sábado, 4 de janeiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 23: MANDUCA BAIXA AO HOSPITAL


A cidade de Araçoiaba da Serra, a Antiga Campo Largo de Sorocaba. Ao fundo, o belo Moro do Araçoiaba
(Estamos no mês de janeiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 4 de janeiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão saindo de Araçoiaba e chegando em Sorocaba. Manduca, doente, tem que ir ao hospital!)

Os rapazes partiram cedo de Araçoiaba. Faltavam só 140 quilômetros até São Paulo, o que ainda demandaria quatro dias de marcha. Lá pelas dez da manhã o sol ia impondo o ritmo da caminhada. A água que eles tinham era muito salobra, e não matava a sede. A caminhada era penosa, feita sob o sol quente. 

No entanto, o que os ajudou neste caminho foram as laranjas. Como conta Lydio, Araçoiaba, antigamente conhecida por Campo Largo de Sorocaba, tinha extensas plantações de laranja. Segundo nos conta, estas laranjas eram consideradas as mais doces do mundo, sendo exportadas para o exterior. 

No entanto, o laranjal também tinha problemas éticos a oferecer. Segundo lídio, a 9ª lei do escoteiro diz que “o escoteiro é econômico e respeita o bem alheio”. Quando acabavam as laranjas que eles haviam levado, e não querendo se apropriar indevidamente do produto, os meninos ficavam mesmo com sede sob o sol escaldante, olhando, com agua na boca, as laranjas madurinhas nas laranjeiras bem na frente deles. 

À esquerda da estrada que os meninos seguiam estava o famoso morro do Araçoiaba. Destacando-se na planície, o morro era um dos marcos mais importantes do planalto de Sorocaba. É formado por rochas ígneas alcalinas que perfuraram os sedimentos paleozóicos havia uns 60 milhões de anos. 

O morro não se destacava somente pelo relevo. Continha importantes jazidas de ferro, que haviam sido mineradas desde o período colonial. Ali estão as famosas “lavras dos Sardinha”, o primeiro registros de fundição do ferro no Brasil. E, também, a grandiosa Fábrica de Ferro de Ipanema, que havia funcionado, com  alguns períodos de interrupção, de 1817 até o final do século XIX, tendo fabricado boa parte do ferro consumido no Brasil e estimulado o desenvolvimento da agricultura e da indústria paulista. No entanto, apesar disso, e apesar de tê-lo visto imponente, Lídio não deve ter notado o morro do Araçoiaba, pois não faz nenhuma menção a ele em seu diário. 

As 11 horas da manhã daquele domingo, 4 de janeiro de 1942, os meninos comeram um “qualquer-coisa” numa venda de beira de estrada – uma rápida refeição e um cafezinho temperado com açúcar – os meninos finalmente chegavam em Sorocaba. As 16 horas estavam entrando na área urbana da cidade. 

Lídio anota que Sorocaba, fundada em 1654 pelo Capitão Baltazar Fernandes, era conhecida como a “Manchester Paulista”, em razão de suas inúmeras fabricas. Tinha na época uma população de 120 mil habitantes. Rica cidade industrial, Lídio anota que Sorocaba possui “diversas escolas de ensino superior, duas emissoras de rádio e muitos estabelecimentos bancários”. 

Os meninos procuraram alojamento no 7º Batalhão de Caçadores da Força Pública de São Paulo. Lídio considerou o quartel uma maravilha de engenharia militar. Situado numa colina, o quartel dominava toda a cidade. Foram recebidos por um oficial subalterno e conduzidos ao comandante da corporação. 

A assistência que recebera no 7º BC foi, para Lídio, “sem igual”. Massacrados pelo sol, os meninos foram imediatamente tomar um banho para se refrescar. Foi quando aconteceu o acidente: antes de entrar no chuveiro, Manduca sentiu-se mal e caiu duro no piso do banheiro. Com o pescoço todo retesado, parecia que estava morto. 

Assustados, os meninos procuraram a assistência do quartel. Na enfermaria, constatou-se que o pobre Manduca estava com estafa, subnutrição e diarreia. Foi imediatamente conduzindo para tomar injeção e soro. Nisso, todos os meninos acabaram por fazer exame médico geral. Apesar de cansados, todos estavam bem, e foram aprovados no exame médico. Mas Manduca ainda ficaria internado por mais um tempo, para se recuperar. 

Finalmente, os meninos tomaram banho e foram jantar. Tiveram direito até a gasosas, e a uma comida reforçada. Comeram muito. Precisavam repor as energias gastas com aquelas caminhadas ao sol quente. 

Depois, foram passear pela cidade. Andaram por algumas ruas e foram ver uma retreta na praça, também fizeram uma visita à PRD 7 rádio difusora de Sorocaba. Mas era esforço demais. Os meninos voltaram mais cedo para o quartel e foram dormir, ainda preocupados com a situação de saúde de Manduca.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 22: DORMINDO NA DELEGACIA


Primeira Pagina do Correio Paulistano de 3 de janeiro de 1942

(Estamos no mês de janeiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 3 de janeiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão no rumo de de São Paulo. No final do dia eles chegam em Araçoiaba. o que o destino vai aprontar?)

Na manhã seguinte, um sábado, 3 de janeiro de 1942, os escoteiros foram acordados pelo barulho que os caminhões e automóveis faziam ao passar pela casa abandonada onde estavam alojados. 

Nesse dia, não havia nada o que comer. A solução foi caminharem em jejum até o próximo lugar que estivesse aberto. Com fome, as reclamações apareceram mais nítidas. Os meninos reclamaram muito com o chefe Beto, a quem acusavam de negligência. Como ele não havia previsto aquela parada abrupta no meio do nada, sem se prevenir e comparar comida? 

