quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 14: A FESTA DE SÃO BENEDITO!


A Gloriosa Vila de Santo Antonio das Minas de Apiaí, hoje Apiaí, em vista aérea de 1941
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 26 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão em Apiaí, onde presenciaram uma importante festa religiosa.)
Para Alexandre Oliveira, o Alê



Os bravos escoteiros chegaram em Apiaí no dia 26 de dezembro de 1941. Cansados depois de vencer a Serra de Apiaí numa noite, vindos de Capela da Ribeira, eles foram procurar o prefeito municipal. Ao chegar numa cidade, os escoteiros tinham por obrigação procurar as autoridades para assinar o livro que dava conta da passagem deles pelo local. 

No entanto, o prefeito de Apiaí, o Senhor Isaias Teixeira, acabou por fugir dos meninos. Estes o viram quando ele entrou em sua casa, em companhia de outro homem. No entanto, ao baterem na porta, informaram que ele não estava. Tudo Isso, segundo Lídio, porque o prefeito receou que eles fossem mendigar estadia no seu hotel, o Hotel Teixeira, o melhor hotel da cidade. “Isso nunca será esquecido por nós”, anotou Lídio em seu diário. 

Por fim, os rapazes acabaram por montar barraca numa clareira perto da cidade. Haviam decidido não caminhar mais aquele dia, pois estavam todos cansados com assaduras nas pernas. O local onde acamparam era num terreno onde havia um hospital em construção. Ali colocaram as lonas e se abrigaram do sol inclemente.

 Apiaí está localizada a mais de mil metros de altitude, num topo de morro, com uma avenida principal serpenteando pela cumeeira. Descendo desta avenida estão as ruas centrais onde estão as casas das pessoas mais ricas do lugar. Nos vales mais abaixo se encontram as casas mais simples, das pessoas mais pobres. Lídio anota que cerca de 70% das pessoas em Apiaí eram negros, provavelmente descendentes dos que trabalharam como escravos nas ricas Minas de Apiaí, que tanto fizeram a fama da cidade. 

Apiaí tinha funcionando próxima da cidade a Mina do Morro, uma das mais importantes minas de ouro do vale do Ribeira. Explorada por uma empresa japonesa, a mina estava escavando galerias e tirando o ouro por métodos modernos de extração para a época. A exploração foi interrompida quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo, poucos meses depois da passagem dos escoteiros por Apiaí. A área da Mina do Morro hoje em dia é um parque bem próximo da cidade, com intensa visitação. 

Do outro lado da cidade, a Usina Experimental de Chumbo, no bairro do Palmital, havia iniciado naquele mesmo ano de 1041 sua produção. Construída pelo governo paulista com a administração do IPT, a usina também era uma aposta do governo paulista na exploração de chumbo e prata por técnicas mais modernas e baratas, viabilizando a produção das pequenas minas da região. Fechada durante a guerra, a usina nunca mais funcionou. 

No dia em que os rapazes por lá chegaram, a população negra de Apiaí estava em festa, pois era dia de São Benedito. Os rapazes, depois de um descanso, fizeram uma janta composta por costela de porco assada, pão e café de coador. Depois que o sol baixou, as cinco da tarde, eles foram à cidade para apreciar a festa. 

A procissão, composta quase que totalmente por negros, era bastante impressionante. A confraria de São Benedito, carregava a estátua do santo pelas ruas, ao som de cânticos, seguida por uma multidão. Os membros da confraria, responsáveis pelo andor, vestiam uma túnica branca e portavam tocheiros com vela. 

Depois da procissão, já cansados, os rapazes voltaram ao seu acampamento improvisado nas obras do hospital, onde dormiram um sono pesado.

2 comentários:

  1. Capítulo a capítulo, os escoteiros adquirem mais e mais vida através do seu texto saboroso, capaz de nos levar através da história.

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  2. Muito obrigado, Edson!! Vale muito sua leitura crítica!

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