor caminho tomar. Eles tinham a ideia de que era mais vantagem ir pelo caminho do telégrafo até São Paulo. O caminho ia por Iguape, passando a Serra Negra no Paraná. “Não vão, porque é perigoso”, disse, taxativo, o encarregado. Segundo ele, o caminho do telegrafo é marcado por pântanos perigosos e rios traiçoeiros. Sugeriu o caminho por Capela da Ribeira, mais tranquilo. 

Entre aliviados e assustados, os rapazes concordaram com o encarregado, e se prepararam para subir a Serra dops Orgãos, em direção à Capela da Ribeira. Após o café, despediram-se do senhor Ymaguti. No novo caminho, cruzaram novamente o rio Cachoeira, em direção a vila de Cachoeira de Cima. 

Chegaram em Cachoeira de Cima as 10:30, onde pararam para tomar água e pedir informações. Atravessaram novamente o rio Cachoeira, mais acima, rumo à Fazenda Esperança, do turco Said. Lá, segundo Lydio, eles foram recebidos fidalgamente. O turco lhes ofereceu galinha assada, arroz e farofa. De sobremesa, garapa. 

Da fazenda Esperança, os rapazes começaram a trilhar pela velha estrada para São Paulo. Segundo Lydio, era estrada lá dos mil e oitocentos...Na verdade era uma trilha, que depois quase desaparecia na mata. Depois de muito caminhar, chegaram ao pequeno povoado de Cotia, ao pé da Serra dos órgãos. O povoado estava abandonado. 

Os rapazes se acomodaram numa pequena fabriqueta de farinha. Era uma tapera, e parecia estar abandonada há meses. Para maior segurança, reforçaram as paredes com uma corda, com medo que a tapera pudesse desabar em cima deles. 

Milton e Manduca acharam, próximo da tapera, como era de se esperar, uma pequena roça de mandioca.  Lá, se abasteceram do quanto puderam. Na tapera, os rapazes começaram o fogo num fogão rústico feito de pedras. 

Ali era um local muito ermo e distante. Como estivessem no sopé da Serra dos órgãos, a noite caía muito rapidamente. As 18 horas, a escuridão já era total. E isto em pleno mês de dezembro! 

Com medo das onças, os rapazes resolveram fazer uma fogueira, com turnos de guarda de 2 horas. No turno de guarda de Canário, ele acordou todos aos berros: “Ei, negada, acordem rápido! é a onça! é a onça!”. Canário tremia e apontava o farolete para uma moita. “Atire, Chefe Beto, atire!”.

Não se soube se era ou não era onça. mas, depois disso, quem dormia? O sono acabou de vez. Os rapazes foram tentando dormir. Ao longe, chegaram a ouvir os turros de algum animal bem longe, na Serra. Seria ela?

No turno de guarda de Lydio, alta madrugada, todos já tinham voltado a dormir. Na escuridão quase total, ele pensou em ter ouvido um choro de bebê. Apavorado, Lydio tremia e se arrepiava, quando percebeu uma grande coruja pousada perto dele. o pio dela parecia um grito de criança, e Lydio gelou até a espinha. A coruja olhava pra ele com seus grandes olhos bem abertos. Mas era só uma coruja. Com muito custo, Lydio a espantou para longe. Que noite dos infernos!

No meio de tanto susto, foi com alívio que ele percebeu os primeiros raios do dia. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 5 - NO CAMINHO DO CURITIBAIVA


Antigo Portal da cidade: por aqui passaram os escoteiros no primeiro dia de sua marcha
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 17 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão iniciando a marcha pela perigosa estrada do Curitibaiva.)

No primeiro dia, os rapazes caminharam somente 4 quilômetros. Mas, também, o dia havia sido cheio, com alvoradas, foguetórios, desfiles, despedidas. As 17:40, segundo o relógio de pulso de Lydio, eles montaram acampamento ainda na estrada da Graciosa, numa Olaria de propriedade dos irmãos Vieira.

Três colegas foram de bicicleta passar a noite com eles: eram Lourival Silva, que era também, como Lydio, remanescente do Raid Antonina-Curitiba, mais Alceu Nascimento e Walter Vieira. Nesta primeira noite, o lanche dos rapazes e seus visitantes foi um café com leite condensado e bolachas de mel. 