Enquanto caminhavam rápidos em busca do que comer, os rapazes rapidamente deixaram pra trás o andarilho que lhes fizera companhia na noite anterior. O pobre homem, que também ia pra são Paulo, não conseguiu acompanhar o ritmo mais rápido dos escoteiros, embora estes carregassem em geral bastante peso. 

Eram quase dez horas da manhã quando chegaram em Capela do Alto, uma pequena localidade a beira da pista. Lá, encontraram algo para comer. Depois de saciados, tudo pareceu mais fácil. Agora a caminhada se fazia por colinas suaves, que cortavam diversas plantações de abacaxis e ananases. Neste passo, as 17 horas chegaram na cidade de Campo Largo de Sorocaba, hoje Araçoiaba da Serra. 

Ali, não havia hotéis ou pensões. O jeito foi pedir alojamento na delegacia de polícia. A delegacia de polícia de Araçoiaba era muito limpinha, segundo Lídio.  Uma família amiga (seriam conhecidos de Antonina?) providenciou uma farta janta para os rapazes. 

Novamente descansados e de estômago cheio, os bravos rapazes saíram pela cidade no sábado à noite, em missão de reconhecimento. Entraram num bar, onde uma radiola estava tocando músicas animadas. Ali se informaram um pouco mais sobre a cidade.

Araçoiaba possuía nesta época 2 mil habitantes, e tinha uma praça muita bonita e iluminada, em frente à matriz. Ao lado da igreja estava o cinema, um grupo escolar e um clube social. 

Ao voltar à delegacia, encontraram o Chefe Beto conversando animadamente com o delegado. O delegado, chamado por todos de Gaúcho, era um 2º tenente da força pública estadual. Já um tanto idoso, segundo o parecer de Lídio, era também muito atencioso e conversador.  

Lídio ficou curioso, entretanto, com os cartazes de procurados pregados nas paredes da delegacia. Nunca havia visto esse tipo de cartaz, a não ser nos filmes. 

O que mais o espantou foram os nomes dos crimes atribuídos a cada um. Anotou: excruncho, punguista, escroque, rufião, estuprador. A maioria, entretanto, eram os assassinos. 

Para alívio de Lídio e dos demais rapazes, a delegacia neste dia estava vazia.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 21: O ATAQUE DOS CACHORROS DO MATO

A Igreja da irmandade de N.S. do Rosário, em Itapetininga, onde os escoteiros antoninenses passaram o Ano Novo de 1942
(Estamos no mês de janeiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 2 de janeiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão saindo de Itapetininga, com destino a São Paulo.)

Os rapazes tinham que seguir viagem. Quando deu o toque de alvorada no 5º BC de Itapetininga, eles já estavam de pé com as tralhas todas para seguir viagem. O destino agora era São Paulo. 

No entanto, naquela bela manhã de janeiro, estava faltando água no quartel.  Não havia água na caixa geral. Somente uma torneira funcionava, mas ela estava reservada aos oficiais. Lídio, no entanto, estava determinado a lavar o rosto. Quando estava assim determinado, não conhecia limites. 

Foi procurar a tal torneira. Uma caixa d’água de latão ficava numa pequena torre, e a torneira ficava próxima de um pé de cedro. Um cabo ficava ali, não deixando que os soldados se aproximassem. 

Lídio chegou por trás, sem que o cabo o visse e percebeu que a caixa estava cheia d´água. Nesse momento, um oficial chamou o cabo que tomava conta da torneira. Era para entregar um pacote para o outro oficial, que estava na casa de comando. 

Lídio aproveitou para encher o cantil. E o fez rapidamente. O cabo já vinha voltando quando ele encheu o cantil de água. O cabo, desconfiado, perguntou o que ele estava fazendo. Lídio se fez de besta, e perguntou se ele podia encher o cantil ali na torneira. O cabo disse que não e o enxotou dali. Lídio se apressou em sair de perto, saboreando a vitória. E foi dividir o cantil com os outros rapazes, que puderam tomar café com o rosto lavado e a boca escovada. 

Assim limpos, os rapazes saborearam com mais gosto o reforçado café servido pelo quartel. Segundo Lídio, o café era café com leite e pão com queijo e goiabada. Delícia pura!

Depois, despediram-se dos oficiais ali presentes, bem como dos soldados, cabos e sargentos, que tão bem os haviam acolhido nestes últimos dois dias. E seguiram viagem. 

Estavam tão descansados que caminharam muito bem toda a manhã. Ao meio dia estavam já chegando em Alambari, um pequeno distrito de Itapetininga. Ali, almoçaram um sanduiche de pão com ovos e café oferecido na casa de um ferreiro do lugar. Quando deixaram pra trás Alambari é que sentiram o calor que estava fazendo. 

Os termômetros marcavam 40ºC à sombra. Depois de caminhar naquele sol infernal por uns 13 quilômetros, acabaram por se abrigar num rancho coberto de sapé na beira da estreada. O relógio de Lídio marcava neste momento 18:20 horas. 

No entanto, ali não havia água. Milton e Manduca foram procurar nas proximidades. 

Quando anoitecia um velho andarilho que ia para São Paulo também parou no rancho. Pediu proteção e agasalho para passar a noite. 

Lídio já tinha ido dormir, de tão cansado estava. O andarilho recomendou que tivessem muito cuidado e mantivéssemos o fogo alto porque nesta área existiam muitos cachorros do mato ferozes. E não foi conversa fiada do andarilho. Efetivamente os cachorros do mato vieram espreitar a casa. Com o fogo aceso, limitaram-se a vigiar de longe. O fogo, evidentemente, foi mantido por toda a noite.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 20: CANÁRIO, O "CRACK" DA PELOTA!


O Furacão original, o grande time do Atletico-PR nos anos 1940: Canário tinha vaga neste time?
(Estamos no mês de janeiro de 1942. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 1 de janeiro de 1942, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão descansando em Itapetininga, para seguir viagem rumo de São Paulo.)

O corneteiro tocou a alvorada no quartel do 5º BC em Itapetininga, pontualmente às 6 horas da manhã. 

Os escoteiros acordaram ainda tontos de sono, e foram para o banheiro, lavar-se para o café. Junto com os soldados do batalhão, os meninos participaram das solenidades todas do dia. Entre estas estava a formatura da tropa e o hasteamento da bandeira, tudo isso ao som do Hino Nacional. 

Em seguida, acompanhados por duas bandas, os escoteiros desfilaram pelas ruas da cidade ao redor do quartel. Depois disso, dia livre!

Lídio aproveitou a folga para escrever uma carta para sua mãe. Nessa carta, reclamava dos abusos que o chefe Beto vinha praticando contra todos os meninos. Na carta, Lídio conta que Beto centralizava o dinheiro e não dava um tostão aos rapazes.

 Lídio pedia que a mãe fosse em casa de seu Manequinho para contar os desmandos do chefe. Ele nos conta que terminou de escrever a carta com os olhos cheios de lagrimas. Lembra também que todas as vezes que fora reclamar com o chefe Beto, este logo lhe dizia que não tinha nada a explicar. Afinal, ele era o chefe e os outros deveriam obedecer a hierarquia.  

Depois de postar a carta, Lídio saiu a passear pela cidade. Foram também, é claro, ver o local onde estava acontecendo a festa de Nossa Senhora Aparecida. Lá, acabaram por assistir a missa campal celebrada ao fim da manhã. 

Quando no quartel deu o toque de corneta anunciando a hora do rancho, os rapazes estavam todos de volta para aproveitar o almoço especial de ano-novo. Neste dia, para alegria dos rapazes, havia refrigerante e sobremesa. 

Durante a tarde, no quartel, os escoteiros escutaram um pouco de rádio, para se informar do que acontecia na guerra. Também ouviram as notícias nacionais, como nos conta Lídio. 

Ao fim da tarde, já que estavam de descanso, os escoteiros combinaram com alguns rapazes da cidade uma partida de futebol, num campo de futebol suíço das proximidades. Lidio conta que a equipe foi reforçada com dois soldados do 5º BC de Itapetininga. A estrela do match, no entanto, foi Canário. Ao final, puderam se vangloriar de um placar de 10 a 4 a seu favor, mais o show de Canário. 

Depois da janta, foram passear pela cidade. Lídio e Manduca foram conhecer a rádio Emissora de Itapetininga, onde foram entrevistados e deram uma cordial saudação ao povo de Itapetininga, que tão bem os estava recebendo. 

Participaram também da procissão de Nossa Senhora Aparecida. Lídio nos conta em seu diário que fora uma das mais bonitas que ele havia visto. 

Quando se fez o toque de silêncio, todos estavam de papo pro ar. Todos, menos Manduca, que estava uma fera. Aquele dia, as brincadeiras estavam um pouco além da conta. Em geral, quem dormia primeiro tinha os travesseiros ou a coberta roubada pelos colegas, e acordava morrendo de frio. Outra brincadeira era amarrar os pés com um lenço só pra ver o tombo do infeliz ao levantar-se pela manhã. 

Mas a predileta de todos - menos, é claro, das vítimas - era o famoso “mosquitinho”. Queimava-se um palito de fósforo e deixava=se na brasa. Depois, era colocado entre os dedos dos pés, da vítima adormecida. Quando a brasa chegava até a pele, em geral a pessoa acordava subitamente com a dor. Segundo Lídio, “era o maior sarro do mundo”.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 19: ANO-NOVO EM ITAPETININGA!


O quartel do 5º BC, em Itapetininga, onde os rapazes ficaram alojados no Ano-Novo de 1942
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 31 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão chegando em Itapetininga, onde passariam a virada do ano.)

As 6:00 da manhã os meninos partiram de Gramadinho, com destino a Itapetininga. Agora, a estrada era mais plana, com uma paisagem marcada por morros suaves. Era tão plano que as maiores elevações eram as arvores e capões de mato, circundadas por casas de fazenda. A estrada seguia cercada de grandes pés de eucalipto, que tornavam a paisagem mais tranquila e fácil de percorrer. Ao redor, sucediam-se grandes plantações a fazendas de gado. 

Os rapazes também estavam mais acostumados com a caminhada, que se fazia sem maiores esforços. Já não sentiam tanto esgotamento físico. Somente no fim do dia batia um certo cansaço. E foi lá pelas 16 horas que eles chegaram em Itapetininga. 

Itapetininga era sede do 5º batalhão de caçadores, o 5º BC, onde os meninos procuraram alojamento. Milton e Lídio já conheciam o quartel do 5º BC, em janeiro de 1940, vindo de um encontro escoteiro em São Paulo, os dois ali estiveram, pois havia a ideia de um grupo escoteiro na cidade, que acabou não vingando. 

No quartel, foram recebidos pelo comandante, o tenente-coronel Orlando Werney Campello, que os tratou muito bem. O Tenente-coronel contou-lhes que na mocidade também tinha sido escoteiro, o que os deixou bem felizes. E os alojou numa das companhias do batalhão, onde deixaram as tralhas e entraram na fila do rango. 

Depois do rango, os rapazes foram procurar o prefeito da cidade, para que assinasse o livro de passagem. No entanto, o que chamou atenção dos rapazes foi uma festa religiosa. Era a festa de Nossa Senhora Aparecida do Sul, padroeira da cidade. 

Segundo Lídio nos conta em seu diário, era uma festa muito grande. Não faltaram romeiros, animados por cinco bandas de música e muitas barracas de comida. Na hora da festa, a igreja matriz foi iluminada por centenas de lâmpadas elétricas, que impressionou bastante os rapazes. 

Lá pelas onze da noite, os rapazes voltaram ao quartel, para esperar a chegada do ano novo. Deitados nas camas, os cinco rapazes escutaram a grande festa de fogos e de repique de sinos e apito das fábricas saudando o ano de 1942 que se iniciava. 