Durante a noite, foram feitos turnos de guarda de 2 horas cada um. No meio da noite, durante a guarda de Manduca, um burrico que estava por ali deu um relincho. Manduca deve ter se assustado, e o burrico mais ainda. Para desespero de manduca, o pobre animal acabou dentro da Olaria, derrubando tijolos por todos os cantos. Com o barulho, todos se levantaram e ajudaram Manduca a tirar de lá de dentro o burrico, antes que o estrago ficasse maior. Mais umas risadas, e todos voltaram a pegar no sono. 

De manhã cedo, os rapazes se despediram dos três colegas e tomaram a estrada do Curitibaiba. Era muito barrenta, cheia de charcos, e o calor estava grande. As 11 horas, eles já estavam no Morro Grande, onde fizeram um pouso na casa do senhor Bernardo Moreira. Ali, na fresca, tomaram um bom chimarrão e almoçaram uma farofa de frango que Milton havia trazido. 

Acabaram por visitar o engenho de aguardente de seu Bernardo, e se impressionaram com a engenhosidade da roda d’água, que movimentava todos os maquinários do engenho. Em vez de aguardente, os rapazes aproveitaram a garapa que um empregado do senhor Moreira fez exclusivamente para eles. 

Pouco depois, de volta a estrada, eles já estavam no rio do Meio. Depois de atravessar o rio, os rapazes deram uma descansada. Chefe Beto, com seu uniforme que, segundo Lydio, lhe dava o ar de um oficial inglês, deitou-se na grama e pôs se a fumar seu cachimbo. Pra espantar os mosquitos, segundo ele. Lydio observou que as baforadas que ele dava erguiam-se rápido no calor da tarde. 

As 14:30 chegaram na venda do senhor Mokito Yassumoto, no Cacatu. Lá, compraram algumas coisas e seguiram adiante. Manduca e Canário andavam a maior parte do tempo descalços pelo caminho, sem machucar os pés. De todos, quem mais tinha esta capacidade era Canário, que podia caminhar a maior parte do tempo assim descalço. Já os outros, calçavam “sapatos-tênis”, mais confortáveis. 

Mais alguns quilômetros adiante, os rapazes passaram pela fábrica de papelão e pasta mecânica do Dr Italo Pellizi. O sol estava tão quente que eles ficaram um pouco à sombra do portão da fábrica. Ali, encontraram um caboclo, que ensinou aos rapazes (tintim por tintim, como anotou Lydio) sobre o caminho que os levaria para o outro lado da Serra. 

Quando chegaram no Rio cachoeira, Lydio sugeriu que eles o atravessassem a nado. Milton, mais ponderado, fez ver aos companheiros que ali tinha muita correnteza. O Rio, segundo ele era muito profundo por ali. Ficaram um tempo esperando um canoeiro que os atravessasse. Quando, depois de algum tempo, o canoeiro chegou e procedeu a travessia, os rapazes ficaram muito felizes com a pequena aventura náutica. Agradeceram ao canoeiro e se puseram a caminhar. As 17 horas, chegaram na fazenda Santa Olympia de propriedade do Senhor Ymaguti. 

Nesta fazenda tinha um posto telegráfico. Chefe Beto comunicou a chegada e informou que estava tudo bem com eles. O senhor Ymaguti e sua esposa receberam os rapazes, alojaram-nos num cômodo de sua própria casa e lhes ofereceram um jantar. 

Nesta noite, com o corpo todo picado de mosquitos e com muitas dores lombares e pés inchados pelo peso que carregavam, os rapazes dormiram um sono dos bons.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 4 - O DIA DA PARTIDA


Os Escoteiros da Tropa Valle Porto, de Antonina, Voltando de Reunião Escoteira em Joinville (1941)
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 16 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão iniciando sua longa jornada.)

O dia 16 de dezembro de 1941 amanheceu em festa em Antonina. 

Logo as 5 horas da manhã, a cidade explodiu numa alvorada promovida pelas bandas Marcial e Musical da Associação dos escoteiros antoninenses. Além das duas bandas promovendo a balburdia pela rua, havia um intenso foguetório. A cidade acordou com muito barulho ruído e, claro, musica. 