No entanto, naquele momento, segundo anotou Lídio em seu diário, todos os cinco estavam quietos, deitados em suas camas de quartel e pensando nos seus familiares lá, na cada vez mais distante Antonina.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 18: LINGUIÇA SALGADA COM FARINHA SURUÍ


Bairro da Serraria, Capão Bonito (SP), 1940
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 30 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) saíram de Capão Bonito, com destino a Itapetininga.)

No dia seguinte, os escoteiros aproveitaram as camas da pensão do Chefe Mimi, na cidade de Capão Bonito, e dormiram um pouco mais. O sol forte do caminho ia começando a produzir seus estragos. Os rapazes, como de hábito, acordaram cedo. No entanto, tiveram que esperar pelo café, para ser tomado com o chefe e sua família. Tomaram um bom café ao redor da mesa da pensão. Mas todos estavam impacientes, a estrada os esperava. Lá pelas 9:30, puseram-se novamente na estrada. 

Neste mesmo dia, o jornal Correio Paulistano, grande jornal da Capital, colocava numa pequena nota, dizendo que os escoteiros da “prospera cidade paranaense [de Antonina]” haviam passado por Ribeira as 11 h do dia 23 (na verdade, como vimos aqui, foi no dia 24). Apesar de pequenas, a nota dava a entender que havia noticia da aventura e que esta estava sendo acompanhada pela imprensa.

A partir de Capão Bonito, os rapazes entrariam numa região bem mais plana que o planalto de Apiaí e as serras de Paranapiacaba. No plano, também, havia vários caminhos a percorrer. O mais curto deles passava por cidades pequenas, como São Miguel Arcanjo e Pilar do Sul. No entanto, avaliaram que seria muito mais penoso, e com menos estrutura. Decidiram, portanto, seguir a rota mais antiga e mais longa, mas que passava por centros maiores, como Gramadinho, Itapetininga Sorocaba e São Roque. 

O caminho foi bastante tranquilo. Apesar do sol forte, os rapazes chegaram a Gramadinho, a próxima etapa da viagem, ainda no fim do dia. Lá, acabaram por pedir pouso numa Delegacia de Polícia. Lídio não esqueceria esta noite. 

Atacado por uma forte dor de cabeça, Lídio pediu aos companheiros um copo de agua para tomar uma aspirina. Milton e Manduca foram ao poço que havia nos fundos da delegacia. Mas eles estavam demorando para trazer o tal do copo de água. Lídio se impacientou. Mesmo com febre e dor de cabeça, foi lá fora ver onde eles estavam. A situação que encontrou não era nada fácil. 

Com os pés no chão frio e meio zonzo da febre, Lídio foi encontrar os companheiros. No meio da noite, Milton e Manduca estavam tentando passar por um arame farpado que dava acesso ao poço. O acesso se fazia por meio de um caracol de arame farpado, que foi difícil de cruzar no meio da noite escura.
Uma vez resolvido o acesso ao poço, os rapazes tiveram que consertar a manivela do poço, que estava quebrada. Mas, apesar de todos os perrengues, ainda viriam outros mais:  quando puxaram a água do poço viram que o balde estava furado. Nada de água. A febre de Lídio continuava. 

Um deles foi pegar uma marmita. Improvisada como balde, jogaram a marmita e ela desceu e voltou lá de baixo, cheia água. Quando foram ver, a água era meio salobra. Mas Lídio estava desesperado. A febre seguia e ele estava desesperado para tomar a aspirina. Nessa hora, o rapaz não quis nem saber. Pegou a marmita e tomou a aspirina na água ruim do poço da Delegacia. 

Quando voltaram para o alojamento, ainda meio zonzo, os rapazes foram dormir. Após um momento, a dor de cabeça de Lídio foi passando e, com ela, veio o sono. Somente no dia seguinte foi que ele se lembrou de uma linguiça salgada com farinha suruí, que havia comido na noite anterior.

domingo, 29 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 17: EM CASA DE CHEFE MIMI!


A bonita cidade de Capão Bonito em 1941, vista do alto
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 29 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão, depois de longa caminhada,  chegando em Capão Bonito. O que vai acontecer?)

Lídio era o mais dorminhoco de todos. Sempre ia dormir cedo e acordava tarde. Sempre que se atrasava, o paciente Milton tentava acorda-lo. As vezes por bem, as vezes com alguns beliscões, Milton sempre punha Lídio em pé. 

Aquele dia tinham um objetivo mais fácil: Capão Bonito, distante 35 Km de Guapiara. Agora o relevo havia mudado, e os morros pequenos e íngremes do planalto de Apiaí foram ficando cada vez maiores e menos íngremes. A caminhada estava ficando mais fácil, embora o calor fosse intenso. 

Entretanto, houve um imprevisto: chefe Beto havia deixado seu revólver com o Delegado para cuidar durante a noite. E tinha esquecido de pegá-lo. Maçada! Sobrou para o subordinado: Lídio foi a contragosto de volta a Guapiara para pegar a arma. 

Com muita raiva, mas seguindo ordens superiores, Lídio se pôs em marcha, de volta a Guapiara. No caminho, no entanto, a raiva foi se abrandando e ele foi se distraindo com o que via. Por todo o caminho, via os colonos se preparando para plantar, colocando os arados manuais puxados ora por bois ora por burros para revolver a terra. Assim se sucediam plantações de feijão milho e batata inglesa. Aqui e ali, algumas plantações de café. 

No entanto, Lídio nos conta que a exploração mineral era quem movia a economia da região, com 9 minas em funcionamento. Em seu diário Lídio cita uma mina de ouro e outra de cobre em Apiaí, uma mina de ouro e outra de prata em Gramadinho. Em Guapiara, uma de ferro e outra de cobre. E entre Guapiara e Capão Bonito mais três: uma de “Carvão de ferro”, a mina da Cobrazil, que produzia cobre e era a mais famosa de todas, e uma mina de cálcio, que eles acabaram visitando. 

Nesta mina, foram recebidos pelo engenheiro, que mostrou para eles a mineração e o beneficiamento. Segundo nos conta Lídio, a mina produzia “cal, carbonato de cálcio e sulfato de cálcio”. O engenheiro explicou para eles o processo, os principais tipos de produtos. Lídio anotou tudo o que pode em seu diário, e os rapazes seguiram na estrada. 

Lá pelas 11 horas, quando estavam almoçando embaixo de uma grande arvore, uma chuva os apanhou de surpresa: tentaram achar uma casa, mas não acharam. Chefe Beto gritou: “Cada um por si e Deus por todos!”. Não tinha para onde fugir, e cada um por si virou todos juntos. Acabaram estendendo a lona por cima deles, e ficaram esperando a chuva passar. Quando virou chuvisco, retornaram à estrada. 

Chegaram a Capão Bonito na hora da ave maria, ou seja, as seis da tarde. Os sinos da igreja matriz badalavam na praça rui Barbosa. Os meninos, todos católicos, ficaram emocionados ao ouvirem o som do sino. Contritos, oraram ali mesmo na praça da igreja pedindo saúde e coragem para que pudessem prosseguir na viagem. 

Um fiscal da prefeitura de Capão Bonito os aguardava: foram todos conduzidos a uma pensão ali por perto. A pensão pertencia ao chefe escoteiro local, o chefe Mimi, que os acolheu muito bem. Após um bom banho, os rapazes jantaram ali mesmo na pensão de chefe Mimi. Depois, eles foram fazer uma visita ao prefeito, o Dr. Francisco Neves. Este, segundo Lídio um homem educado e cortês, que atendia a todos com simplicidade, ofereceu aos meninos um modesto coquetel. 

Os escoteiros contaram sua história e a história da sua missão, sendo muito bem recebidos pelo prefeito e pelas pessoas presentes. Todos ficaram admirados com a coragem dos meninos e sua disposição nesta viagem. 

Os meninos ainda foram aos telégrafos, mandar um telegrama para Antonina, informando o pessoal sobre sua posição. Depois, foram ao teatro municipal e ao clube literário de Capão Bonito, onde tiveram uma noite de celebridade. Contaram muitas histórias, deram autógrafos aos rapazes e moças ali presentes. 

E, como ninguém é de ferro, foram numa brincadeira dançante que lhes foi oferecida. Caíram na farra, tendo ido dormir já era quase uma hora da manhã.

sábado, 28 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 16: AS HISTÓRIAS DO DELEGADO


uma rua de Guapiara (SP) em 1940, um ano antes dos escoteiros passarem por ali em sua marcha;
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 28 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão chegando em Guapiara, onde passaram um susto com o delegado da cidade.)

Na manhã de domingo, 28 de dezembro de 1941, os jovens escoteiros foram acordados com um cheiro bom de café. E também com o cheiro bom de uma panela de feijão preto sendo cozido no fogãozinho rústico de Manduca, o cozinheiro da missão.

 O arroz já estava praticamente pronto. Com uma mãozinha do inspetor de quarteirão de Banhado grande, que lhes forneceu alguns mantimentos, eles iam dar uma melhorada no farnel. 

Logo que puderam, despediram-se do Inspetor, arrumaram as tralhas e se puseram na estrada. Tinham 41 quilômetros a percorrer, em direção a Guapiara. Caminharam muito. 

As 12:00 pararam para comer o feijãozinho com arroz, e logo após atravessavam o lugarejo de Fazendinha. Ao final do dia chegaram a Guapiara. Entrando na cidade foram logo procurar o prefeito ou o delegado. O delegado, assim que os viu, não deu muita bola para os rapazes. 

Estes insistiram, e o Chefe Beto contou a história da missão deles. Mostrou também ao velho delegado as carteirinhas de escoteiro e o livro oficial das assinaturas que traziam consigo. Por fim, o delegado chegou a se comover, e abraçou os rapazes, afetuosamente. 

Acolheu os meninos em sua própria residência. Estes deixaram lá suas tralhas, e foram tomar banho no rio pequeno, que atravessa a cidade. Depois, repararam nas ruas limpas e bem cuidadas de Guapiara. Os rapazes se impressionaram com as casas bem pintadas e as praças limpas e ajardinadas. As escolas eram novas, as igrejas bonitas. Tudo era muito limpo e bem cuidado em Guapiara. 

O delegado ofereceu uma janta aos rapazes, onde contou algumas coisas sobre a cidade. Falou sobretudo da gente limpa e ordeira que ali vivia. Não tinha motivos de reclamação. No entanto, a cidade tinha ainda muitos problemas, como uma precária ligação de energia elétrica e total ausência de esgotos. 

A cidade vivia sobretudo da mineração, segundo lhes contou o delegado. Guapiara é uma palavra indígena que significa lavra, buraco no chão para lavrar ouro e outros metais. Havia mais de duzentos anos ali se extraia ouro. Além da mineração, a cidade também tinha uma pecuária de suínos bastante forte. Isso supria os solos da região, que eram muito fracos para a agricultura. 

De estomago cheio e cheios das histórias do delegado, os rapazes foram dormir. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 15: TIROTEIO NO CASAMENTO!!


A Estrada de Apiai para Guapiara hoje. Rite o asfalto, e a paisagem é praticamente a mesma que os escoteiros encontraram em 1941 
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 27 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão saindo de Apiaí. Num lugarejo do meio da estrada, eles levaram um baita susto numa festa de casamento.)

Era sete horas da manhã quando os escoteiros se puseram na estrada, deixando Apiaí para trás em sua jornada. 