Em teoria, eram as comemorações do da do Reservista, uma daquelas datas que só as Ditaduras como a do Estado novo poderiam comemorar. Mas, na prática, a festa era a despedida da cidade aos rapazes, todos já devidamente vestidos com seu uniforme de gala: camisa de mangas compridas de cor caqui, calça comprida azul lenço vermelho no pescoço, meias pretas longas e sapatos pretos. 

A cidade se reuniu as 9:00 horas da manhã no velho coreto da Praça Coronel Macedo para hastear a bandeira nacional. Logo depois, a cidade se juntou para um grande desfile, aberto pelos escoteiros da tropa Valle Porto. Também desfilou um pelotão de revistas do tiro de guerra. Para encerrar, houve o desfile de um pelotão de ciclistas do Sindicato dos Operários Estivadores de Antonina. Lydio anotou em seu diário que este brioso pelotão operário era comandado pelo seu padrasto, o Zé Maceió. 

Havia muito comentário pelas ruas sobre a missão dos rapazes. Muitos falavam da loucura de soltar 4 meninos e um rapazote numa aventura daquele porte. Algumas destas pessoas chegaram a apostar que alguém ia desistir no meio da viagem. Seriam eles picados por alguma cobra? Seriam devorados por alguns dos animais ferozes que ocupavam a Serra do Mar? As suposições eram muitas. Lydio nos conta em seu diário que houve pessoas que os interpelaram para que desistissem daquela loucura. Mas era tarde demais. Segundo nos conta Lydio, os rapazes apenas sorriam. 

As 13 horas, todos estavam reunidos na sede do grupo escoteiro, na Caserna, como era chamada. Lá, foi feita uma checagem do material que levariam. Nos embornais sob responsabilidade de Lydio, iam suprimentos, como biscoitos, latas de conserva. Nestas latas, havia sardinha, goiabadas, frutas em calda e salsicha. No outro embornal iam roupas, toalhas e uma bandeira nacional, além de itens coo sabonetes, sabão, pasta dental, escovas, velas fósforos, talheres e lápis. Neste embornal também ia o livro diário da Patrulha. 

A despedida do grupo foi feita ali mesmo, na caserna, repleta de autoridades. Ali estavam o juiz de direito, o promotor, autoridades portuárias e os jornalistas Alfredo Jacob e João da Cruz Leite. Segundo Lydio, havia muitas mais autoridades, mas ele diz não se lembrar. Acreditamos. 

Da Caserna, os rapazes seguiram pelas principais ruas da cidade, sempre acompanhados de uma pequena multidão. No Portão da Graciosa, que ficava em frente ao Hospital, foi feita uma pequena despedida. As Bandeirantes cantaram para seus colegas o Hino “Companheiros marcharemos Unidos”. Defronte ao Matadouro Municipal, houve outra despedida. Segundo Lydio, os olhos dos seus pais neste local ficaram brilhando de emoção. Alguns não conseguiam esconder as lagrimas. Os rapazes não resistiram e choraram também. 

Neste ponto, o Chefe Picanço deu aos meninos uma estampa de Nossa Senhora do Pilar, a Padroeira da cidade. Era a largada oficial. Os rapazes continuaram, até que, não primeira curva da estrada da graciosa, acenaram um último adeus. 

A aventura estava, enfim, começando.

domingo, 15 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 3 - SURGE A PATRULHA TOURO

Anuncio no jornal O Dia, de Curitiba, informando o percurso dos "Itas" da Costeira, indo e vindo de Norte a Sul; 
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) são os escolhidos para compor a Patrulha Touro, que ira realizar a marcha até o Rio de Janeiro.)

Antonina era uma pequena cidade marítima, no estreito litoral do Paraná. Seu pequeno porto, porém, era muito bem situado. Localizado no fundo da baia de Paranaguá, estava no início da estrada da Graciosa, então o melhor caminho para o planalto. Enquanto a distância de Paranaguá a Curitiba era de 120 km, passando por rios e Serras altas, o caminho da graciosa, além de bonito, era o que oferecia o melhor custo benefício para os carroceiros e, depois, para os pequenos veículos a motor. O binômio porto mais próximo e a estrada da Graciosa constituía uma vantagem sensível para o comercio da Deitada-a-beira-do-mar. 