Agora eles andavam por uma rodovia movimentada, e não mais numa estrada secundaria no meio do nada. Ao contraio do vale da ribeira no trecho paranaense, o trafego de automóveis e ônibus ali era intenso. Volta e meia passava um carro ou ônibus e levantavam muita poeira, as vezes quase impedindo-os de enxergar claramente a frente. 

A fina poeira do planalto de Apiaí era constantemente sacudida pelos carros da Viação Pássaro Azul e do expresso Paraná/São Paulo. Os ônibus da Viação Cometa também passavam. A poeira e o calor eram muito fortes. Ao meio dia, os rapazes pararam para descansar e comer um pouco. Almoçaram o farnel que traziam, resultado da noite anterior: costela de porco assada, pão e café. 

Durante a caminhada eles continuamente assoviavam canções escoteiras, em geral dobrados que eram executados pela banda dos escoteiros. Iam alegremente a frente, cantando suas canções prediletas. 

Quando as dificuldades e o cansaço surgiam, Lídio nos diz que eles procuravam lembrar-se da 8ª lei do escoteiro: “o escoteiro é alegre e sorri nas dificuldades”. Com estes pensamentos em mente, e ritmados pelo som dos dobrados da sua banda, os meninos atravessaram os morros do planalto de Apiaí durante todo o dia.
Ao final do dia, estavam chegando na povoação de Banhado Grande. Banhado Grande era pequena, com cerca de 9 casas de madeira, bem conservadas. Eles procuraram pouso, e o inspetor de quarteirão os colocou numa velha casa abandonada. Foi um alívio, ter um teto para dormir!

Antes de se acomodarem, porém, os rapazes viram uma cerimonia de casamento celebrado na vila, e que os impressionou a todos. Lídio nos conta que o noivo chegou montado num belo cavalo negro, acompanhado de uma guarda de honra. A seguir, a noiva chegou numa carroça puxada por dois cavalos, toda enfeitada de flores. Atrás da carroça da noiva, vinha outra carroça enfeitada de flores com as damas. As damas estavam todas vestidas de branco, o que fez um belo contraste com as cores da paisagem. 

Na casa do inspetor de quarteirão, onde seria celebrada a cerimonia, estavam aguardando os noivos o juiz de paz e o escrivão de Apiaí. A cerimonia foi celebrada, como de praxe. Na saída da cerimonia, em vez do tradicional arroz, os homens sacaram de seus revólveres e atiraram para o alto, em grande algazarra. Uma barragem de fogos também ocorreu, ensurdecendo a todos. Lídio notou que o foguetório assustou os animais. 

Findo o casamento, o inspetor de quarteirão ofereceu uma janta aos rapazes, que estavam bastante impressionados com a cerimonia que haviam assistido. Durante a a jante, ele perguntou ao Inspetor sobre os caminhos que deveriam seguir nos próximos dias, seus problemas e dificuldades. E também contaram ao homem sobre a viagem e sobre os episódios que viveram até ali. 

De tanto que falou da viagem, Lídio nesta noite teve dificuldade de dormir, lembrando de seus pais e familiares, lá na distante Antonina.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 14: A FESTA DE SÃO BENEDITO!


A Gloriosa Vila de Santo Antonio das Minas de Apiaí, hoje Apiaí, em vista aérea de 1941
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 26 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão em Apiaí, onde presenciaram uma importante festa religiosa.)
Para Alexandre Oliveira, o Alê



Os bravos escoteiros chegaram em Apiaí no dia 26 de dezembro de 1941. Cansados depois de vencer a Serra de Apiaí numa noite, vindos de Capela da Ribeira, eles foram procurar o prefeito municipal. Ao chegar numa cidade, os escoteiros tinham por obrigação procurar as autoridades para assinar o livro que dava conta da passagem deles pelo local. 

No entanto, o prefeito de Apiaí, o Senhor Isaias Teixeira, acabou por fugir dos meninos. Estes o viram quando ele entrou em sua casa, em companhia de outro homem. No entanto, ao baterem na porta, informaram que ele não estava. Tudo Isso, segundo Lídio, porque o prefeito receou que eles fossem mendigar estadia no seu hotel, o Hotel Teixeira, o melhor hotel da cidade. “Isso nunca será esquecido por nós”, anotou Lídio em seu diário. 

Por fim, os rapazes acabaram por montar barraca numa clareira perto da cidade. Haviam decidido não caminhar mais aquele dia, pois estavam todos cansados com assaduras nas pernas. O local onde acamparam era num terreno onde havia um hospital em construção. Ali colocaram as lonas e se abrigaram do sol inclemente.

 Apiaí está localizada a mais de mil metros de altitude, num topo de morro, com uma avenida principal serpenteando pela cumeeira. Descendo desta avenida estão as ruas centrais onde estão as casas das pessoas mais ricas do lugar. Nos vales mais abaixo se encontram as casas mais simples, das pessoas mais pobres. Lídio anota que cerca de 70% das pessoas em Apiaí eram negros, provavelmente descendentes dos que trabalharam como escravos nas ricas Minas de Apiaí, que tanto fizeram a fama da cidade. 

Apiaí tinha funcionando próxima da cidade a Mina do Morro, uma das mais importantes minas de ouro do vale do Ribeira. Explorada por uma empresa japonesa, a mina estava escavando galerias e tirando o ouro por métodos modernos de extração para a época. A exploração foi interrompida quando o Brasil declarou guerra aos países do eixo, poucos meses depois da passagem dos escoteiros por Apiaí. A área da Mina do Morro hoje em dia é um parque bem próximo da cidade, com intensa visitação. 

Do outro lado da cidade, a Usina Experimental de Chumbo, no bairro do Palmital, havia iniciado naquele mesmo ano de 1041 sua produção. Construída pelo governo paulista com a administração do IPT, a usina também era uma aposta do governo paulista na exploração de chumbo e prata por técnicas mais modernas e baratas, viabilizando a produção das pequenas minas da região. Fechada durante a guerra, a usina nunca mais funcionou. 

No dia em que os rapazes por lá chegaram, a população negra de Apiaí estava em festa, pois era dia de São Benedito. Os rapazes, depois de um descanso, fizeram uma janta composta por costela de porco assada, pão e café de coador. Depois que o sol baixou, as cinco da tarde, eles foram à cidade para apreciar a festa. 

A procissão, composta quase que totalmente por negros, era bastante impressionante. A confraria de São Benedito, carregava a estátua do santo pelas ruas, ao som de cânticos, seguida por uma multidão. Os membros da confraria, responsáveis pelo andor, vestiam uma túnica branca e portavam tocheiros com vela. 

Depois da procissão, já cansados, os rapazes voltaram ao seu acampamento improvisado nas obras do hospital, onde dormiram um sono pesado.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 13: SUBINDO A SERRA DE APIAÍ


Vista aérea da Cidade de Ribeira, 1941
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 25 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca), depois de passar o Natal em Capela da Ribeira, primeira cidade paulista do trajeto, estão tentando vencer os agrestes da Serra de Apiaí. Será que eles conseguirão passar?)

Depois da grande festa do Natal, os escoteiros acabaram por acordar tarde. Iam acordando uns aos outros, sonolentos, ainda com um pouco de ressaca da festa. Lídio conta que tomou café com maisena e uns doces que haviam sobrado da ceia. Irrequieto, foi passear. 

Na cidade, o jovem escoteiro ficou abismado com os buracos de balas de fuzil e metralhadora ainda visíveis na pequena igreja matriz de Capela da Ribeira. Ainda eram resquícios dos enfrentamentos durante a Revolução constitucionalista de 1932, ainda presente nove anos depois. “Nem a casa de Deus eles respeitaram”, anotou depois em seu diário. 

Pouco depois, ele fez o caminho de volta e foi até o posto fiscal de Paranaí, hoje conhecida como Adrianópolis. Lá, não encontrou os fiscais com quem haviam feito camaradagem no dia anterior. E voltou à Capela da Ribeira. 

Naquele tempo as duas cidades eram pequenas, e o surto industrial e mineiro estava ainda começando. Restritas pelo vale do rio Ribeira e pelos morros íngremes formados por rochas muito antigas, as duas cidades eram uma só. As casas eram construídas ao longo do único caminho possível. Somente onde o rio havia deixado algum terreno plano é que as duas cidades se espraiavam, ainda que pouco. 

Lídio conta que os habitantes nunca haviam visto um escoteiro. E ainda mais aqueles, de uniformes e seguindo rumo a uma importante missão. Todos ficaram impressionados. As mocinhas, ainda mais. 

Lídio nos conta de Iolanda, filha do padeiro, por quem teve seus sentimentos e que, por fim, deixou saudades. Manduca então reclamou que Lídio tinha “imã” para as mulheres. Lídio então brincou e disse que era porque Manduca tinha cabelo feio. Milton, mais lacônico, acompanhava a conversa rindo ora de um, ora de outro. 

Durante a tarde, os rapazes não fizeram nada. Ou melhor, fizeram. Foram para o rio tomar banho e amenizar o calor. Diversos outros rapazes e moças da cidade (mais moças que rapazes, segundo anotou Lídio) também ficaram lá com eles na pequena praia de rio. O tempo passou e eles nem sentiram. 

Os rapazes se despediram de Capela da Ribeira, onde tiveram acolhimento tão bom, e seguiram viagem. Saíram as oito da noite para uma caminhada noturna subindo a serra de Apiaí. 

Todos eles haviam participado já de caminhadas nestas condições. A Patrulha Touro dos escoteiros de Antonina havia participado de diversas corridas do facho e subidas pela Serra da Graciosa. Pela sua experiencia e resiliência é que foram os escolhidos para a missão. 

Entretanto, a serra de Apiaí não era um desafio fácil. Pedregosa, coma estrada precária, a progressão era lenta. Apesar de estar mais fresco, a escuridão era total, e os meninos foram seguindo a trilha em fila indiana, com o auxilio de lanternas. Depois de cerca de cinco horas de intensa caminhada serra acima, encontraram um pequeno casebre abandonado na beira da estrada.
Exaustos, decidiram passar ali a noite. 

Acordaram as cinco da manhã. A claridade fazia ver as rochas esparsas no alto da serra, assim como a floresta cerrada. Um espesso nevoeiro cobra os vales. Os rapazes ouviram um barulho de água ali por perto. Era um regato que cruzava a serra e fazia um barulho da água passando por entre as pedras. No entanto, o acesso até ele era difícil, pois o regato corria alojado numa ravina bastante funda, de acesso difícil. 

No entanto, obstinados em tomar um café, os rapazes se aventuraram a descer a barroca para pegar água e trazer lenha para a fogueira. Todos, menos Milton. Ele fora poupado, pois a caminhada noturna havia produzido uma enorme assadura em suas virilhas. 

As sete da manhã, depois do café, os rapazes voltaram à trilha. O sol alto ia castigando-os todos. Lidio conta que as pernas estavam todas arranhadas pelo capim corta-rapaz, e o sol fazia os arranhões queimar e coçar. 

Somente lá pelas onze horas da manhã que eles finalmente chegaram à vila de Apiai, novo trecho da jornada.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

A MARCHA DOS ESCOTEIROS 12: UM NATAL NA CAPELA


A atual cidade de Ribeira (SP), antiga Capela da Ribeira, onde os escoteiros passaram o Natal de 1941
(Estamos no mês de dezembro de 1941. Enquanto o mundo está em Guerra e o Brasil segue sob a Ditadura do Estado Novo, cinco escoteiros de Antonina (PR), entre 15 e 18 anos, estão desde 16 de dezembro de 1941 numa marcha a pé rumo ao Rio de Janeiro para entregar uma mensagem para Getúlio Vargas. No episódio de hoje, 24 de dezembro de 1941, Beto, Milton, Lydio, Antônio (Canário) e Manoel (Manduca) estão chegando à Capela do Ribeira, primeira cidade paulista do trajeto, onde eles passariam o Natal.)