O porto de Paranaguá, uma das principais cidades do estado, também era um adversário terrível. Perdendo na questão geográfica, combateu com o estabelecimento de um novo modal de transporte como diferencial. Este diferencial seria a ligação do porto com a ferrovia. Paranaguá assumiu esta vantagem no final do século XIX, sendo o caminho final da linha férrea, inaugurada em 1885. Antonina, logo a seguir, emparelhava a disputa com o ramal ferroviário até a cidade de Morretes. Os dois portos, associados e concorrentes, eram pontos importantes do transporte marítimo de cabotagem do Rio de Janeiro para o sul do Brasil e mesmo para Uruguay e Argentina. 

Entretanto, a crescente malha ferroviária, embora muitas vezes parceira, também punha em xeque o transporte marítimo, principalmente no sul. A princípio, o trilho era um associado do transporte de cabotagem, fazendo ligações e encurtando distancias de maneira cooperativa. No entanto, com a chegada do automóvel, ameaçando a ferrovia, a cabotagem começou a rapidamente perder importância.
A década de 30 em Antonina foi um período de muito aperto econômico. Os velhos armazéns que antes controlavam o comércio da cidade com Curitiba e com os portos mais próximos, como Santos e Florianópolis, mudaram-se em sua maior parte para Paranaguá e Curitiba. O pequeno comércio local que não conseguiu se mudar da cidade e era dependente do sistema de cabotagem, começou a diminuir. Com a interrupção das atracagens da Costeira e do Loide na cidade, a situação começou a ficar desesperadora para estes comerciantes. Da mesma forma, os Sindicatos de Estivadores e os que trabalhavam nas firmas embarcadoras foram ainda mais duramente afetados. 

Não se sabe de onde veio a ideia de mandar os rapazes para o Rio. Mas, desde o início, a ideia pareceu boa. Estávamos vivendo no regime do Estado Novo, a Ditadura Varguista. O escotismo era um dos pilares de Vargas, assegurando o surgimento de uma juventude patriota e adestrada, fortemente associada ao regime. Uma vez que o destino das companhias de cabotagem estava em suas mãos, por que não quatro meninos a convencê-los? 

O grupo escoteiro Valle porto havia sido fundado havia três anos, em 1938. Era um grupo jovem, mas bastante organizado. Desde o início fortemente associado aos encontros escoteiros da região, possuía uma tropa bem treinada. Muitos destes escoteiros participaram nestes primeiros anos de diversos encontros de escoteiros em Joinville, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Era um grupo forte e motivado. 

Caminhadas também eram o forte do Grupo Escoteiro Valle Porto. Em maio de 1940, os escoteiros Rubens Nagorne Vieira, Lourival silva, Lydio dos Santos Cabreira e Alceu Pereira da Silva haviam participado de uma caminhada a pé de 82 km, ligando Antonina a Curitiba. Foi um feito notável. Este Raid, que era como se chamavam então este tipo de competição, foi o batismo da patrulha Touro. Esta foi, com algumas modificações, a patrulha encarregada da missão no Rio de Janeiro. 

Uma vez definido o grupo, foram reunidos na Patrulha Touro cinco rapazes que pudessem dar cabo da tarefa. A escolha, bem se pode imaginar, era a escolha de rapazes que tivessem experiência em caminhadas, em acampamentos, mas, que, também, pudessem agir como um grupo. Sem isso, a missão jamais poderia ter sido concluída com êxito. 

Quem eram estes rapazes?

sábado, 14 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 2 - PEGUEI UM ITA NO NORTE


O industrial Henrique Lage (1881-1941) e sua esposa Gabrielle Besanzoni (1888-1962). O drama pessoal do casal influenciou indiretamente a marcha dos escoteiros
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. Quais são as motivações da marcha dos escoteiros?)

Qual foi a motivação dos jovens escoteiros ao fazer esta tão grande e arriscada viagem?

O motivo era econômico, e tinha a ver com a sobrevivência do porto e da própria cidade. Na carta que estavam levando à Getúlio Vargas, os escoteiros pediam que fosse reaberto em Antonina o escritório da Companhia Costeira e do Loide Brasileiro, que haviam sido fechadas poucos meses antes. Estas eram importantes companhias de navegação que haviam pertencido ao industrial Henrique Lage (1881 – 1941). 

Filho de um importante industrial do ramo de carvão e dono de estaleiros, Henrique Lage estudou engenharia Naval nos Estados Unidos. Era um empresário extremamente dinâmico, e chegou a construir um verdadeiro império, envolvendo siderúrgicas, estaleiros e Companhias de navegação. Espreitando a oportunidade, Henrique Lage aproveitou-se da onda de substituição de importações no Brasil depois da 1ª Guerra mundial e fez fortuna vendendo navios em seu estaleiro na ilha do Vianna, em Niterói. 

Henrique Lage foi um capitão de indústria nacionalista e preocupado com o desenvolvimento nacional. Orgulhava-se de fabricar navios e mesmo aviões aqui mesmo no Brasil. Segundo se dizia, com um mínimo de peças importadas. Também foi o criador da primeira refinaria de sal brasileira, que fabricava a marca de Sal Ita, que existe até hoje.

Henrique Lage herdou do pai a companhia Costeira de Navegação. Era um resquício da antiga companhia Norton & Megaw, que fora nacionalizada nos primeiros tempos da República. Com o passar o tempo, a Costeira, junto com a companhia Loide brasileiro, foram as principais companhias de navegação do país. A Costeira tinha como características os navios que iniciavam seu nome com Ita, como Itagiba, Itaquera e Itassuci. Tamanha era a popularidade da Costeira, que Ita passou a significar para a população o mesmo que navio. Não por acaso, um dos grandes sucessos do início de carreira de Dorival Caymmi foi “peguei um Ita no Norte”. 

No entanto, depois de muito sucesso nos anos 20, nos anos 30 o império Henrique Lage começou a passar por dificuldades. A navegação de cabotagem passava por serias dificuldades, sentindo a competição do trem e do automóvel. Dependente de subsídios governamentais, as duas companhias estavam com sérios problemas financeiros. Em 1941, a comissão da marinha mercante aperta o cerco e suspende as subvenções pagas às companhias de navegação. 

Henrique Lage morre em junho de 1941. O governo Vargas começa a estender seus tentáculos para a companha, que é reestruturada. A viúva de Henrique Lage, a cantora lírica Italiana Gabriella Besanzoni, seria destituída logo a seguir. Para afastá-la da direção, o governo alega que a empresa só poderia ser dirigida por brasileiros. No ano seguinte, com a declaração de guerra as potencias do Eixo, as empresas seriam nacionalizadas. 

A Cidade de Antonina era muito dependente da navegação costeira, ou seja, da navegação de cabotagem. Com a reestruturação da companhia, os navios do Loide e da Costeira não chegariam mais na cidade, interrompendo os fluxos de comercio que a cidade mantinha. Alguma resposta tinha que vir. A resposta veio da Associação Comercial? Da Prefeitura? 

A solução, ainda que desesperada, veio do grupo de escoteiros.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 1 - INICIA-SE A NARRATIVA.


O escoteiro antoninense Milton Horibe entregando a Mensagem a Getúlio Vargas, em Petrópolis, fevereiro de 1942; uma grande epopéia tinha ali seu ponto máximo. 
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. Esta é a primeira de uma serie de postagens até o dia 5 de março, onde será contado o dia-a-dia da aventura. )

Poucas histórias sobre Antonina são tão cheias de ardor e espírito épico que a história da Marcha dos Escoteiros da Patrulha Touro, em 1941-42, a pé, de Antonina até o Rio de janeiro, perfazendo cerca de 1250 km. A aventura de quase três meses dos quatro rapazes viajando pelo Brasil para entregar uma carta ao Ditador Getúlio Vargas, em pleno Estado Novo, é, antes de mais nada, uma boa história. 

Dela, já se falou muito. Histórias correm, daqui pra lá de lá pra ali, sobre estas aventuras. Entrevistas, cerimonias comemorativas, textos em jornais e revistas (e mesmo dezenas de textos aqui neste blog modesto, mas honesto), assim como documentários mais ou menos teatralizados feitos para a televisão foram realizados. 

O texto dos diários do escoteiro Lídio Cabreira, digitalizado há mais de duas décadas, é a fonte principal. O que se pretende com esta serie de postagens é fazer uma cobertura a mais completa possível de toda a aventura, desde seus primeiros momentos em dezembro de 1941 até a volta triunfal dos rapazes para casa, em março de 1942.