Os escoteiros acordaram cedo naquela véspera de natal. Era o natal de 1941. Um natal triste para muita gente em muitos lugares do planeta. A guerra seguia feroz na Europa. 

Os soviéticos lutavam desesperadamente para manter Moscou e Leningrado, ameaçadas pelas tropas do Eixo. Na África, a luta era por Bengazi, na Líbia. No entanto, era na Ásia que a guerra estava mais violenta. Os americanos eram batidos nas Filipinas e os ingleses lutavam desesperadamente para manter Hong Kong frente ao avanço japonês. 

Os meninos deixaram Epitácio Pessoa as 7 horas da manhã, agradecendo o pouso e a boa acolhida na vila. Agora desciam a estrada margeando o rio Grande rumo à Barra Grande, onde encontrariam o majestoso rio Ribeira de Iguape. Dali, era só seguir para Adrianópolis e cruzar a ponte que já estariam em São Paulo, etapa seguinte da marcha. 

No caminho Lídio notou maravilhado os inúmeros monjolos que iam encontrando no caminho. Anotou que estes moinhos rústicos eram muito uteis naquelas paragens distantes, onde não havia energia elétrica ainda. E notava o movimento do soque com uma certa nostalgia: “um sobe e desce sem parar, um barulho gostoso de se ouvir”. 

Os meninos chegaram na localidade de Descampado ao final da manhã. Lá, tiveram um contratempo, pois ninguém ali quis vender comida para eles. Nem um pãozinho. Fosse porque não tinham, fosse porque não queriam vender nada aos forasteiros, os rapazes tiveram que se contentar em comer biju com chimarrão. 

Lídio anotou que, apesar de desnutridos, continuaram a caminhada sem queixas ou lamentações. Segundo ele, haviam perdido 6 quilos cada um nesta primeira etapa da viagem. E a tendência era perder ainda mais. 

A viagem pela “estrada provisória” seguiu até Barra Grande, onde encontraram o Ribeira. Em dezembro, o rio está barrento por causa da estação das chuvas. Somente algumas pedras eram visíveis ao longo do rio. 

Cercado por morros bastante íngremes e com uma vegetação em diferentes tons de verde, os rapazes finalmente avistaram a rodovia federal, que chegava até Paranaí, a atual Adrianópolis. Antes de cruzar a ponte de concreto que ligava Adrianópolis a Capela da Ribeira – hoje o município paulista de Ribeira – os rapazes tomaram um chimarrão com os fiscais estaduais e federais no lado paranaense da ponte. E só depois cruzaram o rio. 

A ponte sobre o Ribeira é uma luta eterna das duas comunidades. Esta que os meninos cruzaram foi a primeira ponte de concreto. O rio Ribeira, cheio de energia, não está nem aí para as pontes, e já derrubou todas elas. A atual ponte de concreto, a mais alta e reforçada de todas, foi construída em 1998-99, depois de ter sido destruída por uma forte cheia.

No lado paranaense, Lídio anotou, cheio de certa nostalgia, que havia do lado paranaense um grande outdoor onde estava escrito: “Paraná, terra dos pinheirais”. 

Ao fim da tarde, na cidade de Ribeira, os rapazes procuraram as autoridades locais. Encontraram o secretário da prefeitura. Este avisou que ali não havia pensão suficiente para abriga-los todos, e o prefeito estava viajando. No entanto, o secretario lhes ofereceu sua própria casa.  

Depois de tomar banho no Ribeira e colocarem os uniformes “de gala”, os meninos foram para a praça principal, onde fizeram uma rápida reunião. Nesta reunião eles decidiram os próximos passos rumo a capital São Paulo, próxima etapa da viagem.  E decidiram enviar um telegrama para Antonina, para avisar que estavam todos bem. 

Qual não foi o espanto dos rapazes ao descobrir que haviam dois telegramas esperando por eles, datados de dois dias antes: um da prefeitura municipal, avisando da presença dos escoteiros por ali. O outro telegrama era do chefe Picanço, pedindo para que o Chefe Beto entrasse em contato com ele, pois todos estavam ansiosos por notícias. Era o primeiro contato que tiveram desde que haviam saído de antonina, oito dias antes. 

Os escoteiros mandaram orgulhosos um telegrama: “Capella da Ribeira 24 dezembro 1941: chegamos hoje bons vencemos primeira etapa continuamos amanhã noite – Sempre Alerta! Beto Milton Lidio Manoel Antonio”. 

Os rapazes ainda cheios de energia alugaram umas bicicletas e foram passear, menos o chefe beto e Canário, que ficaram no banco da praça descansando. Lídio ainda teve tempo de mandar cartas para a família e amigos. Também foi á alfaiataria do Elpidio. Ele ainda mandou costurar suas calças descosturadas na entreperna, além de consertar um sem-número de botões da roupa dos demais.
Houve um apagão de energia elétrica, que durou até as nove da noite. A energia vinha de Apiaí, e demorou a ser reparada. Que inconveniente conveniente! Enquanto isso, os rapazes ficaram na praça escura e até arrumaram umas namoradas. 

Depois, à meia noite, os rapazes assistiram a missa do Galo em Capela da Ribeira, ministrada pelo padre de Apiaí. Lídio aproveitou seu curriculum de coroinha e ajudou o padre, junto com uma menina que era Filha de Maria. Foi um comentário só na igreja um coroinha vestido de escoteiro!

Depois, os rapazes participaram da ceia na casa do secretario municipal, onde estavam alojados. Foram servidas gasosa, soda limonada e vinho, além de um grande bolo com motivos natalinos. 

Já era quase duas da manhã quando todos, exaustos, foram dormir. Dingobells!