Além de contar a história dos diários de Lídio, que são o fio condutor desta narrativa, foram acrescentados outros dados, como informações das cidades que os escoteiros passaram, muitas delas visitadas em anos recentes pelo autor destas linhas. Foram também realizadas pesquisas em jornais da época, principalmente os jornais do Rio e de São Paulo. Nelas, a aventura dos meninos está lá, ora como curiosidade, ora como espanto. 

Como todo relato, este é um relato incompleto. Faltam os originais do diário de Lídio, os quais poderiam trazer mais informações sobre a aventura. Faltam também mais documentação sobre os contatos entra a tropa Valle Porto, em Antonina, e a União dos escoteiros do Brasil, no Rio de Janeiro. Faltam mesmo documentação da própria UEB, que nunca reconheceu de maneira categórica a marcha dos escoteiros antoninenses como uma das maiores façanhas do escotismo brasileiro. 

A cidade de Antonina, nossa querida Deitada-a-beira-do-mar, sempre soube reconhecer os feitos dos rapazes. Muitas homenagens já foram feitas. Milton Horibe, o escoteiro de 1ª classe, e que foi o responsável pelo destino de entregar a carta a Getúlio Vargas, é nome de rua em sua terra. 

Uma história pode ser contada de vários jeitos. É o que costumamos chamar, neste nosso tempo tão difícil, de narrativa. Este é um convite. Convido a todos meus amigos e leitores deste blog a seguir esta história, que iremos contar aqui, ao longo dos próximos meses.

domingo, 1 de setembro de 2019

URUBLUES 100 MIL VISUALIZAÇÕES!!

print de hoje, quando passamos das 100.000 visualizações!! Obrigado a todxs!!

ANO NOVO EM ITAPETININGA


Quartel do 5º BC de Itapetininga, onde os rapazes ficaram na véspera de ano novo de 1942
As 6:00 da manhã os meninos partiram de Gramadinho, com destino a Itapetininga. Agora, a estrada era mais plana, com uma paisagem marcada por morros suaves. Era tão plano que as maiores elevações eram as arvores e capões de mato, circundadas por casas de fazenda. A estrada seguia cercada de grandes pés de eucalipto, que tornavam a paisagem mais tranquila e fácil de percorrer. Ao redor, sucediam-se grandes plantações a fazendas de gado.
Os rapazes também estavam mais acostumados com a caminhada, que se fazia sem maiores esforços. Já não sentiam tanto esgotamento físico. Somente no fim do dia batia um certo cansaço. E foi lá pelas 16 horas que eles chegaram em Itapetininga.
Itapetininga era sede do 5º batalhão de caçadores, o 5º BC, onde os meninos procuraram alojamento. Milton e Lídio já conheciam o quartel do 5º BC, em janeiro de 1940, vindo de um encontro escoteiro em São Paulo, os dois ali estiveram, pois havia a ideia de um grupo escoteiro na cidade, que acabou não vingando.
No quartel, foram recebidos pelo comandante, o tenente-coronel Orlando Werney Campello, que os tratou muito bem. O Tenente-coronel contou-lhes que na mocidade também tinha sido escoteiro, o que os deixou bem felizes. E os alojou numa das companhias do batalhão, onde deixaram as tralhas e entraram na fila do rango.
Depois do rango, os rapazes foram procurar o prefeito da cidade, para que assinasse o livro de passagem. No entanto, o que chamou atenção dos rapazes foi uma festa religiosa. Era a festa de Nossa Senhora Aparecida do Sul, padroeira da cidade.
Segundo Lídio nos conta em seu diário, era uma festa muito grande. Não faltaram romeiros, animados por cinco bandas de música e muitas barracas de comida. Na hora da festa, a igreja matriz foi iluminada por centenas de lâmpadas elétricas, que impressionou bastante os rapazes.
Lá pelas onze da noite, os rapazes voltaram ao quartel, para esperar a chegada do ano novo. Deitados nas camas, os cinco rapazes escutaram a grande festa de fogos e de repique de sinos e apito das fábricas saudando o ano de 1942 que se iniciava.
No entanto, naquele momento, segundo anotou Lídio em seu diário, todos os cinco estavam quietos, deitados em suas camas de quartel e pensando nos seus familiares lá, na cada vez mais distante Antonina.